Iniciara-se o julgamento de Cláudia. Encontrava-se sozinha nessa batalha judicial, uma vez que o seu comparsa Quiose se tinha suicidado e há muito que o seu funeral se tinha realizado sem a presença de qualquer dos membros da família presentes, nem mesmo os seus filhos. Sua mulher, a viúva Maria Smith que, apesar de o marido se encontrar tantos anos encarcerado na prisão, sempre se manteve fiel ao seu casamento, muito embora não mantivesse com o malogrado assassino qualquer relação pessoal ou afetiva desde que ele foi preso. Maria decidiu mandar cremar o corpo de Quiose, não porque ele tivesse pedido, mas porque nem o cemitério nem a mãe terra mereciam que os restos bactericidas daquele corpo cheio de pecado e ódio a contaminassem com os seus restos mortais. Assim, mal por mal, umas gramas de cinza dentro de uma caixa bem fechada e selada, para que nem sequer o seu maléfico espírito um dia de lá conseguissem sair.
Lúcia não faltava a uma audiência. Ia acompanhada habitualmente por Amélia, de quem se tinha tornado bastante amiga e confidente. A sua imagem havia-se transformado bastante com a doença: apresentava uma pele acinzentada e descolorida e os seus olhos fundos e de escuras olheiras, que mal conseguia disfarçar com alguma maquilhagem, a par do seu permanente lenço na cabeça que disfarçava a nudez do seu crânio sem os seus lindos cabelos, que entregara em troca dos tratamentos de quimioterapia que continuavam a ser-lhe administrados. Amélia enamorou-se por Delmiro e ambos mantinham uma relação cordial e engraçada. Tinha deixado o restaurante, para se dedicar a ajudar o seu namorado tanto no escritório, como em casa, uma vez que a solicitação dos seus serviços por parte de clientes era cada vez maior, devido ao sucesso das suas ações de investigação e aos processos judiciais bem estruturados e defendidos. Neste processo, Delmiro assumia o papel da Acusação, defendendo por parte dos queixosos, os seus amigos da família Alfonso, não só a condenação da ré à pena máxima por autoria de homicídio (premeditado, portanto), assim como à tentativa de extorsão de bens da família, nomeadamente os imobiliários e mobiliários, uma vez que o negócio em si – das casas de alterne – não era legal, porém encontravam-se estabelecidos como negócios na atividade económica de “Bar/Pub/Clube Noturno”.
Por essa altura, o Padre Pedro tinha sido suspenso das suas funções eclesiais enquanto a própria Igreja Católica não terminasse o inquérito mandado instaurar pelo Bispo da Diocese, com vista ao apuramento de toda a verdade no que diria respeito à sua situação de parentalidade biológica de André do Cruval Alfonso. Tudo estava mais do que provado e o próprio Padre Pedro, tinha assumido total responsabilidade pelo facto; no entanto, o Direito Canónico da Igreja Católica obrigava a que tal procedimento burocrático tivesse lugar. Como prova ainda maior da sua inequívoca vocação sacerdotal, Pedro solicitou, após o inquérito, a sua ingressão nas equipas missionárias destinadas a ajudar populações africanas e asiáticas onde houvesse pobreza e sede, não só de pão, mas também de Deus e das coisas do Alto. O Missionário Padre Pedro partiu assim rumo a tais paragens, por sentir o apelo da humildade e das necessidades daqueles que mais sofrem em civilizações com menor capacidade económica. Assim, estaria também mais longe de todos os problemas que o ligavam ao ato inconsciente praticado na adolescência e que lhe vincou a sua vida para sempre. Não partiu sem antes falar com a sua irmã Amélia, à qual pediu perdão por não lhe ter dado a oportunidade de ser devidamente ouvida, quando esta tentou contar a verdade ao seu irmão. Não partiu também sem que antes conhecesse o seu filho biológico André, trocar contactos com ele e mostrar-se sempre disponível, principalmente para situações de caráter religioso ou teológico. Falou ainda com o casal Lúcia e Henrique, aos quais saudou pela sua generosidade em terem adotado aquele menino e lhe terem vindo a proporcionar uma tão admirável vivência. Pedro não ficaria em paz com a sua consciência se não tivesse estas atitudes de perdão, por um lado e de aproximação, por outro. Partia assim para terras distantes, munido de um espírito renovado e certo de que os seus atos menos pensados do passado, não podendo ser apagados, porque não tinha a hipótese de percorrer o seu caminho em sentido contrário, mas abrira um novo caminho para si, dando-se aos outros e à causa da evangelização do seu Deus e da caridade para com aqueles que mais necessitavam da generosidade do seu coração.
Alegação contra alegação, Delmiro lá conseguiu a quase totalidade dos seus intentos naquele rápido julgamento de apenas uma semana e meia. Cláudia tinha sido condenada a dezoito anos de pena de prisão e os bens devolvidos à gestão da família Alfonso. Foi condenada ainda a pagar uma choruda indemnização à família, pela usurpação temporária de tais bens e seus benefícios financeiros.
Henrique, após ouvir as opiniões da família, decidiu transformar as antigas casas de alterne em instalações de caráter hoteleiro (as de maiores dimensões), nomeadamente em conceitos “low cost”: hostéis; e as de menores dimensões aproveitou-as para criar um novo conceito de restauração, com a utilização de apenas uma marca: “A Casa Alfonso”, nas quais se cozinhavam pratos tipicamente tradicionais, mas com toques de alguma inovação gastronómica. No total, iriam existir cinco hostéis e sete restaurantes. Agora, tomada a decisão, haveria que passar à ação: realização de obras de ajustamento, de conservação e, em alguns casos, quase reconstruções de raiz. Porém, o Grupo empresarial não estava neste momento a disponibilizar capitais suficientes para financiar tais operações de refundação. Os lucros mais interessantes vinham do outro lado do Atlântico, das empresas que ainda existiam no Brasil e das quais Henrique não se queria desfazer. Assim, decidiu, em conjunto com a família, abdicar do maior hotel do grupo, aquele onde trabalhavam mais pessoas e onde, ele próprio e a família, assentavam sede. Em poucas semanas, outro grupo hoteleiro importante no mercado se interessou pelo negócio e foram ajustados todos os pormenores. As tranches de pagamento acordadas iriam servir única e exclusivamente para financiar as obras das unidades a alterar e recuperar.
O plano de recuperação das restantes unidades, construído através das sugestões dos gestores das mesmas, de Filipe e do próprio Henrique, já se encontrava em implementação e, certamente, com o sacrifício e disponibilidade de todos, em poucos anos, o Grupo Empresarial iria recuperar a sua pujança de outrora, apesar das sucessivas crises nacionais e internacionais e da maior e mais agressiva concorrência. Com a venda da maior unidade hoteleira, o Grupo perdeu a liderança no setor a nível nacional, porém, isso não era o mais importante, uma vez que as novas unidades a reabrir poderiam trazer mais valias importantes. Henrique e Filipe, conseguiram que ninguém dos seus trabalhadores fosse convidado a sair das empresas em fase de reestruturação, uma vez que a todos foi prometido emprego nas novas instalações a abrir. Mesmo que alguns tivessem que passar temporariamente pelo desemprego ou pela inatividade, a palavra de Henrique e de Filipe seria cumprida na sua totalidade, merecendo assim, da parte dos seus assalariados, motivos de confiança e lealdade.