Henrique convocou a família, os empregados e o amigo advogado, para uma conversa ao serão, no Arvorete, com a intenção de falarem acerca dos dados e informações já recolhidos e conhecidas. Era necessário informar todos acerca de tudo aquilo que se estava a passar, antes que viessem a saber de alguma coisa por outras fontes e também antes de André voltar para os Estados Unidos, que cuja partida estaria muito próxima.
Delmiro tinha muito trabalho para fazer: tentar encontrar a família que adotara o menino Paulo, filho de Carla e Henrique. Pelo menos, Henrique já sabia que nome tinha sido dado ao seu filho. Era também importante conhecer o Padre Pedro, quarto filho da mãe da Carla e tentar perceber qual o seu envolvimento e relação com as irmãs conhecidas por ele, a Freira e a Amélia. Era intrigante para o investigador o facto de Pedro e Amélia terem um relacionamento tão íntimo em adolescentes e de repente e sem mais explicações, Amélia ter procurado sair apressadamente do Convento, sem ter dado quaisquer informações. Nos próximos dias, o corpo de António Alfonso iria ser exumado e eventualmente, vir a responder a algumas das dúvidas da polícia, devido ao seu assassinato. Após tudo isto, a focalização deveria ser a de entrevistar todos os gerentes das casas de alterne das quais o ancião era proprietário, com dois objetivos: primeiro, negociar com eles um eventual abandono dessas casas por parte da família, uma vez que Henrique e a família, após terem conhecimento dos factos, decidiram que essas casas não deveriam ficar na família, principalmente por razões éticas, de consciência, de religião e de conceito de vida; em segundo lugar, perceber através dessas conversas, se poderão existir alguns suspeitos de envolvimento no assassinato de António.
Um pouco longe de todos estes problemas nos quais não pretendem envolver-se, Lúcia, Filipe, Mary Smith e os filhos continuam nas suas medianas e algo monótonas vidas com pouco interesse de narração. André deseja o quanto antes regressar aos Estados Unidos para finalizar o seu ano escolar, uma vez que o espera um verão cheio de concertos, um pouco por toda a América, que irá visitar de lés a lés para orientar orquestra. Os últimos ensaios coincidem com os últimos exames e provas de interpretação do ano, por isso, há muito trabalho a realizar e não há que se dispersar.
Toda a família ficou indignada quando souberam do assassinato do senhor António, principalmente Gonçalves e Albertina, que o conhecem praticamente desde a infância e do qual sempre receberam um tratamento e estima consideráveis, retribuindo com serviços de excelência, o máximo respeito e inabalável lealdade.
Como não havia muito tempo a perder, era necessário usufruir de uma boa noite de sono e descanso, para que o dia seguinte seja um dia produtivo e vivido com entusiasmo. Assim, todos recolheram aos seus aposentos, sendo que Delmiro era o mais distante estava do seu. Como habitualmente, iria antes de se recolher, anotar na sua agenda os caminhos que iria ter que percorrer no dia seguinte, programando da forma que achava mais conveniente e eficiente a sua jornada.
No dia seguinte, acordou cedo, para que, ao efetuar a sua higiene pessoal e tomar o pequeno almoço, colocasse ainda algumas ideias no lugar e alinhar na sua mente os discursos que iria adotar para abordar as pessoas a contactar. Na sua lista encontrava-se, em primeiro lugar, a família de Paulo. Seria a primeira porta onde iria bater, na morada fornecida pela madre. Não era muito longe da sua casa, sensivelmente uns 25 quilómetros. Após algum trânsito que o fez demorar, chegou ao destino que pensava ser o correto e encontrou o nome da rua, seguindo com um olho na estrada e outro nos números das portas, que se seguiam por ordem decrescente. A poucos metros do seu destino, avistou o número pretendido, aproximou-se um pouco mais e estacionou. Ao parar e olhar a casa, avistou uma tabuleta que anunciava algo. Saiu do carro e foi ver do que se tratava. Era uma pequena moradia, isolada com um pequeno jardim "à americana!. Notava-se que aquele pequeno jardim não recebia os tratos de alguém havia algum tempo. A placa informava o contacto de um agente imobiliário, que pretendia vender o imóvel. Uma vez que conseguia circular em redor da casa, tirou algumas fotos e observou as condições em que estava. Nas traseiras, encontrava-se uma janela não coberta de papel no seu interior ao contrário de todas as outras, por onde pôde observar que a casa se encontrava desprovida de móveis e nela não habitava qualquer vida. Verificou que, no chão, se encontravam alguns restos de papéis rasgados e agachou-se para lhe pegar e os observar. Num dos quadradinhos rasgados, pôde perceber que se tratava de uma parte de uma fatura de telefone e que, por sorte, conseguia entender-se quase perfeitamente o número, "Vou guardar isto, porque poderá fazer falta", pensou. Verificou o caixote do lixo lixo que se encontrava no exterior, que apenas apresentava alguns restos insignificantes deixados por transeuntes. Olhou em redor, na expectativa de encontrar sinais de alguém dentro de alguma das casas vizinhas. Parecendo-lhe que uma delas mostrava algum movimento, dirigiu-se até lá e bateu à porta.
- Bom dia, minha senhor, peço desculpa por estar a incomodar tão cedo. Eu sou advogado e investigador e pretendia falar com a família que morava naquela casa - e apontou - mas ao que parece, já ninguém lá vive.
- Bom dia senhor, não incomoda. Olhe, aquela família (Lopes) saiu do bairro sensivelmente há 6 meses ou mais. Era um casal triste e sozinho: tinham uma filha deficiente, que se movimenta apenas em cadeira de rodas. Eram muito reservados, mal cumprimentavam os vizinhos e não mantinham relações com quase ninguém aqui no bairro. Provavelmente, foram morar para algum local onde pudessem estar próximo de alguma instituição onde tratassem das pessoas diminuídas.
- Sabe qual é, minha senhora? Será que alguém pode ter a morada desta família?
- Não sei, mas tente encontrar o carteiro, uma vez que poderão tê-lo informado acerca da sua mudança, ou então no café aqui ao fundo da rua. Muitas vezes as pessoas deixam lá recados. - disse a senhora.
- É isso que vou fazer. Mas... diga-me outra coisa: o casal não tinha também um filho, já que apenas de falou de uma menina?
- Nunca conheci outro filho ao casal, apenas a menina. Tem a certeza que tinham outro filho?
- Em princípio sim e segundo as minhas informações, teriam um filho que, por esta altura, teria cerca de de vinte e seis, vinte e sete anos.
- Impossível, doutor, essa família morou aqui mais de vinte anos, não sei ao certo, talvez muito mais e nunca ninguém por aqui o viu...
- Minha senhora, obrigado pelas suas informações, foi muito útil.
- De nada! Boa sorte para a sua investigação!
- Obrigado. Deixo aqui um cartão meu, para poder contactar-me no caso de se recordar de mais alguma informação que ache importante.
Delmiro saiu dali e mesmo a pé, dirigiu-se ao café. Naquele local, confirmou a história que a velha senhora já lhe tinha comunicado. Foi também aconselhado a contactar com o carteiro ou com a estação dos correios, no sentido de tentar saber a nova morada daquela família. Foi isso mesmo que fez. Na pequena estação dos correios, a única funcionária estava renitente em fornecer-lhe aquelas informações, mas o advogado alegou que necessitava com urgência de enviar uma carta com uma notificação muito importante à família e desconhecia o seu paradeiro. Atendendo a este argumento, a senhora cedeu, informando que a família deixou um pedido de reencaminhamento de correspondência que lhe fosse endereçada e indicou-lha. Delmiro tentou ir um pouco mais longe, perguntando à senhora se ela também residia naquele povoado, se conhecia a família e se existia algum rapaz. A senhora confirmou as versões já ouvidas anteriormente.
Apressadamente, dirigiu-se à morada indicada nos correios. Se grande dificuldade, conseguiu chegar ao local desejado. A teoria da ex-vizinha da família tinha razão na sua teoria, quando afirmou que poderiam ter-se mudado para um local perto da instituição que os auxiliava com a sua filha inválida. Bateu à porta e alguém demorou a responder, para dizer "Vou já!". Delmiro aguardou pacientemente por fora, mas impaciente por dentro. Ao abrir a porta, era uma senhora. Delmiro identificou-se e disse ao que vinha. A senhora mandou-o entrar. Mandou-se sentar-se num dos sofás da sala e ausentou-se, dizendo "Venho já!". Dai a pouco, trouxe um chá para ambos e uns biscoitos. Ele pensou "Parece que tenho cara de chá com bolinhos... ninguém me traz uma cerveja com tremoços ou amendoins...". A senhora chama-se Laura e não trabalha, o marido é que sim. É doméstica e a sua principal missão, além de cuidar da casa é também de cuidar da sua filha de vinte e poucos anos, que nasceu com uma doença degenerativa que a torna paraplégica. Confirmou a razão da mudança de casa, somando ainda o facto de o marido se encontrar mais perto do trabalho e a família mais perto da Igreja da paróquia onde gostam de participar e nos serviços religiosos. Quanto ao menino...
- Mantivemos o nome de Paulo que as irmãs lhe tinham atribuído. Ficámos com ele aos 6 meses e ele esteve connosco outros seis meses. A morte súbita visitou o meu anjinho. Um dia, quando o ia acordar - era domingo - para lhe dar banho, vesti-lo, para irmos à missa, ele já não tinha vida. O seu corpo ainda estava quente. Foi o maior desgosto da minha vida. Naqueles seis meses, fui a mãe mais feliz do mundo. Depois de termos conhecimento da nossa infertilidade, ele era o único elo que me ligava à felicidade. - Delmiro estranhava aquela conversa da senhora, parecia-lhe uma pessoa perturbada ou depressiva. - Não faça essa cara de espanto! Foi um erro da medicina, porque afinal não éramos de facto inférteis, apenas tínhamos problemas de fecundação, porque poucos anos mais tarde, vim a ficar grávida da minha filha, todavia, com todos os seus problemas... Antigamente a ciência ainda estava pouco avançada e cometiam-se muitos lapsos ou erros que hoje seriam impossíveis. - Depois de toda esta narrativa, a senhora calou-se e um silêncio sepulcral apoderou-se do espaço que os dividia. Delmiro começou a sentir-se mal por nada dizer, mas também não sabia o que havia de dizer, mediante tamanha tormenta a daquela mulher.
- Lamento imenso, minha senhora! - Foi o que de repente lhe ocorreu.
- Não lamente, cada um tem que levar a sua cruz até ao Calvário, no entanto, para uns o Calvário é menos longe e difícil de alcançar do que para outros.
- Bem, gostaria de agradecer a sua abertura a ter falado tudo isso comigo, cuja recordação com certeza que não foi fácil. Assim, já tenho um dos casos encerrados, por sinal um dos mais importantes. Melhor saúde e melhor sorte para vós! - E, retirando-se, deixou ainda um cartão seu para alguma eventualidade, que a senhora agradeceu.
A manhã estava ser produtiva. Delmiro tinha um dos seus casos pendentes solucionados. Chegara a hora do almoço, por isso, Delmiro ligou ao Henrique antes, que o convidou a almoçar consigo no hotel acompanhados de Lúcia.
Durante o almoço, Delmiro narrou todo o seu percurso dessa manhã ao casal. De uma forma entusiasmada o fez, uma vez que ele se sente bastante realizado e motivado com a investigação, muito mais do que com a advocacia. Lúcia e Henrique, Deus os perdoe, suspiraram de alívio com a notícia de que o filho mais velho dele - que o seria, se estivesse vivo - afinal já não existia. Em termos sociais, era menos um problema que teriam de enfrentar, que teria de explicar à restante família, jornalistas e outros mais. De facto, era menos um ser à face da terra, um ser que afinal tinha sido gerado contra a vontade de ambos os progenitores. Talvez por isto diz o sábio povo que "Deus escreve direito por linhas tortas". Por outro lado, era menos um herdeiro, ainda mais ilegítimo, com o qual a família teria que dividir o esforço e trabalho das suas vidas. E por fim, era menos um vínculo que deixava de os unir a pessoas com vidas complicadas e fora da norma com que a sociedade olha os seus membros. De onde menos se poderia esperar - o casal exemplo desta sociedade de classes e de interesses - vinham agora estes ocultos pensamentos oriundos das suas cabeças que, afinal, não eram assim tão puras, humildes e inocentes como até aqui parecia. Também como enuncia outro dito sábio do povo "no melhor pano cai a nódoa". Estes provérbios populares têm na verdade, um espantoso vínculo de assertividade. Sem fazerem qualquer comentário frente a Delmiro, porque sabiam que o seu pensamento impressionantemente em uníssono, não teriam eco no escrupuloso e perfecionista advogado.
- Lamento muito, Delmiro, porém o teu trabalho teve para já algum resultado, obrigado! - Balbuciava Henrique, hipocritamente.
- Concordo, agora que já resolvemos este problema, vamos tentar os outros. - Respondeu Lúcia, que mesmo assim disfarçava um pouco menos o seu simulado contentamento.
- Agora, vou tentar falar com o Senhor Padre Pedro e tentar descobrir onde se encontra a sua irmã Amélia. - O casal desejou-lhe um bom trabalho, enquanto voltavam também para o seu.
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Nessa manhã, Henrique tinha recebido no seu gabinete os relatórios financeiros trimestrais das empresas e confrontou-se, pela primeira vez desde que se encontra de regresso a Portugal, de um período de inversão da tendência habitualmente crescente dos resultados nas unidades hoteleiras, quando comparados com períodos homólogos. Nas indústrias, pela primeira vez, a produção tinha sido obrigada a desacelerar, uma vez que abrandavam as encomendas, principalmente as vindas do exterior. As exportações tinham diminuído, os estoques estavam encontravam-se no máximo e os armazéns cheios. Estes eram assuntos que traziam a Henrique preocupações adicionais com as quais nunca se tinha ainda confrontado na sua carreira de administrador. O arrefecimento da economia mundial, especialmente a europeia era a principal razão para esta situação - pensava Henrique - juntamente com a concorrência que surgia dos mercados de leste em pleno crescimento, assim como a China.