André jazia praticamente inerte no leito hospitalar onde tinha sido internado após lhe ter sido diagnosticada uma forma bastante avançada de esquizofrenia. Nada do que poderia ser observado na sua maneira de viver era prejudicial para alguém. Nenhuma atitude de agressão a pessoas, objetos ou animais, nenhuma ação que o prejudicasse fisicamente a si próprio. Porém, foi sendo notado e denunciado por muitos, que certas decisões que tomava ao nível empresarial e até pessoal denotavam essa tendência. Demonstrava, após observação, que mantinha várias personalidades, não sendo bipolar, mas multipolar. Era uma pessoa diferente consoante o seu interlocutor. Diversas decisões empresariais começaram a ser identificadas como não congruentes e muitas vezes até antagónicas: em situações idênticas, foram por ele tomadas decisões opostas. Por várias vezes, foi avistado a falar com alguém invisível às outras pessoas. No dia em que foi internado, tinha sido encontrado a caminhar pela rua a meio da noite, vestido de forma esquisita – pijama, casaco de fato e os dois sapatos de modelos diferentes. Levava numa das mãos uma mala de negócios e noutra uma lanterna. Alguns vizinhos alertaram a família, que imediatamente o socorreu e, já se conhecendo alguns episódios, o internamento foi mais fácil.
Ao ser internado, André tem sido submetido a um tratamento inicialmente baseado na observação. A sua capacidade física foi reduzida através de fármacos que produzam esse efeito, mas mantendo as suas capacidades mentais completamente naturais.
Começou a ser observado que André passava os seus dias a falar. Então, a sua família, informada acerca dessa situação e também após muitos dos familiares que o visitavam observarem precisamente essa atitude, pediu autorização para montar um sistema de gravação de vídeo e áudio no quarto onde está internado. Através dessas gravações, a família ficou a conhecer todas as estórias e experiências de vida narradas na primeira pessoa, nos episódios deste livro.
Após o primeiro Testamento desta família, que se seguiu à morte de Joaquim do Cruval e do segundo Testamento, conhecido a seguir à morte de António Alfonso, ambos avôs de André, eis que o terceiro Testamento nos aparece apenas como um testemunho de vida. Este testemunho trata-se da narração da vida e a forma de pensar e agir daquele que começou por ser no início do primeiro livro, como a personagem principal desta estória, mas que apenas neste terceiro livro consegue finalmente o seu protagonismo. Beneficiário de uma vida que começou por ser de sofrimento e de abandono, a sorte sorriu e acompanhou esse menino e nunca mais o abandonou até se tornar homem, até que, já após a sua meia idade ultrapassada e muitos desafios superados, lhe ter sido diagnosticada esta doença psiquiátrica. Doença que não o impediu de continuar a possuir uma lucidez invejável e um raciocínio lógico pouco vulgar. O problema é que, nesta fase da sua vida, tudo era de esperar da sua parte, uma vez que, apesar da sua extrema inteligência, as suas atitudes e principalmente raciocínios eram agora extremamente inesperados e por vezes não congruentes. As narrações feitas neste livro foram, porém, analisadas por especialistas e tidas como verdadeiras e possíveis, atendendo ao percurso da sua vida. A família decidiu assim perpetuar essas narrações gravando-as e considerando-as como o seu derradeiro testamento. Na altura em que falava, contando todas estas estórias, experiências, pensamentos e sentimentos, André fazia-o a uma personagem por ele próprio idealizada e que a sua doença lhe permitia que existisse. Essa personagem era, nem mais nem menos, uma enfermeira que André julgava estar presente no seu quarto e que o escutava com toda a atenção. A necessidade de falar e de contar a sua vida e as suas experiências, nem fazia André pensar que uma profissional de enfermagem não poderia estar ali a ouvi-lo todo o tempo, sem cessar, dia e noite, sempre a acompanhá-lo. Entravam e saíam pessoas do seu quarto: médicos, outros enfermeiros, os profissionais auxiliares que lhe davam de comer e que o higienizavam, mas aquela enfermeira, fruto da sua imaginação, nunca o deixava só. Estava sempre lá, para o escutar.
Após vários meses internado, a medicina psiquiátrica chegou à conclusão de que André não mais conseguiria recuperar a sua normal forma, por isso, a sua família decidiu interná-lo num lar situado num lindo local, onde existiam muitos espaços verdes, muitos estímulos para que os utentes pudessem lá passar o melhor tempo possível. Existiam nesse centro, desde pessoas com doenças raras, independentemente da idade, até idosos e pessoas com doença de qualquer tipo, incluindo psiquiátrica, mas daqueles géneros não agudos. Nesse lar existia biblioteca, realizavam atividades lúdicas, jogos, festas de teatro e música, e muitas outras. Também eram organizados passeios, picnics, visitas a locais interessantes e por vezes alguns dos utentes iam passar fins-de-semana com a família.
Quando já tinha decorrido o tempo necessário à integração, André teve a ideia de propor à direção do centro a constituição de uma pequena orquestra, para a realização de atuações e apresentações de caráter benemérito no próprio e em outros locais de idênticas valências públicas: escolas, lares, centros de recuperação, prisões, entre outros.
A direção, perante esta proposta, imediatamente ficou cética, consultou a família de André Cruval Alfonso, pelo que esta se mostrou bastante recetiva. Apesar da desconfiança na iniciativa, a direção não quis de maneira nenhuma desmotivar o André e todos aqueles que ele já começava a recrutar para a sua pequena orquestra, dentro do centro.
Aos poucos e depois de muito esforço e estímulo, André começou a ensinar música a alguns que se mostraram interessados no projeto e aproveitou os conhecimentos musicais de alguns que lá estavam também internados. As famílias destes, também apesar de se mostrarem de um modo geral céticos, cedo apoiaram a iniciativa, através do estímulo e da aquisição de alguns instrumentos. Passado cerca de cinco meses de aulas e ensaios duros e intensos, mas que André conduziu com extrema dedicação e sabedoria, propôs à direção a apresentação do grupo na sua primeira atuação na festa de natal organizada pelo centro naquele ano. Apesar de demonstrar ainda muitas lacunas, a atuação foi vista pela assistência com muito interesse e até alguma admiração e foram interpretados seis temas de vários estilos, desde rock a música popular, fado e clássicos. Este facto motivou André a continuar, assim como os seus alunos e colegas músicos. Assim, passados mais alguns meses, puderam realizar mais apresentações, desta vez com um repertório de Páscoa e conseguiram atuar em diversas congéneres da região. Dessas vezes, as atuações foram um sucesso e o grupo começou a ter mais convites de diversas organizações.
Apesar de continuar a visionar as suas personagens fictícias e a falar constantemente com elas, André já sabia que não eram reais, mas a presença delas na sua mente, faziam-lhe bem, desabafava, recebia delas ideias e opiniões, discutia com elas, mas nunca essas relações imaginadas conflituaram com a sua vida e relação para com todas as pessoas reais que coabitavam consigo naquele centro. Por vezes, quando aparecia uma cara nova, André perguntava a algum funcionário, se essas pessoas eram ou não reais… só para se certificar.
Nesses anos, esta foi a ocupação que fez André feliz. Durante toda a sua restante vida, soube sempre quem eram as pessoas verdadeiras e as visionadas apenas por ele. Mantinha relações e conversas de amizade e de circunstância com todas de igual forma. Com as reais, sabia ter conversas reais. Com as fictícias, ele falava de sonhos, desabafava episódios da sua vida e também procurava inspiração.
Gabriela, sempre o visitava com muita frequência, assim como os seus familiares primos mais próximos.
Sua mãe Lúcia falecera já velhinha, com quase noventa anos, de forma repentina e sem sofrimento.
Tendo-lhe sido diagnosticada a doença já com mais de sessenta anos, André vivia feliz com ambas as famílias naquele lar, onde viveu até que um dia, sentado num dos bancos do jardim daquele lar, deu o último suspiro visualizando um por do sol maravilhoso, em tons de vermelho e laranja, acompanhado dos seus personagens fictícios, os quais, durante mais de vinte anos, nunca tinham envelhecido. A sua enfermeira imaginária amparou de forma carinhosa a cabeça a desfalecer de André e outro dos personagens imaginários - o seu melhor amigo escritor, muito parecido fisicamente com Fernando Pessoa – segurava ternamente a sua mão.
FIM DA SAGA “O TESTAMENTO”