A Gabriela é o meu amor, mas durante a minha vida, foram várias as paixões que me transportaram o coração sempre cheio. Sabes, tenho uma teoria acerca das paixões e da sua relação direta com as pessoas que as possuem e penso que não estou muito errado. Se bem que “estar errado” ou “estar certo” neste tema, nunca se está… tudo depende do que sente e do que opina cada um em relação a esse assunto e de como cada um vive cada momento amoroso que atravessa a sua vida.
A minha teoria tem a ver com a condição de ser artista. Para tudo o que se faz, é importante ter alguma inspiração, apesar de muitas vezes sem inspiração também ser possível fazer coisas. A isso chama-se conhecimento e também experiência, que tornam as pessoas competentes e eficientes. No entanto, para ser artista, para além de também ser importante possuir conhecimento, é essencial o talento. Já a experiência, só faz falta para uma questão de continuidade do trabalho artístico. No entanto, a inspiração, isso é fundamental. A inspiração vem muitas vezes da contemplação. Da contemplação da natureza, das maravilhas, da observação dos outros e dos acontecimentos que nos rodeiam e aos quais temos acesso. No entanto, a inspiração não aparece apenas a partir de sentimentos do bem, mas também pela experiência e conhecimento de eventos do mal. Por isso, muitos artistas retratam coisas e sentimentos bons, mas também reagem a acontecimentos maus. Tanto o artista pode escrever, pintar, compor, esculpir, tocar sobre o amor, a amizade, a família, a natureza e as suas maravilhas, sobre Deus, sobre as pessoas boas ou que lhe dizem mais respeito, como também (e geralmente) em oposição a eventos maus, como a guerra, discriminação, o ódio, a inimizade, os maus políticos, os ataques à natureza, os ataques à dignidade de outras pessoas, como violações, assassínios, penas. Raras vezes vemos artistas “apelar” ao que de mal existe no mundo. E bem! Para tudo isto é necessário um fator importante e muitas vezes descurado por quem não é artista, porque não compreende a sua razão, que é a necessária existência da inspiração.
Não menos vezes a fonte de inspiração de artistas é o amor ou a paixão. Da experiência das sensações vividas num enlace de amor, surge muita da inspiração do artista. Mas quando por vezes o artista chega à conclusão de que afinal esse não era um amor, era apenas uma paixão – porque o amor é para a vida – então, vai-se perdendo a inspiração. Nesta altura, apenas o conhecimento e a contemplação, podem não ser suficientes para realizar um trabalho de produção artística suficientemente bom, para não dizer de excecional qualidade! Quando essa paixão deixa de ser suficiente, o artista necessita de refrescar a sua vida com nova paixão, por isso, necessita de um intervalo, de uma pausa amorosa, de uma cura, para conseguir voltar a apaixonar-se novamente. No entanto há também quem não necessite de fazer qualquer pausa e volte a apaixonar-se novamente de imediato. Às vezes, até se apaixona antes de terminar a paixão anterior… assim como aqueles fumadores que acedem o cigarro com o anterior. Isto existe!
As paixões foram assim, uma constante na minha vida, enquanto não encontrei o verdadeiro amor…. Era, porém, daqueles artistas que necessitava de pausar e atravessar um pequeno deserto, até que encontrasse novo motivo para me apaixonar. No entanto, comigo resultavam ambos os períodos: o de paixão – onde apareciam as criações mais positivas – e o período de não-paixão – onde as criações eram mais melancólicas e enfadonhas, mas ambas com a qualidade necessária, porque se a não tivessem imediatamente colocava de lado essas criações.
Nem todas as paixões me fizeram abanar o peito ao ponto de as manter durante muito tempo. Algumas delas foram passageiras e fugazes e, nem todas as relações foram sequer “paixões”, mas apenas o gozo do momento. De todas, apenas duas me mantiveram ligado um tempo bastante razoável e por motivos muito diferentes. Essas duas pessoas eram completamente diferentes uma da outra: uma bastante dedicada, outra um pouco alheada; uma muito carinhosa, outra um pouco mais desligada; uma muito agarrada, por vezes tanto que chegava a sufocar; outra tinha que ser bastante estimulada para reagir; fisicamente eram também muito diferentes: a primeira, baixinha, morena, cabelo curto e ondulado, mãos de pele rígida mas suave ao toque, simples no trato, na fala e nos gestos e não adormecia sem que os nossos corpos estivessem em contacto em algum ponto; a segunda, mais vistosa, cabelo ruivo e um pouco longo, ligeiramente ondulado, mãos de pele fina e de toque forte, de postura, conversa e atitude mais snob. Ambas sardentas e ambas me faziam feliz e eu também as fazia felizes a elas. Ambas com corpos bonitos e agradáveis ao toque. Estas foram paixões às quais dediquei muito. O desafio no caso da primeira era tentar saber até que ponto o seu amor por mim a levaria a aturar os mais exigentes caprichos. No caso da segunda, fui eu o lutador, tentar conquistá-la a cada dia, atraí-la a cada gesto, a cada atitude, a cada telefonema, a cada encontro. Aquilo que a primeira fazia comigo fazia eu com a segunda: a permanente conquista e sedução. Não se devem comparar amores e apesar de parecer mal transmitir esta ideia de comparação a outrem, o facto é que todos fazemos isso na nossa cabeça, só não o verbalizamos porque consideramos que isso constitui tabu. Mas não! Isso constitui o que são as experiências de vida de cada um.
Com todas as paixões, a dedicação do meu corpo e mente foram totais e inequívocas. Nunca tratei mal alguém, mas também nunca me deixei levar por caminhos indesejados. Sempre me dediquei de corpo e alma a cada uma das paixões e tentei sempre dar o meu melhor e contribuir com um bom ambiente entre o casal. Nunca optei por um compromisso sério de matrimónio com estas paixões (exceção feita à Gabriela), porque na verdade, nunca senti essa necessidade. Porque a irregularidade da minha vida: as viagens, o apego à terra à distância de milhares de quilómetros intercontinentais de casa, a ínfima sensação de que um dia poderia regressar ao país natal, desmotivou-me sempre à procura de mais estabilidade física. A estabilidade emocional, essa, eu tinha-a vivendo desta forma. Nunca fiquei sem falar com alguma das paixões. Sempre a amizade continuou. Em algumas vezes, houve até reencontros ocasionais, que provocaram enormes momentos de prazer de corpo e mente. Porque os reencontros sempre são intensos… nunca se começa do zero… há sempre a sensação de algo que estava inacabado e que no reencontro, mais alguma construção foi realizada.
Viagens! As viagens foram sempre algo que gostei de fazer acompanhado. Nunca viajei sozinho, em viagens do tipo recreativo – conhecer, explorar. Quase que posso contar as minhas grandes viagens de conhecimento e recreio, com o mesmo número de paixões. Uma paixão sem uma viagem, quase não fazia sentido para mim!
Neste capítulo das paixões, devo incluir a paixão pela minha família e quero falar sobre isso. Na realidade, a família que conheci e que me criou como se eu fosse mesmo um filho biológico, sem qualquer diferença de trato e de oportunidades em relação ao meu irmão Filipe, foi o berço ideal para mim. Ao início, sendo um filho adotivo, que depois veio a descobrir-se que afinal havia sangue desta família adotiva a correr nas minhas veias… foi uma das minhas maiores felicidades. Aos pais biológicos, não posso afirmar que nutria qualquer paixão por eles, no entanto, ao meu avô paterno, que ao início não era biológico, mas que depois se veio a verificar que ele era mesmo meu parente, por esse, sempre senti um afeto enorme, um respeito e um carinho imenso. Sempre que ele se sentava no seu poltrão, eu ia sentar-me ao seu colo, ou perto dele. Mesmo que os meus pais estivem no salão, era junto do meu avô que eu queria estar. Ele tinha uma forma de me tratar, de falar comigo, que me derretia… gostava de brincar comigo e de me dar bons conselhos e de transmitir bons valores. Digamos que grande parte da minha personalidade e educação “bebi” dos seus ensinamentos.
Ser adotado e acarinhado por esta família, que também eu adotei, foi a parte mais importante da minha vida. Crescer no meio dela, foi sem dúvida uma dádiva e usar o seu nome é de facto um orgulho! Apesar de tudo o que depois se conheceu acerca do meu avô. Tudo isso, não retira a bondade patente no seu coração, toda a sua vida. E também por bondade, se deixou levar para essas tomadas de decisão mais polémicas que viemos a conhecer com o seu testamento.
Já a família alentejana, apesar de gostar deles, fomos sempre um pouco mais desligados, porque também mais distantes, mas igualmente boa gente, sem dúvida. No entanto, paixão familiar, só mesmo por esta: meu avô António, minha mãe Lúcia, meu pai Henrique e o meu irmão Filipe. Estes sim, as grandes paixões da minha vida!