Tudo estava a acontecer conforme o esperado e planeado pelo jovem casal luso-brasileiro. Foram fretados dois aviões de média dimensão para transportar todos os cerca de trezentos convidados para o casamento quase com características de cerimónia real. A Catedral do Rio de Janeiro estava devidamente decorada com as mais belas flores, tapetes, véus e laços, para receber os noivos, família e amigos. Praticamente todos os convidados acederam ao desafio desta viagem de sonho, que, para muitos, era mesmo isso de facto. Muitos deles, como alguns funcionários das empresas do Grupo Cruval Alfonso em Portugal, seria a primeira vez que iriam sair do país, com tudo pago. Uma vez que as empresas não poderiam encerrar, apenas se deslocaram alguns dos quadros das empresas, sendo que não era possível que todos os milhares de trabalhadores pudessem ausentar-se durante quase uma semana. Todos os convidados tinham sido hospedados no maior hotel do Grupo na cidade maravilhosa, uma vez que tinha capacidade para tal, sendo que era provavelmente a maior ou uma das maiores unidades hoteleiras da cidade brasileira. Sendo que cerca de metade dos convidados eram familiares e amigos da família e a outra metade eram funcionários do Grupo empresarial em Portugal, a eles se juntavam outros funcionários, amigos e família do Brasil, pelo que no total, o casamento dos jovens iria contar com cerca de quinhentas pessoas na cerimónia e no banquete que iria ser servido também nesse grande hotel do Grupo no Rio de Janeiro. Não faltaria música ambiente, artistas conceituados, convidados de ambos os países, distribuição de ofertas e lembranças dos noivos, sessões de fotos tendo como cenário as magníficas paisagens do Rio. Para a viagem até aos estados unidos, estava fretado um terceiro avião para que fossem transportados os convidados do Brasil, aqueles que faziam questão de assistir também à grande estreia como profissional do Maestro, ainda júnior, André Cruval Alfonso. As refeições dos convidados eram também servidas no mesmo Hotel, que por esses dias estava totalmente reservado para este enorme evento.
Os noivos, assim como os padrinhos e damas de honor, tinham sido vestidos por conceituados estilistas portugueses e brasileiros, consoante a sua proveniência. Dulcineia, porém, estava magnífica! O seu vestido de noiva, digno de uma princesa, era exuberante, coberto de efeitos e adereços que conciliavam estilos clássico e pós-moderno. O seu véu era enorme, atingindo um comprimento de vários metros e de um padrão espetacular. Filipe vestia também um fraque com tons muito bem combinados e com efeitos idênticos aos do vestido da noiva, tendo aqui existido claramente uma conjugação de trabalho em equipa entre estilista português e brasileiro. Nada parecia ter sido deixado ao caso. Nisso, Dulcineia era uma rapariga bastante informada e atenta às tendências, sendo que os noivos tinham tentado rodear-se de uma equipa de especialistas em todas essas vertentes.
Após todos os convidados já se encontrarem dentro da Catedral a aguardar o início da cerimónia e depois da entrada de André e o seu caminho rumo ao altar, cumprimentando muitos dos convidados que encontrava no percurso da coxia central do templo, chegou sem demora a noiva, uma vez que não queriam que houvesse atrasos em toda a festa. Chegou de limusina, acompanhada pelos seus pais e damas de honor, tendo sido encaminhada pelo braço do pai até ao altar e acompanhada pelas cinco damas de honor, que seguravam o seu véu e transportavam outros adereços.
A cerimónia foi integrada em Missa cantada pelo Coro da Catedral e a celebração foi presidida pelo próprio Bispo da cidade. Muitos dos presentes emocionaram-se com a beleza de toda a cerimónia, a escolha dos cânticos soberbamente interpretados, pelos gestos de carinho e de tranquilidade dos noivos e com as palavras sábias e cheias de significado do Bispo celebrante. Durante cerca de duas horas, esta cerimónia encantou todos os presentes, nomeadamente e principalmente os pais dos noivos. Lúcia não conseguira tirar os óculos escuros para não mostrar a sua pintura facial borratada de tanto lacrimejar de alegria e comoção. Até Henrique evitada a todo o custo a demonstração das emoções, assim como os pais e irmãos da noiva. Já André, mais contido, embora fosse também um jovem bastante emocional, tinha-se habituado a controlar as emoções em público, devido aos estudos na música. André muito se recordava, neste momento, do seu querido avô António Alfonso, que tanto amava e de como ele certamente iria apreciar aqueles inesquecíveis momentos… “Certamente estaria com toda a família neste momento, onde quer que pairasse o seu espírito”, pensava para si, e era isso que mais o emocionava: a ausência do seu avô nestes grandes eventos.
Seguindo o final da cerimónia e após as assinaturas, os noivos percorriam a nave central da Catedral, recebendo os parabéns entre beijos e abraços dos convidados, tendo-se todos depois dirigido, caminhando a pé por cerca de duzentos metros, até ao Hotel onde se iria realizar a cerimónia da festa com comes e bebes pelo restante dia, até de madrugada.
No banquete, havia de tudo um pouco, artigos classicamente portugueses e brasileiros: os bons enchidos, presuntos, queijos, vinhos e pratos portugueses, desde variadas formas de bacalhau, pratos com as melhores carnes bovinas brasileiras e respetivos clássicos acompanhamentos, até às cascatas de marisco de Moçambique e da Ilha de Madagáscar e bivalves portugueses e brasileiros; esculturas em forma de aves e de motivos matrimoniais feitos com a mais variada fruta, incluindo a tropical, servido o melhor espumante da Bairrada de Portugal, vinhos generosos portugueses, como Porto e Moscatéis, assim como licores clássicos de Portugal e do Brasil. Neste particular, os noivos fizeram questão de que a comida servida fosse tradicional de ambos os países, nada de pratos especiais e/ou exóticos, que certamente as pessoas não iriam apreciar. Assim, conseguiram juntar à mesa ambas as culturas e gastronomias, ao mesmo tempo que mostravam mutuamente uns aos outros (portugueses e brasileiros) o que mais tradicional existia em ambos os países em termos gastronómicos e enólogos.
Durante o banquete, uma banda animava musicalmente e através de piadas e histórias do tipo “stand-up comedy”, para manter os convidados animados durante o restante dia. Durante a tarde e a noite, estas atuações foram intervaladas por dois artistas portugueses (um de fado e outro de música pop ligeira) e dois artistas conceituados brasileiros interpretaram, cada um, cinco a seis temas dos seus repertórios, sendo acompanhados musicalmente pela banda residente. Também André interpretou dois recitais em piano para todos os convidados, tendo sido freneticamente aplaudido de pé pelo público presente, se bem que muitos dos convidados, nem sabiam que aquele rapaz era André, o irmão do noivo... A festa entrou pela noite dentro, até cerca das três da manhã, altura em que todos tiveram que recolher aos seus aposentos, uma vez que os funcionários do hotel teriam que preparar a sala para os pequenos-almoços do dia seguinte, conforme estava estabelecido. Alguns, cerca de meia centena, ainda tiveram coragem e forças para irem até ao pub-disco do Hotel, situado no piso térreo, para darem mais um pé de dança e tomarem mais um digestivo. Os noivos não conseguiram acompanhar estes convidados, uma vez que se encontravam por demais exaustos e recolheram à sua suite nupcial, que tinha sido escrupulosamente preparada para receber convenientemente o casal recém-casado, para a sua primeira noite de lua-de-mel, a noite de núpcias. À parte alguns convidados mais exagerados, que tinham abusado um pouco na comida ou na bebida e (alguns) tomaram atitudes praticamente inconscientes de graçolas e piadas negras e outros (poucos) que se sentiram um pouco mal, tudo o restante correu bem nesta festa.
O dia seguinte seria livre, para que os convidados pudessem explorar a cidade à sua vontade e gosto, visitarem locais, fazerem compras, tirarem fotos para a posteridade, provarem algumas das iguarias do local ou apenas descansarem e usufruírem das excelentes condições do hotel: piscina, jacúzi, sauna, banhos turcos, massagens ou ainda simplesmente vestir o fato de banho e estiraçar-se ao sol após aplicação de protetor, uma vez que o tempo se encontrava bastante propício, apesar de ser inverno, mas o tradicional inverno tropical, sempre imprevisível. Quanto ao estado do tempo, os noivos e convidados tiveram sorte com estes dias. Este dia cuja sensação era a de "cumprimento de calendário", tinha prolongado o prazer e a felicidade dos convidados, uma vez que lhes dava a oportunidade - única para alguns, como já referimos - de conhecerem uma ínfima parte deste grande país de língua oficial portuguesa, o Brasil. No entanto, todos os dias têm 24 horas e não se poderiam prolongar por muito mais tempo. No dia seguinte, logo pela manhã, estariam prontos os aviões para transportar todos os convidados - aqueles que desejassem, porém quase todos tinham aceitado o convite - para viajarem até Los Angeles, nos Estados Unidos da América, onde iriam assistir ao concerto de estreia de André. Os poucos que tinham recusado essa viagem apenas devido a não poderem por motivos profissionais ou pessoais, regressariam diretamente a Portugal. Outros, convidados brasileiros do lado de Dulcineia, tinham aceitado o convite e iriam também aos "States". Nesse último dia, seria servido jantar para todos os convidados no Hotel, servido relativamente cedo, para que todos pudessem escolher por se deitar cedo, uma vez que o pequeno-almoço e saída do Hotel no dia seguinte seria muito cedo, cerca das seis da manhã, com saída de avião pelas sete e meia, oito horas. A urgência tinha a ver com as horas de voo, que ainda eram bastantes. Se os voos fossem oficiais, praticamente apenas seriam possíveis com escala e poderiam demorar entre 8 a 12 horas. Assim, sendo aviões fretados apenas para esse serviço, poderia demorar entre cinco a seis horas. Depois, haveria que realizar entrada no Hotel em Los Angeles, jantar e preparem-se todos para o concerto, na noite desse mesmo dia. Todos os minutos eram por isso preciosos, para que nada falhasse relativamente à calendarização prevista.
Preocupados com o orçamento, mas emocionados e entusiasmados, os pais de Filipe e de André não queriam pensar muito no dinheiro gasto, pois esta semana seria possivelmente única nas vidas dos seus filhos. Ambos casavam com os seus grandes amores: Filipe com Dulcineia e André com a Música e, por isso, seria a comemoração de dois acontecimentos em apenas uma festa!!! Estes momentos seriam também eles únicos na memória de todos os intervenientes e convidados. Sem orçamento, nada disto teria sido possível, porém estes "meninos" tinham aquilo que mereciam, pelo menos assim pensavam os seus pais. Filipe tinha feito um negócio com o hotel de Los Angeles, seu congénere, relativo a troca de serviços, portanto, não iria existir pagamento dos alojamentos, mas sim troca com alojamentos de hóspedes tanto no Brasil como em Portugal. Mais dispendiosos teriam sido os aviões, mas mesmo assim, bem negociados, de certo que seriam valores não preocupantes para a condição financeira da família.
Contas à parte, o que interessava para estes dias e para esta família, seria a partilha da sua felicidade com todos os familiares e amigos que conseguiram estar presentes, seria a partilha dos seus gestos de amor por todos, juntamente com a sua generosa demonstração de amizade. Esta não era uma daquelas famílias tradicionais com posses, das que se preocupavam constantemente em dar festas e proporcionar às congéneres momentos de efémera "socialite". Festas, não era a atividade que mais atraía esta família. A sua generosidade e posses era oriunda de muito trabalho durante algumas gerações, também alguma sorte e também alguma boa gestão, certamente. Mas a humildade sempre tem sido um dos apanágios desta família. Talvez por isso, apesar de ser uma conhecida e conceituada família, era também popular e as organizações de todos os quadrantes, de nada tinham a apontar-lhe. Talvez também por isso, o escândalo das casas de alterne de António Alfonso, não foram demasiado faladas nem divulgadas pela comunicação social e esses factos não afetaram de forma alguma o nome da família e a sua conceituada reputação. A sua forma de relacionamento com todos os seus colaboradores, pelos quais tinham um grande respeito e cujo trabalho desenvolvido nas suas empresas era devidamente valorizado. Eram por isso felizes em trabalhar neste grupo empresarial. Festas desse tipo, eram acontecimentos sociais até um pouco desprezados por esta família. Preferiam a intimidade do seu lar e o convívio entre família de forma privada, do que exteriorizar acontecimentos privados que apenas a eles diziam respeito e com que os outros nada tinham a ver - isso era o que pensavam. Devido a esta postura na sociedade, não era frequente avistar esta família em revistas ou jornais dedicados à vida social e à divulgação de eventos sociais aprazíveis e que muitos gostam de acompanhar, coscuvilhando. Não eram também fácil serem avistados em festas promovidas por outras famílias ou entidades. Preferiam a sua manifestação de solidariedade de forma privada e íntima, sem a proximidade de câmaras e holofotes. Assim, com esta postura, mantinham-se recatados no seu canto, distantes de orgulhos, invejas e cobiças de outros, assim como tinham mais tempo para se dedicarem uns aos outros em vez de o perder com futilidades. Esta família achava que, enquanto houver no mundo gente com fome, crianças sem teto, e seres humanos a passar dificuldades, toda a ostentação que os ricos mostrassem, seria mais uma forma de pecado contra a humanidade. Por isso, em vez ostentarem, preferiam utilizar esse dinheiro de sobra para auxiliarem instituições de caráter social, missões humanitárias, organizações de caridade, de proteção a crianças idosos, sem abrigo e pessoas com deficiência ou com outras necessidades especiais. Acham que, se todos os ricos se comportassem assim, o mundo seria um melhor lugar para se viver, em harmonia. Mas o mérito, para os ricos, não é dar aquilo que lhes sobra, mas também dar aquilo que lhes poderia fazer falta também, para investimentos, para gastos supérfluos, e outros. Dar o que sobra não é uma virtude, mas sim dar, partilhando, aquilo que também nos faz falta a nós próprios. Isso sim, é virtude, é bondade, é missão.
Na verdade, o nosso mundo está repleto de pessoas, cada vez mais, para as quais a promoção pessoal é a coisa mais importante da sua vida. Ainda mais neste tempo em que a tecnologia proporcionou ao mundo as redes sociais, disponíveis a todos e em todo o mundo e nas quais as pessoas têm a possibilidade para se mostrar ao universo, para demonstrar os seus interesses, as suas ambições, os seus gostos, acompanhar os seus interesses, por onde anda cada um e aquilo que faz. Num mundo repleto de câmaras de vigilância, principalmente nas grandes cidades dos países mais desenvolvidos, nenhum de nós hoje tem direito à sua privacidade, pois certamente irá a sua imagem, nome ou dados pessoais aparecer numa qualquer base de dados não se sabe instalada em que nuvem. O conhecimento de cada um por qualquer um, fez também com que as pessoas se tornassem falsas: falam coisas bonitas, partilham frases reflexivas, mostram-se solidárias com causas nobres, todas são amantes de animais, da natureza, mas na realidade, muitas dessas atitudes e gostos estão simulados e são contraditórios. Se amassem a natureza, não havia animais abandonados nas ruas ou nos canis ou gatis; se amassem a natureza separavam o lixo devidamente em cada contentor apropriado; se amassem a natureza, não utilizavam o carro por tudo e por nada e andavam mais a pé ou de transporte público; se amassem a natureza, não deitavam lixo para o chão, limpavam a entrada da sua casa, da sua porta, pintavam a sua casa devidamente, não colocavam o lixo ao fim-de-semana no contentor, não gastavam tanta energia elétrica ou mineral em casa ou no trabalho inutilmente; se amassem a natureza, procuravam utilizar produtos biológicos ou reciclados/recicláveis e biodegradáveis. Muito mais atitudes poderiam ser consideradas como normais para pessoas amantes da natureza e do seu habitat natural, que é o planeta onde vivemos. Infelizmente, as pessoas têm nas redes sociais uma janela para o mundo que utilizam, muitas delas, como uma montra de futilidades e não a utilizam para divulgar e espalhar o bem pelo mundo. Ao apreciarem-se os gostos, partilhas e comentários das pessoas, parece que vivemos num mundo em que todos são bondosos, amáveis, afáveis, amorosos, tolerantes, compreensivos, amigos. Mas de facto, se assim fosse, então não haveria conflitos e guerras, inimizades e desentendimentos. Nem sequer era necessários que existissem tribunais para julgar pessoas que tivessem praticado o mal contra os outros, porque todos teriam todas as virtudes conhecidas. Mas na realidade, assim não é, a humanidade muito tem ainda a evoluir, a progredir, a crescer. Deixar de ser tão humana e passar a ser mais animal, ou seja no sentido de ser mais pura, mais ingénua, no sentido de dar o benefício da dúvida, pelo respeito, pela tolerância, pela diferença de cada um.
No entanto, se a evolução nos fez chegar até aqui, então que o ser humano seja capaz de utilizar essas ferramentas da modernidade e essas tecnologias disponíveis para construir o bem universal e que, sendo universal, isso quererá dizer que é para toda a humanidade e para todos os seres. Assim, já não será necessário para socializar, como antigamente, participar em encontros e festas, porque sentados no nosso sofá em casa, descansados, poderemos estar a "socializar" nas redes sociais. Porém, haverá melhor forma de socializar do que olhar as pessoas nos olhos, apreciar o seu sorriso e as suas expressões, sentir o seu cheiro, poder elogiar "in loco" a sua roupa, o seu perfume, o seu penteado, fazer tilintar os copos de bebida em sinal de alegria ou de comemoração de algo e outras coisas fúteis, mas que todos apreciam fazer, de escutar, de cheirar, porque nos enche o ego? As redes sociais permitem isso? Claro que não!
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Esta divagação poderia levar-nos muito longe... no entanto, a festa tanto aguardada não espera e está mesmo aí a acontecer.
Os convidados entravam no auditório escolhido para o evento, com uma lotação de cerca de mais de seis mil pessoas (mais mil em palco), das quais três a quatro centenas eram os convidados especiais de André, Filipe e Dulcineia, que ocupariam os lugares de honra na sala, tanto nas primeiras filas como nas galerias. Duma cidade como Los Angeles, onde residem milhões de pessoas, incluindo os principais artistas da sétima arte, não seria de certeza difícil encher aquela sala. André tinha conseguido obter uma parte das receitas para ajudar o seu irmão nos gastos com o casamento, nomeadamente na fretagem dos aviões para os convidados e no pagamento da sua estadia naquela cidade americana. Além de que os convidados teriam entradas gratuitas... Este ato de solidariedade de André demonstrava de facto a grande aproximação que os irmãos tinham um do outro, assim como o total desprendimento de André em relação aos bens materiais. Os convidados eram confrontados com uma sala que conciliava um incrível aproveitamento dos espaços, com uma minuciosa escolha dos materiais, uma incrível acústica, um muito gosto na obtenção do maior conforto para os visitantes, assim como a preocupação nas indicações de toda a sala, em diversas línguas, situação que é muito rara nos Estados Unidos. Apesar de algumas décadas decorridas sobre a sua reconstrução - uma vez que nesse local existiu outro auditório que ardeu uns anos após a sua construção, este auditório casava ainda os fatores modernos e a devida preparação para as novas tecnologias, com uma decoração preocupada na recuperação de motivos clássicos, nomeadamente a utilização de colunas trabalhadas e figuras de anjos e de animais na sua decoração. O palco era largo, em forma de trapézio e o auditório continua o formato do palco, expandindo-se como um anfiteatro, sendo que o seu solo sobe à medida que se afasta do palco, sendo este o ponto mais baixo e altitude naquela estrutura. O aspeto exterior do edifício, em forma paralelepípeda, quase cúbica, era muito diferente do interior. Quem olhasse o exterior, por nada imaginaria um interior daqueles e vice-versa. Exteriormente, o edifício apresentava-se como um prédio que mais se aparenta com uma mesquita ou igreja, mostrando suas janelas e varandas por de baixo de cúpulas trabalhadas de forma classicamente árabe e com motivos que quase lembravam alguma da arquitetura do médio oriente... O exterior em pedra e com as partes lisas de parede pintadas numa cor clara e suave, apresentava-se naquela avenida como um prédio diferente e diferenciador de toda a restante paisagem, onde mais abundam as residências de pessoas conhecidas, famosas e endinheiradas. Este auditório encontra-se numa das zonas nobres da cidade de Los Angeles.
Os convidados entravam no auditório, encantados e boquiabertos com a nobreza daquele espaço e ocupavam de forma civilizada os lugares que lhes estavam destinados, já com grande parte da sala sendo ocupada pelo público em geral. A orquestra ocupava já nos seus lugares e cada músico preocupava-se na sua necessária concentração, revia a ordenação das pautas e ultimava as últimas afinações dos instrumentos.
André revia com cada músico os trechos em que mais se preocupava e onde tinham existido algumas pequenas hesitações nos últimos ensaios. Nada poderia ficar ao caso e aquela noite, aquela apresentação, aquele espetáculo, teria de ser imaculado e de interpretação única. André sabia que estaria a ser observado por inúmeros mestres e colegas, professores e profissionais do mundo da música. Sabia que uma atuação excelente abriria de par em par uma gigante porta para a sua promissora carreira como maestro de orquestra. André preparara algumas partituras inovadoras que serviriam, uma delas, para a a apresentação (início) do concerto e outras que serviriam de ligação entre uns e outros temas interpretados. Era uma grande responsabilidade, a direção de centenas de músicos com a classe e qualidade daqueles que se iriam apresentar. André tinha formado uma equipa de músicos oriundos de diversas orquestras, outros veteranos e outros ainda, seus colegas de faculdade, aos quais quis dar a oportunidade de poderem também eles, mostrar os seus dotes, tocando em conjunto com inúmeros músicos conceituados do meio, daquela cidade californiana e arredores. Os anos de faculdade e de residência nos Estados Unidos, trouxeram a André a oportunidade de conhecer centenas de executantes de mais alto nível e, coadjuvado pelos seus professores, conseguiu reunir uma nova equipa, que nunca tocou junta em público na sua totalidade, sendo que as experiências juntos se cingiam às horas e horas de ensaios que praticaram durante as últimas semanas.
As luzes, pouco a pouco, começavam a desligar-se faseadamente. O público presente, apercebendo-se da proximidade do início do espetáculo, diminuía a pouco e pouco o habitual burburinho de acomodação de início de concerto. A hora de início estava a ser cumprida com pontualidade britânica e todos se acomodavam nos seus lugares, abandonavam as conversas cruzadas e concentravam-se no palco, onde também a orquestra parecia encontrar-se plenamente preparada para disferirem os primeiros sons e acordes. André subia ao palanque, dirigia-se de forma gestual ao público, abria os braços ao ar, na ponta de um deles segurando a batuta e fazia uma vénia com expressividade, ao que o público respondia, já de luzes apagadas, com uma salva de palmas. A seguir, dirigiu-se à orquestra e fez-lhe um gesto para se erguer e agradecer, pelo que, num só gesto, toda a orquestra se levantou, acompanhou a nova vénia de André, agradecendo e voltou a sentar-se. André voltou-se para a orquestra, esboçou os primeiros olhares para as secções instrumentais que iriam iniciar a primeira partitura de sua autoria, para dar início ao espetáculo. O silêncio era sepulcral e, ao primeiro gesto de André, iniciaram-se os primeiros sons. Esta era uma melodia suave, iniciada por instrumentos mais agudos, sendo que aos poucos e de forma quase indelével, outras secções se lhe juntaram. Foram cerca de dez minutos de pura manifestação de inspiração por parte de André e dos seus músicos. Quase sem se notar a passagem e, sem qualquer pausa, o final da partitura era conjugado com um clássico da música europeia e assim sucessivamente. Tanto André como a orquestra, movimentavam-se em uníssono, quase parecendo a movimentação das ondas do mar rebentando contra a areia da praia, ou uma seara de trigo dançando num só sopro, ao corrente da suave brisa de um vento inconstante. Foi assim durante mais de meia hora, tocando a orquestra, sem interrupções e forma voluptuosa. Findo esse primeiro ato de forma exuberante, toda a plateia e balcão se levantaram, como se num botão alguém tivesse carregado, fazendo todos saltar das cadeiras num só gesto, aplaudindo, gritando e assobiando positivamente durante mais de dois minutos se cessar, ao que André e a Orquestra respondiam com coordenadas vénias, sorrisos abertos e gestos labiais de "obrigado" e de "thank you", quase nenhum deles sem conter expressivos sorrisos e até algumas pequenas lágrimas de comoção. Refeitos da primeira frenética manifestação de contentamento e satisfação, a Orquestra voltou à concentração e retomou a sua atuação para o segundo ato daquele concerto. Uma atuação musical de tal expressão e grandiosidade pode ser comparada a uma peça de teatro ou de uma ópera, na qual cada elemento, parecendo insignificante, é fundamental para o resultado final pretendido do conjunto. Parece que todos estavam perante uma Orquestra que já atuava junta há séculos, assim era o tamanho entrosamento entre todos os elementos de cada secção e entre cada secção instrumental e ainda entre todos e o seu Maestro. A assistência, apesar de se encontrar em silêncio, como manda a correta postura de um público civilizado em espetáculos deste tipo, demonstrava pela sua expressão geral que se encontrava imbuído por aquela atuação e de que estava a viver intensamente a qualidade daquele concerto. Após um segundo ato mais curto, de cerca de vinte minutos, aos qual também se seguiu uma enorme e prolongada salva de palmas e gritos, de pé, a Orquestra orientada por André concentrou-se para o terceiro e último ato do espetáculo, tendo este terminado passados cerca de vinte e cinco minutos depois, de forma espetacular, exuberante e imperial, muito mais elevada dos que as duas últimas terminações. No final, o público aderiu com veemência e aplaudiu durante cerca de dez minutos, ininterruptamente, enquanto André agradecia com gestos para o público, enquanto cumprimentava cada músico, um por um, sem distinção. Os pais de André, Lúcia e Henrique, não cabiam em si de emocionados, felizes e orgulhosos do feito do seu filho. Ambos só se lembravam dos respetivos pais, em como eles gostariam de ter presenciado este grande espetáculo do seu neto mais novo, assim como também da sua presença no casamento de Filipe. "Estariam certamente a aplaudir e a torcer pelos seus netos, onde quer que estivessem os seus espíritos" - pensavam. No final de cumprimentar toda a Orquestra, André correu para a plateia a correr, para abraçar os seus pais e irmão, no meio de lágrimas e de nova salva de palmas efusiva por parte de toda a assembleia. O orientador de doutoramento do André não resistiu a dirigir-se ao palco, pediu um microfone aos técnicos de som, pediu à assembleia que se sentasse alguns minutos e se acalmasse e aguardou que todos se acalmassem de tamanhas emoções, para de seguida, tomar a palavra, para improvisar um pequeno discurso, no qual teceu rasgados elogios à Orquestra e a André, narrando todo o esforço e trabalho que este desenvolveu, enalteceu o seu talento e profetizou um grande futuro para ele no meio musical dos Estados Unidos. Contou ainda alguns acontecimentos, uns mais engraçados outros mais sérios ocorridos com André nestes anos de estudo, em como ele não só possui um grande talento, como também um coração enorme, sempre pronto a ajudar os colegas, de uma facilidade de trato incrível e de uma sociabilidade inigualável. Da sua facilidade em ter conquistado a amizade de todos quantos o rodearam e de quantos se rodeou durante todo esse período, desejou-lhe as melhores felicidades e informou todos os presentes que André, com aquele concerto tinha obtido a nota máxima que é possível obter num doutoramento inigualável. Mais uma vez André escutou os aplausos de todos, para depois, muitos dos presentes a ele se dirigirem, aproveitando ele estar na assistência, junto dos familiares, para o congratularem pessoalmente pelo espetáculo presenciado, muitos deles pedindo um bis para muito breve. Certamente com a divulgação nos média que este concerto iria proporcionar, muito mais público iria querer também assistir àquele espetáculo inovador e único.
Mais uma vez orgulhosos com os seus rebentos, o nosso casal Lúcia e Henrique, assim como todos os convidados, recolheram aos seus aposentos no hotel contratado. O dia seguinte seria totalmente dedicado à grande viagem de regresso - uns a Portugal e outros ao Brasil - por isso, haveria que descansar e arrumar as bagagens. Filipe e Dulcineia iriam para Portugal, uma vez que, depois disso, iriam seguir para a sua esperada Lua-de-mel, pelo Mediterrâneo. André iria ficar nos Estados Unidos, uma vez que muito haveria ainda a ultimar e contactos a fazer, para repetição do espetáculo de música clássica e moderna apresentada nessa noite, tanto no mesmo como em possíveis outros palcos. Os contactos com esse fim eram já bastante promissores.
A viagem de avião decorreu com normalidade e sem quaisquer incidentes de regresso. Em Portugal, conforme combinado e devido à demora da viagem, chegaram todos muito cansados, como estava previsto, todos os convidados que quiseram, ficaram alojados no maior hotel do Grupo no país, onde os quartos já estavam reservados. Os que não quiseram ficar e optaram por viajar até suas casas de imediato, depois das despedidas, assim fizeram.
Lúcia e Henrique, regressaram ao Arvorete, onde também quiseram pernoitar os noivos, em vez de ocuparem um quarto de hotel. No dia seguinte iriam embarcar no cruzeiro de navio que já se encontrava marcado há bastante tempo.