Henrique estava no seu escritório, onde que tinha escolhido realizar a sua missão de administrador do grupo de empresas que dirigia. Embora existisse em cada fábrica um gabinete, com secretária, cadeira e sistema informático para o auxiliar na sua gestão, era num dos hotéis da capital onde se sentia como peixe na água. A sua presença em qualquer das empresas, era sempre apreciada pelos seus colaboradores, uma vez que, ao contrário do que acontece em muitos locais de trabalho, o patrão era sempre bem vindo, porque Henrique gostava de abandonar o seu gabinete e levantar-se da sua cadeira, para se deslocar junto dos trabalhadores, cumprimentá-los, colocar-lhes questões, inteirar-se acerca do desenrolar das suas tarefas, saber das suas necessidades e problemas. Fazia-o sempre com simpatia, não com aquele ar matreiro de alguns chefes, mas adotando uma postura positiva, formativa e preocupada. Nas suas empresas, respirava-se harmonia e motivação e Henrique sabia que os exemplos deveriam sempre vir de cima e por isso os colaboradores, dentro do devido respeito que lhe nutriam, consideravam-no um amigo, um formador, um mentor. As suas visitas às empresas eram curtas, porque a sua agenda de reuniões e decisões era bastante preenchida, mas eram igualmente frutuosas e nunca deixava que uma visita não fosse acompanhada de uma vistoria a todos os setores de cada unidade.
Certo dia, estando Henrique no seu escritório preferido, recebeu um habitual telefonema da secretária da administração, a anunciar a presença de uma senhora que insistia em falar com ele. A senhora não queria anunciar o seu nome à secretária, mas educadamente e com simpatia demonstrava a sua urgência e extrema necessidade nesse contacto pessoal com Henrique.
- Fernanda, fazes o seguinte: dizes à senhora que eu vou atendê-la, mas ela que espere dez minutos, sentada na sala de espera e eu vou sair pela porta de serviço e vou tentar sem que ela perceba, ver ao longe de quem se trata. Depois volto ao meu escritório e ligo-te para a chamar. Não quero ser apanhado desprevenido, entendes?
- Ok, Henrique, vou tratar disso, pode ficar descansado.
E assim fez. Henrique saiu pela porta do seu escritório que dava acesso a um dos corredores de serviço do hotel, voltou a entrar no corredor público, espreitou pelas vitrinas para tentar avistar a senhora, sem que ela percebesse. Conseguiu avistá-la, ficou uns segundos a olhá-la sem que esta tivesse percebido a movimentação e depois regressou ao seu escritório pelo mesmo percurso. Chegou ao escritório e sentou-se na cadeira, pensativo. Tentava encontrar na sua memória aquele rosto, aquela fisionomia, aquele perfil, mas não o conseguia encontrar. Levantou-se e foi à janela do alto do seu nono andar, último do hotel e onde situavam os escritórios da unidade, incluindo o seu. Olhou a paisagem da cidade, sem estar a vê-la, coçou o queixo, coçou o cabelo farto, meio ondulado e meio grisalho. Estava perplexo. Possivelmente, nunca vi esta mulher - pensava - mas ela conhece-me... mas é mais provável ela conhecer-me, porque sou uma personalidade conhecida, do que eu a ela... - continuava - será uma ex empregada? será uma ex namorada? precisará de trabalho? se fosse isso, certamente não teria qualquer problema em dizê-lo, preencheria uma ficha de inscrição nos recursos humanos... - estava mesmo muito perplexo e intrigado - bem, não adianta estar a formular conjeturas, o melhor é receber a senhora e ouvir o que ela pretende... ora se isto agora se torna um hábito, então não vou ter tempo para atender toda a gente que me aparece à frente a querer falar apenas comigo...
- Fernanda, podes mandar entrar a senhora - ordenou à secretária pelo telefone, enquanto se sentava na sua cadeira, colocava os cotovelos nos braços da cadeira, cruzava os dedos das mãos e fitava o olhar na porta de entrada do gabinete.
A senhora bateu à porta. - Entre! - a senhora era um pouco alta, esguia, morena, cabelo curto e usava óculos; vestia bem e dando três passos até à mesa do administrador, fitou os olhos nos olhos dele e estendeu a mão. - Bom dia, senhor Henrique. - Disse - Bom dia, minha senhora, faça favor de se sentar. Obrigado! - Respondia a senhora, sentando-se com sensualidade. Durante alguns segundos, apenas olharam-se, sem nada dizer.
- Então, o que a traz por aqui?
- Não está a reconhecer-me?
- Não, peço desculpa, mas não estou. Nós já nos cruzámos alguma vez?
- Sim, já nos cruzámos.
- Onde e como? E quando?
- Senhor Henrique, o meu nome é Carla e tenho sensivelmente a sua idade.
Carla contou a Henrique muito resumidamente a sua história de vida. Ficou órfã de pai aos dez anos, quando este morreu suicidando-se com uma corda ao pescoço em casa. Ela própria foi quem primeiro viu o corpo do pai pendurado pelo corrimão do varandim interior da casa onde residiam. Eram pessoas com uma vida razoavelmente boa, porque o seu pai era bancário, mas a sua mãe era doméstica, não tinha portanto trabalho. O pai pendurou-se pelo pescoço porque o encantamento com o dinheiro levou-o a não resistir à tentação de tratar um plano para desviar uma forte quantia de dinheiro e concretizou-o. Após alguns meses de investigações, descobriu-se que tinha sido ele, o banco despediu-o e processou-o e a sua mente, como era fraca, não resistiu à pressão e pendurou-se. A sua mãe, além de ter sido obrigada a devolver todo o dinheiro, viu-se com enormes empréstimos para pagar e por isso teve que entregar a casa e tudo o resto que tinha, para saldar todas as dívidas. Desesperada, porque nunca tinha aprendido qualquer profissão e não tinha estudado, entregou-se nas mãos de uma casa de prostituição não conseguindo qualquer trabalho digno para viver e para dar de comer às suas três filhas.
- Eu, na altura, sendo a filha mais velha, fiquei a residir também nessa casa e as minhas irmãs foram entregues numa instituição, onde foram criadas por freiras.
Henrique escutava, curioso, esta história e sem interromper, mas não estava a ver o que ele próprio teria a ver com aquilo.
Mas a senhora continuava serenamente.
A sua mãe, contrariada com a vida que tinha sido obrigada a adotar, iniciou-se na bebida e na droga, para esquecer e para amenizar essa vida desgostosa. Os seus vícios foram tais que apenas demorou cerca de dois anos até que adoecesse e viesse a falecer. Carla continuou na casa de prostituição e acabou por ser adotada pelas mulheres residentes, tendo-se iniciado também nessa prática, a seu pedido, aos dezoito anos. A casa tinha fama de ser frequentada por pessoas da alta sociedade e notava-se nela alguma sumptuosa extravagância e luxo. Os seus aposentos eram muito privativos e possuía inclusivamente algumas luxuosas suites. Naquela casa, existiam sempre algumas "meninas" permanentes e outras que entravam e saíam consoante tinham ou não necessidade de realizar algum dinheiro. Algumas das que se perpetuavam, acabavam por ou arranjar marido e casavam tarde, ou, se não conseguissem acabavam por ficar por lá, para orientar e ensinar as mais novas. A casa prestava alguns serviços também a certas autoridades, para se conseguirem manter à margem de quaisquer fiscalizações e acusações de ilegalidade.
- Certa noite, apareceu um grupo de jovens que vinham de uma festa de aniversário de um deles. A maioria já estava quase inconsciente de tanta bebida que tinham tomado e sabe-se lá mais o quê. Vinham todos interessados em ter uma rapariga por toda a noite. Verificando que os rapazes eram de boa índole e endinheirados, a Madame aceitou encerrar a casa nessa noite ao público, ficando esses dez ou doze jovens com a casa por sua conta. Antes de todos se retirarem aos aposentos, cada um com a sua rapariga, ainda houve champanhe e aperitivos para todos e, um por um, iam escolhendo a sua preferida e recolhendo-se para os quartos. Eu fui escolhida por um jovem que estava praticamente inconsciente, mas era muito simpático, amável, educado e com amante. Todos ficaram até de manhã, à exceção do meu companheiro, que se retirou não sei a que horas da noite, uma vez que eu fiquei a dormir e dão dei conta da sua retirada.
Carla calava-se, na expetativa de escutar algum retorno por parte de Henrique, mas este nem pestanejava.
- Já terminou? - Perguntou Henrique à senhora.
- Mais ou menos. Não se recorda de qualquer história deste tipo?
- Não, não me recordo. Acho que nunca frequentei qualquer casa desse género na minha vida e não me lembro de algum amigo meu me ter alguma vez falado numa aventura assim. - Afirmava Henrique, com um grande grau de convicção - pensava que viria cá pedir emprego ou talvez fosse uma amiga de infância ou de juventude que não via há muito tempo... nunca pensei que me trouxesse uma história hilariante como a que me acaba de contar. - Notou-se no rosto da senhora uma certa transformação, como que se estivesse a sentir incomodada.
- Pois, aquilo que me traz por cá era precisamente isto...
- Lamento o que aconteceu na sua vida, com o seu pai, a sua mãe... - interrompia Henrique, pois estava a sentir que deveria compensar a ligeira rigidez da sua última intervenção, mas também foi interrompido.
- Não lamente, senhor Henrique, que eu também não. O meu pai foi um cobarde ao cometer os atos que cometeu, matar-se deixando três filhas pequenas e uma mulher que nada sabia fazer e ainda mais cheio de dívidas. Eu gosto da minha vida. Foi esta que aprendi e não sou daquelas que lamenta. Encaro esta vida como uma ocupação, como uma profissão como qualquer outra e, digo-lhe... sou muito mais forte do que os meus pais, gosto daquilo que faço e tenho prazer com o que faço. Sei que faço muitas pessoas felizes, que dou a muitas pessoas aquilo que elas não conseguem ter na sua casa, por isso sou feliz. A minha carreira será curta, porque ninguém procura as velhas, no entanto, ainda sou bastante requisitada e faço muitos homens e mulheres felizes. Durante toda a minha vida, tive apenas uns meses de fraqueza e cometi um erro grave, mas não sei como repará-lo.
- Que erro, quer contar-me?
- Não, não lhe vou contar, senhor Henrique.
- Então, tem mais alguma coisa a dizer-me?
Após um instante de hesitação, Carla avançou:
- Sim, tenho. Tenho quase a certeza que o senhor Henrique era um dos rapazes desse grupo que lhe contei há pouco.
- E porque diz isso?
- Primeiro, pela sua fisionomia e aparência me ser familiar, mesmo após todos estes anos que passaram. Depois, porque o senhor Henrique é um homem conhecido, aparece em jornais e revistas, por isso é mais fácil de identificar. Além disso, seria importante para mim, nesta altura da minha vida, identificar todos esses rapazes e, infelizmente, apenas o consigo identificar a si. - Henrique ficava ainda mais intrigado. - o que preciso de si é que me ajude a identificar todos esses rapazes, porque uma de nós ficou grávida nessa noite e eu tenho esta missão de encontrar o pai dessa criança, que hoje se for viva já deverá ser pessoa adulta.
Henrique contorcia-se de tanto se encontrar incomodado. Olhava a senhora, olhava para a mesa, olhava para o teto, coçava a cabeça, virava-se na cadeira, coçava o queixo, olhava a mulher... e esteve nisto durante algum tempo, sempre com a Carla a observá-lo, a analisá-lo e sem nada mais dizer. Interrompeu então o silêncio para afirmar:
- Ok, vou ajudá-la. Sei que festa de anos foi essa. Recordo-me dos colegas e amigos com quem estava na festa, mas não me recordo de qualquer visita a uma casa do tipo da que descreveu. Vou tentar contactar com todos e questioná-los acerca dessa situação. Mas... diga-me, como é que uma prost... desculpe, senhora da vida... não sei como lhe chamar... - Não tem importância, continue. Afirmou Carla. - Estava eu a dizer, como é que uma senhora dessas fica grávida? Não têm proteção para esse tipo de problema?
- De facto! Mas o que aconteceu a essa rapariga, é que esteve por essa altura algo adoentada, com desarranjos intestinais, diarreia e náuseas provocadas por um qualquer vírus e essa situação cortou-lhe por esses dias o efeito da pílula anticoncecional.
- Percebo. E como sabe que foi nessa noite?
- Porque como ela esteve doente, não trabalhou durante quase duas semanas. Essa foi a primeira noite que teve com um homem após ter estado doente e após ter estado medicamentada. Como perdeu a noção do período fértil, terá existido a coincidência do período fértil com o fim do período virusal e ainda com a medicação e com a inibição da pílula. É uma situação rara, mas que pode acontecer.
- Ah, sim, muita coincidência!
Carla levantou-se, estendeu a mão a Henrique e sorriu, perguntando:
- Posso contar consigo? Peço desculpa por ter vindo incomodá-lo, certamente terá muito que fazer, pois é uma pessoa importante e ocupada e, já agora, os meus agradecimentos por me ter recebido nestas circunstâncias.
- Ora, de nada. Prometo que vou ajudá-la. - E trocando contactos, Carla retirou-se com estilo, colocando os óculos de sol.
Henrique estava estupefacto! O que dissera àquela mulher era de facto tudo o que se recordava: a festa, a bebida e recorda-se de acordar no dia seguinte com uma valente dor de cabeça, mas deitado na sua cama, no seu quarto, na sua casa da Rua do Século. Não se recorda da passagem por aquela casa. Teria sido ele aquele jovem que saiu a meio da noite, perdido de bêbado ao ponto de não se recordar de nada? E se foi assim, como terá chegado a casa? Disso, nada se lembra.
Parou por uns instantes. Abriu a gaveta da sua mesa que sempre está trancada à chave. De lá, retirou uma velhinha agenda onde poderá encontrar alguns dos contactos dos seus amigos. Muitos deles, há muito tempo que nada sabe sobre eles, nem fala com eles. Encontrou alguns e começou a ligar para eles, no intuito de os confrontar com aquela história e saber se alguns deles possuem os contactos que lhe falta. Recordava-se de todos quantos tinham participado naquela festa de anos que, por sinal, era a festa dos seus anos.
Todos com os quais falou, após alguma conversa informal de circunstância - o que faziam, onde estavam, estado civil, filhos, etc., confirmaram a sua presença na sua festa. Quanto à visita àquela casa de meninas, nem todos se mostraram disponíveis para falar sobre isso, mas nenhum deles negou o seu envolvimento. Apenas diziam que não queriam falar disso, para não prejudicarem a sua vida, a sua família, para que não chegasse esse acontecimento ao conhecimento das respetivas esposas e filhos.
Um deles, dos quais Henrique não tinha o contacto e o mesmo lhe tinha sido facultado por outro dos antigos amigos de pândega, de nome Gabriel, solteiro, confirmou a sua presença naquela visita, afirmando que ainda por essa altura visita a casa, uma vez que gosta muito das meninas, do ambiente agradável e descontraído e porque, não sendo casado e ter possibilidades para gastar algum dinheiro com esse luxo, lá vai de quando em vez. Gabriel confirmou ainda que Henrique também tinha ido nessa noite àquela casa, a pedido de alguns e após muitos e descontrolados copos. Afirmou que Henrique quase estava inconsciente, apesar de muito alegre e muito bem humorado.
- Olha, Henrique, no dia seguinte, todos nos reunimos pela manhã e não saímos da casa sem tomarmos todos o pequeno almoço com as meninas, uma vez que era domingo, não havia trabalho nem escola e todos éramos solteiros. O único que não apareceu no pequeno almoço foste tu. Ao que parece, saíste durante a noite. - Confessava Gabriel ao telefone.
Henrique agradeceu a todos, em especial ao Gabriel, por ser o único que falou tudo o que se lembrava, sem qualquer problema, possivelmente por ser homem solteiro e sem compromissos. Prometeu a todos que os iria convocar um dia para uma jantarada para recordarem os bons velhos tempos. Demorou alguns dias, até conseguir falar com todos, até porque tinha muito mais que fazer do que apenas preocupar-se com esta situação. Ficou a saber que apenas Gabriel era solteiro e todos os outros eram casados e quase todos tinham filhos. Uns tinham uma vida melhor do que outros, mas aparentemente, eram homens organizados e nenhum deles se tinha perdido, nem falecido, facto que seria motivo suficiente para dar graças a Deus. No entanto, a ronda não o deixou tranquilo. Nada tinha contado a Lúcia acerca deste acontecimento, nem a qualquer outra pessoa. Porém, Lúcia que o conhecia tão bem, já tinha detetado nele algo diferente, achava-o de certa forma alheado, pensativo e silencioso, mais do que era habitual.
Certo dia, Henrique encheu-se de coragem e telefonou para o número que lhe tinha sido facultado pela Carla. Tendo conseguido falar com ela ao telefone, solicitou-lhe uma sugestão de lugar aonde se pudessem encontrar para falar em privado. Carla sugeriu a casa das meninas, indicou-lhe a morada e ele deslocou-se até lá. Afinal, não era muito longe do habitual hotel onde Henrique mais gostava de trabalhar.
Henrique tocou à porta e esta abriu-se, sem que avistassem alguém.
Entrou, periclitante, e voltou a fechar a porta. Do outro lado, era já aguardado por Carla, que o cumprimentava com simpatia e animosidade. Desta vez, Carla não estava tão bem vestida, encontrava-se de facto pouco vestida, com uma capa em tecido de véu um pouco transparente, através do qual se conseguia avistar a sua lingerie. Um pouco incomodado e tímido, Henrique desviou o olhar para a decoração, onde predominavam os véus, os sofás garridos e o chão de ripas de madeira copiosamente envernizadas. Entrando pela casa adentro, Henrique observava uma escadaria percorrida com uma alcatifa ao centro e com corrimão e varandim de estilo clássico. Aquele deveria certamente ser o caminho para o pecado, no primeiro andar. Algumas meninas encontravam-se sentadas nos sofás a conviver, a olhar a televisão e algumas a tomar um chá de meio da manhã. Sendo de dia, possivelmente não haveria clientes.
- Tem cá clientes a esta hora? - Perguntou preocupado.
- Não, estamos sozinhas. - Respondeu Carla, encaminhando-o para uma pequena sala interior, provavelmente um escritório, uma biblioteca ou algo do género. E era mesmo, ambas as coisas, um escritório com bastantes livros.
- Estou a ver que esta casa tem bastante estilo e também alguma cultura...
- Sim, senhor Henrique...
- Apenas Henrique, se me permite!
- Ok, Henrique. Eu sou também apenas Carla. É verdade, as meninas passam grande parte do dia sem atividade e por isso há que ocupá-las com algo. A nossa pequena biblioteca é muito frequentada e apreciada por quase todas. Sabe que, a nossa clientela é bastante exigente. Não vêm visitar-nos apenas para aquilo... são pessoas cultas que gostam de uma boa conversa, gostam de conviver com raparigas que não sejam ocas e que estejam informadas. Por isso, tentamos proporcionar a todas as melhores formas de se cultivarem, saberem falar, escrever, estarem informadas, além de serem elegantes, discretas e conhecedoras. O nosso serviço é muito institucional e, nem sempre é apenas carnal, entende?
- Nunca imaginei!
- Pois, isso é normal, as pessoas imaginam uma casa de podridão apenas, mas aqui passam-se muitas coisas interessantes. O nosso segredo é a descrição, a competência e a satisfação do cliente, em tudo aquilo que ele precisar e que nós lhes pudermos proporcionar.
- Sim senhora, parabéns pelo conceito! Não direi que virei a ser cliente, mas se não fosse comprometido nem feliz, juro que vos iria visitar mais vezes!
- Estamos sempre à disposição, nem que seja apenas para tomar um copo e ter uma boa conversa. A propósito, deseja tomar alguma coisa? Um chá, um café, água, sumo, cerveja, vinho, champanhe...
- Eh, espere lá, a estas horas da manhã, só aceito um café e um copo com água, se faz favor. Obrigado.
- Marisa, traz-me por favor um café e dois copos com água. - Ordenou Carla.
Sentaram-se. Chegou a Marisa com o pedido e saiu da sala. Henrique foi direto ao assunto, para confirmar a Carla que de facto conseguiu falar com todos os colegas e eles confirmaram - principalmente o único solteiro - que nessa noite de aniversário (do meu aniversário) estivemos aqui. Eu quase que estava inconsciente, mas comportei-me bem. Fiquei a saber também que fui eu o jovem que saiu a meio da noite, por isso só me recordava de ter acordado na minha casa, na minha cama e sozinho! Permita-me perguntar-lhe: essa rapariga que ficou grávida ainda está por cá?
- Essa rapariga, Henrique, é a responsável pela casa neste momento.
- E eu poderia falar com ela?
- Está a falar com ela!
- É você?
- Sim! Sou eu!
Henrique não cabia em si de vergonha, ao mesmo tempo que começava a sentir algum repúdio por si próprio.
- E diga-me outra coisa: foi então você que teve essa gravidez? E qual terá sido de nós que esteve consigo nessa noite?
- Fui eu que fiquei grávida, sim! E foi o Henrique que esteve comigo, sim! Fui eu a única jovem que acordou sem companhia, nessa manhã.
- Não sei o que lhe hei-de dizer...
- Desde o início, desde que o vi no seu escritório, que fiquei a saber de imediato que era o Henrique, mas não lhe quis impor a minha versão, preferi que tirasse você mesmo isso a limpo.
- Isso quer dizer que nós temos um filho!!!
- É verdade, só não sei se ele é vivo ou não.
- Então como é isso?
Carla contou a Henrique todo o tempo difícil que passou por essa altura:
- Quando soube da gravidez, entrei numa grande depressão, abandonei a casa e andei quase à deriva pela cidade. Dormi nas ruas, pedi esmola para poder alimentar-me, pedi roupas, sapatos e cobertores na misericórdia e outras instituições, para poder vaguear pelas ruas e não morrer de frio. Escondi a gravidez até que pode e tive o bebé sozinha na rua, com a ajuda de outros sem-abrigo, apenas esses conheciam o meu estado. Poucos dias depois do seu nascimento, dei-o para adoção e nunca mais quis saber notícias sobre o bebé. Andei mais 3 meses pelas ruas, até que voltei à casa, onde me acolheram novamente, me recompus e retomei a minha vida habitual. Hoje, sou a líder da casa. A casa da altura não é esta onde estamos. Mudámos de casa há cerca de cinco anos.
- E nunca mais quis saber do seu filho? Só agora se lembrou dele?
- Não, passados poucos anos de ele nascer e de o dar para adoção, arrependi-me totalmente. Mas sabe que, quando os pais dão os filhos para adoção, recusam o poder paternal sobre eles, por isso, as instituições não informam o seu paradeiro nem o nome da família para onde foi viver.
- E agora, o que pretende fazer? Porque me procurou passados todos estes anos?
- O Henrique é uma pessoa influente, com conhecimentos e com poder. Se lhe interessar saber sobre o seu filho biológico, pode ajudar-me a procurá-lo, já que pelos meios oficiais, é impossível!
- Não sei o que dizer... isto é um grande choque para mim! Não paro de imaginar se isto chega ao conhecimento da minha família... um dia tem que chegar e convém que seja pela minha boca e muito brevemente, pois não vou conseguir viver com este peso para sempre...
- Calculei que pudesse pensar dessa forma.
- O ato que tivemos há tantos anos, foi um passo para mim inconsciente, mas esse facto é difícil de fazer entender aos outros, principalmente os que me rodeiam.
- Mas repare, Henrique, o amor, quando é verdadeiro, ultrapassa tudo!
- Gostava que assim fosse, mas não sei se será assim para o meu caso.
Henrique saiu, despedindo-se, ficando com apreensão acerca de tudo o que tinha ficado a conhecer nos últimos dias e regressou ao seu escritório.