Naquela altura, toda a família conhecida, à exceção dos tios alentejanos, trabalhava nas empresas fundadas pelo meu avô António. Sim, avô, pois apesar de se ter descoberto que ele era de facto o meu avô biológico, para todos os efeitos, o meu pai continuava a ser o seu filho, Henrique, apesar de se ter descoberto que o meu pai verdeiro era o Padre Pedro. Todos sabemos como são os negócios entre família... Como em todo o lugar, existem competentes e incompetentes, quer sejam da família A ou da família B, ou até mesmo sem que seja conhecida a sua família. Na minha família, também os havia... Os bons e os maus, os competentes e os incompetentes, os dedicados e os oportunistas, os trabalhadores e os preguiçosos, os orientados e os avarentos, os capazes e os desleixados. A auditoria que mandei realizar às empresas do grupo demorou quase tanto tempo como o meu curso. A minha leitura e análise à mesma, também demorou alguns meses. Pude assim constatar que a Herança deixada pelo meu irmão, não tinha sido a melhor de se receber. Apercebi-me que a sua proximidade a muitos dos diretores e gestores de algumas das empresas, o seu compadrio com alguns e porventura o seu fraco pulso para ir contra as decisões de alguns dos seus amigos e principalmente familiares, se tinha transformado numa má conduta de gestão para o grupo. O mesmo tinha sido prejudicado com isso. Algumas empresas davam sistematicamente prejuízo, quando os seus diretores e gestores usufruíam de regalias acima das possibilidades dessas empresas e sem que fossem merecedoras das mesmas. Muitos dos quadros anteriormente importantes do grupo, tinha "batido com a porta", devido a divergências com aqueles "intocáveis" por serem amigos ou de família. Descobriram-se transferências para contas particulares e para off-shores sem quaisquer justificações das mesmas. A massa operacional das empresas estava em constante rotação, devido ao mal-estar para com as chefias e porque auferiam os rendimentos mínimos exigidos por lei, sem existir uma política de progressão na carreira, de incentivos aos mais competentes, de prémios aos mais produtivos. Toda a riqueza produzida era distribuída pelos gestores e diretores e por isso o grupo não crescia. O grupo estava estagnado, porque não gerava mais-valias financeiras de forma a reinvestir, restruturar-se, expandir-se. A dívida crescia, muito devido à falta de geração de dividendos, acumulação de passivos e por isso recorria-se ao crédito para tapar os buracos gerados pela má gestão. Estava por isso na hora de colocar um travão a fundo em diversas práticas, reprogramar, eventualmente alterar alguns quadros para pessoas manifestamente competentes.
Engraçado, porque isto era o que o meu irmão tinha feito quando o meu pai lhe transferiu a presidência do grupo. Depois, com certeza que se deixou ir, que se deixou levar, que confiou demais nos que chamava amigos e em alguns incompetentes que só estavam no grupo por fazerem parte da família.
Que Herança pesada eu recebi!
Quando nunca na minha vida havia tido qualquer contacto com a gestão ao mais alto nível... Pois a entidade mais completa que tinha gerido até hoje tinha sido a minha própria vida, de apenas um habitante... Sim, porque as filarmónicas onde fui maestro, não era eu que fazia a gestão das mesmas, apenas realizava a gestão do pessoal artístico e a direção musical de orquestra...
Vejo-me nesta fase da minha vida, confrontado com um novo desafio... Um desafio de tamanha envergadura. Tinha de enfrentar o maior dos lobbies, que era o familiar. Teria de ir contra alguns dos que nos últimos anos tinham feito parte das "cortes" do reinado do meu irmão. O que fiz? O que fiz foi reunir isolada e pessoalmente com cada um dos eventuais substituíveis, quer fossem familiares ou não, para me inteirar acerca dos seus propósitos. Daquilo que tinham feito para levar a sua área de responsabilidade àquele estado, saber quais as suas motivações, por que tinham procedido assim, saber se trabalhavam à margem do meu irmão, ou se ele conhecia todos os seus processos, ações e decisões que tinham originado os maus resultados. Confrontei todos. Detetei algumas mentiras e contradições. Apontei o dedo às más resoluções. Acusei os prevaricadores de deslealdade, não só em termos de desobediência hierárquica, como até familiar e de amizade. Alguns, até os denunciei às autoridades devido às suas práticas puderem ser passíveis de condenação por atos criminosos, ao nível económico-financeiro e até fraudulento, não só perante privados, como perante as entidades públicas.
Esta foi uma das piores fases da minha vida! Eu, que já não tinha em Portugal grandes relações de amizade e a família era, ao fim ao cabo, a minha aura de proteção, até alguma da família tinha agora de combater...
Durante algum tempo senti-me sozinho, sem amigos, com poucas pessoas em quem confiar. Tive até algum receio pela minha integridade e pela vida. Porém, consegui despedir quem tinha de despedir, contratei novos responsáveis para alguns dos negócios através dos seus currículos e competências demonstradas e não pelas amizades nem por laços familiares ou compadrios. Muitos me propuseram pessoas "por conhecimento" (as chamadas cunhas), mas fui inflexível ao meu projeto e ideia de recrutamento e seleção e levei-o inviolável até ao fim.
Infelizmente fui obrigado a reduzir também algum pessoal operacional, para o ajustar às necessidades das empresas, com a promessa de que, os mais capazes, competentes e leais, poderiam voltar mais tarde, após terminado o período de desemprego financiado, se o grupo voltasse aos números positivos.
Cerca de um ano demorou esta reestruturação. No ano seguinte, os resultados começaram a aparecer. Reiniciámos um percurso de renovação e de reinvestimento em algumas áreas há mais tempo em necessidades, começámos a recuperar alguns bens que já tinham iniciado uma fase decadente, começámos a renovar as frotas e as maquinarias mais antigas e, no final do segundo e início do terceiro ano de reestruturação, voltámos a contratar mais operacionais, após termos também incrementado os salários e regalias daqueles que tinham continuado connosco.
Estes foram para mim anos de muito trabalho, de poucas horas de sono, de muitas viagens de negócios, de muitas visitas às unidades para tentar acompanhar de perto o desenrolar das operações, mas foi também um período de muita alegria, crescente motivação. Sentia que as pessoas estavam do meu lado e se sentiam impelidas a ajudar-me nesta missão de salvação de todos os que lá trabalhavam e respetivas famílias.
Foram dez anos de muita luta. A conjuntura ajudou. As pessoas boas ajudaram e até a minha mãe tinha ficado estupefacta, não só quando teve conhecimento do estado no qual o meu irmão deixara as empresas, como também da volta que eu e a minha equipa conseguimos dar por cima.
Mas a Herança do meu irmão não ficou por aqui... Ele não tinha, ao que se soubesse, deixado qualquer testamento e a sua mulher e minha cunhada Dulcineia, após ter conhecimento de tudo os que nós aos poucos fomos descobrindo, foi-se revelando alguém que até então nunca tínhamos notado que ela conseguisse ser. Foi-se desligando dos filhos, deixando-os, os mais velhos já em idade universitária e escolar, entregues a si próprios e os mais novos, entregues aos cuidados das empregadas que ao mesmo tempo eram também quase como que "amas". Quando o meu irmão faleceu, os cinco filhos tinham idades compreendidas entre os vinte e dois e os quatro anos. A mãe deles iniciou uma vida meio depravada de saídas noturnas e namorados, viagens sem nada informar e longos períodos sem aparecer em casa. Com a minha mãe igualmente já um pouco idosa, mas a gozar da sua aposentadoria da melhor forma que podia e eu sem tempo para os meus sobrinhos, tinham mesmo de ser outras pessoas a cuidar deles, alimentá-los, levá-los à escola, tratar dos assuntos inerentes. Todos vivíamos no Arvorete, mas já sem o Gonçalves e a Albertina, porque tinham já falecido, novas pessoas tinham sido contratadas para cuidar daquela casa e das suas pessoas. A minha "tia" Mary Smith (Quiose), que também ainda era viva nessa altura, ainda vivia no Arvorete. Dos seus três filhos, Mary, Bruno e Elvita, as mulheres haviam casado, sendo que Elvita decidiu residir na sua própria casa, Mary casara e tinha ficado também lá a residir com o marido, assim como o solteiro Bruno. Os filhos deles também obviamente lá viviam com os pais, por isso, o Arvorete mais parecia, por essa altura, uma instância hoteleira do que uma casa de família, com tudo o que isso comportava, em termos de logística, empregados e muito mais.
Muito à conta disto, a minha mãe decidira passar mais tempo fora a viajar ou em casa de amigas, principalmente na casa da sua amiga "mais-que-tudo" que em sua própria casa. Mary Smith acabava por ser a pessoa que orientava todas operações domésticas e logísticas naquela casa, uma vez que não trabalhava e apenas estava dedicada a essa atividade doméstica, e que já não era pouco...
Portanto, esta foi a Herança que me deixou o meu irmão e eu, troquei a minha vida solitária e mais descontraída, por esta vida, com tanta gente ao meu redor e bastante agitada. Porém, em tudo há vantagens e desvantagens. Assim, experimentei ambas as formas de vida, por isso não posso alegar ignorância em qualquer uma delas.
Em qual delas fui mais feliz? É difícil de dizer. Ambas são diferentes, ambas têm coisas boas e menos boas, em qualquer delas podemos ser felizes, isso só depende de nós mesmos, do nosso estado de espírito e da forma como encaramos a vida e o empenho que colocamos nela.