Toda a família aguardava no hospital as notícias trazidas pelo médico cirurgião chefe da equipa que operara Lúcia. Filipe e André estavam muito ansiosos, assim como Henrique, que não parava de caminhar de um lado para o outro, possuído pelos nervos. Maria Smith e os filhos, também se encontravam presentes, assim como Aníbal e Maria da Cruz, que tinham tirado uns dias de folga, deixando as propriedades ao cuidado dos fiéis empregados, para acompanharem a irmã e cunhada nestes dias difíceis e cujo apoio e dedicação seriam necessários. Amélia também tinha feito questão de estar presente e acabou por conhecer toda a família durante esta espera. Delmiro tinha-se ausentado, sempre atarefado com as suas tão importantes diligências. Outro assunto igualmente importante e pertinente estava a ser praticamente desvendado, uma vez que tinham saído notícias acerca do exame de ADN do Padre Pedro.
Enquanto aguardavam na sala de espera, um televisor encontrava-se ligado, mas quase ninguém lhe prestava atenção, a não ser Amélia que, como não tinha grandes assuntos de conversa a tratar com aquelas pessoas, só ela prestava atenção à emissão. Nesse momento, apareceu em rodapé no televisor a informação de que um conhecido malfeitor e criminoso, acabava de se enforcar dentro da cela onde residia. A notícia despertou a atenção de Amélia, que continuou a ler e pediu aos presentes se poderia aumentar um pouco o som. A notícia dava conta que António Quiose, conhecido criminoso que acabara de sair da cadeia havia poucas semanas, era acusado de ter cometido novo homicídio de importante empresário da nossa praça e por isso encontrava-se detido, como medida de coação decretada pelo juiz do processo de primeira instância, devido aos antecedentes de perigosidade do indivíduo. O homem, com idade cerca dos sessenta anos, acabava de se suicidar por enforcamento, dentro da sua cela, pelo que até ao momento não era possível fornecer mais informações acerca do acontecimento. E de imediato o pivot do telejornal avançou para outra notícia, sem mais delongas nem mais informações. Na sala, todos tomaram notícia e consciência do que tinham ouvido, nada disseram, apenas olhavam uns para os outros e para a Maria Smith e seus filhos ali presentes, que também nada comentaram.
- Bem, este já se conseguiu livrar de mais uma condenação... podia ter feito logo isso na primeira vez que esteve preso... - comentou por fim Henrique, enquanto Maria Smith e os filhos o olhavam com alguma indignação, mas contiveram-se na resposta e nada disseram, ao fim de contas, ele era "família", apesar de todo o mal que cometeu, mas compreende-se o sentimento de Henrique de que "foi feita justiça", uma vez que ele já tinha assassinado membros da sua própria família e não se saberia quem poderia ser o próximo eleito... Para Smith e filhos, nada conseguiam comentar, uma vez que tinham consciência das malfeitorias que o marido e pai havia protagonizado. Além do mais, após o encarceramento de Quiose, foi a família Alfonso que acolheu a mãe e os filhos, os ajudou a acabarem de criar-se, os educou e formou, por isso os seus corações encontravam-se divididos entre o luto pelo criminoso e o eterno agradecimento pelas boas ações desta família para com eles.
- Caríssimos - interrompe o cirurgião, após abrir a porta dupla de par em par e avistar os familiares de Lúcia - a operação correu muito bem, a Lúcia ainda se encontra a dormitar, acordando lentamente da anestesia, e possivelmente, estará no hospital poucos dias!
Ouviu-se um geral "Ahhh" e alguns sorrisos entre abraços uns aos outros, enquanto Delmiro entrava também na sala:
- Estou a perder alguma coisa? - Perguntou.
- Correu tudo bem, por isso estamos felizes... - disse André.
- Ainda bem, graças a Deus e aos excelentes profissionais desta maravilhosa equipa! - Acrescentou Henrique - já ouviste a outra notícia, Delmiro?
- Sim, ouvi na rádio, pelo caminho... temos que falar depois, agora vamos comemorar! - Retorquiu Delmiro.
- Quando poderemos ver a Lúcia? - Perguntou Aníbal ao médico.
- Já a podem ver, apenas duas pessoas de cada vez, mas por enquanto somente ao longe, pela vidraça e em silêncio. A Lúcia não vai ainda poder falar convosco, poderão apenas avistá-la e acenar-lhe, se ela vos reconhecer.
Assim foram, dois a dois apenas de cada vez, ver Lúcia, sentir o seu respirar e quiçá os seus olhos entreabertos.
Depois disso, todos se dirigiram para o Arvorete, onde os esperava Albertina e Gonçalves com um pequeno lanche de convívio e fraternização.
Nesse momento de felicidade, Delmiro aproveitou para chamar à parte Henrique e Amélia, no intuito de lhes contar o que ele próprio já sabia.
- Caros amigos, após todo o trabalho de investigação que tenho desenvolvido, ultimamente auxiliado aqui pela Amélia (os meus agradecimentos), há que desvendar finalmente as conclusões a que cheguei e que confirmam as hipóteses que levantei inicialmente e que, a pouco e pouco, se foram, uma a uma, verificando reais e por isso absolutamente confirmadas.
- Estás a deixar-nos “em pulgas”! - Interrompeu Henrique, enquanto aparentava alterações no seu sistema nervoso.
- Pois sim, e não é para menos... - Continuava Delmiro – É já do conhecimento de todos que o Senhor António Alfonso se meteu no negócio obscuro das casas de alterne, iniciando com uma, devido a problemas de consciência e no intuito de ajudar algumas das pessoas que lá trabalhavam, portanto motivos humanitários, mas acontece que a certa altura terá iniciado uma relação mais íntima com uma das senhoras de uma dessas casas, ao ponto de praticamente – pelo que se consta no meio – terá obtido a exclusividade dos serviços amorosos (sexuais) dessa senhora durante algum tempo. Por motivos que se desconhecem e que dificilmente poderão vir a conhecer-se - porque ambos já faleceram - essa senhora ficou grávida, o que veio a revelar-se, para ela, um motivo de aprofundamento da sua grave situação psiquiátrica depressiva. Veio a ter essa criança, que entregou num lar de freiras, onde já tinha entregue duas das suas filhas cerca de mais de um ano antes. Essa senhora, não era, nem mais nem menos do que a mãe da Cláudia, da Amélia e da Filomena (freira). Essa última criança era um rapaz, de nome Pedro, que hoje é Padre. O Senhor Padre Pedro. - Delmiro continuava, enquanto os seus ouvintes escutavam com toda a atenção, sendo que a única novidade até agora confirmada era a filiação do Padre Pedro: filho de António Alfonso e, portanto, meio irmão de Henrique; facto que deixava este com um ar intrigado. Enquanto Cláudia se fazia mulher dentro da casa de alterne, a qual mais tarde veio a tomar gerência, os irmãos Amélia – aqui presente - Filomena e Pedro, cresciam no lar das freiras com toda a normalidade.
- A próxima parte conto eu! - Interrompeu Amélia – Eu o meu meio irmão Pedro, sempre fomos muito chegados, apesar de termos cinco anos de diferença. Quando ele era pequenino saíamos à cidade, passeávamos, fazíamos recados às freiras, brincávamos em parques e no campo de regresso ao convento, fazíamos piqueniques, etc. Mas muitas vezes a Filó também nos acompanhava. Certo dia, indo apenas nós os dois, parámos no campo para descansar na relva húmida e fresca e algo se passou dentro de nós. Sentimo-nos atraídos um pelo outro, ambos ainda virgens, eu tinha vinte anos e ele tinha quinze, mas já feito um mocetão! Essa foi a primeira e a única vez que aconteceu. Sentimo-nos bem na altura, mas depois a consciência pesou fortemente e começámos lentamente a afastar-nos um do outro, até ao ponto de, praticamente não nos falarmos. Seriam certamente os remorsos pelo pecado cometido. Mas nunca contámos a alguém o que quer que fosse a esse respeito. Poucos meses mais tarde comecei a sentir sintomas de gravidez, situação que vim a confirmar e saí do lar para encontrar emprego e fazer-me à vida, longe de todos. Trabalhei para um patrão muito bom que me aceitou apesar do meu estado de gravidez e custeou-me todas as consultas, exames e ajudou-me na altura do parto. Porém, depois do tempo de licença de maternidade, o restaurante encerrou e fiquei sem trabalho. Desesperada e em estado depressivo, decidi abandonar o meu filho, aproveitando a confusão das multidões que se encontravam nas ruas à data da revolução de abril de 1974.
- Agora continuo eu... - disse Delmiro com autoridade – Conclusão a que chegamos: o menino abandonado pela Amélia em 74 é, nem mais nem menos do que o mesmo que Lúcia encontrou, ou seja, o André! Portanto, o André é biologicamente filho do Padre Pedro e da Amélia e biologicamente neto de António Alfonso, por via deste ser pai biológico do Padre Pedro. Resumindo, todos estes anos, e o teu filho André, caro Henrique, tem o teu sangue, apesar de não ser teu filho biológico, mas sim teu filho adotivo e neto do teu pai. Na prática, o André é biologicamente teu sobrinho. Coincidências, não é?
- Nem sei o que te dizer... As voltas que o mundo dá e, afinal, um filho da família veio parar à sua família biológica... Só por obra da Graça de Deus! É por isso que continuo a acreditar que Deus existe e “está no meio de nós”! - Confessava pasmado Henrique, não mostrando na sua face nem no seu coração qualquer sinal de indignação ou revolta, antes pelo contrário: no seu íntimo, a sua afeição e amor que agora sentia pelo seu filho adotivo André, mantinham-se intactos – se por ventura isso era possível? – Sabendo que esse rapaz, não sendo seu filho biológico, tinha na realidade o seu sangue, porque era, ainda assim, neto do seu pai e seu sobrinho, portanto.
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Assim de desvendava o maior mistério existente nesta família: a origem do bebé André. Nunca tinham pensado que alguma vez viesse a ser possível descobrir-se a origem dessa criança. No entanto, a sua afinidade com o seu avô – agora sabemos que era de sangue - mostrava-se ser tão ligada e intensa, que era difícil de explicar a razão pela qual esses dois tinham tamanha aproximação. Nada comparada com o carinho e afeto que António Alfonso também dedicava ao Filipe, o seu neto “varão”. Será que António conhecia a sua existência e a sua origem? Terá alguma vez na sua vida obtido algum sinal que lhe indicasse a existência dessa outra família escondida, algures entre uma casa de alterne e um convento de freiras, ou seja, algures entre o pecado e a virtude, ou seja, algures entre o mal e o bem? Se soubesse, porque não informara a sua família conhecida acerca desse facto? E apenas a informou acerca da existência dessas casas de alterne das quais era proprietário? Ou então, sabia, mas não quis informar tudo, deixando aos cuidados de Delmiro uma eventual investigação que o levasse a esse conhecimento. Na dúvida, ficaremos todos, pois apenas na cabeça de António, cujo cérebro e memória já se apagou, é que residiam essas informações. Com elas viveu, com elas morreu, elas o acompanharam para o outro mundo. Deste lado de cá, dos vivos, ficou assim a dúvida, a incerteza, que se irá perpetuar, pelo que perpétua e eterna ficará a memória deste Senhor António Alfonso que conseguiu conviver simultaneamente com o bem e com o mal, com a virtude e com o pecado, com o amor e carinho da família e com os segredos de uma vida privada obscura e escondida.
Não estarão o bem e mal de facto tão próximos que se podem tocar? Não estarão ambos no limiar do encontro? Não estarão ambos intimamente ligados? Difícil, mas real é imaginar como dentro do mesmo corpo se podem encontrar conceitos não antagónicos e repelentes. De facto, a única coisa que separa o bem do mal é a consciência. Se não existir consciência, bem e mal convivem lado a lado, como amor e paixão, como ganância e orgulho, como vaidade e exagero. Todos estes conceitos, não sendo o oposto um do outro, caminham geralmente lado a lado. Se o bem e o mal apenas existem se existir consciência, então apenas os seres racionais possuem essa distinção. Um gato, quando mostra as suas unhas (garras), geralmente não é para arranhar nada ou ninguém, é apenas para tocar, chamar a atenção. Ele de facto apenas usa as unhas para agredir, no caso de se sentir ameaçado, ou seja, utiliza as suas armas em legítima defesa. Como acontece com o exemplo do gato, assim acontece também com todos os animais: utilizam as suas armas apenas para se defenderem, isto é, a arma é a mesma, quer seja para o bem, quer seja para o mal. Nós, os humanos, uma vez que possuímos mais alguns genes que os animais, que nos facultam uma maior diversidade de características, nelas se inclui a consciência. Por isso, utilizamos armas diferentes com o bem e com o mal, mas de facto a intensidade de sentimentos é idêntica, tanto para o bem como para o mal. São pois questionáveis determinados dogmas teológicos que defendem a tendência para o mal dos seres humanos, o chamado “pecado original”. Todos nascemos como animais, despidos, sem saber falar, nem andar, nem comer, nem voar, nem correr. Tudo o que somos, aprendemos a sê-lo, com os nossos pais e educadores, com a nossa família, com os nossos amigos, colegas, professores e com todos aqueles que se cruzam no nosso caminho. Com todos, aprendemos coisas boas e coisas más. De todos assimilamos experiências e ensinamentos. Absorvemos o ambiente que nos rodeia e, ao crescermos, vamos continuamente ganhando hábitos, vícios, maneiras de ser e de estar, vamos ganhando consciência do que o mundo, o que lhe podemos dar e o que dele podemos usufruir. Depois, apenas fazemos escolhas, tomamos decisões e, essas, são racionais. Dessas, irá depender o nosso futuro. Ao tomarmos decisões, abrimos caminhos que, com novas decisões, abrem novos caminhos após esse. A diferença entre este “abrir de caminhos” e o circular por caminhos em qualquer mapa, é que, em relação àqueles, nós não podemos voltar a reabrir portas já encerradas, não podemos percorrer o caminho no sentido inverso. Se o tentarmos fazer, então não o estamos de facto a fazer. Estamos sim a abrir novos caminhos noutro sentido que, portanto, levarão a outros lugares e situações diferentes, nunca iguais. Nesses lugares, existem outros cenários, outras pessoas, outras experiências.
Esta é a responsabilidade de sermos humanos, de sermos seres racionais. Esta é a responsabilidade de termos que responder pelos nossos atos, pelas nossas decisões. Responder não só perante os outros, mas principalmente e essencialmente perante nós próprios. Se cada um pensa que a culpa de alguma coisa que acontece é sempre de outros, está enganado. Porque o nosso maior inimigo somos nós próprios. Cada um é que tem de responder perante si próprio – perante a sua consciência – se a sua atitude, decisão ou ação o beneficiou (sem prejudicar outros) ou o inverso (mas igualmente sem prejudicar outros). Quando tomamos decisões, elas devem sempre ponderar o poder de decisão que o outro também tem (como nós). Muitas vezes tentamos persuadir o outro e precipitar nele tomadas de decisão contra a sua vontade. Por vezes temos sorte – ou uma consciência mais "conscienciosa" – mas outras vezes, erramos e por isso, somos responsáveis por uma decisão ou atitude errada do outro. A isto chama-se manipulação, à qual geralmente fugimos à responsabilidade, se a “coisa dá para o torto” e, então, dizemos que a decisão não foi nossa, foi do outro, quando, afinal, nós fomos os “manipuladores” da decisão do outro. Assim, a nossa autonomia termina fora do âmbito do nosso ser (corpo e razão). Se pisarmos esta linha, estamos a invadir o território do outro, por isso, estamos a comprar uma guerra na qual não pensámos vir a participar.
A história que temos vindo a narrar, desde o primeiro volume, tem-nos conduzido através destes caminhos, de tomadas de decisão que cada personagem tem vindo a tomar e do consequente desfecho que tem encerrado para cada uma. Porém, a história (caminho) que cada um traça durante a sua vida, não termina com a sua morte. O seu rasto, quer seja bom, quer seja mau – e muitas vezes tem ambas as vertentes – deixa sempre consequências para os outros. A vida que se segue à morte física de cada um, tem de ser continuada por quem ainda continua vivo. As decisões têm que continuar a ser tomadas e as ramificações do caminho têm que continuar a abrir-se e construir-se. E assim, de geração em geração, vão-se criando os destinos de cada um, que começam sempre no passado e ainda não se encontram escritos no futuro. Por isso, o futuro não existe. O futuro é o presente renovado a cada hora, a cada momento, através de cada atitude ou decisão tomada. Após a ação, quer seja boa ou má, nada é já igual ao que era há uns instantes atrás. O futuro está assim a ser construído através das ações do presente, tendo por base as ações do passado. Atendendo a que o presente se encontra constantemente ultrapassado, por se tratar do momento que no segundo seguinte já é passado e que ainda não é futuro, então podemos afirmar que a única coisa que existe de facto, com toda a certeza, é o passado. Esse sim, não pode ser negado, porque é o resultado de constantes ações do presente, segundo após segundo.
Por maiores previsões que se possa fazer sobre o futuro, apenas por golpe de sorte, se consegue acertar em pleno e em tudo. As previsões são conjeturas que se fazem com base na aprendizagem do passado, tomando determinadas decisões no presente. Mas se algo imponderável acontece – isso sim é uma certeza – de imediato falham as previsões. É por isso que tudo o que é natural, como o são os fenómenos da natureza, é imponderável. Assim, as previsões poderão ser consideradas como aproximações à realidade e não como certezas inequívocas de que irão acontecer.
Apesar de o leitor estar a pensar que esta história caminha para o final, engane-se, pois nenhuma história tem um final. Todas as histórias são passíveis de continuarem. Todas continuam, obrigatoriamente. Desde a primeira linha do primeiro volume, muito tem evoluído nesta história e, após cada revelação, parece que tudo está resolvido. Mas não. O primeiro “Testamento” trouxe-nos revelações impensáveis de Joaquim do Cruval e no segundo “Testamento”, o de António Alfonso, a surpresa possivelmente ainda foi maior, além de todos os mistérios que entretanto nos foram desvendados. Porém, as nossas personagens têm ainda muitas decisões a tomar, que irão proporcionar a abertura de novos caminhos à frente dos que estamos a percorrer. Que efeitos terá a doença de Lúcia no desenrolar da vida familiar? Que dirá e pensará André, quando souber quem são os seus pais biológicos e tiver conhecimento de que o seu avô era de facto seu avô biológico? Que relação irá manter Henrique com o seu meio irmão, o Padre Pedro? E Amélia, irá reaproximar-se da sua família ou irá optar por procurar uma relação mais estreita com Delmiro? Qual será o futuro das empresas em crise? O que poderá acontecer aos bens da família e às propriedades do Alentejo? Qual será o futuro de André na sua vocação musical? Os velhotes Albertina e Gonçalves viverão para sempre? Filipe estará preparado para o embate da crise financeira e ajudar os seus pais a superá-la? Que fim terá Cláudia, se for julgada como culpada na autoria do crime de assassinato contra António Alfonso? Que pensarão os leitores desta abordagem à história que o autor decidiu neste momento colocar no discurso do narrador? Ele próprio estará, com certeza, a construir o seu próprio caminho, traçando os seus próprios percursos, que o levarão sem dúvida a algum lugar irreversível, esperando ele que esse lugar seja para seu bem, mas principalmente para bem de quem acompanha com interesse e entusiasmo as palavras que aqui são partilhadas. Neste caso excecional, o autor é obrigado a manipular as personagens que criou e dar-lhe vida, construir ele próprio o caminho que deseja para cada uma. O mesmo não poderia acontecer se ele estivesse a lidar com pessoas de verdade: a manipulação aí não seria uma boa conduta.
Vistas as coisas por este prisma, em cada história, em cada passagem, o autor coloca algo de si mesmo em cada situação, em cada personagem. Tanto algo que adveio da sua experiência de vida pessoal, como de situações que ele próprio gostaria que tivessem acontecido na sua vida e não aconteceram ou ainda, por outra via, situações que ele poderá ainda viver ou que gostaria de viver um dia ou vice-versa (que não gostaria nunca de viver). Nessas histórias a que muitas vezes chamamos de ficção, há muitas vezes uma "fricção" entre o real e o imaginário, elas não são de facto ficção, uma vez que, na mesma história, o autor poderá incluir uma miscelânea de outras histórias que já viu, que já ouviu, que já presenciou, que já conheceu, que já viveu ou simplesmente que já leu, algures, e que deseja dar-lhe novas roupagens e diferentes nomes e a isso chama-se imaginação e criatividade. Será que a ficção existe mesmo? Ou ela será apenas o resultado de uma combinação de todas essas experiências de vida? Desta vida e porventura até de outras vidas, se é que isso é possível e se é que isso existe. Cada autor assim, na opinião deste, usa a escrita para levar os seus eleitores a pensarem o que ele pensa, a refletirem sobre o objeto que interessa ao autor. Ao fim ao cabo, “levar a água ao seu moinho”, “puxar a brasa à sua sardinha”!