Depois da Missa de corpo presente, a família e os inúmeros amigos presentes, foram enterrar António Alfonso. Toda a cerimónia foi revestida de grande discrição e sobriedade. Admiravelmente, muitos dos antigos empregados de António, quiseram marcar a sua presença no último adeus ao ancião. Este é o reconhecimento de que foi devido às escolhas desse homem, que eles puderam ter uma vida, um emprego, uma família, que puderam ter filhos e criá-los. As centenas de pessoas que rodeavam o carro funerário, na esperança de dizer um último adeus, rezar uma oração pela sua alma ou de apenas mandar uma singela flor para cima do caixão, qualquer motivo servia para que a consciência destas pessoas as tivesse chamado para este lugar.
A data do funeral tinha sido atrasada, para que André pudesse ter o tempo suficiente para vir dos Estados Unidos participar no último adeus ao seu querido avô. Ele mesmo pediu ao seu pai para que o avô não fosse enterrado enquanto ele não chegasse. André, como todos os outros, também adorava o seu avô, mas ele sabia que António tinha uma predileção especial por este seu neto mais novo. Apesar de ser época de exames, André não hesitou em decidir mesmo viajar, aproveitando assim para também matar saudades do país e da família. Além disso, como bom estudante que era, tinha todas as matérias mais ou menos bem encaminhadas mas tinha trazido consigo os livros e apontamentos mais importantes, para aproveitar os curtos tempos livres em Portugal para estudar, mais especificamente durante as longas viagens de ida e volta de e para a América, uma vez que em família, não teria certamente muito tempo para o fazer, já se sabe por quê!
Logo após o digníssimo funeral, todos regressaram ao Arvorete, onde se encontrava preparado um discreto lanche da praxe e durante o qual a família poderia aproveitar para colocar as novidades em dia. Delmiro aproveitava para informar a família que tinha conhecimento acerca do testamento de Alfonso e prendia marcar uma reunião familiar para a sua abertura e leitura. Henrique não sabia que o seu pai tinha deixado testamento, mas seria pouco provável que não o tivesse feito. Não esperava que o seu pai os deixasse tão cedo, ainda mais porque vendia saúde, atendendo à sua condição e idade. Muitos da sua idade, há muito que já tinham partido e muitos outros apesar de ainda viverem, sem sempre a sua saúde era a mais invejável. Apesar de não se encontrar diretamente ligado ao escritório de advocacia há já alguns anos, havia clientes dos quais Delmiro nunca deixava sem lhes tratar de resolver os seus assuntos. Não era de facto ele que os tratava, mas encaminhava-os para que o escritório o fizesse. Um dos assuntos, foi o testamento de António, amigo que nunca abandonaria na hora de este querer narrar os seus últimos desejos para a posteridade.
Henrique também pretendia falar com Delmiro acerca da situação do seu filho que queria procurar e, uma vez que esta tarefa de investigação era uma das que o advogado mais gostava de realizar, certamente que a sua resposta seria positiva. Delmiro, após conhecer todos os pormenores narrados por Henrique, ficou estupefacto com tais acontecimentos ocorridos algures no passado de Henrique, mas prometeu que esse iria ser o seu processo prioritário, neste seu regresso à vida profissional longe da política.
Filipe partilhava com os seus as primeiras experiências como trabalhador numa das empresas da família. O pessoal com o qual contactava era muito atencioso e ajudava-o bastante na sua integração na empresa. O diretor para o qual faz assessoria, fornece-lhe constantemente todo o apoio e toda a informação essencial ao seu trabalho e Filipe acabou por confessar que o seu pai é um grande gestor e que, por isso, se respira motivação, confiança e lealdade nas suas empresas e, por isso, a sua produtividade é maior e a sua vontade de ajudar a empresa a crescer é bem patente no seu dia-a-dia.
André trazia boas notícias dos Estados Unidos. A sua formação estava a correr muito bem e tinha até sido convidado a ser maestro convidado e auxiliar de uma orquestra metropolitana de Los Angeles, função que serviria também como estágio prolongado no âmbito do seu curso e cuja remuneração o viria a tornar independente financeiramente, não necessitando assim das transferências habituais que a mãe lhe fazia, para colmatar as suas despesas.
Maria da Cruz anunciava a abertura recente da sua nova fábrica de queijos, mais moderna, maior e com possibilidade para multiplicar por dez a atual produção de queijos, juntamente com uma nova secção onde se iniciará a produção de compotas de tomate, frutas e abóbora e ainda os respetivos armazéns, para guardar a produção antes de ser canalizada para a distribuição. Os contratos de fornecimento com grandes e pequenos distribuidores e retalhistas estava em marcha e por isso, os negócios no Alentejo iriam sofrer com certeza um grande incremento, conseguindo também, assim, criarem mais emprego naquela zona onde os postos de trabalho são sempre escassos. Muita da produção dos pomares cuidados por Aníbal, iriam fornecer a maior parte da matéria prima para a confeção das compotas, à exceção do tomate, cuja cultura Aníbal não explorava. A anos prósperos de chuva e estado do tempo propício às culturas, seguiam-se muitas vezes alguns anos de seca, pelo que a diversificação de atividade no Alentejo era benéfica à estabilização e complementaridade dos negócios.
Nos Estados Unidos, André começou há algum tempo com a ideia de descobrir a identidade da sua mãe biológica. Ainda não tinha comentado com alguém esta sua intenção. Mesmo não tendo qualquer necessidade afetiva, emocional ou material, André sentia que algo dentro dele não estava completo e a maioridade trouxe-lhe outros horizontes que antes não avistava, quando era apenas criança e adolescente. Começou a achar que tinha o direito a conhecer a sua família de sangue, uma vez que a família mesmo, a verdadeira, era esta que o tinha acolhido com tanto entusiasmo e que educou e formou com valores importantes a um crescimento e aprendizagem saudável, os quais André atribuía e agradecia a estes seus pais, irmão e restante família, que sempre o tratou e acolheu como um filho de sangue. Não ia ser fácil com certeza transmitir à família esta sua intenção, no entanto, sempre obteve dela toda a verdade que originou a sua filiação legal. Da família biológica de André, nunca mais se soube qualquer notícia. Nunca souberam que alguém o tivesse procurado ou se tivesse arrependido de o ter abandonado ainda bebé na confusão daquela manifestação popular onde Lúcia o encontrara, embrulhado num pobre manto e quase desnudado, apenas acompanhando-o o bilhete deixado pela sua triste e moribunda mãe. Passou-se toda a receção e passaram-se aqueles dias no Arvorete, sem que André tivesse, acerca desse assunto falado com quer que fosse.
Henrique passou a Delmiro todas as informações e contactos de que dispunha, para que este pudesse encetar a sua investigação na procura do paradeiro do seu filho ainda desconhecido. Marcaram também o dia e a hora da leitura do testamento de António Alfonso. Lúcia não queria envolver-se muito no assunto da investigação ao filho de Henrique que, a existir, seria o seu mais velho. Apesar de apoiar o marido em tudo o que fosse preciso, o seu coração estava ainda algo doído com essa história, pelo que optava por não se envolver em demasia.
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No dia em que estava combinada a leitura do testamento, Delmiro compareceu no Arvorete, onde todos se encontravam presentes, à exceção de André que já tinha regressado aos Estados Unidos e o casal alentejano, cuja conteúdo não lhes dizia grande respeito, uma vez que a sua ligação ao falecido António era apenas de afinidade. Era um sábado. O dia estava escuro, apesar de estarmos em pleno Maio e ameaçava chover e trovejar. As árvores do Arvorete dançavam, mais parecendo uma tentativa de se esquivarem ao agressivo vento que se fazia sentia e notar. Tanto, que soprava ferozmente por entre as fendas das antigas janelas e portas de madeira envernizadas. Não parecia trazer grande agoiro aquele mau humor atmosférico. Naquela casa, sentia-se em cada canto, em cada móvel, em casa cortina, em cada quadro, a presença de António. Há muitos anos que tinha enviuvado e já dessa época que a decoração e disposição dos móveis e adornos daquela casa se mantinham intactos. Senti-se ainda nos livros da biblioteca o cheiro dos livros nos quais estava entranhado o aroma dos charutos e ainda do antigo cachimbo de António. Definitivamente, aquela casa pedia com a sua morte um dos seus principais alicerces. Ao contrário do que acontecera com o testamento de Joaquim, que Delmiro conhecia porque o tinha redigido, ele não sabia nada acerca do que António tinha deixado escrito para os seus queridos herdeiros, uma vez que já estava na política quando foi escrito, assinado e reconhecido notarialmente. Seria portanto, também para ele uma surpresa o seu conteúdo.
"Queridos familiares, estou a escrever-vos estas minhas últimas palavras e confissões, não porque tenha alguns bens a quem os queira destinar especificamente, pois todos eles são vossos já, souberam multiplicá-los ainda durante a minha vida e tudo o que têm feito, tem sido muito bem e por isso não é minha intenção criar qualquer distinção ou discriminação entre vós, como filhos, netos, amigos e empregados. Tudo está portanto, nesse aspeto bem encaminhado para que eu, ao fechar os olhos, possa descansar em paz. Assim, não é por razões materiais que vos escrevo, mas por razões de consciência. Durante a minha vida com a minha falecida esposa, a mãe do Henrique, sempre lhe fui fiel e ela sempre foi a minha companheira eleita de sempre. O seu desaparecimento foi para mim um trágico acontecimento e ocasionou uma enorme dor no meu coração, por isso, a partir desse momento, apenas a dedicação ao trabalho e à família que restava e à que posteriormente me foi dada, o meu maior e único objetivo de vida. Porém, um homem é fraco, a carne é fraca e por isso, também eu não fujo à regra e, com muita frequência, procurei noutras mulheres sem compromissos satisfazer esses desejos dos quais nunca consegui abdicar, enquanto os tive. As frequentes visitas a esse tipo de casas, além do envolvimento carnal que proporcionavam, também me fizeram deixar envolver no negócio. Numa dessas casas, cuja localização poderão encontrar no anexo deste testamento, houve a certa altura uma grave crise de clientes que iria mandar para as ruas muitas das meninas que lá trabalhavam. A minha amizade pelas senhoras responsáveis dessa casa e também a minha compaixão, levou-me a comprar essa casa e passar a ser o dono do negócio, com o objetivo de o salvar e de salvar das garras da perdição das ruas aquelas pequenas que lá trabalhavam. Passado algum tempo, o negócio começou a prosperar e eu comecei a ficar entusiasmado e ambicioso pelos resultados do negócio. Sempre me mantive incógnito e fiz essa questão, até hoje. Após essa casa, fui responsável pela abertura de muitas outras, cujas moradas e responsáveis da gestão também vos informo em anexo. Muitos dos investimentos que fiz quando vocês ainda eram jovens, foram possíveis com o dinheiro gerado nesse negócio. Durante alguns anos - antes da revolução - se não fossem os lucros deste negócio, não teria conseguido sustentar as nossas fábricas e a nossa família e bens da altura. Essa é portanto a outra parte do nosso património que vocês desconheciam, mas que durante bastante tempo nos sustentou. Como já referi, sempre me mantive à margem, mas sempre consegui encontrar as pessoas responsáveis de forma assertiva, tais que gerissem esses negócios como se fossem seus, de forma leal e sem que nunca tivessem mencionado o meu nome onde quer que fosse. Essas pessoas, aguardam a vossa visita, para que resolvam o que quiserem resolver a esse respeito. Deixo isso nas vossas mãos. Se a minha conduta passada não vos deixar confortáveis, peço desculpa pelos meus erros e opções e espero que um dia, lá bem fundo do vosso coração o perdão a este velho desvairado possa ter lugar. Numa dessas casas, a primeira, existiu uma senhora que um dia lá apareceu com uma filha, a solicitar guarida, alegando que tinha ficado sem família e sem casa porque não tinha onde viver e o que fazer, pois ninguém lhe dava trabalho. Essa senhora acabou por ser uma das minhas principais companheiras enquanto lá esteve - não durante muito tempo, talvez entre um a dois anos - mas que lá se perdeu, viciando-se na bebida e na droga, até que um dia desapareceu, deixando lá a sua filha menor. Soube-se que ela tinha engravidado uns meses mais tarde, apareceu morta, mas já não estava grávida quando a encontraram. Não sei porque estou a contar-vos esta história em particular... Penso que será porque, após a minha falecida esposa, esta terá sido a única mulher por quem ainda senti algo diferente do que apenas <um desejo carnal> e mais uma vez o meu coração encontrou o desgosto da perda. A todos por igual desejo que tenham umas vidas muito felizes, que se amem uns aos outros e que se mantenham unidos durante toda a vossa vida. Aos pais, que façam tudo pelos vossos filhos, como eu também fiz. Aos filhos, que respeitem os vossos pais... e que grandes pais que vocês têm, por isso, estimem-nos! Aos amigos e empregados, espero que a minha vida vos tenha sido fácil e que a minha amizade tenha sido para vós um motivo de louvor. Que Deus vos abençoe e que me perdoe e que a terra me seja leve... Amo-vos muito a todos!"
Todos ficaram silenciados com o que tinham escutado. Ninguém se atreveu a interromper Delmiro na sua leitura, mas os seus pensamentos percorriam todo o caminho da descrição de António. Afinal, aquele homem não tinha sido apenas aquilo que se conhecia. Afinal as suas vidas tinham sido construídas em cima de uma plataforma de um negócio ilegal que, por sorte, nunca fora descoberto, mas que não dignificava a família. Entre o bem e o mal, a passagem é muito estreita e a fronteira é muito ténue, porém António agiu consoante a sua consciência e meteu-se num negócio ilegal, mas com a intenção de fazer o bem. Mas sabendo que não era bom, nunca quis assumir a sua condição de dono do negócio. Provavelmente para não penalizado ou preso. Quiçá para manter a integridade moral da sua família e a manter longe de um potencial escândalo social. Conseguiu. Mas também conseguiu deixar para a família um enorme problema entre mãos, para resolver. Henrique, por mais que a sua cabeça pensasse, não conseguia encontrar uma saída para resolver este problema. O que estava feito, já não podia desmanchar-se... tinha sido às custas do pagamento de prazer que as suas vidas tinham sido possíveis... e isso era difícil de engolir. Para toda uma sociedade, para a qual António Alfonso era um arauto do exemplo social, afinal todo esse castelo que tinha construído era afinal de areia e não de pedra firme. O que para Henrique agora contava era que, de facto, com o dinheiro mau, ele e Lúcia tinham construído o seu castelo de pedra. António pagou na terra, com o seu sofrimento e com o que de bom proporcionou aos seus empregados e à sua família, o castigo do mal que cometeu, sendo esse mal revestido com uma capa de bem e, por isso, sempre foi escondido e camuflado. Ninguém na sala ousava fazer o primeiro comentário. Gonçalves e Albertina, aqueles leais servidores de António e as pessoas que daquele grupo o tinham conhecido melhor e com os quais mais tempo ele tinha passado durante a sua vida, não conseguiam ver nele qualquer mal, por isso comentava o mordomo:
- Este senhor foi de facto um grande senhor, foi o pilar desta família e há que honrar o seu nome, a sua vida e a sua obra!
- É esse o espírito, Gonçalves. Apesar de todos estarmos chocados com este impressionante depoimento, há ainda muito mais a fazer do que simplesmente seguir em frente e esquecer. Não temos nada para esquecer, só temos para agradecer. - Opinou Delmiro.