Na segunda-feira seguinte, Delmiro dirigiu-se ao gabinete de Henrique para acertarem os pormenores acerca da investigação. O advogado com vocação para investigador já tinha em mente a maior parte das histórias importantes a ter em atenção: a história da Carla, a história da mãe da Carla, a história da visita de Henrique e dos amigos à casa das meninas enquanto jovens. Delmiro achava importante saber em que instituição a mãe de Carla tinha entregue as suas filhas que deu para adoção e também onde a própria Carla tinha deixado o seu filho - principal objetivo desta investigação. Porém, Delmiro discutia com Henrique a intrigante ligação de António Alfonso às casas de alterne. Será que existe alguma relação entre a casa de Carla e a sua história e a narração oculta de António? Henrique não queria acreditar nessa eventual coincidência.
Voltando ao seu trabalho e projetos profissionais em curso, Henrique sentia a necessidade de ocupar a sua mente com tudo aquilo que de facto lhe trazia maior realização, deixando para segundo plano os problemas pessoais que em breve obterão resolução.
Delmiro saiu dali e dirigiu-se imediatamente à casa de Carla. Ela recebeu-o com a cortesia com que habitualmente receciona todas as visitas. O diálogo foi curto, mas incisivo. Carla voltou a narrar pelas suas próprias palavras toda a sua história e aquela de que se lembrava, a respeito da sua mãe. Informou-o acerca do nome da instituição onde tinha deixado o seu filho e do qual nunca mais recebeu qualquer notícia, nem procurou saber, nem poderia saber. No entanto, com o decorrer de todos estes anos e, possivelmente com as alterações e democratização das leis da adoção, provavelmente já havia condições para que se pudessem vir a obter mais informações.
- E António Alfonso, dona Carla, alguma vez ouviu falar dele?
- O pai do Henrique? Claro que sim!
- Sabe que ele faleceu por estes dias...
- Soube. E estive no funeral, apesar de ter optado por uma posição discreta. Ninguém deu por mim, certamente.
- Sabe, Carla, o senhor António deixou um testamento... - Tendo sido interrompido por Carla, para dizer:
- Sim, o senhor António é o dono desta casa. Desta e de muitas outras. Mas aqui, ele há bastante tempo que não vinha. Desde há uns anos a esta parte, deixou de nos visitar. Falávamos quase tudo pelo telefone e por carta, para um apartado que ele possuía, para não receber as nossas cartas em sua casa.
- Pois, é que ele deixou-nos as moradas e os nomes das responsáveis de todas as casas que possuía, mas esta não consta.
- Provavelmente, deixou a antiga morada e o nome da antiga responsável, que há poucos anos deixou de ser e passou a responsabilidade para mim, na mesma altura em que mudámos de instalações.
- Mas sobre isso, o Henrique irá depois tratar. Diga-me uma coisa: a instituição onde a sua mãe deixou as suas irmãs foi a mesma onde você deixou o seu filho?
- Eu penso que sim. Na altura não existiam muitas por estes lados - ainda hoje não há - mas a minha antecessora aqui na casa, provavelmente poderia saber.
- Está bem, eu pergunto na instituição, pode ser que me saibam dar essa informação. Obrigado por tudo. - Levantando-se e despedindo-se, saiu.
Imediatamente, Delmiro dirigiu-se à instituição indicada por Carla, tendo sido recebido e pediu para falar com a pessoa responsável daquela casa. Trata-se de uma instituição religiosa, orientada por uma congregação de freiras, há bastantes décadas. Sendo uma instituição conservadora, provavelmente seria difícil, pensava Delmiro, conseguir obter determinadas informações.
A responsável aproximava-se ao fundo do corredor, acompanhada pela noviça que tinha recebido Delmiro na receção do estabelecimento. Enquanto caminhavam, Delmiro observava-as. Parecia que a noviça vinha já tentando adiantar alguma coisa à madre. Ambas vestidas com as habituais vestes usadas por religiosas: mas estas vestiam de azul médio (nem claro nem escuro) e creme muito clarinho, quase branco. A noviça era bastante nova, pelo rosto de pele lisa e sem marcas, vincos ou rugas e pela voz suave, não teria mais do que 25 anos. Quanto à madre, mais grave, forte e alta, possuía uma imagem de mais idade, provavelmente dentro dos 50, 55 anos, usava óculos fundo de garrafa, um visível sinal na ponta do nariz, meio descaído para a esquerda, de onde se notava o crescimento de dois ou três grossos e negros pelos. Caminhava com as mãos nos bolsos e de olhar prostrado no chão.
- Bom dia, senhor, diga, o que o trás a esta humilde casa?
- Bom dia madre - apontando a mão direita para um cumprimento e fazendo uma vénia simples com ligeira inclinação da cabeça para a esquerda, Delmiro continuava - o meu nome é Delmiro Salvador, sou advogado e neste momento estou a levar a cabo uma investigação por conta de um cliente e amigo, que provavelmente já terá ouvido falar: Henrique Alfonso - olhava a freira nos olhos, sem que esta esboçasse qualquer reação, apenas tirou a mão direita do bolso das vestes para cumprimentar Delmiro e apontar o caminho a uma porta, provavelmente de uma sala onde iriam continuar a conversa.
- Com licença, vou deixá-los à vontade - dizia a noviça, enquanto se retirava, com um sorriso e uma ligeira vénia.
- Obrigado, irmã - respondia Delmiro.
- Até já irmã - retorquia a madre abrindo a porta para a qual apontara e entrou primeiro de Delmiro, segurando a porta espera que ele entrasse. Depois, fechou a porta e... - pode sentar-se, senhor Belmiro.
- Delmiro, irmã, se me permite - corrigia, sentando-se num dos três sofás em pele castanha mais pequenos, enquanto a madre se sentava na ponta mais próxima do sofá triplo, perto de Delmiro. - Continue.
Delmiro contou tudo o que sabia à madre e a razão pela qual ali se encontrava. À medida que continuava a falar, a madre apesar de escutar com muita atenção, nada dizia, mas as suas expressões alteravam-se, como que a tentar procurar na sua memória alguma coisa parecida com a que estava a ouvir. Quando finalizou, não se lembrando de mais nada para dizer - como se tivesse à frente de um padre a receber o sacramento da confissão, do perdão - calou-se e ficou a aguardar a reação da freira.
Esta, olhou de baixo para cima, inspirou fundo, cruzou os dedos das mãos, colocando os braços em cima do colo das pernas envoltas no manto religioso, depois olhou fixamente o Delmiro, que a observava atentamente ligeiramente debruçado, para tentar ler nele as intenções do seu interior. O advogado tinha um olhar doce, meigo, para não dizer ingénuo, propriedade imprópria para os normais profissionais deste ramo. A madre leu essa imácula no seu rosto, associado ao seu agradável sorriso. Afundou-se mais no sofá, descruzou os dedos das mãos e decidiu-se a falar. Ele também se recostou para ouvir melhor.
- Caro senhor, fiz um esforço por me recordar do caso que me apresentou. Sabe, eu estou nesta casa há cerca de 30 anos, por isso já experimentei aqui as mais diversas, complicadas e esquisitas situações. Há desde crianças que entram cá recém-nascidas, como crianças ou adolescentes até aos 16, 17 anos de idade. Depois, aparecem das mais variadas maneiras: pais que os entregam porque não podem cuidar deles; que os deixam à porta sem darem a cara; crianças que ficam órfãs devido a acidente ou doença dos pais e não têm família ou a restante família não pode ou não quer sustentá-los e criá-los; crianças que são retiradas a famílias complicadas ou devido a dependências de droga ou álcool ou devido a prostituição das mães ou devido a violência doméstica... enfim, de tudo um pouco. Nós existimos e estamos cá para isso. Foi para cuidar destas vítimas da sociedade que Deus nos escolheu e nos chamou. Normalmente, não existe qualquer tipo de informação à posteriori acerca do paradeiro dessas crianças às suas famílias, se elas existirem. São raros os casos em que os pais ou as famílias vêm recuperar as crianças. Uma vez entregues, quase nunca há reversão nessa decisão. Às vezes aparecem cá, principalmente as mães, quase nunca para os contactar, mas apenas para os ver, ou seja, num gesto de egoísmo e mutilação, do qual discordo, mas que compreendo. Mais difícil ainda é aparecer assim uma pessoa como o senhor, que nem é pai, nem é família, embora, segundo diz, vem representar uma eventual. Naturalmente, seria muito difícil que após tantos anos decorridos sobre os acontecimentos que me narrou há pouco, que me recordasse. No entanto, essas foram situações algo insólitas e por isso ficaram na memória.
Enquanto Delmiro escutava muito atentamente a madre, ela iniciava a sua versão dos acontecimentos dos quais se recordava. À medida que contava, mais pormenores se ia recordando. Apesar de atento, os olhos de Delmiro percorriam as paredes, quadros e móveis daquela sala. O mobiliário era negro, com bastantes decoros e roscas clássicas, ao centro, uma grande mesa da mesma mobília, encimada com um tampão de vidro bem grosso e ao seu redor, estacionavam-se seis cadeiras. As paredes eram decoradas com quadros de pessoas, provavelmente importantes ex-directores, ex-bispos, ex-padres e ex-madres. Pendurado no tecto, um exuberante candeeiro de cristais pendurados em forma de pinga gigante. Junto àquele conjunto de sofás, uma pequena mesa coberta com uma toalha castanha escura, segurava um candeeiro de mesa, também de cristais e alguns papéis com escritos semelhantes a recados ou listas.
A primeira história que contou foi a das meninas, cuja mãe desesperada e sem dinheiro para as sustentar, lá as entregou para adoção. Essas meninas, como já não eram bebés, nunca foram escolhidas por qualquer família. Uma delas, nunca chegou a sair dessa casa e tornou-se religiosa. Ainda lá se encontra em serviço, portanto, fácil de encontrar. Quanto à outra, seguiu o seu caminho, saindo da casa após atingir a maioridade e encontrar trabalho. Chama-se Amélia, mas há uma série de anos que não visita a instituição, nem a irmã. Quando saiu de casa, empregou-se num restaurante, a partir daí, não se sabe mais nada acerca dela. A mesma mãe, após cerca de um ano e meio a dois anos sobre a entrega das primeiras filhas na instituição, voltou a essa casa pedir asilo. Apresentou-se num estado completamente lastimável e depauperado, relativamente à primeira vez que visitara as irmãs. A sua aparência era de muito magra, com bastantes carências, com mais rugas, olheiras e com uma coloração esquisita.
- Como é óbvio, acolhemos a senhora, não nos tendo apercebido de imediato da total gravidade seu estado. Além do que já referi, a senhora trazia um bebé na barriga, com cerca de 4 a 5 meses de gestação. Poucas semanas depois de já estar connosco, é que soubemos do seu estado de gravidez, no entanto, imediatamente nos primeiros dias, percebemos que aquela senhora se encontrava a fugir de situações muito complicadas. Sofria a falta da droga e do álcool dos quais estava dependente e, como são substâncias que por aqui não temos, ela penou duro sofrimento durante algumas semanas por falta delas. Ao mesmo tempo, sabendo do seu estado de gravidez, quis encontrar uma forma de reabilitação, para não prejudicar a saúde do filho. Fugia também da vida de prostituição em que vivia. Residiu connosco durante o resto dos meses até ao nascimento do bebé e depois abandonou-nos em segredo, vindo a ser descoberta morta numa rua da cidade, junto a um caixote de lixo. Nunca tivemos conhecimento acerca da causa da sua morte. Deixou-nos porém o seu bebé também connosco. Durante os meses em que viveu connosco, as suas meninas viveram muito felizes e ela própria, sempre foi muito prestável, ajudando-nos na instituição com as crianças e com as atividades domésticas.
Delmiro não pestanejava, a ouvir a descrição e desabafos da madre. Já sabia de cor toda a decoração da sala e os tiques e maneiras da madre. De vez em quando tomava notas, mas fazia questão de não interromper o seu raciocínio. A freira continuava, dizendo que esse bebé também cresceu na instituição, nunca foi adotado e foi sempre um menino muito inteligente, mas algo rebelde.
- Chamava-se Pedro, assim quis a sua mãe. Pedro sempre foi muito chegado a sua irmã Amélia, apesar dos cinco anos de diferença que tinham. Amélia gostava muito, ao contrário da irmã, de sair, passear pela cidade e, desde muito pequeno que ela gostava de levar o irmão. Foi sempre assim até à altura em que Pedro tinha cerca de 15 anos e Amélia cerca de 20 anos. Muito repentinamente, Amélia decidiu que tinha que encontrar emprego e queria sair da nossa instituição e conseguiu. Essa foi uma ideia que a perseguiu e insistiu nela durante alguns dias, apesar de nós a tentarmos demover, aconselhar-me calma e a oferecer a nossa ajuda, mas ela meteu isso na cabeça e ninguém lha conseguia tirar. Depois de sair, demorou mais de um ano até regressar. Às vezes visitava-nos, assim como à irmã, mas por essa altura, deixou de perguntar pelo irmão e demonstrava que não se queria cruzar com ele. - E fez uma pausa. - Quer tomar alguma coisa, senhor Delmiro? Estou cansada, preciso de um chá. Deseja também um? Ou café, ou água?
- Já que oferece, agradeço sim, madre, pode ser um chá também, como a irmã, obrigado!
A madre tocou um pequeno sino que se encontrava naquela pequena mesa, junto ao candeeiro e, num instante, apareceu a noviça, à qual efetuou o pedido.
- Enquanto não vem o chá, vou mostrar-lhe as partes principais deste nosso humilde convento, venha - e levantaram-se, saindo da sala, caminhando em redor do claustro interior, que contornava um jardim central razoavelmente bem tratado. Após uma volta completa ao claustro, avistaram a noviça, que trazia o chá e alguns biscoitinhos. Seguiram com o olfato o agradável aroma que saía da chaleira, voltaram a entrar e a sentar-se nos mesmos lugares. - Obrigado, irmã, até já! - Disse à jovem religiosa.
- Irmã, e esse jovem Pedro, esteve na instituição durante muito mais tempo? - pergunta Delmiro, enquanto sorve o primeiro gole de chá.
- O rapaz sempre foi muito inteligente. Esteve cá até que concluiu a licenciatura em teologia. Ordenou-se Padre pelos 26 anos neste momento é pároco e cónego aqui na cidade. Acumula ainda com a responsabilidade do Secretariado Patriarcal. Fala-se em que poderá vir a ser um dos escolhidos pelo Papa para ser nomeado Bispo Auxiliar na Diocese da capital!
- Que honra para esta casa, não?
- Sim, esta casa, além de estar ao serviço da Igreja, está também ao serviço dos pobres e dos desfavorecidos, não só em termos materiais, mas principalmente os espirituais. - E continuava. - Sabe, há 20, 30 anos atrás, não podíamos falar em nada do que se passasse aqui, no que diz respeito às crianças entregues e o seu destino e futuro. O gesto dos seus parentes em os entregar, desvinculava-os por completo da responsabilidade de responderem por eles e de saber acerca da sua vida, salvo raras exceções. As leis entretanto mudaram, hoje em dia os direitos e a defesa dos interesses das crianças são soberanos e, por isso, já não podem existir segredos mal guardados. Por isso é que me é permitido falar consigo, porque investiga para pessoas interessadas.
- Muito bem! Eu sou advogado, conheço mais ou menos as leis...
- Sim, queria apenas justificar a minha abertura a contar-lhe todas estas histórias. Bem, quanto à senhora, a Dona Carla. Ela de facto apareceu-nos cá com cerca de 20 anos, também. Trabalhava numa casa de prostituição e ficou grávida. Como não podia permanecer lá nesse estado, veio ter o filho aqui e cá o deixou, sem que nunca mais tivesse perguntado por ele. Depois, regressou à casa. Esse bebé foi adotado com cerca de seis meses.
- Esse é o principal elo que ando à procura. Sabe para que família foi esse bebé?
- Não sei de memória, mas antes de sair, passamos na secretaria e consultamos o arquivo.
- Muito bem, madre, fico satisfeito com as informações, apesar de lamentar todos os dramas que têm passado por aqui...
- Senhor Delmiro, esta é a nossa missão! Deus convoca-nos todos os dias a cumpri-la. Quando estamos aqui a falar nestes casos, poderá pensar que estamos a exagerar. Mas repare, a sociedade em geral nem imagina a quantidade de casos que existem de famílias que abandonam os filhos, ou que os entregam, ou que lhes são tirados pelos tribunais... é um drama impressionante! Houvesse mais família a querer adotar ao mesmo ritmo com que outros perdem os filhos...
- Estou a ver que sim, irmã, a agitação do mundo não ajuda à consciencialização de muitos dos problemas sociais que existem e que, muitas vezes levam as pessoas a cometerem atrocidades e crimes. Bem, agora só preciso de correr atrás de descobrir onde está a Amélia e este último menino. Ele tinha nome?
- Nós chamávamo-lo por Paulo. Habitualmente atribuíamos aos bebés recém-nascidos nomes de Apóstolos, Santos, Santas. Não sei se a família mudou o nome. Antigamente, quando as crianças tinham ainda idade inferior a um ano, era permitido aos pais mudar o nome. Tente averiguar isso.
- Sim senhora! Bem, vou retirar-me. Agradeço muito a sua ajuda, em nome dos meus clientes. Agora, se não se importar, vamos ao arquivo para me fornecer o nome da família do Paulo.
- Vamos lá então! E não tem nada que agradecer... Já agora, pedia-lhe apenas o favor de me informar aquilo que descobrir de novo, está bem?
- Com certeza que sim, irmã.
Delmiro saiu dali com bastante informação, apesar de a informação principal ainda não a ter conseguido. Conseguiu levar consigo também o nome da família do Paulo.