Toda a família surgiu de surpresa no Arvorete, acabados de chegar do aeroporto.
Gonçalves, ao abrir a porta da mansão, não queria acreditar naquilo que tinha à sua frente. Mudou de cores, beliscou-se e, passados uns segundos a olhar fixamente, como se tivesse sido paralisado, exclamou:
- Senhores!!! Que boa surpresa! Entrem, entrem, esta é a vossa casa! - e abrindo a porta de par em par com uma mão e fazendo uma vénia, indicava com o outro braço o caminho da entrada.
- Oh, Gonçalves, deixa-te de cerimónias e dá cá um abraço - dizia Henrique sorrindo e caminhando de braços abertos ao encontro dos braços do mordomo.
- Menino Henrique, por quem é!? Obrigado! Façam o favor de entrar! - respondia timidamente Gonçalves, já um pouco ancião mas mantendo todo o esplendor de sempre, enfiado naquela tradicional e estupidamente bem lavada e vincada (e algo ultrapassada) farda.
Lúcia também o cumprimentou, assim como os meninos.
- Continua na mesma, Gonçalves! - Comentava Lúcia enquanto lha apertava a mão seca e rugosa.
- Olá Gonçalves, tudo bem? - Simpático, Filipe recordava-se de Gonçalves, enquanto André:
- Quem é este senhor? - Respondia a mãe:
- Este senhor é o nosso amigo que cuida de quase todos os assuntos da casa do avô António.
Entrando, avistavam António Alfonso sentado no sofá, que ainda não se tinha apercebido do que se estava a passar. Os seus ouvidos tinham-se agravado durante estes anos. Já usava uns aparelhos para conseguir ouvir melhor, mas neste momento, não os tinha nas orelhas. Logo que os avistou, correu que nem um garoto a abraçá-los emocionado e sem conseguir gesticular quaisquer palavras, tal era a inibição causada pela situação. Abraçava-os, mas não conseguia falar, deixando cair algumas lágrimas daqueles olhos também moribundos. Logo que conseguiu falar:
- Cheguei a pensar que já vos iria ver antes de morrer!
- Oh pai, não diga isso, estamos cá de volta, isso é que é importante!
- Mas, vêm para ficar? - Notava-se um aumento ainda maior da felicidade.
- Já falamos sobre isso. Agora, vamos sentar-nos e descansar um pouco - sugeria Lúcia - e onde estão todos?
- A Mary foi à cidade e os pequenos estão fora também, na escola e assim - respondia António.
- A Albertina está na cozinha - informou Gonçalves num sorriso.
- Vou lá fazer-lhe uma surpresa - dizia Lúcia.
- Não, vamos todos! - Ordenada Henrique - Gonçalves, se não se importa, peça ao taxista para o ajudar a retirar as bagagens e dê-lhe depois isto - uma nota para pagar o serviço, já com a gorjeta necessária a compensar o favor.
- Sim senhor, imediatamente!
Albertina, que tratava do jantar, também ficou imensamente emocionada ao vê-los de forma tão surpreendente, principalmente os meninos, como tinha crescido: o Filipe estava muito crescido e com feições diferentes e o André, também crescido, mas ainda com aquele lindo rosto de bebé grande. A empregada entrou de imediato em preocupações adicionais, devido à preparação dos quartos e ao aumento da comida para o jantar.
- Não te preocupes Albertina, eu ajudo-te com as tarefas - ofereceu-se Lúcia.
- Nem pensar! A senhora? Não! Não é necessário.
- A sério, quero ajudar-te. Aliás, no Brasil não tinha qualquer empregado e fazíamos tudo o que era necessário em casa, por isso, faço questão de te ajudar. A culpa de não estares preparada é nossa, porque não vos avisámos da nossa chegada.
Lúcia estava bastante diferente. Embora antes já fosse uma mulher muito prestável e humilde, foi a dureza da emigração que a tornou mais competente nas lides domésticas, sempre dispensando empregados, a não ser no engomar da roupa.
Tinham chegado a meio a tarde ao Arvorete. Estava um dia de muito calor, em pleno Junho. A brisa que soprava do lado sul era seco e quente. Henrique aguardava que Lúcia terminasse a ajuda a Albertina, para começar a conversa importante com o pai. Neste momento, o assunto era mais banal e informal, sobre o que estava a acontecer de um lado e do outro do Atlântico.
Entretanto, chegava ao Arvorete Mary, que trazia com ela os três filhos. Foi também para eles uma surpresa terem-se deparado com a presença da família Cruval Alfonso. Os jovens estavam adultos feitos, bem parecidos, mais com a mãe e todos de pele morena. Notava-se em Mary mais uns quilos de peso e mais algumas rugas na face, mas continuava elegante, bem apresentada e bem vestida. A estadia de Mary no Arvorete, tinha-lhes causado benefícios evidentes. Por um lado, as despesas com uma eventual compra ou aluguer de uma casa, era desnecessária, por outro lado, a educação dos 3 filhos era uma missão deveras complicada e dispendiosa, mas a própria casa e os seus habitantes, viviam assim com a companhia de gente mais jovem, por isso todos tinham saído beneficiados. Mary tinha acesso às contas bancárias deixadas por António Quiose antes de ir para a cadeia e o dinheiro disponível era ainda considerável, no entanto quando apenas se gasta e não se repõe - pois Mary não chegou a procurar trabalho durante estes anos, com a intenção de apoiar os seus filhos e António Alfonso em tudo o que fosse necessário, assim como na ajuda aos empregados nas suas tarefas, uma vez que estes tinham também já uma idade algo avançada.
À hora do jantar, Henrique e Lúcia informavam os presentes acerca das suas intenções. Após os tumultuosos tempos da década de 70, que os obrigou a optar pela emigração para o Brasil, era altura de voltarem a Portugal e tentarem recuperar as antigas empresas que lhes pertenciam antes das nacionalizações. Pensavam que estavam reunidas as condições políticas e económicas para enveredarem por esse objetivo. O trabalho que tinham desenvolvido no Brasil tinha sido bastante positivo, uma vez que valorizaram o seu património através de investimentos sustentados e com hipótese de internacionalização, iniciando-a em Portugal. A sua intenção era a criação do grupo Cruval Alfonso, no qual juntariam o grupo de empresas do Brasil ligadas à hotelaria e restauração, com as suas ex e futuras empresas em portugal na área da transformação de produtos alimentares e a produção agrícola do Alentejo. Teriam para isso que falar também com Aníbal e Maria da Cruz sobre o assunto. Tinham conhecimento das intenções do Governo Português de reprivatizar o setor industrial do Estado, por isso iriam propor a reaquisição das suas anteriores empresas, o reinvestimento e modernização das mesmas e até a sua expansão nos negócios, com a criação de mais unidades de produção para outro tipo de produtos, essencialmente na área dos congelados, enlatados e produtos frescos embalados. Constituir-se-ia assim uma cadeia de produção, transformação e colocação nas futuras unidades hoteleiras e de restauração em Portugal, no Brasil e noutros países onde viessem a implantar o negócio, assim como a venda a outros operadores nacionais e estrangeiros. Graças ao trabalho desenvolvido não só nestes anos, como nos anteriores à revolução e ao futuro a desenvolver, capital não iria faltar para a expansão, não sendo necessário recorrer a grandes financiamentos bancários, apenas os que fossem estritamente necessários, optando pela atração de investidores parceiros que tivessem pode de injetar capital nas sociedades anónimas a criar.
A sua deslocalização não seria imediata. Pretendiam que os filhos ficassem a estudar e a residir no Alentejo, com os tios e primos, pelo menos até terminarem o ensino secundário. Eles próprios, teriam que regressar ao Brasil para tentarem encontrar as pessoas certas para a continuação da gestão criteriosa e sustentável dos negócios naquele país e apenas regressariam definitivamente a Portugal dentro de alguns meses.
António Alfonso ficou muito satisfeito com as decisões e ideias do filho e nora, mas alertava-os para a grande instabilidade financeira que ainda se vive no país. Portugal em poucos anos tinha recorrido duas vezes a ajuda financeira por parte do FMI, os governos eram instáveis e existia muita alternância, governos provisórios curtos de iniciativa presidencial, que não tinham sido bons para o desenvolvimento do país e as dificuldades era ainda enormes. Os juros e a taxa de inflação tinham sido galopantes nos últimos anos, mas às custas disso, muita gente tinha também ganho muito dinheiro. A Reforma Agrária tinha sido uma furada: ao fim de 4 ou 5 anos, as terras eram devolvidas aos donos e estes encontravam-se, na sua maioria falidos e sem capacidade de investimento. Aníbal tinha tido sorte porque nunca lhe foram retiradas as suas terras e pode assim continuar a trabalhar e a desenvolvê-las. Mas quase todos os que se tinham associado e confiado nas cooperativas, continuavam praticamente na mesma. Só conseguiram enriquecer aqueles que tinham algum poder dentro das cooperativas e, quanto aos outros, saíram como entraram e, agora, tinham voltado a trabalhar com os antigos proprietários. Quanto à indústria que foi nacionalizada, não sofreu qualquer investimento por parte do Estado e, de tudo o que existia, degradou-se e o parque industrial está neste momento obsoleto, antiquado e sem hipóteses de grande desenvolvimento, antes pelo contrário, estamos mais perto de encerrar empresas do que expandi-las. Os custos de produção aumentaram bastante devido ao aumento dos direitos dos trabalhadores, por ação dos sindicatos, que frequentemente marcam greves infindáveis, obrigando os diretores a negociarem mais regalias e direitos, sem que se vislumbre qualquer aumento na produtividade. Os dinheiro que as administrações gastam em custos sociais, não o podem gastar em desenvolvimento e inovação e, por isso, as fábricas perdem competitividade, diminuem as exportações, à medida que cada vez mais produtos temos que comprar ao exterior, para satisfazer o aumento do consumo das famílias, que, vendo-se com mais disponibilidade financeira, pretendem melhorar a sua qualidade de vida aumentando o seu consumo, que muitas vezes é supérfluo. Não queria o antigo gestor António Alfonso com isto dizer que as pessoas deveriam viver na miséria. O problema não era esse, porque, para vidas miseráveis, já tinha chegado aquelas que se viviam nas décadas passadas. O que ele queria constatar era que as famílias estavam habituadas a viver com muito pouco e que agora começavam a poder viver melhor, mas isso não era para elas sinónimo de racionalizar o seu consumo. Uma vez que tinham melhores condições de vida, em vez de pouparem, começavam a habituar-se a gastar tudo o que ganhavam, não precavendo o seu futuro e o dos seus filhos, através da poupança ou do investimento e isso estava a ser nocivo para a sociedade portuguesa. Criticava ainda os políticos de não conseguirem visionar esta situação. As pessoas satisfeitas dão votos e isso é apenas o que interessa e não a sustentabilidade do país. Se o país for aceite na CEE, poderá entrar ainda mais dinheiro e António mostrava-se preocupado que esse dinheiro viesse a ser gasto em obras e estruturas megalómanas ou desnecessárias, não se apostando no desenvolvimento das estruturas produtivas: indústria, agricultura e pescas, capazes de nos tornar de certa forma sustentáveis e não tenhamos a curto prazo que ir todos para a praia, enquanto os estrangeiros nos vendem o leite, a carne, as batatas, os ovos, a couve e o azeite, uma vez que já nos vendem a farinha para fazermos o pão, porque a nossa produção não é suficiente. Teme ainda que esses dinheiros que vão entrar no país, sirvam para aumentar a corrupção e se perca dentro das gavetas dos gabinetes ministeriais ou seja escondido em contas de bancos suíços.
É preciso muita coragem e ter os pés bem assentes na terra, para investir neste momento no nosso país, dizia António, alertando os jovens empreendedores para os perigos e riscos que essa decisão poderá acarretar.
- Por mim, já estou velho, não tenho muito a perder, mas para vocês e para os vossos filhos, isso já não acontece, por isso, aconselho toda a prudência e muita cabecinha e olho bem aberto - acrescentava António.
- Tem razão pai, temos acompanhado tudo, mesmo longe, o que se passa no nosso país, no entanto viver as coisas mais de perto é outra história. Contaremos sempre com as suas sábias opiniões e com os seus experimentados conhecimentos. Afinal, o dinheiro não é só meu, é de todos e, por isso, há que ter a aprovação e consentimento de todos os principais investidores, que somos nós. Não nos precipitaremos em decisões tomadas sem a devida ponderação, estudo e reflexão, disso pode ter a certeza! E depois, temos aqui uma excelente diretora financeira - apontava para Lúcia - que passa tudo a pente fino e não deixa qualquer dúvida em vão.
O que o casal pretendia de facto é que estes projetos fossem abraçados por todos com empenho, dedicação, vontade e espírito de inovação e, com certeza que conseguiriam.
- Amanhã mesmo, partiremos para o Alentejo, para falar com o Aníbal e com a Maria da Cruz, para começarmos a trabalhar no que for necessário. - Informava Henrique
No dia seguinte, o casal e os miúdos levantaram-se cedo e após a higiene pessoal, tomaram o pequeno almoço e partiram para o Alentejo. Durante a viagem, Henrique e Lúcia ultimavam as melhores argumentações, para conseguirem convencer o irmão e cunhada, fazendo-os compreender as razões das suas decisões e opções. André e Filipe divertiam-se no banco de trás um com o outro, para quase no final da viagem, já um pouco cansados encostarem a cabeça e dormitarem um pouco.
O casal alentejano não estava à sua espera. Pouco passava das 9 da manhã, quando chegaram ao casarão. Tocaram à campainha, bateram à porta, mas não eram atendidos. Resolveram então perguntar aos vizinhos se sabiam do paradeiro da família.
- Eles saíram cedo, a Maria deve estar no mercado e o Aníbal no campo - informava uma das vizinhas.
- Obrigado! - Respondia Lúcia; entrando todos no carro e partiram na direção do mercado. Chegados lá, avistaram Maria da Cruz na sua banca, cheia de clientes. Ela agora vendia, além dos seus queijos de ovelha, queijo fresco e requeijão, também legumes e frutas da sua horta e pomar, além de outras úteis mercearias. Maria era muito popular. A sua simplicidade e simpatia para com os clientes, além da qualidade os seus produtos fazia da sua banca a mais procurada daquele mercado. Olhando em redor, Maria avistou os cunhados e acenou-lhes com a mão e esboçou um sorriso, dizendo - Venham cá!!! - eles aproximaram-se e ficaram admirados com a sua naturalidade (nunca a tinham visto no ambiente do seu trabalho), até parecia que ela já sabia que eles chegariam. Interrompeu por um minuto o atendimento a uma cliente, pedindo desculpas, e dirigiu-se-lhes para os cumprimentar, voltando de imediato para a sua banca.
- Aguardem só um pouco que termine o atendimento destes clientes, que já falamos.
- Com certeza, Maria, esteja à sua vontade - disse Lúcia.
Passados alguns minutos, Maria conseguiu "livrar-se" de todos os clientes e começou a falar-lhes:
- Já sabíamos que estavam a caminho. O senhor António ligou-nos cedo e informar-nos, não queria que fossemos surpreendidos como eles foram com a vossa chegada.
- Ah, está bem! E disse-vos por que viemos cá? - Perguntou Lúcia.
- Não, não disse nada. Eu estarei aqui até ao meio dia e meia e depois vou para casa. Os miúdos tiveram hoje uma atividade na escola e estão lá até à hora do almoço também. O Aníbal está no campo e também vem à hora do almoço a casa. Podemos depois falar todos lá, sobre o que os traz por cá. Ou não almoçam connosco? - Maria estava muito faladora e notava-se alguma diferença na sua forma de se expressar e comunicar desde a última vez que a viram. Possivelmente, continuava a ter aquela paixão pela leitura e por isso tinha-se tornado numa mulher mais culta, com mais vocabulário e não tão terra-a-terra e introvertida como era antes. Ou então, seria o ambiente do mercado - a sua vida - que a transfigurava positivamente, ou então, porque nos primeiros contactos que tiveram por ocasião dos acontecimentos da morte de Joaquim do Curval, ainda não se sentiria tão à vontade com esta parte da família. - Se quiserem ir dar uma voltinha ou irem lá para casa até essa hora, estejam à vontade.
- Maria, tem já alguma coisa pensada para o almoço? - Perguntou Lúcia.
- Mais ou menos, mas ainda não pensei muito nisso - respondeu.
- Se quiser, podemos ir tratar do almoço. Assim, quando todos chegarem, estará tudo tratado - retorquiu.
- Não precisam de preocupar-se com isso...
- Faço questão!
- Então está bem! Está aqui a chave de casa, se quiserem, podem ir. Tenho lá coisas no frigorífico: carne, peixe, etc. Na dispensa estão batatas, massas, arroz, cebola, alhos, etc. - Informou Maria.
- Muito bem, vamos então tratar de tudo! Beijinhos e até logo - disseram todos.
Não era conveniente terem quaisquer conversas naquele ambiente público e, por isso, o casal não quis por enquanto adiantar quaisquer conversas. Maria da Cruz, por não ser pessoa de grandes curiosidades nem conversas escusadas, também nada perguntou, apenas disponibilizou a casa para que a família se pudesse acomodar. Lúcia estava habituada às lides da cozinha e, por isso, quis também ajudar e assim aliviar o trabalho da cunhada. Aproveitaram para ir dar uma volta de carro, para apreciarem as paisagens lindas do Alentejo, respirar aquele ar puro que entrava pelas janelas do carro, para depois voltarem à aldeia e ao casarão.
Ao almoço, todos se encontraram no casarão para provar o excelente cozido de grão com carne preparado pela Lúcia.
Henrique e Lúcia partilharam as suas ideias com o casal alentejano. Estes mostraram-se muito interessados e motivados para ingressar nos projetos, naquilo que em que eles poderiam ajudar. Além da queijaria, durante estes anos, tinham desenvolvido e intensificado a criação de porco preto (ibérico) e criado uma pequena indústria de corte e charcutaria de produtos oriundos dessa carne. Criavam também ovelhas, vacas e cabras, cuja extração de leite, seria para fabricar as diversas qualidades de queijo. Aníbal tinha também diversificado a sua exploração agrícola. Para além da oliveira e dos cereais, plantara um pomar com árvores diversas para a industrialização de compotas e ainda uma grande horta, onde cultivada de forma intensiva, com a ajuda de algumas estufas, algumas variedades de legumes, vegetais e ervas aromáticas. Estavam por isso preparados para o desafio. Além disso, Lúcia era também coproprietária de grande parte das terras. Outras tinham sido adquiridas por Aníbal ou estavam arrendadas a proprietários que não tinham condições para as cultivar.
Aníbal e Maria ficaram muito satisfeitos pelos cunhados desejarem que os seus filhos estudassem ali até ao secundário. Além de serem uma excelente companhia para os seus próprios miúdos, aquela enorme casa ganhava assim maior vida e agitação e isso agradava-lhes. O facto de Henrique e Lúcia não quererem que os seus filhos estudassem na capital, que ficava ainda algo longe do Arvorete e com parcos transportes, também lhes agravada. No Alentejo estariam por certo com maior segurança, melhor qualidade de vida e, de certeza, com idêntica qualidade nos estudos, ao contrário do que muitas vezes se possa pensar. Estes irmãos e cunhados estavam agora mais próximos, desde os fatídicos acontecimentos que tiveram início com a morte do pai de Lúcia e de Aníbal. Henrique, que tão poucas vezes tinha contactado com eles, sentia-se agora como fazendo plena parte da sua família e o sentimento era recíproco da parte de Maria e Aníbal. Esta sã convivência e confiança tornava a família mais unida e isso iria com certeza causar grandes e melhores resultados futuros. Pelo menos assim iriam tentar que acontecesse.
Após passada mais uma descansada noite para todos no casarão, Lúcia foi tratar da matrícula dos filhos na escola, enquanto Henrique saíra com Aníbal, uma vez que queria conhecer as terras e culturas exploradas pela família. Estava curioso sobre a forma como Aníbal orientava o negócio agrícola e pecuário e tentar (em segredo) verificar se o poderia ajudar a melhorar a sua gestão. Os miúdos ficaram todos no casarão a brincar, jogar e a divertirem-se. Esse era o dia em que vinha a empregada tratar da roupa - lavar, passar a ferro, coser e aproveitava os intervalos para limpar as principais divisões da casa, as casas de banho e a cozinha. Provavelmente, sendo tantos os afazeres, dificilmente concluiria tudo num só dia de trabalho, por isso, provavelmente, viria também no dia seguinte.
Lúcia conseguiu matricular os rapazes, ficando apenas em falta os documentos de transferência e certificados de frequência do Brasil, com vista ao pedido de equivalências e, assim, saberem em que ano escolar viriam a ser integrados, teriam todo o verão para resolver toda essa burocracia.
Henrique estava encantado com a qualidade da exploração de Aníbal. Os animais eram muito bem tratados, encontravam-se em boas pastagens e bem orientados e alimentados. O pomar não era muito antigo, as árvores de fruto eram ainda jovens e por isso, pequenas, mas já davam algum fruto, que Aníbal usava, por enquanto apenas para consumo próprio e para Maria da Cruz vender no mercado. Nas estufas existia uma gestão biológica dos legumes cultivados, explorando a terra de forma rotativa, para não saturar a terra e para desabituar os microorganismos, insetos e parasitas. As culturas exploradas eram essencialmente legumes, vegetais e ervas aromáticas de consumo vulgar, como espinafre, agrião, nabiça, alface, dois ou três tipos de couve, salsa, coentros, oregãos, hortelã, alecrim, tomilho, cenoura, pimentos, tomate, batata, courgete, beringela, nabo, favas, ervilhas, entre outras. Nas áreas mais vastas, em terras essencialmente arrendadas, Aníbal cultivava cereais, sendo que o trigo, a cevada e o girassol eram as mais usuais. Respeitava os pousios e, em algumas, tinha a possibilidade de rega, devido ama ribeira, que aproveitou para alargar fazendo uma pequena barragem que serviria como reservatório permanente de água. Após apreciar todo este trabalho realizado e, uma vez que Henrique nada entendia de agricultura, achou que estava tudo muito bem, por isso não se atreveu a dar qualquer sugestão de gestão ao Aníbal, apenas se desfazendo em elogios às condições excelentes em que se encontravam todas aquelas explorações. Henrique tinha ficado convencido de que de facto as terras das quais a sua mulher era também proprietária estavam em excelentes mãos e de que as ideias trazidas de parceria empresarial seriam de certeza bem implementadas por aquelas paragens.
À hora dos almoço todos contaram as suas experiências e em como aquela viagem ao Alentejo tinha sido de facto positiva e estimulante. Lúcia decidira ficar por lá mais uns dias, para também visitar as terras e dar uma ajuda a Maria no mercado, além de acompanhar os miúdos e ajudar com a lide doméstica, principalmente as refeições. Isto porque Henrique tinha que se deslocar à capital, centro nevrálgico do país e local onde são tomadas todas as decisões importantes. Após o almoço, Henrique partiria para o Arvorete, uma vez que muito havia para tratar e resolver na capital. Após uma viagem tranquila - até demais, uma vez que Henrique não gostava de viajar sozinho, porque muitas vezes chegava-lhe alguma sonolência e já por uma vez adormeceu e despistou-se, por altura do funeral de Joaquim do Cruval - ao chegar, tentou de imediato contactar com Delmiro Fontes, uma vez que ele andava pelos corredores do poder e, pelo que tinha afirmado António Alfonso - quase de certeza que ele era deputado ou secretário de Estado ou pelo menos, membro de um dos principais partidos do poder e, por essa via, poderia eventualmente saber alguma coisa acerca das intenções do Governo no que diz respeito às privatizações. Do escritório de Delmiro, uma senhora - possivelmente a secretária ou sua colega de profissão ou sócia de escritório - informava Henrique pelo telefone que Delmiro se encontrava sem exercer advocacia nesse momento, uma vez que estava em serviço público no Governo da Nação, no entanto ainda era sócio naqueles escritórios de advocacia.
- Deseja deixar algum recado ou transmitir alguma mensagem?
- Precisava mesmo muito de falar com o Doutor Delmiro, mas não é um assunto de direito, é de facto relacionado com o Governo. - explicava Henrique.
- Muito bem, não qualquer importância. Se desejar, pode deixar o seu nome, contacto e alguma mensagem, que eu lhe transmitirei logo que seja possível. - Referiu a senhora ao telefone.
- Eu sou o Henrique Alfonso, amigo pessoal do Doutor Delmiro. Anunciando o meu nome, com certeza que ele tentará de imediato contactar-me.
- Olá Senhor Henrique, eu sou a Antonieta, a secretária do senhor doutor...
- Olá dona Antonieta, como está a senhora? Recordo-me de si. Ainda bem que estou a falar com alguém conhecido... passado tanto tempo e há coisas que nunca mudam!
- É verdade, senhor Henrique. Mas o senhor está a falar do Brasil?
- Não, estou em Portugal. Viemos à metrópole resolver uns assuntos muito importantes e um deles deveria tratá-lo com o senhor Delmiro, por isso a minha urgência. Sabia que ele se encontrava ligado à política, mas como este é o único contacto que tenho dele, foi para aí que liguei.
- Com certeza! E fez bem. De facto, muitos dos seus amigos e anteriores clientes, continuam a utilizar este número para o contactar. Até porque os contactos dos gabinetes governamentais não são facultados. Ele é que nos liga todos os dias a perguntar se existem mensagens ou recados e assim, está sempre informado.
- Compreendo, dona Antonieta. Então, se ele hoje ainda não tiver ligado, quando o fizer, diga-lhe por favor que tenho muita urgência em falar com ele e que o assunto está relacionado com o poder e não com o direito, por favor - risos - deixo-lhe o meu contacto, onde aguardarei o seu telefonema.
- Muito bem senhor Henrique, ele hoje ainda não nos ligou, mas não deverá tardar em fazê-lo.
Henrique agradeceu a atenção e despediram-se, dando-lhe o contacto telefónico do Arvorete.
Nesse dia, Delmiro já não ligou para os escritórios. Provavelmente, uma reunião poderá tê-lo feito falhar com esse quase compromisso diário.
Antonieta era uma senhora distinta, a trabalhar para Delmiro havia já muitos anos. Mais do que uma secretária, Antonieta era para ele também uma amiga e uma confidente. Conhecia quase todos os seus processos, amigos, clientes, hábitos, gostos e passos. Delmiro, após a revolução e a resolução desse seu mais importante processo do testamento de Joaquim do Cruval e acontecimentos subsequentes, voltou-se para a política, como já foi dito e desde esse instante nunca mais exerceu advocacia. Por isso, alargou o seu escritório e associou-se a outros dois competentes advogados seleccionados a dedo, no intuito de continuar a manter o elo de ligação com o direito, mas de uma forma indireta. Assim, não perderia os seus clientes e teria uma porta por onde entrar, quando vier a deixar o serviço público de servir a Nação. Havia mais de vinte Anos que Antonieta trabalhava para Delmiro, praticamente desde que este terminou a faculdade e começou a exercer. Esta senhora era uma pessoa muito discreta, leal e competente. Muitas vezes, sua confidente e sem dúvida, que não havia melhor agenda para o advogado político do que a memória da sua secretária. Confiando nessa memória infalível, Delmiro telefonou para casa de Antonieta após essa reunião, que se havia iniciado às três e tal da tarde e que terminara cerca das nove da noite. Antes de jantar, Delmiro quis cumprir o seu hábito diário e não deixou de querer saber se havia novidades no escritório. Antonieta informou Delmiro acerca de diversos recados, tudo de memória e, por fim, informou também a mensagem de Henrique.
- O Henrique? Ele está cá? Onde? No Arvorete?
- É verdade, doutor, tem o número de lá ou quer que lho dê?
- E ele está bem? E a família? Que saudades tenho dessa gente... É lá que vou jantar, quer ver?
- Ainda não jantou? Então experimente, naquela casa haverá sempre lugar para mais alguém...
- É isso mesmo Antonieta, vou já por-me a caminho e faço-lhe uma surpresa... melhor do que telefonar, será aparecer, já que é do interesse dele falar comigo, o que acha?
- O senhor doutor é que sabe, mas penso que sim.
- Ok, obrigado e desculpe a maçada de lhe ligar a esta hora para casa.
- Não faz mal, disponha sempre!
Se bem o disse, assim o fez. Delmiro pôs-se a caminho da outra margem e dirigiu-se ao Arvorete. Lá, estavam todos a jantar, quando suou a campainha e o inevitável Gonçalves foi verificar que seria àquelas horas da noite. Fez sinal ao mordomo para nada dizer - uma vez que já se conheciam - e entrou por ali adentro. Ao entrar na sala de jantar, todos olharam com admiração, uma vez que Gonçalves não tinha anunciado o visitante como era habitual.
- Delmiro! Eu não acredito! Veio até cá! - Admirado, Henrique mostrava o seu ar de enorme satisfação e, da mesma forma, o seu pai:
- Olha, quem ainda é vivo, sempre aparece...
- Boa noite a todos, espero não incomodar - fazendo uma ligeira vénia e esboçando um ligeiro sorriso.
Henrique levantou-se para dar um abraço ao seu amigo, dando ordens ao Gonçalves:
- Por favor, traz outro lugar para a mesa e pede à Albertina mais um prato para o nosso amigo! - e dirigindo-se para o advogado - ainda não jantaste pois não?
- Bem, já que insistes... por acaso ainda não, saí tarde de uma reunião, quando cheguei a casa liguei à Albertina e ela deu-me a feliz notícia na vossa chegada a Portugal - olhando em redor - mas falta aqui o resto da família... os rapazes já devem estar grandes! E a Lúcia, está bem?
- Sim, eles estão todos bem. A Lúcia, o Aníbal e a Maria da Cruz mandam cumprimentos. Estão todos no Alentejo, as crianças também - esclareceu Henrique.
- Ah, bom!
Delmiro desfarçava mal a fome que tinha... tantas horas sem comer... como todos já tinham praticamente terminado, ali ficaram a vê-lo comer, exceto os miúdos, que se retiravam para a sala e a sua mãe Mary, que ia ajudar a Albertina com a louça da cozinha e com a qual muito gostava de conversar. Depois de jantar, Gonçalves serviu uns cafés e uns conhaques e ali ficaram na mesa a conversar. Henrique contou ao seu amigo muito resumidamente o que tinha acontecido no Brasil nestes anos e alguns dos seus projetos atuais. Era aqui que ele necessitava da ajuda de Delmiro, no intuito de saber que passos deveria dar para tentar reaver as suas empresas nacionalizadas. Ficou-se a saber que as suas funções no Governo eram a de assessor do Ministro da Justiça e um dos responsáveis por muita da redação técnica de alguns Decretos, Portarias e outras normas. Apesar de não pertencer à área específica, Delmiro sabia informar Henrique acerca dos trâmites necessários para propor ao Governo a reprivatização das empresas.
Assim ficaram pela noite dentro, à conversa na companhia de uns copos, retocando os assuntos que tinham ficado por contar de todos estes anos, tanto de Brasil como de Portugal. Discutiam as diferenças existentes entre ambos os países, principalmente ao nível das mentalidades, na política e da situação social e económica que cada país atravessara e ainda se encontrava a atravessar.