No Arvorete, encontrava-se reunida toda a família e mais uma série de amigos de todos eles. Celebravam através de uma recepção organizada pela Lúcia, Mary, Albertina e Gonçalves, a comemoração da bênção das pastas de Filipe. É verdade, o filho mais velho do casal tinha terminado a sua Licenciatura em Gestão e isso era motivo para regozijo, por parte de toda a família.
Sentado, como quase sempre no seu sofá mor, António Alfonso, perguntava ao neto:
- E agora Filipe, continuamos a estudar?
- Sim, avô, continuo, mas quero também trabalhar. Se o meu tiver um lugar para mim nas empresas, quero trabalhar durante o dia e continuar a estudar à noite.
- Muito bem, acho que fazes muito bem, neto. Trabalhar faz bem a um homem: sente-se mais útil e realizado e, se puder ser na sua área de formação ou de desejo pessoal, ainda melhor. E então Henrique, consegues arranjar trabalho para o teu filho?
- Tenho um assessor de direção num dos hotéis que se vai reformar. Se o Filipe quiser ocupar essa vaga, será muito bom, porque terá a hipótese de aplicar muitos dos conhecimentos que adquiriu na faculdade e, além disso, terá a hipótese de trabalhar e aprender com excelentes profissionais da gestão que trabalham nessa direção. - Respondeu Henrique, em forma de desafio para Filipe.
- O que achas Lúcia? - voltou a questionar António Alfonso, em jeito de gerador de consenso.
- Não sei se será bem isso que Filipe deseja, ele é que tem que se manifestar, mas por mim, parece-se uma oferta estimulante, motivadora e irrecusável!
- Filipe? - Continuou o velho.
- Pensei que o meu pai me iria oferecer um cargo mais baixo, mas se é esse que tem para mim, aceitarei de bom grado e tudo farei para cumprir as minhas tarefas e obrigações com todo o zelo e atitude positiva!
Filipe, não era tão humilde como André, mas mesmo assim, sempre pensou que o pai lhe iria oferecer uma posição mais abaixo na hierarquia de uma das suas empresas, uma vez que seria apenas estagiário.
- Fico contente com a tua resposta e com o teu pensamento. Eu próprio tinha também pensado nisso. No entanto, o nosso problema é que temos escassez de pessoas com habilitações e, para posições mais baixas, temos pessoas com o novo ano, com o décimo segundo e até com menos habilitações escolares. Não é por seres meu filho que te estou a oferecer este cargo mais elevado na hierarquia, mas sim porque necessitamos de pessoas novas com conhecimentos e ideias novas para cargos superiores. Serás avaliado como qualquer outro colaborador, terás salário idêntico a qualquer outro colaborador com esse cargo e estarás sujeito às regras e normas a que todos estão sujeitos nas nossas empresas. Penso que isso te fará crescer pelo teu próprio pé, sem necessidade de eu te estar a empurrar e, se a tua competência e inovação for provada na prática, com o teu trabalho, certamente que terás hipótese de chegar a patamares mais elevados. Sabes que muitas das empresas já existem há bastantes anos, apesar de algumas terem sido adquiridas por nós, ou readquiridas há poucos anos, por isso, os quadros de pessoas que existiam, tirando um ou outro ajustamento que fizemos, mantém-se há bastante tempo. Assim, não quero que os outros colaboradores te possam ficar a olhar pelo canto do olho apenas porque és filho do administrador, mas te possam reconhecer como um bom profissional e capaz de andar e crescer pelo seu próprio pé e usando as suas próprias armas.
- Apesar de eu não ter feito o mesmo contigo, concordo perfeitamente que seja assim. Como sabes, quando terminaste o curso, coloquei-te quase de imediato na gestão efetiva, mas os tempos eram outros , tínhamos menos empresas e menos pessoas qualificadas. Acho muito bem! - Opinou o avô.
Lúcia escutava a conversa com atenção e orgulho pelo gesto e decisão do meu marido.
- Há algum tempo que venho pensando nisto, mas não o tinha referido ainda, para que o Filipe não se distraísse da sua mais importante missão, que era a de terminar o curso com sucesso. Agora sim, estão reunidas as condições para levarmos a efeito mais esta missão. - Completou Henrique.
- E o Filipe vai trabalhar no teu hotel? - Perguntava agora Aníbal, cuja família do Alentejo também tinha vindo ao Arvorete.
- Não, é outro hotel, o da baixa. Penso que o Filipe não deverá trabalhar ativamente comigo. Por um lado, temos como já disse profissionais altamente competentes em quase todas as unidades e, depois, porque menos perto de mim, ela terá hipótese de ser mais independente. Depois ainda, o Filipe além de vir para já a fazer um trabalho de assessoria como estagiário de gestão, pode ser para mim mais um pólo de controlo, ou seja, a extensão dos meus olhos, na empresa onde estiver a trabalhar. Depois, mais tarde, quando tiver mais experiência e conhecer melhor as empresas, podemos fazer alguma rotação pelas outras empresas, para que fique a conhecê-las melhor a todas.
- Incluindo o Brasil, pai? - Perguntou, maroto, o Filipe, deixando todos muito interessados e atentos à resposta que Henrique iria dar.
- Porquê, gostavas de voltar ao Brasil? - Respondeu perguntando, Henrique, ao que Filipe respondeu com um gesto facial de "eventualmente não me importaria" - sim, porque não? Se tiveres esse gosto ou desejo e após ganhares aqui mais alguma maturidade, quem sabe, não possas vir a administrar as empresas no Brasil...
- Gostava, mas não agora. Por enquanto, quero fazer cá o mestrado e o doutoramento e só depois poderei vir a pensar na possibilidade de emigrar. Concluiu Filipe.
- Penso que está excelente! Temos aqui um rapaz já muito maduro e que sabe aquilo que quer! - Referiu António.
- A não ser que alguma rapariga o desencaminhe com outras ideias... - Interrompeu Lúcia o seu silêncio. As mães estão de facto sempre preocupadas em "perderem" os seus queridos filhos para as outras mulheres suas eternas "adversárias": as noras!!!
~*~
André não estava presente na festa. Ainda não tinha regressado dos Estados Unidos, onde estava a tirar a sua licenciatura em música, com a especialidade de chefe de orquestra. Encontrava-se nos últimos meses do seu primeiro ano. Tinha enviado um grande abraço ao irmão e os seus parabéns pela conclusão da sua formação como gestor. Toda a família estava muito orgulhosa do percurso escolar de ambos os filhos. Embora ambos os rapazes tivessem optado por seguir carreiras completamente diferentes, o seu sucesso escolar agradava a todos e a perspetiva de, por um lado, o seguimento futuro da administração das empresas da família por parte de Filipe, possivelmente com a ajuda também dos seus amigos filhos de Mary, que também trabalhavam nas empresas da família, como por outro, a inesperada vocação e carreira artística de André, cuja ambição em termos de crescimento das artes, especialmente na música, como maestro de orquestra e também, nas horas vagas como escritor, poeta e pintor. A sua iniciação como chefe da orquestra juvenil do colégio interno onde estudou até ao décimo segundo ano, proporcionou-lhe uma experiência e uma mais valia tamanha, que, ao concorrer para faculdades americanas, foi logo admitido na sua primeira escolha e com uma média muito alta, sendo um dos melhor classificados para uma das melhores escolas superiores americanas. André tinha assim também encontrado o seu caminho, algo que, na sua família era totalmente inovador e diferente, uma vez que não se conheciam antepassados com qualquer ligação à música e às artes, de uma forma tão intensa e profissional. De certo que os seus genes não eram biologicamente os daquela família, uma vez que, como sabemos, André foi uma criança adotada quase recém nascido, ainda muito bebé, por isso, não poderá existir aqui essa busca genealógica. Já Filipe, continuará certamente os genes gestores que recebeu de seu avô e de seu pai, para não irmos investigar antepassados ainda mais longínquos.
Diz-se por tradição dentro da família Alfonso, que são descendentes de antepassados que remontam à época da constituição de Portugal como nacionalidade. Sendo verdade, poderão ter já existido pelo menos cerca de 30 gerações. Conta-se na família que existiram familiares descendentes da primeira dinastia - a Afonsina - na qual existiram três Reis de Portugal com o nome de Afonso: Henriques, o fundador; Afonso II, terceiro Rei de Portugal e Afonso III, quinto Rei de Portugal, sendo que foi no reinado deste que o país atingiu a totalidade do território que temos hoje, do Minho ao Algarve. Um dos familiares chegados de um dos Reis Afonso, teria sido uma filha que veio a casar com um muçulmano convertido ao cristianismo. Conta esta tradição lendária que este muçulmano amava tanto essa rapariga nobre da coroa portuguesa, que foi obrigado pelo Rei a converte-se ao cristianismo para poder ser aceite como marido da rapariga infanta. O muçulmano aceitou o repto do Rei, desde que este aceitasse que o seu primeiro filho, o filho varão, tivesse o nome de Al-Afonso (Al em homenagem a Alá), sendo que, com o desenrolar do tempo, Al-Afonso passou a dizer-se e a escrever-se Alfonso, até à atualidade. Não existe qualquer outra família nas inscrições e assentos nos registos notariais com este sobrenome e, além disso, todos os que existirem, são da mesma família, ou seja, serão primos, mesmo que em graus afastados. E assim foi, celebrado o contrato, a infanta casou com o árabe que passou a ser cristão e o seu primeiro filho, que foi um rapaz, chamou-se Al-Afonso. A partir daí, este nome passou a figurar como o apelido perpétuo da família. Consta que, predominantemente, os filhos de quem casa com um Alfonso são do género masculino, por isso, o nome nunca mais se perdeu por mais de 30 gerações.
Aproveitando a oportunidade, esclarece-se também aqui, para que o amigo leitor não fique a pensar "E Cruval, vem de onde?", acerca do apelido da família de Lúcia. Bem, se a história da família Alfonso lhe parece um pouco rebuscada, então verifique esta: tudo começa pela Lenda de Nossa Senhora do Rosário, que se conta numa freguesia do Alto Alentejo situada junto a Monsaráz, tradicional aldeia medieval nas margens do Rio Guadiana, hoje denominada por São Pedro do Corval e que diz assim: "Nossa Senhora do Rosário encontra-se na ermida de São Pedro, patrono da freguesia de São Pedro do Corval, a qual esta situada no campo, e distante desta povoação cerca de 2 quilómetros. Quanto à fundação da ermida de São Pedro naquele lugar, conta a tradição que: «Começava a construção da mesma no lugar do Corval, que deu o nome à freguesia, todo o trabalho de 1 dia feito pelos pedreiros, aparecia no dia seguinte todo destruído, e as respetivas ferramentas eram encontradas no lugar onde hoje está construída a ermida. Repetiu-se esta cena dias seguidos, resolvendo-se então construí-la no lugar onde hoje está e segundo a crença popular, era o lugar onde São Pedro a desejava». O povo de São Pedro do Corval, tem por Nossa Senhora do Rosário grande devoção e para a ermida de São Pedro se dirige, sempre que precisa de implorar a protecção da virgem. Fazia-se na mesma ermida, todos os anos uma grande festa denominada: «A festa dos amieiros» há cerca de 500 anos. Tem esta festa a sua lenda que diz o seguinte: «Certo marinheiro de Amiliros, freguesia do concelho de Portel e dos distritos de Évora, sendo vitima de um naufrágio, no tempo das descobertas marítimas e vendo-se perdido, invocou Nossa Senhora, prometendo oferecer-lhe um terço se o salvasse. Apareceu-lhe a virgem, cujo rosto ele fixou maravilhosamente. Uma vez em sua casa a salvo quis pagar a promessa que fizera, mas todas as imagens que via da Virgem, nenhuma era a da Nossa Senhora que ele tinha visto no mar. Depois de muito procurar, encontrou na nossa ermida de São Pedro a imagem da Virgem que lhe aparecera, podendo assim pagar a sua promessa». O rei reinante sabendo do caso, concedeu uma tensa anual para que se fizesse todos os anos uma festa a Nossa Senhora do Rosário, a qual ficou denominada «A festa dos Amiliros». Esta tensa terminou quando foi implantada a República. Actualmente esta festa caiu em desuso. Apesar de o nome desta freguesia ser o que se conhece apenas desde o ano de 1948, aquele lugar onde foi construía a ermida em honra de Nossa Senhora do Rosário já se chamava Corval, desde sempre. E, como se pode ler pela lenda, desde os tempos dos descobrimentos. Ora, a família Cruval é oriunda deste lugar onde hoje está implantada uma grande tradição de olarias, e desde sempre foi uma família com raízes na área da agricultura e nunca foram pessoas que se tivessem dedicado à construção de artesanato e outros objetos feitos em barro. No entanto, ao que consta, a família por algum motivo mudou-se em determinada altura da sua história para a margem esquerda do Rio Guadiana, local onde predominava a cultura da azeitona e onde a terra arável era mais fértil. Na povoação onde se fixaram, adquiriram lá diversas terras - que ainda hoje existem na família - e ficaram conhecidos nessa localidade como a família que vinha "do Corval". No entanto, como a fonética dos nosso país, neste caso nas diversas regiões do Alentejo é bastante rica e variada, era mais fácil para as pessoas daquela localidade dizerem "do Cruval" do que pronuciarem "do Corval". Assim, com o decorrer dos tempos, a família começou a adotar o nome como seu próprio apelido e passaram a chamar-se a família "do Cruval".
Estamos portanto perante a ligação de duas famílias centenárias e que por isso será muito difícil definir de onde vêm os genes que se transmitem de geração em geração e que, em cada geração ganham mais conhecimento e mais arte através da experiência, dos estudos e do desenvolvimento.