A minha decisão de deixar a música para me dedicar à gestão do património industrial da família, foi uma das mais dolorosas da minha vida.
Tive que regressar à escola, aprender alguns conceitos de gestão, cujas teorias não fazia a menor ideia. Porém, apesar de nunca ter aprendido conceitos de gestão, consegui rever-me em alguns deles, quando traçava um paralelo mentalmente entre aquilo que eu estava a aprender e as práticas que intuitivamente estabeleci na minha mente, enquanto líder de orquestra. Na verdade, os conceitos da gestão baseiam-se em pensamentos lógicos e matemáticos cujos pensadores sintetizaram em conceitos e definições.
Afinal, percebi, que o processo de gestão está muito estreitamente ligado à liderança e que uns nascem para ser líderes e outros nem por isso. Mas neste mundo e nesta vida, tudo se aprende, desde que haja uma mente suficientemente aberta para o fazer e a necessária capacidade para essa aprendizagem.
O Regresso à escola proporcionou-me novas experiências e o reviver de outras que já tinham ficado lá para trás no tempo e na memória, na escola da juventude. Voltei a reviver as sensações do estudar em grupo, da apresentação de trabalhos, do nervoso miudinho dos exames e as sensações de que tudo o que tinha escrito e analisado em cada trabalho de investigação e composição tinha ficado perfeito... Mas não! Os professores sempre encontravam um detalhe, um motivo para efetuar uma crítica, que quanto maior era, mais nos afastava dos vinte valores, sempre impossíveis de alcançar.
Tempos de escola nos quais um trabalhador, com a responsabilidade de gerir dezenas de empresas, algumas delas grandes, se debatia com uma enorme dificuldade de gerir o próprio tempo e tentar atender a todas as solicitações importantes que se lhe deparavam. Escusado seria de prever que o tempo de descanso seria o mais penalizado, perante tal situação, e as noites de sono foram nessa altura duramente severizadas.
O Regresso a casa e à escola voltou a proporcionar encontros com colegas, algumas saídas e jantares de turma, algumas farras e algumas noites de fugazes prazeres por entre páginas de "palha" escrita para entreter catedráticos. Nesses encontros e reencontros, houve também a troca de cumplicidades das quais falarei mais adiante.
Existe um dito popular que enuncia: "nunca voltes à casa onde já foste feliz". Pois eu reafirmo que "depende das circunstâncias". A casa da mãe é sempre o lugar onde se é sempre feliz e sempre que lá regressas, sentes que voltaste ao seio materno, do qual nunca deverias ter saído, lá onde estava quente, húmido e te sentias protegido... De lá saíste para enfrentar um mundo cruel, frio e tantas vezes despido de humanidade, onde cada um luta por si de forma egocêntrica e, muitas vezes, sem sentido. No Regresso a casa, reencontras os sons, os cheiros e os paladares que te fizeram crescer, reencontras o carinho e a tolerância que em outro lugar alguma vez encontraste.
O Regresso ao teu país, a cuja cultura e forma de vida únicas já te tinhas desabituado, mas não esquecido, traz-te à memória mais uma vez a infância e a adolescência, local onde habitaste em serenidade e onde cresceste com a suavidade dos ensinamentos positivos. As coisas permanecem nos seus locais habituais e as pessoas nos seus lugares próprios. Umas e outras se transformaram e envelheceram. Mais as segundas que as primeiras. Agora reparas que certas árvores cresceram... Que certos postes metálicos enferrujaram... Que certas madeiras enrugaram ou apodreceram, que certas pedras se desgastaram, que certas pessoas engordaram ou emagreceram, mas todas estão mais velhas. Mas pensas por vezes que tu estás igual, mas quando olhas o espelho, reparas que o tempo também passou por ti e deixou o seu rasto. Uma dor que apareceu e não tinhas, um cabelo branco que não tinhas em fotos mais antigas, uma ruga que sorrateiramente foi aparecendo no teu rosto... Esses são os sinais do tempo entre a tua saída e o teu regresso.
No Regresso, sentes também a diferença social de alguns costumes, da influência que o marketing teve no dia-a-dia das pessoas e dos seus hábitos de consumir: os fast-food substituíram as tabernas (que agora são gourmet), os bares que agora são pub, onde outrora existiam jardins, agora há estacionamentos, nos poucos bancos de jardim onde antes pessoas conversavam, hoje as pessoas de pescoço descaído sobem e descem páginas digitais de telemóvel, tradicionais ruas onde antes jogavas à bola ou à apanhada com os amigos, agora tens que ter cuidado para não seres atropelado por um veículo a passar em velocidade...
Diferente é a perceção das coisas consoante o espaço temporal que nos separa delas... Tudo isto também aconteceu nos locais onde eu estava... Mas as alterações eram diárias, constantes e por isso normais. A diferença achamo-la quando deixamos um local com um determinado quadro e regressamos e depois encontramos outro quadro diferente. Agora sim, notamos a diferença das mudanças ocorridas.
Mas este regresso, apesar de inicialmente contrariado e apenas sustentado e apoiado na vontade da minha mãe Lúcia, devolveu à minha vida um novo sentido, uma nova oportunidade. Depois do regresso, acabei por sentir que o meu apego à anterior vida e actividade ia acabar por me manter estéril e deixar de ser desafiador. Com meia-idade, abraçar um novo e antes impensável projeto, trouxe novo alento e esperança à minha vida. A habitual vida solitária que levava no estrangeiro, apesar de estar permanentemente rodeado de dezenas de pessoas da filarmónica e da escola de artes, transformou-se de um dia para o outro, numa vida completa, tive que reaprender a viver em comunidade, ver-me envolvido novamente pelos tios, sobrinhos, primos, as suas mulheres ou maridos ou respetivos namorados. Mais um motivo para mudança, mais uma mudança forçada, mas nem por isso esforçada, uma vez que esta alteração na minha vida me trazia também sensações agradáveis.
O Regresso é sempre a reaprendizagem de usos e costumes, mas também o romper. O romper com a nossa vida e romper com a vida dos outros. Todos têm que se voltar a habituar uns aos outros... E isso contribui para a quebra da monotonia, para a quebra dos hábitos instalados.
Eu acreditava que se esperava muito de mim. As expetativas eram as mais elevadas e eu não queria deixar de contribuir para o não defraudar das mesmas. A minha estratégia inicial foi a de tentar conhecer tudo a fundo: voltar a conhecer as pessoas da família e das empresas, tentar conhecer os processos e usos nas empresas, tentando não colidir com os mesmos, mas tentando procurar neles fragilidades nas quais pudesse atuar para melhorar, mas sem prejudicar nem ferir susceptibilidades instaladas. Entendia que a rutura nunca seria a melhor forma de conquistar a simpatia e colaboração daqueles que há muitos anos colaboraram com as empresas da família.
Como em quase todos os projetos que até esta altura aceitara realizar, este foi um regresso sereno para todos, menos para mim. Tentei que a vida dos outros com os quais tive que lidar e trabalhar não fosse afetado pelo meu regresso e, se o fosse, que prevalecesse a positividade. Praticamente nenhuma das vidas com as quais tive que me cruzar nesta altura se alteraram por minha causa, apenas a minha vida sofreu alterações. Deixei para trás alguns prazeres pessoais, alguns amores, tentei esquecer alguns desamores e desilusões pessoais e profissionais. Foi dura a despedida de todos os amigos e profissionais da música. Dos alunos e professores com os quais trabalhara... Das amizades constituídas durante anos e que, apesar de não desmoronadas, pelo menos agora, já não seriam vividas com a proximidade do afeto, dos encontros e convívios, das saídas, das longas noites de conversas e dos almoços ou jantares partilhados.
Em suma, o regresso afeta sempre mais quem se muda do que de quem recebe.