Delmiro surpreendeu o Senhor Padre Pedro no seu gabinete nos Paços Episcopais. Sem avisar, apareceu para lhe falar. O Padre Pedro não tinha ouvido falar de Delmiro - assim o declarava à secretária do Paço, quando esta anunciou o advogado - uma vez que não se interessava muito por política nem por direito, apesar de ele ser bem conhecido na praça. Aceitou recebê-lo, como fazia com todas as pessoas que pretendiam falar-lhe.
Agradecendo o gesto, Delmiro identificou-se perante o Padre e este denunciou conhecer as pessoas para as quais ele trabalha, uma vez que já "ouvira falar dessa família". A seguir e sem rodeios, Delmiro tentou transportar a memória de Pedro para os seus tempos de adolescência no convento e para a sua relação com as irmãs.
- A minha irmã Filomena, foi sempre a mais recatada. Decidiu seguir o chamamento do Senhor e enveredou pelo caminho da vida religiosa, dedicada ao serviço da Igreja e da oração, aos mais pobres, humildes e desfavorecidos. Sempre foi muito certinha, respeitável e respeitadora.
- No entanto, o senhor Padre sempre se deu melhor com a outra irmã, a mais velha, a Amélia!...
- Sim, éramos muito chegados. A Amélia sempre foi mais extrovertida, desinibida, mas também um pouco conflituosa e problemática.
- Mas, mesmo assim, davam-se muito bem...
- É verdade, até certa altura. Penso que me atraia nela a sua irreverência e, como eu era jovem e estava na "flor da idade"... já se sabe, achava piada a situações e pessoas fora do comum!
- Tinham 5 anos de diferença...
- Tínhamos e temos. Penso que a minha irmã, ainda andará por aí, meio à deriva, mas não sei onde. Não sei se ainda trabalha em comércio.
- Vêm-se com frequência?
- Nem por isso, doutor, há muitos anos que não nos vemos. Penso que a última vez que nos vimos cara-a-cara terá sido uns dias antes da minha ordenação, já lá vão por isso quase quinze anos! Como passa o tempo! Nessa altura, sabendo que me iria ordenar Sacerdote, veio ter comigo apenas para dizer meia dúzia de barbaridades e coisas sem sentido, nem me deixou falar, saiu para nunca mais aparecer.
- Mas, senhor Padre, em jovens tiveram algum problema? Alguma desavença?
- De salientar, nada! Quando eu tinha quinze anos, ela tinha vinte, decidiu de um momento para outro e sem razão aparente, deixar a congregação, arranjando emprego e ausentou-se durante muito tempo, sem dar notícias. Mais tarde, começou a aparecer por lá de vez em quando, mas apenas para ver a irmã e visitar as outras freiras educadoras, uma vez que nunca perguntava por mim. Isto, dizia-me a minha irmã Filomena e as restantes freiras confirmavam. Foi sempre uma incógnita para mim aquela reação da Amélia.
- As irmãs do convento também não sabem muito bem informar onde se encontra ela. Há muito que não as vai visitar também. - Confidenciou Delmiro.
- Já sabe isso?
- Sim, estive a falar com a madre um dia destes, quase toda uma manhã de "palestra".
- Sim senhor! Bem, penso que já lhe disse tudo o que sei.
- Obrigado, senhor Padre. Se vier a recordar-se de mais alguns pormenores (que são sempre importantes), diga qualquer coisa, por favor. - E entregou-lhe um cartão, após ser dirigido à porta de saída, acompanhado pelo Padre Pedro que, com simpatia, se despediu.
Enquanto se sentava no seu carro para tomar novo rumo, Delmiro não se sentia muito satisfeito com aquelas explicações do Padre. Parecia-lhe faltar qualquer peça naquele puzzle. "O que poderia ser?" Pensava. "Porque razão aquela Amélia decidiu repentinamente deixar o convento?" Continuava. "Tenho que encontrar esta Amélia, dê por onde der!". Insistia. Talvez a melhor forma fosse tentar saber junto de algumas instituições públicas, a morada dela através do nome e do seu ano de nascimento. A madre tinha-lhe fornecido o seu nome completo. Por isso, nada melhor do que usar a sua argumentação e poder relativo enquanto agente da lei e dos tribunais, para tentar sabe-lo. Começaria pela Segurança Social, depois pelas Finanças e por fim na Direção de Viação, uma vez que poderia ter também carta de condução. Já estava um pouco atrasado, pois faltava cerca de uma hora para que os serviços encerrassem. Era por isso necessário ser lesto, astuto e assertivo. Deixou as Finanças para o final, onde tinha um amigo que sabia que lhe abriria a porta mesmo que chegasse atrasado. Conseguiu nessa mesma tarde as informações que pretendia e regressou a casa ao final da tarde, de um dia pleno de exaustão. Ao chegar a casa, verificou que tinha um recado do escritório no seu atendedor de chamadas. Informavam que já tinha saído o resultado do exame ao corpo de António Alfonso, portanto, era importante que no dia seguinte se fosse informar acerca do mesmo. Mesmo cheio de fome, Delmiro preferiu tomar o seu habitual e refrescante duche, depois foi procurar algo no frigorífico para meter à boca. Seguidamente, sentou-se na sua secretária, para finalmente comparar os impressos com as moradas que lhe tinham sido facultadas pelos serviços. Verificou então que duas das moradas eram na mesma rua, mas com números de porta diferentes e a terceira - da carta de condução - tinha outra morada. Esta última era a que tinha a data de emissão mais recente, por isso, iria tentar nesta morada em primeiro lugar, porque possivelmente seria mais assertivo. Pensou então "Mas se for durante o dia, é muito provável que não a encontre lá, se ela estiver a trabalhar... melhor seria surpreendê-la fora do seu horário de trabalho, ou seja, ou à noite ou no fim-de-semana. Mas como faltam ainda uns dias para o fim-de-semana, vou lá agora mesmo!" Melhor o pensou, assim o fez. Como desconhecia o local daquela morada, decidiu ligar para a central de táxis, solicitando um motorista que conhecesse bem "moradas difíceis". "Com certeza, senhor, daqui a 15 minutos, no máximo, chegará um táxi na sua morada, boa noite!" Respondia a atendedora de chamadas da rádio-táxis.
Delmiro levou consigo o apontamento de todas as moradas que tinha. Chegados à morada da carta de condução de Amélia, saiu do táxi e tocou à campainha. Ninguém atendeu. Era um prémio aparentemente com 3 andares, vistos da rua, no entanto, Amélia vivia no terceiro andar, não visível do exterior porque, provavelmente, será uma cobertura sem janelas para na rua. O edifício aparentava ser algo antigo, provavelmente com 50, 60 anos, há muito que não era pintado e as varandas de grades metálicas com efeitos artísticos, apresentavam-se de certa forma enferrujados. Depois de insistir em tocar na campaínha três ou quatro vezes em sucesso, Delmiro decidiu tocar numa casa vizinha que, à segunda vez, atendeu - ainda não era muito tarde, cerca das 9 da noite. "Quem é?" "Peço desculpa minha senhora, estava a tocar na vizinha do terceiro cê mas não atende. A Dona Amélia. Ela já não mora aqui?" "E o senhor, quem é?" "O meu nome é Delmiro, sou advogado de um processo onde a Dona Amélia é pessoa interessada e preciso de falar com ela, mas só tenho esta morada..." "Ah, sim, está bem!" "A Dona Amélia mora aqui, sim, mas deve estar a trabalhar. Ela trabalha num restaurante, portanto deve estar lá neste momento." "Muito bem, sendo assim, vou aguardar que ela chegue, obrigado!" "Deve voltar cerca das onze, onze e meia." "Obrigado, minha senhora e peço desculpa pelo incómodo."
Após perguntar ao taxista se poderia esperar até mais tarde, até que resolvesse o seu problema, ao que respondeu afirmativamente, estacionaram o táxi melhor e foram ambos tomar um café num bar ali próximo, com vista para a entrada do prédio onde reside Amélia. O advogado aproveitou para cavaquear um bocado com o taxista sobre futilidades e gostos próprios de cada um: futebol, o tempo, o trabalho e outros assuntos. Como o tempo passa a correr, principalmente quando se mantém uma boa conversa acompanhada de uma cerveja fresca com tremoços e frutos secos, que pediram depois do café, avistam um carro que para em frente ao prédio durante poucos minutos e vê-se sair de lá uma senhora do lugar do acompanhante e entrar para o prémio, acenando ao condutor do carro com um "adeus". Deixando uma nota em cima da mesa, Delmiro saiu a correr, ficando o motorista sozinho no bar. Conseguiu ainda apanhar a mulher à entrada do prédio, quando parecia à procura da chave dentro da sua mala.
- Senhora! - A mulher olhou admirada e assustada. - Desculpe, deixe que me apresente. - A mulher descansou porque lhe pareceu ser alguém de bem. Delmiro explicou-lhe quem era e o que ali fazia. A senhora confirmou ser Amélia e convidou-o a entrar. Delmiro fez sinal para dentro do bar, onde se via o motorista ainda sentado à mesa, ora apreciando o movimento da rua, ora olhando para a televisão, indicando-lhe que iria entrar, para que ele esperasse.
Já lá no cimo do terceiro cê que, como Delmiro suspeitava era uma cobertura apenas com janelas para as traseiras, Amélia parecia ora hospitaleira ora hesitante. Ofereceu um chá ao advogado, com bolachas, que ele aceitou. O jeito da mulher agradava a Delmiro. Calma e com voz doce e meiga, de poucas mas objetivas palavras, os seus movimentos - andar, sentar, levantar, servir o chá, olhar - achou que aquela conversa ia demorar, por isso, disse:
- Tenho o taxista lá em baixo a aguardar-me, se calhar é melhor ir lá pagar-lhe o serviço e regressar.
- Como queira, doutor, por mim, está à sua vontade!
Delmiro foi então ao bar pagar ao taxista e pedi-lhe o contacto para qualquer eventualidade de vir a necessitar dos seus serviços e dar-lhe também o seu cartão para o mesmo fim. De regresso à cobertura, perguntou a Amélia:
- Então Amélia, parece-me que está disposta a falar-me algumas coisas. Pensei que fosse uma pessoa mais fria e rude, mas vejo que é uma mulher calma, meiga...
- Porquê essa avaliação prévia em relação à minha pessoa? Eu sou diferente pessoalmente e profissionalmente. No trabalho, apesar de simpática, tenho que ser mais ativa, dinâmica e permitir poucas confianças, porque muitas vezes os clientes abusam um bocado, principalmente na restauração.
- O que faz no restaurante?
- Sou empregada de mesa, há bastantes anos, principalmente naquele restaurante onde trabalho. Os clientes até têm mais estima por mim do que pelo patrão...
- E vive só Amélia? Casou, é solteira?
- Nunca casei. Sempre tenho tentado viver a minha vida de forma independente, sem que tenha que depender de alguém. Já tive alguns amantes esporádicos, mas nenhum que me fizesse mudar a minha filosofia de vida. Nunca vivi com algum deles.
- Sabe que hoje estive a falar com o seu irmão, o Padre Pedro...
- O meu irmão é a maior desilusão e desgosto da minha vida! Talvez por isso, me tenha transformado em quem sou hoje, muito diferente da época em que tinha os meus vinte anos.
- Está na casa dos quarentas, não é? Talvez seja hora de mudar de ciclo novamente...
- Nunca se sabe, doutor! - Afirmou Amélia, esboçando um sorriso tímido.
- Deixe por favor de me chamar doutor, combinado?
- Está bem!
- Quer falar-me dessa sua relação com o seu irmão Pedro?
- Como sabe, o Pedro é apenas meio-irmão, uma vez que o meu pai se suicidou após o seu despedimento do banco onde trabalhava. - Delmiro acenou, como que afirmar já conhecer a história - Muito bem, a minha mãe não conseguiu encontrar outra vida senão a da prostituição e por isso entregou-nos (eu e a minha irmã Filó) na instituição das freiras. Eu tinha quatro anos e ela dois anos apenas. A minha irmã Carla tinha nove ou dez e ficou com ela na casa de meninas. Penso que as irmãs não aceitaram as três filhas e por isso ela decidiu ficar com a mais velha. Durante cerca de um ano, um ano e meio, nunca mais apareceu, tendo aparecido com outro filho para entregar passado esse tempo: o Pedro. Depois de o entregar, morreu já não sei bem de quê, se doente, ou se se suicidou. Nós criámos o nosso irmão, juntamente com todas as freiras e outras crianças e jovens da instituição. Eu dava-me muito bem com o Pedro, brincávamos muito, éramos muito chegados, chegados até demais. Ele foi crescendo, tendo-me sempre como a sua "irmã grande". Certo dia, fomos ambos sozinhos, como fazíamos habitualmente, à cidade e acabámos por sair para o campo, perto do convento, onde parávamos muitas vezes para conversar e às vezes merendar, lanchar. Nesse fatídico dia primaveril de sol ameno e campo verdejante, fomos merendar e deitámo-nos em cima das ervas frescas e verdes, a conversar e olhar o céu, após o lanche. Não entendo ainda hoje o que nos aconteceu, mas talvez devido aos ímpetos da juventude, da descoberta, tanto minha como a dele, envolvemo-nos nessa tarde. Tanto eu como ele nunca tínhamos usufruído de qualquer experiência, foi para nós a primeira vez e, depois de o fazer, senti-me bem, mas depois de cair em mim, senti-me mal, com a consciência que tinha feito algo que nunca deveria ter acontecido. Para ele, não sei como foi a experiência, mas penso que também lhe foi agradável. Desconheço porém o que ficou na sua consciência. A partir daí, afastámo-nos um pouco um do outro, deixámos de conviver tanto, de sair juntos sozinhos, etc. Esse momento foi para nós a primeira e única vez que aconteceu. Passadas algumas semanas, comecei a perceber que tinha sintomas de gravidez. Decidi assim abandonar a casa das freiras, procurando emprego e local para trabalhar, antes que fosse notada a minha condição. Nessa altura, o meu primeiro patrão foi muito amável comigo, por ter-me contratado apesar de ter conhecimento da minha situação. Trabalhei até ao dia do parto, que tive no hospital e todos os cuidados e contas foram pagos pelo meu patrão. Então, durante o tempo de baixa de parto, o restaurante onde trabalhava fechou e eu fiquei sem emprego. Com poucos dias de nascido e estando sob uma forte depressão, da qual nunca cheguei a recuperar em pleno, abandonei o meu filho numa praça da cidade, aproveitando as confusões que existiam por altura do 25 de Abril de 1974. Desde aí, nunca mais soube do bebé e o meu castigo tem sido ficar sozinha indefinidamente. Compreende agora o meu isolamento do mundo? Da família? Do meu irmão?
- E a sua irmã Carla, nunca mais a contactou?
- A minha irmã Carla é cliente no restaurante onde trabalho neste momento. Falo bem para ela e ela para mim também, mas mantendo sempre uma certa distância uma da outra.
- Já alguma vez contou esta história a mais alguém?
- Não, nunca. Aliás, a primeira e única pessoa até hoje a quem tentei contar esta história foi ao meu irmão, antes da sua ordenação, mas ele não acreditou, disse que eu estava doente e que não compreendia a razão de eu ter "inventado" tal história.
- Impressionante, Amélia! Compreendo agora o seu isolamento e desprendimento das pessoas que amava.
- Tenho sido feliz à minha maneira, esta, que é a única que conheço. Nunca senti a necessidade de alterar.
- Amélia, se eu lhe pedir para fazer um exame de ADN não se importaria?
- Porquê? - Perguntou ela muito indignada.
- Amélia, estou a encontrar na sua história e outras que conheço, alguns cruzamentos, muitas coincidências e gostaria de as despistar cientificamente. Se elas não se confirmarem, ficará tudo na mesma. Caso contrário, poderão vir por aí surpresas... talvez agradáveis!
- Está bem, não me importo.
- Não gostaria de conhecer o seu filho, se ele for vivo e se o encontrarmos?
- Não sei se estaria pronta para isso, mas se for uma inevitabilidade sim, gostaria. - Afirmou Amélia, indecisa e fez-se um pouco de silêncio embaraçador. - Não vá embora Delmiro, arranjo-lhe o sofá e dorme cá. Não tem transporte e já é tarde. Toma mais um pouco de chá?
Delmiro não sabia bem o que dizer, ficou um pouco atrapalhado e sem jeito. Até corou um pouco.
- Sim, aceito mais um pouco de chá. Aquelas bolachas de há pouco eram muito gostosas.
- Vou preparar mais um pouco. Ponha-se à vontade. - Daí a poucos minutos, Amélia trouxe um pijama seu, para Delmiro vestir e mudar de roupa. - Tome, vá à casa de banho e vista este pijama. Nós temos um porte parecido, por isso, deve servir-lhe. - Mais uma vez envergonhado, Delmiro respondeu:
- Não sei se devo ficar...
- Insisto! Fique à vontade. Eu também me vou sentir mais segura e confiante. Além disso amanhã estarei de folga, por isso, não tenho pressa.
Assim fez o advogado, foi à casa de banho e mudou de roupa. Amélia, quando regressou da cozinha com o chá e as bolachas, também já trazia a sua roupa de noite vestida. Ali ficaram, a conversar sobre as suas vidas e sobre as suas experiências até tarde, sem darem pelas horas avançar, até que, pelas três e tal da manhã, cada um foi dormir para o seu lugar distinto.