Filipe e Dulcineia estavam muito felizes. Este grande passo das suas vidas tinha sido detalhado ao pormenor e tudo tinha decorrido conforme o previsto. Os convidados tinham ficado maravilhados com a excelente festa de casamento e com o rigor da organização implementada e impulsionada diretamente pelos noivos. Os seus dias de lua-de-mel estavam da mesma forma rigorosamente planeados. A primeira paragem em terra do navio de cruzeiro, no qual já viajavam e através do qual tiveram a oportunidade de conhecer, a partir do mar, toda a maravilhosa costa sul do país, desde a capital, passando por troia, litoral alentejano, costa vicentina, cabo de Sagres, costa algarvia, para depois conhecerem também à vista a costa espanhola até Gibraltar, era precisamente aqui. Depois, os passageiros tinham a possibilidade, durante dois dias de visitar o norte de Marrocos ou ficarem a descansar no navio, usufruindo de todas as suas comodidades, piscinas, sauna, banhos turcos, SPA, massagens ou simplesmente tomar algumas bebidas frescas apanhando moderadamente aquele luminoso sol com que eram brindados por esses dias.
O nosso casal decidiu tirar esses dois dias para fazerem um mini safari de dois dias pelo país, devidamente orientados por guias conhecedores e especializados. Após curtas visitas a Ceuta, Tânger e Tetuão, o casal visitou a maravilhosa Lagoa de Dar Chaoui. Para o mini safari foi escolhida a Reserva Natural Jebel Bouhachem, cuja experiência que mais apreciaram foi a visita ao Pico dos Monos, um local cheio de magníficas paisagens naturais e terra quase virgem, não fosse a visita de tantos turistas. Aparentemente parece que Marrocos é um país árido, assim é a ideia geral das pessoas, mas de facto existem lugares montanhosos, em alguns dos quais correm miraculosos riachos e são zonas guarnecidas de uma rica flora e fauna. Esta é uma área que se situa na região de Xexuão, um pouco mais a leste de Tânger-Tetuão. O casal não quis regressar ao navio e preferiu pernoitar num pequeno hotel típico da região, a cerca de 3 km dali, de nome Dar Hadra, onde puderam usufruir de um merecido duche em banheira de loiça tradicional e onde jantaram uma refeição típica da região com toda a calma, passividade e harmonia. À noite arrefecia um pouco e por vezes os mosquitos rondavam os humanos, com vontade de poisar na pele para satisfazer os seus apetites vorazes de sangue quente e doce. Por isso o casal, após uma pequena caminhada noturna, recolheram aos seus aposentos, para finalizar esse primeiro dia em África. O primeiro dia tinha sido bastante intenso, mas o casal não estava muito preocupado com a saída do navio, uma vez que tinham preparado o aluguer de um pequeno avião para os levar até à próxima atracagem do navio, no caso de não conseguirem embarcar a tempo. Tinham ainda a intenção de visitar a costa oeste, nomeadamente Alcácer Quibir e Rabat.
Após mais um dia cheio de visitas aos locais pretendidos pelo casal, que muito apreciaram e documentaram em fotos para mais tarde recordarem, Filipe e Dulcineia encontravam-se muito cansados, por isso decidiram pernoitar mais um dia no mesmo hotel, para que no próximo dia, a avioneta fretada anteriormente, os transportasse desde o aeroporto de Rabat até ao aeroporto de Eivissa, no Sul da ilha de Ibiza, Espanha, onde se juntariam aos restantes passageiros do navio cruzeiro e cujo roteiro incluía as visitas àquela pequena e lindíssima e às ilhas de Palma (Maiorca e Menorca), para depois seguir para a costa sul de França, costa Italiana e costa Grega, incluindo visita a algumas ilhas. Este era portanto um cruzeiro muito bem planeado e com visitas e paragens muito ricas, tanto em termos de maravilhosas estâncias balneares, como em termos de visitas a lugares e cidades históricos.
Seguida a uma noite de amor no seco calor africano, o casal tomou um generoso pequeno almoço e foi transportado de volta a Rabat, num jipe contratado para o efeito, o mesmo amigo que os tinha conduzido anteriormente aos locais visitados. De regresso, tomaram uma outra via, com diferente paisagem, para que eles pudessem apreciar, mais interiormente pelos bosques seguidos de imensas pradarias, a flora e, principalmente, a fauna que conseguissem avistar, apreciar e fotografar. Apesar de tão próxima da Europa, este Norte de África é sobejamente diferente e digno de ser visitado. A diferença nas paisagens, nos seres vivos indígenas e dos seres humanos afáveis ali existentes e residentes, que nem sempre são aquilo que os ocidentais pensam, merecem de facto a viagem e o conhecimento. O sentimento de insegurança que se apodera dos ocidentais antes das visitas a estes locais, acaba por desvanecer-se ao entrarem em contacto com estas populações tão sedentas de proximidade, de atenção e muitas vezes também de ajuda. Essas pessoas estão lá a aguardar que os visitantes lhes deem um pouco da sua atenção, lhes comprem os seus souvenirs, que tanta diferença fazem dos de outros povos. Aquele sentimento de que os muçulmanos são maus, fanáticos e inflexíveis, não é real, quando de veras se entra em contacto direto com as pessoas. A base do Islão assenta, na realidade, em valores de paz, de amor e de fraternidade e cordialidade entre os cidadãos. Nada disso tem a ver com aqueles que levam ao limite valores tão nobres, ao ponto de os distorcerem e transformarem essa religião, modo de vida e modo de Estado, em tudo menos nos valores da doutrina transmitida pelos ensinamentos de Maomé. Povos em permanentes conflitos internos e desde sempre sofredores, que nem sempre tiveram nos seus governantes (geralmente radicais ou fanáticos) personagens à altura desses povos tão cordiais, humildes e amigáveis.
Eis o que foi presenciado pelo nosso casal nestes dias, que nada tinha a ver com a ideia geral que os ocidentais têm acerca destes povos. Muitos destes povos vivem da riqueza que os turistas lhes trazem e por isso, ainda maior é a sua motivação, a transformarem as visitas dos forasteiros momentos únicos e que lhes tragam “o pão de cada dia” e, se possível, voltem um dia mais tarde, em forma de retribuição pelos bons serviços e bens prestados e com o intuito de conhecerem o que deixaram ainda para trás.
Conforme combinado, lá estava a avioneta fretada a aguardar o nosso casal. O aparelho apresentava-se limpo, mas demonstrava ser um modelo um pouco antigo. Filipe confirmou, em Francês, com o piloto e dono do pequeno avião, se tudo se encontrava conforme as normas internacionais de segurança e se o objeto voador possuía licença e capacidade para efetuar aquela viagem aérea até Ibiza. Depois de todas as vistorias e confirmações, lá embarcaram na mini aeronave, munindo-se de coletes de salvação, preparando eventuais paraquedas, se necessário e inteirando de como os mesmos funcionavam. Antes de descolarem, Filipe telefonou aos seus pais e Dulcineia também fez o mesmo, para os inteirarem de como a viagem estava a decorrer de forma tranquila e muito bonita até essa altura. Os pais do casal ficaram muito felizes com a satisfação do jovem recém-casal e desejaram-lhes obviamente a continuação de uma excelente lua-de-mel. Filipe entrou também em contacto com a tripulação do navio cruzeiro, no sentido de os informar do seu ponto de situação e dizer-lhes em que altura o casal se iria juntar a toda a comitiva de passageiros.
A descolagem decorreu de forma mais ou menos tranquila, uma vez que por aquela altura soprava um vento um pouco insistente de nordeste, oposto portanto à orientação que o avião levava. Aquela aeronave não poderia voar a grande altitude, mas isso agradava ao casal uma vez que, assim, poderiam apreciar melhor a paisagem terrestre, tirar magníficas fotos e até utilizar os binóculos para apreciar de mais perto alguns pormenores da costa africana, linha por onde seguiam. Conseguiam facilmente identificar alguns aglomerados urbanos na costa, tais como as cidades de Kanitra, Larache, Asilah, Boukalef, Tânger, Ceuta, sendo que após a passagem aérea do estreito de Gibraltar, abandonaram uma linha de sobrevoamento terrestre, para sobrevoarem o mediterrâneo, mais ou menos em linha reta até à Ilha de Ibiza, que se situa “ao largo” da cidade espanhola de Valência. Iriam porém aproximar-se de terra na zona do Cabo de Gata-Níjar, onde poderiam apreciar pelo ar e fotografar o seu Parque Natural, e ainda na zona de Cartagena, onde sobrevoariam terra, na zona do Cabo de Palos. As reservas de combustível chegariam para efetuar toda a viagem, que iria demorar cerca de três a quatro horas, dependendo da ajuda dos ventos. O piloto era muito simpático, pois aos poucos, informava o casal acerca dos locais que iam sobrevoando. Além do piloto e do casal, outro tripulante que só conseguia falar em árabe, os acompanhava, não só para ajudar o piloto, como também para lhe fazer companhia no regresso a Rabat. O piloto, Mohamed Afzal, falava bem francês e também dizia algumas coisas em castelhano e inglês, pelo que o casal enamorado conseguia entender praticamente tudo o que ele dizia e explicava. Aproveitava os intervalos das explicações para contar histórias que já lhe tinham ocorrido nestas viagens e contava ainda algumas anedotas com turistas e nativos, que, sempre que eles as compreendiam, terminavam em gargalhada. Mesmo que não as compreendessem muito bem, riam de igual maneira, para que o piloto não ficasse aborrecido da falta de comunicação eficaz… enfim, uma animação, aquela viagem.
Após ultrapassada a zona do Cabo de Palos, ouviu-se um pequeno barulho, vindo do exterior e o casal sentiu alguma agitação nos bancos da frente, entre os protagonistas da tripulação. Olhavam para o exterior, onde de uma das asas, parecia iniciar-se um pequeno fumego. Passados poucos minutos, ouviu-se um estrondo maior, que quase se sobrepôs ao ruído dos motores e o fumo aumentou a intensidade, na asa direita da aeronave. Os passageiros começaram a ficar ainda mais preocupados e os tripulantes ainda mais agitados. Seguidamente, novo estrondo ainda maior, vindo da mesma asa, transformou o fumo em fogo e notou-se, pela primeira vez, uma oscilação na estabilidade da avioneta. Dulcineia entrava em pânico, Filipe tentava acalmá-la, os tripulantes, muito nervosos e ativos, falavam entre eles apenas em árabe, pelo que o casal não os entendia, até que Mohamed se lhes dirigiu em bom francês e lhes disse que teriam de efetuar uma aterragem forçada, enquanto o co-piloto verificava num mapa de papel onde ficaria o aeródromo mais próximo. Mohamed tentava quase que inverter o sentido da marcha que levavam, rumo a um aeródromo que se situava ali perto da costa, mas que, se não conseguissem, sempre poderiam tentar aterrar numa zona ampla e limpa de vegetação, pois a avioneta estava adaptada a esse tipo de manobras. No decorrer da descida, Mohamed pediu aos passageiros para tomarem as medidas de segurança previamente acordadas e acabou por perder o motor da asa direita por completo. Praticamente apenas a planar, o piloto tentava ao menos conseguir chegar a terra firme, para conseguir aterrar em segurança, mas as condições da avioneta deterioravam-se a cada metro que perdia de altitude. O casal estava apavorado, mas ainda assim, Filipe tentava consolar Dulcineia e animá-la, dizendo-lhe que iriam conseguir aterrar em segurança e que conseguiriam sair ilesos daquele acidente. O avião perdia altitude muito rapidamente, Mohamed tentava a todo o curso não amarar, mas chegar a terra. Conseguia já avistar um terreno amplo no qual poderiam aterrar, mas antes desse terreno existiam algumas árvores demasiado altas. O trem de aterragem estava preparado, encontravam-se a escassos cinquenta metros do solo, a avioneta parecia querer ir de encontro às árvores. Conseguiram por fim, a muito custo, passar pelas árvores, ainda roçando nas suas copas com a parte de baixo da avioneta. Mohamed sentia que as rodas de aterragem se tinham danificado nas árvores, mas não poderia voltar atrás. Continuou a aguentar a pressão da gravidade, tentando controlar da melhor forma a aterragem, para que não fosse muito brusca nem penosa para os passageiros. Conseguiu por fim tocar o solo, apercebendo-se nessa altura de que não tinha de facto rodas para aterrar. A nave deslizou-se então por vários metros, até que se deteve contra uns crescidos caules de milho e começou a incendiar-se…
FIM