Data de publicação: 20/mai/2012 21:58:24
Com bastante frequência nos dias quotidianos, presenciamos situações em que seres humanos se tentam impor ou tentam impor a sua vontade a outros. Em determinadas situações e salvaguardando os devidos e necessários "respeitos", há muitas vezes que passar recados, ordens ou normas; aqui e desde que sejam feitas dentro da legalidade, não haverá nada a opor. O problema reside quando se tentam passar regras, normas ou ordens, cujo conteúdo e oportunidade não geram consensos. Não se pretende obviamente que todos concordem com tudo o que se faz e se diz, no entanto, se houver uma preocupação por parte de quem “manda”, procurar o máximo de consensos, haverá por certo mais tolerância e compreensão por parte de quem “é mandado”.
Diariamente há episódios a narrar que confirmam esta alegação. Desde a política ao desporto, passando pela cultura e por algumas instituições principalmente públicas (mas também em privadas), assiste-se hoje em dia a autênticas caricatas e deprimentes cenas que em nada ajudam a aumentar o estímulo, ânimo e motivação do povo.
Depois, a par de uma sintomatologia existente por estas alturas de inércia memorial. Muitos dos atores públicos pensam ou acham que o povo não tem memória e o que foi dito e afirmado ontem, amanhã não será lembrado. Enganam-se! O povo recorda-se perfeitamente de tudo o que ontem foi dito e está à espera que seja feito ou cumprido.
Quando se reflete sobre estas temáticas, vêm certamente à memória dos leitores de forma imediata, promessas de políticos não cumpridas – não só dos atuais como também dos anteriores; mas também de dirigentes desportivos (que não deixam também de ser políticos); de dirigentes sindicais (que também são políticos); de diretores ou gestores de empresas e de serviços públicos (que igualmente são políticos); de chefes e/ou patrões (alguns) que, por fim, têm igualmente tiques de políticos.
Na política: assistimos hoje em dia a um governo que quando esteve na oposição, se comportava de uma forma e que agora estando no poder, se comporta de outra. Apesar de se sentir que o estilo de governação é menos arrogante que o anterior, nota-se também que não existe uma abertura mais efetiva ao diálogo com a oposição construtiva, como aquele que seria necessário no atual quadro. Por outro lado, vemos uma oposição (falamos aqui dos partidos chamados do “arco da governação”), que se mostra sempre “de beiço” por não ser consultado, por não serem atendidas as suas propostas, etc. Mas o povo não se esquece assim tão facilmente quem são os responsáveis que nos últimos 25 a 35 anos colocaram o país no rumo que nos trouxe até esta ilha deserta, principalmente os disparates dos últimos 10/12 anos.
Falta de Humildade, excesso de arrogância, desmemorização do povo.
No futebol: assistimos durante esta época a um excesso de arrogância e falta de humildade por parte de determinado clube, principalmente o seu treinador mas também do seu presidente, julgando serem o melhor clube do campeonato, o que praticava melhor futebol, o que mais espetáculo dava, etc., etc., a certa altura, estando na frente do campeonato, julgaram-se os maiores. Porém a falta de humildade e o excesso de arrogância, contrastando com a (quase) permanente humildade demonstrada e a não resposta a determinadas críticas, conduziu à perda dos pontos necessários à perda do campeonato. Mais uma vez, nos momentos decisivos, o Benfica não soube estar à altura de um Porto que há muito tem um líder incontestável que carrega com o clube às costas e soma títulos atrás de títulos. Já no Sporting, uma inicial arrogância trazida pelos novos dirigentes e pelo primeiro treinador da época, deu lugar à frutífera humildade de Sá Pinto, que conduziu o clube a uma reta final mais condicente com os pergaminhos do clube. A sua humildade nos jogos europeus, quase proporcionou uma entrada na final da Liga Europa. De salientar ainda a humildade de um Sporting de Braga que tem feito milagres lá para os lados do Minho e ainda a quase desgraça dos clubes do centro, com a descida pouco digna do União de Leiria, acompanhado pelo Feirense. Já a falta de humildade da Académica que dado um excelente início de campeonato e, pensando que o mesmo seria uma passeio esta época, tratou de minar o seu percurso com um mal explicado caso Éder que, provavelmente, originou uma quase queda do clube histórico de Coimbra.
Falta de Humildade, excesso de arrogância, desmemorização do povo.
Na cultura: quantos são os autores e intérpretes de qualquer arte – música, escrita, pintura, escultura, arquitetura, design, moda, representação – de quem nunca se ouve falar, dos quais nunca se vêm obras nos lugares mais dignos, como grandes eventos, museus, salas, apenas porque a estrelinha da sorte nunca os tocou ou porque não tiveram amigos influentes no meio ou na comunicação social? Quantos desconhecidos fazem excelentes obras de arte e ficam no anonimato? E por outro lado, quantos são aqueles que aparecem apenas porque tiveram os amigos certos nos locais apropriados e no tempo justo? Mesmo que deles não se vislumbre quaisquer qualidades extraordinárias ou sequer um pouco acima das do cidadão comum? Mais uma vez a humildade dos que lutam contra a corrente, dos que remam contra as marés decide quem vai à frente, quem chega em primeiro. Não falo de nomes, mas certamente o leitor irá identificar o que se pretende aqui denunciar. O mundo seria muito mais verdadeiro, se existisse uma igualdade em que todos os seres tivessem humildemente a oportunidade de fazer aquilo de que gostam e querem, sem a imposição da arrogância de uma sociedade fria, calculista e individualizante, na qual só o eu conta, enquanto o tu e o ele cada vez se encontram mais distantes e mais desconhecidos.
13Maio2012
J. Rafael Coelho