Poucos são os que, com a idade, resistem às vicissitudes da erosão do tempo. O tempo tudo desgasta, tudo aos poucos, se destrói ou se modifica. Vejam-se o afastamento dos continentes, vejam-se o crescimento das montanhas, vejam-se os leitos dos rios, vejam-se o desgaste das pedras e das rochas pelo bater ou pelo correr das águas, vejam-se as dunas e vales criados pelos ventos do deserto, vejam-se a inclinação das árvores que vacilam com o sopro do vento, vejam-se as nuvens em deslocação pela ação no movimento da natureza, veja-se a noite a substituir o dia e o dia a substituir a noite, veja-se o percurso da água, que sobe ao céu através dos mares e rios, para se purificar e voltar à terra mãe, regando-a e alimentando-a dos seus mais simples, mas essenciais componentes e minerais. Com o tempo, tudo se modifica, tudo se transforma. Os seres vivos também. São gerados e nascem por ação da natureza e pelo cumprimento das suas regras, crescem usufruindo do alimento de outros seres vivos que têm de sucumbir para dar de alimento a estes e assim sucessivamente, e assim acontece sem cessar… e há de acontecer até ao fim dos tempos, se é que os tempos irão ter fim! Até os elementos do topo da cadeia alimentar, como é o caso dos humanos, também eles são finitos, porque têm de dar vida a outras vidas. A sua carne tem de dar alimento a outros seres vivos. Por isso, todos os seres vêm do pó da terra e voltam para ela, para que ajudar a mesma terra a ser nutritiva. O tempo altera por isso a condição de cada ser vivo, consoante o seu estado de crescimento e de evolução. O percurso que cada um percorre é marcado pela sua presença no mundo e na vida dos outros seres vivos. Também o Homem e, especialmente o Homem, marca a sua presença no seu mundo e no mundo dos outros. A sua racionalidade e nível superior de inteligência e a sua consciência levam-no a desejar a imortalidade, por isso a procura alcançar desde a sua existência. O prolongamento da esperança de vida é um facto, no entanto, o próprio Homem, através da sua ação, também cria formas e artefactos que o fazem, em muitas vezes, encurtar muitas outras vidas: a poluição ambiental, o tipo de alimentação, a sedentarização, as falhas humanas que levam à ocorrência de acidentes (em meios de transportes, em fábricas, em plataformas, em minas, entre outros). Não fossem estas ocorrências e, hoje em dia, ninguém falecia novo…
Por tudo isto, existe a doença. A doença não é mais do que um problema de falta de saúde causado por um fator interno: gene defeituoso, órgão que deixa de funcionar, por exemplo, mas principalmente é causada por motivos externos, como vírus, bactérias ou fungos nocivos, elementos químicos que afetam o organismo, ingeridos ou respirados, má, supra ou subalimentação, picadas ou mordidelas nocivas de bichos, ou então acidentes de todo o género. Uma coisa é certa: não existe o conceito de “morte natural”. Para existir morte, tem de haver um evento de falência, de doença, de falta de saúde.
Aqui estou eu, ainda sem saber porquê, agarrado a esta cama, sem se saber o que aconteceu à minha saúde, sem que os profissionais consigam para já anunciar a razão da minha doença. De um momento para o outro, sem que alguma coisa alertasse para qualquer problema, o permanente mal-estar, os desmaios, as tonturas, as batidas irregulares do coração… tudo junto, que parece tão pouco para quem ouve, mas que é tanto para quem sente…
Cada dia que passa, parece que tenho menos forças, parece que vou perdendo o controlo sobre os membros e órgãos do meu corpo… a sensação é que vou ficar a qualquer momento tetraplégico, apenas conseguindo mexer a cabeça e os olhos. Ainda não estou assim, mas nos meus pesadelos mais intensos, já é assim que me vejo… é uma aflição tremenda, isto o que sinto. Ainda bem que tu apareceste e que tens a paciência e a amabilidade de me ouvires. Sem ti neste momento, alguém que possa escutar-me, iria morrer aqui estúpido, sem conseguir comunicar, sem o mínimo de dignidade. Os teus ouvidos são neste momento a certeza de que Deus me escuta através de ti. De que posso ditar todas as minhas amarguras para fora de mim e com isso exorcizar este mal que sinto e esta impotência de não conseguir atuar normalmente.