Solucionados que estavam já alguns problemas, Delmiro levantou-se cedo após ter passado quase toda noite em branco, a pensar nesses assuntos e também na convivência com Amélia. Já esta tinha o pequeno almoço preparado. Apesar da agradável companhia, o advogado não tinha tempo a perder e preferia continuar o seu árduo mas frutífero trabalho de investigação. Tomaram o pequeno almoço juntos. Amélia ofereceu-se para o ajudar ou o acompanhar na sua jornada, uma vez que estava de folga nesse dia e não tinha nada de especial para fazer, uma vez que as lides domésticas as ia fazendo diariamente. Ele ficou um pouco apreensivo em aceitar a proposta, mas não se sentiria bem se recusasse. Nesse instante, o seu telefone tocou. Era Henrique.
- Olá Henrique, então como vai isso? Tenho mais novidades, temos que conversar!
- Sim, amigo, mas olha, para já preciso que vás à polícia, porque há para lá também novidades. Vai tentar saber o que se passa. Eu não te posso acompanhar, porque tenho inúmeros problemas para resolver nas empresas. Fazes isso por mim?
- Claro Henrique, fica descansado, vou tratar do que for preciso. Boas decisões no teu trabalho. Logo que haja oportunidade, marcamos encontro. Mas diz-me, a polícia não adiantou qualquer informação?
- Nada, não adiantaram nada!
- Bom, então vou lá saber. Fica bem amigo! - E terminaram a ligação.
Arrumaram rapidamente a mesa e a louça e saíram. Ainda não eram nove horas da manhã, tomaram um Táxi para casa do advogado, no sentido de irem lá buscar o carro. Amélia não possuía transporte próprio, para além de uma bicicleta e uma motoreta. Perto da casa de Delmiro, foram ainda tomar um café e ele prometeu a Amélia levá-la a sua casa, para a conhecer, quando houver uma ocasião conveniente. Chegados à esquadra da polícia de investigação criminal, após atravessarem a cidade com bastante dificuldade devido ao trânsito intenso, tiveram que aguardar pela chegada do agente responsável pelo processo acerca do qual queriam falar a Henrique, assim como o comandante do posto que se encontrava na mesmo diligência.
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Lúcia tinha nessa manhã ido a uma consulta de rotina, no intuito de verificar, como fazia regularmente, o seu estado de saúde.
Ao ser observada, o seu médico verificou algo de menos normal nos seus seios.
- Doutora Lúcia, há quanto tempo não vigia os seus peitos? - Pergunta o médico.
- Doutor, não sou muito cuidadosa, por vezes durante o período parecem ficar um pouco mais rígidos e com algumas áreas que parecem nódulos, mas depois desaparecem. De qualquer forma, como já disse, não é meu hábito fazer grande vigia.
- Então, temos que mandar fazer uns exames. Vamos requisitar uma mamografia, um raio X ao tórax, análises ao sangue e à urina, com caráter de urgência.
- Mas pensa que posso ter algum problema, doutor?
- Para já, não vou ainda adiantar qualquer diagnóstico, mas receio que possam existir alguns nódulos nos peitos, principalmente no esquerdo.
- Obrigado, doutor, esperemos que não seja nada de mal.
- Esses são também os meus desejos, mas para já o importante será a rapidez da nossa ação. Tem aqui as requisições, se quiser, pode marcar já com a rececionista.
- Obrigado, doutor.
Lúcia ficou de alguma forma preocupada. A sua idade superior a quarenta anos é perigosa e propícia ao aparecimento de algumas debilidades de meia idade. No entanto, ela não quer ficar perturbada com isso, porque tem muito ainda que ajudar Henrique e Filipe nas empresas, que nesta altura estão a passar por uma fase complicada das suas existências. Após a marcação dos exames, alguns dos quais ainda para esse dia e outros para o dia seguinte, saiu do consultório e voltou para o seu escritório.
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- Caro Delmiro, como está? O doutor Henrique não veio? - Perguntou o inspetor ao chegar à esquadra.
- Bom dia, inspetor! Não, não pode vir, mas estou eu cá a representá-lo.
- Muito bem, então acompanhe-me ao gabinete, por favor! - Amélia ficou na sala de espera.
O inspetor tinha convocado Henrique para o informar que as investigações ao assassinato de António Alfonso tinham conduzido à incriminação de um conhecido criminoso, recentemente liberto da prisão: António Quiose! Sim, esse mesmo! Na exumação do corpo de Alfonso, foram descobertos vestígios de impressões digitais e de ADN que foram analisados e chegou-se rapidamente à conclusão que se tratavam de Quiose, uma vez que se encontravam no sistema informático devido a ser um cadastrado. Nomeadamente, "gravados" na careca de Alfonso, tal foi a força aplicada por Quiose com a sua mão desprotegida - provavelmente a segurar-lhe na cabeça - enquanto que com a outra mão o asfixiava com a almofada.
- Fizeram algum exame de ADN também ao corpo de António Alfonso durante os exames forenses, inspetor?
- Sim, fizeram! Porquê?
- Para outro assunto de interesse familiar, necessitava de ter acesso a esses exames.
- Penso que os poderá obter, fazendo um requerimento ao Instituto de Medicina Legal.
- Sim, eu sei, mas se o inspetor mos pudesse fornecer em segredo, para apressar um pouco mais a minha investigação... Claro que iria pedir também ao Instituto, mas sei que demora muito mais tempo a serem facultados...
- Bem... como é para si, eu acedo, mas fixe bem: "nunca lhe facultei estes documentos, ok?"
- Pode ficar descansado inspetor, a minha boca é um túmulo.
- Mas há mais, doutor... os exames mostraram também um ADN feminino no corpo no seu amigo António, por isso, temos aqui o Quiose detido, foi constituído arguido e vai ficar em prisão devido aos antecedentes criminais. Vamos interrogá-lo. Quer assistir?
- Sim, claro!
- Então vamos! - E saindo do seu escritório, manda ao seu colega policial - levem por favor o Quiose para a sala de interrogatório!
Delmiro assistia por entre a vitrina espelhada à chegada do inspetor à sala, onde Quiose já se encontrava. O inspetor começou por demonstrar a Quiose as provas que tinham contra ele e informou-o que sabiam que o crime não tinha sido cometido por ele apenas, mas que existia uma mulher. Questionou-o diretamente quem era aquela mulher. Quiose permanecia calado. O inspetor alertava-o para o facto de que, se colaborasse, poderia ver o seu julgamento ser abreviado e até mesmo poder obter outras atenções do juiz e dos guardas prisionais. O seu cadastro não era brando, por isso as coisas não estavam fáceis para ele. O inspetor pedia-lhe apenas uma pista. Alguém com quem Alfonso se relacionasse? O porquê de matar um velhote que estava mais para lá do que para cá... "Tínhamos que ter a certeza que o velho morria mesmo!" - Disse Quiose. "Ah, então confirma que eram dois..." - Retorquiu o inspetor, ao que o seu interlocutor fez um ar de irritado, reconhecendo o descuido. "Mais tarde ou mais cedo, vamos descobrir, por isso, o melhor será confessar, António!" - Insistia o inspetor, continuando - "Conseguimos recuperar as imagens de vigilância do hospital, onde temos a vossa identificação visual, só nos falta encontrar a pessoa certa." - Arriscava o inspetor, com algo que de facto não tinha a certeza em conseguir. Quiose olhou para ele e para o chão. Estava perturbado, pois tinha-se comprometido com o sigilo. No entanto, sentia-se injustiçado porque apesar de a autoria do crime ter sido sua, quem o planeou foi ela. Seria demais para ele passar vinte ou mais anos na cadeia e ela ficar impune, sem consequências. Ele que tinha prometido a si próprio na cadeia deixar o crime. Mas ela há algum tempo que o visitava na prisão, apresentando-se como sua namorada, para conseguir obter dos guardas alguma privacidade. Tinha conseguido seduzi-lo, oferecendo-lhe alguns favores sexuais enquanto estava preso, para em troca o convencer a matar o António Alfonso. A oportunidade surgiu quando, passados poucos dias de Quiose sair da prisão, Alfonso ter adoecido e sido hospitalizado. Daí a planearem o asfixiamento, foi um ápice!
- E o nome, Quiose, diga-me o nome dela... Não tem nada a perder! Vamos lá...
- Cláudia.
O inspetor saiu imediatamente da sala, dirigiu-se ao advogado e perguntou-lhe se sabia quem era aquela Cláudia. Delmiro explicou-lhe e disse-lhe a morada. O inspetor mandou de imediato uma brigada ao encontro dessa mulher, para a trazer à esquadra, como suspeita de homicídio. Entretanto, comentava Delmiro:
- Inspetor, conseguiu dar bem a volta ao homem, hein?
- Como sabe?
- Perspicácia minha, modéstia à parte. Cá para mim, o inspetor não tem as provas que afirmou ter, pois não?
- Deitei o barro à parede... e resultou... mas isto só faço quando tenho a certeza de alguma coisa, juntamente com alguma intuição, também, caro Delmiro.
- Ingredientes sempre essenciais! - Retorquiu.
- Quer assistir também ao interrogatório à mulher?
- Sim, gostava. Assim ficaria já com toda a informação necessária para informar os meus clientes. - Entretanto, Delmiro foi procurar Amélia, que estava ainda à sua espera na sala de visitantes, para lhe dizer - Amélia, vamos tomar um café ali àquele bar, pode ser?
- Outro café? Está bem, por uma boa causa...
- Quero falar uma coisa contigo, mas não pode ser aqui. - E seguiram, enquanto ele continuava, contando-lhe o que se estava a passar. Era importante para ele perceber se ela tinha grande afinidade com a irmã Cláudia ou não, devido a mais esta "bomba" que caiu desamparada para provocar estilhaços colaterais. Percebeu então, pela conversa com Amélia, que afinal a proximidade não era grande. Apenas têm conversas de ocasião, quando Cláudia visita o restaurante onde Amélia trabalha. - Sabes Amélia, é possível que a tua irmã esteja envolvida, se não mesmo a autora, de um crime de homicídio ao pai do meu amigo Henrique, por isso dentro de alguns instantes, deverá estar a ser detida para ser interrogada e, muito provavelmente, deverá ficar mesmo presa.
Para Amélia, a notícia não lhe causou grande consternação, uma vez que aquela irmã pouco lhe dizia em termos sentimentais. Muitas vezes, nas suas visitas ao restaurante, até se mostrava bastante desinteressada, por vezes ignorava a irmã e em algumas chegava a ser um pouco prepotente e arrogante com ela. Por isso, os sentimentos em relação a ela não eram nem bons, nem maus, eram simplesmente inexistentes.
De volta à esquadra, após terem ouvido o ruído das sirenes dos carros patrulha que traziam Carla, dirigiram-se para a sala de visionamento do interrogatório pela vitrina espelhada. Desta vez, Amélia também podia assistir, atendendo ao grau de parentesco com a suspeita. Com algum custo, o inspetor lá conseguiu arrancar uma confissão de Carla, quase na totalidade do seu crime. Apenas não entendeu muito bem as razões para tal. Assim, o policial fez uma curta pausa e ao cruzar-se com Delmiro, este propôs fazer uma perguntas à mulher, uma vez que possuía algumas informações que poderiam ser úteis ao apuramento de toda a verdade. O investigador policial acedeu à proposta e abriu-lhe a porta da sala de interrogatório, para ele entrar. Carla ficou admirada ao ver ali o advogado e pensou que ele teria sido enviado por Henrique, para fazer a sua defesa. Enganou-se. Delmiro colocou-lhe questões diretas, às quais ele não pode deixar de responder. De facto, Carla acabou por confessar que pretendia com o desaparecimento de Alfonso, tomar conta das casas de alterne, que ela bem conhecia, uma vez que sabia - pela boca do próprio - que a sua família desconhecia a existência de alguma ligação de António Alfonso a esse tipo de negócio. Nunca lhe passou pela cabeça que o próprio deixasse escrito em testamento à sua família este seu lado menos legal e menos moral da sua vida. Mas de verdade, Carla tinha a intenção, após a morte de Alfonso, apresentar-se em todas as casas como proprietária e gerente das mesmas, tentando assim de forma desonesta e criminosa, obter a riqueza que nunca conseguiu alcançar, mas optando pelo caminho mais curto, através do crime.
Assim, o policial ficou com toda a lógica desta história e com mais um crime solucionado e pronto para ser encaminhado para os tribunais. Amélia ficara estupefacta com a falta de caráter e de escrúpulos da sua irmã mais velha. Na verdade, daquela família tinham saído pessoas bastante diferentes: de pais suicidas, neuróticos e perturbados, nasceram um padre, uma freira, uma prostitua ladra e assassina e uma pessoa normal, mas também esquisita, à sua maneira. Talvez tenha sido a conjugação de genes divergentes. Coisas na natureza...
Delmiro saiu com Amélia, levando consigo o documento onde se inscreviam as características genéticas do ADN de António Alfonso, fornecido pelo amigo inspetor de forma oficiosa. A sua intenção era ir ao encontro de Lúcia e de Henrique, para almoçar com eles e aproveitar para contar as novidades e apresentar-lhes Amélia. Lúcia passara a manhã inteira a fazer exames e encontrava-se extenuada. Ao chegar ao hotel onde Henrique desenvolvia a sua atividade de administração, reparou na sua visível quebra física e anímica. Nada comentou à frente de Amélia, mas iria fazê-lo mais tarde, a sós. Lúcia ainda não tinha chegado, Henrique aguardava-a para o almoço. Entretanto, teve o prazer de conhecer Amélia e de ficar a saber todos os factos até esse momento descobertos.