Uma vez que estivera toda a manhã incontactável, Delmiro ainda desconhecia os recados e assuntos que o esperavam ao chegar ao escritório, após o almoço. Entre outros de menor importância, tinha um recado de um telefonema de Henrique, que necessitava de falar com ele urgentemente. Logo que teve conhecimento, Delmiro telefonou para o seu amigo e cliente, afim de se inteirar acerca do assunto tão pertinente a tratar. Henrique não quis informá-lo pelo telefone e pediu-lhe "encarecidamente" que o visitasse no seu gabinete. Ainda com o café meio engolido, que habitualmente toma no escritório após o almoço, Delmiro saiu e dirigiu-se imediatamente à unidade hoteleira onde Henrique executava a administração do seu grupo de empresas.
- Boa tarde, Delmiro, senta-te, por favor!
- Boa tarde, amigo! Então, o que se passa de tão grave?
- Delmiro, chegou informação da polícia que pede a minha comparência com urgência na esquadra criminal. Não faço a mínima ideia do que se trata, mas não queria lá ir sem ti. Nunca se sabe... tenho a consciência tranquila em relação a tudo - exceto os problemas da vida pessoal que tu sabes - mas quanto a negócios, penso que não haverá qualquer problema.
- Exigiram hora de comparência?
- Não, o contacto foi telefónico, pediram urgência na comparência, de preferência ainda hoje. Ainda nem sequer disse nada à Lúcia. Hoje não almoçámos juntos, porque ela está numa auditoria às unidades do norte. Não a quis porém preocupar, para já, porque já se sabe que estas situações causam sempre alguma desconcentração laboral e, já se sabe, apesar do poder de abstração e concentração de ela é exemplo, mesmo assim, preferi não dizer nada.
- Ok, então vamos?
- Oh pá, se estás disponível, vamos lá então. - Saíram do gabinete e depois disso, Henrique informou a sua secretária que não poderia estar para qualquer assunto durante as próximas horas.
No caminho, Delmiro aproveitou para, resumidamente, contar ao Henrique a conversa que havia desenvolvido com a madre responsável pela Congregação do Convento, onde funcionava a Instituição de Reinserção de Crianças e Jovens da Capital. Henrique ficou bastante comovido com toda aquela descrição, embora ainda não houvesse qualquer novidade em relação ao seu filho com Carla.
Chegados à esquadra policial criminal, apresentaram-se e o agente de plantão encaminhou-os para o chefe de esquadra, a pessoa responsável por este processo. Depois de alguns momentos de conversa informal, o chefe de polícia informou Delmiro e Henrique que tinha chegado à repartição criminal, para investigação, o relatório da autópsia de António Alfonso. Delmiro pensou de imediato para consigo próprio que, "se isso tinha acontecido, então é porque foram detectados problemas que indiciam procedimentos criminais na morte do famigerado pai de Henrique, porque, se assim não fosse, o relatório era apenas médico e não também policial", enquanto Henrique ficava perplexo com aquela notícia.
- Meus senhores, estamos perante indícios criminais neste caso, uma vez que, apesar de o falecido Sr. António Alfonso ter sido hospitalizado por motivos de saúde, segundo a autópsia - e ainda bem que foi feita - a causa da morte foi asfixia e nada que tivesse a ver com o acidente vascular cerebral que sofreu. Segundo consta, no dia em que faleceu, o malogrado senhor tinha já apresentado significativas melhoras na sua condição de saúde. - Os homens ficaram estupefactos!
- Coloco-me desde já na disposição de ajudar na investigação deste caso. A polícia pode contar com a minha ajuda! - Referiu Delmiro.
- Doutor, este é um assunto que cabe à polícia resolver. É claro que, se souberem de alguma informação que nos possa vir a ser útil, muito agradecemos.
- Mas quem poderia ter interesse em matar o meu pai?
- É isso que temos que perseguir em primeiro lugar: pessoas com motivo para tal. Normalmente, os motivos são dinheiro, herança, vingança, seguros, questões passionais... é aqui que necessitamos da vossa ajuda. Será necessário identificar possíveis suspeitos. Entretanto, iremos iniciar um inquérito, para interrogar todas as pessoas mais directamente ligadas ao seu pai.
- Esperemos que seja breve esta investigação! - Desejou Henrique.
- Vamos ver, tudo depende da participação de todos. Cada detalhe poderá ser importante para a investigação. Uma vez que não se suspeitou de qualquer crime, inicialmente, não temos hipótese já para analisar o quarto, cama, lençóis do hospital onde se encontrava o Senhor António. No entanto, poderemos investigar melhor o seu corpo. Por isso, para evitar um mandato de tribunal, que será um pouco mais demorado, pedimos-lhe autorização para exumar o corpo, para investigação. Concordando já, assine por favor esta declaração. - E o polícia apresentou ao Henrique o documento e uma caneta para assinar.
- Está bem, em favor da verdade, assino.
E retiraram-se.
Definitivamente, a paz parece não querer voltar a esta família. Quando pensavam que, da memória de António Alfonso só já restava isso - a memória, uma boa memória - teria que existir novo problema para resolver. De facto, quem poderia querer ainda fazer mal ao velho, que mesmo moribundo e com aquela idade, a ninguém fazia qualquer mal? Antes pelo contrário, António sempre foi bastante respeitado e venerado e isso prova-o o seu funeral e os milhares de pessoas que nele apareceram e fizeram questão de acompanhar. Estes são desígnios que a vida trata de nos preparar. Felizes são aqueles que sempre estão de prevenção, que sempre estão preparados para o pior dos mundos. Para esses, qualquer desilusão, é apenas um pequeno arranhão. No entanto, muitos têm também castigos que não merecem, vidas inteiras de infelicidade que não procuraram e que da qual sempre tentaram afastar-se. Quando se diz que cada um colhe aquilo que semeia, nem sempre podemos levar isso à risca. Porque quem semeia, também tem que ter sorte que não depende de si: chuva, sol em quantidade bastante e suficiente, solo arável e nutritivo, boa semente, não ser castigada a sementeira com qualquer espécie de pragas, parasitas ou doenças, não ser assaltado por ladrões ou invejosos, não haver qualquer incêndio na seara ou geada ou granizo; ou seja, tudo podemos fazer para que a vida corra de feição, mas se existirem forças negativas mais poderosas e incontroláveis, apesar de podermos lutar, o sucesso não é garantido. Isto é o que tem acontecido a esta família. Rica, poderosa, brilhante, mas afetada com algumas energias negras que por vezes pairam no seu horizonte. Contra isto, o que fazer? Continuar a lutar, sim. Tentar corrigir, sim. Mas, isso faz reverter a situação? Não! É por isso aqui que encaixa a teoria do destino. Se todos temos um tempo para viver e todos os dias têm as mesmas horas sempre, tudo depende então do ano, dia e hora em que nascemos. Iremos cruzar-nos sempre com as mesmas pessoas e passar as mesmas experiências, se voltássemos a nascer no mesmo ano, no mesmo dia, à mesma hora. Bastava termos nascido uma hora antes ou uma hora depois (ou ainda maior diferença), para que o nosso destino, ou seja, a nossa vida, fosse totalmente diferente. Se há fenómeno que o homem ainda não consegue nem conseguirá dominar é o tempo, ou melhor, o decurso do tempo. Por mais que tente e sonhe controlar o tempo - e existem bastantes versões cinematográficas sobre o assunto - a máquina do tempo é ainda um mito, um mistério indesvendável. Por isso há os que acreditam que a eternidade é o lugar onde não existe tempo, porque o tempo foi o ser humano que o criou, para o poder controlar e controlar-se. Para os animais e para as plantas, não existe o tempo, apenas o instinto, que gira sempre em redor do factor subsistência, sobrevivência. Mas nós, como seres pensantes e racionais, enveredámos por outro caminho. A sobrevivência deixou de ser o objetivo de vida, para passar a ser o criar as condições necessárias à qualidade de vida, ao bem estar e ao conforto. Porém, o instinto de sobrevivência continua no nosso ADN e ele aparece sempre que a nossa sobrevivência está em causa, em situações de pobreza ou de risco de vida. Sempre que nenhum destes fatores estão em causa, então aí sobressaem outros valores, como a sociabilidade, a realização pessoal e a necessidade do divino.
- Não sei se hei-de respirar de alívio ou ficar preocupado...
- Então, Henrique, porque dizes isso?
- Porque nunca pensei que a nossa convocatória para vir à polícia tivesse a ver com a morte do meu pai. Pensei que era algum assunto relacionado com as empresas...
- Ah, por isso o "alívio"...
- Mas não fico mais descansado com a situação do meu pai... É muito intrigante o facto de ele ter sido assassinado! Nunca me passaria pela cabeça que alguma vez houvesse alguém que pudesse ter algum problema com o meu pai, muito menos para o matar! Estou completamente indignado com a situação!
-É verdade, tens razão, um homem que sempre fez o bem a toda a gente e que aparentemente não tinha inimigos... E quanto a alguém que tivesse algum interesse financeiro, também não estou a ver quem pudesse ser suspeito: os bens dele estavam todos repartidos e bem, nada deixou de herança por esse mesmo motivo e a sua morte, parece não beneficiar qualquer sujeito.
- A não ser...
- As casas de alterne!!! Será que tem alguma coisa a ver com isso?
- Oh Delmiro, não me digas! Então o meu pai fez tudo para que esse negro da sua vida permanecesse incógnito para a família e para toda a sociedade. Agora, se esse assunto vai ser motivo de investigação, tudo se virá a conhecer. Queria fazer os possíveis para que nunca se viessem a conhecer essas ligações quentes do meu pai, mas pelos vistos, não vou conseguir evitar!
- Pois é Henrique, pois é! E essa pode ser uma boa pista: começar a inquirir (em jeito de conversa ou entrevista) com todos os responsáveis das casas, para tentarmos encontrar algum "gato escondido com rabo de fora".
- Delmiro, o que achas de adotar a seguinte estratégia: para já não dizemos nada à polícia acerca da nossa suspeita e tu vais tentar descobrir alguma coisa na investigação. No caso de encontrarmos alguma suspeita, informamos a polícia. Caso contrário, não dizemos nada à polícia e, assim, continuamos com o assunto em segredo.
- Bem, não é uma proposta muito ortodoxa, mas atendendo à nossa amizade, com certeza que iremos fazer assim.
- Obrigado, amigo Delmiro.