O sol ia já alto, em pleno maio quente, esse maio de flores garridas e esquias olhando o céu azul, de andorinhas esvoaçando à procura de alimento para as suas crias que chiavam nos beirais dos telhados. De vez em quando soprava uma brisa um pouco fresca de norte, que trazia o aroma do pólen de malmequeres e hortências. No solo, laboravam formigas em eternos infindáveis carreiros, organizadas num mesmo objetivo: arrecadar tudo o que pudesse servir ao grupo; algumas folhas que prematuramente caíram das árvores caducas, esvoaçavam ao sabor da brisa e os grilos cantavam as maravilhas dessa linda manhã de primavera. No ribeiro, corria uma água límpida, que deixava transparecer as pequenas e erosadas pedrinhas que cobriam um pequeno vale e a curta vegetação das suas margens agitava-se em favor da corrente, qual seara ao vento que, ao fundo cobria de verde acastanhado o horizonte, só interrompida pelo deslizar do comboio no sopé de um conjunto de colinas que se assemelhavam a dunas de areia, mas cobertas por oliveiras alinhadas e definidamente desenhadas, mais parecendo uma gigante impressão digital.
André apreciava este quadro, como muitas vezes o fazia, sentado nos degraus junto ao canteiro do portal de acesso ao jardim do colégio onde estudava. Sempre apreciador da natureza, era muitas vezes nela que ganhava a inspiração necessária à sua escrita e composição musical. Aprendia agora no colégio de artes, as técnicas do desenho e da pintura e acabara de descobrir que os quadros eram a sua última grande paixão. Ao tentar pintar o primeiro quadro e experimentar a conjugação de cores que lhe deu forma, encontrou que na ponta do pincel uma extensão do seu braço e da imaginação que vagueia dentro do seu jovem cérebro, dinâmico e sensível. Muitas vezes, André isola-se, não só para as traseiras do colégio, lugar de exceção onde se situa o jardim que dá fim à cidade e início ao campo. Dessas vezes, há umas em que sai mesmo do colégio para entrar nesse campo adentro, como se tivesse a entrar para dentro do seu quadro, como se tivesse a entrar para dentro do seu sonho colorido. As formas que traça e imagina, ligam-se fielmente com as harmonias que os seus dedos soltam no piano ou da viola, os instrumentos que mais gosta de tocar e de ouvir. Explora-os com soberba e gosta de o fazer sozinho, enquanto composição. Enquanto estudo, gosta de partilhar com os colegas as melhores sonoridades, desde a música clássica à música popular. Desde que vive no colégio, André ganhou inúmeros apreciadores do seu talento, incluindo os professores, quais mentores que o ajudam, que refinam a sua sensibilidade, mas também que muitas vezes ficam surpreendidos com a sua capacidade de abstração, de concretização e de interpretação.
Tudo na natureza está relacionado. A arte está em qualquer parte, em todos os motivos e paisagens, em todas as pessoas e ambientes, mas não é para todos a absorção dessas imagens, cheiros e sensibilidades, capazes de transformar tudo o que se olha, tudo o que se toca e tudo o que se sente, em arte, quer seja em música, em pintura, em escultura, em escrita, em dança ou em dramatização. André era uma dessas pessoas que conseguem transformar em arte o que o rodeia. Nenhum dia é positivo para ele, se não utilizar uma ou duas horas para a contemplação. Esse é o seu alimento, é o momento onde o seu corpo e mente bebem e absorvem a energia da natureza e a transforma em arte, para seu benefício e para regozijo dos seus espetadores.
Um dia André foi surpreendido com uma estimulante e contagiante proposta desafiadora. Os professores de música, pretendiam formar uma orquestra ligeira no colégio, tendo os melhores alunos como intérpretes. A orquestra teria instrumentos de percussão e bateria, viola baixo e viola elétricas, piano, quarteto de cordas, com violinos e violoncelos, quarteto de metais com trompete, trombone de varas, saxofone tenor e flauta transversal, assim como vozes - principal e coros. Os professores tinham, já, em segredo dos alunos, solicitado autorização e apoio à direção da escola e esta havia concordado e mostrou-se interessada em apoiar a iniciativa. Comprometeram-se também a solicitar apoios financeiros para a aquisição de alguns instrumentos, se necessário, e fardas para os músicos. Unanimemente, os professores decidiram ainda escolher André, para ser convidado para regente ou maestro da orquestra. Evidentemente que os ensaios, a escolha de repertório, os arranjos e as harmonias diversas, teriam a ajuda e coordenação deles próprios, principalmente os professores das áreas disciplinam mais práticas do curso. Ao ser convidado, André, na sua habitual humildade, ficou muito surpreendido com o convite e mostrou receio em assumir tais responsabilidades, demonstrando alguma impertinência em aceitar, porque pensou não estar à altura do desafio. Os professores conheciam bem as capacidades do rapaz e por isso o escolheram sem pestanejar, porque depositavam nele toda a esperança e confiança para o cargo. Era também uma forma de lhe demonstrar capacidades que ele próprio muitas vezes menosprezava de si próprio e achava que não possuía.
- Se os professores acham que conseguirei, desde que me prometam a ajuda necessária, então assumirei essa responsabilidade!
- Muito bem André, tomaste a melhor decisão - respondeu assaz satisfeito o professor de direção de orquestra - todos pensamos que vais conseguir, senão não terias sido o eleito por todos os professores de música. É claro que temos que vos ajudar em tudo o que for necessário. Porém, este será um desafio em que não estarão apenas vós envolvidos. Este projeto tem uma decisão já tomada favoravelmente pela direção, que estará empenhada, como nós, na sua concretização.
- Estou a entender que se trata mesmo de assunto sério!
- Verdade André, a escola vai inclusivamente tentar envolver a comunidade e a autarquia, solicitando apoios financeiros, logísticos e intercâmbios nacionais e até internacionais. Este projeto será muito importante para a escola, mas principalmente para vocês, os executantes. Especialmente para ti, pensamos que será uma forma de tentar demonstrar-te a ti próprio uma eventual vocação de líder de orquestra que pensamos existir dentro de ti, mas que tu, pela tua humildade e simpatia, não deixas transparecer.
- Não me sinto na pele desse animal, mas vou experimentar o fato, para ver se me serve. Sabe professor, eu gosto muito de trabalhar sozinho, na minha intimidade. É aí que faço as minhas composições e sinto a minha inspiração percorrer o corpo...
- Mas depois, não podes passar sem rapidamente mostrar as tuas partituras e composições aos colegas e professores, não é?...
- Sim, é verdade!
- Então, isso é o que fazem os maestros: trabalham intensamente sós, preparam muito bem o seu trabalho, antes de o mostrarem e demonstrarem à orquestra e de indicarem o caminho que desejam seguir em grupo, entendes?
- Estou a ver. Estou a ver que tenho sido muito analisado...
Risos.
- É esse também o nosso trabalho aqui no colégio convosco.
Todos os alunos tinham o seu próprio instrumento, por isso esse investimento não seria necessário realizar. Após ter sido lançado o desafio geral e convidados os melhores e mais promissores executantes, abraçaram de imediato o projeto e com grande entusiasmo. Os professores, juntamente com André, tinham já algumas propostas para repertório, com alguns arranjos já iniciados e outros completos. Marcaram os primeiros ensaios que, sendo eles já muito bons executantes, embora ainda fossem muito novos, certamente que os primeiros temas começariam a aparecer com brevidade. Estes rapazes e raparigas tinham entre os 13 e os 19 anos, no entanto esta era a vida deles, por isso, era muito frequente ao alguém entrar no colégio ouvir instrumentos a tocar. Nunca aquela escola estava se encontrava em pleno silêncio, excetuando a hora de dormir. A alegria, a jovialidade e a harmonia eram postais permanentes daquela escola. Muitas vezes organizavam espetáculos e encontros com artistas conceituados convidados, convocando a comunidade local a participar e esta aderia com grande afluência; por isso muitos destes jovens já estavam experimentados na arte da apresentação em público. Agora, neste projeto, as grandes alterações seriam a constituição de um maior e organizado grupo de jovens músicos a trabalharem em conjunto e com repertório fixo e suficiente para grandes apresentações. Pretendia-se um maior profissionalismo e dar a hipótese a estes jovens de participarem num projeto aliciante e que certamente traria ao colégio maior prestígio e notoriedade.
Decorridos alguns meses, os coordenadores iniciaram alguns contactos no intuito de agendarem os primeiros espetáculos que, inicialmente seriam realizados nas povoações limítrofes, para depois pensarem em chegar mais longe. Se tudo corresse conforme se desejava, a orquestra teria no próximo ano letivo um plano de atividades e atuações devidamente organizado e estruturado. André não gostava de estar envolvido na organização. A agenda e a organização era para si algo que não fazia parte do seu género nem do seu vocabulário. O seu caráter genuíno e espontâneo, não o deixava fazer grandes planos. Vivia sim o dia-a-dia com toda a intensidade, devoção e dedicação que o seu dia e inspiração lhe proporcionassem. Mas neste momento, tinha a responsabilidade de programar a sua atividade diária, tendo em consideração que teria de preparar os ensaios diários da orquestra, propor arranjos e escrever as partituras para os diversos instrumentos, caso as mesmas ainda não existissem. Para estes alunos, a integração na orquestra, não retirava qualquer tempo ao seu estudo, uma vez que, para muitos, os seus ensaios e avaliação decorriam no âmbito dos ensaios. Esta estratégia tinha sido decidida no seio do conselho de professores e com a autorização da direção, uma vez que, por fazerem parte deste projeto, os alunos executantes não poderiam ser prejudicados em relação aos outros que não fariam parte da mesma. Dos mais de 60 alunos, estes 20 que pertenceriam à orquestra teriam condições diferentes nas avaliações das disciplinas de música.
A par desta orquestra, a escola decidira também formar outras condições para alunos que não estudassem predominantemente música. Tinha sido decidido criar um espaço permanente de exposições no colégio e a assinatura de parcerias com galerias de arte e outras entidades que estivessem interessadas em expor os trabalhos de pintura e escultura dos alunos. Nas horas livres, André iria também querer participar com a cedência de algumas das suas pinturas, se bem que, neste momento, a sua maior dedicação em termos de tempo era para a música e a orquestra.
A escola tinha ainda decidido organizar um grupo de teatro e dança, igualmente constituído pelos alunos e com a coordenação dos professores dessas áreas, vocacionado para a participação dos alunos que tivessem mais tendência para essas artes performativas. Assim, a escola conseguia ocupar a totalidade dos alunos em atividades nas quais pudessem demonstrar as suas habilidades e conhecimentos adquiridos no colégio, assim como os motivava para iniciarem a sua carreira artística ainda em ambiente escolar. Esta seria uma forma de promover a arte dos alunos, mesmo antes de terminarem os seus cursos e assim, teriam a possibilidade de, no futuro, encontrarem trabalho e tornarem-se mais conhecidos pelo público - razão de ser da existência de qualquer artista.
Finalmente chegou o dia da estreia da orquestra. O local escolhido foi o cine-teatro da cidade e foram convidadas personalidades influentes: políticos, religiosos, empresários, artistas conceituados, diretores de serviços e jornalistas para noticiarem o evento.
André e os seus colegas estavam bastantes nervosos, mas também ansiosos pela apresentação do trabalho realizado durante meses. Nos bastidores, combinavam os últimos retoques e sinais, afinavam os instrumentos de corda e os músicos de sopro aqueciam os bocais, enquanto os cantores aqueciam as cordas vocais. Os bastidores tinham bastante qualidade para que os artistas se pudessem preparar e a insonorização era quase total, portanto eles poderiam estar à vontade na sua preparação. Lá fora, na sala, tudo se compunha. Os convidados iam chegando aos poucos e ocupando os lugares reservados nas filas da frente, enquanto o restante público enchia a sala. As cortinas ainda se encontravam cerradas e os lugares no palco, já definidos para cada executante, estavam preparados para serem por eles ocupados. Era altura de deixarem os bastidores, ocuparem os seus lugares e ambientarem-se com a estrutura da orquestra no estado de atuação em público. A sala já se encontrava totalmente preenchida de público e muitas pessoas não conseguiram ingresso para puderem assistir ao espetáculo. Sob este ponto de vista, a iniciativa já tinha redundado num autêntico sucesso. A hora aproximava-se. As luzes diminuíam a intensidade. O foco de luz acendia-se na direção do apresentador - conhecido locutor de rádio - que, posicionando-se em frente ao microfone, aguardava o silêncio do público para iniciar a apresentação. As pessoas que notando os sinais, procedia de forma ordeira a um sepulcral silêncio e os seus olhares procuravam ora para o apresentador, ora a central junção das cortinas de cenário, tentando que através dela conseguissem vislumbrar o que se passava para além.
- Nasce hoje um projeto que nasceu do empreendedorismo e dinâmica de uma das escolas de conservatório de música mais conceituadas do país, chamado Orquestra Nacional de Música Ligeira Garcia de Resende. Nele, meia dúzia de professores coordenadores conseguiram mobilizar e convencer duas dezenas de jovens estudantes entre os 13 e os 19 anos - dos melhores executantes da escola - a abraçarem este lindo e emocionante projeto musical. Do sonho à concretização, decorreram alguns meses e bastante e árduo trabalho de todos: professores, direção, mas principalmente de músicos e maestro, também ele, aluno do colégio. Caras senhoras e caros senhores, é com enorme prazer e alegria que tenho a honra de apresentar o espetáculo de estreia da novíssima Orquestra Nacional de Música Ligeira Garcia de Resende!!!
Abriam-se lentamente as cortinas, enquanto a orquestra iniciava com "Brothers in Arms" dos Dire Straits. Após cada tema, o público manifestava-se de forma bastante efusiva e ficava bastante contagiado pela qualidade das interpretações da orquestra. André mostrava-se muito concentrado e dirigia a orquestra de forma muito profissional e colocava bastante emotividade nos seus gestos. Não se vislumbravam quaisquer erros de qualquer músico. O fardamento era muito vistoso e representava as cores da escola e da cidade: vermelho, amarelo e azul escuro para sombrear. O repertório continha temas nacionais e internacionais e percorria diversos estilos musicais, desde música popular e ligeira, a rock, música contemporânea, fado, percorrendo as décadas desde 50 a 80. Decorrida mais de uma hora e meia de concerto e restando apenas uma rapsódia de temas diversos, a orquestra dava por finalizado o espetáculo. Toda a sala aplaudia de pé os artistas e estes acenavam com vénias, sorrisos e agradecimentos. André apontava para orquestra, como que a transferir todos os aplausos para eles. Já que o público não deixava de aplaudir de pé e após fechadas, voltaram-se a reabrir a cortinas, fazendo aumentar o volume de aplausos do público. Reposicionados nos seus lugares e aos seus instrumentos, a orquestra iniciava a rapsódia que deixara para o final, para se despedir com chave de ouro. No final e após o grande sucesso, o público retirava-se entusiasmado e comentando a grande qualidade de execução e interpretação daquela jovem orquestra. Os convidados e os familiares dos jovens ficavam para congratular pessoalmente os artistas e participarem numa pequena receção e lanche que se seguiria.
Na segunda-feira seguinte, os professores e a direção, dirigem-se à primeira aula do dia na qual participavam os músicos, para lhes dar os parabéns pela excelente atuação de sábado à noite e informando-os que a estreia tinha originado bastantes convites para participação em diversos eventos a nível nacional.
André sentia que tinha conseguido cumprir esta grande responsabilidade de ajudar na montagem deste excelente espetáculo e sentia-se muito motivado, feliz e realizado pelo evento e pelo trabalho realizado. Os seus pais, irmão, tios, primos e avô, assim como Mary e os filhos, Albertina e Gonçalves, todos tinham assistido ao espetáculo e tinha-se sentido bastante orgulhosos e satisfeitos com o feito do rapaz.
- De certeza que este rapaz vai longe... - Dizia o avô António aos pais - muitos parabéns! Oxalá consiga os seus intentos!
- Sim, pai, espero que sim! Ao início, quando o André nos pediu para ingressar naquela escola, sentimo-nos um pouco apreensivos...
Lúcia, interrompendo Henrique - ...Mas agora verificamos que o apoio que lhe demos e o investimento será bem recompensado! Só desejamos que nosso filho seja feliz naquilo que faz e consiga singrar neste muito tão difícil da arte.
- Mas com apenas 18 anos, iniciar-se como maestro de orquestra, não é para qualquer um! - Diz Aníbal.
- De certeza que deverá ser um dos melhores da escola, ou então não teria sido escolhido para o cargo. - Retorquiu Maria da Cruz.
- Obrigado pelo vosso apoio e por terem vindo todos. Estou muito emocionado... Muito obrigado! - disse André na sua habitual timidez e humildade.