Este texto nasce mediante uma palestra no formato remoto, no ano de 2020, organizada pelo Grupo de Pesquisa “MULTILETRAMENTOS NA ESCOLA POR MEIO DA HIPERMÍDIA”, conhecido como GP MULTI do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, coordenado pelo Prof. Dr. Petrilson Alan Pinheiro. Na palestra disponibilizada no canal do Grupo de Pesquisa no Youtube, a convidada Professora Dra. da Universidade de São Paulo, Walkyria Monte Mór aborda conceitos para gerar uma reflexão sobre a prática de uma nova epistemologia de ensino de língua inglesa nas escolas de Ensino Básico brasileiras. A professora Monte Mór foi co-autora das Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio: Línguas Estrangeiras (BRASIL, 2006). As suas contribuições ao longo dos anos com a linha de pesquisa acerca das temáticas dos Novos Letramentos, Multiletramentos, Linguagem e Educação faz dela um dos nomes mais relevantes para tratar do assunto com a devida propriedade.
Inicialmente, Monte Mór nos apresenta o que ela considera ser dois caminhos metodológicos para o ensino de língua inglesa: a perspectiva linguística e a perspectiva educacional e social. É sistematizado por ela que o ensino do sistema/código, de maneira descontextualizada e distante do uso social da língua pelo falante tem por característica um ensino linguístico usando as noções de estado-nação. Por outro lado, um ensino de língua que visa seu uso sociocultural alinhado ao seu poder formativo para cidadãos tem por característica um ensino que dialoga com as noções de práticas de letramento. Neste sentido, podemos recorrer também a Kleiman (2005, p. 12), que conceitualiza práticas letradas como um “conjunto de atividades envolvendo a língua escrita [e oral] para alcançar um determinado objetivo numa determinada situação, associadas aos saberes, às tecnologias e às competências necessárias para a sua realização.” Portanto, quando concebemos o ensino de língua preocupado em criar recursos para tocar nos pontos citados por Kleiman, estaríamos lidando com o ensino sob uma perspectiva Linguístico-Cultural-Educacional-Social, como levantado pela professora Monte Mór.
Em seguida, Monte Mór discorre sobre o ensino crítico da língua de modo que este supere as limitações observadas na perspectiva linguística. Ao se aprofundar na temática, Monte Mór cita Janks (2010), que defende que o ensino crítico necessita ser embasado numa pedagogia que promova habilidades na língua-alvo aliada a uma visão crítica do status desta. Ainda sobre essa afirmação, é defendido que a educação deve romper com o status do ensino e aprendizagem estabelecido sob a perspectiva linguística que produz “clones culturais”, levando os estudantes a compreenderem a diversidade linguística como um recurso para a criatividade e a cognição.
Ela ainda nos apresenta razões para sua proposta de um ensino de línguas norteado pelas noções de letramentos. A primeira razão seria que os letramentos têm como principal foco “a educação revisitada”, ou seja, busca superar os trajetos do ensino fragmentado buscando estabelecer uma visão transdisciplinar para a educação que, ao mesmo passo que ensina a língua, também contribui para a construção de visão de sociedade e de sujeito nos estudantes. Adicionalmente, a presença simultânea de antigos paradigmas e novos paradigmas na sociedade acarretam em um momento marcado por conflitos e contradições. Outra consequência do embate causado pelos paradigmas é a criação e inovação diante de novos desafios que surgem para o ensino, a aprendizagem e a educação. Assim, a soma de todos esses elementos resultam no surgimento de uma perspectiva de ensino guiada pela proposta dos letramentos.
Sendo assim, à medida que a pesquisadora reconhece a necessidade de um ensino de língua sustentado pelos motivos mencionados acima, ela também argumenta sobre as causas que mudaram a nossa relação com a língua inglesa em comparação com anos anteriores e por isso é relevante refletir sobre um ensino que possa abarcar as demandas do aprendiz de inglês da atualidade. Para tal, é elencado por ela duas principais causas: globalização e tecnologias digitais. Essas causas provocam efeitos na nossa relação com a cultura, fazendo surgir novos ethos e novas epistemologias.
No que diz respeito à globalização e seu impacto no ensino de língua indissociada da cultura, os estudantes estão em contato e se relacionam com línguas estrangeiras o tempo todo através do consumo de diversos produtos de mídias digitais ou não. A correlação das línguas, possibilitada pelo fenômeno da globalização, faz com que haja um distanciamento da ideia de língua restrita a uma nação e que apenas a população daquela nação “possui” aquela língua, no sentido de posse e delimitação por campo geográfico também. Em vista disso, é permitido a construção de um novo mindset no qual o aprendiz de língua estrangeira pensa a língua como sendo para todos que desejam aprendê-la e não mais como a língua inalcançável e puramente do nativo. Por isso, Monte Mór defende a revisão do ensino com o ensino com modelos descontextualizados da língua, pois o “estudante adquire não só conhecimento linguístico, não ocorre apenas um acúmulo de vocabulário de determinada língua. As questões identitárias e as ideias inseridas nos meios utilizados pelo estudante para ter acesso à língua foram absorvidas por ele”. (SANTOS; FROSSARD, 2018, p. 121).
Como resultado da configuração de sociedade que dispomos na contemporaneidade, a professora argumenta que foi preciso que novos modelos de sociedade e de sujeitos surgissem de acordo com a progressão dos períodos históricos. Diante disso, notamos que existem necessidades pedagógicas específicas que acompanham cada momento da nossa história. Isso é mencionado por Monte Mór para ilustrar o que é chamado pelos pesquisadores do New London Group como novo ethos. Atualmente, temos a necessidade de uma sociedade que abrace a pluralidade, seja sobre valores que competem a religião, sexualidade ou raça. Enquanto que no passado foi fundamental termos tido modelos educacionais que prezavam pela repetição, como foi na época da Revolução Industrial, por exemplo. Hoje para acompanhar o novo ethos plural e conectado por redes que estamos vivendo é necessário uma educação que promova noções de agência, coletividade e colaboração.
Monte Mór segue seu pensamento ao tratar sobre o tópico de construção de conhecimento, pois esse também é influenciado e determinado sob as demandas dos sujeitos que compõem a sociedade. Se no passado, o tradicional eram conhecimentos que buscavam a verdade padrão por meio da validação e confiabilidade científica, agora temos uma epistemologia ascendente que se fundamenta na performance. Sendo então, uma construção de conhecimento que consiste em aprender enquanto se faz, não necessariamente tendo que ser submetido a um conhecimento prévio para que seja permitido que o aprendiz de uma língua siga formando seu aprendizado. Sem dúvida, as tecnologias digitais tornaram essa autonomia na aprendizagem por parte dos estudantes possível, já que também vivemos em uma sociedade em rede.
Em conclusão, percebemos a partir do que foi levantado pela professora Monte Mór que para alcançar uma educação linguística da língua inglesa que seja atual e contextualizada é necessário atentar aos elementos mencionados mais acima: cultura, globalização, tecnologias digitais, epistemologias do conhecimento. Do mesmo modo, é importante observar o modelo de sociedade que habitamos e que nós, enquanto sujeitos sociais, estamos influenciando a ser moldado. Sendo assim, vimos que a abordagem dos letramentos é uma perspectiva de ensino que se preocupa e busca abranger as nuances que constituem o ensino de língua.
Referências
KLEIMAN, Angela. Preciso “ensinar” o letramento? Linguagem e letramento em foco: Linguagem nas séries iniciais. Cefiel/IEL/Unicamp. 2005. Disponível em: <https://oportuguesdobrasil.files.wordpress.com/2015/02/kleiman-nc3a3o-basta-ensinar-a-ler-e-escrever.pdf>.
MONTE MÓR, W., MENEZES DE SOUZA, L. M. T. Orientações Curriculares para o Ensino Médio: Línguas Estrangeiras no Brasil. Linguagens, Códigos e suas Tecnologias. 2006. Brasília: MEC/SEB
SANTOS, Luana Correia dos; FROSSARD, Elaine Cristina Medeiros. A CAPACIDADE MULTILÍNGUE E SEU PERFIL MULTICULTURAL NA PROMOÇÃO DA CIDADANIA GLOBAL. C@LEA - Cadernos de Aulas do LEA. n.7, dez. 2018, p. 110-131. Disponível em: https://periodicos.uesc.br/index.php/calea/article/view/2150. Acesso em: 19 de maio de 2022