Jesus Cristo é a segunda pessoa da Santíssima Trindade, cem porcento Deus e cem porcento homem, Nasceu de Maria sempre Virgem, padeceu e morreu condenado por Pôncio Pilatos, foi sepultado mas ressuscitou ao terceiro dia, subiu ao céu e retomou plenamente a majestade divina, ao lado direito do Pai Todo-poderoso. No céu Jesus é tão todo-poderoso quanto o Pai. Jesus e Deus, mas não usou em proveito próprio a sua divindade: só em benefício dos outros.
Ao obedecer ao Pai plenamente, Jesus, que tinha a vontade divina e a vontade humana plenamente unidas, nos abriu o caminho do céu, fechado desde o pecado de Adão e Eva. É o que nos diz 1Cor 15,21, quando Paulo fala que por um só homem (Adão) veio o mal ao mundo, por um só homem (Jesus) veio o bem, a salvação ao mundo. O motivo principal é a obediência: ao contrário de Adão e Eva, Jesus obedeceu totalmente ao Pai. Essa obediência foi total, até a morte, e morte de cruz! (Filipenses 2,6ss). Ou seja: mesmo podendo evitar o seu sofrimento e sua morte, Jesus escolheu sofrer tudo como um ser humano, obediente ao Pai como todos deveríamos ser.
Se obedecermos a Deus, Ele nos orientará, nos dará tudo o que for preciso para sermos felizes e, caso nos permita algum sofrimento, nos dará a força necessária para vencê-lo ou suportá-lo até que fiquemos livres.
Temos muito desejo de felicidade, mas às vezes nos esquecemos de que a felicidade verdadeira só a conseguiremos no céu, na vida eterna, onde “Nenhuma impureza, nenhuma abominação entrará” (Apocalipse 21,27).
Gosto muito de fazer uma comparação para entendermos a eternidade: Se uma só destas letras deste blog for os 90 anos que uma pessoa vai viver aqui na terra, todas as demais, do blog todo, de todos os bilhões de blogs e sites que existe, serão, cada uma dessas letras todas, 90 anos que a gente vai viver lá no céu. Multiplique 90 pelos quinquilhões de letras que estão na internet, e assim mesmo não vai dar nem mesmo um porcento da eternidade que vamos viver no céu.
Para obtermos isso, Jesus pede que lhe sejamos fiéis nestes 90 anos, nesta “letrinha” que temos que viver agora. Vale a pena, portanto, aceitarmos os sofrimentos, problemas, empenho e lutas para sermos santos, para agradarmos a Deus, seguirmos os seus ensinamentos, pois isso vai se reverter em benefício para nós mesmos! A recompensa compensa!
É muito melhor sofrer agora para sermos santos e irmos para o céu , do que sermos felizes nestes anos terrestres, numa felicidade tão passageira e tão cheia de altos e baixos, se não seguirmos a palavra de Deus. Podemos, sim, ser felizes agora, mas sem o pecado, sem as quedas para o mal. O problema é que nem toda a felicidade que escolhemos é a que agrada a Deus e nos faz bem: o pecado, o vício, a ganância, não nos dá paz e nos levam para o sofrimento eterno.
É por isso que Deus nos permite o sofrimento agora, mesmo quando fazemos o bem. Diz Sabedoria 12,2: “É por isso que corriges com carinho os que caem e os repreendes, lembrando-lhes ses pecados, para que se afastem do mal e creiam em ti, Senhor”. Hebreus, 12,5-13, principalmente v. 10: “Deus nos purifica com os sofrimentos para poder nos infundir sua santidade”.
Jesus nos ensinou muitas coisas para podermos viver santamente e irmos para o paraíso. O único mandamento que ele nos deixou foi o de amar ao próximo como Ele nos ama.
Deixar-se amar, seja por Ele como pelos demais, é muito difícil, é muito doloroso para nós, porque não temos o “controle” das atitudes de Deus ou dos outros para conosco: Devemos estar livres a qualquer momento para ouvirmos a voz de Deus ou a dos irmãos, pedindo ajuda ou apoio, ou pedindo nosso trabalho e até a nossa própria vida.
Outro problema que temos é confundir “amar” com “gostar”. Jesus não pediu que “gostássemos”, mas que “amássemos”. Amar até os inimigos, ou seja, não deixar faltar-lhes nada de que necessitem, não desejar-lhes ou fazer-lhes nenhum mal.
Diz S. Paulo em Romanos 12,20: “Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça.”. Essas “brasas” são sentimentos de remorso. Se tratarmos bem os nossos inimigos, eles podem, talvez, converter-se, mudar de opinião e aí os “ganharemos” para Jesus.
O ódio, a violência, não leva a nada. Com a paciência, tudo conseguimos.; com a violência, perdemos nossa razão e até o bem que queríamos fazer acamamos transformando em mal com a nossa ira.
Jesus disse: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontraremos repouso para as vossas almas, tomai sobre vós o meu jugo, porque o meu jugo é suave e o meu peso é leve” (Mateus 11,29-30).
Apocalipse 3,16: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir minha voz e abrir-me a porta, cearemos juntos”.
“Quem quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si sua cruz e siga-me” (Mt 16,24); “Quem não toma a sua cruz e não segue após mim, não é digno de mim” (Mt 10,38).
O Bar-Mitzvá é uma cerimônia judaica que, de certa forma, corresponde ao nosso Crisma: o adolescente é recebido oficialmente no templo e passa a ser responsável pelo que faz, assumindo a sua participação no Povo de Deus, que fora feita com a circuncisão.
No nosso caso, essa participação é concretizada pelo batismo e confirmada pela Crisma, aos 14 anos. O Bar-Mitzvá é feito atualmente aos 13 anos. Desse dia em diante, o adolescente podia ler os textos bíblicos no templo e ser ouvido pelos doutores. Antes disso era considerado criança e não tinha valor algum na sociedade judaica.
Não era ouvido e não podia conversar com as autoridades religiosas: só tinha a oportunidade de aprender em casa e na sinagoga, mas sem dar opinião alguma.
Após uma preparação, são recebidos solenemente no templo e leem um trecho da Torá. Jesus deve também ter cantado um salmo. Deve ter sido maravilhoso o canto que Jesus fez do salmo. Qual salmo terá ele lido? Se fosse o salmo 118(119), teria cantado, com sua voz maravilhosa, pura, cristalina: “Felizes os puros em seu caminho, que caminham na lei do Senhor”. Os anjos, decerto, o acompanharam, emocionados, com o coral celeste.
Em http://colecao.judaismo.tryte.com.br/livro1/l1cap22.php , nós vemos como era o Bar-Mitzvá:
“Um menino que completa o seu décimo-terceiro aniversário é um Bar Mitzvá - literalmente, um homem do dever. Desse dia em diante, conforme a tradição judaica, é ele responsável por seus próprios atos e por todos os deveres religiosos de um homem. No sábado posterior ao décimo-terceiro aniversário de um menino judeu, ele é chamado ao altar da sinagoga para ler a Torá . O jovem repete a bênção, depois que um trecho da Torá é lido, e recita a lição dos Profetas, denominada Haftará”.
“A palavra Torá tem dois sentidos na tradição judaica. No sentido lato, é a Torá o nosso modo de viver, ou, conforme disse Milton Steinberg, “Toda a vastidão e variedade da tradição judaica”. É sinônimo de ciência, sabedoria, amor a Deus. Sem ela, a vida não tem sentido nem valor.”
“Em senso mais estrito, a Torá é o mais reverenciado e sagrado objeto do ritual judaico, o belo rolo manuscrito dos Cinco Livros de Moisés (a Bíblia, do Gênesis até o Deuteronômio) que se conserva na Arca da Sinagoga. Uma parte da Torá, iniciando-se com o livro do Gênesis, é lida em voz alta todo sábado durante o culto, logo a partir dos Grandes Dias Santos, prosseguindo até o fim do ano judaico, até que tenha sido lida.
O fiel mantém-se de pé quando a Torá é retirada da Arca. Um judeu piedoso beija a Torá colocando seu xale de orações sobre o pergaminho (assim os dedos não tocam o rolo) e erguendo então aos lábios as franjas do xale.”
Na ala das mulheres, Maria chorava de emoção. José, na ala dos homens, não chorava, para não escandalizar os demais, mas também estava emocionado. A emoção que se irradiou pelo templo não era deste mundo. Suplantava a tudo o que tinham visto até então. Aquele canto, aquele instante, nunca mais iriam se repetir naquele templo. Dificilmente alguém conseguiria superá-lo.
A cerimônia havia sido realizada em Jerusalém. Quando terminou, houve uma festa, após a qual todos voltaram para casa. A caravana de Nazaré não era muito grande, mas os pais de Jesus estavam acostumados que ele ficasse com outras famílias, e não deram falta dele. Os homens caminhavam separadamente das mulheres. Maria pensava talvez que ele estivesse com José, e vice-versa. Em sua idade, Jesus ainda podia escolher ficar com o pai ou com a mãe.
Jesus ficara em Jerusalém, conversando com os doutores do templo, já durante a festa, de modo que ninguém dera falta dele. Era a sua primeira oportunidade de fazer isso e não ia deixar passar em branco. Antes do Bar-Mitzvá isso não lhe era permitido, como já disse acima.
As crianças são contadas como nada entre os judeus. Aliás, isso foi uma das coisas que escandalizaram os judeus na pessoa de Jesus, quando ele abraçava as crianças e lhes ouvia. Isso era impensável para um mestre, como Jesus era considerado.
Todos os que estavam na Sinagoga se haviam impressionado com o canto que Jesus fizera dos primeiros versículos do salmo e ficaram felizes de tê-lo ali com eles. Ele e os demais que ficaram, os que frequentavam a escola do templo, dormiram num local reservado para os alunos e logo de manhã já estavam com os doutores da lei. Jesus ouvia tudo com atenção, mas suas perguntas mais pareciam respostas dando soluções a todo aquele emaranhado de 613 leis que eram obrigados a seguir.
O tempo passou rápido e no terceiro dia a aula foi interrompida pelos pais de Jesus, que pediram para falar com ele. Sua mãe o abraçou, chorando, e disse:
“Filho, por que procedeste assim conosco? Teu pai e eu te procurávamos cheios de aflição!”
A resposta dada por Jesus não foi entendida nem pelos pais nem por ninguém:
“Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de meu Pai?”
“Nas coisas de meu Pai”. Que pai? - perguntavam-se os que ali estavam. José estava ali mesmo! Era marceneiro e carpinteiro! Mas não perceberam que Jesus cuidava, sim, das coisas de seu Pai querido do Céu, Pai esse que com todo o poder que tem, não o livrou da morte de Cruz. Fazer isso seria truncar e negar a nossa salvação... Por isso, não interferia. E Jesus voltou com os pais para Nazaré e, nas orações que fez durante a caminhada, percebeu que deveria por enquanto submeter-se plenamente a José e Maria. Foi o que fez. Quanto a José e Maria, conservavam e meditavam tudo isso em seus corações.
Deus não interfere em nossas vidas se não lhe dermos abertura. Diz o missal comentando isso, que deve haver pelo menos um pequeno “orifício” em nosso coração para que Deus possa agir. Ele respeita a nossa liberdade como ninguém mais. Quando lhe damos abertura, recebemos inúmeras graças para levar nossa vida de modo menos sufocante, até que possamos ser atendidos de modo mais pleno e gratificante.
Jesus é 100% homem e 100% Deus, mas como homem precisou aprender tudo como nós. Ele não “ensinava” aos doutores, como muitos dizem, mas os ouvia e perguntava coisas a eles, querendo assim aprender tudo o que pudesse.
(26/06/14)
Senhor Jesus, vós nos destes uma prova de amor concreta, consistente, sem possibilidade de refutação, que é ter se deixado trucidar por nosso amor!
Quando eu sofro, não tenho escolha de livremente escapar do sofrimento, como que por um passe de mágica! A única opção que tenho é aceitar ou rejeitá-lo com imprecações, palavrões ou choradeira covarde!
Entretanto, Senhor Jesus, vós fostes, sois e sempre sereis Deus e poderíeis ter saído e escapado de todos os sofrimentos que vos impuseram! Mas porque nos amais, deixastes que fizessem convosco o que bem entendessem. É a isso, Senhor, que eu chamo de “Amor”!
Eu sempre estou dizendo que vos amo, mas com que tibieza, covardia, falta de empenho e falsidade eu o faço! É como que se eu realmente não vos amasse!
É-me tão fácil falar, Senhor: “Eu vos amo!” Mas é tão difícil concretizar essas palavras com a ação, com uma aceitação amorosa do sofrimento, da presença e necessidades das pessoas e dos problemas que me arrasam!
É, Senhor, “me arrasam” mesmo! Isso acontece porque eu não abraço isso tudo com um verdadeiro amor!
Minhas atitudes vos dizem, na verdade, que eu quero vos amar desde que eu não sofra, não fique doente, não fique pobre, não me aconteça nada de mau!
Isso não é amar como vós amais!
Senhor Jesus, eu vos peço a graça de vos amar seja qual for minha condição de saúde, social, psicológica, material, esteja eu onde estiver, seja qual for a minha vida!
Quero vos amar, como diz Santa Teresinha, e me alegrar, quer esteja eu “no mais luxuoso palácio ou na mais triste prisão”!
- 20/03/16
Hoje é domingo de ramos. Na leitura após a procissão, lemos Lucas 22 e 23, a Paixão de Jesus. É impressionante o capítulo 22, vers. 61-62: “E virando-se, Jesus olhou para Pedro. E, saindo Pedro para fora, chorou amargamente.
Quando o pai ou a mãe dão aquele olhar de censura aos filhos, eles sentem medo e até choram por saber se virá ou não um castigo.
Imaginem o olhar que Jesus deu a Pedro, talvez um tanto distante um do outro (seria mais grave se estivessem perto!). O olhar divino-humano de Jesus tem a pureza infinita do paraíso, marca como um raio, tem o efeito do raio “X” em nossa alma.
Há algumas passagens sobre esse olhar penetrante de Jesus: “E passando o olhar em cada um dos que ali estavam...” (Lc 6,10 e 9,47). Jesus lia os pensamentos dos que o circundavam, e seu olhar os deixavam inseguros e sem ação.
Diz Flávio Josefo, historiador pagão do início do cristianismo, que ninguém jamais viu a cor dos olhos de Jesus, pois ninguém conseguiu fita-lo frente a frente. Seu olhar era mais penetrante que um espinho na pele!
Assim ocorreu com Pedro. O olhar que Jesus lhe deu projetou à sua frente não apenas a tripla negação que acabara de fazer, mas também os pecados passados. Que pena Judas não ter tido a mesma reação de Pedro! E talvez Jesus também tivesse olhado para ele, quando disse, em João: “É aquele que pôr comigo a mão no prato”. Será que Judas estava tão faminto que não olhara para Jesus, mas só para o prato? Talvez... e isso lhe custou uma morte indigna, o suicídio.
Em nossa vida também fazemos muito isso. Ficamos tão interessados nos “pratos” que o mundo nos oferece, que não percebemos o olhar que Jesus nos está lançando, não tanto de censura, mas oferecendo-nos o seu amor, o seu perdão e a sua força para vencermos.
A humildade é a base de tudo, sobretudo da possibilidade de fitarmos com amor os olhos de Jesus, sentir sua misericordiosa luz penetrar a escuridão de nossa alma e, como Pedro, chorarmos amargamente os nossos pecados.
É nos encontrando com Jesus, é deixando que ele nos olhe até o fundo de nossa alma, que veja nossos pecados e maldades, nossos limites, nossos mais íntimos desejos, que poderemos nos purificar.
Jesus, ao encontrar alguém humilde, que reconhece os próprios pecados, que vê a necessidade de purificar-se com toda a humildade, entra plenamente em sua vida, em seu dia a dia, e reconstrói a “casa” dessa pessoa por dentro, e aqui está um detalhe: não reconstrói uma “outra” casa, mas a mesma de antes, com todas as características com que a pessoa nasceu, porém livre de todo lixo, repintada, limpa, com tudo funcionando. Não é preciso, e nem Deus nos pede isso, que mudemos nossas características. Cada um pode ser santo dentro de sua vocação, caráter, personalidade, dentro de seu “jeitão”.
O que temos de fazer é sanarmos o que está errado, extirparmos os vícios e maldades, e só deixar o que agradar a Deus. Aí, Jesus poderá olhar para nós e ver que também estamos olhando para ele, arrependidos, dispostos a recomeçar uma nova vida. Isso é difícil, mas não é impossível.
O olhar de Jesus nos faz ver que é possível viver santamente, e vamos nos sentir impelidos a isso. Mas... será que não é justamente da conversão, dessa vida nova, que temos medo? Não foi essa a atitude de Pedro quando disse a Jesus para afastar-se dele por ser um pobre pecador, no primeiro milagre da pesca?
Vejo Pedro dizendo a Jesus como nós também às vezes dizemos: “Senhor, afasta-te de mim porque sou pecador e, se continuar a olhar-te, vou sentir a profundidade do teu olhar, chamando-me a uma vida mais santa” O problema é que eu não me sinto disposto a mudar de vida! Estou acostumado demais às minhas coisas e modo de viver”!
Vejo que está aí o motivo pelo qual muitos abandonam o apostolado, a própria vocação, a Missa, o Culto (quando evangélico). Será que não é para fugir de Deus, abafar a voz da própria consciência? Sei que há casos e casos. Alguns realmente não veem outra alternativa se não deixar aquele tipo de serviço, são obrigados a mudar de rumo, mas é preciso confiar sempre na Providência Divina, nesse Deus tão rico em misericórdia, como diz S. Paulo.
Em Romanos 11,29, São Paulo nos garante que Deus não se arrepende dos dons e da vocação que nos deu. Vamos, pois, nos encher de coragem e permitir que Jesus nos olhe profundamente e, como diz o Apocalipse 3,20, entre em nossa casa e faça a refeição conosco!
25/11/2012 –
É a festa que celebramos no último (34º) domingo do tempo comum, imediatamente antes do Advento. Diz o Missal Dominical: “Jesus Cristo é rei porque é o único mediador da salvação de toda a criação.
Nele todas as coisas encontram seu acabamento, sua verdadeira subsistência, segundo o desígnio criador de Deus”.
Houve um entendimento “atravessado” nesse fato da realeza de Cristo na História da Igreja do passado, por causa destas premissas:
1-Cristo é Rei todo-poderoso;
2- O Papa e seus sucessores, assim como os bispos, são os representantes dele aqui na terra;
3- Portanto, o papa e os bispos devem ser também tão poderosos como Jesus, aqui na terra, serem reverenciados, servidos e venerados.
Isso causou grandes males na terra. O papa tornou-se um senhor poderoso, que mandava até nos reis e rainhas, tinha grande poder econômico. Graças a Deus que hoje em dia as coisas aos poucos voltam ao normal, ou seja, a Igreja é servidora, e não egrégia senhora.
Hoje em dia há uma certa tendência por parte de alguns membros do clero, em portar-se, como dizia um pregador de retiros, “de tal modo que nada deixam a desejar à rainha de Sabá”.
Precisamos sanar essa falha em nossa Igreja, com o mesmo afã com que combatemos a pedofilia e coisas desse tipo.
Jesus foi bem claro ao afirmar que não veio para ser servido, mas para servir (Jo13,14-15; Mt 20,28). Já dizia um de nossos bispos eméritos (não sei se o D. Pedro Casaldáliga ou D. Valfredo Tepe) que “Ou a Igreja de Cristo é pobre ou não é a Igreja de Cristo!”.
É preciso tomarmos cuidado com o modo como entendemos o reinado de Cristo, para não cairmos no mesmo erro que nossos antepassados, ao tentar fazer com que a Igreja dominasse em todos os sentidos, mesmo materialmente, sobre tudo e todos.
A atitude de quem pensa que tem ou está no poder é olhar os outros de cima para baixo. Ao atender alguém, sente-se como o rei atendendo o súdito.
Vejo como é comum em todos os lugares: quem toma conta da chave, manda do “pedaço” e todos devem reverenciá-lo ou pelo menos submeter-se aos seus caprichos.
Vejam isso na comunidade ou em qualquer grupo de pessoas: basta um pouco de poder e a pessoa, que até então parecia humilde e simples, se torna uma pessoa altiva, achando que “tem o rei na barriga”. A única pessoa que teve o rei na barriga foi, de fato, Maria, quando concebeu Jesus, e é a mais humilde criatura que até então apareceu aqui na terra!
Uma das consequências de quem pensa que “está com tudo” é o modo de atendimento. Uma pessoa humilde, que sabe que está a serviço e não para ser servida, é sempre humilde, serviçal, sempre está pronta a atender qualquer que seja. Veja como Jesus atendia a todos, embora sempre estivesse rodeado por tantas pessoas que o pressionavam por todos os lados, em todos os sentidos. Até tinha um tempinho para as crianças, coisa que ninguém tinha naquele tempo: as crianças eram consideradas um zero à esquerda. Aliás, até as mulheres eram assim consideradas. Jesus atendia tanto uma como outra. Sempre estava pronto para ouvir, embora tivesse tanto para dizer.
Aliás, ele dizia mais com esses gestos de atenção e atendimento do que com suas palavras, pois estas eram confusas e incompreensíveis para as pessoas da época. Seu bom exemplo era sua melhor e maior pregação. Isso levou o Beato Ir. Carlos de Foucauld a dizer que devemos “Gritar (e não apenas proclamar) o evangelho (não só com as palavras, mas também...)com a vida!”.
Um padre que atenda as pessoas bem atendidas, tenha tempo para todos, mesmo tendo que agendar esse atendimento quando difícil no momento, será sempre um padre benquisto, um padre reverenciado e amado pelos seus paroquianos e tantos quanto o procuraram.
Uma coisa de que peço muito perdão a Deus é de tantas vezes que atendi mal algumas pessoas. Tantas vezes eu as atendi como se eu estivesse prestes a carregar uma cruz pesadíssima, ou que elas fossem atrapalhar todos os meus compromissos. Aliás, algumas vezes esses compromissos não eram assim tão urgentes e podiam esperar.
Uma vez, quando um meu amigo era ainda jovem, atendeu um colega muito alegre, extrovertido, quando voltavam de um baile, após terem levado suas namoradas, que eram vizinhas, ao ponto de ônibus (elas moravam num outro bairro).
Nessa caminhada de volta para casa (eles também eram vizinhos), o amigo desse meu amigo lhe confidenciou que estava para cometer suicídio (inclusive já estava com um pequeno revólver no bolso), por causa de vários problemas, que lhe enumerou.
O meu amigo deixou tudo o que tinha que fazer (era professor) e conversou longamente com o rapaz. Este acabou desistindo do suicídio, viu, pela conversa, que havia um modo de recomeçar sua vida e superar as dificuldades. O rapaz morreu vinte anos após essa conversa, daquela doença conhecida popularmente como “bicho de porco na cabeça”.
Há um filme antigo em que um rapaz de uns 16 anos leva nas costas seu irmãozinho aleijado, de uns 9 anos, de uma cidade da Itália para outra, após um bombardeio em que perderam a família. Iam com outras pessoas a um tipo de orfanato ou casa de atendimento aos menores desabrigados.
Depois das peripécias enormes que encontraram, que duraram o filme todo, ao chegarem na cidade e na casa onde iam morar, o padre, vendo o rapaz estafado sob o peso do irmão (que trazia nos ombros por todo o trajeto), lhe disse: “Meu filho, ele não lhe está pesando nos ombros?” O rapaz, sorrindo, respondeu ao padre: “De jeito algum, senhor padre! Ele é meu irmão!”
Muitos católicos abandonam a nossa Igreja e se aliam aos evangélicos simplesmente por causa do atendimento, que acham ser melhor do lado de lá. Eu pergunto: Será que não têm certa razão? Graças a Deus apareceram grupos de atendimento nas paróquias, como os da RCC (embora muitos não gostem muito desse movimento) e a pastoral da acolhida, que procuram atender as pessoas com paciência e sem olhar para o relógio.
Por falar nisso, já percebeu que muitas pessoas sempre estão com pressa quando alguém quer falar com elas? O pior de tudo é quando ficam olhando ao relógio!
Jesus é Rei, sim, mas um Rei que veio para servir e nos ensinar que só entra no Reino de Deus quem está disposto a servir, a ser o último de todos. É como o caso da galinha que cacarejava ao pôr um ovo. Um peixe fêmea ouviu, pôs a cabeça para fora do rio e perguntou a ela o que estava acontecendo. A galinha respondeu: “Ora, eu pus um ovo!”. A “peixa” mergulhou novamente e pensou: “Nossa, já pensou se eu fizesse isso a cada um dos milhares de ovos que ponho?(Infelizmente eu me esqueci onde eu li isto. O autor que me perdoe).
Estar a serviço gratuitamente, sem exigir nada em troca, nem mesmo o agradecimento: eis o caminho dos que querem participar plenamente do Reino de Deus.
Que a festa de Cristo Rei, que comemoramos no último domingo do tempo comum (34º), nos faça lembrar de que Jesus nos deu o exemplo de pobreza, serviço, humildade e santidade. Se tivermos alguma dignidade eclesiástica, ou seja, quem for diácono, padre, bispo ou algum tipo de chefe de comunidade, sejamos imitadores de Jesus-Rei, e simplifiquemos a nossa vida, lembremo-nos sempre que, ao invés de “egrégios senhores”, sejamos “ternos pastores”, como diz um dos pais da Igreja primitiva.