Por que muitos católicos mudam de religião?
Eu acredito que o motivo mais comum é porque lá eles se acham acolhidos e na Igreja Católica, não.
É impressionante o pouco caso que muitas vezes fazemos em relação aos que nos procuram! Às vezes os atendemos fazendo outras coisas, como se eles estivessem nos incomodando. Aliás, muitas vezes o objetivo é esse mesmo: mostrar-lhes que estão incomodando! E fazemos questão de olharmos para o relógio se a pessoa estiver demorando!
Jesus sempre encontrava tempo para atender a todos. Quando ele não podia atender, se retirava a lugares desertos ou ia para outros lugares. Sabia que, se ficasse, iria atender. Nós reservamos nosso tempo para aquilo que achamos mais importante. Entretanto, pergunto: o que é, realmente, importante?
Segundo a bíblia, o primeiro mandamento é o amor a Deus. O segundo, amar ao próximo. Nunca vi na bíblia que o segundo mandamento seria celebrar a missa, ou benzer a água e objetos, ou fazer casamentos, ou coisas desse tipo que damos como “álibi” para não atendermos pessoas que não “programamos” atender naquele dia.
Talvez quando assim procedemos, queiramos ser tratados como “egrégios senhores” e não como humildes servidores, humildes pastores do povo. Ora, não somos senhores! Somos pastores, vivemos ou pelo menos deveríamos viver no meio do povo!
É incrível como certos evangelizadores, como nós, sacerdotes, somos tratados como “egrégios senhores”! Eu tenho um colega sacerdote preso e ele sempre me escreve dizendo que os colegas de prisão o tratam, mesmo preso, como um “egrégio senhor” e não como um servidor, apesar de ser condenado. Acham, por exemplo, que ele deve sofrer muito com a comida, pois na prisão a alimentação não é à altura de um padre. O que deve estar à altura de um padre? O que Jesus comia? Que exemplo nós damos! De comilões! “Comi como um padre”... Não era para darmos um exemplo de simplicidade, de alimentação simples?
Ele me diz que nas saídas temporárias (ele já está no semiaberto) o convidam para almoçar, mas querem oferecer aquele requinte “a que os padres estão acostumados”. Ele não consegue explicar às pessoas que qualquer tipo de alimentação o satisfaz, pois na prisão tem que comer misturas repetitivas, poucas (uma salsicha, ou um ovo frito, ou três cubinhos de picadão, uma vez por semana uma coxinha de frango que mais parece de pardal, e uma vez por semana bife “frito” na água. Verdura só umas folhas de alface em cada três meses. Frutas? Uma banana por mês, e nos últimos meses, nenhuma), sem sal, café sem açúcar, sem frituras, sem sobremesas...
Na prisão o sacerdote não é tratado de modo diferente. Ele é um preso qualquer. Não tem regalia alguma. Mas entre os presos, sempre fica aquele muro de separação. Alguns funcionários têm que se esforçarem para não deixarem transparecer esse sentimento de inferioridade que o padre lhes provoca.
Precisamos, pois aprendermos com Jesus a sermos acolhedores, e com muitos outros evangelizadores de outras denominações religiosas.
Precisamos também aprender com os profissionais de marketing de vendas. Eles atendem bem para ganharem compradores e manterem seus empregos. Nós devemos trabalhar e atender bem para ganharmos pessoas para o Reino de Deus. Se não fizermos isso, quem não vai pra lá somos nós!
Os católicos que se reúnem em comunidades de base ou em grupos pequenos perseveram mais na religião. Os que só vão à missa dominical e não participam de mais nada, esses são os que mais mudam de religião. Não têm raízes que os pequenos grupos fazem aparecer.
Quando eu era criança um tio meu que nunca tinha ido à missa, foi, certo dia. Ele não tinha uma das pernas. Sentou-se no lado esquerdo e um congregado mariano disse que lá era lugar deles. Foi para o lado direito e uma senhora do Apostolado lhe disse que lá era o lugar delas. Ele saiu dali e nunca mais voltou à igreja.
Os católicos que continuam católicos o fazem por garra, por amor, pois, se dependessem de nosso bom atendimento... Lembro que a equipe de acolhida não substitui a boa acolhida que o padre ou o evangelizador deve proporcionar.
“Eu vim para servir e não para ser servido” (Mateus 20, 28; Marcos 10, 45).
Outra coisa importante é que não precisamos ter sempre respostas para tudo que nos perguntam. Quando você não souber resolver a questão, diga isso! Seja honesto (a) com os que o (a) procuram! Pelo menos a pessoa conseguiu desabafar-se, e isso talvez era a única coisa que ela queria.
Dar uma solução ou uma resposta precipitada e sem conhecimento de causa pode piorar a situação da pessoa. Não sou dono da verdade só porque sou padre, ou pastor, ou quem atende. Muitas vezes respondemos logo, nem ouvimos direito a pessoa, para nos livrar dela. Isso é quase um homicídio!
Tive um colega que era muito mau. Resolveu mudar de vida e procurou um padre para se confessar. Queria falar com o padre, e não apenas pedir perdão. O padre ouviu todas as barbaridades que ele lhe falou e, em vez de orientá-lo, mandou que ele rezasse algumas ave-marias e não lhe disse nenhuma palavra. O rapaz saiu da igreja e acabou entrando nas Testemunhas de Jeová. Eu o conheci já nessa seita. Eles o atenderam bem!
As pessoas que nos procuram precisam saber quais pontos de suas vidas estão corretos. Às vezes não precisamos dar uma nova “receita” de vida. Elas precisam perceber os caminhos do Espírito Santo em suas vidas. Se lhes dermos respostas prontas, sem levar isso em consideração, estamos “matando” a vida espiritual das pessoas, e tudo o que elas já conseguiram de bom nesse aspecto.
O Espírito Santo não está apenas com o (a) evangelizador (a), mas “Ele está no meio de nós”! Se ele está no meio de nós, por que não considerarmos válidas certas ações e conquistas das pessoas que nos procuram?
O melhor modo de cumprirmos o primeiro mandamento é capricharmos no segundo, ou seja, amarmos o próximo, atendermos o próximo quando de nós se aproxima. Esqueçamos o resto, ou, se não pudermos, marquemos um outro encontro. Ela vai entender.
21/04/2019
Muitos me fazem essa pergunta. A minha resposta é sempre esta:
1- Os Anjos só nos guardam se nós lhe pedirmos isso. Deus respeita nosso livre arbítrio e não se intromete em nossa vida se nós não lhe pedirmos. Os Anjos fazem a vontade dele e, portanto, também não agem sem que lhe peçamos.
2- Mesmo sendo bons e santos, nem sempre o Anjo nos livra dos perigos. Jesus é Deus e morreu trucidado. Os santos mártires não foram poupados de uma morte bárbara.
Há alguns santos que foram impedidos por Deus de morrerem pelos leões, pelo fogo, mas não escaparam da espada (tiveram suas cabeças decepadas), porque Deus nunca interfere em nossas ações, e não interferiu no ato do carrasco que decepou a cabeça do referido santo. Um exemplo disso é São Januário (19/09), que passou ileso pelo fogo e pelos, mas não se livrou de ter sua cabeça decepada.
O motivo pelo qual muitas pessoas morrem em acidentes, ou novos na idade, só é conhecido por Deus. Eu, entretanto, arrisco uma explicação. Você pode acreditar ou não, pois nem eu mesmo tenho certeza disso: Acho que Deus permite a morte de certas pessoas, mesmo que rezem ao seu Anjo da Guarda, para livrá-las de coisas piores no futuro, se continuassem vivas, ou ainda porque talvez aquele momento fosse o único em que a pessoa poderia ser salva e ir para o céu.
Se no acidente a pessoa vai morrer, Deus pode, se quiser, impedir a sua morte. Mas, será que se a pessoa continuar viva irá para o céu quando morrer mais velha?
Ou também Deus pode permitir a morte de uma pessoa para livrá-la de males piores no futuro, como essas doenças que judiam muito da pessoa.
Resumo parcial das notas da Bíblia de Jerusalém. Muitas anotações foram feitas por nós mesmo.
“Não tenham medo!” (É o título do livro de Ana Flora Andersen e Frei Gorgulho sobre o Apocalipse).
“Apocalipse” significa “revelação”: revelação que Deus fez aos homens de coisas ocultas e só conhecidas por Ele, referentes ao futuro. É como um prolongamento do gênero profético. A diferença é que no Apocalipse o autor recebia as revelações em forma de visões e as escrevia, enquanto que os profetas ouviam as revelações divinas e as transmitiam oralmente.
Essas visões não têm valor por si mesmas, mas pelo simbolismo que encerram: tudo ou quase tudo tem valor simbólico no Apocalipse: os números, as coisas, as partes do corpo e até as personagens que entram em cena. O autor não se preocupa com a incoerência dos efeitos obtidos. Para entendê-lo devemos, pois, captar a sua técnica e reproduzir em idéias os símbolos propostos, sob pena de falsificar o sentido das mensagens.
O gênero apocalíptico desenvolveu-se no livro de Daniel e em vários apócrifos escritos na era cristã. (Apócrifos são os livros não aprovados pela Igreja como inspirados).
O apocalipse escrito por João é único no Novo Testamento. Ele o escreveu na ilha de Patmos, onde estava exilado por causa de sua fé em Cristo, por volta do ano 95, embora algumas de suas partes já existissem desde pouco antes do ano 70, no tempo de Nero.
Para entendermos o Apocalipse é preciso reinseri-lo no ambiente histórico de sua origem: perturbações e violentas perseguições contra a Igreja que nascia.
O Apocalipse é escrito para reerguer e robustecer o ânimo dos cristãos, escandalizados pela perseguição violenta que sofriam, tendo diante deles o que Jesus afirmara em João 16,33: “Não temais, eu venci o mundo!”
Em seu plano, João retoma os grandes temas proféticos tradicionais, como o “Grande Dia” de Javé (cf Amós 5,18), o dia da Salvação para o povo escravizado, a libertação, o poder, o domínio sobre o inimigo. No momento em que ele escreve, a Igreja, que é o novo povo eleito, acaba de ser dizimada por sangrenta perseguição (veja capítulos 6,10-11; 13; 16,6; 17,6) feita pelo império Romano (=a Besta), mas por instigação de Satanás (veja cap. 12; 13,2-3), que é o Adversário máximo de Cristo e do seu povo.
INTERPRETAÇÃO HISTÓRICA
A visão inaugural= a majestade de Deus reina no céu, Senhor absoluto dos destinos humanos (cap. 4), e entrega ao Cordeiro o livro que contém o decreto do extermínio dos perseguidores (cap. 5); a invasão dos povos bárbaros (os partos ) e seus males: guerra, fome e peste (cap. 6).
Os fiéis de Deus serão preservados (7,1-8; 14,1-5), e esperam gozar no céu, de seu triunfo (cap. 7, 9-17; 15,1-15). Deus não destruirá os pecadores imediatamente, mas os adverte com pragas, para levá-los à conversão e à salvação, como fizera com o faraó e os egípcios (caps 8,9,16).
Isso se revela um esforço inútil, por causa de seu endurecimento, e por isso Deus destruirá os ímpios perseguidores (cap. 17), que levavam à adoração de Satanás, corrompendo a terra (=culto aos imperadores de Roma como deuses).
No capítulo 18 vemos a lamentação sobre Babilônia (a cidade de Roma) destruída e cantos de triunfo no céu (19,1-10), a destruição da Besta (que é a Roma perseguidora), realizada por Cristo glorioso (19,11-12), dando origem a um período de prosperidade para a Igreja (20,1-6), embora recomece um novo assalto de Satanás contra ela (20, 7ss), e a derrota dele, ou seja, do Inimigo, seguida da ressurreição dos mortos e seu julgamento (20,11-15).
Finalmente, há o estabelecimento definitivo do Reino celeste, em perfeita alegria, depois de aniquilar a morte (21,1-8). Uma visão retrospectiva descreve o estado de perfeição da nova Jerusalém durante seu reinado sobre a terra (21,9ss).
Além dessa interpretação histórica, o livro traz os valores eternos sobre os quais se pode apoiar a fé dos fiéis de todos os tempos: Deus etá com seu novo povo, que uniu consigo na pessoa de seu Filho, o Emanuel (=Deus conosco).
A Igreja vive desta promessa de Cristo Ressuscitado: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20). Sendo assim, os fiéis nada têm a temer. Ainda que tenham de sofrer um pouco pelo nome de Cristo, obterão a vitória definitiva contra Satanás e todas as suas maquinações.
Quanto ao texto atual, com duplicatas, cortes na sequência das visões e passagens aparentemente fora de contexto, a Bíblia de Jerusalém diz que pode haver dois apocalipses distintos, escritos pelo mesmo autor, em datas diferentes, e depois unidos num só texto por outra mão.
O esquema dos dois apocalipses é este: (Veja neste link: https://sites.google.com/site/evangelhocatequese/biblia-1/06--a-biblia#h.p_Qt3NCtC9zh-1 )
02/09/2018
África. Etiópia. Década de 1850. O Cardeal Massaia chegara à região inóspita em que iria ordenar bispo ao Padre Justino de Jacobis (atualmente canonizado), mas não havia igreja. Apenas uma choupana de palha.
O Padre Justino de Jacobis nascera em 1800 próximo a Nápoles, Itália. Enfrentara, em 1836, uma epidemia de cólera que dizimou Nápoles.
Aos 18 anos entrara na Congregação da Missão, os Lazaristas, fundada por São Vicente de Paula. O Papa lhe confiara a evangelização da Etiópia e nomeou-o Vigário Apostólico, até nomeá-lo bispo.
A Etiópia, no início do século 19, era separada de Roma e ligada aos cristãos Coptas. Cristianismo isolado, degenerado, quase esvaziado de conteúdo. Quando Justino chegou, a Igreja Católica não exercia há séculos nenhuma atividade naquela região.
Justino inculturou-se plenamente, aprendeu a difícil língua local e pôs mãos à obra. Fez-se tudo para todos, como disse S. Paulo.
Aos poucos todos passaram a admirar sua santidade e, graças a isso, a Igreja Católica recomeçou a ser amada naquela região.
São Justino de Jacobis conseguiu organizar uma embaixada de nobres abissínios e enviou-os a Roma, onde foram recebidos pelo Papa com grande honra. Isso lhe deu liberdade no apostolado.
Um grande mestre etíope, mais tarde o primeiro mártir da nova Igreja da Etiópia, Guebra Miguel, ajudou muito Justino.
A ordenação de bispo foi na choupana de palha, sem os paramentos episcopais, tão valorizados naquela época.
E o báculo? Como conseguir um naquele fim de mundo?
Um nativo, informado do problema, depois que lhe explicaram o que queriam, não teve dúvidas: foi ao bambuzal e cortou um bambu, preparando-o de acordo com o objetivo. Esse foi o báculo de São Justino de Jacobis.
Nós temos atualmente tantos meios diferentes e ricos de evangelização! Nada pode impedir nosso trabalho em favor do Reino de Deus, a não ser uma única coisa: A FALTA DE ORAÇÃO.
Vocês acham que São Justino de Jacobis era uma pessoa especial, prendada, nascida com uma estrela na testa? De jeito nenhum. Quantas horas esse homem deve ter passado de joelhos em frente ao tabernáculo, quantas penitências deve ter executado! Os santos foram e são pessoas tão fracas e limitadas como nós, com uma exceção: descobriam a pedra filosofal, que transforma tudo em ouro: a oração.
Com a oração incessante e constante, ou até melhor, com uma vida de oração, os meios de evangelização são secundários. Se não houver um báculo de ouro, vai um de bambu mesmo. O resto, Deus faz.
São Justino de Jacobis é comemorado no dia 02 de setembro.
Os dados foram tirados do livro: “O Santo do Dia”, de D. Servílio Conti, 3 edição, 1986, Ed. Vozes.
O evangelho de domingo e de segunda-feira desta Semana Santa (João 12,7-8 e Marcos 14,7-9), fala sobre o bálsamo caríssimo com que a mulher ungiu os pés de Jesus, e que foi criticado por Judas Iscariotes e pelas autoridades do judaísmo ali presentes.
Reascende a discussão: Igreja enriquecida com ouro e coisas caras ou ajuda aos pobres?
O missal cotidiano comenta, citando V. Mannucci: “Que seria a Igreja se a bolsa de Iscariotes estivesse cheia para os pobres e a casa de Betânia vazia de perfume?” Essa afirmação aprova o gasto com coisas que deixem a igreja e a liturgia mais ricas materialmente falando.
Eu discordo frontalmente contra isso, parafraseando Santo Ambrósio, que já afirmava que não podemos querer agradar o Cristo dourando os cálices da igreja enquanto esse mesmo Cristo está morrendo de fome na pessoa do pobre!
Essa questão estará plenamente resolvida se levarmos em conta que, “perfumar os pés de Jesus” hoje, significa, principalmente, SOCORRER OS POBRES, FAMINTOS, NECESSITADOS e, entre os necessitados, tanto pobres como ricos doentes, abandonados ou marginalizados. Não há como fugir disso! É Santo Ambrósio que diz: “Se sobrar dinheiro, aí sim, podemos dourar os cálices usados na igreja”.
É preciso também cuidarmos para não fazermos o que Hebreus 10,26 diz, na leitura de segunda-feira: “Se pecarmos voluntariamente e com pleno conhecimento da verdade, já não há sacrifícios pelos pecados” ou seja, já não há possibilidade de perdão, pois pecar “voluntariamente e com o conhecimento da verdade” é renunciarmos a Jesus Cristo e à Salvação trazida por Ele (missal). Pensemos nisso nesta Semana Santa!
E lembre-se: nós não cumpriremos a obrigação do jejum nem a da abstinência de carne, na sexta-feira Santa, se comermos bacalhoada ou peixe daqueles suculentos.
Esse é um dia de penitência, e na minha modesta opinião, não deveríamos comer nem peixe: apenas alguma coisa comum e leve para nos sustentar. Deixemos a bacalhoada e os peixes para sábado ou domingo de Páscoa! Se for comer essas coisas gostosas, coma então uma carne de segunda, que estará fazendo maior penitência.
Termino com a leitura de hoje, terça-feira da Semana Santa, do ofício das leituras: “Não resististes até o sangue em vosso combate contra o pecado! “ (Hb 12,4) e S. Basílio: “Imitar a Cristo(...) em primeiro lugar, é romper com a vida passada”.
D. Henrique Soares, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Aracaju -SE
A situação é extremamente preocupante: no Brasil, há uma televisão de altíssimo nível técnico e baixíssimo nível de programação. Sem nenhum controle ético por parte da sociedade, os chamados canais abertos (aqueles que se podem assistir gratuitamente) fazem a cabeça dos brasileiros e, com precisão satânica, vão destruindo tudo que encontram pela frente: a sacralidade da família, a fidelidade conjugal, o respeito e veneração dos filhos para com os pais, o sentido de tradição (isto é, saber valorizar e acolher os valores e as experiências das gerações passadas), as virtudes, a castidade, a indissolubilidade do matrimônio, o respeito pela religião, o temor amoroso para com Deus.
Na telinha, tudo é permitido, tudo é bonitinho, tudo é novidade, tudo é relativo! Na telinha, a vida é pra gente bonita, sarada, corpo legal… A vida é sucesso, é romance com final feliz, é amor livre, aberto desimpedido, é vida que cada um faz e constrói como bem quer e entende! Na telinha tem a Xuxa, a Xuxinha, inocente, com rostinho de anjo, que ensina às jovens o amor liberado e o sexo sem amor, somente pra fabricar um filho… Na telinha tem o Gugu, que aprendeu com a Xuxa e também fabricou um bebê… Na telinha tem os debates frívolos do Fantástico, show da vida ilusória… Na telinha tem ainda as novelas que ensinam a trair, a mentir, a explorar e a desvalorizar a família… Na telinha tem o show de baixaria do Ratinho e do programa vespertino da Bandeirantes, o cinismo cafona da Hebe, a ilusão da Fama… Enquanto na realidade que ela, a satânica telinha ajuda a criar, temos adolescentes grávidas deixando os pais loucos e o futuro comprometido, jovens com uma visão fútil e superficial da vida, a violência urbana, em grande parte fruto da demolição das famílias e da ausência de Deus na vida das pessoas, os entorpecentes, um culto ridículo do corpo, a pobreza e a injustiça social… E a telinha destruindo valores e criando ilusão…
E quando se questiona a qualidade da programação e se pede alguma forma de controle sobre os meios de comunicação, as respostas são prontinhas: (1) assiste quem quer e quem gosta, (2) a programação é espelho da vida real, (3) controlar e informação é antidemocrático e ditatorial… Assim, com tais desculpas esfarrapadas, a bênção covarde e omissa de nossos dirigentes dos três poderes e a omissão medrosa das várias organizações da sociedade civil – incluindo a Igreja, infelizmente – vai a televisão envenenando, destruindo, invertendo valores, fazendo da futilidade e do paganismo a marca registrada da comunicação brasileira…
Um triste e último exemplo de tudo isso é o atual programa da Globo, o Big Brother (e também aquela outra porcaria, do SBT, chamada Casa dos Artistas…). Observe-se como o Pedro Bial, apresentador global, chama os personagens do programa: “Meus heróis! Meus guerreiros!” – Pobre Brasil! Que tipo de heróis, que guerreiros! E, no entanto, são essas pessoas absolutamente medíocres e vulgares que são indicadas como modelos para os nossos jovens!
Como o programa é feito por pessoas reais, como são na vida, é ainda mais triste e preocupante, porque se pode ver o nível humano tão baixo a que chegamos! Uma semana de convivência e a orgia corria solta… Os palavrões são abundantes, o prato nosso de cada dia… A grande preocupação de todos – assunto de debates, colóquios e até crises – é a forma física e, pra completar a chanchada, esse pessoal, tranqüilamente dá-se as mãos para invocar Jesus… Um jesusinho bem tolinho, invertebrado e inofensivo, que não exige nada, não tem nenhuma influência no comportamento público e privado das pessoas… Um jesusinho de encomenda, a gosto do freguês… que não tem nada a ver com o Jesus vivo e verdadeiro do Evangelho, que é todo carinho, misericórdia e compaixão, mas odeia o fingimento, a hipocrisia, a vulgaridade e a falta de compromisso com ele na vida e exige de nós conversão contínua! Um jesusinho tão bonzinho quanto falsificado… Quanta gente deve ter ficado emocionada com os “heróis” do Pedro Bial cantando “Jesus Cristo, eu estou aqui!”
Até quando a televisão vai assim? Até quando os brasileiros ficaremos calados? Pior ainda: até quando os pais deixarão correr solta a programação televisiva em suas casas sem conversarem sobre o problema com seus filhos e sem exercerem uma sábia e equilibrada censura? Isso mesmo: censura! Os pais devem ter a responsabilidade de saber a que programas de TV seus filhos assistem, que sites da internet seus filhos visitam e, assim, orientar, conversar, analisar com eles o conteúdo de toda essa parafernália de comunicação e, se preciso, censurar este ou aquele programa. Censura com amor, censura com explicação dos motivos, não é mal; é bem! Ninguém é feliz na vida fazendo tudo que quer, ninguém amadurece se não conhece limites; ninguém é verdadeiramente humano se não edifica a vida sobre valores sólidos… E ninguém terá valores sólidos se não aprende desde cedo a escolher, selecionar, buscar o que é belo e bom, evitando o que polui o coração, mancha a consciência e deturpa a razão!
Aqui não se trata de ser moralista, mas de chamar atenção para uma realidade muito grave que tem provocado danos seríssimos na sociedade. Quem dera que de um modo ou de outro, estas linhas de editorial servissem para fazer pensar e discutir e modificar o comportamento e as atitudes de algumas pessoas diante dos meios de comunicação…
E se alguém não gostou do que leu, paciência! (D. Henrique)
O Bar-Mitzvá é uma cerimônia judaica que, de certa forma, corresponde ao nosso Crisma: o adolescente é recebido oficialmente no templo e passa a ser responsável pelo que faz, assumindo a sua participação no Povo de Deus, que fora feita com a circuncisão.
No nosso caso, essa participação é concretizada pelo batismo e confirmada pela Crisma, aos 14 anos. O Bar-Mitzvá é feito atualmente aos 13 anos. Desse dia em diante, o adolescente podia ler os textos bíblicos no templo e ser ouvido pelos doutores. Antes disso era considerado criança e não tinha valor algum na sociedade judaica.
Não era ouvido e não podia conversar com as autoridades religiosas: só tinha a oportunidade de aprender em casa e na sinagoga, mas sem dar opinião alguma.
Após uma preparação, são recebidos solenemente no templo e leem um trecho da Torá. Jesus deve também ter cantado um salmo. Deve ter sido maravilhoso o canto que Jesus fez do salmo. Qual salmo terá ele lido? Se fosse o salmo 118(119), teria cantado, com sua voz maravilhosa, pura, cristalina: “Felizes os puros em seu caminho, que caminham na lei do Senhor”. Os anjos, decerto, o acompanharam, emocionados, com o coral celeste.
Em http://colecao.judaismo.tryte.com.br/livro1/l1cap22.php , nós vemos como era o Bar-Mitzvá:
“Um menino que completa o seu décimo-terceiro aniversário é um Bar Mitzvá - literalmente, um homem do dever. Desse dia em diante, conforme a tradição judaica, é ele responsável por seus próprios atos e por todos os deveres religiosos de um homem. No sábado posterior ao décimo-terceiro aniversário de um menino judeu, ele é chamado ao altar da sinagoga para ler a Torá . O jovem repete a bênção, depois que um trecho da Torá é lido, e recita a lição dos Profetas, denominada Haftará”.
“A palavra Torá tem dois sentidos na tradição judaica. No sentido lato, é a Torá o nosso modo de viver, ou, conforme disse Milton Steinberg, “Toda a vastidão e variedade da tradição judaica”. É sinônimo de ciência, sabedoria, amor a Deus. Sem ela, a vida não tem sentido nem valor.”
“Em senso mais estrito, a Torá é o mais reverenciado e sagrado objeto do ritual judaico, o belo rolo manuscrito dos Cinco Livros de Moisés (a Bíblia, do Gênesis até o Deuteronômio) que se conserva na Arca da Sinagoga. Uma parte da Torá, iniciando-se com o livro do Gênesis, é lida em voz alta todo sábado durante o culto, logo a partir dos Grandes Dias Santos, prosseguindo até o fim do ano judaico, até que tenha sido lida.
O fiel mantém-se de pé quando a Torá é retirada da Arca. Um judeu piedoso beija a Torá colocando seu xale de orações sobre o pergaminho (assim os dedos não tocam o rolo) e erguendo então aos lábios as franjas do xale.”
Na ala das mulheres, Maria chorava de emoção. José, na ala dos homens, não chorava, para não escandalizar os demais, mas também estava emocionado. A emoção que se irradiou pelo templo não era deste mundo. Suplantava a tudo o que tinham visto até então. Aquele canto, aquele instante, nunca mais iriam se repetir naquele templo. Dificilmente alguém conseguiria superá-lo.
A cerimônia havia sido realizada em Jerusalém. Quando terminou, houve uma festa, após a qual todos voltaram para casa. A caravana de Nazaré não era muito grande, mas os pais de Jesus estavam acostumados que ele ficasse com outras famílias, e não deram falta dele. Os homens caminhavam separadamente das mulheres. Maria pensava talvez que ele estivesse com José, e vice-versa. Em sua idade, Jesus ainda podia escolher ficar com o pai ou com a mãe.
Jesus ficara em Jerusalém, conversando com os doutores do templo, já durante a festa, de modo que ninguém dera falta dele. Era a sua primeira oportunidade de fazer isso e não ia deixar passar em branco. Antes do Bar-Mitzvá isso não lhe era permitido, como já disse acima.
As crianças são contadas como nada entre os judeus. Aliás, isso foi uma das coisas que escandalizaram os judeus na pessoa de Jesus, quando ele abraçava as crianças e lhes ouvia. Isso era impensável para um mestre, como Jesus era considerado.
Todos os que estavam na Sinagoga se haviam impressionado com o canto que Jesus fizera dos primeiros versículos do salmo e ficaram felizes de tê-lo ali com eles. Ele e os demais que ficaram, os que frequentavam a escola do templo, dormiram num local reservado para os alunos e logo de manhã já estavam com os doutores da lei. Jesus ouvia tudo com atenção, mas suas perguntas mais pareciam respostas dando soluções a todo aquele emaranhado de 613 leis que eram obrigados a seguir.
O tempo passou rápido e no terceiro dia a aula foi interrompida pelos pais de Jesus, que pediram para falar com ele. Sua mãe o abraçou, chorando, e disse:
“Filho, por que procedeste assim conosco? Teu pai e eu te procurávamos cheios de aflição!”
A resposta dada por Jesus não foi entendida nem pelos pais nem por ninguém:
“Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de meu Pai?”
“Nas coisas de meu Pai”. Que pai? - perguntavam-se os que ali estavam. José estava ali mesmo! Era marceneiro e carpinteiro! Mas não perceberam que Jesus cuidava, sim, das coisas de seu Pai querido do Céu, Pai esse que com todo o poder que tem, não o livrou da morte de Cruz. Fazer isso seria truncar e negar a nossa salvação... Por isso, não interferia. E Jesus voltou com os pais para Nazaré e, nas orações que fez durante a caminhada, percebeu que deveria por enquanto submeter-se plenamente a José e Maria. Foi o que fez. Quanto a José e Maria, conservavam e meditavam tudo isso em seus corações.
Deus não interfere em nossas vidas se não lhe dermos abertura. Diz o missal comentando isso, que deve haver pelo menos um pequeno “orifício” em nosso coração para que Deus possa agir. Ele respeita a nossa liberdade como ninguém mais. Quando lhe damos abertura, recebemos inúmeras graças para levar nossa vida de modo menos sufocante, até que possamos ser atendidos de modo mais pleno e gratificante.
Jesus é 100% homem e 100% Deus, mas como homem precisou aprender tudo como nós. Ele não “ensinava” aos doutores, como muitos dizem, mas os ouvia e perguntava coisas a eles, querendo assim aprender tudo o que pudesse.
(24/05/2005)
Estando sozinho lendo um livro de Augusto Cury (Nunca desista de seus sonhos), fiquei boquiaberto com o magnífico texto do autor à página 43, que fala da perspicácia de Jesus ao reestruturar as mentes e as vidas de seus apóstolos. Nessa página ele fala do amor tão profundo que Jesus sentia por todos, inclusive por Judas, que o traiu.
Naquele instante em que recebeu dele o beijo que ficou tão famoso, talvez Jesus não estivesse preocupado tanto com a morte, como pelo que seria de Judas dali em diante. O autor comenta: "Jamais uma pessoa traída (Jesus) amou tanto um traidor (Judas).
Olhei para o céu, que se mostrava cor de chumbo pelas nuvens de chuva, que se "derretiam" abundantes sobre o local em que eu me encontrava. Fiquei quase em êxtase quando aquele texto entrou no mais íntimo do meu coração, e eu passei a perceber quantas vezes a gente sente esse amor de Jesus em nossa vida, e quantas vezes nos acovardamos, como Judas, e não nos abandonamos a Jesus.
Judas poderia ter aproveitado aquele instante para mudar de vida. Se a mulher que tinha hemorragia curou-se apenas tocando com a mão a orla das vestes de Jesus, e se este sentiu que saíra dele uma força (Lc 22,48), quanto mais Judas não teria sentido a força divina de Jesus após beijá-lo?
Aquelas palavras de Jesus eram de indignação: "Judas, com um beijo trais o Filho do Homem?"(Lc 22,48). Ao mesmo tempo eram de um desejo íntimo que Judas superasse a tentação e se convertesse, se colocasse totalmente ao amor de Jesus.
A santidade de Jesus talvez tivesse sido sentida por Judas. Ela nos incomoda, nos questiona e nos "põe contra a parede". Cabe a nós aceitá-la ou não em nossa vida, ou descartá-la, como fizera no início São Pedro, que depois resolveu aceitá-la:"Afasta-te de mim, Senhor, que sou um homem pecador"! (Lc 5,8).
Essa santidade, Deus prometeu que nos transmitiria, se aceitássemos a purificação exigida e permitida por ele:"Deus nos purifica (com os sofrimentos) para que possa nos transmitir sua santidade " (Hebreus 12,10).
Quando sofremos, sentimos Jesus nos transmitindo um pouco de sua santidade e de seu amor. Com esse pouco, que só não é maior apenas pelo fato de que nos resta muita purificação ainda, já podemos sentir, como Jeremias20,9, o amor de Deus "concentrado nos meus ossos, como um fogo abrasador", quanto mais não teria sentido Judas, ao dar-lhe aquele beijo?
Duas forças puseram-se a lutar para tomar conta do coração dele: o amor misericordioso de Jesus, sua santidade, por um lado, e o sentimento de derrota, de culpa e de frustração, de fraqueza, por outro lado.
São Paulo passou, anos mais tarde, por esse mesmo dilema, venceu-o, como Jesus quer que também nós o vençamos. Sim, porque nós também sempre estamos entre essas duas forças, uma querendo nos arrastar para o individualismo, para o egoísmo, enfim, para o mal, e a outra, querendo nos elevar até o céu.
É o que diz S. Paulo em Rom 7,23: "Vejo nos meus membros outra lei que se opõe à lei do meu espírito, e que me faz escravo da lei e do pecado, que está nos meus membros" (Rom 7,23).
S.Paulo conclui com palavras que nos fazem de Deus, que sempre nos perdoa quando nos propomos mudar de vida:"Assim, pois, eu mesmo sirvo à lei de Deus com o espírito, e sirvo à lei do pecado com a carne"(Rom 7,25). "Quem me livrará desse corpo de morte? Somente a graça de Deus, por Jesus Cristo Senhor nosso" (Rom 7,24).
Já S.Pedro, no início, pedira a Jesus que se afastasse dele, como na citação acima de Lc 5,8). Entretanto, afirma com muita fé e amor: "Simão Pedro respondeu a Jesus: Senhor, para quem havemos de ir? Tu tens palavras de vida eterna, e nós acreditamos e conhecemos que tu és o Santo de Deus!" (João 6,70).
Neste ponto do texto, eu não consegui continuar. Parei por uns instantes e contemplei novamente o céu chuvoso. Que palavras doces! "A quem iremos?(...)Só tu tens palavras de vida eterna!"
Fiquei com vontade de parar de escrever para saborear melhor essas palavras! "Só tu tens palavras de vida eterna! Só tu!" Só Jesus pode, realmente, nos confortar "Neste vale de lágrimas"! Só ele pode nos dar aquela segurança e confiança de que poderemos um dia morar com ele no paraíso!
"Uma só coisa peço ao Senhor, e só esta procuro: habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para gozar a doçura do Senhor e visitar o seu templo" (Salmo 26-27, v.4).
Voltando ao caso de Judas, podemos então imaginar o desgaste que ocorreu em sua mente quando ele se degladiava com essas duas forças. Quanta ternura ele sentira ao dar aquele beijo em Jesus! Em Jesus, que ele estava traindo!
Infelizmente seu desespero foi maior do que sua humildade, e acabou se enforcando. Cabe a nós não seguirmos esse mesmo caminho do desespero, mas o da confiança na poderosa misericórdia de Deus, como a sentiu S. Paulo, S. Pedro e tantos outros.
A quem iremos nós, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna! "O Senhor é a minha luz e a minha salvação, a quem temerei? O Senhor é o defensor de minha vida, diante de quem tremerei?" (Salmo 26/27, 1).
19/03/16-
Nunca eu andei tanto como certa vez em que me perdi entre o Jardim Ouro Fino, de Ribeirão Pires, e Suzano. Saí do Ouro Fino, achando que ia andar uma hora, e saí em Palmeiras, um bairro de Suzano, várias horas depois, talvez mais de cinco. Eu era mais novo, tinha pouco mais de 50 anos de idade, e consegui.
Quanta angústia! Ninguém na estrada! Quantos pensamentos diferentes! Quantos momentos de quase desespero! Quantos rosários rezados!
Entretanto, eu me animava a continuar a caminhar. Não desistia. Sabia que iria sair em algum bairro, em algum lugar. E venci, e consegui.
Em nossa vida também é assim. Caminhamos num caminho desconhecido. Vemos o agora, vislumbramos um pouco além da estrada, e mais nada. Não sabemos o que nos aguarda na próxima curva. Não sabemos em que condições ficaremos física e moralmente.
É preciso uma meta, um objetivo, uma luz no fundo do túnel, à qual possamos olhar, a fim de conseguirmos continuar a caminhada com esperança e confiança. Não tenho medo do que vai acontecer, pois haja o que houver, Deus estará sempre comigo, conosco, e com toda a humanidade. Ele nunca nos abandonará. Nós é que às vezes o abandonamos!
Entretanto, muitos o abandonam para sempre. É uma grande desgraça abandonarmos Deus!
O pecado sem, perdão, contra o Espírito Santo, é justamente não querer mudar de vida, não pedir perdão, achar que não há perdão para aquele pecado, ou que Deus não o perdoará.
A misericórdia de Deus é infinita (perdoar 70 vezes 7) e é uma “árvore” cujos frutos sempre estarão à nossa disposição, desde que Jesus morreu por nós na cruz, resgatando-nos do pecado. Ele nos oferece a Árvore da Vida, que é Ele mesmo (cf Apoc. cap. 2), e os frutos são oferecidos a nós, sempre, sem reservas.
Aliás, é isso que Jesus veio fazer aqui na terra: tornar possível que comêssemos dos frutos da Árvore da Vida, impedida por Deus após o pecado de Adão e Eva, até que seu Filho morresse na cruz e ressuscitasse.
Durante a caminhada em que eu me perdera, parei várias vezes para olhar as paisagens que apareciam. Diz S. Gregório Magno (2ª leit. do Of. das Leit do 4º dom. da Páscoa) que o que é perigoso é pararmos para olhar as paisagens e não continuarmos a caminhada! Ficamos tão embevecidos com as maravilhas encontradas ao longo do caminho que nos esquecemos do objetivo com o qual iniciamos a andar.
Eu entendo que São Gregório Magno queria lembrar o materialismo a que muitas vezes nos entregamos. Ficamos tão ligados aos vícios, às manias, ao supérfluo, ao poder, ao dinheiro, ao paladar, ao sexo, à vaidade, ao lazer, que acabamos abandonando o verdadeiro Caminho, a Verdade e a Vida, como disse Jesus, nos evangelhos, que é Ele próprio.
Em nossa caminhada temos de enfrentar as cruzes que aparecem. Todos nós temos medo da cruz. Tentamos evita-la o mais possível, ou, se já estamos nela, tentamos escapulir.
O melhor modo de levar a cruz é aceita-la, assumi-la, até que Deus nos livre dela ou a alivie.
Para muitas pessoas, ela dura o restante da vida. Para outras, termina ou muda de “naipe”. Entretanto, enquanto estamos com ela, levemo-la com alegria ou, se isso nos for difícil, pelo menos com resignação e em paz.
A oração pode não só nos aliviar em nossa via-sacra, mas até livrar-nos dela, se mudarmos nossa vida para uma vida de louvor contínuo a Deus não só com palavras, mas também e principalmente, com os nossos atos.
Diz Hebreus 12,10 (cf. de 1 a 13) que o sofrimento (a cruz) nos purifica, a fim de que Deus possa nos transmitir sua santidade. É como o fulano que, para pegar um pouco do perfume que o amigo trouxe da França, lava bem o frasco para que o perfume não se deturpe. Só estando puros que nós não falsificaremos nem deturparemos a Palavra de Deus que Ele vai infundir em nós.
Dos Capítulos sobre a Perfeição Espiritual, de Diádoco de Foticéia, bispo
(Cap.6,26.27.30: PG65,1160.1175-1176) (Séc.V)
A ciência do discernimento dos espíritos vem da percepção da inteligência.
A luz da verdadeira ciência está em discernir sem errar o bem e o mal. Feito isto, a via da justiça que leva a mente a Deus, sol da justiça, introduz então a inteligência naquele infinito fulgor do conhecimento, que lhe faz procurar daí em diante, com segurança, a caridade.
Os que combatem precisam manter sempre o espírito fora das agitações perturbadoras para discernir os pensamentos que surgem: guardar os bons, vindos de Deus, no tesouro da memória; expulsar os maus e demoníacos dos antros da natureza. O mar, quando tranqüilo, deixa os pescadores verem até o fundo, de sorte que quase nenhum peixe lhes escape; mas, agitado pelos ventos, ele esconde na turva tempestade aquilo que se via tão facilmente no tempo sereno. Assim, toda a perícia dos pescadores se vê frustrada.
Somente, porém, o Espírito Santo tem o poder de purificar a mente. Se o forte não entrar para espoliar o ladrão, nunca se libertará a presa. É necessário, portanto, alegrar em tudo o Espírito Santo pela paz da alma, mantendo em nós sempre acesa a lâmpada da ciência. Quando ela não cessa de brilhar no íntimo da mente, conhecem-se os ataques cruéis e tenebrosos dos demônios, o que mais ainda os enfraquece sendo eles manifestados por aquela santa e gloriosa luz.
Por esta razão diz o Apóstolo: Não apagueis o Espírito, isto é, não causeis tristeza ao Espírito Santo por maldades e maus pensamentos, para que não aconteça que ele deixe de proteger-vos com seu esplendor. Não que o eterno e vivificante Espírito Santo possa extinguir-se, mas é a sua tristeza, quer dizer, seu afastamento que deixa a mente escura sem a luz do conhecimento e envolta em trevas.
O sentido da mente é o paladar perfeito que distingue as realidades. Pois como pelo paladar, sentido corporal, sabemos discernir sem erro o bom do ruim quando estamos com saúde e desejamos as coisas delicadas, assim nossa mente, começando a adquirir a saúde perfeita e a mover-se sem preocupações, poderá sentir abundantemente a consolação divina e conservar, pela ação da caridade, a lembrança do gosto bom para aprovar o que for ainda melhor, conforme ensina o Apóstolo: Isto peço: que vossa caridade cresça sempre mais na ciência e na compreensão, para discernirdes o que é ainda melhor.
(26/06/14)
Senhor Jesus, vós nos destes uma prova de amor concreta, consistente, sem possibilidade de refutação, que é ter se deixado trucidar por nosso amor!
Quando eu sofro, não tenho escolha de livremente escapar do sofrimento, como que por um passe de mágica! A única opção que tenho é aceitar ou rejeitá-lo com imprecações, palavrões ou choradeira covarde!
Entretanto, Senhor Jesus, vós fostes, sois e sempre sereis Deus e poderíeis ter saído e escapado de todos os sofrimentos que vos impuseram! Mas porque nos amais, deixastes que fizessem convosco o que bem entendessem. É a isso, Senhor, que eu chamo de “Amor”!
Eu sempre estou dizendo que vos amo, mas com que tibieza, covardia, falta de empenho e falsidade eu o faço! É como que se eu realmente não vos amasse!
É-me tão fácil falar, Senhor: “Eu vos amo!” Mas é tão difícil concretizar essas palavras com a ação, com uma aceitação amorosa do sofrimento, da presença e necessidades das pessoas e dos problemas que me arrasam!
É, Senhor, “me arrasam” mesmo! Isso acontece porque eu não abraço isso tudo com um verdadeiro amor!
Minhas atitudes vos dizem, na verdade, que eu quero vos amar desde que eu não sofra, não fique doente, não fique pobre, não me aconteça nada de mau!
Isso não é amar como vós amais!
Senhor Jesus, eu vos peço a graça de vos amar seja qual for minha condição de saúde, social, psicológica, material, esteja eu onde estiver, seja qual for a minha vida!
Quero vos amar, como diz Santa Teresinha, e me alegrar, quer esteja eu “no mais luxuoso palácio ou na mais triste prisão”!
O Cristo sem Cruz, o Cristo voador, o Cristo sem Cruz nas Igrejas “nova moda”
15 julho 2012Autor: Bíblia Católica | Postado em: Igreja
Bíblia Católica Online Católicos do Brasil mentioned.
Fonte: Ecclesia Una
Pe. Juvan Celestino da Silva
Devemos de antemão nos lembrar que o Mistério de Cristo é inseparável do mistério da Cruz. Após Pedro responder que Jesus é o Messias (Mc 8,29); e para este título não se limitar a um triunfalismo imediato e próprio, Jesus acrescenta:
“O Filho do homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas, ser morte e depois de três dias ressuscitar” (Mc 8,320)
Um mundo sem Cruz sem o sinal da Cruz Salvadora de Jesus cairá facilmente numa idéia distorcida do cristianismo. Tornar –se – á em um cristianismo hedonista, e o Cristo tornar-se-á em um Cristo do prazer, um Cristo fashion.
Quanto a este perigo o Apóstolo Paulo dá uma dura nos cristãos da comunidade de gálatas:
“Ó Gálatas insensatos, quem vos fascinou, a vós ante olhos foi desenhada a imagem de Jesus Cristo crucificado?… sois tão insensatos que, tendo começado pelo espírito, agora acabais na carne?” (Gl 3,1-3)
Substituindo em nossas Igrejas a imagem do Crucificado por um Cristo triunfante, glorioso e sem a Cruz, corremos o risco de cairmos em uma heresia disfarçada que se nega a humanidade do Verbo Encarnado. Uma Igreja sem Cruz é uma Igreja herética, uma Igreja “protestantizada”. Devemos reconhecer com pesar que vivemos uma verdadeira crise na teologia da Cruz.
Já imaginaram celebrarmos uma Semana Santa sem Cruz? O que faremos na sexta-feira santa? O que apresentaremos ao povo do Cordeiro Imolado?
Pois na sexta-feira santa temos a adoração da Cruz, sim, por mais que nos soe estranho a Igreja diz: “A Adoração da santa Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Cf.: Missal Romano)
Portanto, a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo “é a única Cruz digna de adoração…”
Na verdade esta imagem, até deve ser apresentada no Domingo da Ressurreição, mas não serve para está no lugar do Cordeiro Imolado. São duas as experiência pelas quais Jesus passa: morte de Cruz e a ressurreição. Uma não existe sem a outra.
O “Cristo voador” é um Cristo suspenso no ar, sem cruz sem razão de ser. Na verdade por mais que queiram representar o Cristo ressuscitado, a imagem foge totalmente da verdadeira experiência do cristão. Pois sem a Cruz na há salvação e como diz a carta aos hebreus:
“Segundo a Lei, quase todas as coisas se purificam com sangue; e sem efusão de sangue não há remissão” (Hb 9,22)
O “Cristo voador” que estão pendurando no presbitério em algumas Igrejas é um Cristo lavado e sem sangue, um Cristo enxuto, uma imagem sem graça, sem gosto, ou melhor, de mau gosto, porque está no lugar errado e na hora errada. Pois sabemos que a Igreja militante, é a Igreja da Cruz, do combate… da luta. A Igreja gloriosa nos espera para além deste mundo.
Além do mais, a Cruz não é o lugar do Cristo glorioso, a experiência gloriosa da ressurreição se deu no sepulcro, e o Cristo glorioso é o Cristo da ascensão, a Cruz é o lugar do martírio, e por sinal um lugar desconfortante, é um “caminho contra a corrente” do mundo.
Embora saibamos pela fé, que a ressurreição aconteceu, ninguém a testemunhou, só o santo sudário guardou o momento exato da ressurreição do Senhor, a experiência cristã é a da aparição do ressuscitado, que fora crucificado. Então pintar um Cristo voador e querer compará-lo ao Cristo ressuscitado é no mínino fantasioso, para não dizer folclórico. Embora alguns querem associá-lo à ascensão.
Este Cristo voador que estão colocando em algumas Igrejas é algo ridículo, um passo a mais para se eliminar o símbolo da Cruz das Nossas Igrejas e das nossas vidas, pois das escolas e ambiente públicos aos poucos já estão tirando. O modismo do Cristo voador é um perigo para a fé.
A Igreja não deve esconder o crucificado, sem incorrer na acusação de sentir vergonha da Cruz do Senhor, e quem tem vergonha da Cruz de Cristo se torna seu inimigo.
“Pois há muitos dos quais muitas vezes vos disse e agora repito, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo” (Fl 3,18)
São Paulo afirma que sem ressurreição “a nossa fé seria vã”, porém, sem a Cruz ela nem existiria. Pois sem a Cruz não haveria nem salvação nem a aurora da ressurreição. O anúncio de uma ressurreição que não passasse pela Cruz seria vazio. O túmulo está vazio, porque antes alguém esteve lá dentro. Sem a Cruz o Senhor não teria vencido a morte, o inferno, o mundo, o pecado e o medo. Portanto, “o Gólgota é a passagem obrigatória rumo à Ressurreição”.
-07/03/16
O médico me disse que preciso de mais descanso. Quantas vezes não lhe falou a mesma coisa? Estou estressado. Muita atividade. Fiz, então, o que há muito não fazia: dormir após o almoço. Dormi deliciosamente e como isso me fez bem!
Eu estou tentando aprender a fazer nada por alguns momentos, como muitos o conseguem com tanta facilidade! Tentei ficar sem ler, sem escrever, só me “apossando” do ambiente da praça em que eu estava e que me rodeava. Foi uma experiência muito boa.
É incrível como estamos indo numa “enxurrada” de atos e procedimentos e parando muito pouco! Lá na praça vi um senhor que, como eu, fazia nada, olhava alguns pardais e ouvia o rádio bem baixinho. É difícil vermos pessoas fazendo nada. As que conseguem superar o ativismo e se deixam ficar à mercê do “a toa” são mais tranquilas e parecem mais felizes!
Lembrei-me do que dizia o Pe. Arturo Paoli (morreu com 103 anos, recentemente). Ele viveu algum tempo na Venezuela e conta, em seu livro “Caminhando se abre caminho”, que uma senhora trabalhava o dia todo com vários filhos, trabalho difícil, mas diariamente, ao pôr-do-sol, colocava-se em sua varanda para contemplar o ocaso. Era uma hora “sagrada” para ela, em que ficava sozinha e não permitia que nada nem ninguém a incomodasse. Era a hora em que entrava em sintonia com Deus, “prestando contas” de seu dia, e fortalecendo-se para o dia seguinte. Essa sua “happy hour” lhe causava grande satisfação.
O outro fato é o de que as crianças fazem muito isso. Eu tinha uns três anos e minha mãe trabalhava na fábrica, só podia lavar a louça após às 14 horas. A pia não tinha esgoto direto e soltava a água num ralo externo. Eu ficava brincando de “cachoeira” quando a água caía. A tal “cachoeira” aumentava e diminuía o volume de água e eu me divertia muito com isso. Nunca me esqueci!
O pôr-do-sol em Assekren é magnífico, mas o Pe. Carlos de Foucauld o abandonava para ir adorar a Eucaristia, que, segundo ele, era melhor. Olhava para Jesus, sabendo que Jesus também olhava pra ele, e alternava uma ou outra palavra com a contemplação simples e silenciosa.
Enquanto escrevia este texto, fui interrompido várias vezes por pessoas querendo uma palavra de incentivo ou de orientação. A vida é, realmente, corrida! Uma delas desviou-se da oração e não sabe como voltar a ela. Eu lhe aconselhei o mesmo que aconselho aos que perderam o hábito de orar: façam como os monges orientais, que dizem frases piedosas (=jaculatórias) muitas vezes ao dia, como: “Jesus me ajude”! “Jesus, Filho de Deus vivo, tende piedade de mim”! “Meu Jesus, misericórdia”! Aos poucos o costume de oração vai se ajeitando em nossa vida.
O Beato Carlos de Foucauld, em crise de fé, só dizia isto: “Deus, se vós existis, faça com que eu acredite em vós”! E logo começou a acreditar em Deus, e passou o restante da vida dedicando-se a Ele. Veja a vida dele neste mesmo site.
O modo de se rezar mais começa com pouquinho a mais todos os dias, até chegar a um tempo razoável.
Meu irmão, minha irmã, vamos descansar mais, pensar mais em Deus e menos em nossas picuinhas, em nossas veleidades.
Cidade do Vaticano (Segunda-feira, 15-10-2018, Gaudium Press) Na homilia da Missa celebrada na manhã da sexta-feira, na Casa Santa Marta, o Papa Francisco falou dos "demônios educados" e convidou a termos vigilância, sobretudo contra eles, que entram na alma sem serem percebidos.
Francisco explicou que a essência do demônio é destruir ou diretamente com vícios e guerras ou tentar fazê-lo "educadamente", levando a viver com "o espírito da mundanidade".
Este foi o tema reflexão sobre o Evangelho extraído de Lucas (Lc 11,15-26).
Em nossa alma existe uma luta entre Jesus e o diabo
"O demônio, quando toma posse do coração de uma pessoa permanece ali, como se fosse a sua casa e não quer sair", afirmou acrescentando que quando Jesus expulsa os demônios, eles tentam arruinar a pessoa, fazendo mal "inclusive fisicamente".
Mais do que "a luta entre o bem e o mal", que parece abstrata, o Papa ressaltou que "a verdadeira luta é a primeira luta entre Deus e a antiga serpente, entre Jesus e o diabo".
"E esta luta - advertiu - se faz dentro de nós. Cada um de nós está em luta, talvez sem que saibamos, mas estamos em luta".
O demônio quer destruir a obra de Deus
O Papa explicou que "A essência do demônio é destruir" e que a sina dele é querer precisamente "destruir a obra de Deus".
Francisco advertiu, porém, que o risco é ser como crianças, que chupam o dedo acreditando que não seja assim, crendo que essa luta seja uma invenção.
O demônio destrói e quando não pode destruir face a face porque tem diante de si uma força de Deus que defende a pessoa, então sendo "mais esperto do que uma raposa", astuto, busca outro modo de tomar posse da pessoa.
Evangelho de Lucas (Lc 11,15-26)
No Evangelho da sexta-feira, Lucas (Lc 11,15-26), inicia-se com algumas pessoas que acusam Jesus de ter expulso um demônio por meio de Beelzebul.
O Papa concentra o seu pensamento sobretudo na última parte do trecho evangélico, no qual se destaca que quando o espírito impuro sai do homem, que vaga por lugares desertos buscando repouso e, não encontrando, volta para a casa da qual saiu, pega outros sete espíritos piores que ele e ali fixam morada. E a nova condição daquele homem torna-se pior do que a primeira.
Tática do Demônio Educado
Para Francisco, quando o diabo não pode destruir uma pessoa através dos vícios, ou um povo com as guerras e as perseguições, pensa em outra estratégia, "a estratégia que usa com todos nós":
"Nós somos cristãos, católicos, vamos à Missa, rezamos....Parece tudo em ordem. Sim, temos os nossos defeitos, os nossos pecadinhos, mas parece tudo em ordem. E ele se faz "o educado": vai, olha, procura uma bela quadrilha, bate à porta - "Dá licença? Posso entrar?", toca a campainha.
E estes demônios educados são piores que os primeiros, porque você não se dá conta que os tem em casa.
E este é o espírito mundano, o espírito do mundo.
O demônio ou destrói diretamente com os vícios, com as guerras, com as injustiças diretamente ou destrói educadamente, diplomaticamente neste modo que diz Jesus.
Não fazem barulho, se fazem de amigos, persuadem você - "Não, vai, não faz tanto, não, mas...até aqui está bem" - e levam você pelo caminho da mediocridade, fazem você um "morno" no caminho da mundanidade".
Eles convencem que não são tão ruins...
Francisco adverte quanto ao perigo de cair "nesta mediocridade espiritual, neste espírito do mundo" e afirma:
"Mas estas coisas não são tão ruins. E o espírito do mundo nos arruína, nos corrompe por dentro.
"Tenho mais medo destes demônios do que dos primeiros", diz o Papa.
"Eu não me preocupo tanto, como quando vejo essas pessoas que abriram a porta aos demônios educados, para aqueles que convencem de dentro de que eles não são tão inimigos":
"Muitas vezes eu me pergunto: o que é pior na vida de uma pessoa? Um pecado claro ou viver no espírito do mundo, da mundanidade?
Que o demônio coloque você em um pecado - também, não um, vinte, trinta pecados, mas claros, que você se envergonha - ou que o demônio esteja à mesa com você e viva, more com você e está tudo normal, mas ali, dá a você as insinuações e possui você com o espírito da mundanidade?"
Vigilância e calma diante dos demônios educados
O espírito da mundanidade é este: "aqueles que trazem os demônios educados", continua o Papa, recordando também a oração:
"Diante destes demônios educados que querem entrar pela porta de casa como convidados para o casamento, dizemos: "Vigilância e calma".
Vigilância: esta é a mensagem de Jesus, a vigilância cristã.
O que acontece no meu coração? Por que sou assim medíocre? Porque sou assim morno?
Quantos "educados" habitam em casa sem pagar aluguel? (JSG)
(Da Redação Gaudium Press, com informações Vatican News)
É muito preocupante o indiferentismo presente nas novas gerações, capaz de desestimular a ação de quem ainda tem força para agir. O mundo não pode parar no passado e nem perder os estímulos de hoje, mas corre o perigo do não comprometimento com as conquistas de um futuro cheio de esperança. As influências desmotivadoras perpassam pelos relacionamentos hodiernos.
Existe uma forte onda de ação de muitas pessoas, que tem como meta a conquista de algo, mas realizado por caminhos de estranheza. Conforme os princípios morais, a conquista do bem não pode passar por uma trajetória de destruição. Em outras palavras, a justiça deve ser fruto de práticas fundamentadas na justiça, e não o contrário. A vida não pode ser conquistada com ações de morte.
Em vez do mal, toda decisão deve ser pautada pela realização do que ajuda no bem comum. O poder está nas mãos das autoridades, e as decisões não podem ser fragilizadas em troca de dinheiro. Não se vende a consciência para votar em projetos que favorecem o bolso de uma minoria privilegiada. Aí está a causa principal do sofrimento das pessoas atingidas por barragens.
Estamos em tempo de contradições, com focos em questões de pouca importância, e isso vem causando, aqui e ali, práticas de desumanização. O essencial, aquilo que é o valor e a dignidade da pessoa humana, não é encarado como deveria ser. Acontecem as distorções, desfigurando a identidade original de cada ser humano. As preocupações do mundo têm neutralizado a ação de Deus.
O cristão é constantemente desafiado pela Palavra de Deus. Diante do desafio de sua real opção, em meio às dificuldades e diversidade da nova cultura, seu sim vem sempre carregado de responsabilidade. Um sim que deve ser fruto do seguimento de Jesus Cristo, que exige coerência e excelência na prática do bem. Só assim conseguimos entender uma sociedade humanizada.
Toda decisão exige discernimento, misericórdia, abertura para relações fraternas e uma ética de bom relacionamento. Jesus fala de tratar as pessoas como gostaríamos que elas nos tratassem (Cf. Lc 6,31). É uma prática de reviravolta na comunidade dos cristãos, capaz de mudar as atitudes de violência e vingança, motivando as pessoas para uma prática da convivência.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.
SANTO ANSELMO
Segunda leitura Da 6ª feira da 1ª semana do advento
Do livro “Proslógion”, de Santo Anselmo, bispo
(Cap. I: Opera omnia, Edit. Schmitt, Seccovii, 1938, 1,97-100)
(Séc. XII)
O desejo de contemplar a Deus
Vamos, coragem, pobre homem! Foge um pouco de tuas ocupações. Esconde-te um instante do tumulto de teus pensamentos. Põe de parte os cuidados que te absorvem e livra-te das preocupações que te afligem. Dá um pouco de tempo a Deus e repousa nele.
Entra no íntimo de tua alma, afasta tudo de ti, exceto Deus ou o que possa ajudar-te a procurá-lo; fecha a porta e põe-te à sua procura. Agora fala, meu coração, abre-te e dize a Deus: Busco a vossa face; Senhor, é a vossa face que eu procuro (Sl 26,8).
E agora, Senhor meu Deus, ensinai a meu coração onde e como vos procurar, onde e como vos encontrar.
Senhor, se não estais aqui, se estais ausente, onde vos procurarei? E se estais em toda parte, por que não vos encontro presente? É certo que habitais numa luz inacessível, mas onde está essa luz inacessível e como chegarei a ela? Quem me conduzirá e nela me introduzirá, para que nela eu vos veja? E depois, com que sinais e sob que aspecto vos devo procurar? Nunca vos vi, Senhor meu Deus, não conheço a vossa face.
Que pode fazer, altíssimo Senhor, que pode fazer este exilado longe de vós? Que pode fazer este vosso servo, sedento do vosso amor, mas tão longe da vossa presença? Aspira ver-vos, mas vossa face se esconde inteiramente dele. Deseja aproximar-se de vós, mas vossa morada é inacessível. Aspira encontrar-vos, mas não sabe onde estais. Tenta procurar-vos, mas desconhece a vossa face.
Senhor, vós sois o meu Deus, o meu Senhor, e nunca vos vi. Vós me criastes e redimistes, destes-me todos os meus bens e ainda não vos conheço. Fui criado para vos ver e ainda não fiz aquilo para que fui criado.
E vós, Senhor, até quando? Até quando, Senhor, nos esquecereis, até quando nos ocultareis a vossa face? Quando nos olhareis e nos ouvireis? Quando iluminareis os nossos olhos, e nos mostrareis a vossa face? Quando voltareis a nós?
Olhai-nos, Senhor, ouvi-nos, mostrai-vos a nós. Dai-nos novamente a vossa presença para sermos felizes, pois sem vós somos tão infelizes! Tende piedade dos rudes esforços que fazemos para alcançar-vos, nós que nada podemos sem vós.
Ensinai-me a vos procurar e mostrai-vos quando vos procuro; pois não posso procurar-vos se não me ensinais nem encontrar-vos se não vos mostrais. Que desejando eu vos procure, procurando vos deseje, amando vos encontre, e encontrando vos ame.
As serras trabalham intensamente, obra de dementes, e a floresta amazônica, aos poucos se irá acabando. Quantos anos isso demorará para acontecer? Não sei. Só sei que meus tetranetos, um dia encontrarão fósseis de peixes, botos, animais silvestres, no grande sítio arqueológico deserto, que um dia fora conhecido como “Floresta Amazônica”.
Já no céu, ouvirei uma história semelhante a esta de como tudo terminou:
Havia uma única árvore, deixada pelos madeireiros, preservada pela luta inglória dos nossos já conhecidos e desprezados defensores da natureza. Estava cercada, policiada, bem tratada, era o único exemplar em toda a região Norte.
Os pássaros ali se aninhavam, comiam de seus frutos, dali se propagavam pelo imenso deserto sem oásis.
Deus, nosso Senhor, lamentava tudo isso. Com quanta alegria criara as árvores e toda a natureza! Tirara o Saara de dentro do mar para que os homens o florestassem, mas em vez disso, criaram mais desertos.
Com sua ajuda, poderiam até florestarem o Saara! Com sua ajuda, os madeireiros do Brasil teriam sobrevivido sem devastar a floresta!
Vendo aquela hipocrisia de algumas pessoas que tentavam “endeusar” a única árvore restante, ergueu-se de seu majestoso trono, olhou para os anjos e santos que o contemplavam, assustados, viu no inferno alguns desses cruéis madeireiros, e se irritou.
Num ímpeto de indignação, lançou um raio fulminante sobre a tal única árvore, e num instante ela secou.
Muitos desertos continuarão na história da humanidade. O deserto amazônico será um deles. Mas o maior deserto, o maior mesmo, sem dúvida alguma, é o coração do homem que não confia em Deus! (02/12/2012).
12/10/16
Eu já era sacerdote quando resolvi passar alguns dias em Minas Gerais. Fiz isso, depois, várias vezes. Não me recordo das datas, mas acho que foi no final dos anos setenta.
Peguei o ônibus e desci numa cidadezinha no meio do mato, poucos habitantes. Perguntei o caminho para o casebre do eremita meu amigo, que morava lá, e mo indicaram. Foram 6 km de caminhada, pouco mais de uma hora e meia. Era só subida!
Parei num casebre, cansado, e perguntei sobre ele. Disseram-me onde era sua cabana. Finalmente o encontrei. Ele veio encontrar-me no portão.
Casebre gostoso, com quatro cômodos, feito de madeira. Dois quartos, uma cozinha e uma capela. A sala era na cozinha. Fogão a lenha. Chuveiro frio, feito com uma lata de 20 kg, com a opção de tomar banho na vertente, vinda da montanha, água geladíssima, em pleno mês de janeiro.
Quatro horas da tarde. Ouvia-se os macaquinhos fazendo barulho na mata ali vizinha, e muitos bichos barulhentos. À medida em que avançava a noite, alguns silenciavam, outros começavam o barulho.
Voltei do banho na vertente, ajeitei minhas coisas numa cadeira no quarto de hóspedes e sentamo-nos na cozinha para pormos a conversa em dia. Eu conhecera o eremita num mosteiro, também em Minas, igualmente no alto de uma outra montanha. Ele ansiava, naquele tempo, viver como eremita e assim o fez.
Lembro-me com muito pesar que, numa de minhas visitas ao mosteiro, ao capinar uma área frontal como lazer, cortei inadvertidamente um pezinho de pinheiro que era o xodó do meu amigo. Recordamos esse fato e rimos.
Às cinco e meia nos recolhemos à capela e rezamos as Vésperas. A seguir, fomos à cozinha para jantar. Ele esquentou a comida que fizera no almoço, fez salada com folhas que ele mesmo plantara e fritou ovos. De sobremesa, uma marmelada feita numa fábrica ali perto.
Cansado que estava, recolhemo-nos aos nossos quartos cedo, lá pelas 20 horas, após rezarmos as Completas. Eu o ajudei a arrumar a cozinha.
Rezei o terço e logo fui dormir. Não quis gastar velas, e por isso não li nada. Lá não há energia elétrica.
Levantei-me às cinco horas, com o chamado do Irmão eremita. Como ele não era padre, eu celebrei a Santa Missa e continuamos com um momento longo de oração, leituras e meditação. Depois rezamos as laudes (oração da manhã), e após isso tudo fomos à cozinha para tomar café. Gostei do pão que ele fez, e do mel puro, que ele conseguia no sítio vizinho. O leite também era obtido no mesmo sítio.
Dormi a noite como havia tempos não dormia, apesar do barulho da bicharada da floresta.
Falei um pouco sobre a minha vida daquela época, de pároco de cidade grande (eu morava em São Paulo), e ele falou-me sobre a vida que levava ali. Visitava as famílias, sobretudo os pobres e doentes. Um (a) eremita não pode isolar-se da comunidade onde vive. De jeito nenhum!
Depois do café saímos para conhecer o lugar. Vi sua horta, seu pomar e as redondezas. Voltamos às 10 horas, rezamos o ofício das 9 hs e eu o ajudei a fazer o almoço. A mistura foi batata doce frita, pois ele não come carne.
Uma vida muito sacrificada, com muitas renúncias, o que levou-me a pensar se isso não o levaria a abandonar tudo algum dia. A gente consegue viver de modo sacrificado um certo tempo, e se tiver acompanhante(s), mais tempo. Entretanto, para viver sozinho é preciso muita vocação e determinação. Não são todos que aguentam.
Após o almoço fizemos uma sesta e visitamos um doente no sítio vizinho onde ele comprava o mel e o leite. O doente era o esposo da senhora que nos atendeu. Ele pagava tudo com capinagem e serviços afins, pois o dinheiro era artigo difícil naquelas paragens.
Na volta, ajudei-o a aguar as plantas e a mexer com uma e com outra, e só paramos às 15 horas, para a oração das 15 e comermos algumas frutas próprias daquele lugar.
No dia seguinte escalamos um monte nas cercanias. Gostei muito. Lá do alto se via o horizonte montanhoso de Minas, um cenário magnífico.
À tarde voltei para a cidadezinha pelo caminho mais curto, de 4 km, ao lado do córrego formado pela vertente em que tomei banho, e consegui tomar o último ônibus.
Minha impressão foi de muita solidão, solidão dilacerante e perigosa. Acho que não dá certo morar assim tão sozinho. Esse meu amigo, uns três anos depois, acabou abandonando a vida eremítica e casou-se.
São Basílio, São Bento e Thomas Merton desaconselhavam a vida eremítica, dizendo que a cenobítica (em comunidade) era melhor. Precisamos viver e aprender a viver em comunidade, sem deixarmos, é claro, a vida de oração, e, se for de nossa vocação, uma vida de oração mais intensa.
Quero lembrar que Jesus não foi eremita todo o tempo. Passava longo tempo em oração, mas viva, como em Nazaré, em família, e depois com os discípulos.
Para ser um (a) eremita feliz, é preciso:
1- DESFAZER-SE DO SUPÉRFLUO
2- RECOMEÇAR SEMPRE
3- ORAÇÃO CONTÍNUA
4- PARTILHAR SEMPRE
5- MANSIDÃO E HUMILDADE, MAS NÃO COVARDIA.
6- SOBRIEDADE EM TUDO
7- CONTROLE DAS PALAVRAS
8- DEIXAR A CURIOSIDADE DE LADO
9- NÃO SE APROVEITAR DOS OUTROS
10- BANIR DA VIDA A INVEJA, OS CIÚMES,
AS BRIGAS, OS AFETIVOS OU MESQUINHOS
11- DEIXAR DE SER UMA "MÚMIA": VIVER A ALEGRIA.
12- VIVER A VIDA DE NAZARÉ.
Se você se interessou, mas quer argumentos, ei-los:
1- DESFAZER-SE DO SUPÉRFLUO, como diz 1ª Timóteo 6,7-8: "Nada trouxemos a este muindo, e nada podemos levar dele. Tendo, pois, sustento e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contente". V. 10 - "O amor ao dinheiro é a raiz de toda espécie de males".
Jesus viveu só com o necessário, sem nada de supérfluo, vida simples de operário, e é por aí que devemos caminhar.
O problema é que não temos honestidade plena para decidirmos o que é realmente supérfluo para nós. Nunca somos sinceros quando vamos escolher o que é ou não supérfluo. Eu, por exemplo, estou ensaiando a não sei quanto tempo se jogo fora isto ou aquilo. É impressionante a capacidade que eu tenho de guardar bugigangas! Falsas necessidades!
Aliás, mesmo as coisas necessárias devem ser escolhidas entre as mais simples e baratas. Entretanto, não devo acumular coisas desnecessárias só por serem simples e baratas!
Caminhemos, amigos e amigas, sem essas "muletas" ou "andaimes"! E rezem para que eu consiga cumprir estes conselhos que estou lhes dando!
2- RECOMEÇAR SEMPRE. Isso eu pratico. Acho que não existe alguém no mundo que tenha recomeçado tudo de novo como eu. Nunca devemos desanimar. Deus sempre nos perdoa! Não querer pedir perdão para recomeçar é orgulho, falta de humildade.
Já pedi para colocar no túmulo este epitáfio: "Aqui jaz um homem que nunca desanimou".
Conheçamo-nos plenamente, na humildade, e busquemos a santidade, respeitando nossos limites e superando-os, aos poucos, com a ajuda da misericórdia divina.
3- ORAÇÃO CONTÍNUA: Ou nos propomos a rezar pelo menos três horas por dia, ou desistamos de ser eremitas. Sem esse tempo mínimo de oração é impossível seguir o caminho do céu e sermos um (a) eremita feliz.
4- PARTILHAR SEMPRE: não apenas os bens, mas nossa vida, nosso tempo, nossas qualidades, nossas capacidades, nosso trabalho, em favor dos necessitados, dos doentes e mesmo dos que vivem conosco. Ser eremita não significa ser isolado(a). O isolamento pode ser desculpa esfarrapada de nossa preguiça.
5- MANSIDÃO E HUMILDADE, MAS NÃO COVARDIA. É isso. Não levar tudo a ferro e fogo. Deixar de lado o que não for importante, mesmo nas opiniões contrárias. Se o fulano lhe afirma que aquele cavalo é um burro, não queira lhe provar o contrário! Deixe que ele continue a pensar assim! Entretanto, quando o Edir Macedo afirma que o aborto em mulheres violentadas pode ser feito, aí, sim, proteste e lute pela verdade. O aborto NUNCA deve ser permitido, em hipótese alguma, mesmo que isso seja dito por um líder religioso. Esse líder está viajando na maionese!
Entendeu? Não perca tempo discutindo o sexo dos anjos, ou que flor é a mais bonita, ou se havia papagaio na arca de Noé. Só lute e seja teimoso(a) para defender os pobres, os humildes e os injustiçados.
Mateus 5,41: "Se alguém te obriga a andar um quilômetro, caminha com ele dois quilômetros!" S. Paulo também diz em alguma de suas cartas que não podemos perder tempo com genealogias intermináveis ou com assuntos bobos ou desnecessários.
6- SOBRIEDADE EM TUDO: Não exagerar em nada, mesmo nas coisas permitidas. Sobriedade e equilíbrio fazem bem. Sobriedade, entretanto, não é ficar totalmente sem isto ou aquilo, mas usar equilibradamente de tudo. Procurar sair dos vícios, que é falta de sobriedade. Se necessário, veja nossos artigos sobre a Formação Humana.
Você já percebeu que mesmo o perfume, quando é demais incomoda?
7- CONTROLE DAS PALAVRAS : Está no item da sobriedade. Nunca falar demais, não falar palavrões, e vigiar para não ofender a ninguém, nem falar besteiras ou piadas sujas. Isso não combina com um(a) eremita. As piadas leves podem ser ditas, é claro. Havia um santo, não me lembro o nome, que vivia pedindo perdão a Deus porque "gostava de ditos jocosos".
Você encontra isso em Tiago capítulo 3 todo, e Efésios 4,29: " Não saia dos vossos lábios nenhuma palavra inconveniente".
8- DEIXAR A CURIOSIDADE DE LADO. Isso é algo difícil, mas tem que ser praticado. Deixemos em paz a vida dos outros! A nossa já dá um trabalhão!
Não queiramos saber tudo o que se passa, só as coisas mais importantes para a vida eterna! Saber apenas por saber é besteira!
Inteiremo-nos dos acontecimentos, mas para agirmos em favor dos que dele participam, ou ao menos para rezar por eles, se bem que isso também pode ser uma desculpa esfarrapada para quem quer falar da vida dos outros.
9- NÃO SE APROVEITAR DOS OUTROS. Não dê uma de coitadinho(a). Nunca se aproveitar da bondade nem da liberdade e "entrada" que os outros nos dão. Pelo contrário, sempre estarmos dispostos a ajudar. Não podemos fazer igual aquele padre, nos tempos antigos, do sítio (isso aconteceu realmente em Angatuba SP) que, ao ver o dono do sítio cortando um pedaço de queijo (por exemplo), e ao lhe oferecer, o padre, sem cerimônia alguma, mandava embrulhar (o queijo inteiro, e não o pedaço oferecido).
10- BANIR DA VIDA A INVEJA, OS CIÚMES, AS BRIGAS, OS INTERESSES AFETIVOS OU MESQUINHOS. Essas coisas não combinam com quem quer ser um(a) eremita de Jesus Misericordioso. A gratuidade deve gerenciar as nossas ações.
11- DEIXAR DE SER UMA "MÚMIA": VIVER A ALEGRIA.Ser eremita não significa ser uma "múmia" ambulante, mas ser alegre, feliz, descontraído(a), participar do que é permitido e justo, partilhar sempre. Nas minha poesias eu falo muito em tristeza, abandono, mas quase sempre é mera literatura. Eu procuro viver na alegria de saber que Deus me ama e quer-me junto dele. Ele quer todos nós junto dele. Jesus nos libertou do pecado e da morte eterna. Ele prometeu, em João 6, que, quem comesse a sua carne e bebesse o seu sangue, teria a vida eterna. Você acredita nisso? Pois acredite, que é real. Não dá muito certo fazer poesia sobre coisas alegres, mas na vida do dia a dia, a tristeza deve estar longe de nós. Como diz a pastora evangélica americana Joyce Meyer, " Jesus proibiu que sentíssemos medo, mas não que tremêssemos e sentíssemos calafrios!"
12- VIVER A VIDA DE NAZARÉ. Ou seja, viver a vida que Jesus viveu nos trinta anos antes de começar a pregar a Palavra e de fazer milagres, e que ele retrata no que disse posteriormente, no Sermão da Montanha e nos seus ensinamentos.
Espero que todos vocês tenham aproveitado alguma coisa disso tudo o que eu disse. Deus nos abençoe!
(Contém também um artigo do Prior de Taizé sobre o Espírito Santo).
- A ação do Espírito Santo, segundo o Papa
Em 22-05-2017, o Papa Francisco salientou em sua homilia que somente o Espírito Santo nos ensina a dizer: "Jesus é o Senhor".
É por isso que devemos abrir o coração para ouvir o Espírito Santo e, assim, poder testemunhar Jesus Cristo, afirmou Francisco.
O Papa desenvolveu sua homilia com base nas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo Jesus Cristo aos discípulos na Última Ceia.
E sua escolha foi de falar mais sobre o Espírito Santo, o Paráclito. Aquele que, disse Francisco, nos acompanha e "nos dá a segurança de sermos salvos por Jesus": o Espírito Santo é o Defensor enviado por Jesus para nos defender diante do Pai.
O Espírito Santo nos conduz à plena verdade
"Sem o Espírito, nenhum de nós é capaz de dizer, ouvir e viver Jesus. Em outras partes deste longo discurso, Jesus diz do Espírito: ‘Ele os conduzirá à plena Verdade', nos acompanhará rumo à plena Verdade. ‘Ele lhes fará lembrar de todas as coisas que eu disse; lhes ensinará tudo'. Isto é, o Espírito Santo é o companheiro de caminhada de todo cristão, é o também o companheiro de caminhada da Igreja. E este é o dom que Jesus nos dá". Francisco ainda lembrou que é o Espírito Santo que nos ensina a dizer: ‘Jesus é o Senhor".
O Espírito Santo, disse, é "um dom: o grande dom de Jesus", "aquele que não nos deixa errar". Mas onde mora o Espírito?, perguntou o Papa.
Senhor, abra-me o coração para que entre o Espírito
Recordando a Primeira Leitura do dia, extraída dos Atos dos Apóstolos, quando se menciona a figura de Lídia, "comerciante de púrpura", que "sabia fazer as coisas", e a quem "o Senhor abriu o coração para aderir à Palavra de Deus", o Papa comentou que "o Senhor abriu o seu coração para que o Espírito Santo entrasse e ela se tornasse discípula. É justamente no coração que levamos o Espírito Santo. A Igreja o chama como ‘o doce hóspede do coração': está aqui. Porém, em um coração fechado ele não pode entrar. ‘Ah, então onde se compram as chaves para abrir o coração?
Não: também este é um dom. É um dom de Deus. ‘Senhor, abra-me o coração para que entre o Espírito e me faça entender que Jesus é o Senhor'".
O Papa acentuou que esta é uma oração que devemos fazer nesses dias: "Senhor, abra-me o coração para que eu possa entender aquilo que Tu nos ensinaste. Para que eu possa recordar as Tuas palavras. Para que eu chegue à plena verdade".
Coração aberto "para que o Espírito entre, e nós ouçamos o Espírito"
Francisco disse que, das Leituras do dia podem ser extraídas duas perguntas.
A primeira delas deveria ser: "eu peço ao Senhor a graça de ter um coração aberto? ". E a segunda pergunta seria: "eu busco ouvir o Espírito Santo, as suas inspirações, as coisas que Ele diz ao meu coração para que eu prossiga na vida cristã, e possa testemunhar também eu que Jesus é o Senhor? ".
Por fim, ainda o Papa recomendou:
"Pensem nessas duas coisas hoje: o meu coração está aberto e eu faço o esforço de ouvir o que o Espírito de me diz. E assim iremos avante na vida cristã e daremos também nós testemunho de Jesus Cristo. " (JSG) GAUDIUM PRESS
DO PRIOR DE TAIZÉ, SOBRE O ESPÍRITO SANTO
(Lembro que o autor escreveu isso no hemisfério norte, cujas estações do ano são contrárias às do hemisfério sul)
Irmão Alois, prior de Taizé
"Em muitas regiões do mundo, quando a festa de Pentecostes chega, a natureza torna-se bonita. Rompe a primavera, o verão já se anuncia, o trigo cresce e o vento se diverte jogando com as espigas como se fosse ele quem as faz crescer.
Para o povo judeu, a festa de Pentecostes, Shavuot, era uma ação de graças pelo trigo maduro. Em muitas de suas parábolas, Jesus falou do Reino de Deus que vem através de amadurecimento. Pentecostes anuncia o tempo da colheita.
Entretanto, Pentecostes é também o surgimento da novidade, do inesperado. O que aconteceu no Sinai era como um prenúncio que, segundo a fé cristã, agora encontra o seu cumprimento. Deus faz a sua vontade conhecida, de modo que a lei não mais será escrita em tábuas de pedra, mas no coração. Não é apenas Moisés que está diante de Deus: o fogo do Espírito desce sobre cada um. Pelo Espírito Santo, Deus vem habitar em nós. Ele está aqui, sem intermediários. É para fazer-nos entrar num relacionamento pessoal com Deus que o Espírito Santo é dado para nós.
Se o Espírito Santo permanece muitas vezes discreto, sem tentar intervir, é porque não quer tomar nosso lugar, mas fortalecer nossa pessoa. Nas profundezas do nosso ser, ele diz incansavelmente o sim de Deus à nossa existência. Então, essa é uma oração acessível a todos: "Que o teu sopro de bondade me guie!" (Salmo 143,10). Impulsionados por esse alento podemos avançar.
No final de sua vida, o irmão Roger dirigia as suas orações com muita frequência ao Espírito Santo. Ele queria incutir-nos a confiança em sua presença invisível. Ele sabia que a luta interior para abandonar -se ao sopro do Espírito e crer no amor de Deus é decisivo na vida humana.
Durante a minha estadia com meus irmãos, que vivem na Coréia, nós fomos para um mosteiro budista. Recebemos ali uma recepção muito fraterna. Eu senti uma grande admiração por aqueles monges budistas que corajosamente procuram ser consequentes com suas crenças. Eles fazem um enorme esforço para sair de si mesmos e se abrir para uma realidade maior do que eles, o absoluto. Eles desenvolveram profunda sabedoria, uma busca pela misericórdia que nós compartilhamos com eles.
Mas como eles podem fazê-lo, eu me perguntava, sem acreditar em um Deus que os ama pessoalmente? Seu compromisso envolve uma solidão extrema. Nós, como cristãos, acreditamos que o Espírito Santo habita em nós, Cristo ensinou-nos a dirigir a Deus dizendo: "Você (tu)". É um passo enorme, impensável para uma grande parte da humanidade.
Voltei de lá assombrado com a revelação trazida por Cristo e disse a mim mesmo: "não é urgente, para nós cristãos, termos mais confiança na presença do Espírito Santo e para mostrar com a nossa vida que Ele está atuando no mundo?
Comecemos pelo aprofundamento do mistério de comunhão que nos une. Quando juntos nos voltamos para Cristo, numa oração em comum, o Espírito Santo nos une nesta única comunhão, que é a Igreja, e nos concede nascermos para uma nova vida.
O dom do Espírito Santo está ligado ao perdão. Cristo ressuscitado diz aos seus seguidores: "Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, serão perdoados." (João 20,22-23). A Igreja é antes de tudo uma comunhão de perdão. Quando entendemos que Deus nos dá seu perdão, nos tornamos capazes de dá-lo também aos demais. É sabido, porém, que nossas comunidades, nossas paróquias, estão sempre desprovidas e longe de serem o que sonhamos delas. Mas o Espírito Santo está continuamente presente na Igreja e nos faz avançar no caminho do perdão.
Se Cristo nos envia a anunciar a Boa Nova ao mundo inteiro, ele também nos pede para discernirmos os sinais da sua presença ali onde ele nos precede. Os primeiros cristãos ficaram surpresos ao descobrirem a presença do Espírito ali onde eles não esperavam (veja Atos 10). O próprio Jesus comoveu-se pela confiança tenaz de uma mãe grega (Marcos 7,24-30) e pela fé de um soldado romano (Lucas 7,1-10). Somos nós capazes de surpreender-nos reconhecendo as expectativas espirituais de nossos contemporâneos?
Quando um dia fui visitar meus irmãos que vivem em Dakar, Senegal, fiquei impressionado de ver a amizade que foi criado no bairro entre eles e alguns muçulmanos. Quando eu estava prestes para ir, chegou um homem mais velho, muçulmano, muito bem vestido. No começo eu o confundi com um dignitário, mas era o avô de uma família vizinha que queria me dizer o quão felizes que os fazia o fato de os os irmãos estarem lá. Eu lhe respondi: "A alegria dos irmãos é ainda maior que a de vocês". Ele me respondeu com firmeza: "Não, é a nossa alegria que é maior."
Deixemos crescer em nossas vidas os frutos do Espírito: "Amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, confiança nos outros, mansidão, domínio si mesmo" (Gálatas 5,22-23). O Espírito nos leva para com os outros e, sobretudo, aos mais abandonados. Numa solidariedade concreta com os mais desfavorecidos, a luz do Espírito Santo pode inundar nossas vidas.
Sim, o Espírito Santo está atuando hoje. Ele renova sem cessar o amor de Deus em nosso coração. Feliz quem não se abandona ao medo, mas à inspiração do Espírito Santo. Ele é também a água viva, o Espírito de paz que pode vivificar o nosso coração e comunicar-se, através de nós, ao mundo inteiro".
(Atrever-se a acreditar, Editorial Perpetuo Socorro, págs.79-83)
22/10/16
Quando criança morávamos num lugar em que a energia não passava de 90 volts. Era necessário um “transformador” pequeno, tipo estabilizador, a fim de podermos ligar alguns aparelhos eletrônicos, como o rádio a válvulas e, mas tarde, no final dos anos 60, a televisão, que também era a válvula.
Hoje, lendo um trecho de São Paulo aos Efésios, vi que nossos sofrimentos, orações, esforços, são “plenificados” por Cristo (Efésios 4,7-16). Lembrei-me do estabilizador (ou transformador) e percebi que Jesus faz justamente isso conosco: quando nos colocamos totalmente à mercê dele, ele une os nossos pequenos sofrimentos, as nossas pobres orações, as nossas pequenas boas ações, aos sofrimentos dele, como diz Colossenses 1,24: “Completo em minha carne o que falta à paixão de Cristo”.
Jesus completa os méritos de nossas ações e as “amplifica” como aquele transformador da minha infância. Sem o transformador não dava para ouvir o rádio grande de válvulas. Sem o auxílio e a Graça de Jesus não temos merecimento algum diante do Pai.
É claro que se nada fizermos para mudar nossa vida para melhor, para cada vez mais nos unirmos a Deus por meio de uma união amorosa e sincera com os irmãos, não há “entrada de energia” para que Jesus possa “amplificar”. Sem eletricidade o transformador ou o estabilizador de energia não serve para nada. É uma peça inútil, que talvez só sirva como peso para papéis.
Diz o documento da Igreja Gaudium et Spes, §36, que sem Deus, a criatura se reduz a nada.
É preciso, então, que eu sempre me esforce para estar sempre unido a Deus pela oração e dar minha vida a ele, a fim de que me oriente, me corrija e me fortaleça com seus dons e assim ter algo nas mãos e no coração para oferecer-lhe e por ele ser transformado, amplificado, plenificado. E você, irmão, irmã, o que pensa disso?
03/03/2018
A liturgia de hoje (sábado da 2ª semana da quaresma) conta a parábola do filho pródigo, no evangelho (Lucas 15,1-3.11-32), e o magnífico versículo de Miqueias 7, 19: (Deus) “Voltará a compadecer-se de nós, esquecerá nossas iniquidades e lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados”.
Eu sinto muita alegria quando leio essa frase. Ela me traz uma paz incrível, que só mesmo a confiança na misericórdia divina pode trazer. Nada mais neste mundo pode nos levar a uma alegria realmente autêntica como saber que podemos ser perdoados de nossos pecados, desde que nos convertamos e nos proponhamos não pecar mais.
Para “arrematar” a minha alegria de hoje, vem o evangelho contando essa parábola fabulosa de um filho que abandonou a casa paterna para “se mandar” pelo mundão e, ao retornar, em vez de encontrar indiferença ou mesmo violência, encontrou acolhida e amor.
Lucas retrata com incrível sabedoria o que podemos conhecer do Amor infinito de Deus. Como Ele é infinito, nunca vamos alcançar a magnitude desse amor.
Sempre acho irrefletido o ato de alguns padres em trocar o “todo-poderoso” das orações litúrgicas pelo “todo-misericordioso”. Sabe por quê? Porque Deus só pode ser todo-misericordioso justamente porque é todo-poderoso! Se ele não fosse todo-poderoso também não poderia ser todo-misericordioso! E a misericórdia de Deus vem de sua Santidade, igualmente infinita.
Uma coisa que me deixa pasmo é o fato de que o filho pródigo não voltou a procurar o pai por estar arrependido. O texto não afirma isso. Ele queria apenas ser recebido como um empregado, ou seja, não esperava ser perdoado. Apenas “aturado” como um empregado. E, mesmo assim, o pai o perdoou e o vestiu com vestes limpas e dignas e com o anel, que indicava autoridade.
Isso me leva a dizer que, mesmo que não consigamos nos arrepender de coração dos pecados que fizemos no passado, mesmo que não sintamos no mais íntimo de nós o fato de termos pecado, se estivermos conscientes de nosso erro, pedirmos a Deus que nos dê a graça do arrependimento, e pedirmos perdão com a firmeza de não mais pecar, Deus nos perdoará. Talvez tenhamos que nos purificar no purgatório até que nos arrependamos, mas nos livramos do inferno. Se pedirmos a Deus que nos coloque no coração o sentimento de arrependimento, ele nos concederá essa graça.
Vou dar um exemplo: o menino rouba fruta no vizinho, é admoestado pela mãe, e promete não roubar mais. A mãe perdoa, mesmo sem se preocupar em saber se ele está arrependido ou não. Para a mãe, o importante é ele não roubar mais. Será que o menino se arrependeu de comer aquelas frutas tão saborosas?
Tenho a oportunidade de recomeçar a vida a cada dia. Não quero deixar passar essa oportunidade. Estar livre de pecados nos leva a mantermos ligação profunda com Deus, por Maria, com Jesus, e estaremos, assim, caminhando em direção à felicidade futura do paraíso.
As ilusões do mundo são fantásticas, mas mentirosas. Só nos trazem desgastes e sofrimentos. Dão um prazer imediato, mas desapontamentos futuros. A renúncia a tudo o que possa nos separar de Deus é difícil, mas se fizermos as contas, traz menos sofrimentos do que a consequência de nossos desmandos. A renúncia sempre é seguida pela paz, pela alegria, pela certeza de que estamos agradando ao nosso Deus e Senhor, que nasceu entre nós para nos levar ao seu Reino de Amor. Ele é apaixonado por nós.
13/10/17
A coisa mais certa desta vida é a morte. E a coisa mais certa depois da morte é o Julgamento a que nós vamos nos submeter.
Li hoje a passagem do célebre livrinho “A Imitação de Cristo” intitulada “O Juízo e as Penas dos Pecadores”. Vou resumir o assunto tratado nesse trecho para vocês:
“Em todas as coisas, olha o fim e de que modo estarás diante do severo Juiz a quem nada é oculto, que não se deixa aplacar com dádivas, nem aceita desculpas, mas que julgará segundo a justiça”.
Você talvez me diga: “Mas... e a tal da misericórdia divina, que o Papa Francisco tanto menciona”? É aí que mora o problema. Deus é misericordioso, mas nós, geralmente, não. E somos nós mesmos que recusaremos a misericórdia divina, se morrermos em pecado grave ou não o buscamos durante a vida, ou pelo menos no final da vida. Deus não quer que ninguém vá para o inferno. É por isso que se sabemos que fomos perdoados por Deus após uma confissão bem feita, nós aprendamos a nos perdoar a nós mesmos.
Não estou inventando isso. No catecismo católico, nº 679, estão estas palavras: “O Filho não veio para julgar, mas para salvar e para dar a vida eu está nele. É pela recusa da graça na presente vida que cada um já se julga a si mesmo, recebe de acordo com suas obras, pode até condenar-se para toda a eternidade ao recusar o Espírito de Amor”.
Realmente, o texto cita João 3, 18: “Quem nele crê não é julgado; quem não crê, já está julgado porque não creu no Nome do Filho único de Deus”.
Diz uma santa, parece que Santa Teresa de Ávila, que, se uma pessoa do inferno se dirigisse a Deus dizendo “Meus Deus, eu vos amo”, seria tirada de lá na hora. Com a sinceridade adquirida pela morte, nós seremos talvez muito duros conosco mesmos, se assim o fizemos com os outros durante a vida.
Talvez essa seja a melhor explicação do ensinamento: “Com a medida com que medimos os outros, seremos também medidos”. Aí que vem a famosa frase de Tiago 2,13: “A misericórdia triunfa sobre o Juízo”. Se fomos misericordiosos aqui na Terra, seremos misericordiosos na outra vida também para conosco. E saberemos, humildemente, pedir perdão a Deus de nossos pecados, e admitir nossa culpa, mas também o desejo que temos de nos purificar antes de entrarmos no paraíso. Aí, escolheremos o purgatório, se não temos merecimento para entrar diretamente no céu.
Para quem acredita nas aparições de Medjugorje, Maria disse aos videntes que as próprias pessoas escolhem ir ao Purgatório por não se sentirem puras o suficiente para entrarem no céu. Eu sempre comparei essa atitude com a daquele fulano que, com os sapatos enlameados por ter andado no barro, se recusa a entrar na casa de alguém que o está acolhendo, para não sujar a casa. Então vai, tira os sapatos e aí se sente mais à vontade. Esse “tirar os sapatos”, nesta comparação, é ficar uns tempos no Purgatório.
Continua o livrinho “A Imitação de Cristo”: “Ó misérrimo e insensato pecador! (...) Por que não te acautelas para o dia do juízo, quando ninguém poderá ser desculpado ou defendido por outros? Agora o teu trabalho é frutuoso, o teu pranto aceito, o teu gemer ouvido, tua contrição, satisfatória”!
Nesse ponto o autor lembra como podemos já nesta vida pagarmos nossos pecados como num purgatório:
- ser paciente: se for injuriado (a), mais se dói da maldade alheia do que da ofensa recebida;
- se rogar, de boa vontade, por seus adversários e de todo o coração perdoar os agravos;
- se não tardar em pedir perdão aos outros;
- se mais facilmente se compadecer do que se irritar;
- se constantemente fizer violência a si mesmo e se esforçar por submeter de todo a carne ao espírito (poderíamos simplificar isto dizendo: se procurar vencer seus maus hábitos).
“Melhor é expiar já os pecados e extirpar os vícios, que adiar a expiação para mais tarde”.
Aí, diz o texto, daremos maior valor à “tribulação sofrida com paciência”, “os piedosos se alegrarão e os ímpios se entristecerão”. Mais exultará o que mortificou-se do que os que sempre se nutriram de delícias.
“As vestes grosseiras brilharão”, mas “as vestimentas preciosas, caras, se desbotarão”. “Terá maior apreço o pobre casebre que a dourada mansão”.
“Mais valerá a paciente constância que todo o poderio do mundo. Mais será engrandecida a obediência sincera do que toda a sagacidade do mundo. Mais satisfação dará a pura e boa consciência que a douta filosofia”.
“Mais valerá o desprezo das riquezas que todos os tesouros da terra. Mais te consolará a lembrança duma devota oração que a de inúmeros banquetes”.
“Mais folgarás de ter guardado silêncio, do que de ter falado muito. Mais valor terão as boas obras que as lindas palavras”.
“Aprende agora a padecer um pouco, para poupar-te mais graves sofrimentos no futuro. (...) Se tanto te repugna o menor incômodo, que te fará então o inferno”?
“Logo, tudo é vaidade, exceto amar a Deus e só a Ele servir. Pois quem ama a Deus de coração não teme nem a morte, nem o castigo, nem o juízo, nem o inferno, porque o perfeito amor dá seguro acesso a Deus. Mas quem ainda se delicia no pecado, não é de estranhar que tema a morte e o juízo”.
Eu termino dizendo a todos e a todas que precisamos aproveitar certos percalços na vida a fim de recomeçarmos uma vida sem pecado, de muita misericórdia, oração e confiança plena em Deus.
Maria, em suas aparições (como em Fátima, Lourdes e Medjugorie) lembra que muitos até pensarão em se converter, nos seus dias finais, mas vão estar tão acostumados ao pecado que não conseguirão. Eu já presenciei isso com muita dor no coração. Um senhor recusou-se a confessar-se porque dizia que não tinha pecado, e morreu alguns dias depois.
Há pessoas que se acostumam tanto com o pecado que não mais o discernem. Acham que não estão pecando. Tudo se torna válido em seus pensamentos.
A Igreja está aí para isso, entre outras coisas: mostrar-nos o que é certo, o que é errado, e conduzir-nos no caminho de Deus. Escolher por si mesmo o que é certo ou errado é algo diabólico, e é justamente esse o pecado de Adão e Eva: decidirem por si mesmos o que podiam ou não fazer.
Muitos santos começaram o caminho da santidade após algum fato crucial em suas vidas. São Francisco Borja (1510-1572, celebrado no dia 10 de outubro), por exemplo, fora encarregado, pelo rei, de acompanhar o corpo da imperatriz Isabel, que já havia falecido havia alguns dias, mulher até então “de extraordinária formosura, até ao mausoléu, em Granada (Espanha). Antes de colocar o corpo no túmulo definitivo, foi novamente aberto o caixão. Aquele corpo em estado de putrefação impressionou profundamente o espírito do santo, levando-o a desejar uma consagração total a Deus na vida religiosa” (“O Santo do Dia, Dom Servílio Conti, IMC, dia 10/10). Ele converteu-se.
Confiemos na misericórdia divina, sim, mas também na força, vigor e coragem que Deus nos dá diretamente e por meio do nosso Anjo da Guarda (não o despreze. Dê um nome a ele e peça sua ajuda em tudo, todos os dias) e de Maria, assim como dos nossos santos prediletos. Peçamos diariamente que nos livre de todo e qualquer pecado e, sobretudo, que sejamos sempre humildes, a fim de que possamos pedir sempre e sempre o auxílio divino. Diz a Dei Verbum 36: “Sem Deus a criatura se reduz a nada”.
18/06/2012)
Você é sincero quando pergunta a outra pessoa: ”Como vai?” Será que nós queremos mesmo saber se a outra pessoa está indo bem ou não?
Se o outro começar a nos dizer que dói aqui, dói ali, tem que tomar tal e tal remédio, logo desconversamos e inventamos algum compromisso para não precisar ouvir a pessoa.
Não é sincera, também, a dona de casa quando passa horas conversando com a vizinha, vassoura na mão (as vassouras dessas fofoqueiras de plantão são sempre tortas, de tanto apoiarem sobre elas o corpo enquanto conversam).
De repente, quando não dá mais para conversar, despedem-se e saem “correndinho”,como se tivessem muitas coisas para fazer e depressa.
Pois bem! Nos anos 50 aconteceu algo que pode ser um exemplo dessas nossas “mancadas”: O padre Antônio comprara uma moto, naquele tempo chamada de “motor” monark, parte dela era importada, e estava treinando, dando voltas num quarteirão do bairro onde eu morava.
Um colega meu (eu tinha uns 11 anos), cada vez que o padre passava, pedia a bênção “Bênça, padre Antónho!” E ele, com seu sotaque italiano, respondia de modo solene: “Deus te abençoe, meu filho!” feliz por ter ganhado aquela moto de um paroquiano “abonado”.
Isso se repetiu por várias vezes, e o padre parecia não perder a paciência. Será que pensava ser pessoas diferentes? Talvez, pois estava concentrado na máquina.
Entretanto, numa das voltas, um cachorro atravessou a frente da moto, e o padre foi para o chão. Tudo isso no mesmo instante em que o meu colega pedira, pela terceira ou quarta vez: '”Bênça, padre Antónho!” O padre Antônio, no chão, olhou para o garoto, rosto sujo de terra por causa da queda, e lhe respondeu, irritadíssimo: “Vá plantar batatas, moleque!”
Qual era a sinceridade do padre quando abençoava o menino? Será que não era apenas obrigação de seu ofício de pároco (naquele tempo se chamava vigário)? Será que nós não fazemos isso muitas vezes, ao agir estritamente conforme manda as regras referentes à nossa profissão, ao nosso ofício, ao nosso trabalho?
O sorriso do vendedor da loja, quando você fala com ele, será sincero? Se vocês não estivessem ali, ou seja, você querendo comprar, e ele querendo vender, ele teria notado você? Você teria falado com ele?
Será sincero o nosso “parabéns” quando uma pessoa faz aniversário? Dependendo da idade, será que não gostaríamos de falar: “Coitadinha, já está perto do túmulo!”,em vez de “parabéns'”?
No aniversário de 79 anos de minha mãe, alguém cantou: “Cada ano que passa ela fica mais bela” em vez de “ela fica mais velha”. Nunca vou me esquecer do sorriso amarelo de minha mãe, olhando para mim, e cochichando-me: “Me enganem, que eu gosto!”.
Não sei dar uma solução para esse problema, pois eu também muitas vezes sou quase que obrigado a fazer isso, mas proponho que comecemos a pelo menos prestar mais atenção nas pessoas, e saber perder tempo para ouvi-las, quando confiam a nós algum de seus problemas. Se você tiver paciência para reler a historinha do jovem que queria cometer suicídio! Vai ver que, por ter resolvido perder duas horas com ele, salvei sua vida.
05/03/16, 14 horas
Praia da Laje, Marujá, Ilha do Cardoso, Cataia. Esse era o endereço da solidão (não sei se ainda há solidão por lá), solidão gostosa e hospitaleira. Eu subia pela encosta da montanha, entre as pedras, e lá se deparava com a praia da Laje, desertíssima. Há um tipo de gruta que permite a você, na maré alta, a ficar na água sem se expor ao sol.
Um amigo meu esteve aí pela primeira vez, gostou muito, mas não pôde voltar para lá até sua morte, por câncer. Foi lá sua última praia.
O Marujá tem uma delícia chamada “cataia”, folha de árvore colocada na pinga. É muito boa, mas dá uma ressaca horrível!
Certa vez encontrei um corvo na praia. Mais ninguém. Aquilo era, mesmo, um deserto! O corvo, também sozinho, olhou-me com preguiça. Eu o olhei com mais preguiça ainda, e ele voou para bem alto, já que viu que eu ainda estava vivo...
Como eu estava atoa, olhei-o: ele bateu poucas vezes as asas. No mais, ele aproveitou a corrente de ar. Isso! Aproveitar os impulsos divinos para alçar voo até o paraíso! Deus nos dá a “corrente de ar” de sua graça e do seu amor, de sua misericórdia. Mas leiam a poesia que eu escrevi sobre esse corvo:
O CORVO
10/10/14
Ilha do Cardoso, Marujá,
Praia deserta. Estou sozinho.
Cansado do caminho,
sento-me na areia.
À minha frente, um corvo.
A brisa suave eu sorvo.
Olho para ele,
ele para mim,
mais solitário ainda.
Perdeu-se dos colegas.
Minha angústia, infinda,
impede-me de andar.
Só estou ali, a lhe fitar.
Ele também não quer voar!
O céu, sem nuvens,
mostrou uma negra mancha
a deslizar-se no espaço.
Era um dos seus.
O corvo me fitou,
viu-me ainda vivo,
as asas abriu,
e voou.
Deixou-me sozinho.
Voando e planando
Chegou ao seu destino.
Levantei-me,
aprumei-me,
e lancei-vos, Senhor,
meu lamentoso olhar:
Só convosco, Senhor,
eu conseguirei caminhar!
Que meditação bonita eu fiz a partir dessa corrente de ar que levou o urubu às alturas! Diz o salmo 126(127) que, se o Senhor não construir a casa, em vão trabalham os construtores. Realmente, é preciso colocar-se nos braços de Deus para que ele nos leve até o alto, até o paraíso.
Nós somos muito orgulhosos e autossuficientes e quase não buscamos o auxílio divino. Deus é um Pai-Mãe que nos acolhe e nos orienta, nos conduz, mesmo que sejamos fracos e preguiçosos. Ele nos dá vigor. Ou você pensa que aquele urubu tinha força e ânimo suficientes para voar até as nuvens? Não tinha! Mas ele acreditou na força da corrente de ar e sabia que ela o levaria para o alto, sem que precisasse bater muito as asas.
No caminho da perfeição, que nos leva ao céu, é assim também: nós temos que dar o impulso inicial, que é como o da criança: atirar-se nos braços do Pai. Em seguida, é só mantemo-nos unidos a Deus que o restante do caminho se torna visível e fácil. É besteira nos “descabelarmos” para deixar o pecado e as nossas manias. Deixo o meu orgulho, a minha autossuficiência, o meu egoísmo, e me lanço nos braços de Jesus, pedindo-lhe que me oriente e me conduza. O resto é fácil: é só deixar-se levar. É como João narra que Jesus disse a Pedro que se ele não o deixasse lavar-lhe os pés, não teria parte com ele. É preciso deixarmos que Jesus entre em nossa casa, que nós lhe abramos a porta (Apoc. 3,20), a fim de que Ele possa nos lavar os pés!
Vigiar sempre para não pecar, rezar sempre para continuar vigiando sempre e para não abandonarmos a corrente de ar, digo, a presença divina. Se a deixarmos, não vamos ter força para caminharmos sozinhos! Desistiremos logo, pois, como diz a Dei Verbum 36, “Sem Deus, a criatura se reduz a nada”.
Quanto ao Marujá, devo dizer ainda que lá não havia eletricidade nem cercas nas casas, pois é reserva do governo. Só havia casas no lado do canal, não no mar aberto. A gente se virava com o lampião a gás. Aos poucos chegaram os geradores, a televisão... e as noites passaram a ser iluminadas pela Globo.
Faz mais de dez anos que não vou para lá e não sei como está. Entretanto, acredito que, por ser área reservada do Governo, não tenha mudado muito e os botos ainda acompanhem a barca que leva para lá os turistas, a partir de Cananeia. E que o Sr. Tonico e o Sr. Expedito ainda estejam vivos e animando os turistas: o sr. Tonico com seus “causos” em sua pousada, e o Expedito com suas músicas regadas a pinga com cataia, em seu bar-restaurante.
22/03/19
Todos os dias, numa das ruas em que eu sempre passo, eu via a garagem de uma casa tomada por mato.
Depois de muito tempo, o mato já numa certa altura, o dono da casa resolveu extirpá-lo.
Havia ali uma sementinha de mato que estava se preparando para brotar, quando viu que uma camada de cimento havia impedido qualquer contato com o exterior. Ficou muito triste. Seus pais morreram, pois depois de cortados, o que sobrou deles foi sufocado no escuro que o novo piso causou.
Passaram-se alguns meses. O dono não se importou mais em ver como estava o tal piso. A natureza, implacável, agiu e uma frestinha apareceu.
Quão feliz ficou a sementinha de mato quando viu a luz do sol aparecer! Estava ainda contemplando a luz quando tudo escureceu novamente e uma tempestade caiu.
Ela molhou-se toda, ficou encharcada, e, para sua surpresa, começou a inchar, inchar, até que eclodiu num raminho pequeno, mas forte, em sua parte de cima.
Sentiu uma pequena raiz se espichar em sua parte inferior. Ela estava exultante! Iria crescer.
Enfiou-se pela fresta afora e conseguiu crescer.
Sua alegria vai continuar até que o dono perceba que o cimento partiu e o matinho conseguiu nascer.
Eu vi tudo isso, fotografei e fiquei meditando em nossa vida!
Há momentos em que a luz parece acabar, as saídas somem, tudo desaparece à nossa frente.
Entretanto, lembrem-se sempre do matinho: ele não perdeu a esperança, confiou e pôde nascer, pôde crescer. Não sabe por quanto tempo, como nós também não sabemos por quanto tempo estaremos nestas paragens... Mas sabemos que, diferentemente do matinho, nós teremos uma vida eterna.
Se nos colocarmos sempre diante de Deus e do próximo, como cristãos sempre em luta pela santidade, teremos uma eternidade feliz, lá onde ninguém vai cimentar nossa vida, ninguém vai impedir que cresçamos.
Deus quer que vivamos felizes, como diz João 10,10: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância.”Entretanto, ele permite os sofrimentos para purificar- nos, a fim de transmitir-nos a sua santidade, como diz Hebreus 12, 10 e assim poder receber--nos no céu. Ofereçamos todos os sofrimentos que não pudermos evitar em reparação dos nossos pecados e para nossa santificação. Diz Apocalipse 21,27: “Coisa alguma imunda entrará na Cidade Celeste”.
O tempo que passamos aqui na terra é muito pequeno, em vista da eternidade que viveremos no paraíso. Se suportarmos com amor e paciência os problemas que temos aqui, receberemos a vida eterna como recompensa. Por isso é que sofremos: porque, pecadores, precisamos nos purificar. Quem não tem pecado e assim mesmo sofre, é porque Deus vê sua bondade e docilidade e, permitindo o sofrimento, pode com isso salvar muitos outros que convivem com aquela pessoa.
Jesus, Filho único do Pai, também sofreu muito para nos salvar. Se ele não nos libertou ainda dos nossos sofrimentos, só ele sabe o porquê, pois diz São Paulo em Efésios 3, 20: “Deus é poderoso para realizar por nós, em tudo, muito além, infinitamente além do que pedimos ou pensamos”. Cabe a nós confiarmos nele e aguardarmos a libertação com confiança e paciência. Não maldigamos a Deus e nem a ninguém. Ainda podemos ser felizes!
Muitas vezes parece-nos que Deus é incapaz de impedir o mal, o sofrimento. Parece-nos que ele não está “nem aí” conosco. Não é verdade! Mesmo quando ele não interfere, ele está “torcendo” por nós, para que superemos com heroísmo e amor aquela fase triste de nossa vida.
Ele nos deixou livres em nossa ação. Quando não impede o mal, na verdade está preservando nossa liberdade. Ele não quer ser servido por “fantoches”, mas por pessoas conscientes, de livre e espontânea vontade. Se não nos tira daquela situação, dá-nos a força e as condições para vencermos. O próprio São Paulo Apóstolo não obteve a cura de um mal que sofria: “Pedi ao Senhor por três vezes que me livrasse desse espinho na carne, mas ele apenas me respondeu: 'A ti, basta-te a minha graça', porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.' ”(2Cor 12,8-9).
Em Hebreus 12,5-13, vemos todo um tratado de como Deus nos permite os sofrimentos como um meio de corrigir-nos e nos educarmos para a santidade. Ele nos permite os sofrimentos “para que possa nos infundir a sua santidade” (Hebreus 12,10). e Sabedoria 12,2: “ É por isso que corriges com carinho os que caem e os repreendes, lembrando-lhes seus pecados, para que se afastem do mal e creiam em ti, Senhor!” Também em Apocalipse 3,19: “Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê, pois, zeloso e arrepende-te”.
Geralmente Ele permite as provações, os sofrimentos, quando resolvemos seguir os caminhos de Jesus. As provações e dificuldades nos seguem e até nos oprimem. Precisamos pedir a proteção divina para vencermos tudo isso. Quem fala isso é o Eclesiástico 2,1-18: Somos provados em nossa fé, esperança e caridade como o “ouro é provado no cadinho” (v.5); “Confie no Senhor e Ele o ajudará; seja reto o seu caminho, espere no Senhor” (v.06). “Todos os que confiaram no Senhor não ficaram desiludidos” (v.10); “O Senhor é compassivo e misericordioso, perdoa os pecados e salva do perigo” (v 11); “Ai do pecador que anda por dois caminhos” (v.12); “Ai de vocês que perderam a paciência!” (v.14); “Cada um de nós se coloque nas mãos do Senhor, e não nas mãos dos homens, pois a misericórdia dele é como a sua grandeza”(v.18).
Deus é misericordioso porque é Todo-poderoso. Ele é onisciente e sabe do que precisamos. Por que então nos preocuparmos? Por que termos medo do futuro? Coloquemo-nos em suas mãos! (Mateus 5;6;7; MT 6,25-32). O versículo 5 do trecho acima do Eclo 2, lembra que seremos provados como o ouro no cadinho. É muito bonita essa comparação se a entendermos: O ouro é um metal nobre e não faz liga com nenhum outro metal; apenas se mistura. No cadinho, sobre o fogo, ele se derrete e se desliga de todos os outros metais com os quais está misturado e sai, puro, do outro lado.
Pela provação, pelos sofrimentos, pelas contrariedades, somos purificados de todas as impurezas com as quais nos misturamos em nossa vida de pecadores, e iniciaremos uma nova vida de conversão puros, sem mistura alguma com o que desagrada a Deus, “para que Deus nos infunda a sua santidade” (Hebreus 12,10).
Nunca duvidemos do poder, da sabedoria e da graça de Deus, e não tenhamos medo (como o Apocalipse inteiro nos mostra)! Joyce Mayer, pastora evangélica americana, diz que Jesus nos proibiu de termos medo, mas não de suarmos frio e tremermos. Jesus não teve medo, mas até suou sangue!
Muitos sofrimentos que temos são grandes e parecem infindáveis. Às vezes nos dá a impressão que colocaram obstáculos, pedras, muros, desvios, barreiras em nosso caminho. Dizem Isaías 25,8 e Apocalipse 21,4|: “O Senhor enxugará toda lágrima de nossos olhos”.
Também diz Santa Faustina: “Ó tempo presente! Tu me pertences totalmente!” e Santa Teresinha: “Quero amar-vos, Senhor, só por hoje, nada mais!” Deixemos, então, nas mãos de Deus o nosso futuro e comecemos a “degustar” o tempo presente. Olhemos a Eucaristia, que é Jesus, nosso companheiro de caminhada, e a nuvem da provação passará!
São Paulo Apóstolo fala, em Filipenses 3,8-16:
“Tudo considero como perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele, perdi tudo e tudo tenho como esterco, para ganhar Cristo”. (...) “Irmãos, (...) Esquecendo-me do que fica para trás e avançando para o que está adiante, prossigo para o alvo, como prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Cristo Jesus”(...) “ Entretanto, qualquer que seja o ponto a que chegamos, conservemos o rumo!”.
A provação se faz necessária para forjarmos uma vida santa e fortalecermos a esperança, como nos diz Romanos 5,3-5: “(...) Nós nos gloriamos na tribulação(...) que produz a paciência(...) que produz a experiência(...) que produz a esperança(...) que não engana, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações, pelo Espírito Santo, que nos foi dado”.
Quando estivermos em dificuldade, coloquemos tudo nas mãos de Deus, por Maria, nossa querida Mãe. Tudo se resolverá a seu tempo! Confiemos! Esta vida é muito curta, e assim também será o sofrimento.
Acrescento a meditação belíssima do Pe. Fernando Cardoso
31 de janeiro de 2012 – comentário de Mc 5,21-43
O Evangelista Marcos fala-nos hoje da cura de uma mulher que sofria de hemorragia constante e, a seguir, da ressurreição de Talita. Doença e morte são os grandes inimigos do ser humano e são também inimigos de Deus, o qual promete no Apocalipse - isto é, no final da História - enxugar toda lágrima de nossos olhos, banir para sempre de nossa presença o luto e a dor. Mas, presentemente, convivemos com essas duras realidades: a doença e a morte. Jesus curou alguns e ressuscitou outros, mas foram ações proféticas que, de certa maneira, apontam para o que Deus quer fazer não com três ou quatro pessoas escolhidas, mas para com todos, no futuro escatológico.
Jesus não veio a este mundo para substituir-Se aos médicos ou à medicina. Ele não veio ao mundo para curar todos os paralíticos, dar a vista aos cegos, fazer recobrar a audição aos surdos e ressuscitar os que morreram. Veio trazer-nos o que não nos podemos conceder: a vida de Deus. Vida que se inicia agora e que se consumará na eternidade. Nesse intermédio, vivamos entregues a Deus, com confiança e esperança ilimitadas. Durante esse tempo, temos que conviver com essas duras realidades: a doença e a morte biológica - porque ainda não foram banidas.
No entanto, a pessoa que se consagrou a Deus e vive sua consagração batismal, pode fazer tesouro até mesmo das dores e de outros tantos incômodos, sem excluir a morte. Pode e aprende, sobretudo, a oferecer-se a Deus nas horas tristes da vida, quando é visitada pela doença, atingida pelo luto ou quando recebe a notícia da aproximação da própria morte. Essas pessoas não se sentem abandonadas por Deus, ao contrário, sentem-se chamadas a cooperar com Ele de maneira muito mais frutuosa e fecunda, embora misteriosa para nós. Isso é o sofrimento livremente aceito, não por ser sofrimento, mas por fazer-nos crescer no amor e na doação. São muitas as pessoas que fazem de suas cadeiras de rodas, de seus leitos de hospital, de suas dores, um verdadeiro e fecundo apostolado.
Hoje, dirigir-lhes-ia as seguintes palavras: não se sintam abandonados por Deus, sintam-se privilegiados, pois possuem oportunidade de oferecer a Deus a própria dor, através da qual cresce a Igreja com sua fecundidade apostólica. Quantos de nós devemos nossa vida cristã a essas almas que, humilde e escondidamente, imolam-se em nosso favor!
Existem três maneiras de se vencer a morte: a primeira consiste em postergá-la; é o que comumente se faz com o avanço da medicina. A segunda é a que vem descrita no texto evangélico de hoje: trata-se de um ressuscitamento ou, se preferirmos, uma ressurreição para trás; certamente, Talita teve de morrer uma segunda vez. A terceira é a que damos o nome de ressurreição, quando se ressuscita para a frente ou para a escatologia. Essa foi a Ressurreição de Cristo: a que se torna objeto de nossa fé e maior esperança.
02/04/16 -
Como seria o mundo se Adão e Eva não tivessem pecado? Não faço a mínima ideia, mas arrisco algumas propostas:
1- Taxa de assassinatos zerada
2- As doenças teriam sido vencidas
3- As pessoas viveriam até mais de 100 anos
4- Marte já estaria colonizado
5- A terra não teria nenhuma poluição
6- Todos os países seriam economicamente ricos
7- Não haveria nem pobres nem ricos. O operário viveria tão bem quanto a classe média alta atualmente.
8- As florestas estariam intactas, tanto aqui como no restante do mundo
9- Os desertos, como o do Saara, teriam sido florestados
10- Não haveria várias religiões, mas uma só
11- Não haveria preconceitos nem aversões sociais
12- Não haveria roubos nem vícios
13- Nosso relacionamento social seria sincero e saudável
14- O mundo seria uma antessala do paraíso
Entretanto, ainda podemos conseguir tudo isso, se todos buscarmos a Deus e os seus ensinamentos dados por Jesus. Diz Leibniz que o mundo que conhecemos foi o melhor mundo possível, dentre os imaginados por Deus.
Tive certa vez um sonho em que o meu Anjo da Guarda me mostrava tudo o que existe de bom no mundo e eu senti uma paz incrível. Aí ele me disse: “Essa paz que agora você sente, já é estar no paraíso! Vocês podem, sim, transformar a terra num paraíso!
Aí eu pedi que conversássemos um pouco mais, porque eu sabia que iria acordar logo. Eu lhe disse: “Coloquei o despertador para me despertar às 7 horas! Vamos conversar mais”! Ele me respondeu: “Um dia voltaremos a nos ver. Por enquanto, basta o que eu lhe disse”! Eu acordei. Eram 6:45hs.
- 20/03/16
Hoje é domingo de ramos. Na leitura após a procissão, lemos Lucas 22 e 23, a Paixão de Jesus. É impressionante o capítulo 22, vers. 61-62: “E virando-se, Jesus olhou para Pedro. E, saindo Pedro para fora, chorou amargamente.
Quando o pai ou a mãe dão aquele olhar de censura aos filhos, eles sentem medo e até choram por saber se virá ou não um castigo.
Imaginem o olhar que Jesus deu a Pedro, talvez um tanto distante um do outro (seria mais grave se estivessem perto!). O olhar divino-humano de Jesus tem a pureza infinita do paraíso, marca como um raio, tem o efeito do raio “X” em nossa alma.
Há algumas passagens sobre esse olhar penetrante de Jesus: “E passando o olhar em cada um dos que ali estavam...” (Lc 6,10 e 9,47). Jesus lia os pensamentos dos que o circundavam, e seu olhar os deixavam inseguros e sem ação.
Diz Flávio Josefo, historiador pagão do início do cristianismo, que ninguém jamais viu a cor dos olhos de Jesus, pois ninguém conseguiu fita-lo frente a frente. Seu olhar era mais penetrante que um espinho na pele!
Assim ocorreu com Pedro. O olhar que Jesus lhe deu projetou à sua frente não apenas a tripla negação que acabara de fazer, mas também os pecados passados. Que pena Judas não ter tido a mesma reação de Pedro! E talvez Jesus também tivesse olhado para ele, quando disse, em João: “É aquele que pôr comigo a mão no prato”. Será que Judas estava tão faminto que não olhara para Jesus, mas só para o prato? Talvez... e isso lhe custou uma morte indigna, o suicídio.
Em nossa vida também fazemos muito isso. Ficamos tão interessados nos “pratos” que o mundo nos oferece, que não percebemos o olhar que Jesus nos está lançando, não tanto de censura, mas oferecendo-nos o seu amor, o seu perdão e a sua força para vencermos.
A humildade é a base de tudo, sobretudo da possibilidade de fitarmos com amor os olhos de Jesus, sentir sua misericordiosa luz penetrar a escuridão de nossa alma e, como Pedro, chorarmos amargamente os nossos pecados.
É nos encontrando com Jesus, é deixando que ele nos olhe até o fundo de nossa alma, que veja nossos pecados e maldades, nossos limites, nossos mais íntimos desejos, que poderemos nos purificar.
Jesus, ao encontrar alguém humilde, que reconhece os próprios pecados, que vê a necessidade de purificar-se com toda a humildade, entra plenamente em sua vida, em seu dia a dia, e reconstrói a “casa” dessa pessoa por dentro, e aqui está um detalhe: não reconstrói uma “outra” casa, mas a mesma de antes, com todas as características com que a pessoa nasceu, porém livre de todo lixo, repintada, limpa, com tudo funcionando. Não é preciso, e nem Deus nos pede isso, que mudemos nossas características. Cada um pode ser santo dentro de sua vocação, caráter, personalidade, dentro de seu “jeitão”.
O que temos de fazer é sanarmos o que está errado, extirparmos os vícios e maldades, e só deixar o que agradar a Deus. Aí, Jesus poderá olhar para nós e ver que também estamos olhando para ele, arrependidos, dispostos a recomeçar uma nova vida. Isso é difícil, mas não é impossível.
O olhar de Jesus nos faz ver que é possível viver santamente, e vamos nos sentir impelidos a isso. Mas... será que não é justamente da conversão, dessa vida nova, que temos medo? Não foi essa a atitude de Pedro quando disse a Jesus para afastar-se dele por ser um pobre pecador, no primeiro milagre da pesca?
Vejo Pedro dizendo a Jesus como nós também às vezes dizemos: “Senhor, afasta-te de mim porque sou pecador e, se continuar a olhar-te, vou sentir a profundidade do teu olhar, chamando-me a uma vida mais santa” O problema é que eu não me sinto disposto a mudar de vida! Estou acostumado demais às minhas coisas e modo de viver”!
Vejo que está aí o motivo pelo qual muitos abandonam o apostolado, a própria vocação, a Missa, o Culto (quando evangélico). Será que não é para fugir de Deus, abafar a voz da própria consciência? Sei que há casos e casos. Alguns realmente não veem outra alternativa se não deixar aquele tipo de serviço, são obrigados a mudar de rumo, mas é preciso confiar sempre na Providência Divina, nesse Deus tão rico em misericórdia, como diz S. Paulo.
Em Romanos 11,29, São Paulo nos garante que Deus não se arrepende dos dons e da vocação que nos deu. Vamos, pois, nos encher de coragem e permitir que Jesus nos olhe profundamente e, como diz o Apocalipse 3,20, entre em nossa casa e faça a refeição conosco!
(01/09/15)
O nome dele é Aldo F. e tínhamos 10 anos de idade. Eu ganhara um patinete no Natal (modelo antigo, é claro, bem pesado, feito de ferro e madeira, pneus de borracha da Amazônia) e brincava com ele numa calçada longa quando ele chegou e pediu-me para dar uma voltinha. Eu permiti, mas ele também pediu-me que o empurrasse, que ele me empurraria depois.
Eu suei. Quando chegou a minha vez de ser empurrado no patinete, ele simplesmente não quis. Que decepção!
Foi a primeira vez que me deparei com a injustiça e a exploração dos mais fracos (no caso, eu) pelos mais fortes (no caso, ele).
Curti, então, a partir desse fato, aversão por tudo o que implica em aproveitar-se do outro, em fazer o outro de bobo.
Na tevê há vários programas que fazem isso. Em certas ocasiões em que eu morava em "república", quando jovem, tive que ver um ou outro, ou melhor, escutar, porque eu lia outra coisa, e me impressionei como os outros colegas até “babavam” com as “pegadinhas” sem nenhuma graça (pelo menos para mim) feitas na telinha.
Deus vê tudo o que fazemos e isso é algo que ele abomina: fazer o outro de bobo. No Sermão da Montanha Jesus diz que peca quem faz o irmão de bobo. Deus ouve a prece dos injustiçados e lembremo-nos de que “a vingança pertence a Deus” (Romanos 12, 17-21).
Apenas duas crianças brincando com um patinete, um suando para empurrar e o outro se divertindo à custa do coitado. Ali, em germe, estava o que faz o mundo viver na injustiça e no afastamento de Deus: querer tirar vantagem de tudo (como o Gerson) e de todos, fazer o outro de bobo! (Qualquer semelhança com certos políticos não é mera coincidência!).
Recebi um e-mail falando sobre a preocupação do papa e de muitas autoridades eclesiásticas em relação ao medo de um novo Cisma na Igreja Católica, motivado pelos últimos acontecimentos desagradáveis e, ao mesmo tempo, pela insistência sobre a ordenação sacerdotal exclusiva para homens solteiros e tantas outras coisas referentes aos divorciados e, o mais grave, à negação que muitos estão fazendo da infalibilidade do Concílio Ecumênico Vaticano II e, consequentemente, a negação da infalibilidade dos demais concílios (o que equivale a negar a presença do Espírito Santo nessas decisões da Igreja).
Por ser sábado de carnaval, tive pouco trabalho e pude meditar um pouco mais nisso. Percebi que não é tão importante assim saber se vai ou não haver um Cisma, mas acho que o problema está num outro mais grave: o mundo perdeu e está perdendo cada vez mais a noção de pecado.
Deus tenta convencer as pessoas do Caminho, mas elas insistem em não seguir por ele e pegar o atalho do próprio querer. Daí saem tantos pecados pessoais e coletivos, que ampliam suas garras sobre o mundo, abraçando todos os que se deixam abraçar por eles.
À tardinha preparei as leituras do 7º domingo comum B, que justamente falam sobre isso. O comentário do missal individual começa assim:
“Quando o homem adquire a consciência de ser indigente e pecador, então lhe é revelada a face da misericórdia de Deus”.
Isso me lembra Sabedoria 1,1-2:
“Pensai no Senhor com retidão,k procurai-o com simplicidade de coração,porque ele se deixa encontrar por aqueles que não o tentam, ele se revela aos que não lhe recusam a fé”.
As leituras falam justamente do pecado que, mesmo arraigado, tanto o individual como o coletivo, podem ser perdoados e esquecidos por Deus.
“Sou eu, eu mesmo, que cancelo tuas culpas por minha causa e já não me lembrarei dos teus pecados” Isaías 43,25
Lembrei-me dos pais que tentam mostrar aos filhos o caminho do bem mas veem, com tristeza e impotência, que seguem o mal, a indiferença religiosa, a negação de Deus.
Quantas dessas pessoa que estão preocupadas em que não haja divisões e o cisma na Igreja estão realmente vivendo uma vida santa e agradável a Deus?
Tantos apelos divinos, tanto pela bíblia como pelos pregadores sérios e honestos, tantos apelos de Maria em suas aparições, mas o mundo continua debochando de Deus e negando-se a buscar seu auxílio!
Deus quer agir em nós. Para isso, precisamos, como diz o comentário do missal, nos conscientizar de que somos indigentes e pecadores. “Quem não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo”. (parábola da construção da torre e do rei que vai à guerra com poucos soldados).
As ideias vão pesar pouco no Juízo Final. O que vão pesar são as boas obras, tudo o que pudemos construir com a ajuda de Deus, para o bem do mundo e do próximo. As testemunhas de Jeová não acreditam na divindade de Jesus Cristo mas, pelo menos as que eu conheço, são pessoas excelentes, caridosas, prestativas, mesmo levando-se em conta o problema apontado num texto postado neste mesmo blog. Duvido que esses que seguem com amor o caminho não sejam salvos. Mas... e nós? E eu? E você? Que estamos realmente fazendo, além de nos preocupar se a Igreja Católica vai ou não se dividir em outras Igrejas? Essas pessoas que se separarem, se seguirem coisas que contrariam os ensinamentos de Jesus Cristo, vão ter que prestar contas a Deus após a morte. Não se trata tanto de saber se o Concílio foi ou não infalível, mas se ESTAMOS OU NÃO SEGUINDO O QUE JESUS ENSINOU.
Por outro lado, uma das coisas que meditei também neste sábado de carnaval de 2012 é o fato de que muitos de nós nos culpamos muito de nossos pecados cometidos. Não nos perdoamos! Essa mágoa nos abate e tem a tendência de nos levar ao desânimo.
Olhei ao sacrário e senti toda a mágoa que tenho de mim mesmo. A oração me brotou espontaneamente dos lábios:
“Senhor, eu nunca vos quis ofender realmente. Desde a infância mais tenra eu vos amo e sempre vos busquei. Nunca quis vos magoar, nem magoar ninguém! Olhai-me, Senhor, como a criança que faz malandragens e, mesmo depois do castigo dos pais, continua a amá-los e sabe que eles fazem o mesmo. Sei que Vós continuais a me amar, Senhor, apesar dos meus pecados. Já me arrependi deles, e quero agora recomeçar uma nova vida, sem remorsos, sem sentimentos de culpa, sem azedumes no coração. Quero viver uma vida alegre e feliz, seja qual for o tipo de vida que devo viver.”
Amigos (as), por que ficarmos amargurados pelos pecados cometidos e perdoados? Vamos nos propor a não pecar mais, mas a deixar de lado todo o nosso amargor” Vejam algumas frases da Bíblia que nos confortam nesse assunto:
“Não relembreis coisas passadas! Não olheis fatos antigos! (Isaías 43,18-19).
“Passaram-se as coisas antigas; eis que se faz uma realidade nova” (2ª Cor. 5,17)
“Irmãos, uma coisa eu faço: esquecendo-me do que fica para trás e avançando para o que está adiante, prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 3,13-14).
Nós sabemos que Paulo está falando do sistema duro e escravizante do judaísmo, mas não estou errado em aplicar essas frases para nossa vida espiritual, pois fizemos um “judaísmo” de nossa vida, baseada em remorsos, dores, sentimentos de culpa. Libertemo-nos desse lixo que nos acompanha! Confiemos em Deus, que nos perdoou, que ouviu nossas queixas, nosso arrependimento, nosso propósito de uma vida nova!
Deus guardou em seu odre (um vasilhame de pôr líquidos) todas as nossas lágrimas! Ele registrou todos os nossos passos em seu livro! É o que nos diz o salmo 55 (56). Deus sabe que nunca quisemos realmente ofendê-lo. E se isso ocorreu em sua vida passada, mesmo que você tenha tido muita raiva, ódio, má intenção em fazer o que você fez, anime-se! O perdão de Deus é total e irrestrito.
No capítulo 55 de Isaías vemos que os pensamentos de Deus estão muito acima dos nossos. Não sejamos mais duros para conosco do que o próprio Deus! Se houver sinceridade em nosso coração, se há um desejo firme de agradar a Deus, o resto Deus provê!
Sejamos como crianças, como nos pede o próprio Jesus, pois elas fazem coisas erradas mas confiam que nunca vão perder o amor dos pais. E no dia seguinte, após os conselhos dos pais, ou um pequeno castigo, já não se lembram mais da malandragem feita.
Termino com a frase inicial do missal da missa do 7º domingo comum ano B : “ Quando o homem adquire a consciência de ser indigente e pecador, então lhe é revelada a face da misericórdia de Deus”.
PENSEMOS NISSO! E “DURMA COM UM BARULHO DESSES”, como dizia um meu amigo padre de Franca.
(Do ex-site do Pe. Fernando Cardoso)
27 de janeiro de 2012 (1ª leitura da sexta-feira da 3ª semana comum: 2ª Samuel 11,1-17 e 12,1-25)
Hoje, a Bíblia nos apresenta uma página turva, fosca, da história de Davi.
Os telespectadores já estão percebendo que eu, normalmente, faço comentários à primeira leitura porque, normalmente, o Antigo Testamento é menos conhecido do que o Novo, mas é também Palavra de Deus que serva para nossa reflexão e alimento espiritual.
O texto nos fala de dois pecados gravíssimos cometidos por Davi: em primeiro lugar um adultério, assumindo como mulher própria, e tendo relacionamento sexual com a esposa legítima de um soldado seu hitita chamado Urias; o segundo pecado, pior ainda, mais grave, foi o homicídio de Urias para que a gravidez e o filho de Bersabéia ficasse escondido e não viesse à tona o adultério perpetrado por Davi. Naquela época não havia exames de DNA.
Dois pecados gravíssimos. E aqui Davi, lamentavelmente, manchou de maneira forte a sua existência. Davi, nesses dois pecados graves, é o retrato de muitos de nós que, embora armados de reta intenção, de castos desejos, de quando em quando resvalamos. E neste caso aqui não se tratou de pecados corriqueiros, os mais graves que se podem cometer: primeiro uma infidelidade conjugal, um adultério; em segundo lugar, e pior, um assassinato.
Infelizmente esta página vem manchar a biografia de Davi. E assim acontece também com as nossas biografias. Se não tomamos cuidado, se não vigiamos de acordo com o mandamento de Jesus, se não rezamos diariamente, se não nos examinamos, se não vivemos alerta, estas coisas acontecem conosco também. Quantos adultérios e quantos assassinatos não são perpetrados diariamente em todas as nossas cidades? Sim, estes dois pecados de Davi são pecados que se cometem diariamente, através dos quais Deus, na Sua santidade, é ofendido.
Bem, talvez um ou outro diga: “não cometi nenhum desses dois até o dia de hoje. Nunca adulterei e nunca assassinei quem quer que fosse”. Por graça de Deus. Mas é possível que outros pecados graves tenham manchado a nossa veste batismal que recebemos branca no batismo, e prometemos conduzi-la branca ao tribunal de Deus. Se isto aconteceu, não apenas imitamos Davi no seu pecado, mas nos tornamos indignos do reino de Deus.
O pecado é sempre uma desordem grave na vida, ofende a Deus, e traz conseqüências funestas para nossa vida (o padre Fernando acrescenta, no dia 28, que um dos castigos de Davi foi a morte do filho que Betsabéia concebeu nesse pecado de Davi.)
30 de janeiro de 2012)
No segundo Livro de Samuel, são narradas tragédias e turbulências pelas quais passou a casa real de Davi. Foi Davi um pecador penitente que aceitou as consequências do mal praticado. Absalão, um de seus filhos, assassinou o irmão Amnon por ter violentado a irmã Tamar. Por sua vez, Absalão foi também assassinado por Joab, general de Davi. Adonias, outro filho de Davi, seria mais tarde assassinado por ordem de Salomão. E assim, a espada que Davi desembainhou em sua casa, matando o marido de Betsabéia – Urias, o hitita - não mais o abandonou. O resto da história de Davi é uma sucessão de lutas sangrentas entre os irmãos, a ver com quem ficaria o reino após a morte do pai.
Diante desse texto, não podemos deixar de trazer à lembrança tantas famílias desarticuladas, desunidas, onde algumas vezes impera ódio mortal entre irmãos ou parentes. Desunião familiar é verdadeira chaga, que pode começar entre marido e mulher, mas depois se propaga entre irmãos. Que tragédia, quando percebemos em família que irmãos não se falam, evitam-se, ofendem-se e nunca mais entrarão em acordo.
Rezemos pelas famílias que se encontram nessa situação. Além da oração, que é fundamental, ajuda vinda de fora, serviço habilidoso e tempo são capazes de curar feridas que, de outra maneira, apenas aumentariam.
Em primeiro lugar, se alguém possui ódio no coração, reconcilie-se primeiro com o irmão a quem ofendeu ou com quem está ofendido, porque sua relação com Deus pode estar dessa forma comprometida.
Nem sempre as coisas se passam de maneira tranquila. Há casos em que pessoas ofendidas não desejam conceder o perdão; nem tudo depende apenas de nós. Em situações como essas, faz-se o que se pode e se entrega a Deus a situação que não pôde ser amigavelmente resolvida.
Ao lado de grandes perdões, existem também perdões menores e quase diários, que devemos conceder ou pedir. Caso emblemático é o perdão entre marido e esposa. Se não se perdoam recíproca e frequentemente, um muro de separação se vai levantando entre ambos, a ponto de a convivência, mais tarde, tornar-se impossível. É possível, a esse propósito, perdoar o cônjuge infiel? Eis uma questão que não pode ser aqui resolvida. Trata-se de algo muitíssimo delicado, mas conheço pessoas que, na oração, encontraram força para perdoar a parte infiel. Naturalmente não se trata aqui de perdoar “setenta vezes sete”. Não esqueçamos que perdoar significa também saber pedir perdão. Não somos apenas credores de perdão; somos também devedores.
A MORTE DE DAVI E A NOSSA
02 de fevereiro de 2012
O texto do primeiro livro dos Reis narra o fim de Davi e sua morte: “Eu me vou pelo caminho de todo ser humano”, diz o velho Davi, que havia vivido intensamente sua vida: ainda criança, fora escolhido como o ungido de Deus, realizara proezas durante sua juventude, tinha conseguido impor-se sobre algumas tribos; tinha-se tornado o primeiro monarca de Judá, ou Reino do Sul, transformando Jerusalém na capital de seu reino unido. Havia conduzido a Arca da Aliança para Jerusalém, fazendo da cidade um centro religioso para as tribos de Israel. Havia guerreado contra os inimigos ao redor - filisteus, amonitas - mas agora se encontrava no final da existência. Davi aceitou, como qualquer ser humano, sua sorte e, quando chegou a hora de deixar este mundo, foi-se em paz.
O texto que hoje lemos mostra-nos o exemplo de Davi. Após uma vida carregada de realizações, de boas obras, de amor a Deus e serviço aos outros, podemos emigrar definitivamente deste mundo, pois não temos aqui morada permanente.
É triste ver pessoas que se apegam à vida nos últimos momentos, até quando esta, impiedosamente, se esvai. Se conseguíssemos depositar nossa existência nas mãos de Deus, concluiríamos a vida sem sobressaltos e temores. O cristão, com efeito, não se entrega ao cemitério, mas coloca sua vida nas mãos de Deus.
Davi não tinha essa fé que possuímos; falava em ir para o caminho de qualquer homem, que são a morte e a sepultura. Façamos um ato de aceitação de nossa própria morte; dela ignoramos o tempo e as circunstâncias. No entanto, aceitemos a morte em remissão de nossos pecados, assemelhando-nos a Cristo e contribuindo, também, para a redenção da humanidade.
A propósito da morte, podemos fazer diversas observações, abordando apenas os aspectos religiosos. A morte é um problema apenas para os seres humanos. Animais também morrem, mas como a ignoram, não a problematizam. O orador clássico latino, Cícero, dizia a seu respeito que, de forma alguma, deve ela incomodar-nos, pois, enquanto vivemos, ela não existe para nós e, quando morrermos, já seremos nós que não existiremos. O raciocínio de Cícero é sutil, embora não seja argumento a ser levado a sério. Não podemos ignorar que a morte nos acompanha qual sombra, desde o início de nossa vida.
Ao sermos concebidos, tomamos o trem da morte que, infalivelmente, faz nossa viagem terminar num cemitério. Aquele que não tem fé considera-a como mergulho no nada. Sejamos honestos: é desafiador crer que alguém esteja verdadeiramente vivo, quando se contempla um corpo inerte dentro de um caixão. Efetivamente, quando celebramos exéquias ou missas em sufrágio de alguém, contemplamos muita gente cética quando mencionamos a ressurreição. A fé é dom intransmissível; é Deus quem, com ela, ilumina nossos corações. Podemos saborear-lhe a beleza, mas não temos a capacidade de iluminar ninguém.
Rezemos por todos aqueles que sofrem terrivelmente por considerar a morte como perda definitiva e não passagem pascal para Deus. Lembremo-nos também que o dom recebido transforma-se em tarefa e que devemos conservar essa luz em meio a todas as contradições da existência.
Padre Fernando Cardoso
04/03/2016
Em pensamento eu me vejo no alto do Pico Agulhas Negras, Parque do Itatiaia, em que estive várias vezes. Vejo as cidades pequenas, lá embaixo. Nenhum som a não ser o roçar da brisa nas plantas pequenas, já que em cima do pico não há plantas grandes: a altitude não permite.
Foi difícil subir, mais de duas horas de escalada. Meus colegas de caminhada estavam também descansando aqui e ali. Eram quatro ao todo. Li a placa colocada por escoteiros pioneiros, comemorando sua proeza. Uma cruz, em que um dos colegas subiu para uma foto na escalada de 1976. Que alegria! Vejo-a no pensamento, como também é na lembrança que revejo este cenário do cimo do monte.
A brisa suave do pico Agulhas Negras me levou longe, longe de tudo. Eu fecho os olhos e sinto o que então senti lá: a liberdade.
Liberdade de abrir os braços e abraçar o horizonte, a amplidão!
Liberdade de poder gritar o que bem entender e ninguém criticar ou se ofender!
Liberdade de dizer ao Pai como são maravilhosas as suas criaturas!
As coisas mudaram, continuam mudando. Quantos projetos tínhamos na mente e no coração! Quanta alegria contida nas conversas e brincadeiras!
Senti, na época, um pouco de tontura e pedi a um dos colegas um pouco de vinho do cantil de couro que ele o levara. A pressão abaixara e o vinho tinha sido levado pra isso mesmo.
Nesses momentos eu me lembro da morte. Bem, vou morrer algum dia. Quando? Não faço a mínima ideia! Será que vou saber que vou morrer? Não sei. E não terei tempo de transmitir pra ninguém esse conhecimento!
Beethoven teve sua melhor inspiração no justo momento de sua morte! Só teve tempo de esmurrar o ar, para o alto, não em direção a Deus, talvez, mas acredito que tenha sido em direção ao formidável relâmpago que produzira aquele trovão majestoso que lhe dera a tal inspiração. Seria sua 10ª sinfonia, que foi com ele para o túmulo. Os anjos, talvez, a orquestraram e a tocaram...
Mas... será que não foi ao contrário? Será que não foram eles que a compuseram e, no instante daquele trovão/relâmpago não a colocaram em sua mente? Na verdade os Anjos são muito mais inteligentes e inspirados do que nós!
Mas volto ao Pico Agulhas Negras. Quanta dificuldade para subir! Quase três horas! Mas, para descer, apenas uma hora e meia. Assim é a nossa vida. Que dificuldade para subir até onde estamos! Mas para descer, bastam algumas palavras caluniosas a nosso respeito e descemos como rojão, como diz Jesus: “Vi Satanás cair do céu como um raio” (Lucas 10,18).
Satanás... você acredita no diabo? Eu acredito. Ele quer sempre nos enganar. Entretanto, nós somos nossos piores inimigos. Nem é preciso o “coisa-ruim” para pecar! Basta nossa displicência, nossa falta de vigiar... e pronto! Lá fomos nós!
No Agulhas subi por quatro vezes. Escalava-o sempre com 4 ou 5 colegas. Numa dessas vezes quase despencamos lá de cima. Eu amparei um deles no peito. A sorte é que o meu pé estava enroscado numa fenda. Foi o que nos salvou! Alguém havia tirado o cabo de aço da rocha, que aqueles já mencionados escoteiros haviam colocado. Acho que foi em 1979, a última vez em que lá estive. Tinha 34 anos.
No nascimento de Jesus alguns pastores estavam próximos a Belém vigiando suas ovelhas. Tomavam um chá de ervas ao lado do fogo. De repente apareceu um anjo muito bonito, que lhes anunciou, com voz forte e clara, que lhes havia nascido, em Belém, o Salvador, o Cristo Senhor (ou seja, o Messias esperado). O sinal que o anjo lhes deu confundiu um pouco suas cabeças, pois todos esperavam um Messias rico, poderoso, que os livrasse das mãos dos romanos, que dominavam tudo.
“Vocês vão encontrar um menino envolvido em faixas e colocado numa manjedoura”. Como um messias poderia nascer desse jeito? Se fosse alguém aqui da terra que lhes falasse, não acreditariam. Mas acreditaram, pois fora um anjo do céus quem lhes dissera.
Seguiu-se às palavras do anjo a aparição de um coral magnífico de anjos, que cantaram de modo celestial: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por ele amados!”.
O acontecimento foi tão espetacular que eles resolveram ir naquela hora mesmo. Deixaram um rapaz vigiando as ovelhas e partiram, a umas duas horas de caminhada, até chegarem a Belém. Perguntaram onde havia nascido algum bebê, e deram-lhes os endereços de três deles.
O primeiro estava numa casa bonita, bem construída, de pessoas abastadas, a “nata” de Belém. Nem quiseram atendê-los, pois cheiravam forte a ovelhas. Ninguém gostava do cheiro dos pastores e também do tipo de trabalho que faziam, pois às vezes suas ovelhas invadiam plantações alheias. Eram muito marginalizados. Acharam que seria numa casa chique, pois a profecia dizia que seria um descendente de Davi, e essa era a sua cidade. Muitos haviam chegado de longe para o recenseamento promovido por César Augusto e todos os descendentes desse antigo rei tinham que se registrar ali. O Messias deveria ser um rei.
O segundo bebê morava na casa de um cobrador de impostos, publicano. Também não os recebeu, pois achava que eram fiscais disfarçados de pastores. Era também uma casa bonita, forte e destacada das demais. O anjo, porém, falara claramente: o sinal seria um bebê envolvido em faixas e colocado numa manjedoura, que todos sabiam ser o nome do cocho em que os animais comem.
Procuraram, então, um lugar mais pobre, e tiveram uma surpresa: a porta estava aberta. Entraram e o dono da casa os conduziu aos fundos, onde ficava a manjedoura dos animais, que era uma sala ligada à casa: os animais tinham sido colocados numa cobertura no quintal e ali havia apenas um cocho de palhas, e nele um menino recém-nascido, envolto em faixas, tal e qual o anjo lhes dissera.
Que estranho! Um messias, um salvador nascido numa pobreza daquelas! Mas fora a única casa que os acolhera, e cumprimentaram os pais do menino: Maria, que estava sentada ao lado do cocho, cuidando de seu filho, e José, que parou por uns momentos de fazer um bercinho com madeira velha que lhe conseguiram.
Alguns comentam a “falta de acolhida” que José e Maria tiveram. Não foi bem assim! Não havia, de fato, nenhum lugar decente para ninguém naqueles dias do recenseamento. Era muita gente, e o lugar era muito pequeno. Belém era um pequeno lugarejo rural. Seus moradores trabalhavam na pequena agricultura.
Os moradores queriam atender bem a todos, mas isso era praticamente impossível naqueles dias do recenseamento. O melhor que puderam arranjar foi o estábulo, onde ficavam os animais, praticamente dentro da casa. Belém, como Nazaré, eram lugares pequenos, cuja economia era a agricultura.
O Frei Carlos Mesters diz que José talvez fosse um dos migrantes que foram de Belém a Nazaré justamente para tentar uma vida melhor, por falta de recursos em Belém. Essa era a situação que tiveram de enfrentar naqueles dias. Não coloquemos, pois, maldade onde não existia. O povo judeu primava pela hospitalidade. Hospedar os viajantes era algo muito importante e imprescindível para eles.
Os pastores olharam para aquele menino deitado na manjedoura e se enterneceram. Dele saía uma força invisível, como se fosse uma luz que não se via, mas se sentia, que “iluminava” todo o ambiente. Eles não viam essa luz, mas a sentiam dentro deles e isso lhes dava mais confiança de que aquele menino era, de fato, alguém diferente, era de fato o Messias enviado por Deus para salvar o povo. Não entendiam, mas acreditavam. Quantas vezes temos que fazer isso na vida! Crer sem entender..
Estavam nessa contemplação, quando anunciaram a chegada de três pessoas importantes, os famosos reis magos. Os pastores deixaram ali seus presentes, que eram alguns queijos de leite de ovelhas, e se colocaram num canto da sala, aguardando a entrada dos ilustres visitantes.
Eles entraram, com muita simplicidade, mas se via uma nobreza em seu porte, em seu caminhar. Trocaram algumas palavras com José, adoraram o menino, e deram aos pais três presentes: incenso (simbolizando a divindade de Jesus), ouro (representando sua realeza) e mirra (representando sua fragilidade, sua humanidade).
Sua mãe, Maria, sempre calada, como era usual nas mulheres do povo judeu, olhava tudo isso com olhar de reflexão. Sentia-se a estranheza de sua face ao deparar com todos esses acontecimentos.
Anos mais tarde os pastores entenderam melhor como o que acontecia ali era algo inusitado! Santo os pastores, como os magos, que eram pagãos, estrangeiros, eram pessoas marginalizadas pela sociedade judaica: não eram circuncidados, não pertenciam ao povo de Deus, do Deus verdadeiro.
Entretanto, eles, que não eram nada, estavam ao lado do criador do universo, do senhor de todas as coisas, da luz do mundo, da misericórdia feito gente, da única verdade e vida jamais conhecida. Pena que naqueles dias,não entenderam isso: só sentiram a força docemente avassaladora que expandia os seus corações.
Nunca se esqueceriam da paz tão completa que sentiram em seus corpos e em suas almas, naqueles momentos em que permaneceram no presépio. O cheiro forte que os animais deixaram havia sido coberto e anulado por uma fragrância perfumada que inundava o local. Parecia que um perfume saíra de onde o menino estava deitado e entrara em composição química com o cheiro próprio da cocheira.
Olharam para o rosto do menino e não acreditavam na poesia que dali brotava. Não se sentiam sozinhos! Não se sentiam necessitados de nada! Ficariam ali, se pudessem, por hora e dias inteiros, naquela contemplação: um Deus feito homem, feito nenê,dormindo na palha de um cocho.
Nossa vida deve ser um presépio, onde Jesus sempre deve estar, onde não precisamos de nada, de nenhuma falsa necessidade. Dizia isso a Irmãzinha Madalena de Jesus : “Quando vocês (dirigindo-se às Irmãzinhas de Jesus) estiverem carentes e necessitadas de tudo, olhem para o presépio e tudo voltará ao normal!”.
05/03/2016
Eu estou dentro de uma determinada realidade e não adianta negá-la. Seria um desastre para o meu psiquismo. Negar a realidade é a maior causa de suicídios, depressão, tristeza, desespero, desistência. É preciso enfrentar a realidade em que vivemos, pois se não fizermos isso, acabaremos recalcando o fato.
Recalque é algo pernicioso para nossa vida. Recalcar é, por exemplo, o diabético dizer para si mesmo que o bolo que está à sua frente não presta, está mal feito, está ruim. Este recalque vai impulsioná-lo a comer o bolo todo. Não recalcar seria enfrentar a realidade do diabetes e fazer para comer uma gelatina dietética, por exemplo, mesmo assumindo o fato de que o bolo deve estar uma delícia.
Por que há tantos drogados e alcoólatras? Porque isso lhes dá prazer; para eles, é algo bom. Se não fosse bom, não haveria viciados!
Recalcar é, pois, como afundar uma bola de futebol numa piscina: quanto mais fundo a colocarmos, com mais força ela aflorará.
O primeiro passo para sairmos de uma realidade que não nos agrada é assumirmos e acreditarmos nessa realidade, ou seja, nos conscientizarmos de que ela nos pertence, nós estamos imersos nela.
O segundo passo é verificarmos nossas armas. De que nós dispomos para “sair dessa”? A quem poderemos recorrer? Quais são os caminhos?
O terceiro passo é tentar mudar essa realidade com as armas do segundo passo, ou, se percebermos que a realidade não pode ser vencida ou mudada, adaptarmo-nos a ela de tal forma que ela não mais nos agrida.
É claro que em caso de pecado, nunca poderemos concordar. Daí, como diz Hebreus 12, 4, é preciso lutar até o derramamento de sangue na luta contra o pecado.
Em relação a nós próprios, isso também é verdade: não adianta querer ser o que não somos. Se eu sou assim, assim, assado, não como viver como cozido, cozido, fritado. Se você nunca saiu do Brasil, não vá inventar uma viagem imaginária aos amigos. Eles vão pegar você na mentira!
Muitos viajam e não aproveitam a viagem porque perdem muito tempo e oportunidades de relax ao tirarem fotos de modo desesperado. Se você fizer isso, coloque nelas a frase: “Eis os lugares em que me preocupei tanto em fotografar que não tive oportunidade de conhecê-los.
Outra coisa idiota desse tipo é comer uma comida falando em outra. Você já fez ou viu fazerem isso? Acontece muito! A pessoa está comendo frango frito, mas falando de peru assado. Se está comendo macarrão, fala da famosa lasanha que sua mãe fazia etc. O inteligente procura saborear e curtir aquilo que está comendo no momento! Isso é enfrentar a realidade!
De certa forma, estes textos sobre os meus devaneios são um tipo de fuga da realidade.
Deus nos deu esse dom precioso do paladar. Quantas coisas para comer! Mas... infelizmente, nem todos têm essa possibilidade.
Tive ao mesmo tempo uma paróquia pobre e uma mais rica, em bairros diferentes. Ambas fizeram o Natal dos pobres, mas a chique sofisticou tanto o cardápio que ninguém conseguiu comer: aquilo era estranho para o paladar dos pobres.
Na paróquia pobre, o almoço foi um sucesso, pois eles fizeram arroz, feijão, carne e salada. Comeram “de lamber os beiços”. Na reunião de avaliação, eu lhes apontei o engano feito. No ano seguinte, a base foi arroz com feijão, bem a gosto do povo, e salada simples, sem nenhuma sofisticação, e o almoço foi um sucesso.
Um casal que tinha um parente padre muito chique, da alta sociedade, convidou-me a jantar em sua casa. Que sofisticação”! Havia prato pra isto, para aquilo, garfo para isto, para aquilo, copos diversos... Eu lhes disse que não saberia como usar os talheres e apetrechos e eles...pediram que eu entrasse na cozinha, comer no panelão! Ficaram felizes e sempre me convidavam. Eu assumi minha realidade de caipirão, que não sabia como usar tantos apetrechos.
Precisamos, pois, enfrentar a realidade, e não inventar uma realidade que não existe. Os pobres vivem uma realidade muito diferente que as dos mais abastados. Vivem em ambientes insalubres, mas isso até os ajuda a ganharem mais anticorpos que seus irmãos mais chiques.
Um paroquiano nosso, médico pediatra, tinha mais sucesso nas operações de crianças pobres do que as da classe mais alta: a dos pobres nunca infeccionavam. Já a dos ricos... Ele operou o garotinho de um colega médico e arruinou. Veio aborrecido falar comigo sobre o fato: “Operei uns 100 filhos de pobres e nunca infeccionou! O do meu colega médico, ficou parecendo uma batata”! É que os pobres, como vivem em situações desfavoráveis, ganham mais anticorpos que os que vivem em condições mais profiláticas.
Em suma, não podemos ignorar nossa realidade. Quando saímos dela com ideias estapafúrdias, sonhos impossíveis, apegos ao passado, quando vivemos mais no passado e no futuro que no presente, estamos perdidos. Não teremos passado quando estivermos no futuro! É preciso viver bem o presente, deixar pra lá o passado, que não mais nos pertence, e deixar nas mãos de Deus o futuro, que ainda não chegou. Como dizia Santa Faustina: “Ó tempo presente, só tu me pertences realmente”!
Se cremos em Deus, ficaremos felizes de sempre fazer a sua santa vontade, e tudo o que acontece está sob seu domínio e sua onisciência. Ele sabe tudo e sabe o que será melhor para nós.
20/12/2018
Todas as criaturas refletem a glória de Deus, mas de um modo muito imperfeito. O ser humano deveria refletir de modo mais perfeito essa glória, mas o pecado impede que isso aconteça.
Dentre todas as criaturas, dentre todos os seres humanos, além de Jesus, apenas Maria consegue refletir no máximo grau de perfeição possível ao ser humano a glória de Deus.
O próprio Arcanjo Gabriel, como diz aquela maravilhosa música, ficou extasiado diante da beleza que viu refletida naquela pobre e simples moça de 14 ou 16 anos. Maria reflete em sua face feminina toda a beleza de Deus que é possível a um ser humano refletir, depois de Jesus, que é o próprio Deus feito homem.
Ninguém conseguiu saber a cor dos olhos de Jesus. Sabem por quê? Porque ninguém conseguiu fixar o olhar em seu olhar. A profundidade da divindade encarnada na beleza da humanidade é beleza demais para pobres seres humanos como nós. Só Maria conseguiu contemplar a beleza do olhar de Jesus. E Jesus, olhando para Maria em tantas ocasiões, podia contemplar-se nela. Afinal, toda a parte humana de Jesus foi tirada do corpo de Maria.
Quando os Anjos olham para Jesus, olham para a carne que foi, um dia, parte do corpo de Maria. Quando o Anjo Gabriel olhou para Maria para consultá-la sobre a Encarnação, tremeu na base: ali, à sua frente, estava aquela que ia fornecer o corpo humano de Jesus. E viu Deus refletido nela de modo como nunca havia visto antes.
A santidade, a pureza, a excelência de Maria deixa em aberto a possiblidade de nós também refletirmos a glória de Deus de modo cada vez mais perfeito. Essa gradação depende de nossa santidade. Você já deve ter percebido que pessoas como Santa Teresa de Calcutá e São Francisco de Assis refletiam a glória de Deus. E nenhuma dessas duas pessoas eram fisicamente bonitas.
A beleza de Deus refletida em nós não se mede pela beleza física, mas pela irradiação que brota do nosso interior. À medida em que uma pessoa se santifica, vai refletindo mais e mais a glória e a beleza de Deus, de tal modo que isso se torna perceptível por todas as pessoas, mas de modo diferente.
As pessoas que creem, que buscam Deus, sentem essa irradiação brotada das pessoas santas como um chamamento para elas também se tornarem santas. Santo Inácio de Loyola dizia: “Se eles conseguiram, por que não eu”?
As pessoas ateias ou que sentem dificuldade em se relacionar com Deus, são autossuficientes, acham que dependem apenas da própria força. Pior que isso, não percebem que estão cavando a sua própria derrota. Não são humildes o suficiente para reconhecerem a inutilidade de seus esforços. Essas pessoas não sentem de modo positivo a irradiação das pessoas santas e até muitas vezes as procuram matar, ou fisicamente, ou moralmente, ou intelectualmente. Não as suportam, pois percebem que elas conseguiram sem muito esforço (porque foi pela graça de Deus) o que elas não conseguem nem com todo o empenho que fazem (porque não buscam auxílio).
Maria reflete, no máximo grau possível a um ser humano, a beleza e a glória de Deus. Os êxtases dos que já a viram em suas aparições são devidos a essa irradiação divina que se sente em Maria. E pensar que nós também, pelo Batismo, podemos irradiar a graça e a beleza de Deus, e até agora não conseguimos!
Mas não devemos desanimar. Procuremos tirar de nós a autossuficiência, o orgulho, o individualismo, procuremos buscar constantemente, sem irrupção, a santidade pelas mãos de Deus, e reflitamos sobre essa irradiação de santidade e beleza que brota da Mãe de Deus e de todos os que se aproximam humildemente da divindade.
Rio de Janeiro (Sexta-feira, 04-08-2017, Gaudium Press) A Igreja Católica comemora nesta sexta-feira, 4 de agosto, a memória de São João Batista Vianney, conhecido popularmente como Santo Cura d'Ars, Padroeiro dos párocos e sacerdotes. Por ocasião desta data importante, a Gaudium Press transcreveu abaixo o mais recente artigo escrito pelo Cardeal Orani João Tempesta, Arcebispo do Rio de Janeiro.
O sacerdote é dom porque o seu ministério sacerdotal, desdobrado em conduta, serviços, vivências e posturas, é manifestação e concretização deste amor. O Padre, homem escolhido entre homens e constituído em favor de todos, é discípulo missionário servidor do povo de Deus. E sustentado pela contínua busca da santidade de vida, é facilitador desse indispensável e inadiável encontro pessoal com o Cristo vivo, levando todos ao reconhecimento e à sabedoria de pautar a sua vida tendo Deus como seu centro e fonte inesgotável do seu sentido. O sacerdote, por isso mesmo, faz anteceder às suas muitas tarefas no labor de cada dia a serviço do povo, anunciando o Evangelho, o cuidado e o compromisso com a condição do seu ser. É a santidade de vida que alavanca, fecunda e torna exitoso o serviço prestado na condição própria de sacerdote.
O sacerdócio é uma verdadeira mediação salvífica-sacramental que expressa através do seguimento peculiar de Cristo Bom Pastor. A consciência de eleição pessoal amorosa de Deus influenciará muito na vida e na espiritualidade do sacerdote. O ministério sacerdotal é um seguimento de totalidade, expressado em termos de pobreza, generosidade, associação esponsal e humildade (Sequela Christi).
Na realidade há um só Pastor: Nosso Senhor Jesus Cristo. E Ele é a fonte e o modelo dos demais pastores. A caridade pastoral é a nota característica do ministério sacerdotal como prolongação do autor e da disponibilidade de Cristo Pastor. A caridade que arranca uma consagração que se orienta para uma missão universal e que exige a imolação da própria vida. É o serviço pastoral como sintonia à proximidade e humilhação "Kenosis" (esvaziamento de si).
O modelo para todos os padres é sempre Cristo o Bom Pastor. Pouco a pouco o Senhor irá nos formando de tal forma que experimentaremos a alegria de senhor, através da Igreja, colocou para levarmos adiante no caminho da santidade. Um dos segredos de um bom pastoreio é justamente amar o povo que é Deus e, com Cristo, dar a vida por esse mesmo povo, à semelhança d' Aquele que, entregando por nós Sua Vida, nos impulsiona para viver esse grande dom, que é também nossa grande alegria! Quanto mais estivermos empenhados nessa direção mais os nossos corações estarão imersos na experiência de Deus que nos ama e que nos convida a anunciar o Seu amor a todos na construção desse mundo novo.
Lembremos do magistério pontifício acerca do sacerdócio:
São João XXIII- "Nós desejaríamos, veneráveis irmãos, que todos os padres das vossas dioceses se deixassem convencer, pelo testemunho do santo cura d'Ars, da necessidade de serem homens de oração e da possibilidade de o serem, qualquer que seja a sobrecarga por vezes extrema dos trabalhos do seu ministério. Mas para isso ‚ necessária uma fé viva, como a que animava João Maria Vianney e o fazia realizar maravilhas. "Que fé! - exclamava um dos seus colegas. Chegaria para enriquecer uma diocese inteira".
Concílio Vaticano II, Beato Paulo VI na "Christus Dominus"
Os principais colaboradores do Bispo são, todavia, os párocos, a quem, como pastores próprios, é confiada, sob a autoridade do Bispo, a cura de almas numa parte determinada da diocese. [...] Com os seus coadjutores, exerçam de tal maneira o seu ministério de ensinar, santificar e governar, que os fiéis e as comunidades paroquiais se sintam de facto membros tanto da diocese como do todo que forma a Igreja universal.
São João Paulo II
O Sacerdócio de Jesus Cristo é, efetivamente, a primeira fonte e expressão da incessante e sempre eficaz solicitude pela nossa salvação, que nos leva a ver n'Ele exatamente o Bom Pastor. As palavras «o bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas" não se referem, porventura, ao Sacrifício da Cruz, o ato definitivo do Sacerdócio de Cristo? E, uma vez que o Senhor Jesus Cristo nos tornou participantes do seu Sacerdócio, mediante o sacramento da Ordem, não estão essas mesmas palavras a indicar-nos a todos o caminho que também nós devemos percorrer? Não nos dizem que a nossa vocação é singular solicitude pela salvação do próximo? E não nos dizem que tal solicitude constitui particular razão de ser da nossa vida sacerdotal? E não dizem que é essa solicitude, precisamente, que lhe dá sentido, e que só por meio dela nós poderemos encontrar o significado pleno da nossa mesma vida, perfeição e santidade? Este tema é tratado em várias passagens do Decreto conciliar Optatam Totius . Este problema, torna-se, todavia, mais compreensível à luz das palavras do Mestre, quando diz: "Ouem quiser salvar a vida, perdê-la-á; mas quem a perder por causa de mim e do Evangelho, salvá-la-á" (Discurso de São João Paulo II no ano de 1979 a todos os padres por ocasião da quinta-feira santa.
Papa Bento XVI
"A Igreja tem necessidade de sacerdotes santos, de ministros que ajudem os fiéis a experimentar o amor misericordioso do Senhor e sejam suas testemunhas convictas. Na adoração eucarística, após a celebração das Vésperas, pediremos ao Senhor que inflame o coração de cada presbítero com essa caridade pastoral capaz de fundir seu "eu" no de Jesus sacerdote, para assim poder imitá-lo na mais completa entrega de si mesmo. Que nos obtenha esta graça a Virgem Mãe, de quem amanhã contemplaremos com viva fé o Coração Imaculado. O Santo Cura de Ars vivia uma filial devoção por ela, até o ponto de que, em 1836, antecipando-se à proclamação do dogma da Imaculada Conceição, já havia consagrado sua paróquia a Maria "concebida sem pecado". E manteve o costume de renovar frequentemente esta oferenda da paróquia à Santa Virgem, ensinando aos fiéis que "basta dirigir-se a ela para ser escutados", pela simples razão de que ela "deseja sobretudo ver-nos felizes". (Pensamento retirado da homilia de abertura do ano sacerdotal.
Papa Francisco
"Reiterando a importância da formação humana, o Pontífice afirmou que um padre em paz consigo mesmo saberá "difundir serenidade" até mesmo nos momentos mais difíceis, "transmitindo a beleza do encontro com o Senhor". "Não é normal que um padre seja frequentemente triste, nervoso ou duro de caráter; não está bem e não faz bem, nem ao padre, nem a seu povo. Nós, sacerdotes, somos apóstolos da alegria, anunciamos o Evangelho, a ‘boa nova".
O sacerdote é, sobretudo, um homem de Deus - "vir-Dei". Ao cumprimentar todo o querido presbitério do Rio de Janeiro, com meu afeto e a minha gratidão, suplico a São João Maria Vianney, que Deus Nosso Pastor e guia nos ilumine e nos guarde para que a cada dia possamos desempenhar bem a nossa missão. Deus nos faz servos e testemunhas da verdade e do seu amor. Assim, Cristo sacerdote prolonga sua realidade sacerdotal na Igreja, especialmente através do ministério apostólico.
Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro
Conteúdo publicado em gaudiumpress.org, no linkhttp://www.gaudiumpress.org/content/89023#ixzz4panx4uGG
9 maio 2012. www.bibliacatolica.com.br em: Igreja 65
Fonte: Ciência confirma a Igreja
Os estudos mais exigentes sobre o Santo Sudário de Turim não têm respiro. Técnicas das mais avançadas aplicam-se continuadamente sobre ele ou sobre suas amostras.
E quanto mais sofisticadas, tanto mais surpreendentes são os resultados.
É o caso dos estudos concluídos pelo ENEA italiano, Agência Nacional para as Novas Tecnologias, a Energia e o Desenvolvimento Econômico sustentável, noticiados pelo blog “The Vatican Insider” do jornal “La Stampa” de Turim
O ENEA publicou um relatório com os resultados de cinco anos de experimentos. Estes aconteceram no centro do instituto em Frascati.
O objetivo foi analisar os “tingimentos semelhantes aos do Sudário em tecidos de linho por meio de radiação no extremo ultrarroxo”.
Em termos mais simples, procurou-se entender como é que ficou impressa a imagem de Cristo no pano de linho do Sudário de Turim.
Quer dizer, “identificar os processos físicos e químicos que podem gerar uma coloração semelhante à da imagem do Sudário”. O resumo de relatório técnico em PDF pode ser baixado AQUI.
Os responsáveis do trabalho foram os cientistas Paolo Di Lazzaro, Daniele Murra, Antonino Santoni, Enrico Nichelatti e Giuseppe Baldacchini. Eles tomaram como ponto de partida o único exame interdisciplinar completo realizado pela equipe de 31 cientistas americanos do STURP (Shroud of Turin Reasearch Project) em 1978, um dos mais importantes e respeitados jamais feitos.
O relatório do ENEA desmente com muita superioridade e clareza a hipótese desprestigiada de que o Sudário seja produto de um falsário medieval.
E chega a taxativa conclusão: “A dupla imagem (frontal e dorsal) de um homem flagelado e crucificado, visível com dificuldade no lençol de linho do Sudário, apresenta numerosas caraterísticas físicas e químicas de tal maneira peculiares que tornam impossível no dia de hoje obter em laboratório uma coloração idêntica em todos os seus matizes, como foi mostrado em numerosos artigos citados na bibliografia. Esta incapacidade de reproduzir (e portanto de falsificar) a imagem do Sudário impede formular uma hipótese digna de crédito a respeito do mecanismo de formação da imagem”.
Resumindo com nossas palavras:
1) É impossível, mesmo em laboratório, produzir uma imagem como a do Santo Sudário.
2) Não somente é impossível copiá-lo, mas não dá para saber como é que foi feito.
Os 31 cientistas do STURP não tinham achado em 1978 quantidades significativas de pigmentos (corantes, tintas), e nem mesmo marcas de algum desenho.
Por isso concluíram que não foi pintada, nem impressa, nem obtida por aquecimento. Além do mais, a coloração da parte mais externa e superficial das fibras que constituem os fios do tecido é irreproduzível.
As medidas mais recentes apontam que a parte colorida mede um quinto de milésimo de milímetro.
O STURP também verificou que o sangue é humano, mas que debaixo das marcas de sangue não há imagem;
– que a difusão da cor contém informações tridimensionais do corpo;
– que as fibras coloridas são mais frágeis que aquelas não coloridas;
– que o tingimento superficial das fibras da imagem deriva de um processo desconhecido que provocou a oxidação, desidratação e conjugação da estrutura da celulose do linho.
Ninguém jamais conseguiu reproduzir simultaneamente todas as características microscópicas e macroscópicas da relíquia.
“Neste sentido, diz o relatório do ENEA, a origem da imagem ainda é desconhecida. A ‘pregunta das perguntas’ continua de pé: como é que foi gerada a imagem corpórea do Sudário?”.
Um dos aspectos que intrigou os cientistas italianos é que há “uma relação exata entre a difusão dos matizes da imagem e a distância que vai do corpo ao pano”.
Acresce que a imagem foi gerada até em partes em que o corpo não esteve em contato com o pano. Por exemplo, na parte de cima e de baixo das mãos ou em volta da ponta do nariz.
“Em consequência, podemos deduzir que a imagem não se formou pelo contato do linho com o corpo”.
Outra consequência dessas sábias minucias é que as manchas de sangue passaram ao pano antes mesmo que se formasse a imagem.
Portanto, a imagem se formou em algum momento posterior à deposição do cadáver no túmulo.
Mais ainda, todas as manchas de sangue têm contornos bem definidos, pelo que se pode supor que o cadáver não foi carregado com o lençol.
“Faltam sinais de putrefação que correspondam aos orifícios das feridas, sinais esses que se manifestam por volta de 40 horas após a morte. Por conseguinte, a imagem não depende dos gases da putrefação e o cadáver não ficou dentro do Sudário durante mais de dois dias”.
Uma das hipóteses mais aceitas para tentar explicar a imagem era a de uma forma de energia eletromagnética que pudesse produzir as características do Sudário: a superficialidade da coloração, a difusão das cores, a imagem das partes do corpo que não estiveram em contato com o pano e a ausência de pigmentos.
Por isso, foram feitos testes que tentaram reproduzir o rosto do Homem do Sudário por meio de radiação. Utilizaram um laser CO2 e obtiveram uma imagem num tecido de linho passável em nível macroscópico.
Porém, o teste fracassou quando analisado no microscópio. A coloração era profunda demais e muitos fios estavam carbonizados. Todas essas características são incompatíveis com a imagem de Turim.
Os cientistas do ENEA aplicaram ainda uma radiação brevíssima e intensa de VUV direcional e puderam reproduzir muitas das características do Sudário.
Porém eles constataram que “a potencia total da radiação VUV requerida para corar instantaneamente a superfície de um lençol de linho correspondente a um corpo humano de estatura média [deveria ser] de 34 bilhões de Watt, fato que torna até hoje impraticável a reprodução de toda imagem do Sudário”, uma vez que até agora não foi construído um equipamento de tal maneira potente.
E concluem: “Estamos compondo as peças de um puzzle científico fascinante e complexo”.
O enigma da origem do Santo Sudário continua ainda para a ciência como “uma provocação à inteligência”.
E, para as almas de Fé, um poderoso estímulo à adoração entusiasmada e racional, bem como uma confiança sem limites em Deus Nosso Senhor.
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2 maio 2012 Autor: Bíblia Católica | Postado em: História da Igreja
VALENCIA, 01 Mai. 12 / 04:46 pm (ACI/Europa Press)
A investigadora italiana Marzia Boi assegurou nesta segunda-feira, 30 de abril, em Valência que os restos de pólen encontrados no Santo Sudário de Turim não só correspondem com os que foram se depositando fortuitamente no tecido ao longo da história, mas também guardam uma correspondência“com os dos ungüentos e flores que se utilizavam para ritos funerários há 2.000 anos”, informou a Arquidiocese de Valência em um comunicado.
O trabalho da pesquisadora, exposto no Congresso Internacional sobre o Santo Sudário que se celebra em Valência, se acrescenta a outros estudos apresentados neste simpósio que mostram a compatibilidade entre o corpo envolvido com a Síndone e o de Jesus Cristo.
Em sua exposição, Marzia Boi, que trabalha no laboratório de Botânica do departamento de Biologia da Universidade das Ilhas Balear, argumentou também que no Evangelho se descreve que a sepultura de Jesus foi realizada com honras de reis, “o que implicava a preparação do cadáver com bálsamos e óleos”.
Ao analisar no microscópio as fotos dos polens extraídos em anteriores investigações sobre o Santo Sudário, a investigadora identificou tipos de plantas que “conforme está documentado desde antigo”, eram usualmente utilizadas para os enterros.
Entre elas, no Santo Sudário há polens principalmente de Helichrysum, segundo sua observação, assim como láudano, terebinto, gálbano aromático ou lentisco.
A identificação dessas plantas supõe, segundo a Dra. Boi, “um dado adicional que confirma que o homem do Sudário poderia ser Jesus”.
A investigadora indicou que a revisão por parte de especialistas paleólogos de todos os “polens do sudário ajudaria a identificá-los melhor”. Do mesmo modo, ela reparou em que os óleos e unguentos presentes no manto o conservaram por conterem potentes elementos repelentes de insetos e fungos.
16/05/2019
O segredo da santidade é a oração.
Nós todos, incluindo os santos e o próprio Papa, somos fracos e incapazes. É a oração que nos torna fortes para a caminhada.
Muitos desistem do caminho porque percebem que não têm ânimo de continuarem na caminhada para a santidade. Acham muito difícil.
E é mesmo. Só Deus pode nos dar forças e nos capacitar para uma vida de oração e de virtudes.
Nós só conseguimos qualquer melhora no caminho da santidade com a ajuda divina. Não há outro meio. Os santos nada mais fizeram do que rezar, pedir a Deus que os fortalecessem. Eles eram tão fracos como nós. Encontraram forças na oração.
Não existem pessoas fortes: existem pessoas que rezam e as que não rezam. As que rezam se tornam fortes pela graça de Deus. As que não rezam continuam fracas, pois contam apenas com as suas próprias forças.
Isso é bem verdadeiro também quando a pessoa quer deixar qualquer vício. Sozinho(a) ninguém consegue. É preciso ajuda de outras pessoas e principalmente de Deus.
Nós temos muita tendência a sermos autossuficientes, a pôr nosso orgulho e nossa vaidade em primeiro lugar. Muitas vezes é difícil para nós pedir ajuda, mesmo a ajuda de Deus.
Precisamos aprender, pois, a lançar ao céu pequenas orações pedindo força: “Jesus, me ajude”! “Maria, rogue a Deus por mim”! Jesus, Filho de Deus vivo, tende misericórdia de mim”!
À medida em que perseverarmos nessas pequenas orações, vamos aos poucos nos fortalecendo para aumentar o tempo de oração, até que conseguiremos rezar muito tempo diariamente sem nos cansarmos, e Deus poderá encontrar-nos receptivos e assim nos dará a força necessária para prosseguirmos no caminho da santidade.
Tudo nos parecerá fácil, mesmo deixar os vícios, porque as coisas acontecerão sem mesmo planejarmos. Coisas boas começarão a acontecer. A graça de Deus começará a ficar mais visível em minha vida. A caminhada, antes vista como um montão de pedras no caminho, passará a ser vista como uma estrada florida e desimpedida.
16/01/16
Nunca a sociedade precisou tanto de silêncio como hoje, para ouvir a voz divina: Deus nos fala no silêncio! Entretanto, nunca a sociedade foi tão ruidosa como agora! Como entrar num clima de silêncio atualmente?
Vejo o interesse por esse assunto pelos acessos aos nossos blogs que falam sobre isso. São vistos no mundo todo. No fundo, todos ansiamos pelo silêncio.
O gato miando, o rádio do vizinho no último volume, seu filho ou neto berrando uma música barulhenta, o cachorro latindo, irritado com o barulho, a televisão naqueles programas horríveis tipo “zap-zap”, ou programas de “pegadinhas”, em que se faz o outro de idiota!
Esse é o cenário em que muitos de nós nos encontramos diariamente. Como driblar tudo isso?
Bem... Jesus se isolava fisicamente para lugares desertos, mas muitas vezes não dava e aí ele se isolava o meio mesmo do barulho e da multidão (confira em Lucas 9,18: “Jesus, orando a sós no meio dos discípulos...”). Será que nós conseguiríamos fazer isso?
No Antigo Testamento “encontrar-se com Deus” e “ir ao deserto” eram quase sinônimos. Veja Oséias 2,16-17: “Vou levá-la ao deserto e aí falar-lhe-ei ao coração”.
Lucas 7,24-30: “Que fostes ver no deserto?” Se respondêssemos: “Nós fomos ver João Batista, um homem de oração”, estaríamos tão corretos quanto o que Jesus disse: (fostes ver) um profeta, e um mais que profeta”. Ora, o profeta é um homem de oração, que ama o silêncio!
No 11º domingo do tempo comum, São Cipriano, comentando o versículo 11 do salmo 94 (93), diz: “O Senhor ouve nossos pensamentos, e por isso não precisamos orar gritando”! É no silêncio que nos comunicamos com Deus.
Em 1ª Reis 19,9-16, Deus vem até Elias não no barulho do vento, ou do trovão, ou da tempestade, mas numa brisa suave.
Em Lamentações 3,26, lemos: “É bom buscar em silêncio a salvação do Senhor”.
Em Isaías 30,15-18, lemos: “É na conversão e na calma que estaria a vossa salvação”.
Sofonias 1,1-7: “ Silêncio diante do Senhor”!
Na Bíblia vemos pessoas que sentiram necessidade de um lugar mais silencioso para orar, apesar de naquele tempo não haver ainda rádio nem tevê. Veja em Judite 8,5: após ficar viúva, ela construiu um quarto reservado, no andar superior de sua casa, para poder orar em silêncio.
Essa necessidade de silêncio leva muitas pessoas a um erro vocacional: querem entrar num convento ou num mosteiro. Na maioria das vezes, não têm vocação alguma para isso, e “quebram as pernas”. Se não tiverem vocação não dará certo! Vai sentir-se oprimido e entrará em depressão.
Temos que procurar o silêncio no próprio lugar em que vivemos e, como Jesus, de vez em quando fazer dias ou pelo menos uma parte de um dia de “deserto”, isolados de tudo.
Eu tive a graça de Deus de viver por quatro meses num mosteiro do interior e percebi justamente isso: é preciso vocação para viver essa vida. É dessa experiência que tirei a ideia dos “Eremitas De Jesus Misericordioso”: buscar uma vida de silêncio sem necessariamente abandonar a casa ou mesmo a família.
Não se iluda em procurar se feliz com coisas inalcançáveis! Procure ser feliz, encontrar-se com Deus e fortalecer-se para conviver com os demais, no silêncio do seu quarto, ou de sua sala, ou de seu quintal, ou de uma igreja. É o “silêncio do coração”.
Certa época da vida morei num tipo de república, em meio a muitas pessoas barulhentas, num barulho horrível de rádio, tevê, conversação gritada. Eu agia mais ou menos assim:
1- As orações mais importantes, eu as fazia no silêncio da madrugada, imitando Jesus.
2- As orações da liturgia das horas e o rosário, eu as fazia num pátio, sob uma árvore, ou caminhando.
3-Quando não conseguia de modo algum livrar-me do barulho, concentrava-me na imagem de Jesus ou de Maria e conseguia isolar-me pelo menos espiritualmente.
Aprendamos a nos isolar espiritualmente quando não é possível fisicamente! Não é fácil, mas é possível. Às vezes eu precisava tampar os ouvidos, quando proferia orações vocais.
Sofrimento psíquico dos presbíteros. Dor institucional.
(Paulo Sérgio Carrara1 Email: pecarrara@terra.com.br)
William Cesar Castilho, doutor em psicologia, psicanalista, analista institucional, é professor de psicologia na PUC-Minas; tornou-se conhecido por suas obras, artigos e conferências, sobretudo na área da psicologia da vida religiosa e presbiteral, à qual dedicou seus últimos trabalhos. Seu livro sobre a formação para a vida religiosa: “A formação religiosa em questão”, publicado pela Editoria Vozes, obteve grande aceitação e está na segunda edição. O livro sobre o sofrimento psíquico dos presbíteros nasceu de um longo trabalho com presbíteros de todo o Brasil. Para além de seu trabalho junto aos padres, o livro é fruto, também, como se constata por sua leitura, de longos anos de cuidadosa pesquisa sobre esse delicado assunto: o sofrimento psíquico dos presbíteros.
No primeiro capítulo, o autor apresenta detalhadamente o referencial teórico de sua análise do sofrimento do presbítero: a “síndrome de burnout”. O termo burnout designa a síndrome que extrai as forças, o envolvimento pessoal e a satisfação no exercício da profissão. A síndrome foi estudada preferencialmente nas categorias de profissionais que desenvolvem uma tarefa de ajuda. São numerosos os sintomas da síndrome de burnout: tristeza, vazio interior, despersonalização, alterações de comportamento, depressão, esgotamento, stress, insatisfação, recalque de conflitos internos etc. Embora haja abordagens teóricas diferentes sobre a síndrome, os autores são unânimes quanto aos seus traços característicos e sua repercussão negativa na vida profissional. O autor mostra, no entanto, que se há consenso quanto ao diagnóstico, não o há quanto à profilaxia e identifica duas propostas de tratamento.
A primeira se define como clínica disciplinar individual. Nesse caso, dá-se atenção aos sintomas e se ignora os fatores desencadeantes da síndrome, que se torna um problema do individuo, a ser tratado com medicamentos, sobretudo antidepressivos e ansiolíticos que aliviam a sensação de esgotamento. Associa-se ao tratamento medicamentoso a terapia individual, visando à elaboração pessoal dos sintomas. Não se questiona, pois, a instituição à qual o profissional pertence e sua implicação no seu processo de adoecimento psíquico. Uma segunda proposta de tratamento se define como clínica psicossocial institucionalizada, cuja abordagem da síndrome parte de uma epistemologia interdisciplinar. Os aspectos da existência humana são diversificados. O homem se constitui como ser psíquico, biológico, social. Seus problemas se compreendem à luz de sua inserção numa realidade concreta que envolve suas relações. Portanto, a clínica psicossocial institucionalizada, sem negar a necessidade de tratamento medicamentoso e psicoterápico para a síndrome de burnout, inclui na sua abordagem a análise das organizações e instituições, em vista de chegar à causa do problema, que nunca se encontra somente no indivíduo, mas na teia de relações estabelecidas dentro da instituição. A intervenção para solucionar a crise chega, pois, à instituição. Se também essa não for devidamente tratada, o profissional não supera satisfatoriamente a síndrome de burnout. Aqui o trabalho se torna mais exigente, porque envolve todos os membros da instituição.
No segundo capítulo, o autor faz um longo estudo da síndrome de burnout entre os presbíteros, que se define como “síndrome do bom samaritano desiludido por compaixão”. Os presbíteros relatam os mesmos sintomas da síndrome descritos por profissionais de outras áreas: cansaço, tristeza, desilusão, esgotamento, perda de motivação para o trabalho, despersonalização, mudanças de humor e comportamento, depressão, vazio existencial etc. Tais sintomas se relacionam, no entanto, com o exercício do ministério presbiteral. Concretamente, os presbíteros reclamam de uma sobrecarga de trabalho, muitas vezes burocrático e repetitivo, com pouco retorno afetivo. Denunciam frustrações graves no contato com os paroquianos e insucessos pastorais. Há, ainda, dificuldades de convivência entre os próprios presbíteros, marcadas por rivalidades explícitas ou camufladas, busca de prestígio e de paróquias ricas. A distribuição de cargos e funções na diocese nem sempre se baseia no princípio da justiça. Muitos relatam perda da busca da intimidade com Deus na oração, com queda no nível da espiritualidade e despersonalização. Permanece certa desconfiança da instituição. Alguns lamentam o recente retrocesso na inclusão dos leigos na vida da Igreja. A multireferencialidade atual faz o presbítero se questionar sobre sua identidade presbiteral, marcada por perda de status e privilégios numa sociedade mais secularizada e socialmente menos cristã. Tudo isso provoca baixa autoestima e enfraquecimento do sentimento de pertença ao presbitério. Muitos enfrentam sérias dificuldades para suportar a solidão, a qual se acrescentam os problemas de ordem afeito-sexual, de manejo nem sempre fácil do ponto de vista psicoespiritual. O autor, além de mostrar, com pesquisas confiáveis, as causas do sofrimento do presbítero hoje, faz uma longa análise da situação da Igreja antes de depois do Concílio Vaticano II, enfatizando as consequências das mudanças socioculturais e históricas na vida da Igreja e na sua organização hierárquica. De fato, a Igreja ressente ainda hoje a mudança de paradigma de uma sociedade pré-moderna (cristandade) para uma sociedade moderna e pós-moderna. A passagem de uma unidade forte, centralizadora e rígida para a fragmentariedade frágil, o diálogo e a democracia fez emergir desafios de difícil solução. Do ponto de vista histórico, a síndrome de burnout desponta como consequência de profundas mudanças de paradigma na filosofia, nas ciências humanas e na cultura, com as quais a instituição nem sempre lida de modo satisfatório.
No terceiro capítulo, o mais denso do livro, o autor se debruça sobre a análise dos sintomas da síndrome de burnout entre os presbíteros e o faz a partir de um sólido referencial teórico, que leva em consideração aspectos sociais e psicológicos, sobretudo psicanalíticos. Procura mostrar os impactos da pós-modernidade sobre a vida presbiteral. Na verdade, profundas mudanças socioculturais estão na origem da síndrome do bom samaritano desiludido. Uma vez que a vida dos presbíteros está imersa na sociedade, não se pode negar a influência que novos paradigmas sócio-históricos exercem sobre ele. O referencial do autor, no entanto, não se restringe a análises meramente teóricas, mas inclui seu longo trabalho com presbíteros de diversas dioceses. Sua abordagem une a teoria com longa escuta dos problemas dos presbíteros. A temática do capítulo se revela vasta, complexa e até polêmica. O autor trata da espiritualidade do presbítero, mostrando-a como lugar de unificação do exercício do ministério com as demandas subjetivas. Muitas vezes, a ausência do cultivo da espiritualidade desencadeia desilusão, tristeza e perda de motivação. Partindo de um estudo das motivações vocacionais, William analisa o imaginário vocacional do jovem, marcado por idealizações e fantasias que se chocam com uma realidade institucional complexa. Normalmente, as vocações nascem nas famílias rurais, ainda bastante tradicionais, que normalmente apoiam a vocação do filho. Outros se descobrem vocacionados através da pastoral de juventude paroquial. Uma vez no Seminário, tendem a uma relação de submissão à autoridade, em vista da conquista do objetivo. No discernimento vocacional, há sempre o latente e o manifesto, como esclarece a psicanálise. O latente costuma emergir depois de o seminarista ter se tornado padre, a não ser que a formação esteja aberta para acolher a verdade conflitiva do jovem e para ajudá-lo a fazer um caminho de crescimento psicoespiritual.
Os relatos dos presbíteros revelam algumas insatisfações com a convivência no presbitério, marcada por disputas, desavenças e, às vezes, desconfiança. Nem sempre os presbíteros sentem que sua relação com o bispo e com os colegas se realiza dentro de um equilíbrio sadio. Há rivalidades, busca de paróquias mais rendosas e de maior prestígio na diocese. Por outro lado, o modelo paroquial tradicional atravessa uma crise, causada pela emergência de um modelo midiático de evangelização, que diminui o sentido de pertença a uma paróquia territorial e confunde os paroquianos. A pluralidade de movimentos, espiritualidades, estilos e modos de anunciar a evangelho deixa a sensação de certa falta de rumo. A relação entre padres e bispos não permanece imune ao processo das transferências. A relação com a autoridade conjuga sempre amor, ódio e outros sentimentos. Muitos presbíteros falam da solidão como um desafio. Embora necessária para o processo de individuação e para a relação saudável com o outro, quando não é bem elaborada, causa muitos transtornos afetivos.
Nesse capítulo, o autor ousa abordar o tema da afetividade e da sexualidade do presbítero. Seu discurso não se prende à frieza acadêmica, mas nasce da escuta profissional e comprometida dos presbíteros. De fato, a questão se revela espinhosa, a sexualidade permanece, muitas vezes, no âmbito do latente e a pressão institucional exerce certo controle dessa dimensão da vida do presbítero. No entanto, os temas da sexualidade, mormente da homossexualidade, emerge com força em conversas informais entre os presbíteros. Seus testemunhos são contundentes e alguns verbalizam, inclusive, uma divisão entre presbíteros homossexuais e heterossexuais, que disputam poder e prestígio. O autor analisa, ainda, a questão da pedofilia e da efebofilia, apresentando suas causas e possíveis tratamentos. Avalia também a questão do poder e do dinheiro na vida do presbítero.
O quarto capítulo aborda alternativas para a superação da síndrome de burnout a partir da pastoral presbiteral. O enfoque do autor se apoia nos dispositivos da clínica psicossocial, que envolve os presbíteros e a instituição Igreja na solução de conflitos. A pastoral presbiteral inclui três dimensões importantes: eclesial, espiritual e pastoral. Sua concretização supõe a criação de grupos terapêuticos onde os problemas sejam tratados de forma transparente e respeitosa. A clínica, nesse caso, não se define como lugar de pessoas doentes, mas lugar de cuidado com a saúde, em todos os seus níveis. Seu ambiente é agradável e democrático. Propõe-se a “fala” como excelente método de cura das questões pessoais, pastorais e relacionais. O que não pode ser falado, também não pode ser curado. O autor quis fornecer, ainda, material metodológico em vista da viabilização da pastoral presbiteral nas dioceses, a ser alavancado pelos próprios presbíteros, vistos como protagonistas de seus saberes, de sua produção e capazes de criar instrumentos para solucionar conflitos e problemas pessoais e pastorais. William oferece uma série de propostas de encontros nos quais os padres verbalizam seus desafios e, juntos, organizam soluções possíveis. O objetivo final da pastoral presbiteral é dar mais qualidade à vida espiritual, psíquica e pastoral do presbítero, melhorando suas relações com o Bispo, com os outros presbíteros, com os fiéis e com ele mesmo. A pastoral seria uma forma saudável de lidar com os impactos negativos da pós-modernidade na vida do presbítero.
William nos brindou com um texto profundo e consistente sobre a síndrome de burnout entre os presbíteros. Seu trabalho se mostra pioneiro no contexto da Igreja no Brasil. Partindo da análise sociocultural, histórica e psicanalítica, apresenta ao leitor um livro maduro e equilibrado, que ousa enfrentar temas delicados, como o sofrimento psíquico do presbítero, de maneira discreta e respeitosa da instituição. Sua abordagem corajosa da questão da sexualidade, sustentada não só na teoria psicanalítica da sexualidade, mas na experiência da escuta e do trabalho com os presbíteros, reclama respeito. Hoje muito se escreve sobre a crise da instituição e do exercício do mistério presbiteral. Mas poucos autores têm a segurança, a experiência e a “neutralidade” do professor William. Ele não faz críticas gratuitas à instituição, seu objetivo se resume no desejo de ajudar os presbíteros e a Igreja no manejo de suas delicadas crises atuais. Seu trabalho evidencia grande conhecimento da situação hodierna dos presbíteros, em suas dimensões mais cruciais. E o melhor é que William não somente aponta problemas, conflitos e desafios, mas investiga minuciosamente suas possíveis causas, evitando soluções prontas e apontando caminhos possíveis em vista de soluções reais e não ideais, a partir da pastoral presbiteral, alicerça no trabalho da clínica psicossocial. Seu livro se destina a todos os estudiosos da análise institucional e, é claro, aos presbíteros e aos bispos abertos à discussão sobre os problemas que afligem a Igreja e a vida dos presbíteros. Sua leitura ilumina, enriquece, faz despontar horizontes novos de compreensão da realidade atual e deixa o grande desafio da pastoral presbiteral como caminho possível de cura e de prevenção de conflitos psíquicos, espirituais e pastorais.
Paulo Sérgio Carrara
Email: pecarrara@terra.com.br
1 Doutor em teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte (FAJE). Professor de Teologia no Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA) e na FAJE, em Belo Horizonte.
O livro Sofrimento Psíquico dos Presbíteros: Dor Institucional, de autoria do professor William César Castilho Pereira, já esta disponível, pela editora Vozes.
Chamado assim pelos monges antigos, “Tedium Vitae”, o tédio que nos assalta às vezes ou sempre, é um perigo muito grave para as pessoas incautas.
O (a) eremita que vive sozinho(a), tem que tomar muito cuidado com esse tédio, para não cair nas ciladas do maligno. É por causa desse tédio que muitas pessoas entram nas drogas ou no alcoolismo, ou adquirem vícios variados, como o jogo descontrolado, a mania de fazer compras (quando se tem dinheiro), mudanças desnecessárias, trocas insatisfatórias e tantas outras coisas.
É preciso adquirirmos, além de um hobby (um passatempo ou um artesanato), o hábito da oração. Sempre que estiver livre, pratique esse hobby ou entre em oração. A oração nos liga a Deus, que renova todas as coisas. Mas... rezar o quê?
Há várias sugestões:
1)- No monaquismo antigo, os monges rezavam o dia todo, durante o trabalho e no tempo livre, as jaculatórias (pequenas orações do tamanho de uma frase), como esta: “Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, tende piedade de mim pecador”.
Esse tipo de oração é ótimo para quem ainda não tem o hábito de rezar e quer adquiri-lo, pois aos poucos induz a pessoa pouco a pouco a um tempo maior de encontro com Deus.
2)- São João Maria Vianney, o “Cura D'Ars”, durante um tempo teve que substituir alguns padres doentes das proximidades de sua paróquia e dava longas caminhadas, rezando, e dizia que o tempo passava depressa. E passa mesmo!
O tédio da vida está, pois, aliado ao ócio, ou seja, a não ter o que fazer. Caminhar rezando o terço, por exemplo, ajuda muito.
3)- Adquira o costume de fazer a hora santa, em casa mesmo. Utilize livrinhos, até conseguir o costume de orar espontaneamente. “Rezar é olhar para Deus, amando-o”, dizia o Pe. Carlos de Foucauld. O Cura d'Ars dizia quase a mesma coisa: “Rezar é olhar para Deus, sabendo que ele está olhando para mim”.
4)-Faça a leitura orante da bíblia. Neste blog há um método, no índice, sob o título “Orações”. Consiste em ler um trecho da bíblia, refletir sobre ele, contemplar o que ele diz, rezar a partir do que se refletiu e se contemplou, e partir para a prática.
O tédio da vida nos leva, mais do que outras coisas, ao pecado. Combatê-lo e vencê-lo já é uma vitória muito importante para nossa vida a caminho da santidade.
Quanto ao hobby, que ele não comece a ocupar de modo fanático sua vida, a ponto de levá-lo(a) a deixar de lado a oração. Crochê, artesanato com barro, tapetes, pintura, cerâmica, bordado, artesanato em geral, são coisas que podemos aprender a fazer para uma vida sem tédio, como faziam os monges, cujo lema até hoje é “Reze e Trabalhe” “Ora et Labora”.
Há também muitos doentes e pobres precisando de nossa visita. Essas visitas nos ajudam muito a vencer o tédio.
Não perca tempo na televisão! O Pe. René Voillaume dizia que quem passa horas vendo tv, dificilmente terá tempo para rezar.
Sobretudo, adquira o costume de ler livros bons e isso fará você crescer espiritualmente e não ter problemas com o tempo.
(12/10/16
Quem já não sentiu tédio alguma vez em sua vida?
Gostei do conselho do Cônego Celso Pedro, num comentário da agenda bíblica deste ano: “Não tem o que fazer? Reze! Não sabe o que rezar? Reze o Pai-nosso”!
Quantas vezes, para passar o tédio, caímos em vícios ou comemos muito, ou fazemos coisas absolutamente inúteis!
São Carlos de Foucauld diz, sobre isso:
“O Senhor pedirá contas, no dia do Juízo, de toda palavra inútil, não somente das palavras inúteis ditas aos outros, mas também das palavras inúteis ditas a nós mesmos. Para que serve a solidão, se nós nela passamos nosso tempo, não para nos entreter com Deus, mas para ter conosco mesmos longos colóquios sobre coisas inúteis, mundanas, às vezes até más”? (do dia 17 de dezembro, do livrinho “Pensamentos do dia a dia”).
É preciso encontrarmos coisas úteis para fazer no dia a dia, sempre procurando ter nossa mente em Deus em tudo o que fizermos.
A leitura ajuda, mas não há nada melhor para tirar o tédio do que fazer algum trabalho manual, seja com a terra (horta, jardinagem), seja crochê ou tricô, pequena marcenaria, decoração, limpeza da casa etc.
Uma boa caminhada diária também é muito importante!
É... vamos procurar eliminar o ócio de nossa vida, para não cairmos em momentos de tédio. Vale a pena viver, mas numa vida dedicada a Deus e ao próximo. Não tem o que fazer? Enjoou de ler? Reze o Rosário!
(out. 2016)
O comendador Justino (nome fictício), riquíssimo, deixou toda a sua imensa fortuna para os dois filhos e três filhas que tinha, mas colocou uma condição para que eles tivessem direito à herança: conviverem um determinado número de anos juntos, sem brigas, com amor, honestidade, sinceridade, sem esbanjamento, com muita pureza e simplicidade.
É certeza que eles vão fazer tudo para cumprirem essa cláusula, para “botar as mãos” na fortuna imensa do pai.
Ora, Jesus, na cruz, deu-nos por herança dois valores incalculáveis: sua mãe, Maria: (Eis tua mãe, eis teu filho), e a vida eterna.
Maria nos leva a Jesus, que nos oferece a vida eterna , mas exige algumas condições: oi amor a Deus e ao próximo. Amor com “A” maiúsculo, que inclui a caridade, a misericórdia, a comiseração, o perdão, a convivência pacífica, a sinceridade, a simplicidade, a partilha, a pureza de coração etc.
Penso que o valor dessa herança deixada por Jesus, na cruz, é superior a qualquer quantia em dinheiro. Mas tenho certeza de que não temos tanto empenho em lutar contra nós mesmos para ganhar a vida eterna como teríamos para ganhar uma fortuna em dinheiro.
Hoje é 12 de outubro, dia de N. Sra. chamada com o nome de Aparecida, essa mãe tão terna que nos leva a Jesus pelo caminho da simplicidade, da convivência terna, pacífica, misericordiosa, entre nós. Cabe a nós levarmos a sério as exigências de Jesus e, um belo dia, nos encontrarmos todos lá no céu.
Estar no último lugar não é estar preso, ou doente, ou entrevado numa cama, ou não ter onde dormir, ou não ter o que comer, o precisar catar lixo para poder viver! Estar em primeiro lugar não é ter poder, nem ser rico, nem ser famoso, nem ser a rainha da Inglaterra, ou o presidente, ou estar livre!
Estar no primeiro lugar é estar sempre sem nenhum pecado. Isto nos dá uma grande alegria, tão bem comentada por Santa (Madre) Paulina, logo após ser destituída de presidente-fundadora da congregação religiosa que fundara, e rebaixada a uma faxineira comum e sem nenhum privilégio: “A presença de Deus me é tão íntima que me parece impossível perdê-la, e essa presença dá à minha alma uma alegria que não posso explicar”. Quem está no último lugar na “escala” dos homens, está nos braços do Pai e, portanto, no primeiro lugar na “escala” de Deus. Somos, pois, privilegiados!
Jesus, que estava no último lugar enquanto homem, achava-se no primeiro lugar, junto de Deus: “Eu e o Pai somos um” (João 10,30; 17,22; 14,10) – “O Pai está em mim, e eu estou no Pai” (João 10,38). Disse o padre confessor do Beato Carlos de Foucauld: “Jesus escolheu de tal forma o último lugar, que ninguém o poderá arrebatar”. Diz João 12,24: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto”.
Em Mt 11,28-30, Jesus acolhe os que estão no último lugar: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei. Tomais sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas, porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve”. E Isaías 49,15: “Ainda que a mãe se esqueça do filho a quem deu à luz, eu (Deus) não me esquecerei de vocês”.
Agora, os que estão fisicamente no último lugar (pobres, analfabetos, desempregados, doentes) e sentem dificuldade de se oferecerem a Deus e sentirem-se “bem-aventurados” (Mt 5,1 a12), devem ser ajudados por nós a chegarem à felicidade em duas etapas: na primeira etapa, procurarem ser felizes aqui e agora; na segunda etapa, poderem sair do último lugar e melhorarem suas vidas. Jesus nos aconselha a ajudarmos os que estão no último lugar, e até promete recompensa aos que os ajudarem (Mt 18,5; 10,42).
Escrevia-me uma Irmã Missionária da Consolata que eu apelidei de “Quinta Evangelista”, nascida em 1920, falecida em 2020, mais de 75 anos de vida religiosa, que ficara feliz em esperar o dia todo, no hospital, como os pobres, para “consertarem” o deslocamento de seu braço. A solidariedade com os que sofrem faz com que esqueçamos os nossos sofrimentos, e nos torna felizes: “Fiquei feliz em poder ter oferecido a Deus esse sacrifício, por todos aqueles coitadinhos que estavam sofrendo ali comigo (...). Agora que estou perto da eternidade, mais ainda quero fazer com amor e alegria tudo o que Deus permitir em mim, porque sei que Ele me ama e espera a minha resposta de amor” (da carta da Irmã).
Santa Faustina dizia que, com a graça de Deus, o nosso sofrimento pode transformar-se em prazer. É o que aconteceu com Jesus Cristo: À medida que se aproximava o fim, em que ele se aproximava da morte, ficava cada vez mais feliz, por saber que, com aquele sofrimento e entrega total ao Pai, estava nos salvando! Esse é um privilegio das almas puras (ou seja, sem pecado). O sofrimento nos purifica e nos torna aptos para recebermos toda a Santidade de Deus (Hb 12,10). Saber que estamos cada vez mais correspondendo à graça de Deus nos faz muito bem!
Tudo o que eu escrevi, aqui, tem como objetivo confortar os que estão no último lugar. É um lugar privilegiado, mas que nem sempre é compreendido e aproveitado para a vida eterna. O tempo de doença ou de qualquer sofrimento que nos deixe em último lugar, é um tempo “mágico” de purificação e santificação, se fizermos isso “de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens” (Colos 3,23). É claro que todos querem sair de seus sofrimentos, mas enquanto isso não acontece, devem aproveitar esse tempo para crescerem na fé, na santidade, e sentirem que estão reparando as faltas cometidas no passado.
Há uma ideia (um paradigma) de que a felicidade só é possível se estivermos em primeiro lugar. Jesus Cristo desmente isso, pois ele ocupou o último lugar, que nunca lhe será tirado, e sempre foi feliz.
Um doente grave está em último lugar, assim como um preso, ou um pobre que vive na miséria.
São Carlos de Foucauld escreveu a “oração da confiança” em que pede o que sobrou, o que ninguém pediu a Deus. Ele ali não pede nem riqueza, nem fama, nem poder, nem saúde, nem tranquilidade, nem o êxito, mas pede a insegurança, a inquietação, a luta e a tormenta. Mas pede também a coragem, a força e a fé para enfrentar tudo isso que está pedindo.
Uma das vantagens de estar no último lugar é que ninguém o inveja. Não se pode fazer planos; não se participa de nada. Não há trabalho digno, ou mesmo indigno. Às vezes a pessoa do último lugar só vegeta.
Quando promovemos os pobres e demais pessoas que estão no último lugar, devemos pensar principalmente em sua vida espiritual, não só na material.
Não basta simplesmente sair do último lugar: é preciso também buscar o Reino de Deus, converter-se das más atitudes, controlar as más tendências e buscar a santidade. Muitos apenas mudam de classe social, mas o interior deles continua mesquinho.
Colocar-se nas mãos de Deus é, mesmo sem deixar o último lugar, colocarmo-nos à disposição dele a cada dia da vida, sem desânimo e com muita confiança. Aliás, uma das coisas interessantes de se estar no último lugar é que não precisamos nos preocupar com nada, além do alimento: sem competições para cargos, sem medo das invejas, sem angústias, sem desesperos! Simplesmente somos esquecidos ali, e isso nos traz alguma tranquilidade.
O último lugar não é sinônimo de fracasso, nem de tristeza: é o conforto de se saber no mesmo lugar de Jesus na cruz, e a sensação de segurança que encontramos nele. Se lhe dermos a direção de nossa vida, ele a pilotará como nenhum outro e um dia, no céu, estaremos em primeiro lugar, com os anjos e santos. Amigos (as), acho que vale a pena!
Eis a oração da confiança do "corajoso" Carlos de Foucauld:
Dimas, Jesus e um outro ladrão agonizavam no alto do Calvário. Nenhuma esperança aparente. Tudo havia terminado. Os sonhos acabaram!
Um misto de terror e desespero aflorou na face do rapaz. Não esperava terminar assim seus dias na terra.
Olhou, do alto de sua cruz, o horizonte de Jerusalém. A tarde começava. O sol estava a pino, num dia quente de primavera. As flores formavam tapetes multicores nas campinas dos arredores. São muito belas as flores de lugares desertos!
Dimas reviu sua infância e sua juventude: sua mãe fora apedrejada à sua frente, por fanáticas autoridades religiosas. Tinha ele, então, oito anos de idade. Só depois ele soubera ter sido sua mãe apanhada em adultério. Ele só não entendeu, anos mais tarde, por que não apedrejaram também o homem que estava com ela!
Ele, num esforço, olhou para o lado e viu aquele jovem de 30 a 33 anos que morria ao seu lado, com uma sangrenta coroa de espinhos. Ele o vira várias vezes pregando um reino esquisito, em que não havia necessidade de roubos, pois todos teriam tudo! Não haveria brigas, pois todos se amariam; não haveria luta pelo poder, pois todos teriam os mesmos direitos e possibilidades.
Aquele jovem, que sabia chamar-se Jesus, defendera uma senhora pega em adultério! E, como sua mãe, não havia o homem com quem ela pecara. Dimas parecida estar ainda vendo a cena (João 8,1-11): os fanáticos arrastaram a mulher para perto de Jesus e lhe perguntaram se deveriam ou não apedrejá-la.
Dimas conhecia bem aqueles acusadores e sua hipocrisia! Vários deles já tinham estado com aquela mulher, e o que com ela estivera na última vez estava também com uma pedra na mão para atirá-la na coitada. Fazendo isso, estaria mais livre de suspeitas. Acusar, muitas vezes, é o subterfúgio que muitos usam para ficarem livres das críticas e das acusações. Acusar leva a atenção de todos para o acusado.
Voltando a olhar para o horizonte, Dimas viu o local fora dos muros em que apedrejaram sua mãe. “Se esse homem estivesse lá, minha mãe não teria sido assassinada como aquela outra que Ele salvou e perdoou e talvez eu não a teria tido a vida maldita que tive!”
Lembrou-se, então, dos crimes que cometera: assaltos, assassinatos, prostituições...
Veio à sua mente o bandido que o adotara após a morte da mãe. Ele o usava para roubos menores, nas praças, onde as pessoas se apinhavam para as compras, nas tendas e barracas em que se vendiam de tudo.
Menor abandonado! Era isso que Dimas fora! Um menor abandonado por todos! Uma escória da sociedade.
Voltou a olhar para aquele jovem que, coroado de espinhos, agonizava ao seu lado. Viu, então, aos pés da cruz, a mãe dele e um rapaz muito saudável, de seus 17 anos (São João Apóstolo): “Ele não foi um menor abandonado como eu! Eis sua mãe! Ele não foi desprezado! Eis um de seus amigos!”
Jesus era pobre, simples, operário, mas nunca foi abandonado, nem na vida, nem na morte: sempre estava acompanhado por algumas pessoas. Seus discípulos o abandonaram na crucifixão, mas nem todos. Sempre há os que permanecem fiéis.
Dimas olhou para baixo e não viu ninguém aos seus pés. Ninguém! Por mais pobre que Jesus tenha sido, Dimas, naquele momento, tinha a pior pobreza deste mundo: o abandono, o desprezo, a solidão visceral.
Em sua lembrança veio algo que disseram que Jesus falara “Felizes os pobres porque deles é o Reino dos Céus” (Lucas 6,20). “Como posso ser feliz, como pobre, abandonado e relegado a uma morte tão infame destas?”
Nisso ele ouviu uma frase proferida com muita dificuldade por Jesus:
“Pai, perdoai-os porque não sabem o que fazem!”
“Pai, perdoai-os! - Esse homem é realmente o Filho de Deus, como várias vezes afirmou! E se ele está pedindo ao Pai que perdoe esses desgraçados que o crucificaram injustamente – sim, pois ele só fez o bem – pode também me perdoar das besteiras que fiz durante a vida!”
Seu pensamento foi interrompido pelas imprecações do outro ladrão: “Não sois o Messias? Salvai-nos a vós mesmo e também a nós!” (Lucas 23,29).
Dimas sentiu uma ânsia de vômito. Tirá-los dali para quê? Para que eles voltassem a pecar, a roubar, a matar? Pelo contrário, se Jesus saísse dali, poderia continuar a fazer o bem para todos, mesmo para os que queriam matá-lo!
Dimas tinha a convicção de que aquele homem ao seu lado era santo, e o poderia introduzir num lugar melhor do que até então tinha vivido, por meio do perdão. Ouvira falar dos seus milagres e que até ressuscitara mortos! Aí caiu em si: “Meu Deus! Um homem que ressuscita mortos, que anda sobre o mar, que multiplica os pães e os peixes, que perdoa e pede ao seu Pai que perdoe a seus assassinos...”
Interrompeu os pensamentos para ouvir outra palavra de Jesus, dirigindo-se a sua Mãe e a João:
“Mulher, eis aí o teu filho! Filho, eis aí tua mãe!”
E continuou seu pensamento: “...Um homem que se preocupa em deixar a mãe protegida, por ser viúva e sem filhos, dando-a à proteção do jovem seu amigo...”
Viu que o soldado deu algo para Jesus beber e ele recusou.
“...Um homem que recusa beber algo que aliviaria sua dor, mesmo depois de ter dito que tinha sede! Se tinha sede, por que não bebeu o fel com vinagre que lhe deram? De que tipo de sede ele falara?”
E continuou:
“Se esse homem, com todo esse poder e com todos esses bons relacionamentos...”
Viu a túnica de Jesus e os soldados disputando-a na sorte.
“...Se esse homem, que tinha possibilidade de se vestir com tamanha dignidade, não quis sair da cruz para retomar a sua vida tão maravilhosa que até agora viveu... É porque está indo para um mundo muito melhor, para um reino muito mais bonito e justo do que este! E eu quero fazer meu último roubo: quero entrar com ele nesse reino!”
Tomando coragem conseguiu um pouco mais de fôlego para dizer ao outro ladrão, repreendendo-o:
“Nem tu, condenado ao mesmo suplício, temes a Deus? Nós, na verdade, estamos condenados com justiça, pois recebemos o castigo merecido por nossas obras, mas este nenhum mal praticou!”.
E voltando-se para Jesus, implorou:
“Jesus, lembrai-vos de mim quando vierdes com vosso reino!”
Na verdade, não esperava resposta alguma. Talvez aquele homem também fosse desprezá-lo, o que seria justo e natural. Mas arriscara “roubar” aquele reino que deveria ser maravilhoso.
Qual não foi sua surpresa quando Jesus olhou-o por entre as gotas de sangue que caíam de seus cílios e, num esforço supremo, por estar quase sufocado, disse-lhe como ninguém antes lhe tinha dito, com uma ternura que nunca mais ouvira depois que perdera sua mãe:
“Ainda hoje estarás comigo no paraíso!”.
Essas palavras o envolveram como um abraço materno. Entraram pelos seus ouvidos diretamente até o seu coração, acelerando sua pulsação. Aliviaram um pouco os tormentos daquela morte inútil, fútil e desgraçada.
Dimas conseguiu, então, sorrir, pois uma paz incrivelmente celeste o envolveu. Sentiu-se amado, “paparicado”, sentiu-se, ele também, filho daquela mulher que perdia o fruto de suas entranhas, filho do próprio Deus.
Por alguns instantes Dimas bendisse aquela cruz e aquela morte que, afinal, não estava sendo tão besta assim. Descobriu que era amado por Deus, na pessoa de Jesus, ali ao lado. Sentiu-se importante, pelo menos uma vez na vida, por ser digno de morrer ao lado daquele homem abençoado e tão querido de seu Pai celeste. Ele conseguira fazer o seu último roubo, e o mais rico de todos: roubara a Vida Eterna!
Nesse momento o sol, até então tão forte, foi coberto por nuvens escuras. Trovões e relâmpagos iluminavam em flashes de indignação aquela terra tão amada por Jesus, e as poucas pessoas que ainda ali permaneciam. Dimas ainda ouviu-o dizer: “Tudo está consumado! Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito!” - e morreu, em meio ao barulho ensurdecedor de um céu revoltado contra esse crime nefando: a criatura acabara de matar seu criador! O restante da criação não assumira esse crime. As aves do céu voavam em todas as direções, os animais uivavam de tristeza, a terra toda estremeceu, rompeu-se, e muitos corpos ressuscitaram. O terremoto atingiu o templo, e rasgando seu véu ao meio, apodrecido pela revolta de crime tão bárbaro.
Dimas, em meio a isso tudo, pela primeira vez sorriu, embora tudo lhe doesse terrivelmente. Olhou para as nuvens enegrecidas, para aquela verdadeira apoteose da natureza que chorava por ter perdido o seu criador, e, sorrindo, murmurou: “Daqui a pouco, Senhor, eu estarei livre para alçar voo até o vosso Reino! Daqui a pouco eu me libertarei desta vida de horrores para a vida eterna ao vosso lado! Daqui a pouco eu vos abraçarei no vosso reino!”
Após algum tempo chegou um oficial e enfiou a lança no lado de Jesus, fazendo brotar sangue e água. Dimas percebeu que chegara sua hora de morrer, pois o oficial lhe iria quebrar as pernas, tornando impossível a respiração.
Quando ele sentiu a pancada em suas pernas, deu um maravilhoso e sereno sorriso para aquele cenário tão inusitado e ainda teve tempo de balbuciar:
“Este foi o meu golpe de mestre! Meu melhor roubo! Obrigado, Senhor!”
20/10/2018
Eu acabara de entrar na capela do mosteiro de minha cidade. Não cabe muita gente. Estava lotada. Eu meditara, em casa, antes de sair, um dos textos em que Jesus fala contra a hipocrisia dos fariseus e doutores do templo, quando pareciam ser piedosos, mas se esqueciam da misericórdia e do amor ao próximo.
Aí eu vi um exemplo do descuido que às vezes praticamos sem notar: um jovem de uns 25 anos ocupava três lugares no único banco vazio: um lugar para seu corpo, um para seu capacete de motoqueiro, outro para a mochila. E ficou assim a missa toda. Nenhum dos que estavam em pé tiveram coragem de pedir-lhe que colocasse a mochila e o capacete diante dele, pois como era o último banco e estava ali por causa da reforma da igreja, era mais afastado do banco da frente que os demais.
Era impressionante a devoção com que esse rapaz rezava. Entretanto, nossa oração só será ouvida por Deus se for baseada no amor ao próximo, na gentileza, na caridade. O que dá força e “poder” à oração não são as palavras fortes, mas o modo como a gente vive a vida. Jesus disse aos apóstolos noutra ocasião: “Até agora não pedistes nada”. Mas eles sempre pediam tantas coisas! Mas talvez não pedissem do modo correto.
Os santos sabiam o modo correto de pedir: Sua vida de oração foi fecunda e promissora porque estava baseada numa vida de caridade, de amor ao próximo. Não tem sentido eu orar pisando os outros ou me desligando dos sofrimentos e das necessidades alheias. Nossa oração deve ser baseada numa vida de preocupação pelo bem estar alheio. Aí, qualquer oração que você fizer a Deus será uma “oração poderosa”.
O mesmo digo em relação a outros pecados e falhas que cometemos em nosso dia a dia, que atrapalhem muito a oração. Quer um exemplo: pegar os melhores pedaços de mistura, no almoço, e deixar os outros sem nada ou com menos. Ao abrir uma melancia para ser comida em comum, pegar a parte carnuda e deixar a casca para os outros. Por que às vezes achamos que temos mais direitos do que os demais?
Publiquei um artigo da Gaudium Pres em que o papa fala dos “demônios educados”. Pois esse costume de não atentarmos para o bem estar dos outros é obra desses demônios educados. Parece que não há nada de errado, mas estamos fazendo uma tremenda falta de caridade. E depois não sabemos por que nossa oração não foi atendida...
Era impressionante o fervor daquele rapaz que ocupava três lugares numa igreja lotada e com gente em pé. Mas... será que sua oração era agradável a Deus? Jesus fala aos doutores do templo que, para serem purificados, não adianta lavar as mãos. É preciso dar esmolas! (Lucas 11, 41).
29/10/2018
Muitos falam que estamos no fim dos tempos por causa das barbaridades que se cometem, das catástrofes etc. Eu sempre respondo que isso não é bem assim. Nos tempos antigos tudo isso ocorria. Uma parenta minha, já falecida, casou-se grávida de três meses em 1920! E apertava a cintura para não aparecer, pois nesse tempo isso era inconcebível.
Nos tempos do império romano milhares de cristãos morriam comidos pelas feras! Na Idade Média, outros milhares morriam pela peste e pelas guerras...
Sempre aconteceram essas coisas. Talvez agora estejam mais visíveis! Mas o mundo sempre foi assim: procura a felicidade onde ela não está.
Atualmente, a duras penas, consegui aprender, aos mais de 70 anos de idade, que o único modo de eu ser feliz é agir conforme Deus me planejou. Se sair disso, ele respeita minha vontade, mas não vou ser feliz.
Uma pessoa rica, por exemplo, por mais que tenha dinheiro, vai se satisfazer com uma determinada quantia de alimentação, tanto quanto como uma pessoa pobre. A diferença é talvez o requinte da comida. Por mais dinheiro que tenha, não poderá comer mais do que o corpo aceitar.
Numa das paróquias em que vivi, bem abastada, as mulheres quiseram fazer um Natal para os pobres de um bairro pobre vizinho. Não me pediram nenhum palpite. Foi um tremendo fracasso. Sabem por quê? Fizeram comida de rico, sofisticada, com “issos e aquilos”, e os pobres não estavam acostumados com esse tipo de alimentação. Elas vieram chorar as mágoas comigo. Eu lhes disse que falassem comigo no ano seguinte. Foi o que fizeram. Aconselhei-as a fazerem comida simples, como arroz, feijão, frango, macarronada e uma salada bem simples. Foi um sucesso! Todos comeram de se lambuzar!
Isso nos ensina que a felicidade não está na comida sofisticada, requintada. Esses pobres foram mais “felizes” com a comida simples do que com a comida sofisticada.
Na minha opinião seremos felizes na proporção em que seguirmos as orientações de Jesus que, enquanto Deus, nos criou com o Pai e o Espírito Santo. Deus nos criou baseado em determinados parâmetros. Se nós os seguirmos, seremos felizes, pois estaremos seguindo os caminhos pensados por Deus a nosso respeito.
É como, por exemplo, querermos lavar meias num liquidificador. Não dá! O liquidificador não foi feito para lavar meias. Ser feliz contrariando o projeto de Deus nunca dará certo.
A felicidade está onde está Deus. Se procurarmos evitar o pecado, abrirmo-nos à caridade gratuita (sem querer nada, nem mesmo agradecimentos), aprendermos a conviver de modo equilibrado em tudo o que fizermos, darmo-nos à oração, aí seremos felizes
(16/06/2012)
Essa historinha nos foi contada pela Irmã Selma, há uns 34 anos.
Havia uma freira que tinha um papagaio que só falava palavrões, xingando-a e lhe ofendendo. Mesmo sabendo que o bichinho era irracional, ela se preocupava muito com isso, pois a envergonhara várias vezes diante dos outros.
Certo dia, numa reunião com o bispo do local, que também possuía um papagaio, soube que ele sabia a Missa toda de cor, e constatou ela própria essa maravilha, ao ouvi-lo pessoalmente.
Ficou muito interessada nisso, e pediu ao Sr. Bispo se poderia deixar por algum tempo a sua ave na casa dele, para que aprendesse pelo menos alguma parte da missa e não mais falasse palavrões. Ele aceitou o pedido da Irmã e assim foi feito. Alguns meses depois a freira resolveu ir buscar o papagaio na casa do Sr. Bispo. Chegando lá, entrou e, ao pegar o bichinho, ele a xingou com todo o repertório de palavrões de sempre. Ela ficou desanimada e triste. Entretanto, seu ânimo piorou quando, mal seu papagaio havia falado os palavrões, desejando-lhe todas as coisas más e indesejáveis, o papagaio do Sr. Bispo, conhecedor que era da missa toda, gritou da cozinha: “Senhor, escutai a nossa prece!”
Eu uso muito essa historinha para mostrar que precisamos ter cuidado com nossas orações, pois às vezes elas desejam vinganças e coisas más para as pessoas.
Há salmos, por exemplo, que nunca devem ser rezados, ou pelo menos que se pule aquelas partes maldosas.
Quer um exemplo? O salmo 137 (136), embora seja muito bonito, a ponto de merecer uma música que na língua inglesa transcrevia quase o salmo todo (em português a Perla cantou uma versão horrível, que nada tinha a ver com o original): “By the rivers of Babylon”,embora bonito, termina tragicamente, com palavras que NUNCA deverão ser rezadas: “Feliz quem agarrar e esmagar teus nenês contra a rocha!” (v. 9).
É claro que essa parte não foi inspirada por Deus. No saltério da liturgia das horas, esse e certos versículos de outros salmos são omitidos.
É, minha gente! É bom rezar, mas com muito cuidado! A vingança e o desejo de que os outros se danem não são coisas que agradam a Deus!
(Dois textos sobre o mesmo assunto, escrito em datas diferentes)
Jesus rezava sempre, antes de tudo o que fazia, em todas as ocasiões, de madrugada, no meio do povo, e nisso deu-nos bom exemplo. Temos que rezar pelo menos duas horas diárias, que é quase o dízimo do dia em termos de oração. O dízimo seria duas horas e vinte e quatro minutos. (Os eremitas, é claro, rezam mais do que isso). Quem quiser progredir na virtude, tem que rezar. Não há outro modo, outro caminho. Sem a oração, nunca conseguiremos nos encontrar com Deus e mudar a nossa vida para a santidade.
Hoje em dia, mais do que nunca, precisamos aprender a nos isolar no meio do barulho, que hoje é tão constante, e no meio das pessoas para entrarmos em contato com Deus e ao mesmo tempo nos aprofundarmos em nossa vida.
Sobre a oração, seria bom ver também Mateus 14,19.23; cap. 26,36-44; Marcos 1,35; Lucas 5,16; cap. 15, 36; cap. 26,26-27; cap. 3,21; cap. 6,12; cap. 11,1; cap. 9, 18.28-29; João 17,1-5; cap 14,16 e muitos outros trechos.
A oração pode ser individual ou comunitária, vocal ou mental e de contemplação. Muitos fazem a leitura orante da bíblia, que consiste nestes passos:
– ler um trecho bíblico;
– meditá-lo;
– orar sobre o que meditou;
– contemplar Jesus baseando-se no texto e na oração.
Diz Santo Agostinho que o Pai-nosso é a oração mais completa que existe, e que não há nenhum pedido que não esteja incluído nela. No Pai-nosso fazemos sete pedidos, sendo três relacionados à glória de Deus e quatro relacionados à nossa vida. Veja o Pai-nosso em Mateus 6,9-13.
Há no Novo Testamento algumas parábolas que falam da oração. Veja e medite sobre o que elas dizem: Lucas 11,5-8, o amigo importuno; Lucas 18,1-8, o juiz iníquo; Lucas 18,9-14, o fariseu e o publicano.
Diz 1ª Tessalonicenses 5,17: “Orai sem cessar”, ou seja, sem desânimo. Se nos mantivermos sem pecado, tudo o que fizermos de bom será recebido como oração. Se não recebermos as graças, é porque Deus tem outros planos em seus desígnios. Entretanto, não nos iludamos: um tempo diário só de oração é muito importante e necessário. Jesus ficava o dia todo curando pessoas, pregando o evangelho, mas se retirava, de madrugada, a um lugar deserto para orar, sozinho, ao Pai. Veja isso em Marcos 1,29-39. É muito comodismo nosso deixar a oração pessoal achando que basta fazermos o bem.
Outro esclarecimento: A oração, em si mesma, não é poderosa, como vemos em propaganda: “Oração poderosa ao menino Jesus de Praga”, ou coisas desse tipo. Qualquer oração, se for feita com sinceridade, vai ser ouvida por Deus, nenhuma delas ficará sem resposta. Se Deus não nos atender do modo como pedimos, vai talvez dar um direcionamento diferente ao nosso pedido, de modo que estejamos sempre juntos a Ele, agora e depois de nossa morte.
Confiemos plenamente nele! Ele sabe o que é melhor para nós, e para executar seus planos, só precisa de nosso consentimento, que é dado pela oração. Na verdade, não são tanto as palavras da oração que movem Deus a nos ajudar, mas o simples fato de estamos ali, diante dele, pedindo que Ele interfira em nossa vida. É o que eu entendo com Apocalipse 3, 20; “Eis que eu estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos juntos.” Pela oração, estamos abrindo as portas de nossa vida a Ele, para que Ele possa executar em nós o plano que tem a nosso respeito.
Nesse sentido, eu acho horrível e muito errado obrigar Deus a fazer o que quer que seja para nós, “determinando” a graça, como ouvi em programas evangélicos e até católicos. Não podemos determinar a graça de Deus. Ele que nos conceda o que bem entender! Veja o que diz Tiago 4,3-4 e 14-16 a esse respeito: em tudo busquemos a vontade de Deus.
Quanto à oração comunitária, devemos participar sempre que pudermos. Se não pudermos participar da Missa ou da Liturgia da Palavra pelo menos uma vez por semana, busquemos a companhia de alguém e façamos com essa pessoa uma leitura bíblica, conversemos um pouco sobre essa leitura e façamos uma oração em comum. Esse costume cumpre, de certa foma, a obrigação de participarmos da S. Missa uma vez por semana, principalmente nos domingos. Eu fiz isso várias vezes, nas férias, quando não havia nenhuma igreja perto e nenhum modo de celebrar a Missa.
Quanto à vigilância, veja Mateus 26,41; 1ª Pedro 5,8-9; 1ª Timóteo 4,26; Marcos 13,33-37; Apocalipse 16,15. Jesus insistiu muito sobre a vigilância. Sem vigiar, não adianta rezar. Vigiar é precaver-se dos perigos de pecar. Para isso, precisamos nos conhecer bem, nos aceitarmos como somos, sermos humildes. Não fiquemos feito bobos dando rodeios! Sejamos humildes e saibamos que precisamos vigiar, que não temos forças para enfrentar certas situações perigosas. Aceitemos nossas limitações, sejam elas quais forem! Não adiante mentirmos para nós mesmos. Se quisermos dar uma de valente, vamos nos esborrachar no chão.
Quando você perceber que vai entrar numa situação em que é fraco, tente não entrar nela, e vai ser mais fácil vencer. Exemplos: Para vencer o vício de fumar, nunca fume o primeiro cigarro; contra o vício de bebidas alcoólicas, nunca beber o primeiro trago; para vencer a antipatia contra alguém, previna-se de bondade e paciência logo que perceber que irá encontrar esse alguém. E assim por diante. Isso é vigiar.
Diz João 8, 32: “ A verdade vos libertará”.
Ser puro de coração (Mt 5,1-12 ) é não usar máscaras, não ser fingido, nem falso, nunca mentir. A mentira nunca nos levará à santidade. Se quisermos recomeçar nossa vida, temos que mudar o caminho, pois se seguirmos pelo mesmo que até agora usávamos, vamos chegar ao mesmo objetivo: nossa ruína. Se quisermos atingir um objetivo melhor, mais santo, temos necessariamente que tomar outro caminho.
Grave isto: seja sempre sincero, tanto com você mesmo como para com os outros. Nunca minta, nunca se engane com falsos atributos dados a você para você mesmo. Ou seja: assuma sempre suas fraquezas e limitações! Aceite-se primeiro, para depois mudar.
A IMPORTÂNCIA DE VIGIAR.
Para vigiar, precisamos nos conhecer profundamente, aceitar nossas más tendências e problemas, pedir perdão a Deus de tudo isso e passarmos a evitar qualquer ocasião que nos leve a praticar aquilo que é ou possa se transformar num pecado. Diz João 8, 32: “A verdade vos libertará”. Só sendo verdadeiros consigo mesmos é que conseguiremos garra, força de vontade para vigiar nossos próprios atos.
Eu disse que é preciso conhecer-se profundamente porque só a própria pessoa pode saber no que é forte e no que é fraco. Quando você perceber que vai entrar numa situação em que é fraco, tente não entrar nela, e vai ser mais fácil vencer. Exemplos: Para vencer o vício de fumar, nunca fume o primeiro cigarro; contra o vício de bebidas alcoólicas, nunca beber o primeiro trago; para vencer a antipatia contra alguém, previna-se de bondade e paciência logo que perceber que irá encontrar esse alguém. E assim por diante.
Isso é vigiar.
Só uma pergunta hoje: Quanto tempo você passa dormindo e quanto tempo você passa rezando?
Descobri a duras penas que não devemos separar o vigiar e o orar. Separadas são ineficazes. De nada adianta orar, rezar, se não se vigiar as próprias atitudes e se acabar caindo em pecado. Acrescento, também, o “pedir ajuda”, como o fazem tão bem as pessoas alcoólatras do A.A. Em muitos lugares é preciso vigiar em dobro, principalmente em ambientes maliciosos, dispersivos e negativos.
Deus respeita o nosso livre-arbítrio (nossa capacidade de escolha e decisão) e não vai forçar nossas decisões. Se não vigiarmos, Ele não poderá nos ajudar, a menos que, na oração, lhe dermos liberdade de fazer conosco o que Ele bem entender. Eu gosto de meditar estes trechos sobre a vigilância e aconselhei ao Zé que os meditasse: Mt 26,41; Mc 13,37; Lc 21,36; Mt 24,42; Mt 25,13; Lc 12,37; 1a Cor 16,13-14; Ef 6,18; 1a Tes 5,6; 1a Pd 4,7; 5,8; Apoc 16,17: “Eis que venho como um ladrão: feliz aquele que vigia e conserva as suas vestes (= a veste batismal) para não andar nu e deixar que venham sua vergonha”. Lucas 21,36: “Ficai acordado, portanto, orando em todo momento, para terdes a força de escapar de tudo o que deve acontecer e de ficar em pé diante do Filho do Homem”.
A vigilância só é possível com a humildade e a confiança em Deus. Nós somos irremediavelmente fracos. Não temos força, sem a ajuda dele. Vigiar é evitar, logo no início, qualquer situação de pecado. O pecado é como um tobogã: depois que começarmos a descer, não há como parar. Já a oração é como Jesus diz Apoc 3,20: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo”.
A oração não substitui a vigilância, mas abre as portas para que Jesus possa agir em nossa vida. É preciso ouvir a Jesus: “Fala, Senhor, que o teu servo escuta” (1a Sam 3,10); “Dá-me Senhor, um coração que escuta” (1a Reis 3,9).
Veja a história do fariseu e do publicano (Lc 18,10-14), em que o publicano, pecador, mas humilde, foi ouvido por Deus. Outras pessoas se humilharam e foram atendidas: a samaritana (João 4,6-42); a mulher adúltera (João 8,3-11); Mateus (Mt 9,9-13); o paralítico (Mt 9,1-9); a pecadora (Lc 7,37-50); Zaqueu (Lc 19,1-30); o “bom ladrão” (Lc 23,39-43). Em 1a João 1,7-10, vemos que é preciso reconhecer nossos pecados para sermos perdoados. A prisão ajuda a ir ao encontro de Deus justamente porque humilha e reduz a nada as pessoas!
Deus sempre nos ouve (João 15,16): “O Pai de vocês dará qualquer coisa que pedirem em meu nome”. O problema é, que às vezes, pedimos a Ele coisas que vão nos afastar do bom caminho. Aí vamos receber outra graça, e não a que pedimos. Às vezes estamos pedindo veneno. Deus dá, em lugar do veneno, uma vitamina! Não é assim que fazemos com nossos filhos?
Diz Efésios 3,20: “Deus é poderoso para realizar por nós, em tudo, infinitamente além do que pedimos ou pensamos”. Ora, Ele sabe do que necessitamos, mas quer que nós lhe peçamos muitas vezes para nos conscientizarmos daquilo que estamos pedindo e darmos valor quando o recebermos. Precisamos pedir sempre, sem nunca desistir. Leia Lucas 18,1; Lucas 11,5-13: Jesus promete que dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem. “Orar é pensar em Jesus, amando-o”, dizia o Beato Carlos de Foucauld.
Os crentes criticam os católicos, dizendo que “repetimos orações” e que Jesus teria proibido tal coisa. Isso não é verdade. O que Jesus proibiu é que nós rezássemos como os pagãos, que achavam que os seus deuses eram obrigados a lhes atenderem, se ficassem repetindo orações. Jesus nos atende se, como e quando Ele quiser. Insistamos em nossos pedidos! É o que Ele nos diz, no caso da viúva e do juiz (Lc18,1).
Não Existem orações poderosas! Deus vai nos ouvir ou não, não tanto pelas palavras, mas pelas intenções reais de nosso coração. Em Isaías 1,11, Deus diz que só ouvirá as pessoas depois que pedirem perdão da falta de caridade. Em Amós 5,21-25 = só ouvirá os misericordiosos. Em Mt 11,25-26 = só ouvirá os que perdoarem aos que os ofenderem.
Cada um sabe o seu tempo diário de oração! Cada um sabe o quanto deve orar. Comece com alguns minutos e vá aumentando um pouco por semana, até chegar ao tempo ideal para seu sustento. Talvez o dízimo do dia, que seriam 2h 24m!
Quanto à posição do Corpo na oração, escolha uma em que você esteja confortável. Quando a oração for comum, siga as orientações do dirigente.
Os doentes, sofredores, moradores de rua, cegos, deficientes físicos, desempregados, num grupo, e os menores infratores, ladrões, assassinos, traficantes, prostitutas, garotos de programa, dependentes químicos, alcoólatras, num outro grupo. Há também um terceiro grupo de marginalizados da sociedade, que são os milionários e os ”ídolos” do cinema, música e tevê.
Essas pessoas todas se isolam em pequenos grupos e acabam não participando da vida comum da sociedade. Vamos nos ater aos pobres, que são marginalizados pelos ricos.
Jesus nasceu pobre, mas não na miséria, como tantos hoje vivem. Havia, no tempo dele, pessoas marginalizadas, como os doentes, leprosos, pecadores, possessos.
Jesus viveu a vida toda na classe pobre. Quando ele tocava algum marginalizado para curá-lo, não descia de classe, mas curava a pessoa e esta é que “subia” da classe dos legalmente impuros para a classe dos purificados.
O estudo pode ser um meio de se sair da marginalização, assim como o trabalho, quando feito por gosto e com sabedoria. Um faxineiro, por exemplo, com estudo, pode saber, melhor do que os que não têm nenhum estudo, como melhorar suas condições econômicas, financeiras e na sociedade, até que se forme e comece a exercer sua profissão. Ele se sobressai em qualquer coisa que faça.
Jesus não quer ver ninguém vivendo na miséria. Quando manda renunciar a tudo o que se possui, se preocupa com os que vivem na abundância e se desviam do bom caminho: acabam “descartando” Deus de suas vidas.
“Felizes os pobres em espírito” (Mt 5,3). O que é ser pobre em espírito? O Beato Carlos de Foucauld dizia: “Nós temos conosco, ao redor de nós, um Pai que nos ama com um amor infinito e que é Todo-Poderoso. E por que então estaríamos inquietos pelas coisas materiais? Que loucura”!
Diz mais: “Você é meu irmão, o que me pertence é seu; um pouco de lama ou de lã não me separará do meu irmão. Eu o amo, tome tudo o que você quiser; querendo você mais, tome mais, tome tudo, tudo o que eu tenho é seu, irmão bem amado. Eu o amo, tudo o que eu tenho é seu”.
Os continuadores do pensamento do Irmão Carlos de Foucauld foram o Pe. René Voillaume e a Irmãzinha Madalena. Eles diziam que o ideal de pobreza é a que vive um operário comum.
Atualmente penso que uma família deve ter possibilidade de possuir casa, automóvel, tirar férias, estudar os filhos, alimentar-se bem, ter possibilidade do lazer.
A vida de maior pobreza deveria ser seguida pelos (as) religiosos (as), mas, como diz Felicisimo (sic) Diez, as congregações religiosas deveriam “repassar” o dinheiro extra que entra para os pobres, em vez de embelezarem fazerem reformas sem fim nos prédios e pertences da congregação. Não basta que seus membros sejam pobres. A congregação também deve ser.
As congregações inspiradas no Beato Carlos de Foucaul vivem essa vida simples, mas têm poucas vocações. As Irmãzinhas de Jesus trabalham como operárias ou empregadas domésticas, ou faxineiras, ou em qualquer profissão pobre. Os Irmãozinhos de Jesus e os Irmãozinhos do Evangelho, idem. Vivem plenamente inseridos na vida do pobre.
Enfim, ser “pobre em espírito” é, mesmo com a capacidade de ganhar bem, renunciar parte disso para partilhar com os pobres e necessitados.
Nosso modo de vida deve ser de economia, nunca desperdiçarmos, vivermos de nosso trabalho, nunca às custas dos outros, evitando o que for supérfluo, o consumismo desnecessário, as falsas necessidades criadas pela mídia. Que nossa casa seja simples, mas confortável e nossas visitas possam sentir-se à vontade, sem aquelas manias de que não podem sujar isto ou aquilo, tendo que tomarem cuidado exagerado com a limpeza da casa. Havia uma vizinha de casa assim! Quando eu entrava na casa (eu tinha uns 10 anos), ela me seguia com a vassoura, varrendo meu rastro. O resultado é que nunca mais fui à casa dela.
Quanta gente viveu e vive a pobreza evangélica! Acreditemos neles! Foram pessoas felizes, sem traumas, sem depressões, numa paz e energia de ação social invejáveis!
Nunca podemos abandonar os marginalizados, sejam eles pobres ou ricos. Um doente, por exemplo, é um necessitado, mesmo sendo rico! Um dia não haverá mais necessitados, como diz S. Paulo, e “Deus será tudo em todos” e, como acrescenta Sto. Agostinho, não haverá mais desejos, porque Deus é tudo o que uma pessoa pode desejar!
Alguns dizem: “os pobres são assim porque são preguiçosos” A preguiça dos pobres muitas vezes vem da má alimentação. Não basta dar dinheiro, mas é preciso remover o empecilho que os impedem de viver uma vida mais tranquila.
Alguns vendem os alimentos recebidos pelas entidades sociais para comprarem drogas, cigarros, bebidas... É uma realidade triste, mas também um desafio real: transformar as más inclinações das pessoas. Tarefa difícil, que só se consegue com os mutirões de ações, em que todas as facetas das pessoas sejam abordadas. Os cursos rápidos de capacitação também são eficazes, como corte e costura, tricô, crochê, marcenaria, pintura, de pedreiro, padeiro etc.
Jesus nunca deu dinheiro aos pobres de seu tempo: deu-lhes alimento e a cura, para que pudessem ganhar o próprio sustento. Como diz o Pe. René Voillaume em seu livro “Irmão de Todos” (nós publicamos um resumo no site), Jesus curou apenas algumas pessoas, encontrou-se com algumas outras, mas nunca agiu para multidões. Aliás, ele próprio era pobre!
Outro problema é não dar apenas a promoção material, mas também e especialmente a espiritual. Não adianta nada promover o pobre e deixá-lo ateu ou sem a palavra de Deus! Seria bom que ele participasse de algum pequeno grupo da comunidade, onde poderia ser melhor ajudado e promovido. Aliás, precisamos tentar criar mais os pequenos grupos, a fim de que essas pessoas possam sentir-se bem, mais à vontade, do que na multidão.
Se assim agirmos, a luz de Deus resplandecerá sobre nós. Muitos pobres não frequentam a Igreja (com i maiúsculo e minúsculo) porque lá não se sentem à vontade. Essa é uma grande verdade!
O sistema evangélico é menos “pesado” que o católico e atrai, por isso, mais pessoas. Precisamos “desburocratizar” nossas comunidades, deixá-las mais acessíveis! Formar mais comunidades de base nos bairros! Aliás, temos muita coisa nesse sentido, mas quase não são conhecidas, ou muitas vezes limitam-se à ação política e acabam deixando a vida de oração de lado, muitas vezes passando a confiar mais na força física ou mental do que no auxílio divino. Se os evangélicos conseguem, por que não nós? Deus por acaso não é Todo Poderoso? Quem o segue pode passar fome? Ou você duvida?