19/11/2019
Para mim, a arte é um modo humano de contemplar e reproduzir a obra de Deus. É a captura da mensagem de Deus em suas obras e a expressão delas de algum modo, conforme a própria capacidade e imaginação..
Eu gostaria muito de saber, mas não sei pintar. Rabisco algumas poesias, que acho que de poético não tem nada, mas algumas delas me agradam. Outra coisa de que toda a vida gostei é fotografar. Meu pai tinha uma daquelas câmaras antigas, tipo caixinha, de 8 fotos, que a gente mandava revelar depois de tiradas. Eu acabei gostando também de fotos, mas não sei fotografar como profissional. Continuo amador.
Essas duas fotos que tirei hoje à tarde, durante minha caminhada diária, me encantaram. Senti-me como que um admirador da arte divina. Pensei como há tantas outras cenas da natureza muito mais belas do que estas, mas poucos têm a oportunidade de admirar. Na verdade, todos os dias deparamos com artes finíssimas da natureza, mas passamos reto, não percebemos. Que pena!
Às vezes percebo, por exemplo, florinhas delicadas, pequenas, escondidas, que mostram, em sua singeleza, todo o poder de um Deus Criador inventivo e que não se repete.
Eu acho que percebemos mais o poder de Deus nessas coisinhas pequenas do que nas obras enormes, como as estrelas e planetas, por exemplo. Você já percebeu o tamanho minúsculo de certas formiguinhas que invadem nossas casas? Como pode viver um bichinho desses? Tem um conjunto de órgãos que funcionam, que agem, que produzem alguma coisa. O faro da formiga alcança uma distância enorme. Sua força é descomunal pelo seu tamanho. Tudo isso é obra de Deus. E quando percebemos essa magia que existe na natureza, e a interpretamos de alguma forma visível, isso se torna arte.
Acontece muitas vezes que a arte brotada de alguém é pesada, sombria, cheia de "labirintos". É o que eu disse acima: cada um expressa o que sente de acordo com sua capacidade e visão. E o que essa pessoa expressa é o que resultou, em seu íntimo, a visão ou a sensação que teve de alguma coisa.
Acredito também, baseado nisso que acabei de dizer que, se a pessoa está de bem com a vida, com Deus, com a sociedade, sua arte vai expressar claramente isso.
O meu desejo sincero é que todos nós, mesmo os que nunca observam a natureza, possamos perceber melhor o que está à nossa volta.
Marga (PSSC= Petit Soeur Sacré Coeur)
(Traduzida pelo Prof. Pedro Paulo Scandiuzzi)
Ir ao encontro do outro requer uma forma especial de atenção “uma atenção nazarena”
Chamados a nos descalçar para acolher Deus que se revela a nós sobre a terra do nosso cotidiano, convidados a embarcarmos ao ritmo de uma vida pacífica que nos permite de centralizar nosso coração no essencial...
Tudo isto exige nascer em nós, pouco a pouco, uma ‘atenção” especial.
Os evangelhos mostram Jesus como um homem extremamente atencioso, capaz de perceber detalhes que passam despercebidos a outros.
Esta atenção pede uma capacidade que leva uma longa aprendizagem e bons mestres. Maria e José ensinou a Jesus de não se prender nas aparências mas sim no interior das pessoas e perceber valores nos pequenos gestos de total generosidade que são as partilhas dos pobres (a viúva do templo).
Esta atenção fez de Jesus um homem contemplativo que descobre a ação de Deus no mundo, a presença do Reino no meio dos homens apesar de todas as aparências.
Graças a esta atenção contemplativa, Jesus percebe as dores mais profundas da humanidade ferida e encontra “a palavra e o gesto oportunos” para curar e consolar.
A espiritualidade de Nazaré é uma escola privilegiada de atenção, a atenção profunda do coração. Existe efetivamente uma forma de “atenção” necessária para viver em sociedade mas, afinal das contas, superficial e que se reduz às cortesias, às boas maneiras. Uma pessoa pode ter uma outra ‘certa atenção’ que respondem a códigos precisos de urbanidade, sem por isto estar verdadeiramente atenta ao que o outro vive ou sofre.
A atenção profunda que nos ensina Nazaré nasce da paz interior e não pode se desenvolver no meio de stress. Por isto, uma ‘higiene de vida’ psicológica, espiritual, de relações, é tão importante....Não devemos acumular de compromissos, de encontros, de leituras, de formação....
Buscar uma atenção que permite encontrar o outro, de acolher, de escutar em profundidade. Quantas vezes nós vemos sem olhar, e ouvimos sem escutar! Nossa cultura cheia de estímulos visuais e sonoros não nos ajudam muito. É porque a atenção que Nazaré propõe é um valor contra-cultural que nos anima a viver bem inseridos no cotidiano. Veja alguns exemplos cotidianos desta atenção que me permite ir ao encontro do outro no ‘meu Nazaré’ (cada um pode encontrar outros exemplos):
Eu não posso dar um pedaço de pão a todas as pessoas que pedem no metrô, mas eu posso fechar o meu romance ou deixar o meu celular e escutar o que a pessoa do meu lado diz, a fala de cada um, a fala monótona e pouco crível. Eu posso deixar penetrar por aquilo que a pessoa diz, eu posso acolher seu sofrimento ou seu desespero, eu posso apresentar esta pessoa a Jesus...
Eu não posso evitar as guerras nem a confrontar mas eu posso estar atento a ‘salvar a proposição de cada um’ concedendo o benefício da dúvida. Eu posso calar a boca e não jogar palha sobre o fogo em uma discussão que não leva a nada.
Eu posso ajudar um irmão ou uma irmã sem que eles me peçam. Eu posso responder com humor e não com violência a uma pessoa que vive no meu pé o dia todo.
Essas são algumas formas de atenção cotidiana, com pé no chão, mas que verificam concretamente e com realismo os grandes valores que nós estamos engajados a viver.
Certamente, a atenção mútua da Santa Família de Nazaré conheceu também situações que, na sua banalidade e sua pouca importância, forjaram pouco a pouco o aprofundar contemplativo de Jesus.
Obs.
PSSC (Petit Soeur Sacré Coeur – irmãzinhas do Sagrqado Coração – primeiro grupo de religiosas que seguiu as pegadas do ir. Carlos)
Descalçar : no mundo muçulmano para rezar é necessário tirar os sapatos e deixar na porta do templo.
Texto retirado da pag. 27-28 do boletim das Irmãzinhas do Sagrado Coração – janeiro de 2018
Ele tomou fez critérios de como vive a nossa sociedade atual... a pobreza como a possível vinda amorosa daqueles que nada em, pois somos libertos de nossos apegos, pobres para ser livres, livres por amor, como Jesus... o celibato evangélico como audácia para aproximar daqueles que não tem nenhum lugar, ninguém, nenhuma esperança, e a obediência como sim de dizer a diferença de Deus, o Todo Outro, esse a quem Jesus mesmo consentiu sob a cruz ....Pois nos convidou a refletir: como utilizar a palavra do pobre para que ela seja entendida?
Geralmente não percebemos como prejudicamos a convivência com outras pessoas com nosso egoismo, narcisismo, individualismo, pedantismo, pãodurismo etc.
O cristão precisa aprender a controlar esses “ismos” todos e viver na humildade e na caridade, agindo como se nada possuísse e como se fosse indigno de tudo.
Ser humilde é ter consciência do que se é, aceitar-se como se é. Ser humilde não é a mesma coisa que ser tímido. Humildade é virtude, ao passo que timidez é defeito!
Ser humilde é agir de acordo com as próprias qualidades e capacidades, sem querer pavonear-se das qualidades. É também reconhecer que os demais também possuem capacidades e qualidades.
Ter medo de agir, muitas vezes, é soberba, vaidade, mas não humildade. Exemplo: muitos não querem ler nas missas por vergonha de errar (ou seja, por vaidade), e não por humildade. Seria, do mesmo modo, falta de humildade querer ler a leitura da Missa para que saibam que você é bom na leitura.
Se você aceitar algum serviço ou cargo, tenha como único motivo a glória de Deus e o bem das pessoas, como diz 1ª Coríntios 10,31-33:
“Quer comais, quer bebais, quer façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus”(...)”Em tudo agrado a todos, não buscando o meu próprio proveito, mas o de muitos, para que assim se possam salvar”.
É preciso aprender a vigiar nossas ações pra não prejudicar o próximo no dia a dia, fazendo de tudo para viver apenas com o necessário, sem muitas exigências. Em tudo demonstramos se amamos ou não os demais: no banho (muitos demoram demais), na alimentação (muitos pegam tudo e deixam o outro sem nada), na limpeza (muitos sujam tudo e não limpam nada), na prestatividade (muitos acham que os outros são seus empregados) etc.
O cristão autêntico nunca vai querer tirar vantagem em tudo, pois a nossa única vantagem é o paraíso, a vida eterna! O resto é o resto! O restante das coisas é lixo, como diz S. Paulo em Filipenses 3,8:
“Tenho tudo como esterco, em busa do Reino de Deus” Romanos 12,3: “ Não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, conforme a medida da fé que Deus proporcionou a cada um”.
Sobretudo, devemos ser humildes para com Deus, não o tentando pela falta de humildade, como pede Sabedoria 1,1-5:
“Deus se revela aos que o buscam com a simplicidade de coração, aos que não o tentam”.
Peçamos- lhe as graças com humildade, submissão, colocando-nos em suas mãos para o que ele quiser de nós, deixando-o “livre” para que ele faça conosco o que bem quiser. Lembremo-nos de que tudo o que recebermos, deixaremos aqui no dia de nossa morte, e tudo o que partilharmos, nos acompanhará à vida eterna. Acolher e respeitar nosso próximo nos abre para o acolhimento de Deus.
Tudo o que dermos a qualquer pessoa, é ao próprio Deus que estamos agradando, e Ele, que nos ama tanto, nos retribuirá. Eclesiástico 4,10 diz que tudo o que quisermos dar a Deus, demo-lo aos pobres e demais necessitados!
Temos de encontrar tempo para acolher, ouvir e conversar com quem nos procurar. Deus encontrará um “tempo” também para nós. Tenhamos misericórdia dos que erram. Ajudemo-los a se recuperarem e a recomeçarem nova vida. Deus terá também misericórdia de nós e de nossa família (Mateus 6,14-15). Diz Tiago 2,13: [
“A misericórdia triunfa sobre o juizo”.
Para vivermos em harmonia, nunca julguemos quem quer que seja, como nos pede Lucas 6,36-37: “ Sede misericordiosos como também vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados”.
Julgar é diferente de fazer uma crítica. Julgar é colocar más intenções naquilo que a pessoa falou ou fez. Se não soubermos os motivos pelo qual o outro fez isto ou aquilo, calemo-nos! Se precisarmos admoestá-lo, pensemos bem nisto: nunca coloquemos em suas “costas” uma culpa que achamos que ele tem. Ou seja: pode ser que a pessoa fez o que fez por fraqueza, ou outro motivo qualquer, e não por maldade ou “sem-vergonhice”.
Se uma pessoa quebrar algo, por exemplo, podemos até pedir-lhe mais cuidado com aquilo; isso não é julgar. O que não podemos fazer é dizer que a pessoa fez aquilo de propósito, apenas para contrariar-nos. Isso seria julgar. Diz S. Paulo, no capítulo 13 da primeira carta aos Coríntios, que a caridade nunca se findará, nem no céu. Vale a pena ler o capítulo todo, para perceber até que ponto devemos amar e “deixar para lá” tantas coisas que são motivos de brigas!
Jesus resumiu os dez mandamentos em três: Amar a Deus sobre todas as coisas, amar ao próximo e amar a si mesmo. Devemos amar ao próximo na mesma medida com que nos amamos. Amar a Deus, na verdade, se realiza no amor ao próximo.
Amar significa perdoar sem medida, como diz Lucas 17,4:
“ Se o irmão pecar contra você 7 vezes no dia e 7 vezes no dia vier a você e lhe disser: arrependo-me, perdoe-lhe!”.
Entretanto, o perdão implica numa reparação, numa compensação da parte que ofendeu. Se for um crime, deve ser normalmente julgado pela justiça.
A caridade também é partilha dos bens. Dificilmente vamos ficar sem recompensa quando sabemos partilhar. Deus nunca deixa falar nada aos que partilham, como Lucas 6,38:
“Dai e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando, vos colocarão no vosso colo, porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão de novo”.
É imbecilidade nos apegarmos aos bens materiais ou nos preocuparmos em demasia com o futuro. “O futuro a Deus pertence”, diz o ditado.
“Beati imaculati in via, qui ambulante in lege domini” (sl 119(118), 1).
A castidade é um tema fácil de se comentar, mas difícil de se praticar. O Pe. Eugène Charbeauneau diz, num de seus livros “Solteiros e casados autoanalisados”, que nós teremos o desejo de cópula até a nossa morte. Uma senhora de 80 anos, doente, acamada, perguntou-me, certa vez em que fui visitá-la, até quando ela teria “aqueles pensamentos”. Eu lhe disse, em tom de brincadeira, “até três horas após a sua morte”. Ela espantou-se. Faleceu dois anos após, aos 82.
Um dos problemas da castidade é o conjunto de problemas afetivos que todo humano tem. Uma educação afetiva plena é difícil encontrar.
Outro problema sério é a hipocrisia. Quem é casto de verdade? Só Deus sabe! Será que os que condenam os problemáticos nesse setor são mais castos do que eles?
Os que têm desvios sexuais sofrem mais do que os ditos normais, pois estão constantemente em tentação e sentem-se impedidos de praticar a castidade. Não percebem que, com a graça de Deus, tudo é possível. Essas pessoas sentem tentações onde quer que estejam: no dia a dia, no trabalho, nos passeios, nos acampamentos, na praia, nos retiros, na igreja, nos encontros espirituais... Como sofrem!
A Igreja é curta e rápida nesse assunto: quem não consegue viver uma castidade relativa mesmo no casamento, fique completamente casto e ponto. Aliás, Gandhi está nessa lista. Não conseguindo controlar-se, combinou com sua esposa viverem como irmãos. E viveram assim muitas décadas. Quando ele falou isso em sua autobiografia, já viviam em castidade há mais de 20 anos.
Quanto a ser casto, a Igreja ensina que é um dom de Deus. Quem quiser ser casto, tem que pedir isso a Deus, ser humilde. Por isso o vaidoso e o orgulhoso que acham poderem cuidar sozinhos de si mesmos, vão sentir muita dificuldade na castidade. Sentem-se superior a todos e a tudo. Jesus criticou-os muito, na pessoa dos fariseus e dos escribas, dizendo que não tinham perdão, mas perdoou facilmente os adúlteros, por saber que pecaram por fraqueza, e ensinou-lhes a humildade.
Quanto à beleza da castidade, copio aqui um artigo que eu escrevi e publiquei no blog, de 2014:
Estou lendo um livro de uma teóloga alemã, UTA RANKE-HEINEMANN, prefaciado por Leonardo Boff, que vai plenamente contra o celibato na Igreja, e contra uma série de atitudes que a Igreja toma em relação à castidade, sexo, contracepção etc. Nega várias atitudes morais baseadas na bíblia, alegando “falsa interpretação”. O nome do livro é sugestivo: “Eunucos pelo Reino de Deus”, editora Rosa dos Tempos. A autora, doutora em teologia e professora numa universidade alemã, perdeu o cargo após a sua publicação.
Por estranho que pareça, o livro me fez amar mais a minha vida celibatária e a castidade. Depois de matutar muito sobre o assunto, baseado não tanto nos livros, mas na minha experiência, percebi que o que interessa não é tanto ser ou não ser celibatário ou casado (a), manter ou não uma virgindade perpétua, mas sim, ser santo, livre de pecado, seja ele qual for.
Li em algum lugar que as cinco virgens imprudentes não entraram no “céu”, apesar de serem virgens!
Qual é a diferença entre viver buscando a santidade, estar lutando contra o pecado e viver no pecado, seja ele sexual, ou causado pela mentira, as brigas, a desonestidade, as fraudes, a vaidade, o orgulho, a violência, a falta de caridade, o egoísmo, o ódio, o isolamento?
Enumerei várias coisas:
1- A busca da santidade nos deixa leves, fáceis de sermos conduzidos pelo Senhor.
2- Deixa-nos uma paz incrível, inexplicável, que produz uma alegria intensa e interior;
3- A oração, o colóquio com Deus, torna-se mais fácil;
4- Impele-nos a amar as pessoas, sobretudo as necessitadas (sejam elas ricas ou pobres, pois um rico doente e/ou abandonado é uma pessoa necessitada de nossa presença). Amor sem distinções e sem interesse, devido à busca da santidade naquele relacionamento. A castidade não pode nos deixar isolados. Dizia um meu colega de seminário, o atual Pe. Everaldo: “Ao darmos um nó simbólico “naquilo”, pelo voto de castidade, não podemos dar também um nó no coração!” (1972).
5- Buscar a santidade não é deixar de sentir atração sexual, nem deixar de sentir os movimentos no corpo, causados pelos hormônios, mas integrar esses movimentos e impulsos internos à vida diária. Lembrar-se, também, de que há outros impulsos que nos levam ao pecado, mas igualmente não são pecados em si, como os que levam ao alcoolismo, à violência, ao isolamento, ao egoísmo, ao auto fechamento, à busca do prazer pelo prazer, do dinheiro, do luxo etc.
Esses impulsos só se tornam pecados se forem consentidos e alimentados por nossa concupiscência.
Santa Catarina de Sena compara esses impulsos com cães amarrados que latem, mas não mordem (sinal de que sentia muito esse tipo de coisa). Se não lhe dermos confiança (dizia ela), se enfraquecem.
6-O próprio Jesus teve alguma sensação do prazer sexual, pois sendo 100% homem, tinha as poluções noturnas normalmente, como todos os homens até a idade de uns 68 anos (alguns até mais). E foi castíssimo! Nunca pecou!
7- A santidade é impossível sem a humildade e sem o autoconhecimento. Conhecer-se e humildemente aceitar-se como se é, para evitar as ocasiões de pecar e fugir do pecado. Cada um deve conhecer seus limites e suas tendências. Aqui entra o famoso “Orai e Vigiai”, tão insistido por Jesus e pelos Apóstolos.
8- A luta em busca da santidade, seja vivendo o celibato ou a fidelidade conjugal, é uma luta contínua. Gandhi combinou com a esposa de viverem castos, e conseguiram. Mas ele dava até receita de alimentos que não causavam muito hormônio! Um amigo meu dizia que seria capaz de viver com sete esposas, mas se contentava com a dele e a respeitava. E eu acredito nele.
São Francisco de Salles era especialista em “receitar” atitudes que podem ajudar a vencer as tentações do dia-a-dia, como no livro “Filotéia” (você o encontra na internet, se o desejar). Ele orienta de modo especial tanto os celibatários como os não celibatários.
9- A santidade é um dom de Deus, mas requer nossos cuidados e nossa luta. Devo fazer a minha parte, para que Deus faça a dele.(...)
Concluo exortando a todos e a todas a nunca desanimarem da luta, mesmo se caírem, seja em algum pecado sexual, seja não sexual. “Levante, sacuda a poeira e dê a volta por cima”. Nunca desanimar, nunca desistir.
Quanto ao celibato obrigatório para os padres, acho que está na hora de liberar a ordenação sacerdotal para os casados. É um absurdo “amordaçar” o Espírito Santo, sujeitando-o a só dar vocação aos que querem ser solteiros. Sei que o papa Francisco vai rever isso e logo teremos padres casados em abundância, como escrevi no meu artigo “Hecatombe”. (...)
Nunca duvide do amor de Deus por você! Seja qual for sua situação de vida, ele recolheu em seu odre todas as lágrimas que você derramou (Salmo 56,9). Todas! Nem uma só gota foi desperdiçada!
E o último conselho, baseado na minha experiência: não exagere em nada! Pare de procurar chifre na cabeça de cavalo! Nem tudo é pecado! Aprenda a distinguir o verdadeiro do falso nesse assunto. No campo da castidade, por exemplo, muitos lutam tanto para serem castos que deixam de lado a caridade, que é a virtude principal, pela qual vamos ser julgados (confira em Mateus 25,31-46). As virgens imprudentes, embora continuassem virgens, não entraram na festa nupcial (=no céu).
Neste artigo quero acrescentar que os que desejam a castidade, devem programar-se numa vida de oração, meditação, leitura espiritual, exercícios físicos (ou pelo menos uma caminhada diária), sobriedade na alimentação, nos olhares, nas palavras, direção espiritual, humildade, confiança em Deus, VIGILÂNCIA, jejum de televisão, jejum absoluto de artigos eróticos, autoconhecimento, nunca recalcar os problemas (mas enfrentá-los com coragem), administrar as fantasias, saber que o sexo traz muitas ilusões (é como o café, que o cheiro é um e o gosto é outro) e nunca desanimar.
Textos bíblicos:
Filipenses 4,8.9b:
“Irmãos, ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de algum modo mereça louvor. E o Deus da paz estará convosco”.
Apocalipse 20,27: “Coisa imunda alguma entrará na Cidade Celeste”.
Outros: Mateus 5,27-32; 1ª Coríntios 7 (todo); 1ª Coríntios 6,12-20; Romanos 6, 19-23; 1ª Coríntios 15,33; Colossenses 3,5; Romanos 1,26-27; Romanos 1,29; Efésios 4,32-5,8.
Termino com a carta que o papa Paulo VI enviou a um recém ordenado pastor evangélico seu amigo:
Extraído da revista Ultimato. Se você quiser dar uma olhada, eis o link: www.ultimato.com.br/revista/358
Carta que um recém-ordenado pastor recebeu de Roma, do Papa Paulo VI, mas que serve para todos nós:
“Eu, Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, escrevo a você, meu querido irmão e colega de ministério. Desejo tudo de bom para você e sua igreja da parte de nosso Deus e de Cristo.
Soube de sua ordenação ao ministério. Felicito-o por ter atendido o chamado de Deus e se preparado para tanto. Não por intrometimento, mas por estar historicamente ligado a você e à sua família, tomo a iniciativa de escrever-lhe a presente carta pastoral. Lembre-se de que eu tenho mais do que o dobro de sua idade e sou tão humano quanto você.
No momento, não vou dar conselho algum sobre questões teológicas, eclesiásticas e administrativas. Nem sobre a vida devocional, que deve ocupar a sua primeira atenção.
Por saber que muitos dos nossos colegas, inclusive os de minha idade, estão tendo sérios problemas com a sua sexualidade e que a sociedade está cada vez mais permissiva, permita-me dar-lhe alguns poucos conselhos de pai para filho.
Primeiro, você ainda vai fazer 26 anos e está cheio de vida. Fuja das paixões da mocidade. Ou, melhor, volte as costas para elas. Eu me refiro em especial aos desejos turbulentos da juventude. Não aos desejos naturais, sadios e controlados, mas às paixões malignas e aos pensamentos impuros. Fugir não é sinal de fraqueza nem de fracasso. Muitas e muitas vezes fugir de alguma coisa errada ou inconveniente é um ato de heroísmo.
Segundo, como pastor de um pequeno ou grande rebanho, você precisa ser exemplo dos fiéis, ao pregar, ao ensinar, ao orar, ao aconselhar, ao advertir. Torne-se padrão para toda a igreja e para os de fora, em tudo: na palavra, no procedimento, no amor, na fé e também na pureza. Estou me referindo à pureza sexual. Em outras palavras, torne-se modelo na pureza, isto é, porte-se de acordo com a lei moral de Deus, em pensamento, palavra e ações.
Terceiro, você não será pastor só de ovelhas do sexo masculino, mas também de meninas, mocinhas e senhoras (mães e avós). Meu conselho é: trate as mulheres idosas como mães e as mulheres jovens como irmãs, com toda pureza. Você terá de fazer uma ginástica enorme. Não é algo simples tratar qualquer mulher, sobretudo as mais jovens, com naturalidade, sem qualquer maldade, sem qualquer lascívia, sem qualquer impudicícia, sem qualquer luxúria. Essa dificuldade real é devido à bagagem pecaminosa que está dentro de você e de mim.
Quarto, conserve-se puro. Hoje, amanhã e depois. Em casa, na igreja e na rua. Acordado ou dormindo (caso você tenha algum sonho erótico, provocado ou não por você, lave sua mente e entregue-o ao esquecimento). Sozinho ou na companhia de alguém. Em viagem de uma cidade a outra ou de um país a outro. Sua pureza não pode ser esporádica. Caso haja algum intervalo, apresse-se em pedir desculpas a Deus e a subir imediatamente o degrau do qual você desceu.
Espero que você leia o meu testemunho pessoal sobre o drama da nossa humanidade e da nossa propensão pecaminosa que eu contei aos nossos irmãos que estão aqui em Roma. Em meu desespero, eu clamei: “Quem sobre a terra nos libertará das garras da minha natureza pecaminosa?”. Mas, quando eu recorri a Cristo, fiz uma oração de ação de graças: “Dou graças a Deus por haver uma solução que só pode ser por meio de Jesus Cristo, Senhor nosso”. Continuo dependendo dele para me conservar puro e ser um exemplo de pureza.
Que a graça do Senhor Jesus Cristo esteja com você, meu querido filho”!
(Texto baseado em 1 Timóteo 4,12, 5,1-2 e 22 e em 2 Timóteo 2,22)
25/09/2018
Há épocas de nossa vida em que podemos passar por um tipo de cegueira espiritual grave. Se não nos conscientizarmos dela, poderemos perder nosso futuro e até a vida eterna!
Aconteceu isso com muitos dos santos conhecidos. Um deles é Santo Agostinho, que confessou: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro e eu, fora. E aí te procurava e lançava-me nada belo ante a beleza que tu criaste. Estavas comigo e eu não contigo. Seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam, se não existissem em ti. Chamaste, clamaste e rompeste minha surdez, brilhaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira. Exalaste perfume e respirei. Agora anelo por ti. Provei-te, e tenho fome e sede. Tocaste-me e ardi por tua paz!” (Confissões, Livro 10, 27. Leia mais no Ofício das Leituras de 28/08).
“Afugentaste minha cegueira”. Às vezes é preciso algum acontecimento drástico para despertar-nos. É como aquele artigo de Rubem Alves sobre o milho de pipoca, em que ele diz que só o fogo consegue fazer o milho duro virar pipoca macia (Leia o texto todo em https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/1769218).
Procure, com toda a sinceridade de que é capaz, descobrir os pontos obscuros de sua vida. Isso só se consegue com uma boa dose de realidade do autoconhecimento de si mesmo e com toda a humildade de que formos capazes. Talvez muitas coisas de que nós ouvimos falar de nós próprios são verdadeiras. Nem todas são inverdades ou maldade das outras pessoas.
Santo Agostinho diz, no trecho citado acima: “Chamaste, clamaste e rompeste minha surdez, brilhaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira. Exalaste perfume e respirei. Agora anelo por ti. Provei-te, e tenho fome e sede. Tocaste-me e ardi por tua paz!”. É uma realidade. Quando conseguimos descobrir nossa cegueira e encontrar o Deus genuíno, verdadeiro, ficamos sedentos e famintos dele. Tudo o que fazemos vemos que não é suficiente para agradá-lo. Percebemos que Deus só se agrada quando paramos de dar-lhe coisas (ele não precisa de nada), e passamos a dar-lhe a NÓS MESMOS, nossa vida, nossos anseios, nossas esperanças.
Depois que nos curamos de nossa cegueira espiritual, sentimos essa necessidade de nos colocarmos diante de Deus como um sacrifício de suave odor: “Exalaste perfume e respirei”. Quando conseguimos sentir o perfume exalado por Deus, e isso só se consegue depois de descobrirmos as babaquices que estamos fazendo, passamos a não desejar mais outra coisa no mundo senão ser apenas dele, viver para ele, estar a serviço dele.
As coisas do mundo se tornam obsoletas, ridículas, descartáveis, todas elas, quando, como Santo Agostinho, descobrimos o perfume de Deus. Diz o Salmo 73(72):“Para mim, o que há no céu fora de vós? Se eu estou convosco, nada mais me atrai na terra”! E o próprio Paulo Apóstolo lembra que nós também, se nos santificarmos, seremos o perfume de Cristo: “porque para Deus somos o perfume de Cristo entre os que estão sendo salvos e os que estão perecendo” (2 Coríntios 2,15).
Tudo isso está dependendo apenas de uma coisa: abraçarmos a humildade, o autoconhecimento sincero de nós mesmos e descobrirmos as coisas que estamos fazendo de modo errôneo e não estamos percebendo que estamos nos colocando à beira do abismo! (Se é que já não estamos no fundo dele).
-- 19/03/16
Estou meditando sobre a convivência humana. Como é difícil! Encontros e desencontros, fases difíceis, clima às vezes agradável, às vezes não.
O que leva alguém a ir contra outro por preconceito e orgulho? Ocorreu com um meu amigo, evangélico, que foi perseguido por um ateu porque reunia um grupo de evangélicos num alojamento de construção no meio do nada. Sua atitude, após noites de crises e angústias, foi confiar-se plenamente em Deus e deixar que sua Santíssima vontade se fizesse, fosse qual fosse o resultado. Afinal, quando se crê em Deus, não se tem medo, afirma São Carlos de Foucauld.
O resultado é que de repente o ateu resolveu deixar o emprego e voltar para casa, e o meu amigo ficou lá até o final da obra, e ainda mantém contato com os que se reuniam com ele.
Uma irmã da Consolata disse, certa vez, que na convivência, vence quem conseguir calar a boca numa discussão e só depois, um ou dois dias, ir conversar sobre o assunto com o (a) oponente. Ela viveu por 70 anos em comunidade e sabe o que está falando!
As pessoas que se implicam com tudo e com todos parecem que têm o “demo” no coração! Só estão felizes se os outros brigarem ou se desentenderem.
Em caso de desavenças, é preciso confiar plenamente em Deus, orar muito e confiar em sua Providência divina. Ele sabe o que é melhor para nós e, se estamos a fim de fazer a sua vontade, pouco nos importará o resultado, desde que continuemos fiéis a Ele e ao seu Reino.
A convivência depende muito, portanto, de fazermos agora e sempre a vontade de Deus na simplicidade, na paciência, na humildade, confiando que estamos no caminho certo e despojarmo-nos de qualquer orgulho e individualismo. Deus sabe muito mais do que nós do que precisamos (Efésios 3,20) e tem o poder de dar-nos isso.
O individualismo pode ser “medido” nas coisas do dia a dia, como estas:
1- Onde moram só homens, deixar a tampa do vaso do banheiro abaixada (ela deve ser deixada levantada).
2- Deixar a luz acesa, demorar-se no banho, na escovação dos dentes e ao fazer a barba, deixar a água escorrendo.
3- Deixar o chão sujo com migalhas de pão ou outros alimentos.
4- Comer de boca aberta (arghhhh!)
5- Usar o mesmo pente, não lavar pequenas louças, como as xícaras de café ou os copos.
6- Pegar alimentação de modo exagerado e deixar restos no prato, e pegar tanto que deixa pouco para os demais.
7- Ser exigente demais na comida.
8- Comer o miolo da melancia, e deixar o resto para os outros.
9- Não pôr a mão no nariz e na boca ao tossir ou respirar.
10- Escarrar e assoar o nariz no chão.
11- Jogar a comida fora quando chega bêbado em casa. Esta última pode ser consertada, talvez, de dois modos: 1º- Deixe a comida onde foi jogada até que o cara sare da bebedeira e mostrar o estrago a ele quando estiver sóbrio; 2º- Fazer comida suficiente para os demais que comem antes, só deixando o suficiente para o bêbado, quando ele chegar. Mesmo assim, se ele jogar, fazer como no 1º caso. Sei de casos em que o marido bêbado jogou a panela toda no chão.
Ademais, insista para que o alcoólatra procure o AA e reze muito. Esse tipo de caso só se resolve com a oração.
Analise-se diariamente para ver se você cometeu algum ato individualista no dia que passou!
CONVIVÊNCIA COMUNITÁRIA SEGUNDO A IRMÃ ANANIA IMC – MISSIONÁRIA DA CONSOLATA
Nasceu em 13/05/1920, faleceu em 10/03/2020, com quase 100 anos de idade, sendo 80 anos vivendo em comunidade.
Deus nos ama e por isso quer nossa alegria! Vou falar alguma coisa sobre a vida comunitária, a que somos submetidos diariamente.
Vivemos em comunidade sem escolher as pessoas e caminhamos juntos. Cada um é um e tem o seu temperamento. Eu, ele, ela, somos do jeito que somos.
Na Quinta-feira Santa, o Evangelho acompanhado da liturgia nos mostra o “Lava-pés” faz todo um processo de lembrar constantemente a mim mesma que “eu não posso exigir que quem vive ao meu lado seja do jeito que eu gostaria que fosse”. E todo este processo leva a pessoa a deixar o espaço para que a outra ou o outro SEJA. É esta a grande lição do Lava-pés.
Pensamos refletindo: “Por que às vezes sou tão exigente com quem vive ao meu lado? Por que olho as diferenças como ameaças e não as vejo como algo que pode me ajudar a crescer? Por que não me convenço de que caminhar em companhia é menos pesado do que carregar sozinha, sozinho, os pesos, as preocupações, os maus momentos, e a partilha é sempre a melhor saída?”
Lemos em São João Bergmans: "Máxima penitência é a vida em comum”. E é a verdade. Pensamos em Jesus, na vida diária com os apóstolos, quanta paciência! Quantas renúncias para não responder! E quando responde, com que mansidão!
Compreendo que para muitos que estão em ambientes em que não há como deixar de viver em companhia a tais e tais pessoas (como nas comunidades religiosas, paróquias, internatos etc.), mesmo em família, deve ser uma grande penitência suportar os (as) colegas, muitas vezes pessoas revoltadas, vingativas, nervosas, sem educação, cheios de si, não se importando com as outras, orgulhosas etc., etc.
O conselho que posso dar a vocês que estão nessa situação forçada é fazer silêncio e a “guerra” acaba. Pensem: então não adianta falar. A razão é sempre deles. O orgulho é algo demoníaco!
Quando vocês percebem que alguma palavra ou seu modo de agir pode atrapalhar, não digam e não façam. Eu considero isso “morrer continuando vivo”. Todos temos a nossa sensibilidade e o mais esperto e o mais virtuoso é o que fica calado. Isso é duro, mas nós, consagrados, devemos caminhar neste caminho.
Jesus lavou os pés de Judas, mesmo sabendo que ele era o traidor! Peçamos a Jesus a graça de aprender a ser humildes e mansos de coração, como Ele era! (Mt 11,29).
Tudo isso que falo para vocês serve também para mim, mesmo que vivo em comunidade desde 1940 e a experiência me diz que, quanto menos falo, mais ganho.
Porém, eu me sinto amada, compreendida, é minha alegria viver junto. As conversas não trazem confusão, mas ajudam a crescer, porque se vê em ambas as partes que, se queremos bem, o que acontece são coisas humanas: hoje eu, amanhã você, e tudo acaba.
Eu sou feliz por viver em comunidade e agradeço ao Senhor de ver muitos exemplos bons que me ajudam a ser melhor. Para viver em comunidade se deve admitir que todos temos o nosso modo de ser: Se eu quero que me suportem, também devo suportar os outros, as outras. Quero sempre ter razão, mas os outros também querem tê-la, e como se faz? Cala-se, e os outros também se calarão por sua vez.
Deus esteja em seus corações e lhes faça sentir cada vez mais a beleza do dom da vida, única, que passa e não volta mais. Aproveitem a vivê-la como um incenso derramando a cada dia o perfume do seu testemunho do amor a Deus por tê-los escolhido pelo Batismo, e amado.
Os sofrimentos pelos quais muitos passam não são castigos, mas uma prova de amor, porque oferecendo a Ele os sofrimentos, os purifique e os faça grandes santos e santas.
Rezo sempre por todos os que sofrem, e digo a Nossa Senhora, a Mãe puríssima, que os e as guarde, os e as proteja e faça todos e todas sentirem o carinho de Mãe.
Irmã Anania, Missionária da Consolata.
A crise da Igreja como crise de comunhão
Dom Giuseppe Petrocchi
Durante um encontro internacional de bispos no Centro Mariápolis de Castel Gandolfo, o bispo de Latina-Terracina-Sezze-Priverno fez esta palestra sobre a prioridade das prioridades diante dos desafios que a Igreja deve enfrentar hoje na sua vida e missão. Reflexões que foram muito bem acolhidas e apreciadas pelos presentes, tanto pela sólida fundamentação teológica quanto pela riqueza pastoral.
A Palavra-Comunhão
A Palavra de Deus é, em sim mesma, Comunhão, pois provém “da” comunhão trinitária; é doada “à” Igreja-comunhão, para que a guarde, a atue e a anuncie; é proclamada “para” suscitar no mundo a comunhão universal («que todos sejam uma só coisa» (Jo 17,21)).
A Palavra, portanto, vivida pessoal e comunitariamente, gera a Igreja que, na sua essência, é «mistério de comunhão trinitária em tensão missionária»2. Por isso, a Palavra pode ser autenticamente compreendida,
atuada e transmitida somente em comunhão. Em consequência, também a evangelização deve ser pensada e atuada em unidade “com” a Igreja e “como” Igreja. De fato, «só uma Igreja comunhão pode ser sujeito credível da evangelização»3.
Enfrentar os problemas à luz da Palavra e na fidelidade à Igreja Hoje se fala de desafios que investem a vida e a missão da Igreja. Creio que é fundamental ultrapassar a dimensão fenomenológica dos problemas para ir rumo ao “centro profundo” do discurso. Partindo da análise dos desafios – considerados na sua complexidade e conexão – é preciso retornar ao “ponto focal” que os provoca, como acontece no âmbito clínico, onde o médico, depois de ter estudado os sintomas, procura descobrir a doença que os causa: e é sobre este núcleo patogênico que ele deve concentrar a sua intervenção,se deseja ativar o processo de cura.
2 João Paulo II, Exortação apostólica Pastores dabo vobis, 12.
3 Conferência Episcopal Italiana, Orientações pastorais para os anos
90 (Evangelização e testemunho da caridade, 27).
A crise que hoje atinge amplos setores da Igreja se apresenta com numerosas – e às vezes contrastantes – facetas pastorais e culturais, mas no meu ver, na sua raiz, trata-se de uma crise de comunhão. Portanto, esta denuncia uma “carência de unidade”: na mente, no coração e nos comportamentos de muitos fiéis. Por isto, antes que tratar de insuficiência nos conteúdos e nos métodos parece-me oportuno falar de um déficit de ‘espiritualidade- Igreja’.
Percorramos juntos algumas passagens do Magistério eclesial, que exprimem com extraordinária clareza o que os Pastores da Igreja pensam, sobre este tema.
Convergir esforços
Na Carta apostólica Novo millennio ineunte se afirma que o grande âmbito para o qual é necessário fazer convergir todos os esforços, em nível de Igreja universal e de Igrejas particulares, é «aquele da comunhão (koinonia) que encarna e manifesta a essência mesma do mistério da Igreja». E se precisa que «a comunhão é o fruto e a manifestação daquele amor que, brotando do coração do Eterno Pai, se derrama em nós através do Espírito que Jesus nos doa (cf. Rm 5,5), para fazer de todos nós “um só coração e uma só alma” (At 4,32)».
A conclusão é rigorosa: «é realizando esta comunhão de amor que a Igreja se manifesta como “sacramento”, ou seja, “sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano”»4.
Daí uma vibrante admoestação: «muitas coisas, também neste novo século, serão necessárias para o caminho histórico da Igreja; mas se faltar a caridade (ágape) tudo será inútil 5. De fato, “a caridade é de verdade o ‘coração’ da Igreja”6.-4 João Paulo II, Carta apostólica Novo millennio ineunte, 42.
6 Perspectivas de Comunhão
Entende-se, então, a perspectiva básica que deve permear cada projeto e todas as ações da comunidade cristã que ultrapassou a entrada do terceiro milênio: «fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão. Eis o grande desafio que temos pela frente..., se quisermos ser fiéis ao desígnio de Deus e responder também as expectativas do mundo»7.
Antes de planejar
Portanto, «antes de programar iniciativas concretas é necessário promover uma espiritualidade da comunhão, fazendo-a emergir como princípio educativo em todos os lugares onde se plasma o homem e o cristão, onde se educam os ministros do altar, os consagrados, os lideres pastorais, onde se constroem as famílias as comunidades. Espiritualidade de comunhão significa, antes de tudo, ter o olhar do coração voltado para o mistério da Trindade que habita em nós, e em cuja luz precisa também ser reconhecida no rosto dos irmãos que estão ao nosso lado. [...]
Não nos enganemos: “sem este caminho espiritual, bem pouco serviriam os instrumentos exteriores da comunhão. Seriam aparatos sem alma, máscaras de comunhão mais que suas vias de expressão e de crescimento”8.
Zelar pela qualidade da comunhão… Como bispos, somos chamados a segurar o pulso da comunhão das nossas dioceses, para medir as pulsações sadias e as eventuais arritmias.
No decorrer do meu ministério pastoral amadureci esta convicção: a comunhão é fraca não porque existem problemas graves, mas existem graves problemas porque a comunhão é fraca. Permitam-me uma comparação: um corpo é declarado sadio não porque está sem bactérias que o infectam, mas porque dispõe de anticorpos que as neutralizam. Se uma Igreja local dispusesse de abundantes reservas de comunhão, certamente estaria em condições de superar as dificuldades que encontra (dificuldades provenientes do próprio interior ou das perseguições do mundo): de fato, ela teria os meios necessários para, na caridade, “queimá-las”, tornando-as “combustível” para a sua missão.
Além disso, apresento outro destaque: não basta que exista comunhão, pois é preciso que se estabeleça a comunhão “adequada” ao tempo e à missão que se é chamado a desenvolver. Se o coração que injetou sangue no organismo de uma criança permanecesse com as mesmas dimensões no corpo de um adulto, não conseguiria garantir uma boa circulação e, desta insuficiência, derivariam graves disfunções. Neste caso, para resolver os problemas, seria necessário curar o coração, para torná-lo proporcional à condição do adulto, antes que limitar-se a intervir nos “sintomas”.
Três âmbitos
Gostaria, agora, de assinalar três áreas fundamentais nas quais nós, como bispos, somos chamados a verificar e a fortalecer o “nível” de comunhão:
a) A nossa experiência de colegialidade episcopal, vivida com o Santo Padre e selada pela fórmula «in omnibus cum Petro et sub Petro»9.
Enquanto sucessores dos Apóstolos somos convidados pelo Senhor a pregar o Evangelho a todos os povos (cf. Mt 28,19), depois este empenho se polariza em um mandato “local”. Por consequência, para um
bispo a primeira tensão missionária é constituída pela solicitude por todas as Igrejas, a ser vivida sob a orientação do Papa e em comunhão com os outros bispos.
Impulsionado por esta “alma católica”, isto é, aberta a todos os povos, o bispo deve ocupar-se da diocese que lhe é confiada: é fundamental, portanto, que no cuidado do “particular”, tenha sempre presente a perspectiva “universal”.
Viver em tal sinergia fraterna de pensamento e de intentos significa estar plenamente alinhados com a trajetória da vontade de Deus. De fato, como sublinha João Paulo II na carta Ut unum sint, «crer em Cristo significa querer a unidade; querer a unidade significa querer a Igreja; querer a Igreja significa querer a comunhão de graça que corresponde ao desígnio do Pai desde toda a eternidade»10.
Talvez seja oportuno perguntar-se se esta fraternidade apostólica em nossas Conferências episcopais é sempre afetiva e efetiva.
b) Outro setor chave: É necessária a comunhão no presbitério diocesano para que o ministério dos sacerdotes esteja apto a construir a Igreja: una, santa, católica, apostólica.
João Paulo II escreveu na Pastores dabo vobis que «a identidade sacerdotal, como toda identidade cristã, tem sua fonte na Santíssima Trindade, que se revela e se comunica aos homens em Cristo, constituindo nele a Igreja, por meio do Espírito Santo, como “germe e início do Reino»11.
Daí a consequência que «não se pode definir a natureza e a missão do sacerdócio ministerial, senão nesta múltipla e rica trama de relacionamentos, que brotam da Santíssima Trindade e se prolongam na comunhão da Igreja, como sinal e instrumento em Cristo, da união com Deus e da unidade de todo o gênero humano12».
Eis porque “o ministério dos presbíteros é antes de tudo comunhão e colaboração responsável e necessária ao ministério do bispo, na solicitude pela Igreja universal e por cada uma das Igrejas particulares, ao serviço das quais estes constituem com o bispo um único presbitério”13.
O padre diocesano, portanto, não é um “single”, um solitário, mas alguém chamado a viver a vida de comunidade no presbitério diocesano, cuja fisionomia é «a de uma verdadeira família, de uma fraternidade, cujos ligames não são da carne e do sangue, mas são da graça da do sacramento da Ordem»14.
Portanto, o “nós-presbitério”, não se esgota no relacionamento “eu”-“bispo”, mas exige também a relação “eu”- “irmãos”.
O estilo individualista
Infelizmente, no apostolado de muitos sacerdotes, mesmo que generosos, parece prevalecer com frequência um estilo de tipo “individualista”, marcado pela sequência “eu” (sacerdote) – “vocês” (fiéis). Tal configuração carece de uma passagem teologicamente essencial: aquela constituída pela precedência na realização das atividades pastorais do consenso sobre o relacionamento “eu” – nós-presbitério (marcado pelo vínculo de comunhão com o bispo e os demais presbíteros).
O apostolado de um padre se desenvolve em sentido plenamente comunional quando é marcado pela sequência: “‘eu’ através do “nós-presbitério” (do qual sou parte e expressão) trabalho a serviço de “vocês” fiéis”.
Portanto, deve ser evidenciado que «a unidade dos presbíteros com o bispo e entre eles não se acrescenta do externo à natureza própria de seu serviço, mas exprime a sua essência enquanto é o cuidado de Cristo sacerdote em referência ao Povo reunido pela unidade da Santíssima
Trindade»15.
Radical forma comunitária
Assim se chega a uma conclusão peremptória: «O ministério ordenado tem uma radical “ forma comunitária” e pode ser desempenhado somente como “uma obra coletiva»16.
A falta de coerência com estes “preceitos” comporta uma pesada perda de eficácia pastoral. Nesta perspectiva,cada sacerdote, se quer ser “pai” da comunidade que lhe é confiada, deve antes de tudo aprender a ser
filho, esposo no presbitério e na Igreja 17.
c) Sob o olhar da unidade, deve-se também verificar atentamente o grau de corresponsabilidade com o qual é promovida a participação dos leigos na vida e na missão das nossas Igrejas.
«Como o Concílio Vaticano II afirmou claramente o exercício episcopal do munus regendi exige por sua natureza o reconhecimento da contribuição e dos carismas dos leigos e do seu papel de edificar a unidade da Igreja e de realizar a sua missão no mundo. Todo bispo é chamado a reconhecer o “papel essencial e insubstituível” dos leigos na missão da Igreja e a permitir-lhes de desempenhar o próprio apostolado «guiados pela luz do Evangelho e pelo pensamento da Igreja e movidos pela caridade cristã»18.
Como consequência, «a formação dos fiéis leigos deve ser posta entre as prioridades das dioceses e deve ser inserida nos programas de ação pastoral de modo que todos os esforços da comunidade (sacerdotes, leigos e religiosos) convirjam a este fim»19.
8 Perspectivas de Comunhão
« Os fiéis leigos, ao descobrir e viver a própria vocação e missão, devem ser formados para aquela unidade cujo ser é marcado como membros da Igreja e como concidadãos da sociedade humana»20.
Nas nossas dioceses, existem autênticas “escolas de unidade” para leigos? E quem forma os formadores? A resposta é decisiva: na verdade, se o sentido de Igreja for precário e pouco motivado, corre-se o risco de possuir leigos indiferentes, ou então que pecam pelo protagonismo ou que se limitam a ser simples executores, vivendo um relacionamento pastoral ultrapassado, minoritário e pouco frutuoso.
Um grande dom: a espiritualidade da unidade
A espiritualidade da unidade, que brotou do carisma de Chiara Lubich e própria do Movimento dos Focolares, é um grande dom do Espírito que pode ajudar quem a acolhe a crescer no “ser-Igreja” e no “fazer-Igreja”.
Posso testemunhar que na Obra de Maria eu encontrei uma resposta válida, seja do ponto de vista doutrinal como existencial, às questões que acenei anteriormente. Procurando viver o Carisma da unidade encontrei ajuda para entender não somente “o que” fazer, mas também “como” fazer. De fato, notei que muitos itinerários teológico-pastorais, hoje em circulação, são ricos de ideias mas, resultam desprovidos de “modelos operativos” e de percursos experienciais: daí o risco de inflação pastoral. De fato, quando se repetem expressões retóricas, portanto privadas de eficácia concreta gera-se alergia e rejeição.
Porém, é preciso lembrar que esta espiritualidade não é um remédio para a alma ou um reconstituinte eclesial que se pode tomar e transmitir sem tê-lo assumido. Esta se transmite antes de tudo por “contágio”: por conseguinte, para transmiti-la aos outros é preciso, antes, vivê-la pessoalmente. De fato, sua linha de comunicação assa pelas estradas do testemunho.
Recentemente, meditando sobre a Palavra de Deus, tive oportunidade de concentrar a atenção sobre os primeiros capítulos do livro do Apocalipse, ali onde aparecem as exortações e advertências dirigidas às sete Igrejas.
20 Ibid., n. 59. “A teologia e a espiritualidade da comunhão, de fato, inspiram uma recíproca e eficaz escuta entre Pastores e fiéis, mantendo-os, de um lado, unidos a priori em tudo o que é essencial, e impulsionando-os, de outro, a convergir normalmente também nas questões opináveis na direção de escolhas ponderadas e compartilhadas” (João Paulo II, Novo millennio ineunte, 45).
Meditando sobre estas perícopes, me chamou a atenção o fato que Deus não somente nos deu um “anjo da guarda” pessoal, mas também designou um anjo protetor para cada uma das Igrejas. E, deste importante “aliado” celeste, Ele se serve para fazer chegar as suas mensagens às comunidades cristãs. Pareceu-me lógico pensar que quando o anjo de uma Igreja fala em nome do Altíssimo, dirija-se, antes de tudo, ao bispo que a preside.
Diante disto me perguntei: Então, o que diz hoje o Espírito às Igrejas? (cf. Ap 2,29). E em particular, o que diz hoje a mim o anjo da minha Igreja?
Vim aqui com a certeza de que vou compreender melhor a voz do anjo da minha diocese, graças à experiência de fraternidade que faço com vocês, neste Centro Mariápolis que considero uma verdadeira “casa e escola de comunhão”.
No texto do Apocalipse, junto com as admoestações e severos convites à conversão, há uma frase que sinto ressoar forte dentro de mim: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, eu virei a ele, cearei com ele e ele comigo”(Ap 3,20). Escutando os temas desenvolvidos, pareceu-me claro que Aquele ao qual devo dar sempre mais lugar na minha vida, é à presença de Jesus-entre-nós.
Presença do Senhor na comunidade
Estou profundamente convencido de que esta “particular presença” do Senhor, que se realiza quando dois ou mais estão unidos no Seu nome (cf. Mt 18,20), constitui hoje uma reserva indispensável de graça, portanto, indispensável e insubstituível, se quisermos, que a Igreja seja sempre mais Igreja e navegue serena nas águas agitadas do mundo contemporâneo. Sem recorrer à “graça específica” doada pela presença de Jesus no meio da comunidade cristã reunida em seu nome, será impossível ter toda a luz para entender o sentido profundo dos acontecimentos, como no-lo demonstra a experiência dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13-35), e encontrar a força para superar os desafios que nos vêm da história.
Sim, a decisiva partida que a Igreja hoje é chamada a enfrentar se joga no campo da comunhão. Permitam-me, então, citar aqui uma célebre e importante passagem de São Bernardo, doutor da Igreja.
«O demônio teme pouco aqueles que jejuam, aqueles que rezam também à noite, aqueles que são castos, porque sabe muito bem quantos destes levou à ruína. Mas aqueles que são concordes e que vivem na casa de Deus, com um coração só, unidos a Deus e entre eles no amor, estes geram dor, temor e raiva ao demônio.
Crise da Igreja, crise de comunhão 9
Esta unidade da comunidade não somente atormenta o inimigo, mas também atrai a benevolência de Deus (...). De fato, o espírito maligno sabe que o Filho não permite que se perca ninguém daqueles que ele entregou ao Pai: de fato, não há quem possa tirá-los de sua mão.
E, por isto, principalmente, o demônio sabe que, aqueles que se amam estão na mão de Deus e não são tocados pelo tormento da morte. Nisto, disse, “conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes mutuamente” (todos o conhecerão, também os demônios). O demônio teme o amor entre as pessoas... Esta é a cidade forte e invencível»21.
Maria, mãe e modelo de comunhão
Sabe-se que aqueles que querem viver e construir a unidade evangélica devem ter Maria como guia e companheira de viagem: pois é Ela a mãe e o modelo de Comunhão. Exatamente por isto o Movimento dos Focolares, através do qual o Espírito nos deu o Carisma da Unidade, encontra na humilde Virgem de Nazaré a sua mestra e – permitam-me a expressão – a sua “leader”. Por tal razão, o Movimento foi reconhecido pela Igreja com o nome de “Obra de Maria”, no duplo sentido da expressão: de obra feita por Maria e de instrumento através do qual Maria opera. De fato, nos seus Estatutos Gerais se lê: a Obra «demonstra particular ligame com Maria Santíssima, Mãe de Cristo e de cada pessoa, da qual deseja ser – na medida do possível – uma presença sobre a terra e quase uma continuação»22.
Maria «que se fez serva e discípula da Palavra até ao ponto de conceber em seu coração e na sua carne o Verbo feito homem para doá-lo à humanidade»23, nos guie nos caminhos da Palavra-comunhão: acolhida, vivida e doada. Para que isto aconteça, é preciso que nos empenhemos a levá-la para nossa “casa” (cf. Jo 19,27), para que, formados na sua escola, o Ressuscitado-entre-nós nos torne eficazes anunciadores do Evangelho, testemunhas da caridade recíproca, semeadores corajosos da esperança que não engana e, desde já, reflexos vivos da glória do mundo que virá.
22 Estatutos gerais da Obra de Maria, primeira parte, cap. 1º, art. 2.
23 João Paulo II, Pastores dabo vobis, 82.
(Set. 2015)
Pode ser que eu esteja errado, mas penso que a depressão seja uma doença mista, ou seja, provêm em parte de algum problema no cérebro e, ao mesmo tempo, de algum problema psicológico.
Aqui vou falar algo sobre essa última causa, a psicológica.
Qualquer pessoa que tenha uma profissão ou atitude de vida que a destaque das demais, torna-se um tipo de protótipo, de modelo, que é amado e imitado por alguns e odiado e detestado por outros: cantores, artistas, professores, jogadores etc.
Pessoas desse tipo devem ser muito humildes e ter muita caridade e misericórdia de si mesmas, além da que é devida às outras pessoas. Acho que essa é a peça fundamental do desequilíbrio psicológico que causa ou faz piorar a depressão.
A pessoa famosa sabe que tem uma determinada imagem, mas é quase que cotidianamente acossada pelos seus pontos fracos ou mesmo pelas tendências normais de todos os seres humanos.
Nossa carne sempre nos lembra de que não somos anjos, mas animais, embora racionais. O próprio Apóstolo São Paulo se queixava disso: “Quem me livrará deste corpo de morte?” (Romanos 7,24). Um pouco antes desse versículo ele diz que faz o que não quer e não faz o que realmente deseja fazer (vers. 15).
Para não haver recalques e piora dos sintomas de depressão, é preciso muita humildade e confiança em Deus, é preciso aceitar-se como se é, a fim de que a sensação de que “não sou aquilo que o povo pensa que eu sou” não tome conta de nós e não se transforme em doença.
Os santos souberam magistralmente lidar com isso, pois confessavam-se sempre pecadores, embora saibamos que exageravam nessa “confissão”. E dificilmente caíam em depressão.
A solução é, pois, permanecermos com os pés no chão e nos conscientizarmos que nossa boa fama não vai automaticamente livrar-nos de pensamentos e desejos “selvagens” (como a ira, por exemplo). Somos feitos de corpo animal e alma imortal. Enquanto vivermos nesta terra, sempre estaremos recebendo os impulsos instintivos do “Irmão Corpo”, como dizia S. Francisco.Aliás, é esse o motivo pelo qual alguns santos tanto faziam penitência: para fazer calar a voz do corpo, mas eles, quando muito apenas conseguiam amainá-la. É também o motivo pelo qual não caíam em depressão embora muitos deles foram caluniados e vilipendiados pelas autoridades e mesmo pelo povo das diversas épocas. Somos o que somos diante de Deus, e nada mais!
Autor: Pe Joacir Soares / Diocese de Formosa
Possivelmente, muitas pessoas viram a reportagem em que o Padre Fábio de Melo declarou estar passando pela síndrome do pânico. Algo me chamou a atenção (tirando a força midiática e o poder manipulador e ideológico que possa estar por trás da matéria)! No fundo, ele se fez porta-voz de inúmeros sacerdotes que também enfrentam a depressão e outras angústias. É algo a ser pensado, pois carregamos muitas aflições e cansaços, muitos pesos e perseguições, muitas humilhações e desesperos, muitos desprezos por falar a verdade!
Quantas vezes não podemos dizer o que sentimos e o que passamos, pois somos vistos como "máquinas de solução de problemas". Quantas noites choramos escondidos, porque devemos estar sempre alegres! Quantos momentos gostaríamos de ficar descansado e precisamos estar na luta do dia! Quantas vezes o telefone nos incomoda e engolimos o soluço para atender as preocupações e inquietações dos que nos chamam! Quantas ocasiões, como muitas pessoas, não sabemos como pagar contas paroquiais!
Quantas vezes, a refeição (Ou a marnita) esfria para atender uma pessoa. Infelizmente, o contexto social mostra que a vida de um padre não pode ser frágil e nem triste, não se dá o direito de assumir a dor, a tristeza ou as angústias... Quando muitos descansam, passamos noites em claro pensando nas soluções, nos remédios que temos a oferecer, nas atividades a concluir.
Um padre também sofre, também se decepciona, também se sente abandonado, também se sente esquecido, também chora e ri!
Querem que sejamos homens de profunda fé, irreparáveis administradores, eloquentes oradores, arquitetos de catedrais, incansáveis animadores (de diferentes eventos), agentes solucionadores de angústias.
No fundo, com nossos poucos dons, queremos ajudar a proclamar a beleza do evangelho ensinado por Jesus Cristo!
Rezemos pelos padres, pequenos grandes gigantes da fé!!!
Autor: Pe Joacir Soares / Diocese de Formosa
A energia erótica é a verdadeira compaixão!
Pe. Ademir Guedes Azevedo,cp
Muitas pessoas vivem sob os efeitos nefastos da depressão. São inúmeras as causas que, minuciosamente, desembocam nesta doença. Um dos terríveis fatores reside no ato de comparar a própria vida com a dos outros. No espaço virtual isso é cada vez mais aguçado. Tem-se a impressão que saímos como perdedores diante das inúmeras conquistas e da “bela vida” que os outros levam. Sabemos, contudo, que por trás das inúmeras postagens de um mundo perfeito, residem pessoas com o coração partido, com fracassos e desilusões. Personagens famosos, principalmente no mundo religioso, chegaram ao limite e pedem socorro porque a depressão, infelizmente, resolveu visitá-los. O golpe final da depressão é o suicídio.
Acrescente-se ao dado biológico da depressão, um outro fator devassador: se trata daquele desânimo que afeta a alma, a acídia. Na realidade, os padres do deserto já advertiam sobre essa doença espiritual. Seu sintoma principal é o desânimo ou a preguiça. Não se cultiva uma vida de interioridade, tudo parece não valer a pena. Diante do bem-estar do capitalismo, eu mesmo crio meu deus, abandono a dimensão do cuidado para com o próximo e não me interessa se o Evangelho me pede renúncias e o compromisso de carregar a cruz todos os dias. Na nova geração de consagrados, salvo raras exceções, a acídia espiritual se manifesta na perda do sentido da utopia. Tem-se dificuldade de sonhar e investir as energias na profecia que questiona o status quo e desestabiliza os nossos cômodos rituais.
Tal realidade suga a nossa paixão pelo Reino. Esta categoria nos adverte a não nos contentar com as nossas seguranças que, desesperadamente, criamos todos os dias. A realidade não é absoluta. Nela existimos, mas não nos eternizaremos aqui, precisamos caminhar e ir além. Quando me deixo guiar pela acídia espiritual, me dou conta que tudo é material, a transcendência vira coisa do passado. Veja-se, por exemplo, o caso de pessoas que prometeram a si mesmas serem fiéis a um propósito e, com o envolvimento numa série de situações, acabaram se perdendo e esquecendo do primeiro amor. Para sermos mais diretos: aquele jovem que prometeu amar até a morte aquela linda mulher que um dia foi a única paixão de sua vida, depois de certo tempo de convivência deixou apagar-se a chama do amor; aquele outro jovem que entrou na vida religiosa com o ardente desejo de dar a vida em prol dos irmãos, mas tomado pelo clericalismo deixou-se enganar por um estilo supérfluo que já não reflete a profundidade do Evangelho. Para sermos mais precisos, a acídia espiritual manipula a nossa subjetividade, ou seja, nos faz viver para nós mesmos, nos aprisiona dentro de nossas fantasias. Em outras palavras: o isolamento toma sempre o primeiro lugar seja na depressão que na acídia espiritual.
Contudo, existe em nós uma energia capaz de nos despertar deste sono da indiferença, trata-se do éros. Infelizmente, este foi sempre demonizado e associado ao pecado. Todavia, o cristianismo através do ágape purificou o éros do veneno do egoísmo que desejava apenas o prazer dos belos corpos. Com a cruz de Cristo, o éros transformou-se em energia de encontro, de desejo de estar com o outro para cuidar de suas feridas. Vejamos o caso de Jesus: não é uma blasfêmia dizer que foi o éros que o fez deixar a vida intratrinitária para encarnar-se e viver a plenitude de ser homem. Foi o éros, este desejo incontrolável pelo outro, que o fez encontrar-se com a ovelha perdida para carregá-la nos ombros, foi a energia erótica de Jesus que o moveu como bom samaritano para derramar sobre nossas feridas o óleo de sua misericórdia. O ágape, na verdade, é apenas o resultado do sadio desejo erótico que sentimos para com o próximo que está diante de nós.
Precisamos aflorar a nossa energia erótica e permiti-la que conquiste a sua devida cidadania. A depressão, infelizmente, tenta apagar o éros, mas este por sua vez, resgata a vida da amargura. A acídia espiritual não é capaz de desejar o outro para oferecer o ombro da compaixão. Como seria bom se nós nos inspirássemos na energia erótica do Cirineu que o motivou a carregar a cruz de Jesus.
Além destes personagens bíblicos que citei, gosto de contemplar a compaixão erótica de Madre Teresa e de Francisco de Assis. Sinto-me ressuscitado quando contemplo o incontrolável erotismo de Teresa de Calcutá que cuida das crianças abandonadas. Renovo-me quando imagino Francisco, ao ser tomado de erotismo, beija o leproso e chama a tudo e a todos por irmão. Só o éros pode nos resgatar da nossa indiferença. E você, já pensou que pode revolucionar com o poder de sua energia erótica? Use-a para a compaixão!
Espiritualidade Presbiteral: nos caminhos de Charles de Foucauld (Pe. Daniel Higino)
A Igreja, em seus muitos caminhos, dá sinais de imensa vitalidade. Para alguns, ultrapassada, marcada por intenso rigor moral, distante do povo e manchada por escândalos. Outros a tem como refúgio das intensas tempestades da vida. Ambos os olhares escondem os valores presentes na sua essência. Urge mergulhar no vigor da sua gênese para entendermos o seu significado e importância. Na definição Igreja Povo de Deus do Concílio Vaticano II encontramos a chave para essa compreensão. Entender tal definição nos remete à comunidade de discípulas/os, anunciadores do Reino de Deus. Consequentemente, caracteriza-se por sua dimensão profética, missionária e comunitária. Sua doutrina se baseia na fé em Jesus Cristo e no aprofundamento do Evangelho. Por pertença a essa identidade cristã, necessariamente se coloca em diálogo permanente com o Outro e sabe reconhecer as diferenças.
Na vida cristã surgem várias oportunidades de alimentarmos a fé. Chamamos de caminhos de espiritualidade, facilitadores dessa busca de comunhão com Deus. A leitura orante da bíblia, o ofício divino das comunidades, as diferentes devoções, a participação nos sacramentos e demais celebrações comunitárias elencam as práticas mais comuns. Ao longo das minhas andanças, descobri a espiritualidade de Charles de Foucauld. Esta contribui para a experiência do encontro com Deus no meu dia a dia. Da experiência do encontro, não há como escapar do questionamento permanente sobre a coerência entre fé e vida. A arte de viver nos ensina a aprender a fazer rupturas. Quando essas rupturas originam-se da busca pela coerência, geram dor e prazer, e, por fim, edificam o ser humano.
Certa vez conversei sobre espiritualidade com D. Pedro Casáldaliga, poeta, profeta e “meu padrinho”. Lembrou-me da importância da oração diária, oração comunitária e da fraternidade presbiteral. Apresentou-me a espiritualidade de Foucauld. No primeiro momento, acolhi com suspeita, sempre resisti à ideia de pertença a algum movimento. Ao mesmo tempo, fiquei com a memória do semblante místico de Ir. Genoveva Tapirapé1. Eu a conheci no mesmo período da conversa com D. Pedro. Resolvi, naquele ano de 1998, procurar informações a respeito. Veja só, ainda hoje participo. Digo a vocês, muitas das minhas decisões fundamentais na vida tiveram estreita relação com o caminho feito a partir dos meios da espiritualidade de Foulcauld.
Charles de Foucauld pertence ao grupo dos místicos contemporâneos. De família aristocrata de Strasburgo, oficial do exército francês, indisciplinado, muitas vezes, e entregue a inúmeros sabores e prazeres transformou sua vida numa entrega total de amor ao “Bem Amado Senhor Jesus”. Em expedição realizada em Marrocos, aos vinte e poucos anos de idade, para exploração do território se confrontou com a fé. Não a cristã da qual fazia parte. Descobriu a Deus no testemunho de vida dos mulçumanos e na piedosa oração por eles praticada. A profundidade como levavam a sério o amor a Deus lhe comoveu profundamente. Ratifica-se a ideia do rosto do Outro como caminho para revelar nossa verdadeira imagem. Sua prima Maria de Bondy levará Carlos para encontrar-se com Pe. Huvelin. Este pediu ao jovem para se ajoelhar e confessar, daí nasce a vocação religiosa do Ir. Carlos no mesmo instante da sua conversão.
O mergulho espiritual desse rapaz o leva à busca de Nazaré. Experimentou a Trapa, viveu como Ermitão, trabalhou como jardineiro na casa das irmãs clarissas em Nazaré. Não desejava a ordenação. Na busca do último lugar, tornar-se padre parecia contradizer esse ideal. Aceitou mais tarde a ordenação, imbuído no profundo amor à Eucaristia e à missão. O sacerdócio ministerial daria condições de conduzir mais as pessoas a Cristo.
A concepção missionária do Ir. Carlos se traduz em “gritar o Evangelho com a Vida”. Nada de pregação, discurso, catecismos ou doutrinas na evangelização. Para ele, vale o testemunho como caminho de sedução para as pessoas desejarem o conhecimento de Cristo. Ir. Carlos compreende a vida como entrega total ao absoluto de Deus. Desse modo, dedica-se cada vez mais a viver na pobreza e a compartilhar da vida com os mais pobres. Decide morar no deserto. Acolhe os tuaregues, migrantes, refugiados, soldados feridos, e tantos quantos precisassem. Morre assassinado aos 58 anos, no dia 1 de dezembro de 1916.
Enterrada a semente, ela cresceu e produziu seus frutos. Na época, tudo parecia fracassar. Ninguém aderiu à fé cristã, muito menos conseguiu formar comunidade; conheceu o abandono e experimentou a morte pelas mãos daquele a quem havia acolhido em sua casa. Com o passar dos anos, muitos buscaram sua inspiração. Diversas fraternidades se formaram. Comunidades religiosas, leigos/as, presbíteros alimentam-se da mística do Ir. Carlos para construir o caminho espiritual. Quais princípios norteiam tal espiritualidade? Simples! Viver o Evangelho. Implica viver com simplicidade; buscar a vida de Nazaré, ou seja, a busca do último lugar; fazer opção pelos pobres; construir solidariedade, a partilha e o bem viver. Para isso, sugerem-se alguns meios: leitura orante e diária da bíblia, adoração eucarística, revisão de vida, trabalho manual, dia da fraternidade e deserto mensal. Algo fundamental nessa caminhada acentua-se na discrição. Nada de ostentação ou ufanismos como se as fraternidades fossem o único caminho de salvação. Entende-se como meios possíveis de orientar a vida espiritual na caminhada de fé cristã. Na fraternidade sacerdotal afirmamos, sem desculpas, o caráter da nossa pertença ao presbitério local. Vive-se bem a espiritualidade do padre diocesano na fraternidade presbiteral em nossas dioceses.
Na família da espiritualidade de Foucauld surgiram congregações. Destacam-se as Irmãzinhas de Jesus e os Irmãozinhos de Jesus. O princípio básico dessas comunidades fundamenta-se em viver com os mais pobres do mesmo trabalho dos mais simples. Muitos padres e religiosas trabalham em fábricas, como varredores de rua, na limpeza de órgãos públicos, em circo, como cozinheiras/os, faxineiras/os em hotéis ou casa de famílias, em comunidades indígenas e ciganos. O último lugar de Nazaré se faz no lugar dos últimos de nosso tempo. Inaugura-se novo modo de vida contemplativa. Viver do trabalho sem desprezar a vida em fraternidade e oração. A obra literária que melhor traduz a mística da fraternidade chama-se Fermento na Massa de René Voillaume de 1956. Ao longo dos últimos 3 anos, leio e medito a obra.
Nos doze anos como padre, agradeço a Deus as inúmeras oportunidades. Santa Maria, a Faculdade dos Jesuítas, as comunidades mineiras e as de Sobradinho realizaram a minha vida presbiteral. Deus me conduz a uma nova missão. As minhas orações e inquietações iluminam novas perspectivas no ministério. Sem dúvida, geram crises e, com isso, rupturas. Incomoda-me, em alguns setores na Igreja, o afastamento das opções renovadoras do Concílio Vaticano II. Cresce o clericalismo e notamos certo fechamento ao diálogo com as diferenças. De outro lado, aumenta o desejo de inserir-se mais no mundo, aproximar-se das diferenças e conviver com excluídos. Continuo o meu ministério no aprofundamento mais radical da minha condição de batizado. Avalio como graça divina o atual momento da minha história eclesial. Rendo graças diariamente a Deus por esse momento da Arquidiocese de Brasília. A chegada de D. Sérgio a nossa Igreja particular sinaliza a vinda do tempo do “aggiornamento” de Brasília. Acredito chegar a hora da valorização dos inúmeros carismas, no fortalecimento das CEBs, na visibilidade eclesial dos grupos da caminhada, no amadurecimento da opção pelos pobres, no protagonismo dos leigos/as, no horizonte missionário da Igreja e na acolhida sempre mais misericordiosa e samaritana das pessoas em nossas comunidades.
Nos últimos meses, passei por uma revolução copernicana. Vocês devem se lembrar, nas minhas últimas cartas, dos problemas familiares e o surgimento da papelaria. Digo, dos desafios surgem as oportunidades. Resolvi, em acordo com o bispo, morar próximo da família. Nesse mesmo instante, Daniel Seidel, secretário da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (SEDEST), cria nova subsecretaria para acompanhar a situação dos catadores de material reciclável no Distrito Federal. Surge o convite para eu participar desse projeto. Aceito. Com o devido diálogo com o bispo, inicio o trabalho. No início, com certo escrúpulo, mas inspirado no legado biográfico de D. Hélder (2) decidi enfrentar o desafio. Terei como missão, junto com a subsecretária Jaira Puppin e a Maria Paula, contribuir na organização dos catadores para a inclusão social dos mesmos, hoje em condições extremamente precárias.
No horizonte da nova missão, encontro respostas às buscas mais profundas na minha experiência de fé. Localizar-se mais no mundo. Exercer o ministério junto aos mais pobres. Conhecer de perto a vida dos trabalhadores. Aproximar-se do último lugar. Exercer a dinâmica da interação igualitária com as pessoas, no diálogo, na simplicidade e nos conflitos cotidianos. Conviver com outras crenças, filosofias de vida e indiferenças religiosas. Exige-se daí disciplina para o tempo da oração, do estudo, da dinâmica daquilo que é próprio do ministério. Procuro equacionar a responsabilidade e o compromisso assumido a evitar o mero ativismo sem consequências.
Com isso, tenho renunciado a outras oportunidades, como o aconchego diário das comunidades eclesiais, a contribuição nas assessorias, os encontros regionais e nacionais, os privilégios paroquiais, os elogios superficiais e outros benefícios clericais.
Nesse instante, torna-se difícil a presença nas reuniões e retiros do clero, a minha participação mais efetiva nos encontros da Fraternidade e retiros regionais e até mesmo o nacional. De outro lado, não abro mão da oração diária, da leitura orante, do ofício divino, da participação da Eucaristia e dos dias de deserto. Pareço estar próximo das intuições do Sodalício (3).
O ritmo de atividades exige a alvorada das 5hs e o recolhimento noturno das 22hs. Na semana, alterno a dedicação integral à luta dos catadores de material reciclável com as múltiplas reuniões de preparação do III Fórum de Teologia no Cerrado. Além do mais, acompanho, na medida do possível, as diversas atividades arquidiocesanas, tais como Rede Celebra, CEBs, CEBI, MAC, PJ, 5ª Semana Social Brasileira, Pastoral dos Migrantes e outras articulações. Nesse momento, inicia-se a preparação do Encontro Nacional de Fé e Política, previsto para novembro de 2013 aqui em Brasília. Além dessas atividades, acompanho a família no cuidado da saúde e na proteção integral de todos.
Texto longo e partilha verdadeira. Responde às perguntas de muitas pessoas quando me encontram. Trata-se de coerência de vida e espiritualidade. O Concílio abriu janelas e portas para pensarmos outros modos de exercer o ministério. Na Presbyterorum Ordinis (4) se diz: “Sejam ensinados também aos cristãos a não viverem só para si, mas segundo as exigências da nova lei da caridade, cada um, assim como recebeu a graça, a administre ao outro, e assim todos cumpram cristãmente os seus deveres na comunidade humana” (PO 6).
E ainda:
“Embora sejam devedores de todos, os presbíteros consideram como recomendados a si de modo particular os pobres e os mais fracos, com os quais o próprio Senhor se mostrou associado, e cuja evangelização é apresentada como sinal da obra messiânica” (PO 6).
Que a paz de Deus esteja em nossos corações e jamais percamos a esperança!
Fraternalmente: Daniel Higino Lopes de Menezes
4 de agosto de 2012 Dia do Padre
1 Ir. Genoveva pertence a congregação das Irmãzinhas de Jesus. Habita com os Tapirapés há 60 anos. A presença das irmãzinhas nessa comunidade indígena salvou os povos de extinção.
2 D. Hélder Câmara, na maior parte do seu ministério como presbítero, atuou como servidor público na secretaria de educação do Ceará e ministério da educação no Rio de Janeiro.
3 Sodalício pertence à família de Charles de Foucauld. Consiste na vivência das intuições do Ir. Carlos, com o mínimo de estruturas sem a exigência da vida comunitária no formato de Fraternidades.
4 Decreto do Concílio Vaticano II que trata sobre a vida e o ministério dos presbíteros.
Premido pelas circunstâncias, fui morar por alguns meses num lugar cheio de mata virgem por todos os lados, afastado da cidade.
Nasci e me criei na cidade. Nunca morara sequer num sítio antes. Pensei, no início, que ia viver em paz. Ilusão! Não sei como uma pessoa pode viver naquele ambiente! Vejam alguns itens que anotei:
1- Noite após noite, faça lua (quando é pior) ou chova, você tem que dormir com barulho infernal de sapos, grilos, gaviões, pássaros noturnos, ressoando em seus ouvidos, SEM NENHUM BOTÃO PARA DESLIGAR!
2- Durante o dia, ou você gasta todo o seu salário em repelentes, ou fica de calça, meia e camisa de manga comprida o dia todo, por causa dos pernilongos. Contei cinco espécies desses bichinhos. Motucas, três espécies, e sempre atacam em meia dúzia. Borrachudos, contei dez espécies diferentes. Você quer escrever, por exemplo, ou rezar, ou mesmo trabalhar, e não consegue, pois fica lutando ingloriamente contra essas criaturinhas de Deus. Diz o livro da Sabedoria que Deus ama tudo o que criou, pois, se houvesse alguma criatura da qual ele não gostasse, não a teria criado!(Sabedoria 11,23-24). Outra alternativa é deixá-los à vontade e oferecer aquela dorzinha chatíssima para reparação dos pecados!
3- O calor é tão forte que você precisa tomar banho de rio (há ali um rio caudaloso, de águas cristalinas, sem barro nenhum, só com cascalhos e pedrinhas no fundo, a 8 metros da casa várias vezes por dia. Você deve estar pensando "que delícia!" Engano seu! Uma nuvem de pernilongos e mutucas de 2 cm de tamanho fica rodeando sua cabeça e suas costas e, logo que você sai da água, também os seus pés.
4- De manhã você lava o rosto e escova os dentes no rio (depois de se estapear várias vezes para matar os borrachudos de plantão) e vai tirar leite da vaca. Se você não levar nenhum coice, vai ter de ferver todo o leite. Na cidade, ele já vem prontinho! O vasilhame fica com aquela nata grossa colada, e leva meia hora para lavá-la, pois lembrem-se de que a pia é o próprio rio!
5- Cansado de lutar contra vacas, pernilongos, mutucas, borrachudos, você resolve dar um passeio na mata. Terá que enfrentar um mato o(a) cobre até o peito, e matar umas duas ou três cobras pelo caminho, atravessar regatos, escorregar e se esborrachar na lama, atolar os pés nos atoleiros...
6- Você resolve dar um passeio até a cidade: não há ônibus! Terá que andar seis quilômetros numa estrada de terra, sob um sol escaldante, suando bicas. E, na estrada, as mutucas fazem questão de ficarem circulando ao redor de sua cabeça até a cidade!
7- Chegando da cidade, com fome, você vai fazer comida: acabou o gás! Não há outro jeito: vai ter que acender o fogão a lenha. Meia hora depois de tentar, você consegue acender o fogo. A comida fica uma delícia, mas... você já tentou lavar no rio as panelas com fuligem de fogão à lenha? E as mãos? Lembro que é proibido usar detergente no rio!
8- Finalmente, você vai dormir: tem que fechar portas e janelas para não ser sugado pelos inúmeros insetos criados por Deus. Você é acordado de madrugada, com a vaca mugindo sob sua janela ou com o galo cantando desesperado!
Chego a algumas conclusões:
1- Viver a pobreza não é viver numa carência dessas, mas aprender a usar bem os bens materiais e partilhar: Jesus utilizou tudo o que havia de melhor em seu tempo para seu apostolado, sem contar que sua roupa foi disputada no palitinho pelos soldados. Quantos fariam o mesmo para ficar com a minha roupa?
2- Viver na natureza até que pode ser bom, mas devidamente melhorada e transformada pela nossa capacidade de adaptação, pelas nossas invenções. A natureza na e crua, acreditem-me, é estressante!
10/01/18
O problema não é de hoje. Li no livro “A Imitação de Cristo”, de Tomás de Kempis, escrito no século 15, uma advertência para os que deixam a Eucaristia abandonada no sacrário de sua igreja para ir visitar e beijar relíquias de santos em outros países e igrejas. Veja o que o livrinho (depois da bíblia é o mais velho e difundido livro de leitura permanente) diz sobre esse assunto no livro quarto, capítulo 1, número 9 (em algumas versões, número 8):
8. Correm muitos a diversos lugares para visitar as relíquias dos santos, e se admiram ouvindo narrar os seus feitos; contemplam os vastos edifícios dos templos e beijam os sagrados ossos, guardados em seda e ouro. E eis que aqui estais presente diante de mim, no altar, vós, meu Deus, Santo dos santos. Criador dos homens e Senhor dos anjos. Em tais visitas, muitas vezes é a curiosidade e a novidade das coisas que move os homens; e diminuto é o fruto de emenda que recolhem, principalmente quando fazem essas peregrinações com leviandade, sem verdadeira contrição. Aqui, porém, no Sacramento do Altar, vós estais todo presente, Deus e homem, Cristo Jesus; aqui o homem recebe copioso fruto de eterna salvação, todas as vezes que vos recebe digna e devotamente. Aí não nos leva nenhuma leviandade, nem curiosidade ou atrativo dos sentidos, mas sim a fé firme, a esperança devota e a caridade sincera.
Já é hora de valorizarmos mais a Sagrada Eucaristia em nossas igrejas, e adorar com maior frequência o Santíssimo Sacramento, que é o próprio Jesus Cristo em Corpo, Sangue, Alma e divindade. Não estou dizendo aqui para se parar de visitar esses lugares sagrados ou de peregrinações, como Aparecida, ou a igreja do Divino Pai Eterno, ou o Padre Cícero, mas lembro que devemos dar mais valor à adoração de Jesus na Sagrada Eucaristia. Como diz o texto acima, Jesus está tão perto de nós e vamos buscar consolações espirituais em outros lugares...
20/08/2017
Este trecho é do 20° domingo do tempo comum do ano A e gostaria de comentar aqui para confirmar a atitude coerente do papa Francisco em privilegiar os pobres e afastados. Ele está seguindo o evangelho, que infelizmente, com o decorrer dos séculos, foi um pouco deixado para trás por causa da burocracia eclesiástica.
É Mateus 15,21-28.
Uma mulher pagã, ou seja, que não era do povo judeu (hoje diríamos que não era batizada e seria estrangeira, e de um povo que sempre teria tido ódio de nosso povo). pedia que Jesus curasse sua filha. Jesus não ligou. A mulher insistiu. Jesus lhe disse que não podia dar os pães aos cachorrinhos (era assim que apelidaram os cananeus). A mulher lembrou Jesus que os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa dos que estão se banqueteando. E era isso mesmo: nas casas dos ricos, eles limpavam os dedos (porque comiam a carne com as mãos) com miolos de pães que eram jogados ao chão e comidos pelos cachorros.
Jesus disse, então à mulher PAGÃ e cananeia, ou seja, inimiga dos judeus, o que poucas vezes dissera: “GRANDE É A TUA FÉ”! Gente, lembro-lhes que no evangelho do domingo passado Jesus disse a PEDRO; “HOMEM DE POUCA FÉ”! E Pedro, como sabemos, foi depois o primeiro papa, nomeado pelo próprio Jesus.
Isso mostra como o papa Francisco está certo ao estender o cristianismo a todos, sem distinção. Precisamos vencer esse paradigma e sermos missionários deste novo tempo! (Paradigma é quando a gente acha que deve continuar tudo como está, que não há como superar esta ou aquela dificuldade).
Nós vivemos buscando momentos de felicidade: um churrasco com os amigos, uma festa, passeios, viagens, o contato com os filhos, a alegria que um casamento feliz proporciona, o cheirinho gostoso de um carro novo, umas doses de bebida... e tantas outras coisas mais.
Alguns, entretanto, chegam a roubar e a desviar verbas para terem mais e mais dinheiro, outros assassinam, vendem-se a outros com ligações financeiras que acabam com os sonhos de felicidade de muitas pessoas que trabalham duramente para conquistarem um lugar no mundo, e vocês sabem o que mais.
Já ouvi muitas vezes pessoas dizendo que o Céu deve ser chato, e que lá não deve haver nada para fazer. Preferem a terra, esta miserável terra, apesar de suas dores e aflições. São poucos e fugidios esses momentos de felicidade. Aliás, nem são assim tão intensos! São momentos que passam logo!
Pois hoje, na Hora Santa, lembrei-me de lhes dizer que não é assim. No Céu, para onde todos nós pretendemos ir, mesmo aqueles que amam os prazeres desta terra, a felicidade não é passageira e momentânea como aqui, mas E-T-E-R-N-A!
A felicidade que às vezes sentimos aqui na terra, lá é perene, nunca termina! É como... Bem, eu pensei em tantas comparações, mas não há como comparar com coisas desta terra. São Paulo foi levado ao Céu, numa visão, mas não sabia descrevê-lo com palavras humanas. Jesus veio do Céu para nós, mas apenas deu-nos uma ideia com exemplos de seu tempo, por meio de parábolas. Não há, em nenhuma língua aqui da terra, palavras que descrevam a felicidade do Paraíso.
A contemplação de Deus é a máxima felicidade que podemos ter. Quando criou o mundo, Ele nos deu a possibilidade de partilharmos alguns desses momentos de felicidade, mas a total ocorrerá apenas após a ressurreição final.
Que pena se não tivermos isso em nossa mente e em nosso coração! Vale a pena todo e qualquer tipo de luta que precisemos enfrentar para sermos dignos de entrarmos na Celeste Mansão!
Mas lembremo-nos sempre de que sem a graça divina, nunca conseguiremos. Jesus deu a vida para nos salvar, mas temos que fazer a nossa parte. Nossa parte, nossa principal obra é, como diz o Pe. Paulo Ricardo, CRER, aceitar a ação de Deus em nossa vida, com muita humildade, sem condições, sem querermos fazer “negociata” com Deus. Deus não se deixa enganar. Ou aceitamos suas condições, ou ficamos com nossas próprias forças e nada conseguiremos. Se não aceitarmos Deus, Ele respeita a nossa escolha, mesmo não sendo isso que deseja, porque nos ama infinitamente, mas nos deixa às nossas próprias forças. Isso é terrível! Muitos vivem nessas condições: vivem apenas à base de si próprios. Deus olha para os sofrimentos e decepções dessas pessoas, mas nada pode fazer. Não porque não tem poder para isso, mas porque não entra em nossa vida se não o permitirmos.
“Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo”. (Apocalipse 3,20).
abr. 2018
07/02/16
Numa festa paramos no tempo e no espaço. Deixamos de lado o nosso dia a dia, não levamos conosco os nossos problemas. É um oásis no nosso deserto. O passado é lembrado apenas nas conversas e nas piadinhas e quase não se fala no futuro.
Cada participante tem seus próprios problemas, mas porta-se como se nada o(a) afligisse.
Colocamos nossas “máscaras” de felicidade e bem estar, caprichamos na roupa, as mulheres capricham na maquiagem para não mostrarem os traços do envelhecimento. Tentamos mostrar que estamos “enxutos” e bem de vida.
Olhamos ao redor até encontrarmos alguém para despejarmos nossa vaidade. Quando encontramos, ficamos felizes, pois temos “plateia”.
Inicia-se, então, uma disputa de eficiência e conhecimentos. Se alguém conta uma piada, nós a rebatemos com outra, que julgamos melhor do que a ouvida. Na verdade, às vezes nem chegamos a prestar atenção à que fora contada, pois procurávamos em nosso “arquivo” uma melhor.
Se o nosso interlocutor se queixa de uma doença, sem darmos a ele a devida atenção, logo achamos uma doença maior que a dele, que nos incomoda mais do que a dele (dela).
Se a conversa for viagens, nós sempre conseguimos achar em nosso “arquivo” mental (ou em nossa fantasia) uma muito superior à do (a) nosso (a) colega.
Se for sobre alimentação, minha nossa! Temos trabalho em encontrar um prato que nunca tenha sido experimentado pelo outro, e que lhe dê água na boca.
E se o assunto virar para futebol? Há algum time melhor do que o meu?
Os automóveis... duvido que você tenha um como o meu!
Mas... o que realmente torcemos é que a pessoa pergunte sobre nossos filhos. Aí vai haver assunto para o restante da festa. Os meus filhos são muito melhores, muito mais inteligentes, muito mais espertos, muito mais paparicados do que qualquer outro. Sempre tira a melhor nota na escola. Qualquer coisa que nós ouçamos, vamos falar melhor em relação aos nossos filhos.
Final de festa. Satisfeitos pelos nossos engrandecimentos, deixamos um pouco de cerveja no copo para dizer que não bebemos muito e voltamos para casa com a “alma lavada”.
Em casa tiramos as nossas máscaras e recomeçamos nossa vidinha “chinfrim” com todos os limites, problemas, dúvidas, decepções, desânimos, raivas, projetos frustrados, afetos e desafetos de sempre, projeto de mandar reformar o carro que já não está se aguentando em pé, até que apareça outra festa, para podermos contar novas vantagens.
Como disse o poeta Carlos Drummond de Andrade na poesia “Cidadezinha qualquer”, “Êta vida besta, meu Deus”!
- 06/04/16-
Eu vi hoje algumas flores de vários tipos, e veio-me à mente que elas não têm consciência da própria beleza nem do seu perfume.
Embelezam e perfumam sem saber disso. Como as plantas são misteriosas! Onde está o seu centro “nevrálgico”? Onde estão armazenados os dados de suas características? Como sabem a época de florescer, de dar frutos, sementes? Como algumas chegaram ao sistema tão prático de se alastrarem, como aquelas que expelem sementinhas com algodão que flutuam no vento?
É claro que a crença em Deus como Criador e mantenedor do mundo e da natureza facilita nossa compreensão. Entretanto, sabemos que as flores e plantas têm uma vida própria, e tudo do que precisam para sobreviver está em alguma parte dela, que eu não sei onde.
Comparei conosco. Nós sabemos de onde vêm os nossos pensamentos, ações, reações, mas muitas vezes não tomamos conhecimento da boa ou da má irradiação que exercemos sobre os outros.
Os humildes não se dão conta do bem que fazem aos outros. Às vezes alguém lhes fala sobre isso, mas eles desconversam e não acreditam!
A graça de Deus nem sempre é percebida pela pessoa que a reflete. Muito do bem que fazemos nunca dele ficamos sabendo.
Infelizmente, o mesmo ocorre com o mal. Nós, muitas vezes, não percebemos as barbaridades que fizemos por meio do nosso comportamento.
Carlos de Foucauld acreditava muito na irradiação de nosso cristianismo às demais pessoas ao redor, e dizia que devemos não só proclamar o evangelho com as palavras, mas gritá-lo com a vida.
Pregar o evangelho com a própria vida é justamente promover essa “irradiação” positiva de que quase não tomamos conhecimento.
Eu fiquei sabendo, nestes últimos anos, por exemplo, de resultados positivos de coisas que fiz ou falei há 30 anos. Coisas esquecidas por mim, mas captadas e praticadas por outras pessoas.
Isso é cativante e estimulante! Passamos a tomar mais cuidado com o que falamos e fazemos, sabendo que isso pode causar boas ou más impressões.
Eu penso que, se formos humildes, poderemos procurar saber quais as reações negativas que nossas palavras e atos causaram nos nossos circunvizinhos e ouvintes.
Ao tomarmos conhecimento, queimarmos o que é nocivo e alimentarmos o que é útil.
Jesus contou a parábola do joio e do trigo. Em vez de dizermos: “ Eu sou o trigo e você é o joio”, digamos sempre: “ eu e você somos, ao mesmo tampo, joio e trigo; rezemos um pelo outro para nos tornarmos mais trigo que joio”!
Sei que essa atitude nos trará muita paz!
29/03/14
Sempre me intrigou o fato da conversão de santos como Santo Agostinho e Carlos de Foucauld, que antes viviam de modo sensual e contrários ao que o cristianismo pregava.
O que lhes deu força para vencerem seus problemas, suas manias, sua vida pecaminosa e boêmia?
Não existe pessoa santa e pessoa pecadora. Todos somos pecadores, sem exceção. O que nos diferencia uns dos outros é a oração.
Os pregadores não têm nada a mais do que os ouvintes da Palavra, afora o estudo daquele assunto. A força de superar-se vem da oração. Deus a concede a quem lha pedir com perseverança.
A prática da caridade completa esses requisitos para que sejamos atendidos e nos santifiquemos. Diz o Pai-Nosso: “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”.
A graça que Deus nos dá não é, na maioria das vezes, a de nos livrar de tal vício ou de tal mania, ou daquela doença, mas a de perseverarmos na luta para vencermos.
S.Paulo enfrentava uma doença incômoda e a resistência à fé cristã dos israelitas, mas Deus não o livrou desses problemas, apesar dele ter-lhe pedido por três vezes(2ª Coríntios 12,7-9).
A resposta de Deus é a mesma que Ele nos dá: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder”.
Deus não nos abandona sozinhos na luta contra o pecado e contra o mal. Ele permanece ao nosso lado. Entretanto, é preciso querer, com toda a nossa força, livrar-nos daquele mal, fugirmos das ocasiões, vigiarmos, frequentarmos a igreja, e na igreja a Eucaristia, se possível diariamente.
Veja o que você entende com estas palavras de S. Pedro: “Depois de terdes sofrido um pouco, o Deus de toda a graça, aquele que vos chamou para a sua glória eterna em Cristo, vos há de restaurar, vos firmará, vos fortalecerá e vos tornará inabaláveis. A ele toda a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém” (1ª Pedro 5,10-11)
Eu vejo aqui um incentivo à perseverança na luta. Se cairmos no caminho, não desanimemos, mas levantemo-nos com muita humildade, como a criança que está aprendendo a andar, e continuemos a nossa caminhada.
“Deus nos tornará inabaláveis”, como antes da queda dos nossos primeiros pais, mas não deixamos de ter o livre arbítrio, não deixamos de estar inclinados ao pecado.
Diz Tiago 4,6-7: “Fuja do diabo e ele fugirá de você; aproxime-se de Deus e Ele se aproximará de você”.
Essa luta diária, essa firme decisão de deixar o pecado e fazer a vontade de Deus é que levaram os santos a abandonarem o pecado para servirem apenas a Deus.
Notem que em nenhum dos santos se vê a indiferença pelo próximo mas, ao contrário, um trabalho incessante em favor do outro.
Digamos que a estrutura de nossa vida de oração está na humildade e na caridade. Sem essas virtudes, logo desanimamos, ou nossa luta se torna individualista e narcisista.
São Luiz Gonzaga, considerado o santo da pureza, da castidade perfeita, morreu de esgotamento na ajuda aos pestilentos da cidade em que morava. Trabalhou tanto que faleceu sucumbido pela doença que combatia.
Se você está como Elias, deitado, desanimado, à sombra de uma árvore esperando a morte chegar, alimente-se de Deus, levante-se e siga o seu caminho, que é muito longo e precisa ser percorrido. Você não estará sozinho (a). (1ª Reis 19,4-8).
Pe. Ricardo Dias Neto (in memoriam)
Março de 1985.
(Da extinta revista Comunhão e Participação).
“Dai-me, Senhor, a GRAÇA de entender uma boa anedota para que eu tenha um pouco de alegria na vida e mossa transmiti-la aos outros”. (São Tomás Morus).
Há santos e santos. Para mim, os santos “bem-humorados” sempre me atraíram. São Tomás Morus, particularmente, de quem tiramos essa pequena e grande frase de sua “Oração para pedir o bom humor”. Um outro é São Felipe Neri. Temos ainda muitos outros: Sant Teresa de Ávila, alguns aspectos da vida de Santa Catarina de Siena, São Tomás de Aquino, o próprio São Francisco de Assis. E, mais recentemente, João XXIII em alguns “fioretti” e o saudoso João Paulo I.
A graça e o humor caminham juntos. Há frases lapidares: “Um santo triste é um triste santo”; “Humor é a arte de tratar jocosamente as coisas sérias e seriamente as coisas jocosas” etc. Por isso, estou convencido de que o humor antecipa a salvação. Não é sem motivo que os santos são chamados de “Felizes” (Bem-aventurados). É difícil amar os santos carrancudos, sérios, esses ascetas macilentos e corroídos pelo jejum etc. Prefiro os santos que sabem sorrir.
Vejo o humor como a mais autêntica expressão do ser humano (“Ridendo castigat mores”, como quer o adágio latino) e, a partir da profundidade “é dimensionado para o infinito, para o ilimitado e o utópico” (Leonardo Boff).
Certa vez, quando conversava sobre a atuação da graça nos “agentes da opressão”, lembrei-me de que nos momentos mais tensos da política econômica, quer nacional, quer internacional, surgiram e ainda surgem, muitas piadas, anedotas e “charges” espirituosas. Um comportamento típico para suavizar a gravidade de um estado. Se a graça não está nesses agentes, conforme pudemos encaminhar a conclusão, pelo menos eles permitem (embora nem sempre aceitem) que tiremos “partido” e tornemos nossas vidas mais interessantes.
Quantas vezes uma situação desagradável, tensa e crítica pode se dissolver! Quase sempre aparece um “quebra-gelo”, alguém com uma “presença de espírito” tão forte que resolve situações quase desastrosas. Que é isso senão a graça atuando? Aconteceu durante uma tarde de reflexão com os pais das crianças da catequese de uma de nossas comunidades (alguns, infelizmente, alienados completamente do verdadeiro sentido de uma vida comunitária): após a explicação de um tema, formamos alguns grupos para debates sobre duas questões. Em plenário, cada grupo apresentou suas conclusões. O último relator, de um momento para o outro, passou a criticar o padre (que vem batalhando para transformar aquela comunidade em algo mais sensível à realidade, mais participativa e consciente) e, em determinado momento, comparou a Igreja a uma agência de automóveis, dizendo que os “fiéis” são os “compradores”. O padre deveria agir como um bom “vendedor”, “atraindo o cliente” e não “espantando” com tantas chamadas de atenção.
O clima ficou pesado, e por toda a parte ouviam-se farfalhar de tecidos e colares. Eu coordenava o plenário e, não sei como, saí com esta resposta: “Meu amigo, a Igreja não pretende vender nada a ninguém. Muito menos o Cristo. O último que o vendeu, arrependeu-se e devolveu o dinheiro”. Rimos muito e, em seguida, fizemos uma análise das respostas e o resultado foi bem mais animado, na perspectiva de futuro.
Com muita propriedade afirma Leonardo Boff: “O humor é sinal de transcendência do homem, que quase sempre pode estar para além de qualquer situação; ele não se deixa definir por nenhuma circunstância; em seu ser mais profundo e verdadeiro, é um livre. Por isso, pode sorrir e ter humor sobre os sistemas que o querem enquadrar, sobre os conceitos que visam defini-lo, sobre a violência que intenciona domesticá-lo” (1)
A atitude do homem diante das coisas é a mesma atitude de Deus diante do homem insuficiente perante si mesmo, mas que quer autossuficiente, como lemos nos Salmos: “Aquele que habita nos céus sorri”. E esse “sorri” é, na realidade, “Dá gargalhadas” ...
É uma maneira de relativizar as coisas terrenas, porque vive essencialmente para Deus (e com Deus, obviamente). Esse tipo de atitude é a graça de Deus que age no homem para o libertar. É, ainda, no dizer de Boff, “o gosto antecipatório da total libertação”.
Se a realidade do pecado ainda assombra o homem, o mesmo São Tomás Morus, na oração que citamos acima, diz: “...que eu não me espante diante do pecado, mas encontre sempre um meio de deixar tudo em ordem. Dai-me, Senhor, uma alma diáfana”. E a diafania da alma (é claro que aqui devemos ler o homem em sua integridade) se manifesta necessariamente no humor, o bom humor.
Percorrendo a Sagrada Escritura, vamos encontrar muitas passagens “humorísticas”. O povo de Israel, por sua vez, marcadamente sofrido e sofredor, encontrou no humor uma saída para seus males. A sátira e
_a ironia não estão ausentes da Bíblia (cf. os sarcasmos de Elias contra os falsos profetas de Baal em I Reis 18,27 e Isaías 44,12-17). Na literatura rabínica, o Talmud e o Midrash encerram parábolas e anedotas que já evidenciam características que podemos encontrar no humor judaico moderno. Alguns clássicos judaicos medievais são conhecidos pelo seu humor. O “Bet-Hamidrash” foi campo fértil de anedotas e ditos espirituosos. É o que eles chamam de “sichat chulin” (conversa leve). Encontramos um texto muito significativo na literatura rabínica: “Rabi Aba disse a Rabi Nachman Ben Itzak: Desde o dia da destruição do templo, o Santo-Bendito-Ele (“Hakadosh baruch Hu” assim é tratado Deus nos escritos talmúdicos) nunca mais sorriu”. (2)
Logicamente este assunto mereceria muitas considerações, talvez até mesmo muitas páginas. No entanto, como uma simples abordagem do assunto, enquanto delinear, parece suficiente.
A relação graça-humor-libertação é muito importante. Mesmo diante de uma situação obscura e imprevisível como a nossa, apesar do humor que tenta aliviar, embora jamais minimizar, o relacionamento com Deus, em Deus e de Deus, ainda traça sinais de esperança. Como disse no início, sobre os santos sorridentes, a virtude do humor é um caminho agradável para que o homem não se esqueça de seu papel diante da história. Sorrir é o melhor remédio. Não é a solução, mas o mundo será bem mais engraçado.
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1- BOFF, Leonardo “A Graça Libertadora no Mundo”, pág. 207, Editora Vozes, 1976
2- MONTEBLELLER, J.V. “Histórias do Povo da Bíblia”. Relatos do Talmud e do Midrash – Ed. Perspectiva 1967 – página 291
O nascimento de Jesus na noite de Natal é fruto da opção e do sim consciente da jovem Maria de Nazaré. Ela foi provocada pelo Anjo Gabriel numa realidade certamente muito estranha, mas com o sentimento de estar realizando o que já estava previsto, de forma profética, no Antigo Testamento. Nessa cena, e de forma misteriosa na manjedoura de Belém, o humano se mistura com o divino.
A Mãe do Menino Deus é portadora da Boa Nova do Reino e revela a grandeza de um sim comprometido com a realidade da vida da humanidade. Um sim que deve atingir cada pessoa humana, principalmente aos que fazem sua opção consciente no seguimento de Jesus Cristo. Todo cristão faz também um caminho longo de gestação, levando o seu testemunho para o mundo hodierno.
A vila de Belém, hoje cidade ligada a Jerusalém, separadas apenas por um grande muro, tornou-se fonte de esperança para o povo de Israel e para toda a humanidade. Ela revela a força da simplicidade e a capacidade para ser marca indelével na história do cristianismo. A grandeza da pessoa não se mede pela força truculenta das armas, mas pela opção madura e responsável dos seus atos.
A esperança do povo de Israel, num momento de muita exploração e injustiça, estava focada na figura e na liderança de um rei justo, que lhe oferecesse segurança e autonomia para viver. Mas a justiça trazida por Jesus não satisfez os corações insensíveis e muito preocupados com o reino da terra. O reinado de Deus ultrapassa os limites da realidade terrena e eleva a humanidade.
A vida humana é marcada por muitos encontros e em diversas circunstâncias. O mesmo aconteceu entre Maria e Isabel, antecipando o encontro de Jesus com as pessoas, começando no contato com João Batista no seio materno. Não um encontro qualquer, mas aquele que revela a ação de Deus na vida das pessoas. Encontro numa dimensão cristã de acolhida fraterna.
A obediência consciente de Jesus ao assumir o Projeto do Reino do Pai necessitou Dele um sim, que se tornou uma grandeza para o mundo e a possibilidade de participação das pessoas que O encontram e aceitam segui-Lo. Tudo isso significa a manifestação de Deus na humanidade e a presença do mistério da salvação, que passa a fazer parte efetiva da história dos cristãos.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.
Deixaremos de lado os nossos “ismos” e a falta de caridade, quando aprendermos a viver a gratidão.
Jesus sempre gostou da gratidão e detestou a ingratidão. Em Lucas 17,17-18 vemos como ele sentiu a ingratidão dos leprosos curados que não voltaram para agradecer e como elogiou a gratidão do que voltou para render graças, que era, por sinal, inimigo político dos judeus, um samaritano.
Em Mateus 23,37-38, Jesus sentiu a ingratidão do povo judeu e se expressou deste modo: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, quantas vezes quis te reunir como a galinha reúne os pintinhos sob as asas, mas vós recusastes!”
Em Mateus 18,23-35, Jesus contou a parábola do rei e do devedor, que fora perdoado em três toneladas de ouro (eu fiz a conta e deu mais ou menos isso), mas ao sair do palácio não perdoou a um seu devedor que lhe devia 400 gramas de ouro! E Jesus condenou a atitude dessa pessoa tão ingrata! Quanta gratidão temos com as graças de Deus Nós O agradecemos sempre? Pecar é um ato de ingratidão a Deus, pois Ele nos trata bem e nos perdoa e, ao pecarmos, estamos nos afastando dele, que tanto nos ama. Ao não perdoarmos estamos tendo ingratidão contra Deus, que nos perdoa sempre!
Quando recebermos dos outros a ingratidão, agradeçamos a Deus, pois Ele nos agradecerá no lugar do ingrato, com muitas graças! Nunca devemos fazer as coisas para sermos louvados e recompensados! Precisamos nos acostumar a fazer tudo para a maior glória de Deus, sem nenhum interesse pessoal. “Depois que fizerdes tudo o que puderdes, deveis dizer: 'Somos servos inúteis'! “-Lucas 17,10.
Jesus chorou várias vezes. Por exemplo em Lucas 19,41:”Quando Jesus chegou mais perto e pôde ver a cidade, chorou sobre ela, dizendo'Se também tu, principalmente neste dia que te é dado, reconhecesses o que te pode trazer a paz!”
Pedro também chorou por ter sido ingrato a Jesus, em Mateus 26,75. Já no Antigo Testamento, Deus reclama da ingratidão do povo, como em Miquéias 6,2-5.
Nunca sejamos ingratos para com ninguém, pois além disso “doer” no coração da outra pessoa, provoca a não ajuda de Deus em nossos atos e projetos.
Reforçando e concluindo:
Jesus sentia muito a ingratidão das pessoas, como vemos em Lucas 17,17-18 (dos dez leprosos que ele curara só um voltou para agradecer ); Lucas 19,41 (chorou sobre a cidade de Jerusalém pela ingratidão de seus moradores); Mateus 23,37-38 (outra narrativa do dia em que chorou sobre a cidade); Marcos 14,27 (queixou-se com os três apóstolos que não vigiaram uma hora com ele).
Nós nunca conseguiremos agradecer a Deus por todos os seus benefícios. A única maneira de agradecermos é nos conduzindo ao céu, por uma vida santa, não sendo ingratos para com ninguém, nunca pecarmos, sempre trabalharmos pelo bem da sociedade.
04/01/14 –
Assim chamamos ao tempo que Deus nos chama à conversão e a uma vida mais santa. Pode demorar um instante ou um período mais demorado.
Esse chamado de Deus pode dar-se dentro da vocação que estamos seguindo, ou o convite a uma nova vocação.
São Paulo teve apenas alguns minutos para decidir-se, quando Deus o chamou no caminho a Damasco. Ele ouviu e atendeu ao chamado.
Zaqueu tinha subido a uma árvore e quase caiu de susto quando Jesus o chamou. Também ele atendeu ao convite de Jesus.
O jovem rico recebeu o convite de forma bem precisa, mas o recusou. O outro, que disse precisar primeiro enterrar o pai (ou seja, esperar que o pai morresse), não atendeu ao convite que Jesus lhe fizera para ser Apóstolo.
O ladrão, São Dimas, recebeu o convite na hora da morte, e ouviu Jesus, o acolheu e o aceitou plenamente. O ouro ladrão não aceitou.
Herodes recebeu o convite pelo testemunho dos magos e pelas escrituras, mas não o aceitou.
Há uma música do grupo Emaús que diz: “Então Deus vem, de modo que eu nunca imaginei; creio em Ti, crês em mim, Deus sempre esteve perto de mim!” De fato, Deus nos faz o convite à conversão, ao seu amor pleno, em momentos por vezes inesperados, em que talvez não o percebemos com nitidez.
Uma das maneiras de percebermos essa “abordagem” de Deus, talvez seja pela oração e o silêncio. Poucos hoje em dia “curtem” o silêncio! Peçamos sempre a ele que percebamos seu convite de amor!
Muitos notam a presença de Deus num fato alegre; outros, notam-na num fato desconfortável, como a doença, um acidente, uma perda.
Dizem que Martinho Lutero converteu-se quando um seu amigo foi fulminado por um raio, quando caminhavam juntos. Tornou-se monge agostiniano. Entretanto, diante de obstáculos no relacionamento com a Igreja, ou mesmo por ter escolhido a vida religiosa apenas por medo e não por vocação, “abandonou o barco” e não confiou na ação divina na história, como por exemplo São Francisco de Assis.
Este santo teve problemas semelhantes no relacionamento com as autoridades da Igreja, mas sua atitude foi positiva, embora no momento parecesse negativa: desnudou-se (no sentido real da palavra) e “vestiu-se” de Cristo pobre e misericordioso. Venceu os obstáculos não “abandonando o barco”, mas usando o barco pobre da vida religiosa autêntica, num testemunho vibrante.
Ele sempre dizia: ”Devemos pregar sempre o Evangelho e, quando necessário, também com as palavras”. Carlos de Foucauld, seiscentos e poucos anos depois, disse a mesma coisa, só mudando as palavras: “Devemos gritar (e não apenas proclamar) o Evangelho com a vida” (e não apenas com as palavras).
Deus usa os meios que estão mais disponíveis na vocação seguida pela pessoa. Santo Agostinho, por exemplo, recebeu o convite de Deus no assunto que mais amava: a oratória.
Os magos, como já disse, receberam o convite de Deus na astrologia que estudavam e com a qual sempre estavam em contato.
S. Paulo, no caminho de uma perseguição.
Zaqueu, no que fazia de melhor: comer bem.
Jeremias, na ideia maluca de que deveria ser abortado (Jeremias 20,7s). Em Jeremias 1,4s, Deus lhe lembra que o amava e o chamara já antes dele ter nascido, quando ainda estava se formando no seio materno.
Jonas recebeu o convite quando aguardava “de camarote” a destruição de Nínive.
São Francisco Borja converteu-se quando viu a rainha sua protetora, uma das mais formosas mulheres de seu tempo, exalando cheiro horrível de podridão e putrefação no caixão em que ia ser enterrada.
S. Vicente de Paulo teve a sua “hora de Deus” quando fez sua mudança de uma paróquia para outra: percebeu quanta coisa tinha de supérfluo! E mudou de vida.
O beato Carlos de Foucauld percebeu a hora de Deus quando se enfastiou das festas e orgias que promovia.
Eu procurei saber qual foi a hora de Deus em minha vida, e acho que a encontrei. Entretanto, percebi quantas delas deixei passar em branco e o quanto Deus foi paciente em esperar até agora.
E você, caro amigo, cara amiga? Lembre-se de que, como diz o Pe. Fernando Cardoso, Deus se deixa frustrar às vezes, mas não se deixa frustrar indefinidamente!
Meditemos sempre sobre a hora de Deus em nossa vida, e não a deixemos passar em branco! Sabe de uma coisa? Pode ser que a hora de Deus em sua vida tenha sido a leitura deste singelo, pobre e despretensioso artigo! Já pensou nisso?
20/04/2020
Quando N. Sra. apareceu a Santa Catarina Labouré, disse-lhe para mandar cunhar a medalha milagrosa deste modo:
"...uma Senhora de mediana estatura, de rosto muito belo e formoso... Estava de pé, com um vestido de seda, cor de branco aurora. Cobria-lhe a cabeça um véu azul, que descia até os pés... As mãos estenderam-se para a terra, enchendo-se de anéis cobertos de pedras preciosas. A Santíssima Virgem disse-me: ‘Eis o símbolo das Graças que derramo sobre todas as pessoas que mas pedem ...’ Formou-se então, em volta de Nossa Senhora, um quadro oval, em que se liam, em letras de ouro, estas palavras: ‘Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós, que recorremos a Vós’. Depois disso o quadro que eu via virou-se, e eu vi no seu reverso: a letra M, tendo uma cruz na parte de cima, com um traço na base. Por baixo: os Sagrados Corações de Jesus e de Maria. O de Jesus, cercado por uma coroa de espinhos e a arder em chamas, e o de Maria também em chamas e atravessado por uma espada, cercado de doze estrelas. Ao mesmo tempo, ouvi distintamente a voz da Senhora, a dizer-me: ‘Manda, manda cunhar uma medalha por este modelo. As pessoas que a trouxerem, com devoção, hão de receber muitas graças”.
Um fato que autentica essa aparição a Santa Catarina Labouré é que seu corpo permanece maravilhosamente intacto até hoje. Seus olhos são azuis, e também estão intactos!
Grassava a peste na França quando foram cunhadas as primeiras medalhas. Por meio delas foram obtidas muitas curas, o que fez a cunhagem das medalhas aumentar em milhões. A peste foi vencida, graças a essa medalha vinda em tão boa hora.
Num dia destes eu fui procurar no You Tube um programa que sempre vejo, do Pe. Fernando Cardoso, e me retive num filminho curto sobre a história de Santa Catarina Labouré e a Medalha Milagrosa. Foi providencial. Fique pensando: por que não recorrer a Maria neste tempo calamitoso da pandemia por causa do Coronavírus? A medalha não foi cunhada só para aqueles tempos. Ela vale também nos dias de hoje.
Mas veja bem: a medalha não deve ser usada como talismã, como algo mágico. Seu uso e sua eficácia depende muito do modo como vivemos a nossa vida. Se somos pessoas de oração, se temos espírito de penitência, se buscamos ficar livres do pecado, se somos caridosos e temos muita misericórdia no coração, e se essa for a vontade de Deus, nossos pedidos vão ser ouvidos e Maria vai nos livrar do coronavírus.
Temos também que levar em consideração o fato de que chegou a hora de muitas pessoas deixarem este mundo, e que suas mortes vão ser permitidas por Deus. Isso não significa que somos maus ou que Deus não está conosco ou que Maria não nos protegeu. O importante, na verdade, é irmos ao paraíso após esta vida. A vida do outro lado é eterna. Esta é finita e muito curta.
Recorramos ao uso da medalha milagrosa. Estou certo de que se alguém que a use naquelas condições que eu disse acima vier a falecer, creio que morrerá em paz, obterá a salvação e terá a plena proteção maternal de Maria, principalmente nos últimos dias da doença.
11 de julho de 2012
POR QUE A IGREJA NÃO VENDE O QUE TEM PARA AJUDAR OS POBRES?
Autor: Bíblia Católica | Postado em: Igreja
Fonte: Apostolado Spiritus Paraclitus
Esta é uma pergunta bastante pertinente e apesar de antiga, nunca deixou de ser atual, aliás, ultimamente, com o apetite cada vez mais voraz que a mídia secular demonstra ter para escornear a Igreja Católica, ela torna-se ainda mais relevante. Sendo assim, vamos direto aos fatos, porque apesar de haver um grande número de “bem-intencionados” Judas Iscariotes,, sejamos francos, dentre eles são poucos os que são dados à leitura e à pesquisa. Assim, não é prudente que me extenda muito.
Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, aquele que o havia de trair disse. Por que não se vendeu este bálsamo por trezentos denários e não se deu aos pobres? (João 12,4-5)
A igreja Católica é a instituição mais antiga da terra. Se fosse uma empresa privada, seria a maior do mundo, não apenas em tamanho mas em termos de volume do seu patrimônio e sua riqueza e por sua presença em quase todo o país do mundo. Sua importância, porém, não se restringe ao seu tamanho e número de fiéis batizados.
Foi a Igreja Católica que criou, por exemplo, o sistema universitário, os métodos de pesquisa científica ou a filantropia institucional, sem a qual a palavra caridade, que significa amor, não teria sequer o sentido que têm hoje nas sociedade ocidentais. Contudo, apesar de inúmeros outros feitos de valor, o mais notório deles: a caridade da Igreja Católica, é infelizmente, ignorada tanto pelos católicos como não-católicos. Assim, a Igreja Católica é sistematicamente cristicada por sua riqueza.
Deus Caritas Est – Deus é Amor
“Mas se a Igreja é tão rica e poderosa, por que não vende tudo o que possui para ajudar aos necessitados?”
Vamos ao números e fatos:
A Igreja Católica mantém na Ásia: 1.076 hospitais; 3.400 dispensários; 330 leprosários; 1.685 asilos; 3.900 orfanatos; 2.960 jardins de infância. Na África: 964 hospitais; 5.000 dispensários; 260 leprosários; 650 asilos; 800 orfanatos; 2.000 jardins de infância. Na América: 1.900 hospitais; 5.400 dispensários; 50 leprosários; 3.700 asilos; 2.500 orfanatos; 4.200 jardins de infância. Na Oceania: 170 hospitais; 180 dispensários; 1 leprosário; 360 asilos;60 orfanatos; 90 jardins de infância. Na Europa: 1.230 hospitais; 2.450 dispensários; 4 Leprosários; 7.970 asilos;2.370 jardins de infância.
No Brasil, podemos seguramente dizer que a contribuição da Igreja Católica para a Saúde pública foi mais valiosa do que a de qualquer outro governo já existente no país. Na década de 50, quando a rede pública de saúde ainda não contava com uma capacidade operacional expressiva, eram as casas de caridade da Igreja Católica que cuidavam das pessoas que não tinham condições de se tratarem em um hospital.
As Santas Casas de Misericórdia e Sanatórios eram e continuam a ser dirigidos e subsidiados pela Igreja Católica, e têm as freiras e religiosos católicos como sua principal fonte de recursos humanos.
Seria quase impossível listar e numerar as atividade e contribuições da Igreja Católica no campo da caridade. O vídeo abaixo mostra algumas maneiras pelas quais a Santa Igreja tem, ao longo dos séculos, posto em prática as palavras de Cristo sobre a caridade e o amor ao próximo. (Ver o vídeo no site Bíblia Católica);
“Tudo o que fizerdes ao mais pequeninos dos Meus irmãos, o fazeis a Mim.” (Mt 25:40)
Qual é a diferença entre ilusão e realidade? Ambas existem e podemos vê-las e senti-las!
Bem, deixa-me ver: o meu dedo indicador esticado é uma realidade; entretanto, se eu o balançar em sentido horizontal, vou ver vários dedos, e isso já é uma ilusão de ótica!
O céu que vemos parece uma realidade, mas é uma ilusão, pois a luz demorou milhões de anos para chegar à terra e, portanto, o céu que vemos agora é o que existiu há milhares e milhões de anos (dependendo da distância dos astros).
A televisão também é uma ilusão. As imagens são apenas fotos, paradas, que só se tornam movimentadas porque nossa mente as retêm e dão a impressão de movimento! Faça duas figuras, uma em cada página, com apenas alguma coisa diferente, veja-as alternadamente e você verá que elas se “movimentam”. As duas figuras são verdadeiras, mas o movimento delas é uma ilusão de ótica...
Na vida espiritual ocorre muito disso. A riqueza, apesar de ser uma realidade, pode nos ser uma grande ilusão. Ela é uma realidade em si, mas procurar obtê-la a qualquer custo para nos tornarmos felizes, isso é uma ilusão.
Muitos tipos de religiosidade são ilusórios; entretanto, a caridade é uma realidade.
Onde estou agora, o que estou fazendo, é uma realidade inexorável. Se eu aceitar e curtir este momento, estou sendo real, verdadeiro. Entretanto, se eu estiver agora apenas com o corpo dentro deste momento, estou vivendo uma ilusão; ou seja, se eu ficar lastimando, rejeitando este momento, ou tentar me enganar dizendo que não é verdade que estou vivendo isto seria uma ilusão.
Olho ao meu redor e aposso-me da realidade em que estou. Tento tirar um proveito próprio disto tudo, prestando atenção nos detalhes, no que aqui está acontecendo...
...Estou numa pracinha. À minha frente, dois homens cinquentões jogam...como é o nome desse jogo? Vou perguntar-lhes! (...) Um deles me disse que se chama “playblade”. Consiste em jogar um dado e fazer caminhar pecinhas (eles adaptaram tampinhas de garrafa pet) sobre um tabuleiro pré-marcado. Não gosto do barulho que o copo faz quando batem o dado sobre a mesinha, dentro de um copo.
À minha direita, a uns 20 metros, quatro senhores de idades diferentes jogam dominó. O sol está forte, mas eu e eles estamos na sombra.
À minha esquerda, três jovens conversam gesticulando. Acho que estão contando um ao outro suas aventuras de ontem.
À minha frente, distante uns... 15 metros, a mãe conduz seus dois filhos a um portão, um pouco mais distante, onde um homem, sorrindo, já prepara os braços para recebê-los e abraçá-los. Ela traz uma sacola enorme no braço direito e até fiquei com dó!
No outro lado da rua, uma loja de móveis expõe alguns colchões, que estão ao sol. Será que não vai derretê-los? Acho que não... Há também dois tapetes bonitos de crochê à exposição. Um deles é enorme e acho que custa caro.
Mais à minha esquerda, tipo noroeste, um velho ouve com atenção um rádio que toca uma música em volume baixo. Não a ouço. Ele contempla um pássaro à sua frente.
O céu está com muitas nuvens, mas o sol consegue ludibriá-las. Choveu muito nestes dias, e hoje o tempo se firmou. Tudo está calmo. O vento é fraco. Os pássaros que aqui gorjeiam, desapareceram. Vi apenas quatro pardais se enfiando sob um telhado. Num poste, o cata-vento que alguém ali colocou com um “leme” para direcionar-se a favor do vento. Está quase parado! Funciona rápido e pára. Rápido e pára...
Eu até compus uma poesia sobre os pássaros que pararam de gorjear. Você quer lê-la? Se não quiser, pule-a!
O MUNDO MASSACRADO
“As aves que aqui gorjeiam”
deixaram de gorjear!
As palmeiras não mais se alteiam,
não trazem os sabiás!
Nosso mundo, antes bonito,
se enfeia a mais não poder!
Vejo isso tudo muito aflito,
é muito triste, custa-me a crer!
Em todas as áreas conspurcado,
dinheiro e poder estão na pauta!
Para ver tudo isto acabado,
muito pouca coisa ainda falta!
Mas... ainda resta uma esperança,
ainda nos resta o amor!
Ainda nos resta o amor!
Ainda nos resta a bonança
de ter sempre Deus, nosso Senhor!
... O cata-vento! Quero ser o cata-vento de Deus, sempre voltado para a brisa de sua palavra salvadora! Quero sempre virar-me em direção em que ele está soprando! Vento, ruah, pneuma...palavras misteriosas que nos levam a um mesmo vocábulo, “espírito”, mas com sentidos diferentes!
O Espírito Santo, o “Vento Santo”, não tem esse significado. É como a palavra “pé-de-moleque”. Não é o pé e não é do moleque; é um doce de amendoim. Assim, o Espírito Santo não significa, como em hebreu e grego, “vento, sopro santo”, mas é o nome da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.
Quero ser o cata-vento de Deus, sempre procurando fazer-lhe sua misericordiosíssima vontade, que também é santíssima e digníssima! Fazer a vontade de Deus é a coisa mais sábia que temos aqui na terra ou mesmo lá no céu: “Faça-se a vossa vontade na terra, como ela é feita no céu”! (Sermão da Montanha).
Sob a haste do cata-vento há algumas flores artificiais que um rapaz negro está vendendo. Há algumas samambaias verdes, feitas com garrafas-pet, lindíssimas! Vou perguntar o preço!(...) Ele me disse que custam dez reais a pequena e quinze a maior. Isso ficaria bonito em casa... mas não quero gastar dinheiro nisso.
Aproveitei a ida para comprar um picolé. Custa cinco reais o sorvete “prestígio” e dois reais o mais comum. Comprei um “prestígio” e dei um comum a um moleque que me pediu. Ele já se foi, pulando, alegre. O sorvete veio em boa hora! Está muito calor.
Pois é! Tudo isso que eu lhes descrevi é a realidade. Será mesmo? Você me acredita? E se eu lhe estiver mentindo? Esta seria a realidade em que eu desejo que você creia. Se você estivesse aqui, talvez constatasse que que não há sol, que a praça não é uma praça mas um lugar mais ermo, que está talvez chuviscando, que não há mais ninguém aqui além daquele gato manhoso miando desesperadamente por fome ou por frio...
Para você, a ilusão que eu estaria criando seria uma realidade, como eu a descrevi. Mas, se eu estivesse mentindo, seria uma grande ilusão, uma fantasia. Eu estaria descrevendo algo que não existe!
É assim que funcionam muitas religiões. O pastor ou o padre diz a você uma ideia em que ele acredita (ou achamos que ele acredita), mas que nem mesmo ele sabe se é uma ilusão ou uma realidade. Tudo é baseado na fé! Como é o céu? Alguém voltou de lá para dizer como é?
Agora eu peguei você. Sim, alguém veio de lá. Jesus! E ele disse como é o paraíso, com palavras humanas, comparações, alegorias. Ele é cidadão e dono do céu e disse em João 14,1ss: “Na casa de meu Pai são muitas as moradas, e se não fosse assim, eu vos teria dito! Vou até lá para preparar-vos um lugar”. O céu não é uma ilusão! É uma realidade! Mas cada um o imagina de modo diferente. Isso é uma ilusão: o modo como o imaginamos.
Estou escrevendo isto de algum lugar do planeta, e isso é uma realidade. Mas estou cansado e vou parar. Os dois homens ainda jugam o playblade. Os do dominó ainda estão lá. O florista vendeu uma samambaia de garrafa pet. Os jovens já foram embora, assim como o sorveteiro. Apenas um detalhe: você sabia que os sorveteiros de rua não vendem sorvete do tipo “prestígio”? Eles só vendem daquele tipo de gelo no palito. Isso eu lhe menti. Eu comprei, mesmo, um sorvete tipo gelo de abacaxi.
Agora são 13 horas e quinze minutos e vou embora.
03/02/16
Neste mundo vivemos entre a ilusão e a realidade. O perigo é vivermos a ilusão e descartarmos a realidade!
A primeira realidade que vejo é que vamos viver um número limitado de anos aqui na terra. A ilusão é acharmos que isto tudo é a realidade e que não existe uma vida após esta. Então, o que a pessoa faz é buscar desesperadamente ser “feliz” nesta vida, a qualquer custo. Exemplo: essas pessoas que roubaram a mais não poder, no governo e na sociedade. Todos vão morrer algum dia e deixar aqui tudo o que roubaram. O que vão apresentar a Deus? Diz São Francisco de Assis que nós só vamos levar para o céu que partilhamos, o que damos. O que recebemos, vai ficar por aqui. Uma camisa que você doa, você vai levar esse mérito para lá. Uma camisa que você ganha, vai com você no caixão ou vai ficar por aqui mesmo.
Uma das ilusões é justamente a riqueza. Ela atrai e pode perverter. Se a riqueza fosse uma realidade em relação à felicidade, Jesus nasceria numa família rica. Ele mostrou que uma vida simples, sem muitas coisas, como a que ele viveu, é a realidade que nos salva e nos satisfaz.
Se riqueza trouxesse felicidade, os ricos não cometeriam suicídio. Não é isso que vemos! Quantos ricos se mataram com remédios e drogas, ou mesmo tirando a própria vida! Quantos pobres cometem suicídio? Garanto que o número é bem menor do que o dos ricos!
Jesus não nos pede para viver na miséria. Ele propõe uma vida simples, sem muitas necessidades, sem muitas ilusões.
Outra realidade que vejo é a caridade, a misericórdia. Não importa o que ou como as pessoas vivem. Nós vamos ajudá-las a serem felizes. Isto é a realidade, que nos levará à realidade maior, o céu. Mas não nos esqueçamos de mostrar a elas a vida mais de acordo com o evangelho. Caso contrário, a ajuda material não terá muito sentido. Dar o pão material, mas sem esquecer o espiritual. Mais do que “dar o pão”, deixar aquela família em condições de poder comprar o pão diário. É o que os vicentinos, por exemplo, procuram fazer: promover as pessoas.
Em todas as nossas atividades, mesmo na igreja, temos de ver o que é ilusão e o que é realidade. Por exemplo: ir à missa dominical sem se preocupar com uma vida santa durante a semana, não é realidade; é ilusão.
O criminoso que reza antes de cometer o crime, ou faz um sinal da cruz, estaria vivendo uma realidade?
O torcedor que faz promessa para seu time ganhar, será que Deus torce por aquele time? Se o torcedor do outro time também estiver rezando, quem Deus ajudaria? Veja que ilusão tremenda é esse tipo de oração! Você até poderia rezar, talvez, para que não aconteça nenhum acidente, nenhuma briga... isso seria realidade.
Ir à Aparecida uma vez por ano e nem ligar para a religião no restante do ano, isso é ilusão ou realidade?
Aprendamos a distinguir em tudo o que é pura ilusão e o que é realidade. A vida vai ser bem melhor, mesmo que um pouco mais sofrida. A propósito, quer ver um exemplo de ilusão do dia a dia? Se você me mostra o dedo indicador, isso é uma realidade. Entretanto, se você o agita horizontalmente, eu vejo vários dedos num só, e isso é ilusão!
12/03/16-
IMAGINAÇÃO, Página em Branco
Jean Paul Sartre inicia o seu livro A imaginação com uma reflexão sobre esse assunto logo na introdução, falando que está diante de uma página em branco, mas aquilo não é simplesmente uma folha em branco. Veja o comentário que vi sobre o assunto:
“Em A imaginação, o autor levanta as contradições intrínsecas ao conceito de imagem, sobre o costume de se pensar a natureza da imagem a partir de uma experiência reflexiva. Já na introdução, Sartre mostra que uma folha em branco não é apenas uma folha em branco”.
O que escrever sobre uma folha em branco? Há tantas coisas! Uma página em branco, em si mesma, já é significativa: significa o nada, a falta de inspiração, a “ocagem” da mente. Pode, também, significar um protesto contra a imbecilidade que se está espalhando pelo mundo pela mídia.
Se a página for como a em que escrevi o rascunho deste texto, terá linhas paralelas e uma margem. As linhas paralelas eu obedeço, mas a margem, não. Faço questão em não observar a margem. As margens são limites. Os limites podem ajudar os rios a chegarem ao mar, mas podem prejudicar a irrigação e, consequentemente, dificultar a colheita.
Já as linhas paralelas impedem que as frases se confundam e se misturem. Por isso eu as observo.
Uma página em branco, sem linha alguma, simboliza a liberdade. Você pode escrever nela como quiser, do modo que quiser, mas isso pode levá-lo ao caos, como nas páginas em branco que recebemos ao nascer, para serem preenchidas durante nossa vida. O caos se determina quando não seguimos orientação alguma, nem das linhas paralelas, nem das margens, dependendo do modo como as preenchemos...
No salmo 54 (55), o salmista afirma que Deus tem um livro para cada um de nós, e o preenche ininterruptamente: “Nossas lágrimas e nossos passos, não estão todos eles escritos em vosso livro? As lágrimas, não estão elas recolhidas em vosso odre”?
Nosso pensamento é livre, mas nossa ações devem ser sempre dirigidas por Deus. As margens podem, nesse caso, significar a falta de ação em favor do pobre, do oprimido, quando nos resguardamos na vaidade, orgulho, falta de misericórdia.
São Pedro perguntou a Jesus quantas vezes deveria perdoar ao irmão, e Jesus respondeu “sempre”. São Pedro colocara, ali, uma margem: sete vezes. Jesus tirou a margem: setenta vezes sete, ou seja, sempre.
O mesmo Sartre disse, em outro lugar: “O inferno, para mim, são os outros”! Em outras palavras: minhas margens são os outros! Aí as margens são como as do riacho: permitem que ele chegue ao mar.
Termino lembrando a todos de que, o que quer que tenhamos escrito em nossa página em branco de nossa vida, Deus nos diz: “Eis que farei coisas novas“! (Is 43,16-21). “Esquecendo-se do que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente”(Filipenses 3,8-14). “Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”. Esqueçamos, pois, o que ficou para trás e nos lancemos ao longo do caminho que vemos à nossa frente. Deus nos perdoou e limpou tudo o que havíamos escrito de negativo e de mau em nosso caderno. Suas folhas estão limpas novamente, prontas para serem usadas, desta vez de modo melhor. Mas veja bem! Diz um autor que nunca chegaremos a um objetivo diferente se trilharmos o mesmo caminho. O contato contínuo com Deus faz-nos descobrir forças que nem imaginávamos que tínhamos!
Jesus está “preso” na Eucaristia. Todos fazem com ele o que bem entendem. Quando Jesus inventou a Eucaristia, decerto sabia que isso iria acontecer. Um padre jesuíta muito famoso, arqueólogo e teólogo, Teilhard de Chardin (pronuncia-se “teiarr de chardan”), no livro “Hino ao Universo”, diz, à página 16:
“Do elemento cósmico em que se inseriu (pela transubstanciação da consagração do pão e do vinho na Missa),o Verbo age para subjugar e assimilar a si todo o resto.” À página 17: “ A hóstia é semelhante a uma fornalha ardente de onde sua chama irradia e se espalha”.
O padre (beato) Carlos de Foucauld tinha essa mesma ideia da irradiação da Eucaristia no ambiente em que se encontra, em forma de paz, misericórdia e salvação que Jesus nos proporciona. Ele a conservava ali no deserto para que se irradiasse na aldeia tuaregue. Infelizmente ele chegou a ficar um bom tempo sem a Eucaristia, por proibição das autoridades religiosas daquele tempo, que não permitia que ele celebrasse a missa sozinho.
O Irmão Carlos fazia 8 horas diárias de oração, baseado nessa certeza de que o poder de amor da Hóstia Consagrada, o próprio Cristo se estendia por todo o deserto e sobre o povo tuaregue, que ali vivia com ele. Que a Eucaristia seja também a força da vida dos Eremitas de Jesus Misericordioso, e sua fonte de inspiração e de oração. Diante da Eucaristia, Deus nos leva ao deserto, para ali “Falar-lhe ao coração” (Oséias 2,16).
A comunhão diária é, portanto, uma fonte de vida para todos nós. Quando não pudermos comungar, comunguemos espiritualmente, lendo uma leitura dos evangelhos. A Eucaristia que vivemos e recebemos vai também se irradiar no ambiente em que vivemos. É maravilhoso como isso realmente acontece!
No dia de Corpus Christi de 2012 em Roma, o Papa Bento XVI presidiu a Missa da Solenidade de Corpus Christi, na Basílica de São João de Latrão, em Roma. Na homilia, o Papa destacou que é importante manter vivo “o sentido da presença constante de Jesus no meio de nós e conosco, uma presença concreta, próxima, entre as nossas casas, como 'Coração pulsante' da cidade". É essa "irradiação" de que fala o irmão Carlos, e que deve acontecer não só com a Eucaristia, como também com Cristo presente em nós. Nós nos tornamos, por meio de uma vida santa, a "irradiação" de Cristo no meio em que vivemos, o sal da terra e a luz do mundo.
O Santo Padre explicou dois aspectos do Mistério Eucarístico, ligados entre si: o culto da Eucaristia e sua sacralidade. Sobre o valor do culto eucarístico, o Papa deteve-se sobre o sentido e importância da adoração ao Santíssimo Sacramento.
O destaque dado à Santa Missa acabou sacrificando o valor da Adoração Eucarística, como ato de fé e oração dirigido ao Senhor Jesus presente na Eucaristia. "De fato, concentrando toda a relação com Jesus Eucaristia somente no momento da Santa Missa, corre-se o risco de esvaziar de Sua presença o restante do tempo e do espaço existenciais".
O Papa ressaltou que é errado contrapor a celebração e a adoração, como se estivessem em concorrência uma com a outra. O que acontece é precisamente o contrário. "O culto do Santíssimo Sacramento constitui o 'ambiente' espiritual dentro do qual a comunidade pode celebrar bem e em verdade a Eucaristia. Somente se for precedida, acompanhada e seguida por essa atitude interior de fé e de adoração, a ação litúrgica poderá expressar seu pleno significado e valor", explicou.
Bento XVI enfatizou: "O encontro com Jesus na Santa Missa se realiza realmente e plenamente quando a comunidade é capaz de reconhecer que Ele, no Sacramento, habita a sua casa, nos aguarda, nos convida à sua ceia e, a seguir, depois que a assembleia se desfaz, permanece conosco, com a sua presença discreta e silenciosa, e nos acompanha com a sua intercessão, continuando a recolher os nossos sacrifícios espirituais e a oferecê-los ao Pai".
O Santo Padre insistiu que não se podem separar comunhão e contemplação. "Para comunicar realmente com outra pessoa devo conhecê-la, saber estar em silêncio ao seu lado, ouvi-la, olhá-la com amor. O verdadeiro amor e a verdadeira amizade vivem sempre desta reciprocidade de olhares, de silêncios intensos, eloquentes, repletos de respeito e de veneração, de modo que o encontro seja vivido profundamente, de modo pessoal e não superficial".
Jesus não aboliu o sagrado, ressaltou Bento XVI, Ele o levou ao cumprimento, inaugurando um novo culto, plenamente espiritual. Em todo o caso, "enquanto vivemos no tempo, precisamos de sinais e ritos, que desaparecerão somente no fim, na Jerusalém Celeste
11/12/2018
Se você buscar a etimologia (=origem) da palavra ”manjedoura” vai encontrar, inserido na explicação, frase como esta: “Manjedoura, é o lugar (douro) onde os animais comem (manjar)”. Ou seja, “manjedoura” é um modo de deixar menos desagradável a palavra “cocho”, mas é a mesma coisa. Jesus foi colocado num cocho onde os animais comiam.
Meditando sobre isso, eu percebi que Jesus desde antes do nascimento já escolhera onde queria nascer, como iria viver. Se ele quisesse luxo, iria nascer num palácio. Viveu pobre e entre os pobres, não tinha “onde reclinar a cabeça”. Quando jantava com os ricos, era para convertê-los e levá-los a partilhar suas riquezas com os pobres, como aconteceu com Zaqueu. Morreu pobre. Jesus nasceu nu e morreu nu. Nem o mais miserável ser humano morre nu atualmente. Jesus morreu. E na cruz não havia onde ele reclinar a cabeça.
Também percebi que ele continua com o mesmo costume! E isso pode ser terrível para nós. Sabe por quê?
Porque ele só continua a entrar onde há humildade, nos corações onde há uma acolhedora manjedoura. Ele não se sente bem e não entra nos corações soberbos, cheios de coisas supérfluas tiradas dos que não têm nada. É isso mesmo. Santo Ambrósio dizia que o agasalho que está sobrando no seu guarda-roupa pertence ao pobre que está tiritando de frio lá fora. Isso pode ser entendido simbolicamente, pois nem sempre o que pobre precisa é de agasalho. Às vezes esse pobre de que fala Santo Ambrósio é o seu próprio filho, que está precisando de sua presença na vida dele, ou aquela pessoa que está abandonada, sem ninguém com quem bater um papo.
Neste Natal vou rezar muito pedindo que o meu coração seja sempre uma acolhedora manjedoura onde Jesus se sinta à vontade. Nem sempre tem sido assim. E você? Está preparando sua “manjedoura” para que Jesus venha e se sinta à vontade? Pois vou contar-lhe um segredo: Muitas pessoas (talvez a maioria) nem vai pensar em Jesus neste Natal.
DOMINGO DA MISERICÓRDIA
A Divina Misericórdia - Dia 15 de abril 2012, domingo da divina misericórdia (revelação a Sta. Faustina e aprovada e instituída pelo papa João Paulo II)
QUI, 12 DE ABRIL DE 2012 15:42POR: CNBB
Dom Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ) (do site da CNBB)
O segundo domingo da Páscoa, que encerra a oitava da Páscoa, foi escolhido pelo Papa João Paulo II como um dia mundialmente dedicado e consagrado à Divina Misericórdia. Escolha que deseja tornar conhecido em todo o mundo este atributo máximo de Deus mesmo, que se derrama em amor e misericórdia a toda a humanidade.
Aqui em nossa Arquidiocese essa Festa é marcada por celebrações com muita participação popular na Catedral Metropolitana. Recorda-me que iniciei o meu serviço aqui nesta Igreja exatamente nessa festa dominical, e tive a oportunidade de, mais tarde, criar o Santuário da Divina Misericórdia na paróquia do mesmo nome, em Vila Valqueire.
A origem desta festa se encontra nas inspirações particulares da mística Santa Faustina, que recebeu o dom de ser canal para que a Misericórdia Divina pudesse ser reconhecida em todos os cantos e recantos do mundo. Santa Faustina nasceu em 25 de agosto de 1905, na Polônia, sendo a terceira de dez filhos de uma pobre família de aldeões na cidade de Glogowiec. Seu nome de batismo era Helena e sempre se destacou, desde a infância, pela piedade, amor à oração e obediência, sem contar na extrema atenção dedicada às misérias humanas que presenciava. Sentia, desde pequena, o desejo de ingressar na vida religiosa, mas não encontrou ninguém que a pudesse orientar.
À medida que foi amadurecendo o seu discernimento, começou a buscar o ingresso em várias comunidades religiosas e foi rejeitada em todas elas. Somente em agosto de 1925 é que ela conheceu a Congregação das Irmãs da Divina Misericórdia, onde foi aceita. Passou a maior parte de sua vida na Polônia e recebeu da Congregação o nome de Irmã Maria Faustina.
Santa Faustina é hoje considerada uma grande mística da Igreja Católica. Sua vida está narrada por ela mesma em uma autobiografia, no livro “Diário Espiritual”, onde ela escreve suas experiências místicas. Vale ressaltar que Irmã Faustina não pretendia escrever esse diário, mas o fez em obediência a seu diretor espiritual, que lhe pediu que o fizesse. A finalidade das revelações de Santa Faustina é clara desde o princípio: tornar conhecida a misericórdia do Senhor em todo o mundo.
Espiritualidade legitimamente confirmada e fundada nas Sagradas Escrituras, que nos sugere: "Sede misericordiosos como também vosso Pai é misericordioso" (Lc 6,36). Santa Faustina foi canonizada pelo Beato Papa João Paulo II em 30 de abril do ano santo da redenção de 2000.
Vários elementos desta devoção estão espalhados e conhecidos em toda a Igreja: o terço da Divina Misericórdia, a contemplação da Imagem de Jesus Misericordioso, a festa da Divina misericórdia (no segundo domingo da Páscoa), a novena à Divina Misericórdia, e a oração das três da tarde, hora dedicada à grande misericórdia de Deus, que se oferece por todos no santo sacrifício da Cruz. A devoção ainda busca reafirmar e fortalecer o inestimável e inesgotável valor dos sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação.
O Papa João Paulo II, em 17 de agosto de 2002, visitou o Santuário da Divina Misericórdia, em Cracóvia, na Polônia. Na ocasião, ele realizou o Ato Solene de entrega do destino do mundo à Divina Misericórdia. Em sua homilia o Pontífice Romano ressalta a idéia de que a misericórdia Divina é o "atributo máximo de Deus onipotente", e reafirma, usando as palavras da Santa, que a Misericórdia Divina, é "a doce esperança para o homem pecador". (Diário, 951)
A oferta de vida de Santa Faustina em suas dores, associada à paixão de Nosso Senhor, fonte inesgotável de amor e misericórdia, tinha um tríplice objetivo, a saber: que a obra de misericórdia se difundisse por todo o mundo e sua festa fosse aprovada e comemorada; para que os pecadores pudessem recorrer à misericórdia e experimentar seus inefáveis efeitos, e para que toda a obra de misericórdia fosse executada de acordo com o desejo do próprio Senhor.
As virtudes da humildade (atitude do homem diante da imerecida eleição divina em Cristo), a pureza (transparências nas atitudes) e o amor (oferecer tudo de si ao outro) são incentivadas e vividas na mística da misericórdia. Manifestam a capacidade de amor que Deus depositou no homem como a mais profunda oferta de si em favor de toda a humanidade. A devoção à Divina Misericórdia, de cunho cristocêntrico e trinitário quer deixar sempre mais clarividente a espiritualidade que parte de Jesus em direção ao coração humano: "Apenas Jesus é meu estímulo para o amor ao próximo." (Diário 871)
A comunicação de Deus e de sua vontade a seu povo sempre foi uma experiência presente ao longo da história da salvação. A carta aos Hebreus nos afirma que "Deus falou de muitos modos e maneiras ao seu povo: por meio dos profetas, aos nossos pais, e, recentemente, por meio de seu Filho Jesus Cristo, constituído herdeiro de tudo.” (cf. Hb 1, 1-2). A espiritualidade de Irmã Faustina quer ainda reforçar sempre mais a certeza de que Deus é amor e misericórdia, de que Deus ama o ser humano, de que Deus se comunica (revela) em sua infinita misericórdia e nos convida a nela mergulharmos; de que Deus rejeita o pecado, mas acolhe e se faz próximo do pecador, comunicando-lhe sua graça e seu amor, portanto, seu ser mesmo.
Que a festa da Misericórdia Divina seja para nós um encontro com o Deus Uno e Trino, que é amor, e deseja nos levar ao amor. Que o mundo sedento deste amor possa se dobrar ao amor de Deus e acolher seus mais generosos benefícios.
Supliquemos a Jesus Misericordioso que desperte, mesmo nos corações mais endurecidos, a confiança Nele, e com Santa Faustina possamos rezar: "Jesus, eu confio em vós”. Com o coração desejoso de estar sempre meditando o amor misericordioso de nosso Deus, façamos juntos a consagração do destino do mundo à misericórdia Divina, rezada por João Paulo II, no santuário da Divina Misericórdia: "Deus, Pai Misericordioso que revelaste o Teu amor no Teu Filho Jesus Cristo e o derramaste sobre nós, no Espírito Santo, consolador, confiamos-Te hoje o destino do mundo e de cada homem. Inclina-te sobre nós, pecadores, e cura a nossa debilidade. Vence o mal; faz com que todos os habitantes da Terra conheçam a Tua misericórdia para que em Ti, Deus Uno e Trino, encontrem sempre a esperança. Pai eterno, pela dolorosa Paixão e Ressurreição de Teu Filho tende misericórdia de nós e do mundo inteiro. Amém.
Neste mundo tão duro e com tantas situações de morte sendo impingidas ao povo brasileiro, celebrar a misericórdia é uma ótima oportunidade de anunciarmos a todos a alegria da presença do Ressuscitado entre nós.
Que também nós sejamos misericordiosos e que levemos a misericórdia de Deus para todos, principalmente para a juventude, para que encontre o caminho da justiça, da paz e do seguimento do Cristo Redentor, distribuidor da vida e da paz!
A Misericórdia e o Perdão
SEX, 13 DE ABRIL DE 2012 10:39POR: CNBB
Dom Orani João Tempesta
Arcebispo de São Sebastião (RJ)
Domingo da misericórdia! As leituras deste segundo domingo da Páscoa giram em torno desse tema, começando com a oração de abertura repetida no Salmo, e culminando na passagem do Evangelho em que Jesus apareceu aos discípulos no Cenáculo, mostrou-lhes as mãos e seu lado traspassado.
Sabemos que o fundamento teológico da devoção ao Coração de Jesus é o Seu Coração traspassado pela lança, do qual brotaram sangue e água; o sangue que regenera a vida da graça, e a água que nos purifica de nossos pecados. Quando contemplamos a imagem de Jesus misericordioso, vemos que Ele se mostra precisamente com o Coração traspassado, do qual surgem dois raios: um vermelho, que simboliza o sangue derramado, e o outro branco, que simboliza a água que nos purifica no nosso Batismo. Este quadro é relativo à Festa da Divina Misericórdia, celebrada no segundo domingo de Páscoa. Os escritos dos Santos Padres comparam esses sinais ao nascimento da Igreja do lado aberto de Cristo.
A festa da Divina Misericórdia foi instituída pelo Papa Beato João Paulo II em abril de 2000. E em 29 de junho de 2002, com um novo decreto, acrescenta a esta festa uma indulgência plenária. Assim, o já chamado “domingo in Albis” (em branco, recordado pelas vestes dos que haviam sido batizados na noite de Páscoa) tornou-se o Domingo da Divina Misericórdia.
Esta festa vem precedida por uma novena de preparação, pois, anexa a ela existe uma grande promessa de Jesus a todos aqueles que confessarem e comungarem, celebrando dignamente esta Festa – serão remidas as penas das culpas e reencontrarão a veste branca batismal.
Sabemos que o Batismo nos faz novos. Nas primeiras comunidades cristãs alguns esperavam para recebê-lo mais tarde, pois assim estariam certos de que todos os seus pecados teriam sido perdoados pelo Batismo. Comportamento que revela, conforme a mentalidade da época, a fé na eficácia do sacramento.
Sabemos que o Batismo, como também a Crisma e a Ordem, opera uma consagração ontológica (do ser), que consagra de uma vez por todas o ser da pessoa que o recebe, o que significa que não pode ser dissolvido nem recebido uma segunda vez. Portanto, para nós que não podemos mais receber o Batismo, esta festa contribui a dar-nos de volta a veste branca do batismo, como foi inspirado por Santa Faustina: "Desejo que o primeiro domingo depois da Páscoa seja a Festa da Minha Misericórdia. A alma que naquele dia tiver se confessado e comungar, vai ficar completamente remida dos pecados e das culpas. A alma que recorrer à minha misericórdia não perecerá: Eu, o Senhor, vou defendê-la como minha própria glória, e na hora da morte não virei como um juiz, mas como Salvador. Diga à humanidade sofredora que se refugie em meu Coração Misericordioso e eu a preencherei de paz”.
Dessa maneira, ao trazer à tona o nascimento da Igreja, nova Eva, com o simbolismo da água e do sangue jorrados do lado de Cristo e ao procurar renovar o cristão revivendo o seu batismo recordando que com o perdão ele se reveste com a veste branca, o domingo anteriormente chamado “in albis” continua retomando o seu caráter eclesial e batismal com a festa da Divina Misericórdia recentemente introduzida.
Nestes tempos em que um grupo minoritário impõe aos brasileiros, contra a vontade deles, suas opiniões sobre a vida e coloca o nosso país em retrocesso com relação aos valores do ser humano, sem dúvida, que para nós, cristãos, é tempo de aprofundar ainda mais nossa vida e missão nessa sociedade.
Nós estamos submersos sob uma avalanche de informações que nos é transmitida por diferentes canais. Temos de recuperar a orientação da verdade, o labirinto de informações destorcidas e desinformadas que afirmam hoje em letras garrafais, mas que amanhã corrigem em notas ao pé da página e que podem, até depois de amanhã ratificar, fazendo muitos perderem a cabeça, por não saberem mais em que acreditar.
Façamo-nos difusores da boa notícia da salvação e da misericórdia divina, e rios de água viva irrigarão o mundo com a presença de Deus. E uma nova primavera vai surgir! Gritemos ao mundo com toda a força: Cristo ressuscitou, aleluia, ressuscitou, verdadeiramente, aleluia! Em sua infinita misericórdia Ele quer nos salvar!
A MISERICÓRDIA, O PERDÃO, A HUMILDADE
Diz Efésios 2, 4: “Deus é rico em misericórdia!”, e quer que também nós o sejamos, ajudando as pessoas, acolhendo-as, nunca desprezá-las e sempre perdoá-las. Tiago 2,1-26 nos diz que a fé, sem as obras, é morta: precisamos ajudar os pobres e necessitados, não desprezando nem humilhando a ninguém.Diz também no v. 13: “A misericórdia vence (triunfa sobre ) o julgamento”. Agindo assim, no julgamento final Deus será misericordioso também para conosco, como nos diz Mateus 25, 31-46 (o julgamento final).
É bom lembrar que a misericórdia implica, também, a não julgarmos a ninguém. Veja Mateus 7,1-4 e 1ª Pedro 4, 8 “A misericórdia cobrirá a multidão dos pecados”!
Diz Efésios 3,20: “Deus é poderoso para realizar por nós, em tudo, muito além, infinitamente além de tudo o que pedimos ou pensamos”.
Se Deus é assim tão poderoso, ele pode também ser todo misericordioso, como diz Jeremias 31,3:
“Eu te amei com um amor eterno; por isso guardo por ti tanta ternura!”
Por isso tenhamos certeza de que ele nunca nos abandonará, se deixarmos que ele tome conta de nossa vida, como diz Isaías 42,16;
“Eu nunca hei de abandoná-los”
E em Isaías 49,15:
“Mesmo que a mãe se esqueça do filho que gerou, ou deixe de amá-lo, eu jamais me esquecerei de ti!”.
Ou ainda em Isaías 66,13:
“Qual mãe que acaricia os filhos, assim também eu vou dar-vos o meu carinho”.
Se estivermos dispostos a deixar os pecados e nos aproximarmos de Deus, ele nos perdoará nossos pecados, conforme lemos em Miqueias 7,19:
“Ele vai nos perdoar de novo! Vai calcar aos pés as nossas faltas e jogará no fundo do mar todos os nossos pecados”.
Se pedirmos perdão e nos comprometermos a não mais pecar. Os pecados graves devem ser confessados a um padre, mas não basta isso! É necessário que a pessoa se esforce para não cometer mais aquele pecado (e outros que tenha cometido). Seria bom refletir nos textos que falam sobre isso: Mateus 16,18-19, João 20,22-23, Tiago 5,16. Os outros pecados mais leves serão perdoados se pedirmos perdão diretamente a Deus e fizermos atos de misericórdia e caridade. A misericórdia, o amor, a caridade, cobrem a multidão de pecados, diz 1ª Pedro 4,8.
Esses pecados mais leves também são perdoados com atos de reparação, como as orações, pequenos jejuns ou renúncias de vez em quando, como de alimentos, televisão, bebidas, doces, ou ainda aceitando e oferecendo a Deus os sofrimentos, em reparação dos nossos pecados. Em 1ª João 1,9, vemos que “Se confessarmos os nossos pecados, Deus é fiel e justo para nos perdoar e nos purificar de toda a culpa”.
O único pecado que não tem perdão é o cometido contra o Espírito Santo, que consiste em achar que Deus não pode ou não quer nos perdoar, e por isso não pedimos perdão. Isso pode ser refletido em 1ª João 5, 16-17; Mateus 12,31-32, Hebreus 6,6.
Jesus diz que devemos perdoar sempre, em Mateus 18,22. Pedro lhe perguntara se devia perdoar até sete vezes, mas Jesus respondeu setenta vezes sete, que equivale a sempre. Em Lucas 17,4, lemos: “Se teu irmão pecar contra ti 7 vezes por dia e 7 vezes retornar dizendo que está arrependido, tu o perdoarás”.
Em Mateus 6, 14-15, Jesus diz que o Pai só nos perdoará se perdoarmos aos que nos ofenderam Perdoar, porém, não é “deixar pra lá”. Se for preciso aplicar algum corretivo, devemos fazê-lo, mas sempre com caridade e compreensão. Jesus pede, também, para tirarmos qualquer pensamento de vingança. Há vários trechos de perdão que podemos meditar: Mateus 5,38-48; cap. 5 22-26; cap. 18, 23-35: Lucas 15, 11-32 (filho pródigo).
Em Romanos 12,19, vemos uma frase muito bonita e importante para nos trazer a paz: “A mim pertence a vingança, eu é que retribuirei, diz o Senhor”. No versículo 20, S. Paulo comenta que se tratarmos bem a quem nos odeia, se perdoarmos a quem nos ofendeu, esse ato será como que tivéssemos colocado “brasas” sobre a cabeça dele. Essas “brasas” são símbolos do remorso que o fulano irá sentir, e talvez se converter.
AMAR AO PRÓXIMO: Esse é o maior mandamento. Diz João 13,34-35: “Assim como eu vos amei, vós deveis amar uns aos outros” Já em Marcos 12,28-34, Jesus nos manda amar ao próximo como a nós mesmos, e em Romanos 12,19-20 e Mateus 5,44-48, a amar até os inimigos.
Amar o inimigo é possível se entendermos bem que AMAR não é GOSTAR. Jesus não exigiu que gostássemos, mas que amássemos o inimigo. Isso significa tratar bem dele, não ter sentimentos de vingança, orientá-lo para descobrir Deus em sua vida e aprender a agradecê-lo, a fim de que possa ir para o céu, que possa realizar-se como pessoa.
Perdoar, amar, implica em nunca julgar, para também não sermos julgados. Do mesmo modo que julgarmos também seremos julgados (Mateus 7,1-2).
Entretanto, não podemos confundir julgar com criticar. Na crítica positiva, caridosa, construtiva, apontamos algo errado que precisa ser mudado. No julgamento, pelo contrário, colocamos má intenção na ação da pessoa, e isso é que é pecado.
Exemplo: se alguém derrubar e quebrar um copo seu de estimação, criticar seria pedir que esse alguém tome mais cuidado com o que é dos outros. Julgar seria dizer que ele quebrou o copo porque não gosta de você.
Quanto à humildade, lembro que Jesus foi muito humilde. Diz Mateus 11,29-30: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis repouso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu peso é leve”.
Ser humilde, entretanto, não é ser tímido! Jesus morreu porque enfrentou as autoridades religiosas do tempo, que escravizavam o povo. Ser humilde é reconhecer os próprios limites e aceitá-los, reconhecendo os próprios pecados, desvios, maldade, pedir perdão disso tudo a Deus, confiando a Ele a própria vida, nunca desprezando a ninguém.
Ser humilde é não querer fazer tudo sozinho, mas sempre procurar buscar a ajuda de Deus e das pessoas capacitadas para aquela ação. Reflita sobre isso em Tiago 2,1-7; Marcos 2,15-17; Marcos 6, 37-44. O salmo 40, 17 nos diz: “Sou pobre e indigente, mas Deus cuida de mim!”
Entretanto, o orgulhoso, o auto-suficiente, é abandonado às suas próprias forças e, como diz Sabedoria 1, 1-5, Deus não se revelará a ele. Santa Teresa de Jesus diz uma coisa belíssima quanto à humildade e à confiança em Deus:
“Nada te perturbe, nada te espante. Tudo passa. Deus nunca muda. A paciência tudo alcança. A quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta!”.
Foi essa humildade e confiança que permitiu a Maria conceber e dar à luz o Filho de Deus, como nos conta Lucas 1,46-54. O humilde está sempre com Deus e é fortalecido por Ele.
O livro da Sabedoria, capítulo 1, versículos de 1 a 5, já falava que os simples conseguem obter a revelação da pessoa de Deus. Ele se revela aos simples e aos que não o põem à prova.
A humildade está unida à simplicidade que significa, antes de tudo, confiar em Deus plenamente, deixando em segundo, terceiro ou mesmo último lugar aquilo que nos dá prepotência sobre os outros, ou uma situação financeira privilegiada, abandonando completamente tudo o que nos pode separar de Deus, tudo o que for supérfluo e secundário. As coisas que não puderem ser renunciadas, não se apegar a elas, porque um dia nos “deixarão na mão”, como o povo fala.
Tudo é relativo e secundário se colocamos como nossa meta principal o Reino de Deus. Dizia São Tomás de Aquino: “É melhor andarmos mancando (claudicando) no caminho certo do que correr no caminho errado, pois só chegaremos ao paraíso se estivermos no caminho certo, estejamos correndo ou mancando”.
A simplicidade nos leva a ser pobres em espírito e puros de coração (Mateus 5,1-8). Quando entramos em crise ao nos lembrarmos de quantas coisas no passado deixamos de fazer pelos outros, principalmente pelos nossos pais e pessoas mais achegadas, pelas vezes que não demos testemunho de nossa fé, devemos pedir perdão e perdoar a todos os que nos prejudicaram. Isso vai nos tirar da depressão, do estresse, vai nos dar alívio, e se nos colocarmos nos braços do Pai, que, poderoso, poderá nos purificar e conduzir a nossa vida por um caminho de confiança e de esperança.
Sta. Teresinha já dizia isso, em palavras parecidas com estas: “A lebre, ao ser perseguida pelos cães, refugia-se, assustada, nos braços do caçador”.
Eu acho essa frase magnífica! Na crise de desânimo, de enfado, de repugnância por tudo, e às vezes até por nós mesmos, precisamos e podemos, para nos livrar de um Deus-Juiz, nos refugiarmos e pedirmos ajuda no Deus Salvador e misericordioso. Vendo que não há outra saída, ou seja, que não dá para nos livrar do perigo, refugiemo-nos nas mãos do próprio Juiz enquanto estamos vivos e nesta terra! Enquanto estivermos por aqui, ele não é juiz: ele é salvador.
Já dizia Santa Teresa de Ávila: “Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa! A paciência tudo alcança! Deus nunca muda! A quem a Deus tem, nada lhe falta! Só Deus basta!”
No dia 22/04/2011, 2º dom, da Páscoa, o Papa João Paulo II falou sobre a MISERICÓRDIA DIVINA. Eis um pequeno resumo:
1- "Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último. O que vive; conheci a morte, mas eis-Me aqui vivo pelos séculos dos séculos" (Ap 1, 17-18). . A cada um, seja qual for a condição em que se encontre, até a mais complexa e dramática, o Ressuscitado responde: "Não temas!"; morri na cruz, mas agora "vivo pelos séculos dos séculos"; "Eu sou o Primeiro e o Último. O que vive".
"Louvai o Senhor porque Ele é bom, porque é eterno o Seu amor" (Sl 117, 1). É um prodígio em que se abre em plenitude o amor do Pai que, pela nossa redenção, não se poupa nem sequer perante o sacrifício do seu Filho unigênito. Em Cristo humilhado e sofredor, crentes e não-crentes podem admirar uma solidariedade surpreendente, que o une à nossa condição humana para além de qualquer medida imaginável.
3. É para mim uma grande alegria poder unir-me a todos vós, queridos peregrinos e devotos provenientes de várias nações para comemorar, à distância de um ano, a canonização da Irmã Faustina Kowalska, testemunha e mensageira do amor misericordioso do Senhor. De fato, a mensagem da qual ela foi portadora constitui a resposta adequada e incisiva que Deus quis oferecer às interrogações e às expectativas dos homens deste nosso tempo, marcado por grandes tragédias. Jesus, um dia disse à Irmã Faustina: "A humanidade não encontrará paz, enquanto não tiver confiança na misericórdia divina" (Diário, pág. 132). A Misericórdia divina! Eis o dom pascal que a Igreja recebe de Cristo ressuscitado e oferece à humanidade no alvorecer do terceiro milênio.
4. O Evangelho, que há pouco foi proclamado: "Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós" (Jo 20, 21). Imediatamente a seguir, "soprou sobre eles e disse-lhes: recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados, àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (Jo 20, 22-23). Jesus confia-lhes o dom de "perdoar os pecados", dom que brota das feridas das suas mãos, dos seus pés e sobretudo do seu lado trespassado. Dali sai uma vaga de misericórdia para toda a humanidade. Revivemos este momento com grande intensidade espiritual. Também hoje o Senhor nos mostra as suas chagas gloriosas e o seu coração, fonte ininterrupta de luz e de verdade, de amor e de perdão.
5. O Coração de Cristo! O seu "Sagrado Coração" deu tudo aos homens: a redenção, a salvação, a santificação. Deste Coração superabundante de ternura Santa Faustina Kowalska viu sair dois raios de luz que iluminavam o mundo. "Os dois raios segundo quanto o próprio Jesus lhe disse representam o sangue e a água" (Diário, pág. 132). O sangue recorda o sacrifício do Gólgota e o mistério da Eucaristia; a água, segundo o rico simbolismo do evangelista João, faz pensar no batismo e no dom do Espírito Santo (cf. Jo 3, 5; 4, 14). Através do mistério deste coração ferido, não cessa de se difundir também sobre os homens e as mulheres da nossa época o fluxo reparador do amor misericordioso de Deus. Quem aspira à felicidade autêntica e duradoura, unicamente nele pode encontrar o seu segredo.
6. "Jesus, confio em Ti". Esta oração, querida a tantos devotos, exprime muito bem a atitude com que também nós desejamos abandonar-nos confiantes nas tuas mãos, ó Senhor, nosso único Salvador. Arde em Ti o desejo de seres amado, e quem se sintoniza com os sentimentos do teu coração aprende a ser construtor da nova civilização do amor. Um simples ato de abandono é o que basta para superar as barreiras da escuridão e da tristeza, da dúvida e do desespero. Os raios da tua divina misericórdia dão nova esperança, de maneira especial, a quem se sente esmagado pelo peso do pecado. Maria, Mãe da Misericórdia, faz com que conservemos sempre viva esta confiança no teu Filho, nosso Redentor. Ajuda-nos também tu, Santa Faustina, que hoje recordamos com particular afeto. Juntamente contigo queremos repetir, fixando o nosso olhar frágil no rosto do divino Salvador: "Jesus, confio em Ti". Hoje e sempre. Amém !
Diz Efésios 2, 4: “Deus é rico em misericórdia!”, e quer que também nós o sejamos, ajudando as pessoas, acolhendo-as, nunca desprezá-las e sempre perdoá-las. Tiago 2,1-26 nos diz que a fé, sem as obras, é morta: precisamos ajudar os pobres e necessitados, não desprezando nem humilhando a ninguém.Diz também no v. 13: “A misericórdia vence (triunfa sobre ) o julgamento”. Agindo assim, no julgamento final Deus será misericordioso também para conosco, como nos diz Mateus 25, 31-46 (o julgamento final).
É bom lembrar que a misericórdia implica, também, a não julgarmos a ninguém. Veja Mateus 7,1-4 e 1ª Pedro 4, 8 “A misericórdia cobrirá a multidão dos pecados”!
Diz Efésios 3,20: “Deus é poderoso para realizar por nós, em tudo, muito além, infinitamente além de tudo o que pedimos ou pensamos”.
Se Deus é assim tão poderoso, ele pode também ser todo misericordioso, como diz Jeremias 31,3:
“Eu te amei com um amor eterno; por isso guardo por ti tanta ternura!”
Por isso tenhamos certeza de que ele nunca nos abandonará, se deixarmos que ele tome conta de nossa vida, como diz Isaías 42,16;
“Eu nunca hei de abandoná-los”
E em Isaías 49,15:
“Mesmo que a mãe se esqueça do filho que gerou, ou deixe de amá-lo, eu jamais me esquecerei de ti!”.
Ou ainda em Isaías 66,13:
“Qual mãe que acaricia os filhos, assim também eu vou dar-vos o meu carinho”.
Se estivermos dispostos a deixar os pecados e nos aproximarmos de Deus, ele nos perdoará nossos pecados, conforme lemos em Miqueias 7,19:
“Ele vai nos perdoar de novo! Vai calcar aos pés as nossas faltas e jogará no fundo do mar todos os nossos pecados”.
Se pedirmos perdão e nos comprometermos a não mais pecar. Os pecados graves devem ser confessados a um padre, mas não basta isso! É necessário que a pessoa se esforce para não cometer mais aquele pecado (e outros que tenha cometido). Seria bom refletir nos textos que falam sobre isso: Mateus 16,18-19, João 20,22-23, Tiago 5,16. Os outros pecados mais leves serão perdoados se pedirmos perdão diretamente a Deus e fizermos atos de misericórdia e caridade. A misericórdia, o amor, a caridade, cobrem a multidão de pecados, diz 1ª Pedro 4,8.
Esses pecados mais leves também são perdoados com atos de reparação, como as orações, pequenos jejuns ou renúncias de vez em quando, como de alimentos, televisão, bebidas, doces, ou ainda aceitando e oferecendo a Deus os sofrimentos, em reparação dos nossos pecados. Em 1ª João 1,9, vemos que “Se confessarmos os nossos pecados, Deus é fiel e justo para nos perdoar e nos purificar de toda a culpa”.
O único pecado que não tem perdão é o cometido contra o Espírito Santo, que consiste em achar que Deus não pode ou não quer nos perdoar, e por isso não pedimos perdão. Isso pode ser refletido em 1ª João 5, 16-17; Mateus 12,31-32, Hebreus 6,6.
Jesus diz que devemos perdoar sempre, em Mateus 18,22. Pedro lhe perguntara se devia perdoar até sete vezes, mas Jesus respondeu setenta vezes sete, que equivale a sempre. Em Lucas 17,4, lemos: “Se teu irmão pecar contra ti 7 vezes por dia e 7 vezes retornar dizendo que está arrependido, tu o perdoarás”.
Em Mateus 6, 14-15, Jesus diz que o Pai só nos perdoará se perdoarmos aos que nos ofenderam Perdoar, porém, não é “deixar pra lá”. Se for preciso aplicar algum corretivo, devemos fazê-lo, mas sempre com caridade e compreensão. Jesus pede, também, para tirarmos qualquer pensamento de vingança. Há vários trechos de perdão que podemos meditar: Mateus 5,38-48; cap. 5 22-26; cap. 18, 23-35: Lucas 15, 11-32 (filho pródigo).
Em Romanos 12,19, vemos uma frase muito bonita e importante para nos trazer a paz: “A mim pertence a vingança, eu é que retribuirei, diz o Senhor”. No versículo 20, S. Paulo comenta que se tratarmos bem a quem nos odeia, se perdoarmos a quem nos ofendeu, esse ato será como que tivéssemos colocado “brasas” sobre a cabeça dele. Essas “brasas” são símbolos do remorso que o fulano irá sentir, e talvez se converter.
AMAR AO PRÓXIMO: Esse é o maior mandamento. Diz João 13,34-35: “Assim como eu vos amei, vós deveis amar uns aos outros” Já em Marcos 12,28-34, Jesus nos manda amar ao próximo como a nós mesmos, e em Romanos 12,19-20 e Mateus 5,44-48, a amar até os inimigos.
Amar o inimigo é possível se entendermos bem que AMAR não é GOSTAR. Jesus não exigiu que gostássemos, mas que amássemos o inimigo. Isso significa tratar bem dele, não ter sentimentos de vingança, orientá-lo para descobrir Deus em sua vida e aprender a agradecê-lo, a fim de que possa ir para o céu, que possa realizar-se como pessoa.
Perdoar, amar, implica em nunca julgar, para também não sermos julgados. Do mesmo modo que julgarmos também seremos julgados (Mateus 7,1-2).
Entretanto, não podemos confundir julgar com criticar. Na crítica positiva, caridosa, construtiva, apontamos algo errado que precisa ser mudado. No julgamento, pelo contrário, colocamos má intenção na ação da pessoa, e isso é que é pecado.
Exemplo: se alguém derrubar e quebrar um copo seu de estimação, criticar seria pedir que esse alguém tome mais cuidado com o que é dos outros. Julgar seria dizer que ele quebrou o copo porque não gosta de você.
Quanto à humildade, lembro que Jesus foi muito humilde. Diz Mateus 11,29-30: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis repouso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu peso é leve”.
Ser humilde, entretanto, não é ser tímido! Jesus morreu porque enfrentou as autoridades religiosas do tempo, que escravizavam o povo. Ser humilde é reconhecer os próprios limites e aceitá-los, reconhecendo os próprios pecados, desvios, maldade, pedir perdão disso tudo a Deus, confiando a Ele a própria vida, nunca desprezando a ninguém.
Ser humilde é não querer fazer tudo sozinho, mas sempre procurar buscar a ajuda de Deus e das pessoas capacitadas para aquela ação. Reflita sobre isso em Tiago 2,1-7; Marcos 2,15-17; Marcos 6, 37-44. O salmo 40, 17 nos diz: “Sou pobre e indigente, mas Deus cuida de mim!”
Entretanto, o orgulhoso, o auto-suficiente, é abandonado às suas próprias forças e, como diz Sabedoria 1, 1-5, Deus não se revelará a ele. Santa Teresa de Jesus diz uma coisa belíssima quanto à humildade e à confiança em Deus:
“Nada te perturbe, nada te espante. Tudo passa. Deus nunca muda. A paciência tudo alcança. A quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta!”.
Foi essa humildade e confiança que permitiu a Maria conceber e dar à luz o Filho de Deus, como nos conta Lucas 1,46-54. O humilde está sempre com Deus e é fortalecido por Ele.
O livro da Sabedoria, capítulo 1, versículos de 1 a 5, já falava que os simples conseguem obter a revelação da pessoa de Deus. Ele se revela aos simples e aos que não o põem à prova.
A humildade está unida à simplicidade que significa, antes de tudo, confiar em Deus plenamente, deixando em segundo, terceiro ou mesmo último lugar aquilo que nos dá prepotência sobre os outros, ou uma situação financeira privilegiada, abandonando completamente tudo o que nos pode separar de Deus, tudo o que for supérfluo e secundário. As coisas que não puderem ser renunciadas, não se apegar a elas, porque um dia nos “deixarão na mão”, como o povo fala.
Tudo é relativo e secundário se colocamos como nossa meta principal o Reino de Deus. Dizia São Tomás de Aquino: “É melhor andarmos mancando (claudicando) no caminho certo do que correr no caminho errado, pois só chegaremos ao paraíso se estivermos no caminho certo, estejamos correndo ou mancando”.
A simplicidade nos leva a ser pobres em espírito e puros de coração (Mateus 5,1-8). Quando entramos em crise ao nos lembrarmos de quantas coisas no passado deixamos de fazer pelos outros, principalmente pelos nossos pais e pessoas mais achegadas, pelas vezes que não demos testemunho de nossa fé, devemos pedir perdão e perdoar a todos os que nos prejudicaram. Isso vai nos tirar da depressão, do estresse, vai nos dar alívio, e se nos colocarmos nos braços do Pai, que, poderoso, poderá nos purificar e conduzir a nossa vida por um caminho de confiança e de esperança.
Sta. Teresinha já dizia isso, em palavras parecidas com estas: “A lebre, ao ser perseguida pelos cães, refugia-se, assustada, nos braços do caçador”.
Eu acho essa frase magnífica! Na crise de desânimo, de enfado, de repugnância por tudo, e às vezes até por nós mesmos, precisamos e podemos, para nos livrar de um Deus-Juiz, nos refugiarmos e pedirmos ajuda no Deus Salvador e misericordioso. Vendo que não há outra saída, ou seja, que não dá para nos livrar do perigo, refugiemo-nos nas mãos do próprio Juiz enquanto estamos vivos e nesta terra! Enquanto estivermos por aqui, ele não é juiz: ele é salvador.
Já dizia Santa Teresa de Ávila: “Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa! A paciência tudo alcança! Deus nunca muda! A quem a Deus tem, nada lhe falta! Só Deus basta!”
No dia 22/04/2011, 2º dom, da Páscoa, o Papa João Paulo II falou sobre a MISERICÓRDIA DIVINA. Eis um pequeno resumo:
1- "Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último. O que vive; conheci a morte, mas eis-Me aqui vivo pelos séculos dos séculos" (Ap 1, 17-18). . A cada um, seja qual for a condição em que se encontre, até a mais complexa e dramática, o Ressuscitado responde: "Não temas!"; morri na cruz, mas agora "vivo pelos séculos dos séculos"; "Eu sou o Primeiro e o Último. O que vive".
"Louvai o Senhor porque Ele é bom, porque é eterno o Seu amor" (Sl 117, 1). É um prodígio em que se abre em plenitude o amor do Pai que, pela nossa redenção, não se poupa nem sequer perante o sacrifício do seu Filho unigênito. Em Cristo humilhado e sofredor, crentes e não-crentes podem admirar uma solidariedade surpreendente, que o une à nossa condição humana para além de qualquer medida imaginável.
3. É para mim uma grande alegria poder unir-me a todos vós, queridos peregrinos e devotos provenientes de várias nações para comemorar, à distância de um ano, a canonização da Irmã Faustina Kowalska, testemunha e mensageira do amor misericordioso do Senhor. De fato, a mensagem da qual ela foi portadora constitui a resposta adequada e incisiva que Deus quis oferecer às interrogações e às expectativas dos homens deste nosso tempo, marcado por grandes tragédias. Jesus, um dia disse à Irmã Faustina: "A humanidade não encontrará paz, enquanto não tiver confiança na misericórdia divina" (Diário, pág. 132). A Misericórdia divina! Eis o dom pascal que a Igreja recebe de Cristo ressuscitado e oferece à humanidade no alvorecer do terceiro milênio.
4. O Evangelho, que há pouco foi proclamado: "Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós" (Jo 20, 21). Imediatamente a seguir, "soprou sobre eles e disse-lhes: recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados, àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (Jo 20, 22-23). Jesus confia-lhes o dom de "perdoar os pecados", dom que brota das feridas das suas mãos, dos seus pés e sobretudo do seu lado trespassado. Dali sai uma vaga de misericórdia para toda a humanidade. Revivemos este momento com grande intensidade espiritual. Também hoje o Senhor nos mostra as suas chagas gloriosas e o seu coração, fonte ininterrupta de luz e de verdade, de amor e de perdão.
5. O Coração de Cristo! O seu "Sagrado Coração" deu tudo aos homens: a redenção, a salvação, a santificação. Deste Coração superabundante de ternura Santa Faustina Kowalska viu sair dois raios de luz que iluminavam o mundo. "Os dois raios segundo quanto o próprio Jesus lhe disse representam o sangue e a água" (Diário, pág. 132). O sangue recorda o sacrifício do Gólgota e o mistério da Eucaristia; a água, segundo o rico simbolismo do evangelista João, faz pensar no batismo e no dom do Espírito Santo (cf. Jo 3, 5; 4, 14). Através do mistério deste coração ferido, não cessa de se difundir também sobre os homens e as mulheres da nossa época o fluxo reparador do amor misericordioso de Deus. Quem aspira à felicidade autêntica e duradoura, unicamente nele pode encontrar o seu segredo.
6. "Jesus, confio em Ti". Esta oração, querida a tantos devotos, exprime muito bem a atitude com que também nós desejamos abandonar-nos confiantes nas tuas mãos, ó Senhor, nosso único Salvador. Arde em Ti o desejo de seres amado, e quem se sintoniza com os sentimentos do teu coração aprende a ser construtor da nova civilização do amor. Um simples ato de abandono é o que basta para superar as barreiras da escuridão e da tristeza, da dúvida e do desespero. Os raios da tua divina misericórdia dão nova esperança, de maneira especial, a quem se sente esmagado pelo peso do pecado. Maria, Mãe da Misericórdia, faz com que conservemos sempre viva esta confiança no teu Filho, nosso Redentor. Ajuda-nos também tu, Santa Faustina, que hoje recordamos com particular afeto. Juntamente contigo queremos repetir, fixando o nosso olhar frágil no rosto do divino Salvador: "Jesus, confio em Ti". Hoje e sempre. Amém !
Lucas 18, 1 “Rezar sempre, sem nunca desistir”.
Na minha opinião, deveríamos rezar pelo menos dez por cento de um dia, ou seja, pagarmos o dízimo de oração a Deus. São duas horas e vinte e quatro minutos.
Certa vez tentei pedir a uns colegas de sacerdócio que nos comprometêssemos rezar uma hora por dia: nenhum quis firmar o compromisso. Isso quer dizer, sem querer julgar, que não rezavam nem uma hora diariamente. Que evangelização pode sair de pessoas que não rezam? O Dom Angélico, agora bispo emérito, sempre diz: “Quem não reza, vira bicho”. E o meu pároco, de quando eu era criança, sempre dizia: “Tem gente que deita burro e levanta cavalo”! - porque não rezavam nem para dormir nem para levantar-se.
Se rezarmos uma Hora Santa diária, um rosário, a Liturgia das Horas, a Santa Missa, aí já passou do dízimo de orações.
A oração nos dá coragem e força para vencermos os obstáculos. Jesus orava sempre, tanto antes das refeições, como antes de qualquer coisa. Na Bíblia de Jerusalém, comentário n° 9 de Mateus 14,23 você encontra uma relação de todas as orações que Jesus fazia no dia a dia. Temos isso também nestes links:
Outra virtude necessária aos cristãos é a paciência. S. Francisco de Salles (séculos 16/17) era muito irascível, até que converteu-se, tornando-se o “Santo da Paciência!”
Já nos adverte Efésios 4,26-27: “Que o sol não se ponha sobre a vossa ira! Não deis entrada ao demônio!”. O demônio se sente “à vontade” num ambiente em que pelo menos uma pessoa está irada. A inimizade, a discórdia, o ódio, a irritação, os gritos histéricos, são “a praia” do demônio, do maligno. Numa discussão, por exemplo, o que se deixa levar pela ira, pela impaciência, perde, mesmo que esteja com a razão.
O livro “A Imitação de Cristo” diz, no cap. 3 do livro 2:
“Quem não está em paz, converte em mal até o bem. O homem bom e pacífico, porém, faz com que tudo se converta em bem. Nas irritações dizemos muitas coisas que não diríamos na calma, que não deveríamos dizer, e atendemos às obrigações alheias e nos descuidamos das nossas (...) Suportemos os outros, para sermos suportados”.
S. Paulo nos diz em 1ª Tessalonicenses 5,14.16:
“Sejam pacientes para com todos.(...). Estejam sempre alegres”. (Ver também Tiago 5,8). Mateus 5,5: “Felizes os mansos, porque possuirão a terra”; Mateus 11,9: “Aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração”.
Quem é paciente vive em paz, conseguirá alcançar a “terra prometida”, para nós o paraíso, o final feliz da caminhada. “Devagar se vai ao longe”, se diz no italiano. Ou São Tomás de Aquino: “È melhor andar mancando no caminho certo do que correr no caminho errado”.
Uma coisa errada que às vezes fazemos é ficar olhando no relógio quando alguém quer falar conosco e não estamos dispostos a “´perder tempo” com ele. Muitas vezes não é perda de tempo, pois a pessoa está necessitada de alguma atenção. Aliás, nunca temos tempo, a não ser quando temos algum interesse na conversa. Muitas famílias não se conversam porque estão vendo TV, novelas e ai de quem falar com alguém! Espero que Jesus não fique impaciente, olhando no relógio dele, quando eu precisar falar com ele!
Diz o Eclesiástico 2,14: “ Ai de vocês que perderam a paciência! O que farão vocês quando o Senhor lhes pedir contas?”
Muitos católicos deixaram a religião e passaram para os protestantes ou para os evangélicos por causa do acolhimento que essas igrejas lhes fizeram, ao contrário de muitas igrejas católicas que não sabem acolher. Quantas pessoas não se achegam à confissão porque o padre não tem paciência com a demora e até levam uma “bronca” daquele que está ali para servir, e não para ser servido.
Os problemas e a vida daquela pessoa são muito importantes! Mesmo que aquela pessoa não conte nenhum pecado grave, o padre deveria atender e ouvir com amor, solicitude, mansidão. O padre que fizer isso vai progredir a passos largos na fé e será acolhido por Deus, além de ter a participação na comunidade aumentada. O tempo do padre é, antes de tudo, do povo, não dele mesmo. Dis Mateus 20,28:
“O Filho do Homem não veio para ser servido.Ele veio para servir e para dar a vida como resgate em favor de muitos.”
Não só os padres, mas todos nós devemos ter paciência, também, com os doentes e necessitados, fazer-lhes visitas rápidas (visitas longas cansam e enfadam o doente), suprir-lhes as necessidades. Gastar tempo com eles é gastar tempo com o próprio Jesus, e no final, não estamos gastando, mas ganhando nosso tempo.
Por fim, tenhamos cuidado com as palavras. Mateus 5,37: “Seja o vosso 'sim', sim, e o vosso 'não', não. O que passa disso vem do maligno”. Ou seja, ser sincero e verdadeiro no que falamos (comentário da Bíblia de Jerusalém). Mateus 12,36-37 fala que seremos julgados segundo nossas palavras. Em Efésios 4,29.31: “ Não saia de vossos lábios nenhuma palavra incoveniente, mas na hora oportuna a que for boa para edificação, que comunique graça aos que a ouvirem.(...) Toda amargura e exaltação e cólera, e toda palavra pesada e injuriosa, assim como toda a malícia, sejam afastadas de entre vós”
“ DEUS NOS PERMITE O SOFRIMENTO PARA NOS PURIFICAR, A FIM DE QUE POSSA NOS INFUNDIR A SUA SANTIDADE” (Hebreus 12,10).
NADA TE PERTURBE, NADA TE ESPANTE, TUDO PASSA. A PACIÊNCIA TUDO ALCANÇA. A QUEM A DEUS TEM, NADA LHE FALTA. SÓ DEUS BASTA! ( Sta Teresa de Ávila)
(17/04/15)
Costumamos usar de subterfúgios para mal entender a palavra do Senhor. Relutamos em dar explicações que nos deixem mais à vontade, sem precisar nos desinstalar de nossa vidinha tíbia e medíocre!
Já o profeta Jeremias admoestava os que pecavam, iam ao templo ofertar um animal a Deus e achar que estavam livres para retornarem ao pecado (confira Jeremias 7,1-11). Por que será que eu logo liguei isso com nossas confissões às vezes um tanto “fajutas”? Eu morro de vergonha quando tenho que confessar o mesmo pecado que da última confissão!
Um padre meu amigo sempre conta uma historinha: dois padres moravam em duas paróquias separadas por um grande rio. Uma vez por mês um deles ia até um ponto combinado e, de uma margem do rio, falava ao outro, na outra margem: “Padre Rui, eu fiz os mesmos pecados que da outra confissão!” O que estava ouvindo a confissão, após ter dado a absolvição, sem ouvir os pecados, gritava: “A sua penitência é a mesma que da outra vez”!
Quantas vezes confessamos os mesmos pecados?
Diz Lucas 14,33, depois da parábola do homem que começou a construir e não tinha como terminar, e a do rei que ia combater inimigos mas não tinha recurso suficiente para tanto: “Assim, quem não renunciar a tudo (=TUDO) o que tem, não pode ser meu discípulo”!
Pergunto:
1- Como entendemos essa frase?
2- Que mudanças ela implicaria em nossa vida, se for entendida como a lemos?
3- Segundo as duas parábolas concluídas por ela, é possível praticá-la sem a ajuda de Deus? Por que?
Quanto a mim, quero deixar bem claro que estou no mesmo “degrau da escada” que muitos de vocês: ainda não consegui levar essa frase de Jesus plenamente a sério.
Vamos rezar uns pelos outros para que um dia cheguemos a levar a sério, na prática de nossa vida, as orientações que Jesus nos dá! Sem “saídas estratégicas”!
16/11/16
Eu já comentei, em vários artigos, que os sofrimentos são muitas vezes permitidos por Deus a fim de nos purificar, para que ele possa nos transmitir a sua santidade (Hb12,10).
Quando Deus nos permite um tempo de provação, de contrariedades, de sofrimentos, ninguém vai poder nos livrar disso, nem mesmo os nossos anjos da guarda ou mesmo Maria ou algum santo.
O que precisamos pedir a essas santas pessoas é a paz interior. Isso nos será possível conseguir deles. Jesus sofreu angústias terríveis no Horto das Oliveiras e não foi libertado desse sofrimento pelo Pai. Entretanto, foi confortado pelo seu anjo da guarda (Jesus, 100% homem, 100% Deus, tinha, como todos nós, um anjo da guarda), que lhe apareceu e lhe deu forças. É isso que vamos ter, se capricharmos na oração, na meditação e no jejum de várias coisas.
Quando não podemos fazer jejum de alimentos vale fazer outros tipos de jejuns. Quanto à oração, deve ser constante e abundante.
Deus é o melhor pedagogo que existe e sabe do que precisamos para crescermos espiritualmente. Se tivermos paz interior, conseguida por meio dessas práticas que já mencionei, vamos vencer sem problemas nosso tempo de provação.
Deus nos ama e não nos abandona jamais! Precisamos ter plena confiança nele, colocarmo-nos em suas poderosas e misericordiosas mãos, não duvidando nem por um instante de sua bondade e de seu amor por nós.
Essa confiança de que ele tem o controle absoluto sobre nossas vidas, nos dará forças e amparo para oferecermos a Ele todo o nosso desconforto, todo o nosso sofrimento, sabendo que nossa barca chegará ao porto, pois Deus a está pilotando sempre!
A simplicidade só é possível se acreditarmos que Deus está presente ininterruptamente em nossa vida, e por isso não corremos feito doidos atrás do dinheiro, como diz Hebreus 13,5-6:
“Que o amor ao dinheiro não inspire a vossa conduta. Contentai-vos com o que tendes, porque ele próprio disse: 'Eu nunca te deixarei, jamais te abandonarei'. De modo que podemos dizer com ousadia; 'O Sr. é meu auxilio, jamais temerei; que poderá fazer-me o homem?”
Se amamos o dinheiro sobre todas as coisas, nunca viveremos a simplicidade, o amor gratuito e generoso a Deus e, consequentemente, às pessoas. Sabendo que Deus nunca nos abandonará, como vimos nesses trechos acima, vamos viver uma gostosa despreocupação pelo que vai nos acontecer. Seja o que for que nos aconteça, Deus está presente e vigiará para que tudo saia bem, embora por agora pareça tudo esquisito e tormentoso. Nunca estamos sozinhos, se estivermos confiantes em nosso Criador e Salvador. É Mateus 6,19-34 que nos diz isso, culminando com os versículos 33 e 34:
“Buscai, pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis com o dia de amanhã. O dia de amanhã terá suas próprias dificuldades. A cada dia basta o seu fardo”.
Mesmo na evangelização buscaremos os meios pobres, os meios mais simples, se confiamos em Deus, como fazem os que seguem a espiritualidade do Beato Carlos de Foucauld, cujos escritos você encontra neste mesmo blog, no índice. Muita parafernália na evangelização acaba impedindo, podemos dizer assim, a ação do Espírito Santo. Quando S. Paulo Apóstolo falou no aerópago de Atenas, usou a sabedoria e depois se arrependeu disso. Dali em diante, procurou pregar mais com a inspiração e a ajuda de Deus do que com os recursos de sua ciência.
Dizia o beato Carlos de Foucauld que devemos não apenas proclamar, mas “Gritar o evangelho com a própria vida”. S. Paulo Apóstolo percebeu isso como ninguém, ao dizer que “Quando sou fraco, aí é que sou forte” (2ª Cor. 12,10). E é isso mesmo, pois se eu me acho forte, vou fazer tudo por mim mesmo, sem depender muito da ajuda de Deus; entretanto, se eu admitir minha fraqueza, vou confiar e pedir a ajuda divina, e Ele me ajudará. O salmo 126(127) é bastante esclarecedor nesse assunto, quando diz:
“Se o Senhor não construir a casa, é em vão que os construtores trabalham”. E ainda Mateus 12,30: “Quem não está comigo, está contra mim; e quem não recolhe comigo, espalha”. Por isso, a coisa mais inteligente que podemos fazer é pedir a ajuda de Deus e nunca agir confiando em nossas próprias forças!
No Antigo Testamento temos muitos exemplos disso que estou falando: quando o povo confiava na ajuda de Deus, vencia a batalha; quando confiava apenas nas próprias forças, perdia. Confira, se quiser, estas passagens:
Davi e Golias (1ªSamuel 17,50-51);
Sansão e os filisteus (Juízes 16,28-29);
A queda dos muros de Jericó (Hebreus 11,30 e Josué 6,14-20);
Gideão vence com 300 homens, depois de escolher entre 32 mil (Juizes 7,7);
Já no Novo Testamento temos a parábola do homem que teve de pensar antes de começar a casa e que não iria conseguir terminar, em Lucas 14,28-33, incluindo a parábola do rei que devia checar se conseguia vencer o inimigo com o seu exército ou não. A conclusão, magistral, está no versículo 33:
“Qualquer de vós que igualmente, portanto, não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14,33).
Renuncia a tudo o que possui. O que você entende por isso? Será que não está incluído títulos, prêmios, vantagens, privilégios, autossuficiência, recursos extraordinários, dinheiro supérfluo, vida cômoda em detrimento da pobreza dos outros, burguesia, recursos a outras forças espirituais escusas, não cristãs, e tantas outras coisas parecidas. Se não renunciarmos a isso tudo, ou seja, se não confiarmos primeiramente em Deus, em nossas ações e procedimentos, vamos trabalhar sozinhos, feito bobos.
É bem marcante a ordem dada a Lucas 9,1-6; “ Não leveis para a viagem nem bastão, nem alforje, nem pão, nem dinheiro, nem tenhais duas túnicas”. Os comentaristas dizem que isso era para que os apóstolos ficassem mais livres para agir, menos impedidos ou amarrados a coisas materiais. Hoje em dia é a mesma coisa: desimpedidos de tudo, a evangelização se torna mais eficaz, por não ser baseada em nossos meios, mas na força e na ação de Jesus Cristo. Deus nos fornece tudo o que nos for necessário.
Em Lucas 12,33-34 vemos uma realidade ainda maior: “Vendei vossos bens e dai esmola! Fazei bolsas que não fiquem velhas, um tesouro inesgotável nos céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Pois onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”.
A riqueza, a avareza, o medo do desconhecido, que nos leva a acumular bens e a procurar viver uma vida mais complexa, em que abastecemos nossos estoques materiais, sociais, afetivos, humanos, mentais, espirituais, pode ser até uma idolatria, como fala Lucas 12,13-21;
“Tomai cuidado com todo tipo de ganância, porque mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens” (v.15). E Jesus diz ao homem que queria destruir seus celeiros para construir maiores: “Louco! Ainda nesta noite pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?” (v.20).
Ainda Colossenses 3,5: “Mortificai (...) a cobiça de possuir, que é uma espécie de idolatria”. E em Efésios 5,5: “O avarento – que é como um adorador de ídolos...”. Diz- nos também Eclesiastes 1,2; 2,21-23: “Vaidade das vaidades(...) tudo é vaidade(...)!”.
Quando morremos as pessoas da família se apossam do que tínhamos ou simplesmente jogam tudo fora, se ali não encontram coisas que rendam dinheiro. Quantas coisas acumuladas durante anos, e num instante vão para o lixo. Quantos pecados de ira, irritação, maledicência, inveja, apegos, avareza, fizemos para acumular essas coisas! Quanto tempo perdido! Num instante, deixam de existir. Quantas orações, caridade, atos de fé, prática da fé, sobriedade, amor verdadeiro e gratuito, lazer justo e necessário, férias, estudos, curtição dos filhos, do(a) esposo(a), dos filhos nós deixamos de lado para amontoarmos coisas inúteis!
São João Crisóstomo, entre os anos 349-407, fala sobre o fato de que muitas vezes gastamos fortunas em embelezar os templos e deixamos o outro morrer de fome (2ª leitura do sábado da 21ª semana do tempo comum, of. das leituras). Eis uma parte do texto:
"Que proveito haveria, se a mesa de Cristo está coberta de taças de ouro e ele próprio morre de fome? Sacia primeiro o faminto e, depois, do que sobrar, adorna sua mesa. Fazes um cálice de ouro e não dás um copo de água? Que necessidade há de cobrir a mesa com véus tecidos de ouro, se não lhe concederes nem mesmo a coberta necessária? Que lucro haverá? Dize-me: se vês alguém que precisa de alimento e, deixando-o lá, vais rodear a mesa, de ouro, será que te agradecerá ou, ao contrário, se indignará? Que acontecerá se ao vê-lo coberto de andrajos e morto de frio, deixando de dar as vestes, mandas levantar colunas douradas, declarando fazê-lo em sua honra? Não se julgaria isto objeto de zombaria e extrema afronta?”
Faço aqui um pequeno silêncio para refletir sobre os imensos gastos que se fazem com construções e acabamentos luxuosos de igrejas, salões e casas paroquiais, e a miséria que se empregam para favorecer a formação de líderes comunitários instruídos e formados nas ciências necessárias para um apostolado eficaz no meio do povo, sem falar ainda do abandono em que muitas famílias se encontram. Será que essas luxuosas construções estão agradando a Deus?
Quero ainda deixar uma palavrinha sobre a parafernália de coisas que tiram nossa atenção durante o dia. O Pe. René Voillaume (morreu em 2003), disse que uma pessoa que fica horas a fio diante da TV, dificilmente terá disposição para rezar. E é isso mesmo! A tv, mais até que o rádio, nos toma muito mais tempo do que percebemos. Também provocam muitas vezes alguma superficialidade no modo de pensar e de julgar os acontecimentos e as coisas.
Posso até arriscar dizer que somos o que vemos e ouvimos. Se formos fãs assíduos desses veículos de comunicação e não temos outras fontes de informação, vamos acabar pensando, mediocremente como eles. Conheço uma pessoa tão viciada em novelas que até nos velórios que vai pede para ver a novela numa vizinha do velório. É impressionante!
Nós, devemos aprender a nos controlar diante dos meios de comunicação social e adquirirmos uma visão crítica em relação a eles. A propaganda que fazem de coisas supérfluas vai diretamente contra o que os cristãos devem pensar e desejar.
Curtir o silêncio é muito importante para nossa vida espiritual. São Francisco de Salles dizia, já no século 16: “As pessoas se entopem de barulho para não ouvirem a voz de seu coração”. Há um artigo muito bonito neste blog sobre o silêncio e o deserto, do Dom Edson Damian, de S. Gabriel da Cachoeira. Deem uma lida e irão gostar!
O silêncio e o despojamento: duas coisas muito evitadas, atualmente, por causarem insegurança e, ao mesmo tempo, uma tomada de atitude às vezes drástica diante da vida. Diz Oséias 2,16: “Vou levá-la ao deserto e aí lhe falarei ao coração (ou: vou conquistar seu coração)”. O deserto é o lugar da simplicidade conseguida no despojamento total e na solidão!
O problema é aprendermos a fazer silêncio num mundo tão conturbado como este. O silêncio não deve ser apenas dos sons, mas dos ruídos internos, como das nossas fantasias. É muito difícil vencer e saber contornar as fantasias, mas com paciência, oração e jeitinho a gente consegue substituir as fantasias indesejáveis por pensamentos bons e santos. O segredo é não tentar abafar as más fantasias, mas substituí-las por outras boas e santas.
O vazio que se faz ao nosso redor e no nosso interior, nós o preenchemos com a presença da graça de Deus! Maria é cheia de graça porque, em sua simplicidade, esvaziou-se do orgulho e de si mesma. (Lucas 1,47-48). Diz o Salmo 131(130):
“Senhor, meu coração não é ambicioso(...). Eu fiz calar e repousar meus desejos” (silêncio interno).”Como criança desmamada no colo da mãe” (desmamada porque não procura mais o peito. Está no colo da mãe sem outra intenção que a de estar ali, no aconchego do colo, e não com o interesse de mamar!)
1ª Pedro 1,16: “Sede santos porque eu sou santo (diz o Senhor)”. e no versículo 15- “Como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver”.
Passemos a nos “enxergar” melhor com o que as pessoas veem em nós, de modo muito humilde. Aceitemos nossos defeitos e combatamo-los, a fim de nos tornarmos pessoas de caráter. Essa é a base da santidade, a que Santa Catarina de Sena e outros santos chamam de “autoconhecimento”.
Para ser santo não é preciso mudar de endereço ou se internar num convento, ou coisa parecida com isso, a não ser que se perceba que se tem uma vocação para esse tipo de vida.
O próprio trabalho que se faz é um caminho de santidade, se o fizermos com amor e alegria. Entretanto, há certos tipos de trabalho quer não se alinham com a santidade: os que se baseiam-no pecados na não observância da lei de Deus. Quem quiser se santificar, deve, então, abandonar esse trabalho desonesto.
Um exemplo de disparate no caminho da santidade é de algumas pessoas que, já na quarta ou quinta união conjugal, dizem que Deus “vai me preparar uma esposa”. Ora, o próprio Jesus disse que abandonar a esposa para se unir à outra é adultério! Como é que ele vai ajudar o dito cujo a pecar? Ou essas palavras de Jesus foram inventadas?
Outra coisa que não dá certo é o que fez o Pai da Igreja Orígenes: ele seguiu à risca Mateus 5,29: “Se teu olho for ocasião de pecar, arranca-o e o joga fora”... etc. Ele castrou-se! Por isso não foi canonizado. A santidade é baseada na luta pessoal, com o auxílio divino. Foi por isso que Jesus disse: “Eu não vim trazer a paz à terra, mas a espada!” (Mateus 10, 34).
Eu cheguei à conclusão que podemos nos santificar no mesmo ambiente em que vivemos, bastando aumentar nosso tempo de oração. É a base dos “Eremitas de Jesus Misericordioso”, em que as pessoas ficam onde estão, mas se comprometem a orar pelo menos 2h 24m diariamente (que é o dízimo de 24 horas) e seguir um tipo de regra. Se você está interessado (a), veja as regras no site Vivendo Nazaré ou no blog Eremitas ...., cujos links se encontram neste site (ou blog).
MAS VEJA BEM!
Tanto viver no próprio ambiente como querer sair dali podem ser pura ilusão da pessoa. A motivação para alguém abandonar o ambiente em que vive para procurar outro ou não ir a algum outro e permanecer onde vive, pode ser uma terrível ilusão, se a pessoa estiver buscando a si própria, ou mesmo buscando “sombra e água fresca” e não Jesus Cristo e seu Reino.
Nossa motivação para sair em busca de uma vida religiosa ou de qualquer outro tipo, em outro lugar, não deve ser por enfado à vida que se leva, ou porque vivemos com pessoas chatas e uma vida pobre.
Do mesmo modo, querer viver onde se mora, quando se tem uma vocação missionária ou religiosa, pode ser simplesmente preguiça ou falta de coragem para seguir o chamado de Jesus.
Em ambos os casos devemos agir pensando em seguir Jesus e o seu Reino, e isso inclui a misericórdia e o trabalho incansável para que o irmão seja feliz.
As fugas não levam a nada, porque nós nos levamos conosco! Não há como fugirmos de nós mesmos, nem de Deus! (Salmo 138/139).
A melhor forma de santificar-se é o viver o AQUI E O AGORA. Viva bem o momento presente, que o seu futuro vai ser bom também. Se vivermos pensando no passado ou no futuro, não vamos viver o momento presente e, portanto, não vamos ter nem futuro nem passado (o passado de amanhã é o hoje que vivemos agora).
INTRODUÇÃO
Este é um tema muito difícil, pois são muitas as interpretações desse assunto na Bíblia.
Atualmente a simplicidade e a pobreza ganharam novas formas de serem vividas, diante da parafernália de veículos de comunicação, entretenimento e trabalho.
Apresento aqui reflexões pessoais sobre esse assunto, baseado na Bíblia, e cada um aplique como puder em sua própria vida. Tudo o que é radical e exagerado não é aconselhável. Um dos problemas que vejo em minha vida e em geral é que perdemos muito tempo com muitas coisas que não são tão necessárias como pensamos que sejam, e deixamos várias outras coisas, essas sim importantes, de lado.
A correria da vida atual se une às dispersões de tempo com essas coisas desnecessárias de que falei, e acabamos não tendo tempo para a oração, para a família, para um pouco de lazer mais saudável etc.
Dificilmente alguém consegue viver uma pobreza radical hoje em dia. O próprio Cristo, ao falar aos setenta e dois discípulos que fossem pregar o evangelho despojados de tudo, disse-lhes que aceitassem o que lhe oferecessem como alimento, e entrassem na primeira casa que lhes desse hospedagem. Eis aí a simplicidade: eles não deviam ficar escolhendo a casa que achassem mais bonita, mais limpinha; entretanto, podia acontecer que a primeira casa que os acolhesse fosse uma casa de pessoa abastada...
Espero que as meditações aqui apresentadas ajudem você a revisar a própria vida, mas sem nenhum exagero: simplicidade, para encontrar Deus (Sabedoria 1, 1-5), pobreza para acolher o irmão.
O livro “ A Imitação de Cristo”, do século 13, diz no capítulo 18 do livro 4 : “Ó bem-aventurada simplicidade, pela qual deixamos de lado as vãs discussões para andarmos no caminho plano e firme dos mandamentos de Deus!” . . .
Antes dele, o livro da Sabedoria, capítulo 1, versículos de 1 a 5, já flava que os simples conseguem obter a revelação da pessoa de Deus. Ele se revela aos simples e aos que não o põem à prova.
Simplicidade significa, portanto, antes de tudo, confiar em Deus plenamente, deixando em segundo, terceiro ou mesmo último lugar aquilo que nos dá prepotência sobre os outros, ou uma situação financeira privilegiada, abandonando completamente tudo o que nos pode separar de Deus, tudo o que for supérfluo e secundário . As coisas que não puderem ser renunciadas, não se apegar a elas, porque um dia nos “deixarão na mão”, como o povo fala. (Você pode encontrar o livro " A Imitação de Cristo" neste site: https://sites.google.com/site/vivendonazare/diversos/livro-a-imita%C3%A7%C3%A3o-de-cristo
Quando uma pessoa perde a liberdade de uma forma ou de outra (pela prisão, por exemplo, ou pela doença), tudo, tudo mesmo, o que norteava sua vida muda de lugar em sua escala de valores. Coisas que ocupavam o primeiro lugar de sua atenção passam a lugares mais últimos e vice-versa.
Mesmo na prisão ou num leito de hospital vemos como as coisas são relativas. Se a pessoa mora num lugar escuro e insalubre, sem higiene, e muda-se para outro um pouco melhor, parece que entrou no paraíso! O doente, ao sair do hospital para sua casa, acha que ganhou na loteria.
Tudo é relativo e secundário se colocamos como nossa meta principal o Reino de Deus. Dizia São Tomás de Aquino: “É melhor andarmos mancando (claudicando) no caminho certo do que correr no caminho errado, pois só chegaremos ao paraíso se estivermos no caminho certo, estejamos correndo ou mancando”.
Nos sofrimentos e nas dificuldades, nas coisas que tiram a nossa liberdade, como a pobreza extrema, nós nos encontramos com a realidade da vida, nua e crua. As ilusões e as mentiras se desfazem como fumaça. Uma das consequências é que passamos a sentir um tipo de ogeriza por tudo aquilo que não agrada a Deus. Entretanto, antes de “cairmos na real”, ou seja, de percebermos que a vida é curta e é também cheia de surpresas desagradáveis que se alternam com as agradáveis, entramos em crise, nos desesperamos, nos desiludimos, e aí nos restam poucas opções.
A opção que mais nos leva a uma santidade de vida e à felicidade é aceitar o fato de que somos pecadores e considerar sinceramente os próprios pecados, atuais ou passados, incluindo aí tudo o que fizemos de errado ou todo o bem que deixamos de fazer. Em seguida, começarmos uma vida nova, de simplicidade, de confiança ilimitada em Deus, uma vida real, de “pés no chão”, de misericórdia, humildade, confiança, de muito amor, de vigilância e oração.
Quando estamos livres e com saúde, adquirimos necessidades supérfluas, necessitamos de uma montanha de coisas para viver. Quando ficamos doentes ou sem liberdade, percebemos que não precisamos de nada daquilo. Passamos a viver com bem pouca coisa.
Quantas coisas inúteis e/ou supérfluas vamos agregando ao fardo que levamos às costas! É um fardo pesado, constrangedor, deprimente, cansativo, que nos leva a um enfado, a um descontentamento e a uma aversão ao ritmo que estamos dando a nós mesmos.
O ser humano só se sacia em Deus e em ninguém mais! O milionário nunca se fartará de dinheiro! O glutão nunca se fartará de comida! O irritadiço nunca se acalmará! Os vícios, o uso doentio das coisas supérfluas, nos levam a uma tristeza conosco mesmos, a um desânimo de viver que muitas vezes conduzem ao suicídio. A paz só vem de Jesus. Só ele pode nos libertar de nós mesmos, de nosso fardo pesado. É Jesus quem nos diz:
“Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.(...)Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas, porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. (Mateus 11,25.28-30).
A simplicidade nos leva a ser pobres em espírito e puros de coração (Mateus 5,1-8). Quando entramos em crise ao nos lembrarmos de quantas coisas no passado deixamos de fazer pelos outros, principalmente pelos nossos pais e pessoas mais achegadas, pelas vezes que não demos testemunho de nossa fé, devemos pedir perdão e gravar em nosso coração como disse S. Paulo:
“Deus é poderoso para realizar por nós, em tudo, muito além, infinitamente além de tudo o que pedimos ou pensamos”. (Efésios 3,20).
Essa convicção vai nos tirar da depressão, do estresse, vai nos dar alívio, se nos colocarmos nos braços do Pai, que, poderoso, poderá nos purificar e conduzir a nossa vida por um caminho de confiança e de esperança.
Se Deus é assim tão poderoso, ele pode também ser todo misericordioso, como diz Jeremias 31,3:
“Eu te amei com um amor eterno; por isso guardo por ti tanta ternura!”
Por isso tenhamos certeza de que ele nunca nos abandonará, se deixarmos que ele tome conta de nossa vida, como diz Isaías 42,16;
“Eu nunca hei de abandoná-los”
E em Isaías 49,15:
“Mesmo que a mãe se esqueça do filho que gerou, ou deixe de amá-lo, eu jamais me esquecerei de ti!”.
Ou ainda em Isaías 66,13:
“Qual mãe que acaricia os filhos, assim também eu vou dar-vos o meu carinho”.
Se estivermos dispostos a deixar os pecados e nos aproximarmos de Deus, ele nos perdoará nossos pecados, conforme lemos em Miquéias 7,19:
“Ele vai nos perdoar de novo! Vai calcar aos pés as nossas faltas e jogará no fundo do mar todos os nossos pecados”.
Se formos inteligentes vamos perceber que a melhor saída, a melhor solução é confiarmos em Deus permanentemente e totalmente! Sta. Teresinha já dizia isso, em palavras parecidas com estas:
“A lebre, ao ser perseguida pelos cães, refugia-se, assustada, nos braços do caçador”.
Eu acho essa frase magnífica! Na crise de desânimo, de enfado, de repugnância por tudo, e às vezes até por nós mesmos, precisamos e podemos, para nos livrar de um Deus-Juiz, nos refugiarmos e pedirmos ajuda no Deus Salvador e misericordioso”. Vendo que não há outra saída, ou seja, que não dá para nos livrar do perigo, refugiemo-nos nas mãos do próprio Juiz enquanto estamos vivos e nesta terra! Enquanto estivermos por aqui, ele não é juiz: ele é salvador. Um modo bem prático de fazer isso é colocar diante dele todo o nosso passado, mudando a direção de nossa história para uma meta mais santa, ou seja, em direção ao paraíso, e obteremos novamente a paz para a nossa vida
A sinceridade é a base de nosso relacionamento com Deus e com todos. Diz o salmo 119/118,1: “Felizes os íntegros em seu caminho, os que andam conforme a lei do Senhor”. São ridículas aquelas pessoas que elogiam a tudo e a todos, mas sempre estão descontentes com tudo e com todos.
Por outro lado, o elogio sempre faz bem quando é merecido. A crítica só deve ser feita se a pessoa em questão for sua subordinada ou se ela lhe pedir. As pessoas se ofendem muito quando alguém lhes chama a atenção.
Entretanto, se eu for me confessar com algum padre, este deverá ser muito sincero para comigo, mostrar-me a verdade a meu respeito, sem rodeios. Muitos estragos têm sido feitos em pessoas, por não se lhes terem dito a verdade a respeito de sua vida de pecado.
Para ser sincero com os outros, preciso ser sincero comigo mesmo, aceitando-me como sou, assumindo-me como sou, conhecendo e aceitando meus próprios limites e defeitos, mesmo que isso doa, ter consciência plena e humilde dos próprios pecados e pedir perdão deles a Deus, confessando-se pelo menos algumas vezes por ano. Isso nos leva à salvação e a uma alegria infinda, a uma paz deliciosa, como diz 1ª João 1,8-10:
“Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a Verdade não está em nós. Se reconhecermos os nossos pecados, Deus, que é fiel e justo, perdoará os nossos pecados e nos purificará de toda a injustiça. Se dizemos que nunca pecamos, estaremos afirmando que Deus é mentiroso, e sua palavra não estará em nós.
Há muitas pessoas que são do “time” “Me engana que eu gosto”, ou seja, que não aceitam nenhuma crítica às suas pessoas, por mais construtivas sejam. A hipocrisia é bem comum na sociedade atual. Muitas pessoas mentem, inventam, “enrolam” os outros, exageram, maquiam a verdade, tentam parecer o que nunca foram ou mesmo o que nunca serão, etc.
Nossa hipocrisia começa logo de manhã quando cumprimentamos uma pessoa. Você está realmente querendo saber como ela está? Se a pessoa tiver a infelicidade de responder e tentar lhe mostrar o que não anda bem nela, você logo a descarta e lhe promete que num outro dia a escuta, e que está com pressa. Sempre estamos com pressa.
No escritório, mais falsidade, quando temos que concordar com os chefes e dizer que está tudo bem, quando na verdade muitas vezes discordamos do que estamos fazendo de modo obrigatório.
Nas prisões, a coisa piora: tanto os presos têm que concordar com os funcionários, como eles também têm que mostrar que é aquilo mesmo que querem, quando, na verdade, estão apenas cumprindo ordens. Os funcionários de uma prisão são bem diferentes quando estão em suas vidas normais. No trabalho, precisam mostrar uma cara de brabo, que muitas vezes não têm na vida normal.
Quantas vezes temos que rir de piadas sem graça, só para contentarmos quem as contou! E concordar com tantas coisas às vezes contra nossa vontade!
Os pastores e os padres, coitados, quanta ginástica precisam fazer, nas homilias, para não ofenderem estes ou aqueles! Qualquer assunto de que falam sempre provoca críticas, nunca contentam a todos (e nem devem, se quiserem ser verdadeiros!). Quando o assunto é pecado, porém, os pastores e os padres devem sempre ser sinceros, mesmo que percam a amizade daquela pessoa. Nunca enganar a ninguém nesse assunto. São João Batista morreu assassinado por ter denunciado o adultério de Herodes!
Jesus vivia pregando contra os fariseus e autoridades do tempo, por causa do fingimento e da hipocrisia, como em
Mateus 23,27-28: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Sois semelhantes a sepulcros caiados...”
Lucas 12, 1: “Acautelai-vos do fermento (=hipocrisia) dos fariseus!”
Tiago 3,17: “A sabedoria que vem do alto(...) é isenta de parcialidade e hipocrisia.”
Mateus 6,2.5.16 fala que é hipocrisia dar esmolas para sermos vistos. Mateus 23,13 diz que os escribas bloqueiam o Reino dos Céus aos homens, e eles mesmos não vão conseguir entrar.
Outro tipo de hipocrisia é quando um assassino pega 13 anos de prisão e alguém que não matou ninguém pega 20 anos; ou aquele rapaz que foi preso por ter roubado uma barra de chocolate ao passo que certos políticos roubam milhões e nunca vão presos. Também o fato da sociedade, que aplica uma pena tão alta para atentado ao pudor, é a que mais faz propaganda desse tipo de coisas. Ou os pais, que só começam a arrancar os próprios cabelos, quando a filha fica grávida. Se não tivesse ficado grávida, poderia continuar em pecado quanto quisesse. Isso não é uma horrível hipocrisia?
Agora, o pior tipo de hipocrisia é quando mentimos para nós mesmos e para Deus! SOMOS O QUE SOMOS DIANTE DE DEUS! Somos levados a pensar que somos melhores do que os outros, que levamos vantagens sobre outras pessoas, que temos supremacia ou sei lá mais o quê... Acabamos fingindo para nós mesmos, para os outros e para Deus. Se eu não me aceitar como eu sou, nunca vou melhorar nem vencer-me. E não podemos enganar a Deus. Isso é impossível!
Dizia D. Valfredo Tepe: “Deus nos aceita como somos para transformar-nos naquilo que Ele quer que sejamos”.