Divorciados em nova união: Uma via sugerida por dois papas
1 – Partindo dos Lineamenta
No trecho do questionário relativo à terceira parte da Relatio Synodi – dedicada às perspectivas pastorais (cf. 23-46) – se afirma que o Sínodo extraordinário iniciou uma “viragem pastoral”, e que esta deve ser levada adiante em seus aprofundamentos e implementação, evitando-se “começar de zero” no caminho já iniciado pelo processo sinodal.
E, antes das perguntas relativas (cf. 35-39) ao tópico intitulado Cuidar das famílias feridas (separados, divorciados não recasados, divorciados recasados, família monoparentais), se insiste, citando a Evangelii gaudium, na necessidade de incrementar a arte do acompanhamento, da proximidade com as diversas situações.
Quanto às motivações que conduzem hoje a se refletir sobre essa viragem pastoral, sobretudo no que concerne a situação dos divorciados recasados, fazem-se necessárias algumas observações:
a – O acompanhamento pessoal como critério de mudança
A perspectiva do acompanhamento das pessoas, ou do desenvolvimento de uma pastoral de proximidade, deve nortear qualquer proposta que venha a sugerir mudanças no modus operandi da aplicação do direito canônico, da doutrina da Igreja sobre os divorciados recasados e, consequentemente, da ação pastoral quotidiana, sob pena de se pretender dar soluções que vão no sentido contrário do que se intenta, isto é, uma maior acolhida mais humana e menos “burocrática”, segundo a misericórdia e a verdade em relação à vida e às situações concretas das pessoas de nosso tempo. O Papa Francisco, no dia 07 de dezembro de 2014, ou seja, após o Sínodo, afirmou ao Jornal Lanación: “E no caso dos divorciados recasados, colocamo-nos: que podemos fazer para eles, que porta se lhes pode abrir? E foi uma inquietação pastoral: então, vamos lhes dar a comunhão? Não é uma solução se lhes damos a comunhão. Só isso não é a solução: a solução é a integração.”
b – A viragem pastoral exige uma conversão pastoral com criativa caridade
Para fins de ação pastoral mais consequente ou cada vez mais consequente em relação à vida dos divorciados recasados no seio da Igreja hoje, se evoca a necessidade de se assumir a realidade do aumento do número de divorciados no mundo. A ênfase dada ao aumento do número dos divorciados recasados no mundo tem, no entanto, obnubilado o aumento, mais significativo em números na atualidade das uniões consensuais (no Brasil; em torno a 36% da população de casais; unidos somente no civil: 17%; casados no civil e no religioso: 42%) e das famílias monoparentais (7 milhões de lares no universo de 57 milhões de lares no país. Esta quantidade de lares é igual, se não for maior, ao número de lares de casais em segunda união segundo os dados do IBGE). Segundo esses dados, não só no Brasil, mas em outras partes do mundo, se começa a falar de declínio do número dos divorciados recasados, algo que se constatará com muito mais acuidade daqui a dez anos. Portanto, dar ênfase à situação dos divorciados recasados é realismo até certo ponto!
Embora essa comparação em números não exima a Igreja de se debruçar com mais caridade sobre a situação dos casais em nova união, ela revela um certo desequilíbrio, para não dizer grande disparidade de atitude, na proposta de alguns membros do clero, teólogos, pastoralistas e leigos que se preocupam com uma mudança na Igreja, a fim de que esta seja mais misericordiosa, pois negligenciam não só os divorciados não recasados, mas também as uniões consensuais e as famílias monoparentais, para os quais pouco ou nada é feito hoje na ação pastoral, enquanto – sobretudo no caso do Brasil – temos muitas atividades com casais em nova união.
A ousadia que se pretende na ação pastoral da Igreja para com os casais em segunda união deverá – ou deveria - também motivar a ação pastoral da Igreja em relação a essas e outras situações, como o sugere os Lineamenta. Ademais, essa ousadia e criatividade pastorais já poderiam estar atuantes de vários modos, ainda que sem o acesso aos sacramentos da Eucaristia e Penitência, sem que se fira a mensagem de indissolubilidade do matrimônio. Por exemplo, o Instrumentum laboris recordava a prática da bênção pessoal para quem não pode receber a eucaristia (cf. 104). Essa é realizada, em alguns países, incluindo algumas paróquias no Brasil, com a acolhida dos casais de segunda união na continuidade da fila da comunhão para receberem, individualmente, uma bênção do ministro ordenado. Por experiência, tal gesto faz uma enorme diferença! O Papa emérito Bento XVI fez menção positiva a essa prática em um recente texto divulgado pelos meios de comunicação (cf. http://chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1350933) e publicado em um livro.
3 – Resolver problemas mais do que preveni-los?
Constata-se muita expectativa em mudanças de “regras” doutrinais, ou disciplinares, a partir de Roma, para depois se tomar iniciativas de acolhida. A falta de uma criativa caridade pastoral na prática do cotidiano de nossas Igrejas não mudará com a mudança de “regras”, pois se o que se busca é trazer o sentimento subjetivo de acolhida dos casais em segunda união pelo fato de terem acesso, por exemplo, à Eucaristia, um verdadeiro acompanhamento de sua situação, que também inclui, em grande parte dos casos, a dor pela ruptura do primeiro casamento, requer tempo e dedicação pastoral bastante ausente em alguns países. Essa atitude inclui também este aspecto subjetivo da vida das pessoas, colocado mais em evidência na atualidade, mas que deve, ao mesmo tempo, ser orientado para não se cair em subjetivismos individualistas.
Há uma forte tendência na atualidade, apontada e criticada por grandes filósofos, ao pragmatismo eficientista, da razão prática que dá respostas a tudo através da exaltação da técnica. Pergunta-se se a Igreja também não corra o risco de tentar equacionar rapidamente, com algumas decisões, certas situações difíceis da vida de seus membros. 3
Não se aceita hoje em dia estar diante de impasses não resolvíveis ou de sofrimentos que não devam ser extirpados. A busca da realização do prazer e da felicidade a todo custo indiretamente, ou diretamente, também pode ter sérias influências no pensamento da ação pastoral da Igreja. Não que a Igreja convide seus fieis a uma cega resignação, pois concorda, por exemplo, com a separação de corpos quando a vida conjugal se torna insuportável para um dos cônjuges por razões graves. Mas não se poderia admitir que, no caso de um casamento validamente celebrado e rompido, ao qual se suceda uma nova união por parte de um dos cônjuges ou dos dois, que essa nova união traga a marca de uma ruptura, mesmo que essa nova união seja acolhida no seio da Igreja? Será que não se tende a dar a todo custo respostas aos problemas das pessoas na atualidade, como o fazem hoje vários âmbitos da medicina e do direito?
Afirma-se, por alguns teólogos, que a Igreja seria mais severa para com quem está em uma nova união do que para com aqueles que vão se casar. No entanto, essa afirmação não é seguida de uma proposta concreta em relação não só à preparação para o matrimônio mas também ao acompanhamento da vida conjugal – como nos propõe os Lineamenta - de tal maneira que haja maior prevenção das situações de conflito e de ruptura da vida conjugal. Esse ainda é um campo vasto a ser explorado. Durante muito tempo, e ainda é o caso em muitos lugares, devido ao aumento de uma liberdade mais subjetiva e individualista e à crescente privatização da família na atualidade, como o apontam vários sociólogos, se temeu e se teme orientar os casais em sua vida matrimonial, pois isso relevaria da vida “individual” e “privada” de muitos. Além disso, há um enorme falta de preparo do clero e dos agentes de pastoral familiar. No entanto, tanto a Igreja como a sociedade sabem muito bem, através de pesquisas (cf. Caritas na Itália), o quanto um divórcio não ajuda a família, a própria Igreja e a sociedade. Mas, mesmo assim, as medidas sociais e pastorais propostas para tentar evitar a separação ou o divórcio são muito tímidas ou inexistentes.
Se com razão alguns teólogos apontam para uma visão jurisdicista (contratual) do matrimônio, a culpa não é só – se é que há culpa – do modo como o Código de Direito Canônico define o matrimônio, mas também, e sobretudo, de como essa realidade se viu pouco a pouco envelopada por um aspecto puramente formal, sem maiores aprofundamentos de uma teologia da família, de carácter personalista, como, de resto, Vaticano II já delineara e foi aprofundado por João Paulo II e outros na mesma esteira. Grosso modo, do lado do estudo do sacramento, limitou-se aos seus aspectos canônico-jurídicos, sem uma disciplina específica de uma teologia mais aprofundada do sacramento e da própria vocação conjugal e familiar.
Nas últimas décadas, no âmbito da teologia moral, por um lado, parece ter havido um estacionamento, repetindo superficialmente os princípios da avaliação e das exigências dos atos lícitos e ilícitos, sem muita confrontação com a realidade das pessoas; por outro lado, numa perspectiva mais liberal, tentou-se justificar uma abertura da Igreja aos métodos contraceptivos (um longo debate com Humanae vitae) e a uma eventual mudança de perspectiva quanto à posição da doutrina da Igreja relativa à indissolubilidade do matrimônio, numa tentativa de acompanhar as mudanças sociais, confundido atitude profética com conformismo. Tanto o lago mais rigorista quanto o mais laxista parecem não ter lançando mão de algo que voltou com força neste Sínodo: a lei da gradualidade, ou o caminho gradual feito por cada um de nós no conhecimento e na vivência das exigências morais e no aprofundamento do mistério da vida cristã. A isso se deu também o nome de pedagogia divina, ou seja, o modo como Deus nos guia, sem forçar ninguém, mas sempre propondo o ideal de santidade.
4 – Para onde o Sínodo nos orientará?
Não se pretende aqui, com essas reflexões, afastar o debate teológico-doutrinal sobre modulações na compreensão e na aplicação canônica e pastoral de posturas relativas aos casais em nova união civil. Mas parece que o debate em torno à questão do acesso aos sacramentos da Eucaristia e da Penitência devem passar por ulteriores aprofundamentos; como, aliás, sinalizaram alguns dos círculos menores de trabalho durante o último Sínodo. Postura que não significaria retornar à estaca zero, mas dar continuidade ao debate que tem sérias implicações e assume várias possíveis soluções. Isso não significa que não se possa avançar mais no que tange a participação ativa e, por consequente, a acolhida dos casais em nova união no seio da Igreja. Muito se poderia fazer, como já acontece no Brasil, quanto aos encontros de casais e famílias nesta situação tanto com outros casais e famílias quanto entre eles (lembre-se aqui o precioso trabalho do grupo Bom Pastor no Brasil, com grande capilaridade nacional, e de outros do mesmo tipo presentes em nossas dioceses. É interessante notar, que os casais que participam desses grupos não se levantaram para pedir ao Sínodo o acesso à comunhão eucarística).
A respeito da pastoral sacramental dos casais em segunda união, o n. 38 do questionário dos Lineamenta diz o seguinte: “A pastoral sacramental a favor dos divorciados recasados precisa de um ulterior aprofundamento, avaliando também a prática ortodoxa e tendo presente „a distinção entre situação objetiva de pecado e circunstâncias atenuantes‟ (n. 52). Quais são as perspectivas em que agir? Quais os passos possíveis? Quais sugestões para resolver formas de impedimentos indevidas ou desnecessárias?”
A primeira observação que deve ser feita é que a pergunta começa por uma afirmação: é necessário um ulterior aprofundamento sobre a pastoral sacramental. A afirmação sugere que esse ulterior aprofundamento será realizado durante o próximo Sínodo ou para após o Sínodo? É de se notar que a conexão entre a afirmação e as perguntas propriamente ditas nesta pergunta não deixe ao leitor uma límpida compreensão do que se espera como resposta. No entanto, tentando uma interpretação da mesma, parece que se solicitam respostas que ajudem a avançar no sentido deste aprofundamento. O n. 52 do texto, ao evocar uma eventual possibilidade de acesso à comunhão por parte dos divorciados recasados também fala de uma questão que “ainda deve ser aprofundada”. Esse aprofundamento ulterior se justificaria mais ainda pelo fato de que não se conhece com precisão essa “prática ortodoxa”, mencionada na pergunta n. 38, que se liga – o leitor deve deduzir... – à menção de “um caminho penitencial” no parágrafo n. 52. A pergunta n. 38 ainda retoma a afirmação do parágrafo n. 52 sobre a questão da imputabilidade do ato, com a qual – a experiência de conferências e encontros o demonstra – até o clero tem dificuldades, quanto mais o fiel mais simples.
Tudo isso faz com que a pergunta, no final das contas, sugira questões muito técnicas, com o risco de se esquecer que o parágrafo n. 52 do texto aponta duas posturas em relação à possibilidade de acesso à comunhão por parte dos divorciados recasados. E para que o debate seja imparcial, as duas posturas devem ser aprofundadas.
Não é intenção aqui fazer um aprofundamento pormenorizado sobre as duas posturas. Contudo, é importante salientar, a respeito da postura que sugere manter a doutrinal atual da impossibilidade de acesso à comunhão, o quanto essa posição tem sido tratada de modo simplório e sob olhares preconceituosos que lhe aplicam taxativamente atributos pejorativos, tornando sua sustentação quase arbitrária, como se fosse destituída de fundamentação teológica. O que denota uma atitude temerária. Por outro lado, o Sínodo também deveria suscitar reflexões que demonstrem a atualidade desta postura com uma linguagem convincente que dê conta de sua pertinência e sua manutenção. Isso tudo é também contribuição do Sínodo e já aparecem publicações neste sentido.
No que concerne a postura que é favorável ao acesso à comunhão, a proposta é avançada em circunstâncias bem precisas1 e o acesso não é oferecido de forma generalizada (como o próprio W. Kasper o sugere em seu livro. Condições que emanaram de sua reflexão, retomando, em grande parte, as ideias de uma artigo de J. Ratzinger de 1972, cuja conclusão, no entanto, o Papa emérito modicou no texto recentemente publicado e mencionado acima), mas somente após um caminho penitencial, como apontado nos Linemanta para a reflexão da Igreja. Sem declinar o confronto com a proposta, percebe-se o quanto ela exige ulteriores aprofundamentos. Não é evidente evocar uma “prática ortodoxa” como inspiração, pois, como o demonstra E. Schockenhoff, teólogo favorável ao acesso à comunhão pelos recasados, a prática não é uniforme e levanta alguns questionamentos sobre a forma de penitência oferecida (cf. La Chiesa e i divorziati risposati. Questioni aperte. Brescia: Queriniana, 2014).
1 Um divorciado em segunda união poderia receber o sacramento da Penitência e da Eucaristia: 1) se se arrepende do seu fracasso no primeiro matrimônio; 2) se esclareceu as obrigações do primeiro matrimônio, se definitivamente excluiu que volte atrás; 3) se não pode abandonar sem outras culpas os compromissos assumidos com o novo matrimônio civil; 4) se, porém, se esforça para viver no melhor das suas possibilidades o segundo matrimônio a partir da fé e para educar os próprios filhos na fé; 5) se tem o desejo dos sacramentos como fonte de força na sua situação. Cf. W. Kasper. Il vangelo della famiglia, Brescia: Queriniana, p. 50.
Em relação às condições sugeridas por W. Kasper para se conceder esse acesso à comunhão (cf. Il Vangelo della famiglia. Brescia: Queriniana, 2014), talvez seja prático e fácil aplicá-lo em uma Igreja sem muita expressão pastoral, como no caso de várias Igrejas na Europa e nos EUA. Mas o acompanhamento pessoal desses casos e o discernimento a ser feito sobre cada situação seria aplicável e evidente numa Igreja em que se percebe que a “arte do acompanhamento” não vem sendo trabalhada? Isso não requereria um tato e uma maturidade que, caso faltem, poderia causar mais danos do que ajudar? Isso não suscitaria o sentimento de exclusão – o que se pretende eliminar – em alguns não “aprovados” de imediato à comunhão? Não resta dúvida de que, se a Igreja assume esta postura, deverá realizar um esforço hercúleo na estruturação de condições mínimas de acompanhamento pessoal, o que deveria também ser o caso da preparação para o matrimônio, para o aconselhamento e o atendimento a situações de conflitos conjugais, a fim de se evitar tratar somente o problema sem antes buscar preveni-lo.
4.a – Equidade pastoral: misericórdia e verdade se encontram.
Outra realidade atual na vida de nossas comunidades – empiricamente verificável, sobretudo em nossas comunidades menores - deve ser cada vez mais levada em consideração: imediatamente após uma separação ou divórcio, seguidos de grave traição, a parte culpada não hesita em frequentar a igreja sozinha ou, com frequência, já com outra pessoa. Isso tem causado o abandono da outra parte da Igreja, por se sentir humilhada na presença daquele ou daquela que a traiu gravemente e que, além disso, já se encontra em relacionamento com outra pessoa. Isso revela, por um lado, que o sentimento de exclusão, evocado por muitos em defesa de maior abertura para com os recasados, está talvez mudando em relação à percepção da existência do mal cometido. Por outro lado, pode-se dizer que é um bom sinal que não tenham vergonha de frequentar a vida da comunidade, e tem-se aí a oportunidade de uma evangelização em vista também do arrependimento.
No caso em que o chamado “caminho penitencial” lhes fosse aplicado – tendo ainda que se definir em que consistiria esse caminho penitencial – e que o novo casal continuasse na comunidade, pode-se dizer que se acolheu um casal divorciado recasado, o que é positivo. No entanto, quais não são os sentimentos e a situação daquele ou daquela que foi abandonado e que se afastou da Igreja, sem, no entanto, ter contraído nova união por crer na validade do seu primeiro casamento?...
Reflete-se muito sobre os casais recasados que voltam à caminhada, incluindo os que foram abandonados e contraíram uma nova união, mas reflete-se pouco ou nada sobre as pessoas que foram abandonadas e que, por não aceitarem o abandono e acreditarem na validade de seu casamento (e do amor que o fundou), não aceitam a nova união do cônjuge que se foi. O agravante hoje é que o cônjuge que se foi e se casou de novo na verdade não se foi e continua ao lado com a nova família, causando assim o afastamento da primeira mulher ou do primeiro marido da vida da comunidade. Ainda que a parte abandonada venha a perdoar a traição da outra parte, como se espera de um bom cristão, a comunidade local pode se deparar com um grande dilema nas situações dos recasados: estar acolhendo um e afastando o outro. As soluções propostas, quaisquer que sejam elas, não evitaram o confronto com tal dilema. Um homem ou uma mulher que amou profundamente e exclusivamente alguém, quando se vê traído(a) e abandonado(a) de modo injusto passa por um processo de perda equiparado quase à morte de um ente querido, que não é fácil enfrentar.
Um dos grandes argumentos avançados em favor da abertura do acesso à comunhão aos divorciados recasados diz que não há pecado que não possa ser perdoado. Sem pretensões de aqui refletir de modo apropriado sobre tal argumento, caberia repensar a teologia do pecado em relação com a teologia do sacramento do matrimônio, levando em consideração certas consequências temporais do mal cometido. Com a devida reserva exigida pela categoria da analogia, não se poderia dizer que quando a doutrina sobre o pecado atual diz que um assassino é perdoado, mas mesmo assim deve pagar sua pena em presídio, ou que o perdão a um grande corrupto implicaria a devolução do que foi usurpado, isso não poderia ser mutatis mutandis pensado em relação à “pena” do afastamento da comunhão pelos divorciados recasados? Todavia, alguns recordam que houve quem teria dito que seria então melhor matar sua ex-mulher, pois assim teria perdão, já que enquanto ela estiver viva, ele continuaria num pecado que não tem perdão. Mas, ao cumprir pena por seu assassinato, este homem não perderia para sempre ou durante grande parte da sua vida a comunhão permanente de sua nova mulher? Ainda que possa retornar à comunhão eucarística pelo perdão, sofrerá uma consequência temporal do seu pecado grave, não tendo a comunhão permanente com a mulher com quem se casou novamente e sua comunhão com a comunidade eclesial fica também bastante fragilizada, ainda que no presídio se possa criar esses laços de vida cristã.
De fato, poder-se-ia aprofundar a questão do perdão para os casais recasados com muito tempo de vida, onde a primeira união já não existe há muito tempo, e em relação à qual não houve possibilidade de declaração de nulidade. No entanto, esse perdão, sobretudo para um primeiro casamento que se considerou válido e produziu frutos, incluindo a geração de filhos, apagaria todas as consequências temporais da separação ou do divórcio? Seria exagerado pensar que a ruptura do sacramento do matrimônio, ruptura de uma comunhão íntima, mantenha-se “relembrada” pelo não acesso à Eucaristia, ou seja, à comunhão por excelência com Jesus Cristo, sobretudo que, para uma das partes, essa separação pode ainda significar ausência de comunhão com a pessoa amada, que era tudo para ela? A analogia entre a comunhão perfeita de Cristo e a Igreja e o homem e o mulher no sacramento do matrimônio não nos autorizaria a pensar neste sentido?
Mais uma vez se pode dizer que, ainda que se espere um perdão dado pelo homem ou a mulher injustamente abandonados num casamento que tenha durado alguns anos, e em relação ao qual não há como declarar nulidade, imagina-se que seria de difícil aceitação para a parte abandonada e filhos reconhecer que a Igreja acolhe e reconhece a nova comunhão de vida daquele que se foi e que através da plena comunhão na Eucaristia, enquanto à parte abandonado, ainda que possa ter acesso à Eucaristia, se vê privada da comunhão de vida estabelecida pelo sacramento do matrimônio. Seria isso uma atitude equânime pastoralmente falando? Obviamente que nem todos estão nesta situação, mas, pelo fato de haver um número considerável que aí se encontra, a proposta do acesso à comunhão eucarística aos casais em nova união deve ser muito bem pesada.
Neste contexto, caberia também aprofundar o tema da comunhão espiritual, como apontado no n. 53, e responder à objeção que diz que quem recebe Cristo espiritualmente poderia também recebê-lo sacramentalmente (aprofundamento precioso sobre o tema é dado por J. J. Pérez-Soba; S. Kampowski. Il vangelo della famiglia nel dibattito sinodale: oltre la proposta del Cardinal Kasper. Siena: Cantagalli, 2014, p. 138s.). A distinção sobre os graus e modos de presença de Cristo na Igreja (na Palavra, na assembleia, na Eucaristia, no celebrante e em todo batizado) e outras confissões cristãs (mesmo não participando da Eucaristia, encontram e vivem com o Cristo) e no mundo (nos pequeninos e sofredores, e nas pessoas de boa-vontade etc.) pode elucidar a participação diferenciada no mistério da vida de Cristo. Ademais, um recurso à teologia de Santo Tomás de Aquino sobre o sacramento da Eucaristia nos ajudaria a recordar que os efeitos salvíficos desse sacramento não estão vinculados à comunhão eucarística, mas são aplicados a todos participantes da celebração do mesmo e sobre toda a humanidade. A isso, acrescente-se a necessidade de uma maior conscientização sobre a recepção da comunhão, aparentemente banalizada em nossos tempos. Como também o Papa emérito Bento XVI afirmou no texto já citado, “Um sério exame de si, que pode até mesmo conduzir a renunciar à comunhão, nos faria [...] sentir de modo novo a grandeza do dom da eucaristia e isso representaria ao mesmo tempo uma forma de solidariedade com os divorciados recasados.” E por que não pensar que isso também seja assumido pelo celebrante da eucaristia, em relação ao qual, parece, não haver orientação a uma comunhão compulsória em cada celebração?
2 – Proposta para a próxima assembleia sinodal a respeito dos recasados
Como já afirmado acima, as questões não pretendem eliminar o debate quanto a esse tema. No entanto, parece importante, a partir das próprias perguntas da questão n. 38 do questionário, se esboçar outras possibilidades de acolhimento e comprometimento dos casais divorciados recasados no seio da Igreja. Não se trata de apontar vias “paliativas”, como o afirmaram alguns (de resto, a via do acesso à comunhão também é paliativa, pois nunca resolveria totalmente as questões humanas do divórcio) ou, muito menos, uma saída estratégica para se evitar o confronto com essas questões. Mas trata-se de evitar que a reflexão esteja somente à mercê da polaridade entre o acesso ou não à comunhão eucarística. E, para tanto, se faz aqui apelo a uma via não muito explorada durante o Sínodo – embora tenha sido proposta – e sugerida em dezembro passado pelos dois papas.
Todavia, cabe também recordar que a via da agilização e acessibilidade ao processo matrimonial, como refletida no n. 49 dos Linamenta, merece também maior atenção, por não só ter uma adesão mais equilibrada, mas porque, de fato, muitas situações (talvez a maioria) poderiam ser por ela atendidas adequadamente. Quanto a esse tema, é necessário retomar o que o Papa Bento XVI, em várias ocasiões, já afirmará a respeito da falta de fé de muitos batizados (pagãos batizados), sobre a qual se deveria aprofundar quando se trata da recepção e da validade do sacramento do matrimônio. Tal argumentação também reaparece no seu texto publicado recentemente, em que o papa emérito corrige a conclusão do seu artigo de 1972.
Voltando à via proposta recentemente pelos dois papas, a questão que a norteia é a seguinte: como podem viver quotidianamente a vida de fé cristã no seio da comunidade eclesial? Ou, para retomar parte da questão n. 38, “quais sugestões para resolver formas de impedimentos indevidas ou desnecessárias” ?
a - A orientação do magistério recente
Na Familiaris consortio, n. 84, pede-se, em primeiro lugar, que se discirnam bem as situações. E se afirma que a Igreja não pode abandonar os fiéis divorciados recasados, pois não estão separados dela. Enquanto batizados, devem participar da vida eclesial através de várias atividades, entre elas destaque-se a educação dos filhos na fé, também reafirmada pelo Catecismo (cf. n. 1651). A Exortação apostólica Sacramentum caritatis, n. 27, reforça a ideia de pertença à Igreja, e, dentre vários modos de participação na vida eclesial, evoca também a educação dos filhos.
b – Os questionamentos na práxis pastoral
O Catecismo da Igreja Católica (CIgC), n. 1650, afirma que os fiéis recasados estão “numa situação objetivamente contrária à lei de Deus. Por isso [...] ficam impedidos de exercer certas responsabilidades eclesiais.” Assim, o discernimento sobre o que o casal em nova união estável ou um deles pode ou não realizar no seio da comunidade, pode ou não assumir, tem ficado a critério do seu pastor, variando desde a autorização à comunhão à proibição de se fazer uma leitura durante a celebração eucarística. Nesse contexto, faz-se necessário citar o texto Sulla pastorale dei divorziati risposati (1998), de autoria da Congregação da Doutrina para a Fé, publicado na coleção Documenti, commenti e studi. O texto indica quais seriam essas responsabilidades vedadas a esses fiéis e procura dar as razões canônico-pastorais. Assim, não podem ser padrinhos de batismo ou crisma; assumir os “serviços litúrgicos” (Leitor e ministro da Eucaristia) e os “serviços catequéticos” (professor de religião, catequista de primeira comunhão ou crisma); ser testemunha de casamento; e fazer parte do Conselho Pastoral Diocesano ou conselhos paroquiais.2
2 Cf. p. 16-17.
Alguns questionamentos devem ser feitos a respeito do referido texto: tratar-se-ia de documento emanado da Congregação para a Doutrina da Fé ou de comentário ou estudo, já que publicado na coleção “Documenti, commenti e studi”? Se é documento, por que razão não consta da lista dos documentos disponíveis no site da Santa Sé, na parte reservada à Congregação? Por que não foi traduzido? Foi aprovado em audiência com o Santo Padre? Note-se que a Exortação apostólica Sacramentum caritatis, publicada posteriormente a esse texto, quando aborda a questão da participação dos fiéis recasados na vida da Igreja e na celebração eucarística (cf. supra), não faz referência ao texto.
Há difuso desconhecimento do referido texto, porém ainda vigora em boa parte das Igrejas particulares a proibição de que pessoas unidas em nova união estável sejam admitidas como padrinhos e madrinhas. No entanto, algumas têm feito exceções, aceitando de modo excepcional aqueles que estão “engajados na comunidade eclesial”. Por outro lado, outras pedem que seja revisto e flexibilizado a interpretação dada ao cânon 874 § 1, 3º, a respeito do encargo de padrinho ou madrinha. O mesmo se diga em relação a outras funções eclesiais, tais como serviços litúrgicos, catequéticos e à participação em Conselhos Pastorais diocesanos ou paroquiais.
No sentido de uma eventual revisão desse texto, advogam tanto o Papa Francisco como o Papa Emérito Bento XVI. Na entrevista dada pelo Papa Francisco ao Jornal La nación, acima citada, o papa questiona: “[Os recasados] Não estão excomungados, é verdade. Mas não podem ser padrinhos de batismo, não podem ler a leitura na missa, não podem dar a comunhão, não podem ensinar a catequese, não podem ao todo umas sete coisas; tenho a lista aí. Parem! Se eu conto isso pareceriam excomungados de fato! Então, abram as portas um pouco mais! Por que não podem ser padrinhos? „Não, veja, que testemunho vão dar ao afilhado.” O testemunho de um homem e uma mulher lhe dizem: „Olha, querido, eu me equivoquei, eu escorreguei neste ponto, mas creio que o Senhor me quer, e quero seguir a Deus, o pecado não me venceu, mas antes sigo adiante.‟ Haveria maior testemunho cristão do que esse? [...] Ou seja, temos que começar a mudar um pouco as coisas, as orientações valorativas.”
Por sua vez, o Papa Bento XVI, num texto publicado no final do ano passado (03/12) no site chiesa.expresso online, já mencionado acima, afirma: “No número 84 [da Familiaris consortio] está escrito: „Juntamente com o Sínodo, exorto calorosamente os pastores e a inteira comunidade dos fieis, a fim de que ajudem os divorciados procurando com solícita caridade que não se considerem separados da Igreja [...]. A Igreja ore por eles, os encorajem, demonstre-se mãe misericordiosa e assim os sustente na fé e na esperança.‟ Com isso, à pastoral se confia uma tarefa importante, que talvez não foi ainda transposta o suficiente na vida quotidiana da Igreja. Alguns detalhes são indicados na própria exortação. Nela está dito que essas pessoas, enquanto batizadas, podem participar na vida da Igreja, e que justamente devem o fazer. São elencadas as atividades cristãs que para eles são possíveis e necessárias. Todavia, talvez se necessitaria sublinhar com maior clareza o que podem fazer os pastores e os irmãos na fé para que eles possam sentir verdadeiramente o amor da Igreja. Penso que necessitaria lhes reconhecer a possibilidade de participação nas associações eclesiais e também de aceitar que sejam padrinho ou madrinha, o que no momento o direito não prevê.” As propostas que se seguem, com suas breves justificativas, vão neste sentido.
c - A função de padrinho ou de madrinha de batismo ou de crisma
Reza o cânon 874, § 1.º, item 3.º, do CIC: “Sit catholicus, confirmatus et sanctissimum Eucharistiae sacramentum iam receperit, idemque vitam ducat fidei et muneri suscipiendo congruam”. A frase ora sublinhada denota a exigência legal de que o padrinho ou a madrinha viva de modo congruente com a fé e com o múnus assumido.
Preceitua o cânon 18 do CIC: “Leges quae poena statuunt aut liberum iurium exercitium coarctant aut exceptionem a lege continent, strictae subsunt interpretationi”. Trata-se deveras de um princípio válido tanto para o direito canônico como para o direito civil. Ou seja, as leis que coarctam o exercício de direitos devem ser interpretadas em sentido estrito e não amplo. O próprio cânon 874 poderia ter arrolado os “casados em nova união” entre os que não se qualificam para o exercício da missão de padrinho ou madrinha. Mas não o fez. Decerto, o rol do cânon é taxativo e não exemplificativo; em outras palavras, não se poderiam propor requisitos além dos que constam do mencionado cânon.
O pároco, pastor próprio da comunidade, sob a orientação do bispo, auxiliado pelo bom senso da comunidade paroquial, poderia aferir, no caso concreto, se a pessoa “recasada”, ao seu modo, leva uma vida coerente com a fé e com a eventual missão de ser padrinho ou madrinha de batismo ou crisma.
d - Outras funções na vida pastoral e litúrgica da Igreja
A respeito das outras funções ou serviços elencados pelo texto da Congregação para a Doutrina da Fé, há que se realizar uma avaliação diferenciada daquilo que é proposto pelo mesmo. Quando o texto evoca os “serviços litúrgicos”, detém-se no serviço de leitor e ministro extraordinário da Eucaristia. Por coerência com a situação na qual os fiéis em segunda união estável se encontram, compreende-se o impedimento ao exercício do ministério extraordinário da Eucaristia. Todavia, não pouca dificuldade tem surgido quando o assunto é o “serviço de leitor”. Ao que se refere o texto? Ao leitor instituído ou a qualquer leitor ad hoc? Caberia maior clareza em relação à possibilidade de se aceitar esses fiéis, de comprovada e reconhecida caminhada comunitária, na vida litúrgica da Igreja. O texto da SC fala em participação desses casais na Santa Missa. A participação na Santa Missa deve ser “consciente, ativa e frutuosa”, segundo a Instrução Redemptionis Sacramentum (RS), n. 4. Quando uma pessoa ou um casal em nova união participa da Santa Missa, poder-se-ia admitir sua efetiva participação, enquanto batizados (cf. FC, n. 84), na ação litúrgica, através das leituras, da recitação ou canto do salmo, bem como de outros atos que estejam conforme as orientações sobre a atuação dos leigos na celebração litúrgica, segundo os n. 43-47 da RS.
No que tange aos “serviços catequéticos” (professor de religião, catequista de primeira comunhão ou crisma), não se poderia argumentar que, assim como os casais em nova união estável são convidados a educar seus filhos na fé (cf. FC, n. 84; CIgC n. 1651), não poderiam eles exercer também o papel de transmissores da fé para outras crianças, adolescentes e jovens?
Em relação ao exercício da função de testemunha de casamento, talvez se exija maior discernimento pastoral, sendo por vezes, como diz o texto da Congregação para a Doutrina da Fé, desaconselhada.
A participação no Conselho Pastoral Diocesano ou nos conselhos paroquiais estaria vedada com base na interpretação do cânon 512 §13, que reza o seguinte: “Para o conselho pastoral não se escolham senão fiéis de fé firme, de bons costumes e notáveis pela prudência”. Cabe se perguntar se os fiéis em nova união estável, chamados a participar da vida da Igreja (cf. FC, n. 84) ou a cooperarem na vida comunitária (cf. SC, n. 27), não poderiam também ter uma fé firme, bons costumes e serem notáveis pela prudência, ainda que em situação irregular. O cânon talvez mereça uma interpretação mais flexível.
e – A caridade pastoral como critério para a orientação das situações difíceis
Há uma necessária prudência a ser adotada no que concerne a acolhida dos fiéis recasados, a fim de que não se pretenda equacionar ligeiramente recentes rupturas, causando graves injustiças para com os cônjuges que preferiram não se recasar e manter sua fidelidade ao casamento rompido. A caridade pastoral deve ser exercida para conciliar a verdade das situações difíceis com a misericórdia em relação a todos os que sofrem com o término de um casamento. Seguindo um antigo critério eclesial, para os ofícios, funções e responsabilidades na vida da Igreja e da comunidade local, evitar-se-á a escolha de alguém cuja indicação venha a causar escândalos. O bom-senso pastoral tem aqui um lugar relevante, a fim de se procurar incluir as pessoas em nova união estável na vida eclesial da comunidade, tanto a nível litúrgico quanto pastoral. Por outro lado, é necessário também haver orientações da parte da Igreja particular, proximidade do pastor da comunidade com o seu bispo e seu presbitério, bem como com a própria comunidade no exercício da avaliação das situações em vista de maior acolhida e do engajamento dos fiéis em nova união estável na vida da Igreja.
Pe Rafael C. Fornasier
Mestre em Antropologia teológica
Doutorando em Ciências do Matrimônio e da Família
Assessor da Comissão E. P. para a Vida e a Família da CNBB
Poema do famoso Pe.Michel Quoist sobre a solidão do sacerdote.
Oração do Sacerdote
-numa tarde de domingo-
Esta tarde, Senhor, estou sozinho. Na Igreja, pouco a pouco, os ruídos calaram-se. Foi-se embora toda a gente, e eu voltei para casa, passo a passo, sozinho.
Cruzei-me com gente que voltava de um passeio, passei pelo cinema: vomitava uma pequena multidão, vagueei ao longo de esplanadas de cafés onde, cansados, os domingueiros tudo faziam para esticar um pouco mais a alegria de viver um domingo de festa. Esbarrei nos pequenos, que jogavam bola na rua. Os garotos, Senhor! Os filhos dos outros, que não serão nunca os meus.
E aqui estou, Senhor, Sozinho! No silêncio que me dói, na solidão que me oprime.
Tenho 33 anos, Senhor, um corpo feito como os outros corpos, braços moços para o trabalho, um coração reservado para o amor, mas tudo isto Te dei.
É verdade que de tudo precisavas, tudo Te dei, Senhor, mas é duro Senhor. É duro dar o próprio corpo: ele queria dar-se a outro (corpo). É duro amar toda a gente e não possuir ninguém. É duro apertar a mão sem poder retê-la. É duro fazer que brote uma afeição, mas para a dar a Ti. É duro nada ser para mim mesmo, a fim de ser tudo para eles.
É duro ser como os outros, entre os outros e ser um outro! É duro dar sem cessar, sem procurar receber. É duro alguém ir ao encontro dos outros, sem que jamais alguém venha ao meu encontro.
É duro sofrer os pecados dos outros, sem poder recusar acolhê-los e carregá-los. É duro receber os segredos, sem poder compartilhá-los. É duro arrastar os outros sem cessar e nunca poder, um instante sequer, deixar-me arrastar pelos outros.
É duro sustentar os fracos sem poder apoiar-me sobre um
forte. É duro estar sozinho. Sozinho diante de todos, Sozinho diante do mundo, Sozinho diante do sofrimento, do pecado, da morte.
“Não estás sozinho, meu Filho, estou contigo, eu sou teu, eu precisava, na verdade, de uma humanidade a mais para continuar a minha Encarnação e a minha Redenção.
Desde toda a eternidade, Eu te escolhi. Eu preciso de ti: Preciso das tuas mãos para continuara abençoar, preciso dos teus lábios para continuar a falar, preciso do teu corpo para continuar a sofrer, preciso do teu coração para continuar a amar, preciso de ti para continuar a salvar. Fica comigo, meu Filho.
Senhor, eis-me aqui: eis o meu corpo, eis o meu coração, eis a minha alma. Fazei-me bastante grande para atingir o mundo, bastante forte para carregar com ele, bastante puro para o abraçar, sem querer guardá-lo.
Fazei que eu seja um ponto de encontro, sim, mas ponto de passagem. Caminho que não pende para si próprio, porque nele não há nada de humano a encontrar, nada que não conduza a Ti.
Esta tarde, Senhor, enquanto tudo em volta está em silêncio, dentro do meu coração sinto morder duramente a solidão.
Enquanto o meu coração uiva longamente a fome de prazer, enquanto os homens me devoram a alma e eu me sinto impotente para saciá-la, enquanto sobre os meus ombros pesa o Mundo inteiro, com todo o seu peso de miséria e pecado, eu repito o meu Sim.
Não às gargalhadas, mas lentamente, lucidamente, humildemente.
Sozinho, Senhor, sob o Teu olhar, na paz da tarde...
(no livro Poemas para rezar, de Michel Quoist)
"Eu te tatuei na palma de minha mão"!- (Isaías 49,16)
– A fuga da Sagrada Família para o Egito: uma família tão simples, em dois jumentos, provavelmente numa caravana, pois não se viajava sozinho naqueles tempos, uma família tão comum, mas... a mais importante do universo!
Se os bajuladores de plantão soubessem disso, fariam fila para bajulá-los! Estava ali, num jumento, o Senhor do Universo, o Deus Criador de tudo, em forma humana, real, verídica, em corpo humano, mas ao mesmo tempo plenamente divino.
No entanto, os bajuladores estavam bajulando as pessoas erradas, fossem quem fossem, pois não havia ninguém mais importante do que aquela família no(s) jumentinho(s). Minha atenção, voltou-se para a Eucaristia à minha frente: Jesus está ali, na minha frente! O Deus e Senhor do Universo está ali para ser “bajulado”, adorado, servido, amado, ouvir minhas súplicas, minhas queixas, meus louvores, meus agradecimentos. Veio-me à mente e ao coração apenas uma coisa: não preciso de mais nada, de nada que está aqui. Tenho Jesus à minha frente e no meu coração, na minha vida.
Não preciso dos livros, dos doces, das roupas, das tranqueiras que guardo, do rádio, da TV! Muitos santos nem tiveram a bíblia toda, pois era algo difícil antes da invenção da imprensa. Não preciso de nada disso porque Jesus está aqui comigo, física e espiritualmente! Haja o que houver, Ele tem-me em suas mãos, eu estou em sua companhia. Ele é meu Rochedo, minha força, minha salvação, “O Caminho, a Verdade, a Vida”! (João 14,6). Já dizia Santa Teresa de Ávila:
“Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa! A paciência tudo alcança! Deus nunca muda! A quem a Deus tem, nada lhe falta! Só Deus basta!” Deus nunca nos decepcionará! Diz Isaías 54,8-10:
“Agora, com amor eterno, volto a me compadecer de ti, diz Javé, Meu amor nunca vai se afastar de ti”. Isaías 44,21: “Nunca vou esquecer-te!”; Isaías 49,15-16: “Ainda que a mãe se esqueça do filho que gerou, eu não me esquecerei de ti, diz o Senhor. Veja: eu te tatuei na palma de minha mão!”
Meu Deus, que palavras bonitas! Deus tem nosso nome tatuado em suas mãos! Mas vejo que para realizar isso que estou aqui dizendo, preciso das três virtudes fundamentais: A Fé, a Esperança e a Caridade! Sem essas virtudes, não dá! Mas elas não são frutos de nosso esforço, mas dons de Deus, que as dá a quem as pede.
2005
Quando eu trabalhei como jardineiro, limpava sempre a cadeira onde estava uma bela teia de aranha, mas no dia seguinte a teia estava refeita! Que perseverança! Se nós tivéssemos a constância dessa aranha, já seríamos santos!
A grande diferença entre nós e a aranha é que ela sempre refará a teia do mesmo jeito, mas nós poderemos refazer os nossos atos, a nossa vida, de modo diferente. Se repetirmos os mesmos erros, o resultado será sempre negativo. A perseverança é o caminho da vitória. O desânimo é o caminho da derrota. Mas precisamos perseverar no bem! Diz Santo Agostinho: “É melhor andar mancando no caminho certo do que correr no caminho errado”.
No Apocalipse temos a promessa de vários “prêmios” para quem lutar e perseverar até o fim. Confira no Apocalipse 2, 7.11.17.26; 3, 5.12. 21.
Nossos desânimos, às vezes, têm por causa o fato de não conseguirmos atingir os nossos objetivos em curto prazo, ou porque colocamos esses objetivos numa altura superior a nossas forças, ou ainda porque somos perfeccionistas em nossas ações.
A humildade e a confiança são as bases da perseverança e do progresso em nossa santidade. Em 2a Cor 4,16-18 vemos que “Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o homem exterior vá caminhando para a ruína, contudo, o nosso homem interior se renova dia a dia”.
Na Bíblia vemos alguns profetas desanimando, mas logo se restabelecendo: Elias: 1a Reis 19,3-9. Elias foi reanimado por um anjo que lhe trouxe pão e água. Jeremias 20, 7-18: brigou com Deus, mas ao querer desistir sentia o amor de Deus como um fogo a percorrer-lhe os ossos. Moisés em Êxodo 34, 8 chama o povo de Deus de “povo de cabeça dura”, de tanto cair e levantar-se. Outras “injeções” de ânimo contra o desânimo: Lc 8,15: a perseverança da semente; Rom 2,6-7: perseverança na prática do bem; Ef 6,18: rezar sem cansaço, incessantemente; Mt 10,22: perseverar até o fim para ser salvo; Tg 1,25: perseverar na prática do bem, para sermos felizes.
Usemos, portanto, nossos “tombos” para sabermos onde estão os obstáculos e, assim, podermos vencê-los, ou, conforme o caso, nos desviar deles. “Perseverai na oração, na vigilância e em ação de graças” (Colos 4,2). Um ato inteligente de nossa parte é, na humildade, rever nossas atitudes, perceber nossas fraquezas e onde erramos e recomeçarmos a luta, mas desta vez sem cometermos os mesmos erros, confiando mais no apoio e no consolo de Deus!
15/02/16
Quando nasci eu era uma vela enorme, nova, forte, chama viva e iluminadora. Agora, aos 71 anos de idade, sou uma vela quase no final, com manchas, frágil, chama fraca e quase não ilumino nada.
O passado tornou-se apenas lembranças esparsas, algumas já esmaecidas pelo tempo. Alguns colegas de escola ou de brincadeiras tornaram-se nomes de ruas; outros adoeceram; outros desapareceram.
Tenho ainda uma fita cassete, início dos anos 80. Estava perdida, mas eu a encontrei numa limpeza. Rebobinei-a, para “desgrudar” a fita e tentei ouvi-la: era a gravação que eu fizera com um amigo que faleceu dois meses após a gravação. Músicas bonitas, acompanhadas ao violão, que ele tocava muito bem. Uma delas é “Deus vem”, do Emaús: “Quando, às vezes pergunto, onde andará Deus, preciso encontrar. Peço ao tempo e ao vento: onde andará Deus, preciso encontrar! Então, Deus vem, de modo que eu nunca imaginei. Creio em ti, crês em mim, Deus sempre esteve bem perto de mim...”
Confesso-lhes que não consegui conter algumas lágrimas de saudade. O mundo está se tornando chato para mim. As músicas de que eu me lembro e gosto parece-me que só eu delas me lembro e delas gosto!
Outra coisa que me é difícil é lidar com esses benditos telefones celulares! Como eu os acho complicados! Só mesmo os meus netos conseguem entende-los! Prefiro um daqueles bem simples, mas mesmo assim são complicados. Ainda prefiro o fiel telefone fixo, sem complicação alguma. Serve para telefonar, nada mais. Para que mais a gente quer um telefone? Não é para telefonar?
Eu ainda sou do tempo das novelas de rádio. Ah, que saudades da novela “O direito de nascer”! Anos 50, rádio Nacional do Rio e Nacional de São Paulo. Uma amiga da minha mãe (ainda está viva, com quase 100 anos de idade) a convidava para escutarem juntas a novela, e eu ia junto. Uma das rádios lançava no ar um capítulo mais adiantado que a outra, mas havia maior dificuldade em acessá-la. Era uma tarefa difícil ouvir o que o Albertinho Limonta falava para a mamãe Dolores! E aquela tia “azeda”, solteirona, que dizia: “É assim que eu sou! É assim mesmo que eu sou”! E alguém (não me lembro quem) cantava: “Te quiero, sabrás que te quiero, cariño como este jamás sentió...”
Era um orgulho ouvir o capítulo antecipadamente, para fazer inveja aos que ainda estavam no capítulo anterior!
A novela durou um ano inteiro, e começou a ser conhecida, pelos maridos, como “O Direito de encher”. Era ouvida às 20 horas, logo após a Voz do Brasil. Aquela artista que depois fez sucesso na tevê, Vida Alves, dizia, com solenidade: “Senhoras e senhoritas! Colgate, o perfumador dos mais belos sorrisos, e palmolive, o sabonete das estrelas apresentam... (música) ...O Direito de Nascer! Uma novela de.... (nome da autora).
Na verdade, não sinto saudades da novela em si, mas das circunstâncias em que eu a ouvia, do ambiente e da época em que a gente a ouvia.
Bem... minha vela está no fim, e eu assumo a realidade da minha velhice. Olho o ambiente em que vivo, a natureza, os percalços da vida, mas tudo se torna uma sinfonia agradável, que ofereço a Deus. Procuro viver nele e com ele, e isso faz a diferença! A vida eterna, que pretendo alcançar, é muito melhor do que esta, e lá reverei todos os meus colegas e amigos que já se foram. “Deus sempre esteve perto de mim...”!
APOCALIPSE 19, 7-8:
“Fiquemos alegres e contentes, e demos glória a Deus, porque chegou o tempo das núpcias do Cordeiro. Sua esposa já se preparou. Foi-lhe dado vestir-se com linho brilhante e puro”. O linho significa as obras justas dos santos”.
Nós, Igreja, somos a esposa de Cristo e nossas boas obras são a veste de noiva com que a Igreja vai desposá-lo. Que tipo de veste estamos preparando com nossas obras? Uma veste bonita, elegante, rica, de linho puríssimo, como fala o texto, ou uma veste feita de pano de estopa?
É preciso, nestes tempos tão calamitosos, que nos coloquemos à escuta de Jesus, esposo da Igreja, que nos chama à conversão. Converter-se é lavar as vestes no Sangue do Cordeiro, como diz o Apocalipse, é pedir perdão dos pecados cometidos e recomeçar uma vida nova.
Para que isso aconteça na realidade e não apenas em nossa mente, sugiro que comecemos com coisas simples, como por exemplo, deixar de gritar com os outros, principalmente com os de casa, deixar de falar palavrões, tratar a todos sem preconceitos e com respeito, rezar todos os dias e que não seja muito curta, nunca faltar à missa semanalmente, saber ouvir os outros, ajudar a todos os que necessitam, ser paciente com tudo e com todos, ler diariamente a Bíblia, pelo menos alguns versículos, um tempo de meditação etc.
Outra coisa muito importante que precisamos mudar em nossa mente é o fato de achar que nada é pecado. Isso, aliás, foi o pecado original: os nossos primeiros pais quiseram escolher eles mesmos o que seria ou não pecado e não ouviram o que Deus lhes dissera. Só Deus pode dizer o que é ou não pecado, e ele já nos disse isso. Cabe-nos ouvir o que ele nos pediu para fazer, com muita humildade e amor, sem questionar se é ou não pecado. Se ele mandou evitar tal coisa, evite! Ele mandou-nos amar a todos, amemos! Ele nos mandou perdoar, perdoemos! Ele nos mandou deixar de cometer adultérios, deixemos!
Já falei noutro artigo sobre a imoralidade de certas novelas quase pornográficas que muitos assistem e permitem que as filhas e os filhos assistam. A licenciosidade dos costumes se instala na mente dos e das adolescentes de tal maneira que passam a achar que tudo é permitido, que nada é pecado. O assunto principal é sempre sexo, e sexo mal colocado, mal vivido, baseado no adultério ou simplesmente no prazer pelo prazer.
Não só nesse assunto, mas em outros focos também, como o econômico, as falcatruas que se fazem para os protagonistas das novelas conseguirem o que desejam, a ideia de vingança como solução de problemas, a busca de uma felicidade momentânea baseada no dinheiro e no prazer imediatos e assim por diante.
Quando conseguirmos mudar assim nossa vida, lavar dessa maneira nossas vestes no sangue do Cordeiro, já teremos o começo de um mundo novo, baseado na caridade, no verdadeiro amor cristão, e decerto Jesus, esposo da Igreja, que somos nós, a desposará com maior alegria.
Após nossa morte, na verdade só mudamos de dimensão: saímos do tempo e do espaço para entrarmos numa dimensão diferente, desconhecida para nós, mas que sabemos que existe, se temos fé.
Após a morte continuamos plenamente conscientes. Dizer que entramos num sono profundo é modo de dizer. Muitas religiões não católicas acreditam que só vamos acordar no Juízo Final. Não é verdade. Na bíblia vemos muitos trechos que confirmam nossa consciência pós-morte. Lucas 23, 42-43, por exemplo, diz que Jesus falou ao bom ladrão: “ Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” Hoje, disse Jesus. Quer dizer que Jesus ressuscitou, na verdade, no mesmo dia em que morreu, na sexta-feira santa! E que o ladrão convertido foi com ele.
Em Lucas 16,19-21, Jesus conta a história do rico e do mendigo Lázaro, em que os dois morres e ficam bem acordados depois da morte, um no inferno e outro no céu, ao lado de Abraão, que também está acordado. Jesus não é mentiroso. Se não fosse desse modo, ele nunca teria dado um exemplo como esse! Diz João 14,2: “Na casa do meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vô-los teria dito. Vou preparar-vos o lugar”. Jesus só deu exemplos de realidades que existem, se não desse mesmo jeito, de maneira parecida.
Nesse trecho vemos também que Jesus disse “moradas”, e não outra coisa. Para ficar dormindo, para que dizer “moradas”? Se fôssemos ficar dormindo até o Juízo Final, Jesus iria talvez nos preparar “camas”, e não moradas.
Se você ler o trecho da transfiguração do Senhor, verá que Moisés e Elias, que apareceram com Jesus, estavam bem acordados! É só conferir em Mateus 17,2.
Logo que morremos, nos conscientizamos se somos ou não dignos de entrarmos no céu. Se tivermos alguma pendência, ou se não estivermos preparados ainda, nós nos dirigimos ao Purgatório, e só sairemos de lá quando estivermos puros, preparados para o paraíso. Diz o Apocalipse 21,27: “Coisa algum imunda entrará na Cidade Celeste”. É como quando alguém está com os sapatos sujos e precisa entrar numa sala limpíssima: não tem coragem de entrar. Vai tirar os sapatos, ou limpá-los, e só então entrará na tal sala. É assim que funciona. Ao morrermos, nos tornamos totalmente sinceros.
Os que rejeitaram a Deus aqui na terra, não suportam olhar para Ele depois de mortos e fogem de sua presença, e vamos dizer assim, “se escondem” de Deus no inferno. Não vão ao Purgatório porque sabem que de lá sairão um dia para entrarem na luz eterna. Quem rejeita a Deus, rejeita a luz. Deus não manda ninguém para o inferno. Quem vai para lá, vai espontaneamente.
Na Bíblia vemos vários trechos sobre o céu, inferno, purgatório. O céu e o inferno são mostrados claramente, mas o purgatório é mostrado nas entrelinhas. Leia e observe:
1ª Pedro 3,19: “Cristo foi pregar aos espíritos em prisão”, ou seja, no purgatório. Mateus 5,25, diz que podemos ser postos na prisão e de lá não sairemos até pagarmos o último centavo. Ora, na prisão ninguém paga nada. A menção é simbólica e se refere ao purgatório, que pode ser iniciado já nesta vida com o sofrimento oferecido a Deus em reparação pelos pecados, pela caridade, pela oração, pela penitência, pelo perdão.
Mateus 12,32 diz assim: “Se alguém pecar contra o Espírito Santo isso não lhe será perdoado nem neste mundo, nem no outro”. Isso sugere que só o pecado contra o Espírito Santo, que consiste em não aceitar o perdão, ou não querer ser perdoado, ou achar que Deus nunca o perdoará, só esse pecado não pode ser perdoado no outro mundo. Isto significa que os demais pecados podem ser perdoados no outro mundo! Aliás, é o que Jesus foi fazer lá onde estavam os mortos, esperando sua ressurreição, no texto lido acima da 1Pedro 3,19.
O purgatório é justamente essa oportunidade que temos de nos purificar, se ainda não estivermos purificados ou plenamente arrependidos de nossos pecados, embora tenhamos conseguido não cometê-los mais. Acontece, muitas vezes, de não praticarmos mais certos pecados, mas não sentirmos um arrependimento sincero no coração. O propósito de não pecar mais nos livra do inferno, mas, se não estivermos plenamente arrependidos, não nos livra do purgatório.
Um trecho muito claro sobre esse assunto é 1ª Coríntios 3,11-16, que nos diz que muitos serão salvos “como que através do fogo”, simbolicamente o purgatório, porque não construíram sua casa com material bom, indestrutível, como o ouro e a prata: construíram-na com palha, ou seja, deixaram a desejar em seus propósitos de uma vida nova, sem pecados. Quanto ao céu e ao inferno, todos conhecem muitos textos que falam sobre eles e não há muita dúvida a respeito.
Sobre a oração pelos mortos, podem, sim, serem feitas. Se prestarmos atenção veremos que o próprio Jesus rezou pelos mortos. Duvida? Então leia João 11,32-44; Lucas 7,11-15; Marcos 5,35-43! Nesses textos, Jesus ora ao Pai e em seguida ressuscita Lázaro, a menina e o filho da viúva de Naim. Em Atos 20,7-12 e cap. 9,36-41, tanto S. Paulo como S. Pedro também oram por duas pessoas mortas, que ressuscitam.
Veja bem: quando Jesus ou os dois apóstolos àcima ressuscitaram essas pessoas, elas estavam mortas e eles, assim, estavam rezando pelos mortos! Se elas ressuscitaram, ganharam uma segunda chance de se salvarem. Se isso foi possível a eles, por que não a todos nós? Deus não faz acepção de pessoas (Deuteronômio 10,17, Lucas 20,21; Romanos 2,11; Efésios 6,9 etc). Por esses motivos, nós também podemos rezar pelas pessoas falecidas, pedindo a Deus que as perdoe dos pecados cometidos.
Esse pedido de perdão pelos pecados cometidos por pessoas falecidas pode ser visto no livro de 1º Macabeus 12,42-45 e, de certa forma, em 1º Samuel 31,11-13, em que os habitantes de Jabes jejuaram por 7 dias por Saul e os seus filhos, mortos em combate, assim como em 2º Samuel 1,12; cap. 3,35. Jejuaram por quê, se não acreditavam que isso poderia ajudar na salvação dessas pessoas? Também vemos em Gênesis 50,10, que “José celebrou por seu pai (falecido) um luto de sete dias”. Veja também Judite 16,24 e Eclesiástico 22,12.
Transcrevo em primeiro lugar um texto muito bonito que encontrei no site "Dei Verbum", de Porto Feliz. Em seguida, uma pequena história do que poderia ser a vida em Nazaré. Veja também o texto do "Jesus-Cáritas" sobre esse assunto.
A VIDA DE NAZARÉ E A CONVERSÃO DE DEUS À CONDIÇÃO HUMANA.
"De Nazaré pode sair algo de bom?”(Jo 1,46). Natanael, que fez esta pergunta aos primeiros discípulos de Jesus, tinha suas razões para duvidar. Lucas precisa dizer a região em que fica Nazaré, pois seus leitores, sobretudo os de fora da Palestina, não saberiam onde fica Nazaré, de tão pequena e sem importância no grande mundo do Império Romano.
Os evangelhos apócrifos têm certa impaciência com esta pequena Nazaré. Jesus, segundo alguns, antes de começar sua missão pública, teria ido ao Egito ou até à Índia para conhecer a sabedoria destes centros do mundo.
Ou, conforme outros apócrifos, Jesus já fazia alguns milagrezinhos de crianças para se divertir. É muito difícil aceitar que o Messias, o próprio Filho de Deus, tenha passado a maior parte de sua vida num ambiente absolutamente comum, em total anonimato, sem nada de extraordinário, como a maioria da humanidade.
ELE CRESCIA
Depois de cumpridos os mandamentos a respeito dos nascidos, Lucas afirma uma vez de João e duas vezes de Jesus que eles cresciam, ficavam fortes, com sabedoria, graça e espírito. João no deserto e Jesus em sua pequena e quase desconhecida cidadezinha de Nazaré. Enquanto o ambiente de João lembra os grandes momentos de Israel no deserto, Jesus, que seria o maior, crescia numa condição mais comum.
O desígnio de Deus passa pelo mergulho no cotidiano da vida humana. Em Nazaré tudo devia ser muito simples, pois nem estava à beira do lago da Galileia e nem na planície que se estendia mais adiante aos seus pés, onde estava a rica cidade de Séforis, uma cidade que, estranhamente, não é mencionado nos evangelhos.
A vida social se daria em torno de um lugar de oração, com ao menos um rabino para ensinar os adolescente, e torno da única fonte até hoje existente.
Um pouco de agricultura e um pouco de animais, uma vida muito simples. O mistério de Deus passa por uma política e por uma economia muito marginais, por uma religiosidade simples e sincera. Os apócrifos tinham impaciência em aceitar esta “ignorância” do Filho de Deus, e esta necessidade de crescimento e de aprendizado a partir de um contexto tão rude.
FILHO DE MARIA E “FILHO DA LEI”
NA Galácia, alguns judeus não conseguiam crer que alguém tão humilde, pudesse ser maior do que a Lei de Israel com toda a sua grande história . Mas Paulo insistiu:
Deus nos enviou seu próprio Filho, “nascido de uma mulher”, portanto muito humano, e submetido às leis humanas, solidário com tudo o que é humano (Cf.Gl 4,4). Lucas faz um teste, abrindo, com muito pudor, uma janela para examinarmos o crescimento de Jesus: uma vez completado doze anos, todo judeu deve realizar o ritual de iniciação que ainda hoje se chama “Bar Mitzwáh”,ou seja, ele deve tornar-se “ Filho da Lei. Isso significa ler as Escrituras em público, na Sinagoga,participar do círculo dos mestres na lechiváh, a escola rabínica, e, naquele tempo, devia começar a acompanhar os adultos na peregrinação anual à Cidade santa de Jerusalém e ao templo.
Lucas nos atesta tudo isso a respeito de Jesus: ele esta no momento crucial do seu crescimento, está se tornando adulto. Assim, quando Jesus diz à sua mãe, que o guiou até os doze anos, que está cuidando das coisas “de seu Pai” no templo, entre mestres, ele está assumindo a Lei, pois é “filho” da Lei, e esta é, de agora em diante, o seu “pai”, a autoridade e o guia de sua vida. E Lucas cerra a janela com discrição, repetindo a frase: ele voltou a Nazaré, e continuava seu crescimento em idade, sabedoria e graça. “Em tudo igual a nós –consubstancial a nós segundo a humanidade”, diria em 431 o concílio de Éfeso. (Aqui termina a citação do referido site)
(deste site:)
AGORA UM POUCO DE IMAGINAÇÃO SOBRE O QUE PODERIA SER A VIDA DE NAZARÉ, VIVIDA POR JESUS EM SUA ADOLESCÊNCIA
Quando já morava em Nazaré, um dos amigos de José foi visitá-lo e seu filho de 12 anos, quase mesma idade de Jesus, que tinha 10, foi também. Ele sabia de cor muitas leis, preceitos e orações judaicas. O rapaz que fora com o pai à casa de Jesus não era muito de praticar a religião, pois seu pai era pagão e apenas sua mãe frequentava o templo, num lugar reservado aos casados com pagãos. Ele ia às vezes e se encontrava com Jesus na saída, de seis a dez garotos que voltavam juntos, comentando o que tinham ouvido.
Entretanto, todos se calavam ao ouvir a versão de Jesus do que tinha sido dito: era sempre algo diferente, maravilhoso, vindo não se sabe de onde. Brotavam do coração de um Deus feito homem. Eram ideias muito, muito além daquele tempo.
Jesus gostava muito de repetir a parte da lei que dizia “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração...”etc. Jesus vivia ali, mas não estava só ali: o lugar onde estavam parecia embutido num local mais extenso e mais profundo. Jesus estava com os demais, mas parecia imergido num mundo muito mais bonito, muito mais feliz que aquele.
Mais tarde muitos descobriram, porém, que aquele mundo diferente e maravilhoso estava em seu santo e puro coração. É dali, de seu coração, que brotavam luzes de um novo tempo e de uma nova vida, brotada do amor santo, puro e verdadeiro. E seus felizardos amiguinhos abriam a mente e os corações para verem se recebiam um pouco, pelo menos, daquela sabedoria, amor e santidade. Mas tudo isso era barrado pelos olhos pobres e materialistas daquelas pessoas que com ele conviviam.
Naquele dia em que o amigo de José foi visitá-lo, seu filho ficou à frente da casa com Jesus, conversando, quando Maria levou-lhes dois pães para comerem. Era a hora do lanche. Apareceu, então, um rapaz leproso, ao longe, tocando aquela horrível sineta para lembrar a todos que não deviam aproximar-se. Todos se afastaram, mesmo o amigo de Jesus. Ele, não. Ficou ali até o rapaz chegar perto. Entregou o seu pedaço de pão ao mendigo, com um sorriso. O rapaz fitou-o e a nuvem de angústia que o cobria desapareceu. O sorriso se esboçou e acabou por tomar conta de sua face. Não se curara exteriormente, mas sua vida acabara de tomar um novo rumo, uma nova feição.
Maravilhado ao ver a mudança estonteante obtida por esse simples ato e esse simples olhar, o amigo de Jesus quedou-se em sua insignificância e preconizou:
“Algum dia esse rapaz será curado!”.
Imediatamente adiantou-se e também deu o seu pedaço de pão não ao leproso, mas a Jesus, para que lho entregasse. Ele sorriu e o agradeceu, e entregou o pão ao mendigo. O rapaz leproso colou-se ao chão e não queria mais sair dali, não queria mais se afastar daquela presença extasiante. Jesus, porém, percebendo que ainda não podia fazer mais nada, disse-lhe: “Vai em paz!” Só então o outro saiu. Mas enquanto podia, voltava-se para olhar Jesus de longe, até perder-se de vista.
Foi por esses tempos, aos dez anos de Jesus aproximadamente, que Arquelau, que governava despoticamente aquela região, destruiu uma cidade distante 8 km de Nazaré, Séforis. Eu presumo que muitos sobreviventes (muitos ficaram escravos) tenham fugido para Nazaré e com toda a certeza foram hospedados por José, Jesus e Maria.
Devido a esse e a outros maus governantes, Jesus viu muita violência entre os 3 e 12 anos de idade, conforme nos ensina o Frei Carlos Mesters em seu livro “Com Jesus na Contramão”. É engano nosso achar que Jesus viveu sempre em ambiente tranquilo e pacífico. A infância dele foi marcada pela violência desses déspotas que governavam. A maldade de Arquelau era tanta que logo depois da destruição que ele causou em Séforis, foi deposto pelo governo romano.
Essa violência poderia ter sido, de fato, constatada por ele nessas migrações de pessoas que conseguiam escapar do morticínio ou da escravidão a que eram submetidos nessas cidades circunvizinhas a Nazaré. Consta que duas mil pessoas foram crucificadas em Séforis quando da destruição da cidade.
Quanto a Nazaré, era tão pequena que fora da bíblia não se fala dela. Seus moradores, e José e Jesus estão incluídos nisso, trabalhavam na pequena agricultura. José e seu filho Jesus trabalhavam também na carpintaria: eram camponeses e operários. Jesus ficou, pois, trinta anos trabalhando como camponês e operário e apenas três anos pregando o evangelho, utilizando-se de todo esse conhecimento obtido nessa sua vida de Nazaré.
Ele nasceu em Belém, na Judeia do Sul (Mt 2,1) e foi criado no interior, nessa cidade de Nazaré, na Galileia, no Norte (Lucas 4,16). Falava o aramaico com sotaque de judeu da Galileia. Para os samaritanos era judeus (Jo 4,9) e para os judeus da Judeia era galileu (tudo isso está no livrinho do Frei Carlos Mesters indicado acima).
Era de família não sacerdotal, ao contrário de João Batista (Zacarias , Lc 1,5). Nasceu leigo, pobre, sem nenhuma proteção financeira. Como já dissemos no capítulo anterior, José provavelmente era migrante provindo de Belém, talvez para tentar uma vida mais digna.
Jesus aprendeu o que sabia em casa, com a mãe, e na sinagoga. Essas coisas a gente vê na bíblia, por exemplo, em Lucas 2,4 (migrante), Atos 22,3 (Jesus não estudou como Paulo), Mt 13,55 e Mc 6,3 (os filhos seguiam a profissão do pai.
18 bênçãos (manhã, tarde, noite);
Shemá (3 benditos e 3 leituras ), manhã e noite, sendo:
1 bendito ao Deus Criador,
1 ao Deus Revelador,
3 leituras:Dt 6,4-9 (receber o reino); Dt 11,13-21 (receber a Lei de Deus); Números 15,37-41 (receber a consagração),
1 bendito ao Deus Salvador que liberta o povo.
TUDO MISTURADO COM SALMOS.
Jesus tinha muita intimidade com Deus, seu Pai. Rezava muito, passando noites em oração, como vemos em Lucas 6,12. Nas orações procurava sempre saber o que o Pai queria dele, como em Mateus 26,39. Todos os sábados ia com os pais à Sinagoga (livro citado do Frei Carlos Mesters).
Nos trinta anos que viveu com os pais, em Nazaré, procurou vislumbrar, em seu horizonte, o que faria, qual seria sua missão. Não lhe faltaram muitas tentações, mesmo nesse tempo de Nazaré, como depois, na vida pública, em que foi tentado não apenas pelo demônio, mas também pelas pessoas, que sugeriam-lhe um desvio de sua vocação.
O Frei Carlos Mesters faz um pequeno elenco dessas tentações:
Pedro: tentação de ser um Messias glorioso- veja Mateus 16,22; Marcos 8,33;
Seus pais – veja Lucas 2,48; Lucas 2,49.
Seus parentes, que queriam levá-lo para casa. Veja Marcos 3,21 e 3,33;
Os apóstolos gostaram do afluxo do povo. Veja em Marcos 1,38;
João Batista queria um juiz severo. Veja em Lucas 3,9. Mateus 3,7-12; Mateus 11,3. Jesus mandou João conferir as profecias e confrontá-las com a realidade dos fatos. Veja em ateus 11,4-5; Isaías 29,18-19; Isaías 35,3-5; Isaías 61,1;
O assédio dos fariseus. Veja em Lucas 13,31.32
O povo o queria rei-messias, poderoso. Veja em João 6,15. Jesus se retirou.
O demônio o tentou pedindo que ele fosse o novo Moisés, para alimentar o povo (Mateus 4,3), um Messias que se manifesta (Mateus 4,5-6; João 7,27), um Messias nacionalista que conquistaria o mundo (Mateus4,9). Jesus reage. Veja em Mateus 4,4.7.10.
No Horto das Oliveiras, pede ao Pai que o livre do cálice, mas logo pede que se faça a sua vontade. Veja em Marcos 14,36.
Na prisão, tem a tentação de ser um Messias guerreiro, quando Pedro corta a orelha do outro. Veja em Lucas22,53 e Mateus 26,52.
Todos nós podemos viver a Vida de Nazaré vivida por Jesus, mesmo sendo missionários e pessoas ativas na comunidade. Há muitas horas de descanso e de intervalo em nossas atividades, que podemos muito bem usá-las para uma vida tranquila, de contemplação. Como vimos acima, a vida que Jesus levou em Nazaré não foi assim tão tranquila. Houve muitos momentos de violência externa, que ele e sua família teve de ver e assistir sem poder fazer muita coisa. Jesus veio para ser cem por cento homem e cem por cento Deus, mas não podia usar em benefício próprio sua divindade. Ele veio justamente para nos ensinar e nos mostrar que é possível ser uma pessoa santa, mesmo com os afazeres diários.
O problema sério, principalmente de hoje em dia, é que nós nos apegamos aos nossos trabalhos como se fossem nossa tábua de salvação, e acabamos muitas vezes nos afastando da fonte de tudo, que é Deus.
Diz o salmo 126 (127), que não adianta nada trabalhar sem Deus. É trabalho perdido, jogado fora. Vejo tantas pessoas se matando simplesmente por causa do dinheiro, e ainda mais, que não é do próprio sustento, mas para coisas supérfluas que muito bem poderiam ser deixadas de lado.
O cardeal Van Thuan, bispo do Vietnam fazia apenas alguns meses, foi preso porque era católico. Ficou 13 anos preso, sendo 9 de solitária. Quando chegou à prisão, ficou angustiado, pois tinha deixado muito trabalho apostólico. No fim de alguns dias, após muita oração descobriu que ele não havia escolhido, em sua vida, as obras de Deus, mas o próprio Deus, que se manifesta em qualquer lugar.
Dizia Santa Teresinha do Menino Jesus que “A alegria não está nos objetos, mas no mais íntimo do coração; podemos sempre senti-la, tanto no mais rico palácio, como na mais triste prisão”. E é a mais pura verdade. Jesus foi Deus-homem verdadeiro em todos os lugares, seja em Nazaré, como na vida de pregação como na morte. Fosse qual fosse a situação, ele não deixava sua intimidade com o Pai.
Jesus deveria ser a cara de sua mãe. Deveria ser muito parecido com ela, pois sua carne veio só de Maria. Nossa mãe do céu, que tão bem soube ensinar e educar Jesus, pode também nos educar, nos ensinar, nos orientar no caminho de nossa vocação, seja ela qual seja.
Entretanto, fica aqui um lembrete para que não deixemos a oração, a intimidade com Deus, e Jesus nos deu o exemplo, quando ficava noites inteiras rezando. Nosso sucesso na vida espiritual vai depender não tanto de nossas ações, mas de nossas orações e de nossa confiança na Providência Divina, como fizeram Jesus, Maria e José.
Para sentirmos a presença de Deus em sua vida, devemos viver como Jesus viveu por trinta anos em Nazaré, ou seja, uma vida de oração, contemplação e trabalho, conservar-se num caminho de santidade, na caridade e evitando os pecados.
Todos nós temos nossos pecados, mas precisamos confiar plenamente na Misericórdia divina. Isso implica, é claro, mudarmos nossas vidas de tal forma que tudo o que fizermos agrade a Deus.
Um acontecimento inesperado de sofrimento pode ocorrer em nossa vida. Aproveitemos esse acontecimento para nos purificar, para tomarmos a resolução sincera e corajosa de recomeçar a nossa vida abandonando tudo o que não agradar a Deus. É difícil e, às vezes, até impossível, sem a ajuda de Deus, que obtemos pela oração e pela caridade.
Gosto muito do trecho em que São Paulo Apóstolo fala: “Irmãos, quanto a mim, não julgo que O haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que ficaram para trás, e avançando para que estão diante de mim, prossigo em direção à meta, para conquistar o prêmio que, do alto, Deus me chama a receber em Cristo Jesus” (Filipenses 3,13-14).
As lições de Nazaré (Do Papa Paulo VI, homilia da Sagrada Família)
Nazaré é a escola onde se começa a compreender a vida de Jesus: a escola do Evangelho.
Aqui se aprende a olhar, a escutar, a meditar e penetrar o significado, tão profundo e tão misterioso, dessa manifestação tão simples, tão humilde e tão bela, do Filho de Deus. Talvez se aprenda até, insensivelmente, a imitá-lo.
Aqui se aprende o método que nos permitirá compreender quem é o Cristo. Aqui se descobre a necessidade de observar o quadro de sua permanência entre nós: os lugares, os tempos, os costumes, a linguagem, as práticas religiosas, tudo de que Jesus se serviu para revelar-se ao mundo. Aqui tudo fala, tudo tem um sentido.
Aqui, nesta escola, compreende-se a necessidade de uma disciplina espiritual para quem quer seguir o ensinamento do Evangelho e ser discípulo do Cristo.
Ó como gostaríamos de voltar à infância e seguir essa humilde e sublime escola de Nazaré! Como gostaríamos, junto a Maria, de recomeçar a adquirir a verdadeira ciência e a elevada sabedoria das verdades divinas.
Mas estamos apenas de passagem. Temos de abandonar este desejo de continuar aqui o estudo, nunca terminado, do conhecimento do Evangelho. Não partiremos, porém, antes de colher às pressas e quase furtivamente algumas breves lições de Nazaré.
Primeiro, uma lição de silêncio. Que renasça em nós a estima pelo silêncio, essa admirável e indispensável condição do espírito; em nós, assediados por tantos clamores, ruídos e gritos em nossa vida moderna barulhenta e hipersensibilizada. O silêncio de Nazaré ensina-nos o recolhimento, a interioridade, a disposição para escutar as boas inspirações e as palavras dos verdadeiros mestres. Ensina-nos a necessidade e o valor das preparações, do estudo, da meditação, da vida pessoal e interior, da oração que só Deus vê no segredo.
Uma lição de vida familiar. Que Nazaré nos ensine o que é a família, sua comunhão de amor, sua beleza simples e austera, seu caráter sagrado e inviolável; aprendamos de Nazaré o quanto a formação que recebemos é doce e insubstituível: aprendamos qual é sua função primária no plano social.
Uma lição de trabalho. Ó Nazaré, ó casa do “filho do carpinteiro”! É aqui que gostaríamos de compreender e celebrar a lei, severa e redentora, do trabalho humano; aqui, restabelecer a consciência da nobreza do trabalho; aqui, lembrar que o trabalho não pode ser um fim em si mesmo, mas que sua liberdade e nobreza resultam, mais que de seu valor econômico, dos valores que constituem o seu fim. Finalmente, como gostaríamos de saudar aqui todos os trabalhadores do mundo inteiro e mostrar-lhes seu grande modelo, seu divino irmão, o profeta de todas as causas justas, o Cristo nosso Senhor.
De D. Estêvão Bittencourt (faleceu em 14/04/2008)
Vale a pena rezar pelos mortos se seu destino último já se realizou e se fixou?
A palavra destino é um tanto ambígua. Sim, que significa destino? – Destino frequentemente é entendido como uma força cega, neutra, que impele o Homem numa determinada direção, em vista de uma meta precisa. Destino lembra facilmente fatalismo, o contrário do que o Cristianismo chama “graça de Deus” e “liberdade do Homem” Devemos dizer que não existe destino, se entendemos como força cega que empurra fatalmente o Homem na sua caminhada terrestre. Deus nos concedeu a liberdade de arbítrio e a respeita; a própria graça de Deus não extingue a livre opção da criatura. Por isso, parece que seria melhor dizer na interrogação acima: “Vale a pena rezar pelo mortos, se já chegaram a seu último termo e nele se fixaram?”
Termo, no caso, seria a etapa final. Nossa vida, de fato, é uma caminhada ou peregrinação. Nela há várias fases com seus termos finais, e há o Grande Termo, o último, que é o encontro com Deus ao partirmos deste mundo.
Uma só vez pelas estradas da vida
Muito acertadamente, a pergunta acima supõe que a morte nos estabiliza em nossa opção final ou nos fixa no termo último da nossa existência. Diz o autor da epístola aos Hebreus: “Esta determinado que os homens morram uma só vez, depois vem o julgamento” (Hb 9,27). Passamos uma só vez pelas estradas desta vida, com todas as graças de Deus para nos santificarmos; Ele nos acompanha carinhosamente até o nosso último instante da nossa peregrinação. Conta-se até um caso muito interessante a propósito: certa vez, uma viúva foi procurar São João Maria Vianney, o Santo Cura d’Ars, e disse que estava muito triste, porque seu marido se suicidara, atirando-se da ponte para o fundo de um rio. Que lhe respondeu o Santo?
“Minha senhora, entre a ponte e a água do rio, há um intervalo”. Com isso, o Cura d’Ars queria lembrar à senhora que, mesmo depois de ter executado o suicídio, restou ao marido um pouco de tempo antes de morrer; e nesse pouco de tempo podia o suicida ter aceito a graça de Deus, que não lhe faltou para que se arrependesse. Por conseguinte, o cristão não se preocupa com a pretensa exiguidade de uma só passagem pela Terra para converter-se. É uma passagem muito rica de graças desde o começo até o último instante. O Pai, que nos entregou por nós o seu Filho pregado à Cruz, reservou-nos todos os subsídios necessários para que não somente nos salvemos, mas para que nos santifiquemos durante nossos anos de vida na Terra.
Última purificação
Dito isso, acrescentamos o seguinte: as pessoas que morrem em estado de graça ou com o amor de Deus em seu coração, podem ainda estar marcadas por pequenas incoerências: podem amar a Deus sinceramente, mas cometer a fraqueza de responder mal ou indelicadamente ao irmão... Se alguém morre em tais condições, o que acontece?
É certo que Deus não rejeitará quem diante d’Ele comparece em estado de graça ou sem pecado grave; mas o fato de tal pessoa ainda levar pequenas faltas ou incoerências, impede que veja a Deus face a face. Essa pessoa tem que se purificar das chamadas “escórias do pecado”; tem que repudiar o apego ao chamado “pecadinho” (que nunca é desprezível); tem que fortalecer seu amor a Deus para que ele queime qualquer resquício de amor próprio ou amor desordenado ainda existente nessa alma. Ora, isso se faz no purgatório póstumo.
É certo que deveríamos nos purificar-nos das escórias todas do pecado antes de morrer (esta vida terrestre é a fase normal de nossa purificação); mas, se isso não acontece no presente, terá que ser feito após a morte. Tal é a noção de purgatório, que, como vemos, é muito lógica; ninguém pode ver Deus face a face se ainda é portador da mínima sombra de pecado. Aliás, diz-se muito bem: a alma, logo depois da morte, ao reconhecer sua autêntica realidade, ela mesma deseja o purgatório ou deseja libertar-se das escórias do pecado.
No purgatório não há fogo nem treva, mas há o arrependimento profundo provocado pelo amor de Deus, que suscita o repúdio radical a todo tipo de leviandade ou contradição.
Agora se coloca, bem a propósito, a pergunta: por que então rezar pelas almas do purgatório, se a sua sorte póstuma já está definida? – Eis a reposta: não pedimos que essas almas mudem de opção, não pedimos que aqueles que morreram avessos a Deus convertam-se depois da morte (isso seria impossível), mas pedimos que aqueles que morreram no amor de Deus ainda imperfeito, acabem de se purificar dos resquícios do pecado. Pedimos que o amor a Deus, ainda fraco ou tíbio, se fortaleça para eliminar qualquer desordem existente na alma. Tal é o sentido da nossa oração pelos defuntos; supomos que precisem dessa nossa ajuda. Aliás, Deus, que nos fez solidários entre nós na vida presente, não permite que a morte interrompa essa solidariedade.
Ele quer que rezemos pelos nossos irmãos falecidos como nós rezamos pelas pessoas vivas na Terra. Só Deus sabe qual a sorte póstuma do defuntos; se determinada alma já não precisa de orações, o Pai faz que nossas preces beneficiem outras almas.
O melhor modo de sufragar as almas do purgatório é a celebração da Santa Missa. Esta é a perpetuação do sacrifício de Cristo ou a reapresentação da oferta do Calvário, que Cristo nos deixou para que com Ele possamos oferecer ao Pai nossa vida e nossas intenções, obtendo, assim, as graças de que necessitamos ou de que necessitam nossos irmãos.
A Bíblia fala de oração pelos mortos
Se alguém perguntasse qual o fundamento bíblico do purgatório, responderíamos que a existência do purgatório póstumo já era reconhecida pelos judeus do Antigo Testamento, como atesta 2Mc 12,38-45: nesse texto narra-se que Judas Macabeu verificou que alguns soldados israelitas haviam morrido em batalha para defender as suas tradições religiosas; por incoerência, porém, haviam guardado debaixo de suas vestes, estatuetas pagãs.
Isso quer dizer que haviam sido fiéis ao seu patrimônio religioso javista, mas tinham cometido uma incoerência (incoerência que não anulou a sua adesão incondicional a Deus). Judas Macabeu mandou fazer uma coleta para enviá-la a Jerusalém, a fim de que se oferecesse um sacrifício por esses falecidos; eles teriam a recompensa eterna, mas ainda deveriam expiar os resquícios de pecado com que haviam morrido, e os seus irmãos na Terra pediam a Deus que lhes fortalecesse o amor para que, quanto antes, se livrassem de qualquer sombra de pecado.
No Novo Testamento encontramos uma alusão indireta ao purgatório póstumo em 1Cor 3,10-15.
Em conclusão: vivamos de tal modo que nos libertemos de qualquer incoerência ou contradição; procuremos amar a Deus em tudo e acima de tudo. Assim estaremos fazendo o nosso purgatório na Terra, como é normal.
Estêvão Tavares Bettencourt, osb
Saiba o como provar a doutrina do Purgatório a um Cristão Evangélico9 agosto 2012Autor: Bíblia Católica | Postado em: Doutrina Católica
Bíblia Católica Online mentioned. 34
A palavra purgatório não é mencionada na Bíblia, da mesma forma que termos como ‘encarnação’, ‘Santíssima Trindade’ ou até mesmo a palavra Bíblia, não aparecem nas Escrituras. Isso, no entanto, não é motivo para negarmos a existência de um “lugar de purgação”, o qual de fato é mencionado na Bíblia.
Há várias passagens que nos indicam a existência desse tal lugar de purificação, mas vamos dar uma olhada em 1 Coríntios 3:12-15, que ao contrário de outras referências bíblicas sobre o purgatório, não pode ser refutada por protestantes evangélicos. Vamos analisar um trecho da versão O Livro, uma popular tradução da Bíblia protestante.
12 E, se alguém sobre este fundamento levanta um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, 13 a obra de cada um se manifestará; pois aquele dia a demonstrará, porque será revelada no fogo, e o fogo testará qual seja a obra de cada um. 14 Se permanecer a obra que alguém sobre ela edificou, esse receberá *galardão. ( s.m. *Recompensa ou prêmio por serviços valiosos prestados. Honra, glória) 15 Se a obra de alguém se queimar, ele sofrerá prejuízo; mas o tal será salvo todavia como que pelo fogo.
Quando lemos essa passagem no contexto do capítulo 3, vamos notar que São Paulo se dirige a uma porção da Igreja de Cristo. Ele repreende os fiéis coríntios sobre suas ações pecaminosas, tais como divisões e ciúme, etc. No capítulo 3, São Paulo não só afirma que nossas obras são recompensadas, mas ele também lida com a qualidade das obras do homem, pelas quais cada um de nós seremos recompensados ou punidos.
O que planta ou o que rega são iguais; cada um receberá a sua recompensa, segundo o seu trabalho. 1 Cor3: 8
Se analisarmos o versículo 15 do mesmo capítulo, temos um exemplo de uma pessoa cujas obras já foram julgadas e queimadas, portanto ela “sofrerá prejuízo”, mas será finalmente salva pelo fogo. A fim de esclarecer o que isso significa, precisamos definir o que “sofrer prejuízo” representa. A expressão “sofrer prejuízo” provém de uma forma da palavra grega Zemio. Lembre-se que o grego é o idioma original dos textos bíblicos. Outras formas dessa mesma palavra grega também aparecem no Antigo Testamento com o significado de “castigo” [Exodus 21:21, Provérbios 17:26 e 19:19, etc ..]. Isso significa que Zemio foi traduzido em 1 Cor 3:15 como “sofrer prejuízo”, mas também quer dizer punição ou castigo. Portanto, a passagem 1 Cor3:12-15 nos dá uma descrição clara do Purgatório, pois é a isso que São Paulo se refere.
São Paulo faz uma analogia sobre a qualidade dos nossos trabalhos usando materiais como ouro, prata, pedras preciosas para representar uma adesão mais perfeita ao Evangelho de Cristo, e madeira, palha e restolho, que serão queimados e, pelos quais o homem “sofrerá prejuízo” ou “punição” mas no fim ele, o homem, será salvo, todavia como que pelo fogo.
Assim, em 1 Coríntios 3:12, a madeira, feno e palha (que são queimados) significam as obras de um homem que morreu em estado de justificação e foi perdoado de qualquer pecado mortal que ele possa ter cometido. Ele é, portanto, salvo, mesmo que não tenha feito reparação por todos seus pecados cometidos depois do batismo.
O senhor se irritou e mandou entregar aquele servo aos carrascos, ATÉ QUE PAGASSE toda a sua dívida. É ASSIM que o meu Pai que está nos céus FARÁ convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão.” Mateus 18: 34-35
Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto ele caminha contigo para o tribunal. Senão o adversário te entregará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão. Em verdade, te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo. Mateus 5:25-26
Ou seja, em ambas passagens vemos uma referência implícita ao lugar de expiação o qual a Igreja chama Purgatório. Enquanto estamos à caminho do tribunal, uma alusão ao julgamento individual depois da morte, somos obrigados a nos reconciliar, pois adversário ( Satanás, o acusador) nos condenará diante do Juiz (Cristo Nosso Senhor) que por sua vez nos fará justiça, e seremos jogados na prisão (purgatório), até que nossas dívidas (cada pecado cometido e não expiado) sejam pagas. Essas passagens são referências ao purgatório e não ao inferno, como alguns alegam, pois afirmam que uma vez que as dívidas são pagas, o devedor ( pecador) sairá da prisão. Como sabemos, uma vez condenado, ninguém sai do inferno. Enquanto as almas do purgatório, uma vez purificadas, ascendem ao céu.
A Posição da Igreja
Neste contexto se encaixa perfeitamente a doutrina católica sobre o Purgatório. O Concílio Católico de Lyon II, definiu Purgatório da seguinte forma:
Papa Gregório X – Concílio de Lyon II, 1274:
“Porque se eles morrem na caridade verdadeiramente arrependidos antes que eles tenham feito satisfação através de dignos frutos de penitência pelos pecados cometidos e omitidos, suas almas são purificadas depois da morte por punições purgatóriais ou depurantes…” (Denzinger 464)
Um grande exemplo de um homem que foi perdoado de seus pecados graves, mas não fez reparação por eles, é encontrado no caso de Davi. Em 2 Samuel 11 (2 Reis 11 na Douay-Rheims Bíblia católica), lemos que o Rei Davi cometeu adultério com Bate-Seba. David também mandou matar o marido de Bate-Seba. Estes são os pecados mortais. Se Davi tivesse morrido naquele estado, ele teria ido para o inferno, pois 1 Coríntios 6:9 nos mostra que nenhum adúltero ou assassinos entrarão no céu. Mas Davi se arrependeu do seus pecados, quando condenados por Natã, em 2 Samuel 12.
2 Samuel 12:13 – “E disse Davi a Natã: Pequei contra o Senhor. E disse Natã a Davi, o Senhor perdoou de teu pecado, não morrerás.
O Senhor levou o pecado de Davi, e Natã, o disse que não iria morrer. ‘Morrer’ nesse contexto significa que ele não iria morrer eternamente, ou seja, perecer no inferno. A culpa do pecado foi perdoada porque Davi se arrependeu verdadeiramente e se transformou a partir dai. Mas isso significa que tudo foi acertado? Não, pois plena satisfação por seu pecado mortal não tinham sido feitas. Lemos em 2 Samuel 12:14-15 que Davi teve de sofrer a perda de seu próprio filho para fazer satisfação por seu pecado, um pecado que já havia sido perdoado.
2 Samuel 12:14-15 “… Todavia, como desprezaste o Senhor com essa ação, morrerá o filho que te nasceu. E Natã voltou para sua casa. O Senhor feriu o menino que a mulher de Urias tinha dado a Davi, e ele adoeceu gravemente.”
Isto fornece prova inegável de que a culpa de um pecado de um crente pode ser perdoada sem que a completa punição seja levada apenas pelo arrependimento. O Concílio de Trento colocou a questão desta forma:
Papa Júlio III,
Concílio de Trento, sobre o Sacramento da Penitência, Sess. 14, cap. 8, 25 de novembro de 1551 – “… é absolutamente falsa e contrária à Palavra de Deus que a culpa [do pecado] nunca é perdoada pelo Senhor, sem que a devida punição também receba remissão. Pois exemplos claros e ilustres encontram-se nos Escritos Sagrados [cf. Gênesis 3:16 f; Num. 12:14; Nm 20:11; II Reis 12:13 ss; etc].” (Denzinger 904).
Há várias referências à existência do purgatório no Antigo Testamento, bem como outras referências no Novo Testamento, mas, como visto em 1 Coríntios 3:12-15, o conceito de Purgatório é ensinado nas Escrituras e foi aceito pelos primeiros cristãos. Mas por que os antigos cristãos acreditam no purgatório e até oravam para os mortos? Faziam-no, obviamente, porque não se trata de uma doutrina inventada pelos homens, mas de uma noção claramente ensinada nas Escrituras, e também porque esse ensinamento fazia parte da tradição recebida dos Apóstolos.
Por Ellen Cristine Walker – Pertencente ao Apostolado Paraclitus e Criadora do Blog Igreja Militans
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Vida religiosa é a vocação de pessoas que vivem em pequenas comunidades, numa congregação religiosa, fazem os três votos: de castidade, de pobreza e de obediência (algumas fazem um quarto voto, que varia de congregação para congregação) e obedecem a um superior local, que, por sua vez, obedece a um superior regional e nacional.
Muitos jovens me perguntam pelo facebook como fazer para entrar na vida religiosa.
Eu lhes respondo, com algumas variações, isto que segue:
A primeira coisa é ter amizade, entrosamento e participação na paróquia em que você vive.
A segunda é ter uma vida de oração, não de orações rápidas, mas um pouco mais prolongada. A oração é a base da vida religiosa.
Terceiro, tem que saber obedecer. Quem tem dificuldades para obedecer não dá certo na vida religiosa.
Quarto, é preciso saber controlar os instintos, já que a vida religiosa não tira as tendências de ninguém. Por toda a vida, até mesmo na velhice, os instintos continuam vivos.
Quinto, é preciso ter certeza de que você não está buscando a vida religiosa para fugir de si mesmo (timidez, preguiça de trabalhar, comodismo) ou de alguma coisa exterior (incapacidades, defeitos, frustrações, falta de emprego etc).
É bom conversar com um religioso aí de perto de você sobre o assunto, e ser sincero para com ele.
A vida religiosa não é brincadeira, não é algo romântico como se apresenta em alguns filmes, como o “Irmão Sol, Irmã Lua”, de Franco Zefirelli.
Durante o seminário menor de uma congregação missionária eu ouvia falar muito das missões de modo poético. Havia um livro de poesias missionárias muito bonito, mas o autor mesmo do livro deixou o sacerdócio, casou-se e morreu no ano passado, bem idoso.
Uma de suas poesias era “O Barco da Madrugada”, que até foi musicada. Eu me lembro apenas de algumas palavras: “O barco da madrugada, vai me engolfar noutro mar. Direi adeus pátria minha, o último adeus talvez. E se Deus quiser que eu não volte outra vez, meu coração te deixo, ó Mãe Celestial. Não tenho medo das águas, nem fúrias do furacão. É sorte a quem os céus busca achar sua tumba no mar”.
O jovem era levado por essas poesias e fantasias sobre a vida religiosa e se decepcionaria, mais tarde, ao ver que ela é feita de pessoas humanas limitadas, e muita renúncia. É fácil imaginar uma vida bonita, dedicada a Deus, baseada na renúncia, mas é difícil praticar essa vida. A natureza humana é muito forte e nos arrasta para a “sensualidade”, como diz Santa Catarina de Sena, até a mais extrema velhice.
Vemos pessoas que vivem a vida religiosa falarem dela com prazer, como algo sublime, mas, se entrarmos em sua vida íntima, veremos quantas provações aquela pessoa vive para se manter intacta. Sobretudo, é necessária muita oração.
A alegria de quem segue sinceramente esse tipo de vida é autêntica. Realmente, quando nos santificamos na vida religiosa, sentimos uma paz profunda e inexplicável, mesmo com os problemas e sofrimentos do dia a dia. Quando “nós nos temos em nossas mãos”, como dizia Dom Luca Moreira Neves no retiro de minha ordenação sacerdotal, ou seja, quando vivemos de modo a dominarmo-nos plenamente, a alegria é constante em nossa vida, por mais árido que seja o ambiente em que vivemos.
Mais uma vez repito, esse auto domínio, baseado no que Santa Catarina de Sena chama de auto conhecimento (só tem um auto domínio quem se conhece plenamente e humildemente assume suas fraquezas para melhor dominá-las), só é conseguido pela oração humilde, pela sinceridade em nos apresentarmos a Deus como somos realmente, com todas as quedas e fraquezas, e não como gostaríamos que fôssemos.
Em resumo: quem abraça a vida religiosa pensando que é forte e que vai conseguir santificar-se sozinho e com pouca oração é, no mínimo, ingênuo. Só com a ajuda de Deus é que podemos nos santificar. Sozinhos, nada conseguiremos. Por isso é que é preciso que antes de se doar a uma vida dessas, a pessoa reflita se tem verdadeiras condições psicológicas, físicas e espirituais para isso.
Eu explicaria assim aquela parábola de Jesus sobre o construtor que começa a casa e não pode terminá-la porque faltou dinheiro. Ele termina a história dizendo: “"Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo." (Lucas 14, 33). Muitas vezes vamos ter que renunciar às próprias ideias para podermos progredir no caminho da santidade. Deus sabe melhor do que nós do que realmente precisamos.
(06/09/15)
O “belo” está presente em muitas coisas: nas flores, nas músicas, nos filmes, nas pinturas, na arte em geral, nos animais, no pôr-do-sol, na natureza, nas crianças.
Entretanto, muitas dessas nossas apreciações não resistem ao tempo: tendem não só a não nos mostrar mais o “belo”, mas até mesmo chegam a nos enfadar ou a nos cansar ao vê-las ou ouvi-las.
Isto ocorreu comigo. Eu havia “perdido” muitas fitas de áudio e vídeo de minha juventude e, sem esperar, os recuperei recentemente, num baú, num quarto de bugigangas nunca procuradas.
Ouvi e vi algumas dessas gravações que ainda funcionavam e decepcionei-me: não me levaram a nada, com apenas poucas exceções.
Percebi, então, que, à medida em que vamos nos acostumando com a oração e a busca de Deus, vamos também nos desapegando dessas manifestações estéticas externas.
O contato com Deus, o único verdadeiro “Belo” que existe, é a única beleza que não cansa, que realmente nos satisfaz. O “belo” o mundo é apenas uma “amostra grátis” do Belo que nos está reservado no paraíso, acompanhado da alegria, da paz, do êxtase diante do divino.
O Beato Irmão Carlos de Foucauld, que vivia em Tamanrasset, no deserto, e em Assekren, dizia, a respeito da contemplação do Belo: “Os ocasos, aqui no deserto, são tão calmos, as noites são tão serenas, esse grande céu e esses vastos horizontes meio iluminados pelos astros são tão pacíficos e cantam silenciosamente de maneira tão penetrante o Eterno, o Infinito, o além, que eu passaria as noites inteiras nessa contemplação. Entretanto, abrevio essas contemplações e volto depois de poucos instantes diante do tabernáculo (onde está Jesus Eucarístico), porque ali tenho muito mais no humilde tabernáculo. Nada é comparável ao Bem Amado (Jesus). (Carta. Texto tirado do livrinho “Um pensamento de cada dia”, do dia 9 de dezembro)
Muitas vezes nós buscamos a beleza em locais onde nunca a encontraremos. Até poderemos encontra-la, mas será efêmera, apenas momentânea. Outras vezes, buscamos belezas e prazeres ilusórios, que nos levam ao pecado, seguido da dor e do remorso e até da perda da saúde ou acidentes.
Deus nos criou e sabe o que é melhor para nós: ele próprio. Quanto mais O buscamos na oração, na contemplação, no atendimento ao próximo, mais nos satisfaremos com o verdadeiro Belo, que nunca nos será tirado e nunca nos deixará frustrados.
As músicas, os filmes, os prazeres, nunca nos darão satisfação completa. A beleza de Deus, que nos será revelada numa vida de busca da santidade, nunca nos abandonará e sempre nos trará a paz. Sempre!-
Pe Alfredo Gonçalves, Carlista
Assessor das Pastorais Sociais
Natanael permanece uma figura um tanto quanto obscura nas páginas no Novo Testamento. No capítulo primeiro do Evangelho de João, além do mais, ele se revela meio desconfiado, descrente quanto à possibilidade de "sair coisa boa de Nazaré”. Assim mesmo, ele segue Felipe que o pretende apresentar a Jesus. Esta curiosidade aparente revela o contexto religioso e cultural do Povo de Israel em sua longa espera pelo Messias. É um povo que há séculos espera pelo salvador, que depositou sua esperança nos reis e foi por eles desenganado, traído. Transferiu então sua expectativa para um enviado de Deus, o qual, conforme as Escrituras, haveria de nascer da descendência de David e ser o verdadeiro Messias.
João Batista, último profeta da antiga aliança e primeiro da aliança nova, indica o Cordeiro de Deus que "haverá de tirar o pecado do mundo”. É o profeta da transição, na encruzilhada entre o passado e o futuro de Israel. Reuniu um punhado de discípulos, mas, após sua própria revelação, alguns deles deixam-no para seguir a Jesus. De fato, "era necessário que eu diminuísse para que ele crescesse”, pois, "eu sou apenas a voz que clama no deserto”. E mais, "não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias”. Natanael pode muito bem ser um dos discípulos do precursor que passa a seguir o novo Mestre: instigado pelos relatos dos companheiros, vai ao encontro desse ilustre desconhecido.
1.Jesus e Natanael
Retomando o Quarto Evangelho, vendo Natanael aproximar-se, Jesus comenta: "Eis aí um israelita verdadeiro, sem falsidade”. Qual não terá sido a reação do desconfiado Natanael! Nunca havia visto aquele estranho. Como podia falar desse modo? Não lhe havia autorizado semelhante intimidade. Por isso a pergunta intrigada e instigante: "De onde me conheces”? E a resposta de Jesus, igualmente surpreendente, chega a ser espantosa. Talvez não para nós hoje, que já estamos familiarizados com as frases taxativas do Evangelho, mas com certeza para o pobre Natanael: "Antes que Felipe te chamasse, eu te vi debaixo da figueira!”
Vale uma pausa para especular o sentido da figueira para Natanael. Não seria ela o lugar oculto onde ele se escondia de tudo e de todos, particularmente nos momentos duros e difíceis, nas tribulações mais pesadas da existência? Não seria o recanto obscuro onde se refugiava nas horas de raiva, de tristeza, de angústia ou de revolta? Quem sabe ali derramava suas lágrimas mais ardentes, curtia seus medos e dúvidas mais pungentes, arrancava os cabelos diante da impotência! Não será a figueira o lugar simbólico do retiro, onde, a sós com a própria turbulência, Natanael engolia em seco os soluços amargos de suas situações-limite? E é justamente ali que o Senhor afirma tê-lo visto! Tantas coisas e momentos de sua vida podiam e mereciam ser mencionadas com maior razão, mas aquele olhar, ao mesmo tempo estranho e penetrante, vai descobri-lo logo debaixo da figueira!
Também nós passamos por desertos estéreis, por noites escuras, por becos sem saída. São os momentos em que não queremos ver nada e ninguém. É quando o desespero bate à porta e gememos: até aqui eu caminhei só, agora me carrega, Senhor, porque não agüento mais! Por isso, queremos ficar a sós conosco mesmos, para não expor em praça pública a dor, o pranto ou a tormenta que inunda todo nosso ser. Ou seja, também nós temos nossa própria figueira, ou nossos momentos de figueira – refúgios para onde fugimos com uma tempestade no coração e na mente, à procura de alguma resposta. Quem já não passou por tais momentos de sofrimento sem remédio!
Numa palavra, a figueira é simbolicamente o lugar da nudez. Lugar em que Natanael se encontra consigo mesmo, com suas fraquezas e debilidades, com sua condição humana mais mesquinha e impotente. É a partir dessa experiência que Jesus o chama. Tendo passado pela figueira e tido a coragem de encarar-se a si mesmo, ele está preparado para identificar e compreender as dificuldades dos outros. A figueira alarga o leque de nossa compaixão para com as dores e situações difíceis dos outros. Ao revelar nossa debilidade, relava igualmente a debilidade de cada ser humano, junto com a necessidade de misericórdia para com as fraquezas alheias. Por isso Natanael está preparado para ser discípulo missionário. Tendo encontrado e si mesmo e ao Mestre, pode partir em busca dos que se sentem órfãos e sós, abandonados e perdidos.
Conhecendo-se a si próprio, possui elementos para conhecer os demais. Vendo-se no espelho da figueira, aprende a enxergar de maneira distinta as quedas de cada ser humano. Afinal, a exemplo do vaso, é na queda que o homem revela sua resistência. A figueira como espelho do autoconhecimento e da própria nudez é também uma janela aberta para conhecer a trajetória e a nudez das daqueles que nos cercam. Natanael aprendeu a desconfiar de si mesmo e de suas próprias forças, de sua auto-suficiência, arrogância e prepotência. Por outro lado, aprendeu a confiar naqueles que, de alguma forma, o ajudaram a sair da figueira. E mais ainda, a confiar no Deus oculto que, com fios invisíveis, vai tecendo o pano de fundo onde se fortalece o futuro apóstolo. Em síntese, a figueira desnuda, mas também nutre e enriquece o germe da vocação. Torna-a sempre mais adulta.
2.Trajetória vocacional
Um olhar retrospectivo à própria vocação pode nos ajudar a identificar os momentos de figueira e a forma como dele saímos. Podemos identificar também quem esteve ao nosso lado e nos ajudou a retomar a estrada. Entende-se vocação não como um ato isolado da vida, mas como uma atitude que nos acompanha ao longo de toda a existência; não como um evento fugas e mágico, e sim um processo de aprendizado e amadurecimento. Vocação é dom, mas é também busca; é chamado, mas é também resposta; é intuição, mas é também construção lenta e laboriosa.
Aqui não há magia, nem uma voz estranha que chama no meio na noite: "Samuel, Samuel!”. Isso é poesia, uma forma literária de descrever a vocação. Esta nasce em meio a circunstâncias bem precisas, sejam elas pessoais e familiares ou socioculturais e históricas. Às vezes tem até mesmo um início prosaico, folclórico, como o caso do padre que entrou no seminário porque odiava as formigas na roça da família, ou daquela irmã atraída mais pela forma e cor do hábito do que pelo serviço sacerdotal ou o carisma da Congregação; e ainda, daquele padre que entrou no seminário porque alguma enfermidade o tornou inadequado para o trabalho pesado na terra. São muitas e muito variadas as histórias semelhantes. Deus recorre a meios bem circunstanciais para impulsionar uma pessoa ao entusiasmo por sua obra.
O dom, o chamado e a intuição, posteriormente, vão amadurecendo mediante incertezas e interrogações constantes. Aliás, a fé nasce e cresce no terreno árido, escuro e inóspito da dúvida. É então que começam a ocorrer os momentos de figueira na trajetória de nossa vocação. Crises que semeiam receios e interrogações. Perguntas se levantam com a força de águas represadas, faz-se noite escura, desconfiamos de nós mesmos e do caminho iniciado, recorremos ao isolamento, não queremos encontrar ninguém. Implícita ou explicitamente, o silêncio e a reflexão tomam conta de nosso interior. É hora do encontro consigo mesmo, do espelho, da coragem de enfrentar-se. O embrião vocacionado, frágil e delicado, vê-se batido pelo sol, pela chuva e pelo vento de todas as formas de intempéries.
Tais momentos críticos podem fazer-nos recair no berço. Como toda crise, a da figueira também é ambígua: pode prostrar-nos num saudosismo estéril e ineficaz, mas, por outro lado, pode conduzir-nos aos novos desafios da fronteira. Todos, por mais crescidos que sejamos, nutrimos uma saudade inconsciente pelo colo da mãe, pelo paraíso perdido. Mas essa mesma saudade, quando amadurecida pela experiência, pode projetar-nos para diante, na conquista da terra prometida. Melhor dizendo, em geral a crise, num primeiro momento, leva-nos ao berço, deixando aí os fracos; num segundo momento, porém lança os fortes à encruzilhada. Esta simboliza o lado positivo da crise. É quando a fuga se converte em nova busca, pois encruzilhada pressupõe bifurcação de caminhos e a necessidade de fazer escolhas. E toda escolha implica uma renúncia. Neste caso, a crise é dolorosa, sim, mas extremamente fecunda. No GrandeSertão de nosso destino desconhecido, Deus irrompe e nos chama a abrir novas Veredas, diria o grande escritor Guimarães Rosa.
Em seu momento negativo, porém, a crise contém revolta, choro, incompreensão e medo. É o caso de Elias que, cansado de tudo, deita e dorme um sono profundo para escapar da própria missão; ou então Jeremias que, diante de tantas adversidades, maldiz o dia em que veio à luz; e ainda Jonas, o qual, ao ser chamado a profetizar em Nínive, foge de Deus e de todos, até ser engolido por um grande peixe, o que na linguagem simbólica quer dizer regressar ao ventre materno. Em meio à tormenta da dúvida e da incerteza, impera a tentação de anular-se. O melhor mesmo seria nem ter nascido! São momentos cruciais que nos levam à beira de um precipício. Mas é justamente aí, onde a indigência é mais severa e aguda, que se torna mais significativa a presença de Deus. Presença ausente, jamais indiferente. "Onde abundou o pecado, maior se manifestou a graça”, diz o apóstolo Paulo (Rm 5,12).
Em outras palavras, no fundo do poço e da desesperança, Deus se revela e deixa, no caminho de nossa história, suas pegadas misteriosas. Envia um de seus anjos: ao profeta Elias, o anjo oferece pão e água, porque "o caminho é longo”; ao lamento de Jeremias, dá-lhe forças para seguir profetizando mesmo contra os que o perseguem; quanto a Jonas, lhe reconduz a Nínive para exercer sua tarefa negada e interrompida. E a Natanael, o olhar retrospectivo de Jesus lhe confere a certeza de ter achado quem procurava e coragem para seguir adiante. Um toque de Deus, um anjo estranho e peregrino, sobrevoa a nuvem sombria da crise, e aponta novos horizontes. Tal como a estrela de Belém, o anjo indica o caminho para o seguimento de Jesus Cristo, e para a divulgação de sua Boa Nova. Conclui-se que o fundo do poço, se não significar o fim, será necessariamente o começo de uma nova subida.
O mesmo ocorre com nossa própria vocação. Estamos todos em idade suficiente para termos vivenciado algum tipo de crise. Não pequenas pedras no meio do caminho, mas um abismo que nos tira o chão debaixo dos pés. Parafraseando Simone de Beauvoir, é como se as estrelas se tivessem apagado no céu e os marcos desaparecido da estrada. Sabemos o que significa o momento difícil da figueira. Bastará, entretanto, um resgate da trajetória vocacional de cada um, para dar-se conta que algum anjo de Deus apareceu, e nos ajudou a sair da encruzilhada para seguir adiante. Esse anjo pode ser um familiar, um amigo, um superior, uma situação extrema de pobreza, um momento pessoal de fracasso, até mesmo um desconhecido... Trata-se, enfim, de um alerta à lei da inércia, que nos acomoda num torpor inativo. Um alerta provocado, normalmente, pelas pessoas e circunstâncias mais variadas e inesperadas. E que nos sacode, enxuga as lágrimas, levanta-nos o ânimo e nos põe novamente em marcha.
3.Beber do próprio poço
Tomar nas mãos a história da própria vocação é dar-se conta que ela foi visitada muitas vezes pela mão invisível de Deus. Mão invisível que se faz visível através de uma palavra ou de um olhar de encorajamento, de uma visita ou um toque de algum companheiro, de uma realidade gritante e clamorosa. Refaz-se, assim, o chamado e este requer uma nova resposta. O dom de Deus se mantém sempre presente, mas exige busca renovada, dados os desafios que a realidade nos apresenta a cada momento. A intuição primordial reluz como uma estrela em meio às trevas, mas deverá ser complementada por um trabalho contínuo. A vocação, tal como a semente lançada à terra, necessita de um cultivo permanente. Como bem sabemos, trigo e cizânia nem sempre andam separados. O mais comum é crescerem juntos. "Tudo é muito misturado”, constata Riobaldo Tartarana, personagem de Grande Sertão, Veredas.
É desse modo que o processo vocacional, em nossa vida, dura noventa e nove anos... Ou seja, toda uma existência, praticamente desde o berço até túmulo! Se nossa trajetória vocacional foi sempre visitada por Deus, de modo particular nas horas de maior dúvida e angústia, trata-se agora de revisitá-la. Não de forma negativista como ocorre na maioria das vezes, mas positivamente. Somente desse modo nos damos conta das numerosas ocasiões em que a presença de Deus marcou nosso avanço, penoso e aos tropeços, sem dúvida, mas progressivo. No confronto com o episódio de Natanael, percebemos que, se o olhar de Jesus nos momentos de figueira esteve comigo até hoje, não será a partir de agora que irá me abandonar. Engendra-se e cresce, assim, uma confiança nova e inabalável, não em minhas forças ou méritos, mas na graça de um Deus infinitamente misericordioso.
Quando somos capazes de identificar os anjos que nos fizeram redescobrir a vocação e notamos que o Senhor se manifestou em nossa vida através deles, então a história vocacional ganha enorme relevância. Torna-se uma fonte de água viva para os próximos passos e embates da vida. Passamos a "beber do próprio poço”, para utilizar a expressão de Gustavo Gutierrez. Como o exemplo da árvore do sertão e do agreste: quando a seca aperta, ela se alimenta dos nutrientes acumulados na própria raiz. Também aqui, como no caso de Natanael, as visitas à figueira nutrem, vivificam e fortalecem a própria vocação. Desnudam e escancaram nossa fraqueza, fragilidade e impotência, mas, ao mesmo tempo, revelam a mão de Deus agindo através destes "vasos de barro”, como diz o apóstolo Paulo (2 Cor 4,1-6).
A simbologia da figueira, que aparecia como um deserto árido, estéril e inóspito, se descortina como um terreno fecundo e fértil. A luz brilha mais forte onde a noite se faz mais escura, a flor é mais bela quando mergulha as raízes no esterco. Também a exemplo de Natanael, abre-se o leque de nossa compreensão frente às crises alheias. Ao espelhar minha condição de pobreza, a figueira espelha simultaneamente a condição real de todo ser humano. E nos predispõe para a compaixão e a misericórdia. Vale dizer, nos predispõe para um seguimento cada vez mais adulto dos caminhos do Mestre. Amadurece nossa vocação de discípulos missionários a serviço da vida.
2015
Nossa ação provoca a ação de Deus. Nós damos o primeiro passo para respondermos ao convite de Deus em determinada ação e Deus faz o resto.
Vemos isso em inúmeros textos bíblicos, mas veja Mateus 8,2: “ Senhor, se queres, tens poder para purificar-me!”
E, logo em seguida, em Mateus 8,5-13, o centurião confiou no poder de Jesus e teve sua iniciativa de procurá-lo. Sua confiança e humildade eram tantas que nem exigiu a presença de Jesus: “Basta, Senhor, uma palavra vossa e o meu criado ficará curado!”
Jesus sabe qual é a nossa intenção quando lhe pedimos algo. Diz o comentário da Bíblia de Jerusalém: “Jesus não pode realizar o milagre quando não encontra a fé que lhes pode dar o verdadeiro sentido, como em Mateus 13, 58: “ E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles”.
“A fé é difícil gesto de humildade que muitos se recusam a fazer, porque exige um sacrifício do espírito e de todo o ser” (comentário de Mateus 8,10).
Mais: “A fé, quando forte, opera maravilhas, alcança tudo, particularmente a remissão dos pecados e a salvação da qual é a condição indispensável” (idem).
Entretanto, devemos sempre buscar também a ajuda médica. Muitas vezes Deus nos cura a parte vamos dizer “incurável” pela medicina, da doença, mas não cura a parte “curável’ pela medicina.
Isso aconteceu com um amigo: recebeu a cura de uma parte da doença, e fez a operação para poder curar a outra parte, que era curável. Só recebeu a cura da parte que ainda é incurável.
O título deste texto se refere à ação catalizadora que exercemos na ação de Deus.
Catalizador é uma substância que provoca a reação da outra, como aqueles dois tubinhos de cola que vêm juntos: um deles só cola se for misturado com o outro.
Desse modo, quando nos arriscamos, quando agimos, Deus também age a nosso favor. É melhor arriscar e aparentemente (é só aparentemente) não conseguir, que nunca arriscar.
Dois sapos caíram, cada um numa jarra de leite. O que se arriscou se debater, buscando uma solução, pôde sair, porque o leite, de tanto ser batido por ele, se tornou manteiga. O outro morreu afogado, pois não quis se arriscar (desculpem, não encontrei no momento outra historinha melhor).
Arriscar-se nos traz muitos dissabores, e mesmo a morte ou prisão, mas é o único gesto que provoca a ação divina. Lembremo-nos sempre que qualquer ação nossa de boa vontade já é uma resposta ao convite que Deus nos fez antes mesmo do nosso nascimento, como diz Jeremias 1,5ss: “Antes mesmo de te modelar no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio de tua mãe eu te consagrei e te constituí profeta para as nações”. Isaías diz a mesma coisa no capítulo 40.
No Apocalipse 3,20, Jesus nos pede que abramos a porta de nosso coração, em que ele está batendo, para que possa entrar. Ele pode entrar em qualquer lugar, menos em nosso coração. Ele respeita a nossa liberdade.
O início de qualquer cura só acontece quando a pessoa toma conhecimento de seus limites e fraquezas e se aceita. Há pessoas, por exemplo, que não aceitam o próprio envelhecimento e acabam não aproveitando as coisas boas da velhice.
Disse D. Pedro Casaldáliga: “Deus nos aceita como somos para transformar-nos naquilo que Ele quer que sejamos”. E é a mais pura verdade. Precisamos estar sempre com os pés nos chão. Dizia também D. V. Tepe: “O bom-humor a respeito de nossos defeitos é uma faceta da humildade”.
A base da humildade está em reconhecermos e aceitarmos os nossos limites. À medida que formos nos conhecendo e nos aceitando, passamos também a conhecer e aceitar a Deus e aos demais, pois somos todos feitos à imagem e semelhança de Deus e somos irmãos. Na parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,10-14), este foi ouvido por Deus porque reconheceu sua insignificância. Diz também Mt 23,12: “E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado”. Também Tiago 4,6 e 1° Pd. 5,5. Em João 22, 29-30: “Deus salvará ao humilde e livrará até ao que não é inocente”.
Quando somos humildes e nos aceitamos, nunca precisamos mentir para esconder nossa origem pobre, ou esconder a falta de capacidade em relação a isto ou aquilo. Isto quer dizer que se você não tem capacidade para fazer determinada coisa, assuma esse fato! Se seus pais são pobres e analfabetos, assuma esse fato! Se você nunca viajou a lugar algum, e esse for os assunto numa roda de amigos, mão minta! Você vai se sentir bem melhor, e não vai precisar inventar uma mentira para encobrir outra. Não queria mostrar ser o que não é. Ouça as aventuras dos amigos e nunca faça comentários irônicos e negativos das coisas que eles fizeram e você nunca fez.
Nós talvez não sabemos fazer o que os nossos amigos sabem, mas temos as nossas qualidades. Qualquer pessoa no mundo sabe fazer uma outra coisa. “Aquela senhora que mora naquela esquina é pobre, analfabeta, mas ninguém faz, como ela, bolinho de bacalhau! O que faz é delicioso! O marido dela não sabe pintar paredes, mas é o melhor colocador de piso que eu conheço”.
É o que diz Lc 16,10: “Quem é fiel nas coisas mínimas, é fiel também no muito”. Ou então Mt 25,23: “Sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei”.
Jesus escolheu apóstolos entre pessoas que não tinham capacidade alguma. No A.T., Isaías achava-se indigno para ser profeta, mas Deus purificou-o e enviou (Isaías 6, 1-9). Elias, após ter matado 450 profetas de Baal, quis desistir e morrer, mas Deus reanimou-o, forçando-o comer pão e beber água, e ali segui a jornada (1° Reis 19, 8-15 e 17, 2-5) Jeremias quis desistir em Jer 20, 7-9, mas dizia que, ao tentar fazer isso, sentia o amor de Deus percorrer-lhe os ossos, como um fogo. Deus não aceitou sua desistência. S. Paulo disse ser “o menor dos apóstolos, e não sou digno de ser chamado apostolo” em 1° Cor 15, 9. S. João Batista disse não ser digno sequer de desatar as correias das sandálias de Jesus, em João 1, 27.
Maria diz em Lc 1, 48 “Deus olhou para a baixeza (= humildade, insignificância) de sua serva; pois eis que desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada”. Aceitar-se a si mesmo, conhecer-se profundamente, é a maior fonte de paz e alegria que uma pessoa pode desfrutar. Rir-se dos próprios defeitos é o melhor método de vencê-los!
Deus nos ama como somos. Aceitando-se como se é, a pessoa vai também aceitar em sua vida o próprio Deus e as demais pessoas, como elas são! Quando alguém lhe apontar algum defeito seu, antes de zangar-se, procure meditar sobre isso. Talvez o amigo tenha razão.
“Prefiro uma careta sincera a um sorrido fingido”. Ou, como diz Sto. Agostinho: “É melhor andar mancando no caminho certo do que correr no caminho errado”.
A vida é processo de construção, porque ninguém nasce pronto. É a história trabalhada com critérios de humanização, de evidência dos direitos e deveres, inerentes à pessoa humana. A capacidade para decidir define o formato de vida dos indivíduos, fonte de satisfação ou de sofrimento. Os critérios não podem ser apenas racionais, mas fundamentados também numa dimensão sobrenatural.
As ações humanas não se restringem simplesmente em palavras, discursos e motivações infundadas. Elas vêem de dentro da pessoa e têm identificação com seu próprio ser, sua identidade e se externiza na prática concreta do bem construído. Normalmente a pessoa é fruto do tipo de semente que foi plantada e regada. Até dizem que se conhece a árvore a partir do tipo de seus frutos.
O que dá verdadeiro sentido para a vida humana é a fé no Deus da vida, naquele que, em Jesus Cristo, foi capaz de morrer como uma semente e nascer para a eternidade. É o humano que, em suas ações, consegue atingir a perfeição total e conquista a vitória da vida no meio de variados cenários de morte. Só Deus é capaz de transformar a morte das pessoas em vida feliz para sempre.
É fundamental entender o aspecto e a realidade da vida humana, de suas ações, para que o humano se torne divino. Existe um destino universal para toda a criação, que é chegar à plena realização da vida, mas não se consegue isso praticando atos de destruição e disseminação da pessoa humana. Quem maquina e provoca morte deverá enfrentar o julgamento final de Deus.
A irresponsabilidade nas ações humanas pode causar consequências desastrosas. Grande parte dos acidentes é causada por falhas humanas. Não investem o suficiente para evitar catástrofes, como o de Mariana e Brumadinho. Significa que muita coisa de destruição acontece porque as ações são caracterizadas como desumanas, sem sentido cristão do cuidado com o próximo.
Cada pessoa deve fazer uma autocrítica de seus atos. Há sempre a capacidade de mudança de vida, de agir diferentemente, canalizando as próprias ações para construir o bem, progredir sempre mais e evitar a mediocridade. Assim a pessoa se define a partir de seus atos e relacionamentos, constrói seu processo de vida e faz encontro consigo mesmo, com os outros e com Deus.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.
Redação - (Sexta-feira, 29/01/2016, Gaudium Press) - Após o pecado original e o consequente enfraquecimento da natureza humana, a inquietação do espírito pode derivar-se da desordem das paixões, fascinadas por algo que não é lícito. Mas, há outro fator: "o demônio, vosso adversário, anda ao redor, como um leão que ruge, buscando a quem devorar" (I Pe 5, 8). Inúmeras vezes, é ele quem provoca na alma estados de perturbação, aguçando ainda mais as más tendências. Como Lúcifer e seus sequazes não cumpriram a finalidade para a qual foram criados, por se terem revoltado contra Deus, buscam a todo custo a mesma desgraça para os homens com o intuito de privá-los das alegrias da eterna contemplação.
São Francisco de Sales qualifica o frenesi como o maior mal que pode sobrevir à alma, depois do pecado:
Porque assim como as perturbações e sedições interiores de uma república a arruínam por completo e a embaraçam a ponto de que não possa resistir ao estrangeiro, assim o nosso coração, estando perturbado e inquieto em si mesmo perde a força de conservar as virtudes que tinha adquirido e ao mesmo tempo o meio de resistir às tentações do inimigo. [1]Com efeito, o demônio procura exacerbar essa debilidade, utilizando-se da agitação constante, especialmente propagada com a Revolução Industrial.
Revolução Industrial: a embriaguez da agitação
É inegável que o desenvolvimento da tecnologia e da ciência geram inúmeros benefícios e facilidades para a sociedade contemporânea. Com efeito, seria um absurdo se, ainda nos dias atuais, as cirurgias fossem realizadas sem o uso de anestésicos, se para o envio de uma carta fossem utilizados os famosos "pombos-correios" ou, para deslocar-se de um país para outro, não houvesse outro meio senão empreender uma longa viagem marítima ou a cavalo.
Entretanto, muitas vezes, pelo mau uso de tais tecnologias e máquinas, surgem problemas bastante complexos, cuja existência talvez nem seria cogitada em épocas anteriores. Um efeito devastador desse mau uso foi o fato de esse espírito prático, fortemente tendente à velocidade, à agitação e, consequentemente, ao esquecimento do sobrenatural, ter penetrado na alma humana e afetado todo o seu modo de ser.
A máquina - a "alma" de quase toda técnica - tende a sujeitar inteiramente a seu ritmo mecânico todo o trabalho humano. E mais do que o trabalho as diversões, a vida de família, toda a existência. Em todos os domínios, o homem vai se utilizando cada vez mais largamente da máquina, e aceitando adaptar-se a ela, para fruir as vantagens que ela proporciona. Nestas condições, a influência da máquina tende a penetrar nas esferas mais delicadas e mais altas da vida humana, isto é, tende a criar um estilo de vida, um modo de conceber os problemas e de os resolver, uma mentalidade enfim, inteiramente mecanizada. Homens estandardizados, com ideias e gostos padronizados, imersos num estado de espírito de um tédio sombrio, displicente, pesado, cheio de fadiga, interrompido apenas pelas excitações delirantes do cinema, da televisão, do rádio, ou das "torcidas" esportivas.[2]
Até o século XIX, podia-se afirmar que a maior parte das pessoas ainda levava uma vida muito estável, penetrada, em muitos aspectos, pelos costumes tradicionais e carregados de simbolismo das civilizações anteriores. Contudo, o surgimento das indústrias e a realização de tantos avanços científicos e tecnológicos contribuiu decisivamente para que se operasse uma mudança radical nas mentalidades e no modo de viver de toda sociedade. O "progresso" e o "desenvolvimento", tão difundidos desde o final do século XVIII, prometiam uma era de paz e segurança, na qual o homem seria o rei absoluto de si mesmo e de suas ações.
Essa brusca transformação da cultura e dos ambientes causada pela Revolução Industrial exerceu uma profunda ação sobre as tendências humanas, pois "os ambientes [o mesmo pode ser aplicado à cultura], na medida em que favorecem os costumes bons e maus, podem opor à Revolução as admiráveis barreiras de reação; ou [...] podem comunicar às almas as toxinas e as energias tremendas do espírito revolucionário", [3] que incentivam a revolta das paixões.
Com as tendências amortecidas, torna-se mais fácil ao homem a aderência aos fatos que se concretizam depois. Por isso, ao longo do processo de industrialização, rapidamente se consolidou e difundiu o mito de que o homem, por si só, era capaz de produzir coisas extraordinárias e numerosas, independentes de Deus. O otimismo contaminou de tal maneira os espíritos que despertou neles uma crescente apetência de fruição e um verdadeiro horror ao recolhimento e ao sacrifício.
Pode-se acrescentar ainda a ação do demônio que, aproveitando-se deste estado de espírito reinante, começou a propagar a ideia de que a máquina e a velocidade podem proporcionar ao ser humano a plenitude do gozo, dando a entender que "a excitação era a única forma de gozar a vida".[4]
O desejo da novidade passou a ser, então, o dogma da sociedade contemporânea, levando o homem a se cansar rapidamente das coisas, querendo continuamente substituí-las por outras, o que o tornou incapaz da estabilidade e, portanto, do estado espírito exigido pela contemplação. Esta, junto com muitas outras práticas da Religião, foi sendo cada vez mais relegada a um segundo plano, até se dissociar completamente da vida cotidiana:
No fundo, tratava-se de um laicismo que não consistia apenas em silenciar os temas referentes a Deus e ao mundo sobrenatural, mas em apresentar uma visão das atividades do homem diante da qual a Religião era considerada uma coisa com la quale o senza la quale il mondo va tale e quale[com a qual ou sem a qual o mundo continua tal e qual].[5]
Quebrava-se assim, de forma mais ou menos explícita, a necessidade da relação que deve existir entre as criaturas contingentes e o Criador, resultando no mundo pragmático e materialista de nossos dias.
De fato, aquilo que satanás promete, é exatamente o que vai tirar: as promessas de paz e segurança. Basta frequentar qualquer um dos grandes centros urbanos do mundo contemporâneo: em vez de paz, encontra-se agitação; em vez de realização, frustração e infelicidade quase irreversíveis. A alma que voluntariamente se entrega a este estado de espírito se expõe a receber constantes influências malignas.
[...] há um barulho, um ruído ensurdecedor no mundo que seduz as pessoas e estas, em tais condições, não escutam a suave voz do Divino Mestre. Esse barulho, embora possa ser tomado no sentido material da palavra, antes de tudo significa o tumulto das paixões humanas desordenadas que nos levam a agir e a nos movimentarmos de maneira igualmente desordenada. Donde uma espécie de perturbação difusa nas grandes cidades, uma agitação da vida moderna e seus acontecimentos, que embriagam e fascinam imensa parcela dos habitantes dos maiores centros urbanos. Ora, enquanto houver numa alma esse deleite com o tumultuar do século, algo da delicada voz de Nosso Senhor Jesus Cristo não chegará até ela. Nesta sua lamentável surdez irão esbarrar e se deter as inspirações da graça. [6]
Como diz a Sagrada Escritura: "Non in commotione Dominus" (Vulgata: III Rs 19, 11) - "O Senhor não está na agitação"- e nem pode ser causa dela.
Por Ir. Ariane Heringer Tavares, EP
[1] SÃO FRANCISCO DE SALES. Introdução à vida devota. 5.ed. Porto: Porto Médico, 1948, p.270.
[2] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Vida mecânica, vida natural. In: Catolicismo. São Paulo, n. 55, jul. 1955, [s. p.].
[3] Id. Revolução e Contra-Revolução. 5. ed. São Paulo: Retornarei, 2002, p.85.
[4] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Notas Autobiográficas. São Paulo: Retornarei, 2010, v.II, p.103.
[5] Ibid. p.107.
[6] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O partido de Jesus e o do mundo. In: Dr. Plinio. São Paulo: ano XI, n. 118. jan. 2008, p. 12.
Conteúdo publicado emgaudiumpress.org, no linkhttp://www.gaudiumpress.org/content/76289#ixzz440XUzYmW
26/01/2021
Pois é. Eu estive reparando que o meu corpo de 75 anos está uma tragédia: rugas, pelanca, manchas... barrigona... mas percebo que, por dentro, ainda me sinto jovem e disposto. Como resolver esse dilema? Não faço nem ideia, e não vou resolver isso até o final do texto, não.
Mas isso também me fez pensar que é a melhor prova da existência da alma: dentro de você há algo que não envelhece, que está sempre disposta a viver uma vida agradável, alegre, jovial. É a nossa alma. Ela não envelhece. Ela fica marcada, é certo, por tudo o que fizemos na vida, mas não envelhece.
E se nossa alma estiver "pesada" por causa de nossos pecados, peçamos perdão e recomecemos uma vida nova! Se você é católico, procure um padre e confesse todos os seus pecados. E se comprometa a viver um vida nova. A nossa alma merece! Ela não envelhece com o nosso corpo!
(Leia a historinha ouvindo o famoso "Adágio de Albinoni", com órgão e orquestra, gravado numa igreja da Hungria. Basta clicar no link e ouvir no YouTube: https://youtu.be/PEzuXJ0rOJM ).
(Há também outra versão muito bem tocada: https://youtu.be/ye5JlhAyYhg)
Julho do início da década de 90. Campos do Jordão. Teatro do Palácio do Governo. O frio ficou fora desse templo da música. Lotação completa. Todos bem vestidos, com belos casacos. O perfume das mulheres e o das flores dos jardins que circundam o teatro disputam nosso olfato, mas acabam se entendendo e nós os sentimos todos. Silêncio. Começa o Adágio de Albinoni, com órgão, violino e orquestra.
A orquestra começa a música. A música, a poesia,o romance, enfim, o belo, sob todos os aspectos (visual, olfativo e auditivo) invadem o ar e nos aglutina. O espírito se eleva às alturas! Há duas orquestras: a do palco e a de todos esses instrumentos que mencionei: vestes, perfumes, clima, beleza do local, que se harmonizam entre si de forma praticamente maravilhosa, bela e sublime.
A orquestra de cá se une à orquestra de lá e minhas lágrimas arrematam o enlace, como a calda deliciosa de chocolate que se esparrama pelo bolo já saboroso.
O violino faz o solo. O órgão o responde, seguindo seus passos. O violino se anima e ergue sua voz, em vários outros compassos. O órgão se emociona e completa a harmonia iniciada pelo violino, até chegarem os dois a um clímax musical que em que se completam e se fundem. Entra a orquestra, como os jogadores que carregam nos ombros dois colegas que fizeram virar o jogo!
A natureza não se contém e uma chuva fria sussurra um acorde externo, como se fosse uma redoma de vidro a salvaguardar toda essa harmonia.
A música termina, mas ninguém quer sair do lugar. Eu me arranco da poltrona e, a contragosto, me obrigo a sair e, com meus colegas, voltar para a desarmonia da artificialidade e marasmo do nosso dia a dia.
O belo da arte nos leva a Deus, o Criador de todas as possibilidades de harmonias que possam existir.
Se as criaturas são tão belas, se podemos criar tantas harmonias, como as dessa música , se há tanta beleza na natureza, que se dirá do Criador disso tudo?! Deus é tão completo e maravilhoso, com tanta harmonia e beleza, que tudo o que há de mais belo no universo não consegue exprimir nem um só átimo de sua existência e de sua magnificência, santidade, luminosidade.
Se Deus fosse feito de átomos como nós um só átomo de sua luz daria para iluminar o universo todo, como numa visão que S. João Bosco teve. Esse átimo de luz que ele viu o deixou semi-cego por uma semana!
Se eu falasse aqui que Deus não é só luz; que Ele é também amor, beleza, harmonia, perfume, frescor de uma chuva, alegria de um acorde infinito, e tudo o que não consigo expressar aqui, eu estaria sendo muito injusto, pois não há como comparar Deus com qualquer dessas coisas! Tudo o que existe foi criado por Ele, que está infinitamente distante de ser qualquer coisa dessas! Deus não é nada disso! Deus é Deus, e tanto o belo da arte ou de qualquer outra coisa que existe, nos dá apenas uma mísera, pálida, insignificante ideia do que poderemos contemplar, um dia, se formos recebidos no Reino dos Céus.
O convite já está feito! Desde antes que o mundo existisse, Deus já nos havia chamado para vivermos com Ele no Paraíso. Cabe apenas a nós aceitarmos o convite, procurando, humildemente, colocar-nos diante dele, em súplica, pedindo-lhe que Ele nos livre de nós mesmos, do pecado, e do terrível mal que seria abandoná-lo.
Ele já nos garantiu que nunca vai nos abandonar. Se houver alguma desistência, será por nossa conta. “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir-me a porta, eu cearei com ele e ele comigo” (Apoc 3,20)
Há diferença entre amar e gostar. Muitas pessoas têm o verbo amar como sinônimo de sentimento, de paixão. Na mensagem de Jesus não é assim. Amar não é sentir isto ou aquilo por alguém, mas sim resolver ajudá-lo (a), fazer tudo o que podemos para que essa pessoa viva bem e tenha condições de se salvar após a morte.
Para Jesus, amar é tratar bem as pessoas mesmo que não gostemos delas, dando-lhes atenção ou o que precisarem. Deus ama a todos indistintamente e por isso devemos também amar a todos, sem exceção. Isso é o que diferencia os cristãos de outros tipos de pessoas: os cristãos amam não apenas os amigos, mas também os inimigos.
Quando Jesus nos ordenou que amássemos os inimigos tinha em mente que não gostamos deles, nem eles de nós. Seria anti-humano que ele pedisse que gostássemos dos inimigos.
Deus sempre pratica o que nos pede para fazer. Ele faz cair a chuva tanto na plantação dos bons, como na plantação dos maus. Somente Deus pode julgar as pessoas, e levar em conta se fizeram isto ou aquilo por maldade ou por ignorância. Somente Deus nos conhece bem. Nunca devemos desprezar ninguém.
O próprio Jesus não gostava de certos tipos de pessoas: por exemplo, vivia repreendendo os fariseus. Mas amava a todos, e mandou que também nós amássemos a todos.
Há outro problema: amar nem sempre é fazer o que o outro gosta. Se alguém é criminoso, por exemplo, precisa ser preso para não fazer mal a mais ninguém. Mas não podemos odiá-lo. Talvez se tivesse vivido uma vida melhor, familiar, de carinho e afeto, nunca tivesse cometido tal crime. Ou mesmo talvez tenha sido caluniado e preso sem ter feito o suposto crime. Há muitos casos desses. Se ele tiver fome, por exemplo, é preciso dar-lhe de comer.
Quando o filho faz traquinagens, a mãe o repreende e até lhe dá um pequeno castigo. Ela faz isso porque o ama e quer que ele melhore. Em Hebreus 12,10, diz que Deus nos permite o sofrimento para que, purificados, possamos participar de sua santidade. É, pois, por puro amor que ele permite que soframos. Assim também são os pais quando punem com sabedoria os filhos faltosos.
Na vida do dia a dia deparamos constantemente com esse dilema: amar ou não amar? Gostar ou não gostar? Se quisermos nos salvar, temos que amar, mesmo que não gostemos da pessoa.
(29/07/2012)
“Eu te amei como amor eterno” (Jer 31,3), diz Deus ao profeta Jeremias. Deus nos amou muito antes que nascêssemos! E disse ainda em Jer 1,5: “Antes mesmo de te modelar no ventre materno, eu te conheci: antes que saísses do seio, e te consagrei. Eu te constituí profeta para as nações”.
Deus o chamou para ser profeta e lhe deu todas as graças de que ele precisava para seguir sua vocação. Jeremias sofreu muito, se angustiou e até se desesperou, mas não abandonou o caminho que Deus traçara para ele.
É impressionante o que o profeta diz para Deus em Jeremias 20,7:- “ Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir! Tu te tornaste forte demais para mim! Tu me dominaste!”
E no versículo 9, disse que aquilo era como um fogo que devorava todos os seus ossos. Entretanto, nos versículos 11 a 13, recobra o ânimo e não desiste: continua a caminhar no caminho a que Deus o chamara.
Tanto Jeremias como Isaías colocaram diante de Deus suas fraquezas, seus limites, mas acabaram superando tudo com a sua graça.
E nós?
Fomos todos chamados a trilhar um determinado caminho. Quando olhamos para o nosso passado, descobrimos que tomamos muitos desvios e nos perdemos muitas vezes.
Como disse um certo santo, ficamos tão distraídos com as belezas do caminho que nelas nos detivemos e acabamos parando, não prosseguimos rumo ao objetivo, à meta final.
Deus nos preparou muitas coisas bonitas, muitas graças, para seguirmos o seu chamado. Nós muitas vezes as jogamos fora, substituindo-as por coisas bobas e passageiras. Quantas coisas perdidas! Quantas vezes Ele teve que mudar o traçado de nossa rota!
Aqui entendo melhor a parábola dos talentos: nós deixamos alguns dos que recebemos sem frutos. E o patrão disse ao servo: “Ao que tem, será acrescentado; ao que não tem, até o pouco que tem será tirado”.
Quantos amigos (as) nossos (as) eram melhores do que nós e já morreram! Não sabemos como Deus age nesse assunto, mas sou tentado a dizer que pelo menos alguns deles e delas talvez já cumpriram a meta que Deus lhes traçara!
Se você me está lendo, é sinal de que está vivo (a). Como tem sido nossa vida?
Tente olhar para o seu passado e perceber as oportunidades e os talentos perdidos ao longo do caminho!
Deus nos chamou e nos garantiu sua ajuda! Quantos de nós aproveitamos todas as graças e dons recebidos?
Confesso-lhes que pesquisei meu passado ontem, no começo da noite, durante a Hora Santa e não gostei do que vi! Peço, agora, a Deus, que me trace outro caminho e me dê, por misericórdia, outras graças, a fim de que eu chegue um dia ao céu. E espero que eu e você nos encontremos por lá!
Quando oferecemos uma oração, um benefício, uma ação social a Deus, uma penitência, dizemos que fazemos aquilo “por amor a Vós, Senhor”!
Será que é mesmo por amor a Deus que fazemos isso tudo? Será que não é por amor a nós próprios, por medo de irmos ao inferno? Será que somos capazes de amar a Deus desinteressadamente?
Pense bem: por mais gratuitamente que façamos algo, o fazemos para ganhar o céu e, portanto, não é algo gratuito. Deus é o único que pode amar gratuitamente, pois é autossuficiente, todo-poderoso, tem tudo e não precisa de nós e de nada, nem mesmo do nosso amor. Por mais que queiramos, não podemos aumentar em nada sua felicidade, que já é infinita!
É possível, porém amarmos a Deus com um amor de gratidão. É, a gratidão por tudo o que Ele nos deu e nos dá.
No amor gratidão nós nos preservamos do pecado, em gratidão do que Deus fez e faz por nós, e assim vamos permitir que ele nos ame agora e em odos os dias de nossa vida, pelo restante da eternidade. Amor gratidão é deixar-se amar por Deus, não só agora, mas para sempre!
Deus se “esconde” de nós, neste mundo, para não forçar a nossa adesão a ele, para preservar a nossa liberdade, o nosso livre arbítrio. Ele fez isso até com São Paulo Apóstolo: Deus o mandou falar com Ananias, que lhe disse o que ele deveria fazer e, com isso, lhe deu liberdade para dizer “não”.
É assim que Deus age: manda-nos bilhetes de amor e amizade e espera, escondido por detrás da árvore, que nós lhe respondamos. Esses bilhetes se veem na bíblia, na liturgia, no dia a dia, por meio dos acontecimentos.
No Cântico dos Cânticos 3,1-2 há um trecho belo sobre a busca do amado: “Procurei-o e não o encontrei”! Maria Madalena também buscou Jesus no sepulcro e não o encontrou de imediato, só depois. Nós o procuramos durante a vida toda e não sabemos se já o encontramos ou não!
A terra é um paraíso em que Deus não aparece pessoalmente, e a estamos transformando num inferno. O Frei Carlos Mesters diz que o paraíso terrestre não deve ser visto como a saudade de algo que passou, mas a esperança de algo que podemos construir.
Procuremos Deus por detrás das “árvores” de nossa vida, como a solidão, doenças, imprevistos, pobreza... e vamos amá-lo pelo menos com um amor de gratidão! Ele nos aceitará como o idoso, que sabe que é cuidado muitas vezes por causa do dinheiro que vai deixar de herança, mas aceita essa situação.
04 de julho de 2012
(1ª leitura da 4ª f. da 13ª semana comum)
Do site do Pe. Fernando Cardoso -
O texto de Amós cuja leitura se iniciou a dois dias atrás, hoje, insiste no seguinte: Deus não tolera um divórcio entre culto e vida moral. Não há possibilidade de unir a liturgia com uma vida imoral; com outras palavras, Deus não é um ídolo qualquer, Deus não é um Baal, Deus não suporta um culto que seja superficial, um culto que não seja a expressão de um coração totalmente a Ele dedicado.
Cultuar a Deus e viver no pecado, cultuar a Deus, no caso específico de Amós, e continuar a praticar injustiças sociais é uma tentativa de suborno, é uma tentativa de se subornar Deus. Com outras palavras, é tentar comprar Deus, é tentar pagar Deus com moeda falsa, é oferecer a Deus uma grande embalagem com nada dentro. Isto se verificou não apenas na época de Amós, não apenas em seus dias, mas em todos os tempos.
São todos aqueles que se esmeram no culto, se esmeram na liturgia, se esmeram no canto, se esmeram nos instrumentos musicais mas o coração está longe de Deus, não praticam o direito e a justiça, não são capazes de olhar para a situação social presente.
O nosso país é um país gritante. Muitos dizem que já vivemos épocas piores e que estamos num caminho mais ou menos correto, do ponto de vista econômico. Mas o nosso país é conhecido, lá fora, como um país de desigualdades gritantes, onde existem poucos que estão, literalmente, sufocados no dinheiro e uma infinidade, milhões, que não têm praticamente nada.
Outro dia, lia eu uma reportagem que me fez pensar: existem aqui no Brasil trinta brasileiros que ganham mais do que seis milhões! É possível uma coisa destas? Deus quer uma desigualdade gritante assim? Trinta brasileiros receberem muito mais do que outros seis milhões?
Estas coisas clamam vingança a Deus; este pecado, que é um pecado social e do qual participamos de acordo com a nossa conivência, é um pecado que devemos carregar e apresentar diante do tribunal, quando as contas nos forem pedidas.
PE. FERNANDO CARDOSO
O texto do Livro primeiro de Samuel (1ª SAMUEL 4,1-11)hoje nos coloca diante de um campo de batalha: de um lado Israel, e de outro lado, os Filisteus, seus arqui-inimigos na Palestina. Israel estava inteiramente confiante em seu Deus e, quando se viram em apuros, não tiveram dúvidas; foram buscar a arca da aliança, símbolo visível da presença de Deus no meio de seu povo, e a trouxeram para o campo de batalha.
A conseqüência foi a mais trágica que podemos imaginar: os Israelitas perderam a batalha, os Filisteus levaram a melhor e, para encerrar a tragédia, a arca da aliança foi roubada, e passou para o lado do inimigo. E aqui nós podemos nos deter, para nossa reflexão à partir do texto da Palavra de Deus. Que fizeram aqueles Israelitas?
Fizeram o que muitos de nós continuamos a fazer: buscar Deus ou buscar objetos sagrados, pensando que a simples presença de objetos sagrados, é capaz de eliminar os perigos que nos assolam. Nunca aconteceu conosco buscar um amuleto? E se não buscamos um amuleto, não buscamos desesperadamente, para fins ambíguos, objetos sagrados como um crucifixo, como água benta, como um ramo bento e outras coisas mais? E imaginamos que com água benta, com ramo bento, com cinza benta, com água do rio Jordão, com terra da Palestina, resolveremos todo o nosso conjunto de problemas existenciais? Fazer isto é viver uma religiosidade mágica.
O texto é muito claro, e quer nos ensinar que Deus não Se deixa enroscar por essas sutilezas de nossa parte. Não são objetos sagrados, não são águas bentas ou sagradas, não são terras consagradas que nos libertarão, mágica ou mecanicamente, de nossos males. E, de resto, Deus não prometeu a ninguém que nada de ruim ou indesejável lhe acontecerá durante esta vida.
Durante esta vida, nós temos que levar em conta sim os perigos, temos que levar em conta os contratempos, temos que levar em conta as dificuldades e os sofrimentos de toda espécie. Deus não promete, nem a custa de água benta, nem a custa de água do rio Jordão, eliminar os nossos sofrimentos. Deus promete, e isto é muito mais importante e consolador para nós, entrar conosco na atribulação, entrar conosco na provação para sairmos, do lado de lá, juntamente com Ele, fortes e mais consolidados na fé. E isto porque, quem nunca foi provado, quem nunca sofreu um contratempo, quem nunca sofreu uma tentação, quem nunca foi vítima de uma tribulação, não tem fé comprovada.
Deixemos de lados estas coisas, deixemos de lado amuletos religiosos e confiemos, cegamente, na providência de Deus, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza.
03/04/2017
Precisamos ter muito cuidado ao comungarmos. Estamos recebendo o Corpo e o Sangue de Jesus de modo real, verdadeiro. Não podemos deixar que partículas do pão consagrado caiam ao chão. Jesus se deixou ficar entre nós na Eucaristia de modo muito indefeso. Podemos fazer o que quisermos com seu Corpo e Sangue, mas se não tomarmos cuidado as partículas serão pisoteadas por outros. São Pio de Pietrelcina era muito cuidadoso, como se pode ver em suas missas, algumas delas filmadas. Você as pode ver no You Tube, mas eu vou deixar aqui um link. Copie esse link e o cole na janela de pesquisa do you tube. É a última missa de São Pio de Pietrelcina e você pode ver com que devoção ele comungava e tinha cuidado com as partículas.
blob:https://www.youtube.com/9f8b817a-6a2d-4809-b5af-58d655d5309b
Ademais, se o corpo dele está ainda incorrupto, é porque Deus gostava dessas atitudes dele.
Outro cuidado na comunhão é estar em estado de graça, ou seja, sem pecado grave. Os pecados leves são perdoados no ato penitencial, e é por isso que eu insisto em nunca chegar atrasado (a) à missa. Quem perde o ato penitencial não deveria comungar!
São Paulo fala no capítulo 11 da carta aos coríntios que os que comungam indignamente são réus do Corpo e do Sangue de Cristo. Veja por você mesmo(a)1ª Coríntios 11:26-30:
“Porque, sempre que comerem deste pão e beberem deste cálice, vocês anunciam a morte do Senhor até que ele venha. Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpado de pecar contra o corpo e o sangue do Senhor. Examine-se o homem a si mesmo, e então coma do pão e beba do cálice. Pois quem come e bebe sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe para sua própria condenação. Por isso há entre vocês muitos fracos e doentes, e vários já dormiram”.
Vejo muitos artigos, na internet, condenando a comunhão na mão, como a do bispo Athanasius Schneider, que você pode assistir colando este link na busca do you tube: https://youtu.be/1grq2tHNPp8 . O problema é que comungar na mão é algo irreversível, ou seja, acredito que nunca mais voltará a comunhão diretamente na boca, pelo menos na maioria das igrejas, ainda mais com esse perigo de contágio de doenças atuais.
A solução é uma instrução maior por parte dos senhores párocos. Vejo aí a solução para o caso. Que ensinem os paroquianos a tomarem cuidado com a sagrada partícula. Muitos dizem que Jesus não teve nenhuma preocupação com as migalhas do pão que ele consagrou, mas acho que isso não é desculpa. Se acreditamos que o pão consagrado é o Corpo e o Sangue de Cristo, temos que tratá-lo com todo o cuidado e reverência que Jesus merece. Eu particularmente acho muito constrangedora a comunhão diretamente na boca, além de facilitar a falta de higiene e ser perigosa quanto ao contágio de doenças.
Colocar a própria vida em jogo
Papa Francisco no Panamá em diálogo com os jesuítas da América Central
14 Fevereiro 2019
Às 15:45h de 26 de janeiro de 2019 o Papa Francisco reuniu-se na Nunciatura do Panamá com 30 jesuítas da Província da América Central, que inclui os territórios de Panamá, Costa Rica, Nicarágua, El Salvador, Honduras e Guatemala. Entre eles, o provincial, padre Rolando Enrique Alvarado López, o mestre dos noviços, padre Silvio Avilez e 18 jovens noviços. Logo que Francisco entrou na sala de encontro, os jesuítas entoaram o canto "En todo amar y servir”, bem conhecido na Companhia de Jesus. Em seguida, o Papa saudou a todos, um por um, antes de se sentar e começar a conversa.
A reportagem é de Antonio Spadaro, SJ, publicada por La Civiltà Cattolica, 14-02-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.
"Obrigado por sua visita. Nas minhas viagens gosto de me encontrar com "os nossos", como costumava-se dizer quando eu era jovem[1]. Gostaria de dizer-lhe logo uma coisa: para as províncias da Companhia que se lamentam de não ter noviços ... você, provincial, passe a receita para eles! Perguntem o que quiserem, o que lhe interessa, o que lhe causa curiosidade. E com base nisso, vamos organizar a conversa. Eu não preparei nada. Vocês decidem ..."
Na homilia que dirigiu aos bispos, depois de ter falado sobre Monsenhor Romero, mencionou o jesuíta padre Rutilio Grande. Como está a causa da beatificação de Rutilio?
Eu gosto muito de Rutilio[2]. Na entrada do meu quarto há uma moldura que contém um pedaço de tela ensanguentada de Romero e as notas de uma catequese de Rutilio. Eu sou muito devoto de Rutilio, antes mesmo de ter conhecido melhor a figura de Romero. Quando eu estava na Argentina, sua vida me impressionou muito e sua morte me tocou. De acordo com as últimas notícias que recebi de pessoas informadas, a declaração de martírio está indo bem. E é uma honra ... Homens desse tipo ... Rutilio, além disso, foi um profeta. Ele "converteu" Romero.
Aqui há uma visão: a dimensão da profecia, aquela de quem é profeta pelo testemunho da vida, e não aqueles que o são, porque fazem a lição e andam por aí falando. Ele é um profeta do testemunho. Ele também disse o que tinha que dizer, mas foi o seu testemunho, o do martírio, que em última análise moveu Romero. Foi a graça. E, portanto, dirijam-se a eles com sua oração.
O senhor foi mestre dos noviços, não é? Em que época?
Comecei em fevereiro ou março, não me lembro bem, de 1972. Fiz isso até o dia de Santo Inácio, em 1973, quando assumi o cargo de provincial. Então, por um ano e meio.
Para o senhor, que foi mestre dos noviços, faço uma pergunta como mestre. Hoje, nas primeiras décadas do século XXI, as situações são muito diferentes daqueles convulsionados anos 1970 na América Latina. Mas há algo que o senhor recomendava aos seus noviços e que, na sua opinião, deveríamos continuar a repetir aos noviços de agora?
Entre as coisas daqueles momentos que deveriam ser transferidas para hoje e que permanecem atuais, eu destacaria uma atitude: a clareza de consciência. Não há lugar para os dissimulados: não servem para a Companhia. Quando você lê as cartas de São Francisco Xavier, percebe o quanto ele fazia questão de que as coisas fossem conhecidas: o que Jesus faz na alma de cada um, e também como o diabo confunde e como o mundo seduz.
Esse espírito deve ser combinado com uma grande confiança. Portanto, o mestre dos noviços não deve ser uma pessoa temerosa. Deve ser aberto, muito aberto, não deve se assustar com nada, não deve temer nada, e em vez disso ser afiado, capaz de dizer: "Cuidado com isso, olhe para o que você está me dizendo que é perigoso; esta é uma graça, continue assim”. Ele deve saber discernir. Um homem que não se assusta, um homem de discernimento.
Portanto, clareza de consciência. Quando estou com os noviços, digo a eles: olhem, se não se acostumarem desde agora a serem transparentes, é melhor sair. Porque as coisas estão indo para um caminho errado. Afastar-se da transparência, talvez devido a uma minúcia, é algo que pode acontecer em qualquer processo de crescimento. Mas tenham cuidado porque, se isso não for remediado rapidamente, depois chegará um momento em que a Companhia não saberá o que fazer com essa pessoa, porque se quebra o vínculo de fraternidade, de ser companheiros no Senhor. A partir daí a pessoa vai prosseguir através de truques, de desculpas, de doenças. De qualquer coisa que lhe permita fazer o que quiser. As pessoas que se comportam assim talvez irão para o paraíso, claro! Mas que vida feia, meu Deus, que vida superficial! Melhor sair, talvez se casar, ter filhos e ficar em paz. Mas viver assim, sem clareza de consciência, é parar na borda da Companhia, não entrar nela.
Eu insistiria muito sobre isso. É claro que é uma coisa delicada. De fato, no mestre existe uma capacidade de respeito, de não se assustar, de ouvir, de encorajar. De ser mais exigente. Isso também pode se aplicar aos superiores. Às vezes você até poderia ter desejado que tal pessoa não tivesse sido clara de consciência, porque tem um problema que você não sabe como resolver. Mas é a clareza de consciência que nos torna jesuítas. Além disso, o jesuíta deve saber que o Superior o ama e que o diálogo está em Deus.
Em um livro-entrevistas sobre a vida consagrada que acaba de sair, eu conto uma anedota [3]. Fala-se de um Superior. Um jovem, um "mestre"[4], estava em um determinado colégio espanhol, e sua mãe tinha câncer terminal. E na cidade onde morava sua mãe havia outro colégio da Companhia. E um dia, quando o Provincial veio visitá-lo, entre outras coisas, o jovem lhe perguntou: "Veja, minha mãe está doente. Ela tem menos de um ano de vida. Eu sei que você precisa enviar um mestre para aquele colégio. Eu gostaria de pedir que você me enviasse; assim estarei na cidade da minha mãe, então estarei perto dela nos seus últimos momentos". O Provincial ouviu-o muito atentamente e respondeu: "Tenho que discernir, tenho que pensar a respeito". E o jovem foi embora em paz.
Isso aconteceu na hora do almoço. O Provincial partiria na manhã seguinte ao amanhecer. O jovem transcorreu a tarde normalmente, e à noite parou na capela para rezar por sua mãe, para que tudo corresse bem ... Ficou lá até tarde e, quando voltou ao seu quarto, encontrou um envelope do Provincial. Abriu-o ... Era uma carta com a data do dia seguinte, na qual o provincial dizia-lhe: "Depois de ter refletido na presença do Senhor, e ter buscado a sua divina vontade... [e outras afirmações do mesmo teor...], e após ter celebrado a Eucaristia [aquela do dia seguinte!], creio que você deveria ficar neste colégio". O que tinha acontecido? O Provincial teria que sair cedo e tinha adiantado o trabalho, já havia escrito e deixado todas as cartas ao ministro[5], que deveria entregá-las no dia seguinte. Mas o ministro, vendo que já era tarde da noite e todos já estavam dormindo, as entregou imediatamente.
Aquele jesuíta não deixou a Companhia, mas teria tido todos os motivos para fazê-lo.
Portanto, é verdade que às vezes a clareza de consciência acaba em um contratestemunho desse tipo, em uma hipocrisia! Além disso, está se jogando com o discernimento, com a Missa, com tudo! Aquele Superior não tinha escrúpulos. Era aquele tipo de Superior que está sempre se equilibrando, que aposta nisso. Superiores mundanos, com o espírito do mundo. E, portanto, até mesmo os superiores às vezes não ajudam a ter clareza de consciência, e eles teriam responsabilidade por ela.
O superior deve ser muito humilde, muito fraterno e saber que chegará o dia em que deverá abrir sua consciência a outro Superior. Eu insisto nisso: transparência. Coloquem isso na sua cabeça, apostem nisso. Caso contrário, vocês serão um fracasso. Vocês serão jesuítas inconsistentes. Então é melhor sair, melhor ser bons pais da família.
Eu não estou fazendo um drama, mas é uma das coisas centrais da Companhia, o que garante o amor por Cristo, o seguir a Cristo. Eu fui formado assim ...
Como o senhor vê, hoje, a vocação de irmão?
Há três vocações na Companhia: professo, coadjutor espiritual e irmão[6]. Em 1974, na época da 32ª Congregação, que começou em 3 de dezembro, havia muita efervescência sobre a igualdade. Pensava-se que a diferença entre professo e coadjutor espiritual fosse uma injustiça social. Tinha havido alguma infiltração ideológica. Em suma, a tendência era fazer com que todos fossem professos, assim, de acordo com eles, todos seriam iguais. Padre Arrupe teve que reagir. Caso se continuasse naquela direção, algo da Companhia teria sido perdido. E na época apareceu outra visão, também ideológica: que o serviço próprio dos irmãos na Companhia fosse uma espécie de injustiça social. Era uma questão de "nível social". Como se o irmão Antonio García, zelador do museu dos mártires em Nagasaki, fosse um "servo" no sentido clássico e sociológico do termo. Em vez disso, ele era mais sábio do que todos nós aqui juntos! E era ele que ajudava muitos outros com o seu conselho. O irmão é aquele que tem o carisma mais puro da Companhia: servir. Servir. Servir.
Antes vocês estavam cantando En todo amar y servir. O irmão é assim. Concreto. Entre os irmãos que conheci, alguns eram "coloridos", tinham seus defeitos ... Alguns lutaram muito, lutaram por sua vida religiosa, como heróis, e não foram ajudados o suficiente em suas lutas e dificuldades. Eu me lembro de um, que tinha uma consciência clara, mas era um tanto “dom-juan”. Aquele pobre irmão se apaixonava o tempo todo. E ele vinha com humildade e dizia: "Ah, padre, não faço nada além de procurar continuamente uma namorada". Quem sabe, talvez ele nem sequer tivesse que ter entrado na Companhia! Mas eram homens transparentes e capazes de avaliar bem as situações. Aqui existe uma vocação ao serviço de maneira diferente: na mesma fraternidade, com a mesma dignidade religiosa, não simplesmente sociológica, como queriam considerá-la antigamente.
Alguns faziam comparações e diziam: "O irmão é a mãe". Não, não, não. Isso não é certo. A mãe é a Companhia e uma é suficiente. Mas o irmão é aquele que tem a cabeça no concreto, que olha para o concreto, que sabe se mover no concreto, o que quer que ele faça. Como enfermeiro, cozinheiro, porteiro, professor. Tem uma outra dimensão. Não é coisa de jesuíta avaliar o irmão segundo um perfil sociológico. Isso significa tirar seu serviço do devido contexto.
Entre os irmãos que tivemos na Argentina, alguns tinham suas pequenas falhas, é claro, mas eram homens desse calibre. Lembro de um deles, um homem santo. Era croata, tinha fugido de sua terra natal e acabou na Bélgica, em Charleroi, onde foi mineiro. Sempre conservou a devoção. Ele queria se tornar religioso. Não sabia onde. Emigrou para a Argentina e lá entrou na Companhia. Era um homem muito simples. Estava encarregado de todo trabalho com ferramentas. E, ficando no contexto das ferramentas, possuía a chave para tudo o que acontecia, entendia as coisas como elas eram, mas não abria a boca a menos que o superior lhe pedisse. Conheci muitos como ele: eram carvalhos. Muitos eram espanhóis que vieram para a Argentina. A província de Loyolaera uma "fábrica" de irmãos. Os bascos que vieram até nós, aqueles que eu conheci, eram todos homens forjados de uma peça só.
Por que estou dando todos esses exemplos? Para dizer que a vocação de irmão não deve ser considerada a partir de um ponto de vista sociológico, mas do ponto de vista do que os irmãos estão, na realidade, em sua vocação específica, como Santo Inácio quis eles na Companhia.
Eu não quero exagerar, mas quando eu era provincial, talvez as opiniões mais simples e ao mesmo tempo mais acertadas para as ordenações vinham justamente dos irmãos. Eles diziam: "Sim, é assim e assim ... mas preste atenção a tal problema ...". Ou: "Essa pessoa tem certos defeitos, sim, mas também tem tal virtude ...". Em suma, nada lhes escapava. Tinham um olho especial.
Na Companhia, o irmão tem uma grande influência no corpo coletivo e na comunidade. Deve ser promovido, como qualquer jesuíta, para que dê o melhor de si. Mas a promoção não deve basear-se unicamente numa motivação sociológica ou ideológica, como se o irmão precisasse de uma promoção para se sentir uma pessoa! Se ele não se sentir uma pessoa como tal, deve repensar sua vocação. E o irmão não precisa de cosméticos. Essa vocação não pode ser perdida! Não sei se te respondi.
Estamos no contexto da JMJ e há várias reuniões de jovens. No dia das boas-vindas, na «Cinta Costera», o senhor falou sobre a cultura do encontro. Está convencido de que o encontro é um tema forte para a nossa juventude, assolada por tanta cultura da informação. Parece que a encontro às vezes seja truncado e que a proximidade seja mediada pela rede informática.
Veja, o mundo virtual ajuda a criar contatos, mas não "encontros". Às vezes “fabrica” encontros, seduzindo você com os contatos. Quem percebeu isso perfeitamente sob o aspecto filosófico foi Zygmunt Bauman. Ele escreveu seu último livro com seu assistente italiano e morreu enquanto trabalhava no último capítulo. A viúva entregou a obra ao assistente, dizendo: "Termine-o e publique-o, coloque também o nome do meu marido", pois era um de seus discípulos e o conhecia bem. E ele o publicou em italiano[7]. Seu título é Nati liquidi (Nascidos líquidos, em tradução livre), isto é, inconsistentes. Mas na tradução alemã o título é Die Entwurzelten, "Sem raízes". Na mentalidade alemã, aqueles que nascem líquidos não têm raízes. Perfeito. É exatamente assim.
O que pode fazer o mundo puramente virtual, se estiver isolado em si mesmo? Pode te dar uma satisfação, um consolo artificial, mas não te mantém unido às tuas raízes. Coloca-te em órbita. Tira de ti tua dimensão concreta. Isso corre o risco de ser um mundo de contatos - eu disse aos bispos - mas não um mundo de encontros. E isso é perigoso, muito perigoso. E quanto a isso, os jovens devem receber uma direção muito séria. Uma direção da qual eles não devem se sentir desapropriados, mas enriquecidos. Aqueles de vocês que trabalham com jovens, por exemplo nos colégios, têm a tarefa de ajudá-los para o encontro.
E em que consiste a crise atual do encontro? É uma crise de raízes. A geração de meio - pelo menos na Europa e na minha terra natal - isto é, os pais dos jovens, não tem a força de transmitir as raízes. Porque são pessoas dilaceradas, muitas vezes em competição com seus filhos. São os avós que estão dando as raízes. Ainda estão aptos a fazer isso. As raízes são dadas pelos idosos. Por isso, quando digo que os jovens devem se encontrar com os idosos, não expresso uma ideia romântica. Deixe-os falar. No começo, os jovens dizem que estão cansados, que estão entediados, ficam em silêncio.
Eu tive a experiência de jovens e grupos de jovens a quem era feita a proposta de ir tocar violão para os hóspedes de um lar de idosos. Eles respondiam: "Não, eles são velhos". Mas depois, quando iam visitá-los, não queriam mais sair de lá. Uma música e depois outra. "Toque esta para mim!", e: "No meu tempo ..." e assim por diante: os idosos acordam ... Estou fazendo uma referência ao capítulo 3 do livro de Joel: os vossos velhos terão sonhos e os jovem terão visões. Os idosos começam a sonhar, a contar, e os jovens começam a profetizar: não o que os idosos lhes disseram, mas sim aquilo que os sonhos dos idosos desperta neles.
Isso é encontro. Isso é realidade. Mas é importante ir às raízes. O que a cultura virtual nos oferece é algo líquido, gasoso, sem raízes, sem tronco, sem nada. O mesmo acontece no campo econômico e financeiro. Nesses dias, eu estava lendo uma notícia comunicada no encontro de Davos, que a dívida geral dos países é muito maior do que o produto bruto de todos juntos. É como a fraude das correntes virtuais: os valores incham, milhões e bilhões, mas no fundo não há nada além de fumaça, é tudo líquido, gasoso e, mais cedo ou mais tarde, vai entrar em colapso.
A virtude que hoje é solicitada a todos, e especialmente para um jesuíta, é a concretude. Como aquele confessor que tivemos no Colégio Máximo, que confessava à noite. Ele era muito idoso. Enquanto fazíamos o exame de consciência, alguns iam se confessar e, diante de sua porta, havia sempre uma fila. Ele confessava rapidamente, dizia poucas palavras. Mas um de nossos companheiros, um tipo angelical, muito espiritual, um dia nos contou que uma vez havia se confessado com ele e que nunca mais voltaria. "Ele me maltratou, me atacou", dizia. E, claro, ficamos intrigados ... o que teria dito esse anjo para ser repreendido assim? E ele nos contou: "Comecei a contar-lhe as minhas dificuldades. E ele disse: vá direto ao assunto!" Em suma, ele estava acostumado a ouvir coisas pesadas, então quando o rapaz foi lhe contar coisas angelicais, tão líquidas, ele não tinha acreditado e insistia para que ele se revelasse. Concretude! Chega de cabeça nas nuvens!
Mas como fazer para que os jovens sejam concretos? Ocorre-me o caso de padre La Manna, que agora está no Istituto Massimo, em Roma. Este homem conseguiu trazer a concretude em seu instituto, uma das escolas mais refinadas de Roma; conseguiu criar com os garotos um impressionante espírito social. Concretude. Fora as pequenas coisas etéreas. Vida espiritual concreta. Vida comprometida, concreta. A vida da amizade, concreta. Concretude. É com isso que salvaremos o homem. Mas volto ao diálogo com os idosos: por favor façam isso antes que seja tarde demais! Porque é uma âncora que pode salvar a nossa juventude.
Vendo o testemunho que caracterizou a Companhia de Jesus na América Central, o que o senhor acha que podemos levar como contribuição para a Igreja universal?
Na América vocês foram pioneiros nos anos de lutas sociais cristãs. Vocês foram pioneiros. Se o padre Arrupe escreveu a Carta sobre cristãos e "análise marxista" para falar sobre a realidade da teologia da libertação, é porque havia alguns jesuítas que estavam um pouco confusos. Não com más intenções, mas estavam confusos, e naquele momento o Padre Geral precisou consertar as coisas. Colocá-las novamente em foco. Então, quem condenava a teologia da libertação, condenava todos os jesuítas da América Central. Eu ouvi condenações terríveis. E quem a aceitava, aceitava tudo sem fazer distinções. Em qualquer caso, a história ajudou a discernir e purificar. São processos de purificação. Mas, se não estou enganado, vocês foram os pioneiros, com seus pecados, com seus erros, mas, mesmo assim, pioneiros.
Naquela época, um dia peguei o avião para ir a um encontro. Saí de Buenos Aires, mas como a passagem era mais barata, fiz escala em Madrid antes de ir para Roma. Um bispo da América Central embarcou em Madrid. Eu o cumprimentei, ele me cumprimentou; sentamos um ao lado do outro e começamos a conversar. Perguntei-lhe sobre a causa de Romero e ele respondeu: "Nem sequer se fala sobre isso, não mesmo. Seria como canonizar o marxismo". Foi apenas o prelúdio. Continuou nesse ritmo. Também no episcopado havia visões diferentes, havia também aqueles que condenavam a linha da Companhia. E, de fato, aquele bispo passou de criticar Romero a criticar os jesuítas da América Central. Mas certamente não era o único a pensar assim. Na época, alguns outros membros da hierarquia eclesiástica estavam muito próximos dos regimes da época, estavam muito "inseridos".
Em uma reunião em Roma, encontrei um Provincial, acusado de ser esquerdista. Eu o questionei sobre a teologia da libertação, e ele me deu um panorama muito objetivo e até mesmo crítico em relação a alguns jesuítas, mas me mostrando qual era a direção positiva; para aqueles que viam tudo isso de fora, tudo parecia muito, muito difícil de aceitar. A ideia era que canonizar Romero fosse impossível porque aquele homem não era nem mesmo cristão, era marxista! E, portanto, eles o atacavam. Naquela tempestade também havia boas sementes. Alguns exageraram, sim, mas depois voltaram. Sempre houve exageros. Alguns se passaram mais que outros, é verdade, mas a substância era diferente. Vocês estavam bem no meio daquela revolta. E seria bom se vocês relessem a história daqueles homens. Havia pessoas como Rutilio, que nunca saiu da linha, e fez tudo o que ele tinha que fazer. Do ponto de vista ideológico, ele nunca se perdeu e, por outro lado, havia outros que acabavam se perdendo, porque se sentiam encantados pela filosofia de um determinado autor e com base nela reliam e interpretavam os fatos. Mas são coisas humanas, compreensíveis em circunstâncias difíceis.
As ditaduras que vocês tiveram na América Central foram do terror. O importante é não se deixar subjugar pela ideologia nem de um lado nem do outro, e nem mesmo pela pior de todas, que é a ideologia asséptica. «Não se intrometer»: esta é a pior ideologia. Foi a atitude daquele bispo que encontrei no avião, que era um asséptico. Arrupe sobre isso foi muito claro no discernimento que ele fazia. Defendia a todos, mas depois corrigia cada um em particular sobre o que tinha que corrigir, caso tivesse que corrigir alguma coisa. Isto é típico do Superior, defender a todos ... E, portanto, é importante a prestação de contas de consciência, porque nela são apertados todos os parafusos que estão frouxos. Esta é minha opinião.
E hoje nós idosos rimos do quanto nos preocupamos com a teologia da libertação. O que faltava então era a comunicação para fora de como as coisas realmente estavam. Havia muitas maneiras de interpretá-la. Certamente, alguns desviaram na análise marxista.
Mas vou lhes contar uma coisa engraçada: o grande perseguido, Gustavo Gutierrez, o peruano, concelebrou a missa comigo e com o então prefeito da Doutrina da Fé, Cardeal Müller. E isso aconteceu porque justamente Müller apresentou ele para mim como seu amigo. Se alguém naquela época tivesse dito que um dia o prefeito da Doutrina da Fé teria levado Gutiérrez a concelebrar com o Papa, teria sido tomado por bêbado.
A história é mestra da vida. Vai se aprendendo. Uma das coisas que me fez muito bem em um momento de minha existência foi ler a História dos Papas de Ludwig von Pastor ... um pouco extensa, 37 tomos! Eu conheci ali a época da supressão da Companhia, mas não só isso. A história nos ensina. Sem ir muito longe, aconselho que leiam os quatro volumes de Giacomo Martina, grande professor da Gregoriano, sobre a história da Igreja, desde Lutero até os dias atuais. É uma leitura agradável, porque sua prosa era ótima. Ele irá orientá-lo através dos problemas do modernismo ... Recorre à história para entender as situações. Sem condenar as pessoas e nem as santificar antecipadamente. Não sei se te respondi.
Em breve, alguns de nós farão a profissão dos votos. O que pode nos dizer?
Que os votos são perpétuos! Não são perpétuos para o Superior que os recebe, mas para vocês que os pronunciam, sim[8]. E sobre isso não se brinca. Se alguém não se sentir bem, não os faça, leve mais tempo. Tentar? Não, não mesmo. De sua parte, eles são perpétuos, para toda a vida.
Colocar a própria vida em jogo: é uma das coisas mais arriscadas que existam hoje. De fato, estamos em uma época em que o provisório prevalece sobre o definitivo. Sempre. Por exemplo, é dito: "Eu me caso por toda a vida ... enquanto durar o amor". Em suma, é como se eu dissesse: "Eu me caso por três ou quatro anos, então, no primeiro conflito, no primeiro arrefecimento do amor, procuro outra companheira".
Um bispo que veio me visitar contou que um jovem advogado, recém graduado, vinte e três anos, zeloso, inserido em um grupo, lhe dissera: "Quero ser padre, mas por dez anos!" Aqui está o provisório! Há um livro de José Comblin de quarenta ou cinquenta anos atrás, que já não se encontra mais, que se chama O provisório e o definitivo, e fala da filosofia da cultura que emerge hoje: a do provisório. Tudo existe enquanto dura. Enquanto durar o consolo, enquanto me tratarem bem ...
E às vezes a vida não te trata bem, te trata como um delinquente. E se você ama Aquele que foi tratado como um criminoso, você não pode deixar de suportar. É definitivo, com tudo o que envolve a "terceira semana" dos Exercícios Espirituais[9]. Com tudo o que significa a meditação das "Duas bandeiras"[10], que não é uma solução cavalheiresca de Inácio, mas é a sua experiência. Isso implica pedir para ser humilhados, sofrer humilhações, pelo amor de Cristo, sem ter dado motivo.
Os votos são perpétuos, com um estilo de vida que deve ser o dos Exercícios, de acordo com o qual podem te enviar para fazer qualquer trabalho, qualquer coisa: tanto ensinar religião para crianças quanto ensinar na universidade, ou fazer, sabe-se lá, o equilibrista em um circo ... A Companhia pode mandar você fazer qualquer coisa. Isto é o que eu entendo por definitivo. O tempo definitivo; o estilo, o dos Exercícios; a disponibilidade, para qualquer coisa. Para amar e servir, como vocês cantavam no início. Vocês não diziam para simpatizar e dar uma mão. Amar e servir é o núcleo. Não tenham medo! Coragem.
Eu tenho uma pergunta sobre a inculturação a respeito dos povos da nossa América. Falo em primeira pessoa, porque eu pertenço à cultura maia. O que o senhor acha daqueles padres e bispos diocesanos que tentam homologar os jovens desde os primeiros momentos de formação? Na prática, infelizmente, formar se torna como ofuscar e a identidade é coberta. O que pensa daqueles sacerdotes que não se sentem mais em sintonia com o povo do qual vieram?
Minha avó tinha em grande importância a catequese. Ela nos explicava que na vida tínhamos que ser humildes e não esquecer que havíamos nascido de uma família humilde. Ela, que era do norte da Itália, nos contava sobre uma família de uma cidade italiana que tinha mandado um filho para estudar em uma universidade. Dizia que era um fato verídico. Era uma família de camponeses. O filho não retornou até se formar. Ele não tinha tido a chance de voltar. E uma vez em casa, ele começou a perguntar ao pai: "Qual é o nome daquela ferramenta? E daquela outra?” "Esta é uma pá, meu filho." "Ah, uma pá. E aquela outra ferramenta, qual é o nome dela?”. “É um martelo.” "Ah, um martelo." Ele tinha crescido ali, mas não conseguia lembrar de nada. "E essa outra ferramenta, qual é o nome dela?" E seu pai respondia. Tinha também um ancinho. E o filho, distraidamente, pisou nele. O ancinho virou e bateu na sua cabeça. E ele exclamou: "Droga de ancinho!" [Aqui o Papa imita o gesto, provocando a hilaridade geral].
Quem se esquece de sua cultura realmente precisa de uma “ancinhada” na cara. É terrível quando a consagração a Deus nos torna esnobes, faz-nos subir de categoria social para uma que nos parece mais educada que a nossa. Cada um deve preservar a cultura da qual provém, porque a santidade que ele quer alcançar deve basear-se nessa cultura e não em outra. Você que vem daquelas culturas, não deixe que sua alma fique engomada, por favor! Seja maia até o fim. Jesuíta e maia.
No outro dia padre Lombardi me contava que estava trabalhando na causa de beatificação de Matteo Ricci e falava sobre a importância de sua amizade com Xu Guangqi[11], o laico chinês que o acompanhava e continuou sendo leigo e chinês, santificando-se como chinês e não como italiano como era Ricci. Isso é manter a própria cultura.
Hoje almocei com os jovens. Vinham de todos os lados: de Burkina Faso, da Índia, dos Estados Unidos, da Austrália, da Espanha. Foi lindo. E havia uma garota centro-americana, indígena, que quis usar maquiagem de acordo com suas tradições. Uma pessoa "iluminada", vendo-a assim, poderia dizer com ironia: aqui está a "indiazinha", toda pintada! Eis que, quando a "indiazinha" falou, deu uma bela lição àqueles que não respeitam a mãe terra. Aquela jovem falou, a partir de sua cultura, com tal capacidade intelectual que, no fim, quando o pessoal da Sala de Imprensa me perguntou quem poderiam buscar para as entrevistas, eu respondi: tragam quem vocês quiserem, mas tragam ela com certeza, porque vai dizer coisas que ninguém mais diria. Aquela garota, militante, católica, acredito que professora de profissão, não havia perdido a sua cultura, mas a fez crescer!
Então, aqui está o que eu quero dizer: devemos nos enculturar até o fim.
Em 1985, em nossa faculdade de teologia de São Miguel, Argentina, realizamos um congresso sobre "A evangelização da cultura e a inculturação da fé"[12]. Aqueles eram os anos de Puebla. Houve intervenções que pareceram escandalosas para alguns. Lembro-me que uma vez fui a Roma para alguns assuntos e visitei a Congregação para o Culto Divino. Um dos especialistas que lá trabalhava, falando sobre inculturação, me disse: "Estamos fazendo progressos. Agora permitimos que os japoneses fizessem uma reverência ao altar em vez de beijá-lo. Porque para eles, beijá-lo não significa nada”. É esta a grande inculturação de um escritório na Cúria? Assim não serve para nada! São vocês quem devem dizer o que é a inculturação a parir de sua experiência. Mas você, por favor, não mude de cultura. Lembre-se do ancinho.
Como lhe parece esta região da América Central e o que podemos fazer?
Vocês são muito "coloridos" ... no melhor sentido, quero dizer. Esta é uma terra de cores. Penso na cultura brasileira, afro-brasileira, como uma terra de sons, de danças, de festa. Em vez disso vocês são uma terra de cores ... Eu a sinto assim. É uma terra de cores. É a primeira vez que ponho os pés no Panamá, e falei sobre isso à mesa com o núncio, que me ajudou a encontrar a palavra certa, porque pensava como eu: aqui há "nobreza". É uma terra de nobreza. Panamá é isso. Isso me surpreendeu. Vocês são uma condensação de cores, no sentido mais rico e mais simbólico da palavra. É minha percepção. E certamente aqui, para um mestre dos noviços, discernir pode ser mais difícil, especialmente no momento da inculturação, da expressão colorida de seu povo. Mas é lindo.
Após uma hora de encontro, os responsáveis pela viagem avisam o Papa que é hora de partir. O Papa fala para fazer outras duas breves perguntas.
Aqui está a primeira: como jesuítas, que atitude temos que ter em relação à política?
Hoje, no almoço, uma garota da Nicarágua me fez a mesma pergunta. A Doutrina social da Igreja é límpida e tornou-se cada vez mais explícita através de vários pontificados. Sobre isso, a Evangelii gaudium é muito clara. Além disso, o Evangelho é também uma expressão política, porque tende à polis, à sociedade, a cada pessoa e à sociedade, a cada pessoa enquanto pertence à sociedade. É verdade que a palavra "política" é às vezes até desprezada e entendida apenas como a lógica da parte, do sectarismo político, com tudo o que isso implica na América Latina em matéria de corrupção política, assassinos da política e assim por diante. O compromisso político para um religioso não significa militar em um partido político. É claro que é preciso expressar o próprio voto, mas a tarefa é ficar acima das partes. Mas não como alguém que lava as mãos, mas como alguém que acompanha as partes para que cheguem a um amadurecimento, trazendo o ponto de vista da doutrina cristã. Na América Latina nem sempre houve maturidade política.
Aproveito a pergunta para mencionar alguns problemas que, para mim, têm relevância política. O primeiro é o da nova colonização. A colonização não é apenas a que aconteceu quando chegaram os espanhóis e os portugueses que tomaram posse das terras. Esta é uma colonização física. Hoje, as colonizações ideológicas e culturais estão na moda, são aquelas que estão dominando o mundo. Na política, vocês devem analisar bem quais são hoje as colonizações a que estão submetidos os nossos povos.
O segundo é o da nossa crueldade. Eu disse isso a um político europeu, que respondeu: "Padre, a humanidade sempre foi assim, só que agora com a mídia percebemos mais isso". Ele pode estar certo. Mas a crueldade é terrível. Até são inventadas as torturas mais refinadas, o ser humano é degradado. Estamos nos acostumando com a crueldade.
O terceiro diz respeito à justiça e é a pena sem esperança. Ontem fiquei feliz quando saí do Instituto dos menores, porque vi todo o trabalho que eles fazem lá para reconstruir a vida de pessoas, meninos, meninas muito degradadas por crimes, para reinseri-las. Mas a cultura da justiça aberta à esperança ainda não está bem radicada.
No final do encontro, um jesuíta da Nicarágua se aproxima e dá ao Santo Padre uma carta de um jovem que está agora na prisão, dizendo:
"Ele foi coroinha desde os nove anos de idade e seu grande desejo era vir para a Jornada Mundial da Juventude". Depois outros jesuítas se aproximaram com presentes. O primeiro foi o que no Panamá chama-se de "cocobolo", um objeto feito de madeira tropical da América Central, que representa o monograma IHS, típico da Companhia de Jesus, com o pedido de colocá-lo no lugar onde ele reza pela manhã. O Papa, rindo, diz: "E se eu rezar à tarde?" Todos riem.
O Provincial o informa que irá escurecer com o tempo. Depois presenteiam-no com um pano feito de tecidos típicos de vários países da América Central. Também é trazida ao Papa a bandeira do "Magis", uma iniciativa inaciana envolvendo jovens entre os 18 e 30 anos de idades, dos voluntários do "Colegio Javier" de Panamá na JMJ. O papa é convidado a colocar uma assinatura na bandeira. A seguir são oferecidos outros presentes pessoais. O encontro, que durou cerca de uma hora e 10 minutos, termina com uma foto e a oração «Ave Maria».
Notas
[1]. "Os nossos" é uma expressão tradicional dos jesuítas para indicar a si mesmos. As "províncias" são os territórios em que a Companhia está subdividida no mundo. Os "noviços" são os jovens religiosos em sua primeira formação.
[2]. Cf. J. M. Tojeira, «Il martirio di Rutilio Grande», em Civ. Catt. 2015 II 393-406.
[3]. Cf. Papa Francisco, A força da vocação. A vida consagrada hoje. Conversa com Fernando Prado, Paulinas, 2018.
[4]. O "magistério" é uma etapa da formação do jesuíta entre o estudo da filosofia e o da teologia. É dedicada ao trabalho apostólico.
[5]. O "ministro" nas casas da Companhia é aquele que cuida da vida concreta da comunidade religiosa, como responsável pela casa.
[6]. O corpo da Companhia contempla três vocações. A dos sacerdotes professos é composta por aqueles que pronunciaram os três votos de pobreza, castidade e obediência, e fizeram um voto especial de obediência ao Papa (quarto voto). A segunda é constituída por padres "coadjutores espirituais", que pronunciam apenas os três votos simples. A terceira é a dos irmãos, que são religiosos, não sacerdotes, e pronunciam apenas os três votos simples. A escolha entre o sacerdócio e a vida como religiosos não-sacerdotes é geralmente feita pelo próprio indivíduo no momento de seu ingresso na Companhia. Em alguns casos, a pessoa entra como "indiferente" e a escolha é feita depois de um discernimento durante o período de noviciado.
[7]. Z. Bauman - Th. Leoncini, Nati liquidi, Milano, Sperling & Kupfer, 2017.
[8]. Os "primeiros votos" dos jesuítas, feitos no final do noviciado, são considerados perpétuos para quem os pronuncia. Portanto, eles não são "renovados" a cada três anos, como acontece em outros institutos religiosos. Em vez disso, são "recordados" anualmente até serem pronunciados os "últimos votos" como professo, coadjutor espiritual ou irmão, no final da formação e, para os sacerdotes, após a ordenação. No entanto, os primeiros três votos são possíveis de serem 'dissolvidos' simplesmente pelo superior provincial.
[9] Esta é a terceira etapa dos Exercícios Espirituais, na qual o mistério da Paixão do Senhor é contemplado.
[10]. É uma meditação da "segunda semana" dos Exercícios, antes de avançar para a eleição do estado de vida. Inácio pede para meditar sobre "como Cristo chama e quer todos sob sua bandeira, e Lúcifer, ao contrário, sob a sua", também "vendo o lugar", isto é, imaginando a "região de Jerusalém como um grande campo, onde o sumo capitão geral do bem é Cristo Nosso Senhor; e a região da Babilônia, como o outro campo, onde o caudilho dos inimigos é Lúcifer". O objetivo é "pedir conhecimento dos enganos do mau chefe e ajudar a evitá-los; e conhecimento da verdadeira vida que o Supremo e Verdadeiro Capitão indica e a graça para imitá-lo".
[11]. Xu Guangqi (1562-1633), de Xangai, conheceu Matteo Ricci e colaborou com ele. Ele recebeu o batismo aos 41 anos e estudou a doutrina cristã em profundidade. Cf. A. Jin Luxian, "Xu Guangqi. Il compagno cinese di Matteo Ricci", em Civ. Catt. I 2016 282-297.
[12]. O Padre Bergoglio fez o discurso inaugural e a saudação final (cf. J. M. Bergoglio, " Fede in Cristo e umanesimo ", em Civ. Catt. 2015 IV 311-316). Em sua reflexão, ele enfatizava o fato de que as diferentes culturas, fruto da sabedoria dos povos, são um reflexo da Sabedoria de Deus. A sabedoria humana é a contemplação que se origina do coração e da memória dos povos. É o lugar privilegiado de mediação entre o Evangelho e os homens e é fruto do trabalho coletivo ao longo da história. Assim, na tarefa de evangelização das culturas e da enculturação do Evangelho, a necessidade, por um lado, uma "contemplação sapiencial das culturas” e, pelo outro, de "uma santidade que não teme o conflito e é capaz de constância e paciência" apostólica, superando todo medo e todo "extremismo de centro" com parrésia.
Evangelho de Lucas 6,17.20-26
As bem-aventuranças, segundo o evangelho de Lucas, nos remetem ao livro do Êxodo, capítulo 19.
Assim como Moisés subiu ao Sinai para receber de Deus a Lei e desceu para entregar a revelação divina para o povo de Deus, assim também Jesus sobe para o alto do monte e de lá desce para a planície, onde se encontram os discípulos. Jesus sobe para orar, e depois desce para escolher os doze apóstolos e para proclamar as bem-aventuranças.
As bem-aventuranças devem ser bem entendidas. Não devemos entendê-las em chave moralista. Jesus não está falando do que nós devemos fazer.
As bem-aventuranças, primeiramente, não devem ser entendidas como se fossem um programa de vida para nós pormos em prática. Por isso, quando falamos das bem-aventuranças como a nova lei do Reino é preciso entender que o que devemos fazer não está em primeiro lugar.
Em primeiro lugar está o que Deus faz. As bem-aventuranças proclamam o que Deus faz no mundo, como ele intervém na história, revelam qual é o desígnio de Deus em relação a essa nossa humanidade ferida, sofredora, qual é a atitude de Deus ante tanta injustiça, morte, violência...
As bem-aventuranças não são a proclamação da bondade dos pobres, mas o anúncio da bondade de Deus, que não suporta mais os sofrimentos dos pobres. Não é a justificação da fome que mata tantos, mas a proclamação de que os famintos são felizes porque Deus os ama e não quer que ninguém morra de fome.
Não é a aceitação resignada dos sofrimentos, mas o anúncio de que Deus não é indiferente às lágrimas de quem sofre por si ou pelas tribulações de outros.
Jesus não proclama as bem-aventuranças como um ensinamento teórico. Ele é o bem-aventurado, misericordioso, que fala não de um palácio, de uma vida confortável, mas a partir da pobreza pessoalmente vivida. Ele não tem dinheiro na bolsa, não tem duas túnicas, está próximo dos mais pobres de tal modo que pode falar: “Felizes vós”.
As bem-aventuranças não falam dos pobres; falam de Deus! Mais exatamente, falam de Jesus. “Quem me vê, vê o Pai”. Jesus é o Filho obediente que se despojou de sua glória. Foi odiado, desprezado, morto na cruz e glorificado na ressurreição. Ele realiza em sua pessoa o abaixamento de Deus. Deus ama a tal ponto que se solidariza com os últimos desta terra. Ele não é indiferente aos descartados. Deus vê os “invisíveis”. Deus deseja os indesejados.
Jesus realiza, em sua pessoa, a bem-aventurança, identificando consigo todos os pobres e sofredores e saciando-os com o banquete messiânico. Somente depois de entender as bem-aventuranças em chave teológica, cristológica, é que podemos entendê-la em chave moral; ou seja: o que devemos fazer decorre do que Jesus faz por nós, o que Deus faz em favor dos pobres.
Nesse sentido, a prática da misericórdia, mesmo que não seja mencionada explicitamente no texto de hoje, aparece como nossa nova lei. Ser misericordiosos como Jesus é o que nos pedem as bem-aventuranças.
DOM JULIO ENDI AKAMINE
- 31/03/16-
Dia quente, chove. Gosto muito da chuva, pois faz-me sair um pouco do mesmismo do meu dia a dia e me eleva até o céu. A oração sai mais facilmente e eu percebo de modo mais forte a graça de Deus em minha vida.
Pensei num fato curioso: chove tanto num convento, em que reina o amor de Deus em pessoas consagradas, como numa prisão, em que as pessoas estão pagando por crimes que teriam cometido.
Deus não faz acepção de pessoas e, enquanto vivemos, temos possibilidade de conversão, mudança de vida e salvação.
Na minha infância eu passava horas a ver a chuva caindo nas plantas e nas casas, e aproveitava para canas as músicas do meu tempo, e tocava gaita.
Olhando para a água que cai, vejo como eu mudei, embora a chuva continue caindo do mesmo jeito. Algumas dessas gotas até podem ser as mesmas daquele tempo, já “recicladas”. Como o tempo passa rapidamente! Precisamos aproveitá-lo bem! Quanto tempo perdido com discussões, veleidades, coisas supérfluas, até com pecados!
O Beato Irmão Carlos de Foucauld morava no deserto e passava o tempo na contemplação de Deus e na acolhida aos inúmeros hóspedes que por ali passavam (chegava a 60 por dia), pois era um oásis no meio do deserto do Saara. Ele rezava oito horas por dia. Deus e o próximo: eis qual deve ser nosso objetivo!
Há um filme que intitula a vida do Irmão Carlos como uma “Vida Inútil”. Muitos acham inútil viver orando intensamente e servir aos irmãos. No Saara só chove duas vezes por ano.
Agora já estou no dia 01 de abril de 2015, sexta-feira. O noticiário da tevê disse que a chuva de ontem causou muitos estragos no outro lado da cidade. O que para mim foi uma grande alegria e paz, para muitos foi uma enorme tristeza! É como Deus: para os que nele confiam, é o Salvador; para os que amam o pecado, é considerado um carrasco. Alegria de uns, tristeza de outros.
Mesmo nos lugares em que a chuva fez estragos, Deus não em culpa! As autoridades é que precisam fazer todas as infraestruturas necessárias! A ganância e a má administração de alguns prejudicam a carência de outros, e estes sempre saem perdendo e vivem nesses lugares insalubres!
Deus respeita as escolhas humanas e não costuma agir desnecessariamente. Ele só age quando é estritamente necessário para alguma intenção superior que tem a respeito daquela(s) pessoa(s).
Quando Deus não nos livra de algum problema, dá-nos força necessária e sua graça para vencermos os obstáculos. Para Deus, o importante é que, após a morte, estejamos com ele no céu. É por isso que ele não interfere, a não ser às vezes, nos acontecimentos e catástrofes, como as causadas pela chuva. Deus nos ama a todos, sejamos nós pessoas santas, sejamos pecadores endurecidos. Deus ama até quem está no inferno!
Davi venceu Golias com cinco pedrinhas. Em Medjugorie< Maria nos indicou outras cinco pedrinhas com que podemos vencer o maligno e as nossas falhas:
1- Eucaristia: participação ativa, consciente, tanto nas Stas. Missas como em horários de adoração diários ou pelo menos semanais.
2- CONFISSÃO: Confissão consciente, sincera, sem subterfúgios para que o padre não entenda o que estamos dizendo. Arrependimento sincero ou, se este nos faltar, propor firmemente não cometer mais pecado algum. Ao mesmo tempo, pedir a Deus que nos dê a graça do arrependimento. O propósito firme de não pecar já nos coloca no caminho do céu novamente.
3- PALAVRA DE DEUS:- O estudo e a meditação diária da Bíblia, pois quando a lemos, é Deus que fala conosco.
4- JEJUM:- A princípio, o jejum na alimentação. Pode ser a pão e água ou a abstenção de algum alimento de que gostamos muito e não faz tanta falta para a saúde. A seguir, o jejum de outras coisas, como TV, conversas inúteis e supérfluas etc.
5- ROSÁRIO:- É uma verdadeira arma contra o mal. Simples, é a oração em que meditamos os principais mistérios da vida de Jesus. Consta de quatro terços, e pode ser encontrado neste site, no setor "índice das orações", aí acima.