Amanda Luísa Martins Vasconcelos, aluna da terceira série do Ensino Médio
O teatro é uma das formas artísticas mais complexas já criadas pelo ser humano. Teve sua origem na Grécia, no século VI. a.C., a partir de um ritual de adoração ao deus do vinho Dionísio, o ditirambo; e com o tempo desenvolveu-se em apresentações com atores, atos e diálogos, mais próximo de como o teatro é na contemporaneidade. Essa arte tinha a função de educar as classes, as elites por meio das tragédias e a população com as comédias; entretanto, sua função de educar foi se modificando ao longo da história, ainda se mostrando extremamente relevante no meio educacional, no desenvolvimento do Quociente Emocional (Q.E.)., em especial de crianças e jovens.
Antes da invenção do cinema e da televisão, o único modo de ver alguém atuando era ir assistir a uma peça ao vivo. É natural da espécie humana a tradição da oralidade e, assim, passar os conhecimentos para as gerações futuras; em linhas gerais, esse é o objetivo do teatro, contar histórias, com sentimentalismo, que passem uma mensagem adiante. É possível observar que, com o passar dos séculos, a essência da dramaturgia é a mesma e percebe-se que, além de ser uma expressão artística, o teatro é uma metodologia de ensino.
Porém, apesar das artes dramáticas serem conhecidas pela população no geral, o teatro ao vivo não tem o mesmo protagonismo que o teatro gravado. O incentivo dado às produções teatrais vem crescendo, porém ainda falta a divulgação e o estímulo para que as pessoas, em especial os jovens, tenham um contato com a prática teatral.
O teatro aproxima os temas estudados em sala de aula da realidade vivida pelo aluno que é ator em peças. O filósofo Aristóteles definiu o teatro como a imitação das ações da vida. Isto posto, se arte é um espelho da vida, torna-se mais fácil aprender conceitos utilizando o recurso da dramatização. Por meio de um exemplo simples, um aluno que está aprendendo sobre um período histórico terá certa facilidade em compreender os episódios se “experienciar” a vida das personagens por conta própria. Ao encenar passagens de um livro ou interpretar uma figura histórica nas aulas, o aluno desenvolve um certo tipo de empatia com essas pessoas o que permite que ele se relacione com o tema estudado, enxergando a época pelos olhos de quem a viveu e relacionando-a com suas próprias vivências.
Para mais, essa aproximação dos extremos do aluno com os conteúdos também se faz presente quando ele é o espectador de uma peça. O papel do ator em cena não é só provocar sentimentos naqueles que assistem à peça, mas também de provocar o pensar reflexivo; as emoções devem servir para impulsionar um conceito ou crítica até o espectador para que ele também o compreenda. Quantas vezes, no cotidiano, não é possível deparar-se com uma situação na qual, seja em um filme, série ou no teatro ao vivo, as personagens provocaram sentimentos de tristeza ou raiva com tanto impacto que, mesmo posteriormente, continuam provocando um processo reflexivo sobre a trama durante dias ou semanas? O aluno que é espectador do teatro também é capaz de colocar seus próprios julgamentos em conflito ao deparar-se com uma situação vivida por outros.
O Quociente Emocional (Q.E.), ou inteligência emocional, por sua vez, é um conceito que está muito relacionado com os atos de assistir ao teatro e atuar. O Q.E. caracteriza-se pela capacidade de reconhecimento de padrões emocionais e pela compreensão e gerenciamento deles, seja no espectro das relações intrapessoais (consigo mesmo) e/ou interpessoais (com outras pessoas).
Resumidamente, a inteligência emocional é a habilidade de reconhecer suas próprias emoções e a de outras pessoas e lidar com elas em situações das mais diversas. Essa habilidade é reconhecida como um tipo de inteligência, porém a inteligência é, muitas vezes, automaticamente associada à habilidade com números e cálculos, uma inteligência mais “tradicional”; o que não está errado, mas existem muitas outras áreas de inteligência como abordado na obra de Gardner (1983).
Voltando ao teatro que, como já mencionado, tem a capacidade de desenvolver a inteligência emocional e retomando a ideia já apresentada, o aluno que interpreta uma personagem estabelece uma relação de empatia com ela, bem como aquele que é espectador motiva-se pelas motivações das personagens; e essa habilidade empática, assim como lidar com emoções na relação intrapessoal e interpessoal, lidar com estresse e pressão e muitas mais, tornam-se possíveis por meio do teatro. As artes dramáticas são quase como ensinar alguém a sentir, sem fazê-lo de modo explícito, mas encaminhando o aluno para o sentir; o conflito da razão e emoção torna-se um equilíbrio, pois são necessários ambos os aspectos da inteligência para a compreensão de uma obra sendo ambos os aspectos desenvolvidos por esta; a relação é cíclica, quanto mais se exigem habilidades intelectuais e socioemocionais no teatro, mais elas são desenvolvidas. Esse caráter subjetivo das emoções não pode ser ensinado diretamente, mas o caminho até ele, o teatro, pode.
Para exemplificar um pouco melhor a relação entre teatro e a educação, citarei trabalhos diferentes elaborados por autores durante o século XX que foram responsáveis por fundamentarem as pesquisas realizadas posteriormente. O inglês Henry Cook, em sua obra The Play Way (1917), propunha um exercício de improvisação teatral que seria utilizado como metodologia no ensino das disciplinas escolares, não só de línguas, mas também de história, por exemplo. O próprio nome de seu livro The Play Way pode ser traduzido para “O método da Peça”, no entanto, o termo play possui diversas traduções, dentre elas, o ato de “jogar”, “brincar”. O título do trabalho de Cook reflete muito bem o tipo de trabalho que ele realizou com seus alunos, que encenavam de forma espontânea (não ensaiada) em sala de aula, sem a intervenção do professor e ausente de preocupações com convenções teatrais para a aprendizagem. À época de Cook, os alunos costumavam apenas encenar peças e ler diálogos durante as aulas de línguas/literatura, para o escritor, o teatro deveria ser improvisacional e aplicado em diversas outras áreas do conhecimento. Enquanto professor, Cook construiu uma sala no colégio no qual lecionava, ao qual chamava de “The Mummery”, baseada no modelo de Teatro Elizabetano e os alunos improvisavam peças tendo a literatura dramática como base.
O outro autor a ser apresentado é o inglês Peter Slade, que tinha uma visão que divergia da de Cook. Em sua obra, desenvolveu que o conceito que a intitulava, o Jogo Dramático Infantil (1978) não seria uma prática criada, mas sim uma natural mimetização do comportamento humano. A parte na qual a tese de Slade se distancia da de Cook é que, enquanto que para Cook o teatro serviria como método de ensino para outras disciplinas, para Slade, a importância da dramaturgia no desenvolvimento infantil era tanta que deveria ter um espaço próprio na grade curricular das escolas, como uma disciplina independente das demais.
A terceira pessoa a ser abordada para exemplificar a relação “dramacadêmica” é a autora estadunidense Viola Spolin, cuja didática a respeito da dramaturgia compreende que essa prática é composta pela improvisação pautada em regras bem determinadas, com destaque para o acordo grupal, o foco, a instrução e a avaliação. Ao contrário de Cook e Slade, que defendiam que os alunos não fossem limitados por intervenções feitas pelo professor, Spolin afirmava que, além das regras pré-determinadas, o objetivo do ato dramático está sempre voltado para a busca de soluções para desafios propostos pelo professor responsável, demandando uma maior concentração dos alunos. Para a professora, o jogo teatral visa a aquisição da linguagem cênica propriamente dita, ou seja, o indivíduo sente-se livre para atuar criativamente, de forma improvisada, porém dentro de determinadas limitações, com o advento da prática desse jogo constantemente, acaba incorporando, de forma intuitiva, as técnicas teatrais.
Isto posto, o teatro pode ser incorporado na vida dos alunos tanto como metodologia na grade curricular tradicional, quanto como incentivado em uma disciplina independente nas escolas. Para mais, ainda é possível democratizar o acesso às peças teatrais, levando alunos ao teatro em viagens de pesquisa de campo.
Na minha concepção, o método de Slade encaixa-se perfeitamente para crianças na fase do Ensino Fundamental I, o teatro seria trabalhado tão naturalmente quando uma brincadeira, em horários extracurriculares nas escolas, como uma disciplina mais descontraída. Já o método de Cook poderia ser incluído nas disciplinas tradicionais do currículo, como Literatura, História, Sociologia, Filosofia, e outras mais, a partir do 6º ano do Ensino Fundamental II. Com o início da adolescência a maturidade, dos alunos contribuiria para o desenvolvimento de uma dinâmica mais complexa do teatro. O método abordado por Spolin caberia perfeitamente como uma aula extracurricular a partir do 8º ou 9º ano do Ensino Fundamental II e para o Ensino Médio, sendo mais voltado para a incorporação de técnicas de dramaturgia, um aspecto mais profissionalizante do teatro, para os alunos mais interessados na atuação em si.
A imaginação é mais importante que o conhecimento. É com essa frase dita por ninguém menos do que o físico Albert Einstein que se iniciam inúmeros debates a respeito do tema e com a qual vou me direcionando para a conclusão deste artigo. A verdadeira questão, no entanto, é por que um cientista afirmaria isso? Porque se não houver criatividade todos os conteúdos estudados não servem de nada, ficam acumulados em cantos da memória sem utilidade.
É possível concluir que o teatro não é apenas uma expressão artística a ser apreciada, mas deve ter um papel crítico que provoque a reflexão do espectador, podendo também ser utilizado como método de ensino para os jovens, contribuindo tanto na pedagogia quanto na psicologia sócio-emocional; sendo necessários maiores investimentos. O teatro não deve ser visto apenas como um luxo ou uma arte a ser apreciada, mas também como ferramenta de reflexão e crítica social.