Poemas inspirados na leitura de “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago, realizados pelos estudantes do 3º ano de Desenho de Construção Civil, sob coordenação da professora Cíntia Martins Sanches.
ALBUM CAECITAS
(GLAUBER HENRIQUE)
Cegueira branca, que tudo apaga,
No silêncio das ruas ninguém enxerga,
Os olhos veem, mas nada capturam,
Mundo perdido, onde a alma se encerra.
Sem nomes, sem rostos, sem identidade,
Homens e mulheres vagam na cidade,
Desespero grita, mas a voz não sai,
Na escuridão da mente, a verdade cai.
Civilização rasgada, frágil, desfeita,
O instinto surge, a bondade de enfeita,
Restam poucos que veem sem os olhos,
A compaixão é farol em meio à névoa.
E no meio da noite, surge uma esperança,
Alguém que vê, que ainda dança,
O amor e o caos, em fios se enlaçam,
No ensaio da cegueira, os humanos se abraçam.
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
(ISADHORA CONSTANTINO)
Um dia a visão se esvaiu
Sem aviso, sem dor
E a cidade se tornou um
Mar de neblina, sem cor.
Olhos abertos, vazios
Sem saber para onde olhar
Era a cegueira branca, um véu
A sufocar
O caos se espalhou
A ordem se quebrou
Humanos se perderam,
O instinto dominou
Quem somos sem ver?
Quem somos sem luz?
Na ausência dos olhos
É o escuro que nos
Conduz.
SILÊNCIO DOS OLHOS
(ANA LAURA OKUDA)
Medo e desespero se tornaram dor
Dor de não ver mais o mundo
Dor de se sentir um moribundo
Dor de se sentir inútil...
Não posso ver e nem ajudar
Me tornei um peso
Provavelmente minha mulher vai me deixar
Perdi o carro por não ver as chaves
Quebrei o vaso por não ver o vidro
Feri a mão por não ver o caco
Fiz ela chorar por não ver NADA.
APAGÃO BRANCO
(ANA LAURA OKUDA)
Asfalto, semáforo, vermelho
De repente... Um branco
Tudo branco!
Não havia mais carros, nem trânsito
Mas havia buzinas, choro, gritos
Desespero, medo e um cego
Cego de vista com medo de não ver.
VER O VAZIO
(PABLO GALAN)
Dizem que o coração não sente o que os olhos não veem,
Mas eu não vejo, e mesmo assim sinto.
O vazio se enche de vozes e passos,
Como se o escuro dançasse à minha volta,
Tateando a alma que não se perde,
Mas se entrega ao medo, à dor, ao desconhecido.
No silêncio gritante da cegueira,
Sinto a presença da lua que não vejo,
Como se as estrelas sussurrassem segredos
Que só o coração pode ouvir.
O mundo se torna bruma, sombra, eco,
Mas no peito, a verdade ainda queima,
Porque há mais para sentir do que o que os olhos podem alcançar.
CEGUEIRAS
(GABRIEL SANTOS FREITAS)
Na cidade em brumas de um olhar sem fim
Cegos vagam, perdidos, nas sombras sim
A humanidade nua, em caos se revela
O desespero humano, a verdade mais bela.
A quarentena imposta, o instinto aflora
A luta pela vida, em meio à desflora
Entre o amor e a dor, um fio tênue se estica
A luz que se apaga, a esperança se explica.
Saramago, o mestre em prosa de dor,
Nos ensina a ver além de nosso sensor,
Na cegueira coletiva, um espelho profundo,
Reflexo da alma, um chamado ao mundo.
O PESO DA SOMBRA
(PAULA COUTO)
A metrópole repousa sob um manto escuro,
Cegos buscam a trilha esquecida,
A ordem se desmorona, o pânico é duro,
E cada passo se arrasta na vida.
Os lamentos se perdem no ar gelado,
Fome e desespero nos corpos caídos,
Lutamos por pouco, num solo marcado,
Silêncios em forma de destinos feridos.
Mas brilha uma luz no olhar encoberto,
Que guarda a essência do que já foi,
Uma mão nos guia, firme e certa,
Nos conduz na escuridão que tudo destrói.
NO coração da noite, um fio de esperança,
Que, mesmo no vazio, nos mantém em confiança.
O DESLUMBRE DA LUZ
(KAUAN DA SILVA FRANCISCO)
Um segundo,
Conseguira deslumbrar a luz
Como reflexo do sol
Em um lago espelhado
E as nuvens flutuando no céu
Outro, apenas a imensidão do vazio
Como se fosse uma grande sala escura,
Apenas ouvia as buzinas enfurecidas
De tal maneira que iriam me atirar ao mar
Para servir de comida aos tubarões
Logo, vieram me acudir
Mas me levaram algo em troca
Meu carro!
E eu acreditei na gentileza das pessoas
No fim perdi o prazer de observar
Tudo o que o mundo oferta.
CEGUEIRA SÚBITA
YASMIM VITAL
Um dia a luz se apagou na cidade,
Cegueira súbita, um mar de incertezas,
A humanidade em sua fragilidade.
Enfrenta o abismo de suas fraquezas.
A vida se torna algo cruel,
As lágrimas caem, revelando a dor,
Entre gritos e sombras, o novo aparece
Surge a luta por amor e valor.
Mas há quem veja além do vazio,
Uma mulher destemida, farol na escuridão,
Ela traz esperança e desafia o que é frio,
Com coragem e fé no coração.
Saramago nos alerta: é preciso enxergar
Que mesmo na cegueira podemos amar.
UM CEGO NO MUNDO
(CARLA CANUTO MARQUES)
Mais um dia, o mesmo homem, na mesma rotina, no mesmo trânsito.
Mesmas cores, mesmos cheiros, os mesmos toques.
A mesma gente de sempre
E um farol com três cores: vermelho, amarelo e branco...
Branco como assim!?
De repente, a vista desaparece de forma súbita
Medo, desespero e tormento
Me abraçam fortemente
Não vejo nada, nada vejo... Mas todos na rua me me vêem
Os carros buzinam pedindo passagem
E Eu... O que faço agora?
A multidão me cerca e ainda não vejo nada
Peço socorro na esperança de ser salvo
Um herói aparece, me ajuda no momento de fragilidade
Herói o homem não era, mas malandro com certeza
aproveitou do momento e meu carro furtou
A respeito nada fiz pois nada via
Em casa sozinho estou, a espera de minha mulher
Minha mulher.... Meu amor, será que irá me deixar?
Cego estou, inútil me tornei, um peso para ela serei....
Tento nisso não pensar, questionamentos e medos rodeiam minha mente de forma a mostrar a triste realidade.
O mundo não é gentil com os deficientes.
Um fragmento de minha infância me vem à minha mente
Bons tempos em que eu era inocente
Quando crianças brincávamos de um jogo: "E se eu fosse cego?"
Pobre era a criança que com a visão tampada ficava
Impuros e tapas faziam parte da diversão
Afinal nada conosco pode fazer
Como se defender daquilo que não pode ver.
Vendo como será meu destino ponho-me a chorar...
NÃO!
Eu paro, respiro, me recomponho
Tento andar pela casa sem me machucar
Ação em vão, pois logo escuto o vaso partindo-se no chão
Corto minha mão com o vidro
Resmungando algo parecido
"Meu Deus, o que fiz para merecer tamanha desgraça!?"
Sento no sofá, minha mulher chega, ouso sua linda vos
Preocupada aproxima-se, posso sentir o vento de seus movimentos,
Suas mãos macias a tocar as minhas
Seu beijo em minha testa
Foi nesse momento que senti meus outros sentidos de um modo como nunca antes.
O cheiro do perfume de minha esposa
A água em meus pés
O som do interruptor
E minha boca seca.
Foi assim que eu percebi como era ser um cego no mundo
Tentar sobreviver em um mundo cruel
E ter meus 5 sentidos misturados como em uma sinestesia.
José Saramago