“Me chamo Sanir. Sou (ou era) um pesquisador especializado na geografia do mundo de Eri – Gor, um mundo vasto e possuidor de vários mistérios. Aprendi muita coisa nos meus vinte anos de exploração, tudo graças aos deuses que criaram um mundo supremo.
Como qualquer pessoa sedenta por conhecimento, eu achava que algo ainda faltava para que eu me sentisse realizado. Algo que precisava ser digno de ser chamado de “sucesso”. O Reino de Eri tinha muitos fatores que poderiam me levar a esse sucesso, porém eu precisava de algo diferente. Mas o que motivaria uma pessoa a querer saber sobre algo fora de Eri? Deveria ser algo, que querendo ou não, afetasse a todos. E isso existe. Mesmo as pessoas mais neutras sabem que o buraco que existe no mundo não está ali em vão. Mesmo estando em Gor, sua magnitude afeta as pessoas de Eri. Mas como?
A influência
Uma coisa é certa: o Mundo Sombrio não é apenas um buraco dominado pela escuridão. De alguma maneira, ele consegue ter influência dentro do nosso mundo. Mas como, se no nosso mundo existem deuses protetores? A resposta assustará a muitos de vocês: o Mundo Sombrio só tem poder sobre as pessoas que procuram seus poderes. Sim, existem pessoas que procuram os atalhos providenciados pelo Mundo Sombrio. A ganância acaba fazendo com que o mundo de escuridão permaneça ainda poderoso. Acabei descobrindo isso tarde demais…
A viagem
Estou nessa sozinho. Família, amigos, conhecidos: nenhum deles me ajudou, nem mesmo com palavras como “boa sorte”. Eu os entendo. Ninguém é obrigado a dar apoio a uma pessoa que está querendo realizar algo tão perigoso. Às vezes, nós acordamos pela manhã sem nenhuma expectativa, e mesmo assim somos recebidos por um “bom dia”. Muitas vezes, recebemos um “boa viagem!” simplesmente por irmos a um mercado do outro lado da rua. E eu, que realizaria uma viagem que poderia me matar, não recebi nada.
Estou diante do buraco. Diante do Mundo Sombrio. Estou com medo. Não sei o que fazer. Escuto uma voz vindo do interior da escuridão. Meus pés começam a se mover contra a minha vontade. Algo me seduzia. Meu corpo começa a tremer. Me sinto tão leve como uma pluma. Estou caindo lentamente. Estou voando. Não sinto mais nada. A escuridão me faz adormecer. Será que estou sonhando?
Sonho ou realidade?
Acordei. Não vejo nada. Não escuto nada. Não sinto nada. Será que eu estou morto? Estou cercado pela escuridão. Pego meu caderno e começo a escrever. Mesmo sem ver e saber exatamente o que eu estou escrevendo, palavras começam a se formar. Como isso é possível? Será que sou eu mesmo que está escrevendo?
Levanto-me e começo a andar. Os caminhos são longos. Alguns curtos. Escuto vozes. Parece que são pessoas. Eu paro. Escuto uma voz. A mesma que escutei quando estava no topo. Ela me faz uma pergunta. Estou tentando de toda maneira escrever a pergunta. Algo não deixa. Deixa-me escrever tudo, menos a pergunta. Respondi sim. Meus olhos são abertos. Consigo enxergar tudo ao meu redor. Grito pela voz. Não escuto nada. Começo a andar novamente. Vejo pessoas. Vejo locais. Acho que estou em Gor. Quando olho para cima, vejo Gor, porém ao contrário. Algumas pessoas tentam me explicar onde estou. Fico ali por um tempo, tentando aprender algo. Tentarei passar para vocês o que aprendi… Ou sonhei.
Um mundo
Não estou mais só. Existem muitas pessoas ao meu redor, muito mais do que esperava, felizmente, ou infelizmente. Elas estão vivas, o que desmente todos os rumores de que o Mundo Sombrio é o mundo dos mortos. Se elas estão mortas, então eu também estou. Mas mortos não escrevem, não falam, não sentem nada… Eu estou vivo!
Um mundo enorme dominado pela escuridão. Um mundo como outro qualquer, com construções e pessoas. Um mundo erguido pelos banidos. Erguido por pessoas que escolheram caminhos tortuosos enquanto estavam em Eri – Gor. Foram julgadas pelos deuses e banidas. Tenho pena de muitas delas. Muitas estão arrependidas. Mas não há mais retorno, pelo menos à primeira vista. Cair aqui parece fácil. Você nem mesmo se machucará, mesmo ao cair de uma altura sem fim. Sair é impossível. Não há uma escada te levando para o topo. Não há alguém lá em cima tentando te ajudar. Quando você olha para cima, você só sente dor. Dor de ver o mundo que você vivia ao contrário, passando a impressão de que lá não é mais o seu lugar.
Caminhei até conseguir ver minha casa. Onde estou não há nada, apenas um enorme corredor de escuridão. Nem todos os locais daqui possuem construções ou pessoas. Olhando para cima, sim. Vi pessoas caminhando como se nada tivesse embaixo delas. Talvez elas até saibam que há, mas preferem ignorar. Não as julgo: viver sabendo que há vidas embaixo dos seus pés não deve ser nada fácil. O melhor mesmo é esquecer. Eu, porém, nunca me esquecerei das coisas que estou vivenciando. Se um dia, tudo que estou escrevendo chegar às mãos de alguém, só peço uma coisa: não esqueça. Não falhe ao ponto de ser mandado para cá. Não responda sim à pergunta. Você receberá vantagens, mas poderá pagar um preço muito caro. Você é melhor que a Sedução do Mundo Sombrio. Eu era…”
— Principais trechos retirados do relato de Sanir, um pesquisador que explorou o Mundo Sombrio. O mesmo se encontra desaparecido, e muitos dizem que ele ficou louco. Ou normal...