A vila não tinha nome que constasse em qualquer mapa oficial dos reinos — apenas um punhado de casas de pedra e madeira agrupadas ao redor de um poço comum, cercadas por campos de cevada que mal alimentavam quem os cultivava. Krom e Gariele chegaram ali ao entardecer, cansados de dias de estrada, em busca apenas de um teto seco e água limpa antes de seguirem para Pempoii.
O que encontraram foi um silêncio errado.
Krom notou primeiro — o tipo de quietude que não vinha de paz, mas de medo contido. As poucas pessoas visíveis nas ruas estreitas se moviam depressa, os olhos baixos, evitando qualquer contato que pudesse ser interpretado como convite à conversa. Uma mulher carregando um cesto de pão atravessou a rua para o lado oposto ao vê-los se aproximar, não por desconfiança dos recém-chegados, mas por um hábito que Krom reconheceu instantaneamente: o hábito de quem aprendeu a se tornar invisível.
Foi na única taverna da vila, pequena e mal iluminada, que descobriram o motivo. O taverneiro, um homem magro de mãos trêmulas, serviu-lhes cerveja aguada sem fazer perguntas e evitou qualquer conversa até que Krom, deliberadamente, deixou uma moeda de prata sobre o balcão — mais do que a bebida valia.
— Vocês vão embora amanhã de manhã, presumo — disse o homem, a voz baixa, quase um sussurro, como se as próprias paredes pudessem escutar.
— Talvez — respondeu Krom, sem comprometer-se. — Por quê?
O taverneiro hesitou, os olhos correndo até a porta antes de responder.
— Há homens. Vêm a cada duas semanas, mais ou menos. Levam metade de tudo que colhemos, metade de tudo que criamos. Dizem que é para "proteção" — riu, um riso amargo e sem humor algum. — Proteção contra eles mesmos, suponho, já que ninguém mais nos ameaça por aqui.
Gariele, sentada ao lado de Krom, ouvia tudo com uma atenção que já não tentava disfarçar.
— Quantos? — perguntou Krom.
— Cinco. Talvez seis. Não sei ao certo, nunca contei com cuidado — o taverneiro baixou ainda mais a voz. — Vêm amanhã, na verdade. É por isso que a vila está assim. Todo mundo sabe o dia.
Krom não disse mais nada naquela noite. Mas, na manhã seguinte, quando os cinco homens chegaram montados em cavalos cansados, armados com espadas enferrujadas e a arrogância descuidada de quem nunca havia encontrado resistência real, encontraram algo diferente esperando por eles na praça central da vila.
Krom não escondeu sua presença. Ficou parado, sozinho, entre os bandidos e a primeira fileira de casas, como se apenas estivesse de passagem e o caminho deles cruzasse o dele por acaso.
O líder do grupo, um homem corpulento com uma cicatriz mal cuidada na bochecha, riu ao vê-lo.
— Sai da frente, forasteiro. Isso não é da sua conta.
— Não é — concordou Krom. — Mas vocês vão embora mesmo assim. Sem nada.
O que se seguiu durou menos de um minuto. Krom não usou a espada — não seria necessário contra homens tão descuidados, tão acostumados à submissão fácil de vítimas sem escolha. Desarmou o primeiro antes que o homem completasse o gesto de desembainhar. Derrubou o segundo com um golpe calculado que quebrou o equilíbrio sem quebrar ossos desnecessariamente. Os outros três, vendo a rapidez impossível daquilo, hesitaram tempo suficiente para que Krom os neutralizasse um a um, sem pressa, sem raiva visível — apenas eficiência pura, a mesma eficiência que havia sido lapidada ao longo de duas décadas.
O líder, o último ainda de pé, olhou para os companheiros caídos ao seu redor, depois para Krom, e finalmente ergueu as mãos em rendição.
— Quem é você?
— Ninguém que precise saber seu nome — respondeu Krom. — Digam aos que mandaram vocês que esta vila não paga mais nada. Se voltarem, não terão a sorte de sair andando.
Os cinco homens partiram a pé, os cavalos confiscados entregues ao taverneiro como compensação parcial pelos meses de extorsão. Gariele, que observara tudo de uma janela próxima, encontrou Krom mais tarde, ainda ajudando os moradores a reorganizar o que restara de suas provisões.
— Você não ganhou nada com isso — disse ela, não como crítica, mas como observação genuína.
— Não — concordou Krom.
— Então por quê?
Krom considerou a pergunta por um momento, os olhos ainda na tarefa em mãos.
— Porque eu podia.
Foi uma resposta simples, quase idêntica em espírito a outras que ele já dera ao longo dos anos. Mas Gariele guardou aquelas palavras com um cuidado especial, como se reconhecesse nelas algo que um dia gostaria de poder dizer também.
O passado de Krom carregava uma lista que ele nunca escrevera em papel algum, mas que conhecia de memória com uma precisão que nenhum pergaminho poderia igualar — os nomes e rostos dos mercenários que haviam liderado e executado o ataque à sua aldeia, reunidos ao longo de anos de investigação paciente conduzida nos intervalos entre contratos oficiais da Sociedade.
Um a um, ao longo de mais de uma década, esses nomes haviam sido riscados daquela lista mental. Alguns morreram rapidamente, quase sem perceber o que os atingira. Outros tiveram tempo de reconhecer, nos últimos segundos de vida, exatamente por que estavam morrendo — Krom fazia questão disso, sempre que possível, não por crueldade gratuita, mas porque acreditava, com uma convicção quase religiosa, que os responsáveis mereciam saber o preço exato do que haviam feito.
Restava apenas um nome quando Krom, já um homem formado havia anos pela Sociedade Andoriana, finalmente localizou o último responsável — um antigo capitão de mercenários que liderara a incursão original contra a aldeia perto do desfiladeiro de Ashkar, agora vivendo sob identidade falsa numa propriedade isolada nas fronteiras do reino de Vurkin.
A caçada durou meses. Krom rastreou rumores, seguiu pistas frias através de tabernas e portos, comparou descrições contraditórias até que a certeza se solidificasse. Passou por três cidades diferentes seguindo boatos que se revelaram falsos, interrogou antigos mercenários que haviam servido sob o mesmo comando décadas antes, pagou por informações que muitas vezes não levavam a lugar algum. Em duas ocasiões, chegou a acreditar ter finalmente encontrado o homem certo, apenas para descobrir, depois de semanas de observação cuidadosa, que se tratava de outro indivíduo qualquer, coincidentemente parecido com as vagas descrições que colecionara ao longo dos anos.
A paciência que a Sociedade lhe ensinara desde os sete anos de idade revelou-se, mais uma vez, sua ferramenta mais valiosa. Onde outro homem teria desistido, frustrado pelos becos sem saída e pistas falsas, Krom simplesmente recomeçava, ajustando o método, refinando as perguntas, seguindo cada fio novo com a mesma disciplina metódica que aplicava a qualquer missão profissional.
Quando finalmente confirmou a identidade do homem, aplicou à investigação da propriedade a mesma paciência metódica que aplicava a qualquer alvo — os guardas contados, as rotinas memorizadas, os pontos cegos identificados um a um ao longo de semanas de observação silenciosa.
A noite em que finalmente agiu era sem lua, o tipo de escuridão que Krom sempre preferira para esse tipo de trabalho. Atravessou o perímetro da propriedade usando o Andomovi com a fluidez de quem já fizera aquilo centenas de vezes, e chegou ao quarto do antigo capitão sem que um único guarda percebesse sua passagem.
O homem — mais velho agora, o cabelo grisalho, o corpo já perdendo a robustez que certamente possuíra décadas antes quando liderara a incursão contra a aldeia de Krom — dormia sozinho, sem a proteção adicional que sua paranoia deveria ter exigido depois de tantos anos vivendo sob nome falso.
Krom o acordou deliberadamente, algo que raramente fazia em outras missões. Precisava que aquele homem soubesse exatamente quem o havia encontrado, e por quê.
O capitão, confuso e assustado, levou alguns segundos para processar a figura escura parada ao lado de sua cama.
— Quem... — começou, a voz ainda pastosa de sono.
— Você não vai se lembrar — disse Krom, a voz controlada, sem qualquer traço de fúria evidente, apenas uma frieza que vinha de anos de espera. — Uma aldeia perto do desfiladeiro de Ashkar. Há mais de vinte anos.
O rosto do homem empalideceu visivelmente, mesmo na escuridão parcial do quarto.
— Isso foi há muito tempo. Eu era apenas um soldado seguindo ordens...
— Você liderava — cortou Krom. — Eu me lembro do seu rosto. Era mais jovem, mas era você.
O capitão engoliu em seco, os olhos buscando desesperadamente qualquer saída que não existia.
— Eu tinha uma família também na época. Fazia o que precisava para sobreviver, para alimentá-los...
— Meus pais também tinham uma família — disse Krom. — E não sobreviveram.
Não houve mais súplicas depois disso, nem mais tentativas de justificativa. O capitão pareceu, nos últimos instantes, reconhecer que nenhuma palavra mudaria o que estava prestes a acontecer — que aquele momento havia sido, de alguma forma, inevitável desde a tarde em que fizera sua aldeia arder.
Krom completou o que viera fazer com a mesma precisão silenciosa que caracterizava todo seu trabalho. Não houve luta, não houve caos — apenas o fim de algo que começara vinte anos antes, numa tarde de fumaça e cinzas que um menino de sete anos jamais conseguira esquecer completamente.
Krom deixou a propriedade antes do amanhecer, movendo-se pela escuridão com a mesma eficiência silenciosa da entrada, e cavalgou por horas antes de finalmente parar, sozinho, numa clareira distante de qualquer estrada principal.
Desmontou. Ficou parado por um longo momento, esperando por algo que não veio.
Ele havia imaginado aquele instante incontáveis vezes ao longo de duas décadas — a sensação que finalmente sentiria quando o último nome daquela lista de mercenários fosse riscado, quando a promessa feita numa primeira noite fria de dormitório fosse, enfim, completamente cumprida. Imaginara alívio. Imaginara, talvez, algo próximo de paz, ou ao menos o fim de um peso que carregara desde os sete anos de idade.
Não sentiu nada disso.
Havia apenas um vazio silencioso, quase decepcionante em sua ausência de qualquer emoção reconhecível. Os pais de Krom continuavam mortos. A aldeia continuava destruída, suas cinzas há muito dispersas pelo vento das montanhas. Nada daquilo que a vingança prometera entregar — nenhuma versão de justiça que realmente devolvesse o que fora perdido — havia se materializado.
Krom se sentou na terra fria daquela clareira, a espada ainda manchada apoiada ao lado, e pela primeira vez em muitos anos permitiu-se questionar, com uma honestidade que raramente se concedia, se todo aquele tempo dedicado à caçada havia realmente valido o preço que pagara. Não o preço em vidas tiradas — sobre isso, ele continuava convicto de que a justiça havia sido feita. Mas o preço em anos de sua própria vida consumidos por uma obsessão que, agora completa, não lhe devolvia absolutamente nada em troca.
Pensou em quantas noites havia perdido revisando mentalmente aquela lista de nomes, quantas missões oficiais da Sociedade ele aceitara não por interesse genuíno, mas apenas como pretexto para viajar a alguma região onde pudesse, nas horas de folga, seguir mais uma pista sobre o paradeiro de mais um responsável. Vinte anos de sua vida, de alguma forma, haviam girado ao redor daquela lista — e agora que ela finalmente estava vazia, Krom não sentia a libertação que sempre imaginara, mas algo mais próximo de vertigem, como um homem que caminha durante anos em direção a um horizonte específico e, ao finalmente alcançá-lo, descobre que não há nada esperando do outro lado.
E agora?, pensou, encarando a pergunta que nunca havia se permitido considerar seriamente enquanto a lista ainda tinha nomes por riscar.
Não tinha resposta. Pela primeira vez desde os sete anos de idade, Krom não sabia qual seria seu próximo propósito.
De volta ao presente, Krom e Gariele finalmente avistaram os portões de Pempoii ao entardecer do dia seguinte à partida da vila sem nome.
A cidade anunciava-se de longe através de um brilho artificial que contrastava com a escuridão natural do campo ao redor — tochas e lanternas em número excessivo, iluminando ruas que, Krom sabia por reputação, nunca dormiam completamente. Mesmo à distância, era possível ouvir música e vozes erguidas em risadas que soavam, de alguma forma, forçadas demais para serem genuínas.
Gariele observava tudo com uma mistura de curiosidade e desconforto crescente.
— Este lugar tem um cheiro estranho — comentou, enquanto se aproximavam dos portões abertos, sem qualquer tipo de guarda verificando quem entrava ou saía.
— Vai ficar mais forte — disse Krom, sem qualquer tentativa de suavizar a advertência.
Ele conhecia Pempoii apenas por reputação, nunca tendo tido motivo profissional para visitá-la ao longo de anos de trabalho para a Sociedade — a maioria dos contratos que aceitava evitava deliberadamente aquele tipo de cidade, onde a riqueza circulava através de canais que ele considerava, sem exceção, abomináveis. Tudo ali, cada estabelecimento, cada esquina, cada sorriso vendido por moedas, existia sobre a fundação de corpos tratados como mercadoria — não muito diferente, em sua essência mais profunda, do estrado de madeira onde ele próprio fora vendido quando criança.
Havia algo particularmente perturbador, para Krom, em observar como a cidade inteira parecia orgulhosa daquilo que deveria envergonhá-la. Cartazes coloridos anunciavam atrações específicas em letras exageradas. Homens e mulheres, alguns claramente ali por escolha própria e outros com os olhos vazios de quem já não possuía escolha alguma havia muito tempo, chamavam a atenção de transeuntes em cada esquina. A linha entre os dois grupos, ele sabia, era quase sempre invisível para quem apenas passava — mas não para ele, que passara a vida inteira aprendendo a identificar exatamente esse tipo de diferença sutil.
Atravessaram as ruas principais em silêncio, Krom mantendo um ritmo deliberadamente discreto, evitando contato visual desnecessário com os inúmeros indivíduos que ofereciam, em voz alta ou sussurrada, toda sorte de serviços e prazeres disponíveis por um preço.
Foi perto de uma pequena praça, iluminada por lanternas penduradas entre os prédios, que o primeiro homem se aproximou.
Vestia roupas finas demais para o resto de sua aparência desgrenhada, e sorriu ao avaliar Gariele com um olhar que fez Krom sentir uma tensão fria se instalar imediatamente em seus ombros.
— Uma Halvlin — disse o homem, a voz melosa, dirigindo-se diretamente a Krom como se Gariele não estivesse presente para ouvir. — Raras por aqui. Quanto você quer por ela?
— Ela não está à venda — respondeu Krom, a voz mantendo-se perigosamente calma.
O homem riu, claramente não acostumado a receber recusas.
— Todo mundo tem um preço em Pempoii, amigo. Diga um número.
— O número é zero — disse Krom. — Porque ela não é minha propriedade para vender.
O homem ergueu as mãos num gesto de rendição fingida, ainda sorrindo, e se afastou murmurando algo sobre "forasteiros sentimentais". Mas não foi o único. Ao longo da meia hora seguinte, mais dois homens diferentes se aproximaram com propostas similares, cada um recusado com a mesma frieza direta.
Gariele, andando ao lado de Krom, mantinha o rosto impassível, mas ele notou a tensão crescente em seus ombros pequenos, a forma como sua mão se aproximava, quase instintivamente, do cinto onde carregava a faca que ele mesmo lhe dera semanas antes.
— Eles falam de mim como se eu fosse um objeto — disse ela, a voz baixa.
— Aqui, é assim que muitos pensam — respondeu Krom. — Não vamos ficar mais tempo do que o necessário.
Foi ao anoitecer, numa rua mais estreita e menos iluminada que os levava de volta em direção à pousada onde haviam deixado seus poucos pertences, que o perigo real se materializou.
Krom sentiu antes de ver — aquela mudança sutil no ar, o tipo de alerta que anos de treinamento haviam tornado quase instintivo. Contou rapidamente: quatro homens, posicionando-se com uma coordenação que sugeria mais experiência do que os bêbados casuais que haviam abordado antes na praça.
— Fique atrás de mim — disse a Gariele, a voz baixa mas urgente.
Os quatro homens fecharam o círculo com uma rapidez calculada, um deles empunhando uma corda, claramente destinada a imobilizar em vez de matar — a intenção óbvia sendo capturar Gariele viva, provavelmente para revendê-la a algum dos bordéis especializados que a cidade oferecia para "gostos" específicos.
— Desculpe, forasteiro — disse o que parecia liderar o grupo, um homem magro com uma cicatriz cruzando o lábio superior. — Nada pessoal. Só precisamos da garota.
— Não vão levá-la — disse Krom, a voz agora completamente desprovida de qualquer calor.
O homem riu, claramente subestimando o que tinha diante de si — mais um entre incontáveis inimigos ao longo dos anos que cometeriam o mesmo erro fatal de julgar Krom pela aparência comum, pela ausência de qualquer símbolo ou reputação visível que anunciasse o que ele realmente era.
— São quatro contra um, amigo. Não precisa ser assim.
— Tem razão — disse Krom. — Não precisa.
O que se seguiu foi mais rápido e mais brutal do que o confronto com os bandidos da vila. Ali, na vila, ele resolvera o problema com contenção deliberada — homens gananciosos, descuidados, mas sem intenção real de causar dano permanente a ninguém, apenas extorquindo o que podiam. Aqui era diferente. Homens que tentavam sequestrar uma criança para vendê-la não mereciam a mesma contenção, e Krom não era, em sua essência mais profunda, um homem que incapacitava. Era um assassino formado pela Sociedade Andoriana, e diante de escravistas dispostos a levar Gariele à força, não havia parte dele interessada em poupar vidas.
O primeiro homem, o da corda, nunca chegou a usá-la. Krom fechou a distância entre eles antes que o gesto pudesse ser completado, e a lâmina encontrou sua garganta antes que ele sequer registrasse o movimento — morto antes de tocar o chão. O segundo tentou atacar pelas costas, um erro que Krom já esperava, girando o corpo numa sequência de Andomovi que o levou para fora da linha de ataque enquanto cravava a faca sob as costelas do agressor, um golpe certeiro e definitivo que interrompeu qualquer grito antes que pudesse sair.
O terceiro e o quarto, vendo os dois primeiros caírem mortos em questão de segundos, hesitaram — hesitação que Krom não lhes concedeu tempo suficiente para corrigir. O terceiro tentou recuar, mas não foi rápido o bastante; Krom o alcançou e encerrou tudo com a mesma eficiência fria que aplicara aos outros. O último, paralisado pelo terror diante da velocidade impossível daquilo, mal ergueu as mãos antes que a lâmina o alcançasse também.
Quando terminou, os quatro homens jaziam mortos na rua estreita, o sangue escurecendo rapidamente sobre as pedras do calçamento. Krom não sentiu necessidade de verificar — sabia, com a mesma certeza fria de quem já fizera aquilo centenas de vezes, que nenhum deles se levantaria de novo.
Krom se virou imediatamente para Gariele.
— Você está bem?
Ela assentiu, os olhos arregalados diante dos corpos ao redor — não de medo dele, ele percebeu, mas de algo mais próximo de espanto genuíno diante da velocidade e da definitividade com que tudo acontecera.
— Eles não faziam ideia de quem você era — disse ela, finalmente, a voz baixa.
— Não — concordou Krom, limpando a lâmina antes de guardá-la novamente. — E é melhor que continue assim.
Foi na manhã seguinte, ainda processando os eventos da noite anterior, que Gariele avistou a feira.
Não era muito diferente, em sua estrutura fundamental, daquela que Krom conhecera décadas antes na cidade próxima ao quartel Andoriano — um espaço aberto onde pessoas eram examinadas, avaliadas e vendidas como qualquer outra mercadoria. Mas o propósito específico daquele mercado em particular, dentro dos limites de Pempoii, tornava tudo ainda mais sombrio: a maioria ali seria destinada não a trabalho doméstico ou agrícola, mas aos incontáveis bordéis que sustentavam a economia inteira da cidade.
Gariele parou abruptamente ao passar por ali, os olhos fixos em duas mulheres específicas, colocadas lado a lado num pequeno estrado, sendo avaliadas por um homem corpulento cujas roupas caras sugeriam a proprietário de algum estabelecimento importante.
Uma delas, loira, de postura rígida de quem já aprendera a esconder o medo, parecia ter pouco mais de vinte anos. A outra, ruiva e mais alta, mantinha os olhos baixos, os braços cruzados diante do próprio corpo numa tentativa inútil de criar alguma barreira contra os olhares avaliadores ao redor.
— Aquele homem — disse Gariele, a voz tensa, puxando levemente a manga de Krom. — Ele vai comprá-las.
Krom seguiu o olhar dela até o comprador, reconhecendo, por experiência e instinto, exatamente que tipo de estabelecimento aquele homem provavelmente representava.
— Prostitutas de selvagens — disse Gariele, a informação chegando até ela através de fragmentos de conversa que captara andando pela cidade naquela manhã. — Ouvi falar. Elas não duram muito tempo nesse tipo de lugar.
Krom já ouvira o suficiente, ao longo dos anos, sobre aquela categoria específica de exploração para entender exatamente o que aquilo significava — violência sistemática disfarçada de entretenimento, vidas medidas em meses antes de terminarem, quase sempre, em assassinato.
Gariele olhou para ele, os olhos carregando uma súplica silenciosa que não precisava de palavras.
— Krom.
Ele já estava se movendo antes que ela completasse o apelo.
O leiloeiro, surpreso com a interrupção, mal teve tempo de reagir antes que Krom estivesse diante do estrado, uma bolsa pesada de moedas já em mãos.
— Quanto por ambas? — perguntou, a voz direta, sem qualquer espaço para negociação prolongada.
O comprador original, o dono de bordel, virou-se irritado diante da concorrência inesperada.
— Eu já estava negociando essas duas, forasteiro.
— Agora está negociando comigo — disse Krom, colocando a bolsa sobre a mesa do leiloeiro com um som pesado de metal que atraiu a atenção de toda a multidão ao redor. — Mil espadas por cada uma. Duas mil ao todo.
O leiloeiro, os olhos arregalados diante da soma oferecida sem hesitação, praticamente esqueceu o comprador original.
— Vendidas — declarou, rapidamente, antes que qualquer contraproposta pudesse ser feita.
O dono de bordel protestou por mais alguns segundos, mas recuou diante do olhar que Krom lhe dirigiu — o mesmo olhar frio e calculado que tantos homens ao longo dos anos haviam aprendido, tarde demais, a temer.
As duas mulheres foram libertadas de suas correntes ali mesmo, visivelmente confusas diante da reviravolta súbita em seu destino. A loira ergueu os olhos para Krom, a voz tremendo entre alívio e desconfiança.
— Por que fez isso?
— Porque ela pediu — respondeu Krom, indicando Gariele com um breve gesto.
A mulher olhou para Gariele, depois novamente para Krom, ainda processando a realidade daquela liberdade inesperada.
— Meu nome é Clara — disse, finalmente. — Sou Loriana, de uma vila ao sul daqui.
A outra mulher, ainda cautelosa, ergueu os olhos pela primeira vez desde a libertação.
— Bela — disse, simplesmente. — Ruwiana.
Gariele aproximou-se das duas, um sorriso genuíno finalmente iluminando seu rosto pela primeira vez desde que haviam chegado àquela cidade.
— Vocês estão livres agora — disse, a voz carregando uma certeza que vinha de experiência pessoal. — Ninguém vai levá-las a lugar nenhum contra a vontade de vocês novamente.
Mais tarde, longe da feira e dos olhares curiosos que a transação atraíra, o pequeno grupo se reuniu numa pousada modesta na periferia de Pempoii, longe do barulho constante do centro da cidade.
Clara e Bela, ainda ajustando-se à realidade repentina de sua liberdade, mal conseguiam olhar diretamente para Krom sem uma mistura de gratidão e cautela residual — anos de exploração não se dissolviam simplesmente porque as correntes haviam sido removidas.
— O que vão fazer agora? — perguntou Gariele, sentada entre as duas com uma familiaridade que já começava a se formar, apesar das poucas horas de conhecimento mútuo.
Clara olhou para Bela antes de responder, uma pergunta silenciosa passando entre as duas.
— Não sei ainda — admitiu, finalmente. — Não tenho para onde voltar. Minha vila... não me receberia de volta depois disso.
Bela permaneceu em silêncio, mas assentiu levemente, concordando com o sentimento não dito.
Krom, observando a cena de um canto mais distante do cômodo, sentiu algo que reconheceu, com certa surpresa, como uma variação distante do que sentira ao encontrar Gariele naquela cela subterrânea em Slavyos, meses antes. Não sabia ainda o que aconteceria com Clara e Bela — se seguiriam caminhos próprios assim que se sentissem seguras o suficiente, ou se, de alguma forma, aquele pequeno grupo continuaria crescendo ao longo da estrada.
Mas, pela primeira vez desde a noite vazia naquela clareira distante, depois de completar uma vingança que não lhe devolvera absolutamente nada, Krom sentiu algo que se aproximava, ainda que timidamente, de propósito renovado.
Talvez a resposta para sua pergunta silenciosa — e agora? — não estivesse em mais nomes riscados de uma lista antiga, mas em momentos exatamente como aquele: duas vidas salvas não por vingança, não por contrato, mas simplesmente porque haviam sido pedidas, e porque ele, finalmente, tinha aprendido que podia dizer sim.
Gariele, sentindo talvez o olhar dele sobre o pequeno grupo reunido, ergueu os olhos e sorriu brevemente antes de voltar sua atenção para Clara e Bela. Havia algo naquele sorriso que Krom reconheceu como genuinamente feliz — não o alívio cauteloso de quem apenas sobrevive, mas algo mais próximo de alegria real, a mesma que ele sentira, sem saber nomear na época, na primeira noite em que a tirara daquela cela em Slavyos.
Krom permitiu-se, pela primeira vez em muito tempo, um momento de quietude que não carregava peso algum.