Duplo RESGATE
T2/E17
T2/E17
QG em Perdizes — 7h30 da manhã
Não era treino.
Treino implicava tempo. Repetição. Construção gradual de habilidades. Treino era o que faziam academias militares, equipes de elite, grupos com meses ou anos pra se preparar.
Eles tinham três dias.
Isadora estava no centro da sala, mapa do Bloco H espalhado no chão. Marcadores coloridos indicando posições, rotas, pontos de contenção.
— Isso não é pra vocês ficarem bons — ela disse sem preâmbulo. — É pra não morrerem fazendo merda.
Andrew estava encostado na parede, braços cruzados. Samuel ao lado dele. Marcus sentado no sofá. Marcelo perto da janela — nunca completamente parado, sempre aquele leve movimento inquieto. Ana Clara na cadeira, observando tudo com atenção médica.
— Posições — Isadora apontou pro mapa. — Andrew entra primeiro. Sempre. Você aguenta mais pancada que qualquer um aqui.
— E se eu precisar de apoio?
— Samuel fica dois passos atrás. Cobertura elétrica se aparecer grupo grande. — Ela olhou pra Samuel. — Mas medido. Nada de soltar tudo de uma vez como da última vez.
Samuel assentiu. Ele sabia exatamente o que ela estava falando. Quase tinha fritado o próprio cérebro na invasão anterior.
— Marcus — Isadora continuou — cópias só quando necessário. Máximo três ao mesmo tempo. Qualquer coisa além disso te deixa vulnerável.
Marcus ia protestar. Parou. Ela tinha razão. Ele conseguia criar até sete cópias, mas depois de cinco já começava a sentir a exaustão brutal, a dor de cabeça que não passava, a náusea que fazia o mundo girar.
— Entendido.
— Marcelo. Reconhecimento. Rotas de fuga. Evacuar quem não consegue sair sozinho. — Pausa. — E fica com o grupo. Não some pra fazer seu próprio plano.
Marcelo franziu a testa.
— Eu trabalho melhor sozinho.
— E morre sozinho também — Isadora rebateu, voz firme mas não agressiva. — Aqui você trabalha com o time ou não trabalha.
Silêncio tenso.
Marcelo não concordou verbalmente. Mas também não saiu. Era o mais próximo de compromisso que ele conseguia dar.
— Ana Clara — Isadora virou pra ela — você fica na retaguarda. Com a Camila. Suporte médico.
— Posso fazer mais que isso.
— Eu sei. Mas se você se machucar, ninguém mais cura ninguém. Você é essencial demais pra arriscar na linha de frente.
Ana Clara processou. Lógica sólida. Aceitou.
— Paulo e eu coordenamos de fora. Joseph com o dispositivo de interferência, caso precisemos desligar sistemas de controle mental. Luíza fica no QG como backup científico.
Isadora olhou pra cada um deles.
— Sinais. Simples. Nada complicado. — Ela mostrou. — Mão fechada: parar. Mão aberta: avançar. Dois dedos apontando: dividir. Punho batendo no peito: reagrupar.
Praticaram. Dez minutos. Quinze. Até que os movimentos saíssem automáticos.
Não era bonito. Não era coordenado. Mas funcionava.
QG — 9h15 da manhã
A mesa estava coberta.
Mapas. Fotos impressas. Documentos antigos que Joseph tinha guardado durante dezoito anos de prisão — anotações mentais transformadas em papel assim que teve chance.
Luíza estava no centro de tudo. Óculos na ponta do nariz. Caneta na mão. Fazendo conexões que só uma cientista com décadas de experiência conseguia ver.
— A GENOS não improvisa — ela disse, mais pra si mesma que pros outros. — Toda ação deles segue padrão.
Isadora estava ao lado, absorvendo cada palavra.
— Que tipo de padrão?
Luíza apontou pra linha do tempo que tinha desenhado.
— Olha. 2006: Projeto Gênesis. Exposição controlada à radiação. Resultado: Andrew. — Ela moveu o dedo. — 2008 a 2015: tentativas de replicação direta. Falharam. Taxa de mortalidade 89%.
— Por quê?
— Porque tentaram forçar mutação em adultos. Não funciona. O corpo rejeita. — Ela pegou outro documento. — 2016: mudança de abordagem. Começaram a usar DNA de Andrew como base. Soro derivado. Injetado em jovens saudáveis.
Joseph se aproximou, adicionando detalhes.
— Eles me forçaram a desenvolver o soro. Levou anos. Centenas de tentativas. Mas eventualmente conseguimos estabilizar.
— E aí começaram os Sujeitos — Luíza completou. — 2018 em diante. Taxa de sucesso subiu pra 52%. Ainda alto risco, mas viável.
Isadora estudou os números. A mente trabalhando em velocidade impressionante.
— Quantos no total? Não só os que conhecemos. Quantos eles tentaram criar?
Luíza e Joseph trocaram olhar. Cálculo mental rápido.
— Pelo menos cinquenta — Joseph disse. — Talvez setenta. Considerando falhas não documentadas.
Silêncio pesado caiu na sala.
Andrew, que estava ouvindo da porta, sentiu náusea subir.
Cinquenta pessoas. Cinquenta vidas destruídas tentando replicar o que ele era.
Luíza percebeu a expressão dele. Foi direta:
— Não é sua culpa, Andrew. Nunca foi.
— Mas é meu DNA.
— DNA não tem moral. Pessoas que usam ele errado têm. — Ela voltou pros documentos. — E mais importante: isso significa que o Bloco H não é único.
Todos olharam pra ela.
— Como assim? — Isadora perguntou.
— Instalações desse porte custam milhões. Décadas pra construir credibilidade, infiltração, cobertura legal. — Luíza bateu o dedo na mesa. — Se eles investiram tanto em São Paulo, investiram em outros lugares também.
Joseph confirmou:
— Durante o cativeiro, eu ouvi menções. Instalações em Curitiba. Fortaleza. Foz do Iguaçu. Rio de Janeiro. Brasília.
— Então há mais Sujeitos — Samuel disse, processando. — Muito mais.
— Sim. — Luíza olhou pra cada um. — E todos precisam de resgate.
O peso da afirmação esmagou o ar da sala.
Isadora respirou fundo. Organizou os pensamentos. Priorizou.
— Primeiro Kira e Léo. Hoje. Agora. — Ela olhou pro relógio. — Depois lidamos com o resto.
— Eles vão reagir — Luíza alertou. — Spectro aprende rápido. Cada hora que damos a eles é hora pra se reorganizarem.
— Então não damos essa hora — Isadora respondeu, determinação absoluta na voz. — Resgatamos Kira e Léo. E antes que GENOS recupere o fôlego, já estamos no próximo alvo.
Luíza sorriu. Pequeno mas genuíno.
— Você pensa como estrategista.
— Aprendi com os melhores — Isadora olhou pra Joseph. — E com os piores. Aprendi observando como a GENOS opera. Agora vamos usar as táticas deles contra eles.
Bloco H, Perímetro Externo — 22h47
A noite estava fria.
Céu limpo. Lua crescente. Poucas nuvens. Visibilidade boa demais — o que era problema e vantagem ao mesmo tempo.
O grupo estava posicionado. Roupas escuras. Comunicadores ativos. Equipamento mínimo.
Marcelo tinha feito reconhecimento quinze minutos antes. Três voltas completas ao redor do Bloco H em velocidade sobre-humana. Contou guardas, identificou câmeras, mapeou patrulhas.
Voltou ofegante. Não cansado fisicamente — a velocidade não cobrava esse preço. Mas mentalmente exausto de processar tanta informação tão rápido.
— Doze guardas externos — ele relatou, voz baixa. — Seis na entrada principal. Quatro nas laterais. Dois no telhado. Padrão de patrulha a cada sete minutos.
— Câmeras? — Paulo perguntou pelo comunicador.
— Vinte e três visíveis. Provavelmente mais escondidas.
— Consigo criar loop em dezesseis. As outras vão precisar de interferência física.
Samuel assentiu.
— Eu cuido disso.
Andrew checou o próprio equipamento pela terceira vez. Não tinha muito — comunicador, luvas reforçadas, determinação. Às vezes simples era melhor.
— Quanto tempo temos? — ele perguntou.
Isadora, da van a três quarteirões de distância, respondeu pelo comunicador:
— Vinte e três minutos antes da próxima checagem de segurança interna. Se não estiverem dentro até lá, aborta.
— Entendido.
Joseph ativou o dispositivo de interferência neural. Luzes verdes piscaram suavemente.
— Modo passivo funcionando. Raio de dez metros. Deve mascarar presenças parcialmente.
— Deve? — Marcus perguntou, nervoso.
— É a primeira vez usando em campo real — Joseph admitiu. — Teoria é sólida. Prática… veremos.
Não era resposta reconfortante. Mas era honesta.
Andrew olhou pro grupo. Samuel. Marcus. Marcelo. Joseph.
Pequeno. Inexperiente trabalhando junto. Improvisado.
Mas era o que tinham.
— Vamos — ele disse simplesmente.
Avançaram.
Bloco H, Entrada Lateral — 22h53
A entrada lateral tinha dois guardas.
Não eram Kraken-S. Segurança padrão. Armados mas não potencializados.
Ainda assim, eram profissionais. Atentos. Treinados.
Marcus criou duas cópias. Não três. Não quatro. Apenas duas, como Isadora tinha instruído.
As cópias se materializaram em silêncio. Idênticas a ele. Mesma roupa. Mesma postura. Mesma expressão.
Elas se moveram em direções opostas. Criando distração. Som de passos. Movimento nas sombras.
Os guardas reagiram. Viraram. Um foi pra esquerda. Outro pra direita.
Separados.
Samuel e Andrew se moveram.
Rápido. Silencioso. Preciso.
Andrew pegou o primeiro guarda por trás. Mão sobre a boca. Braço ao redor do pescoço. Pressão controlada — o suficiente pra desmaiar, não pra matar.
O homem lutou por três segundos. Depois desabou, inconsciente.
Samuel usou abordagem diferente. Toque na nuca. Descarga elétrica mínima. Apenas o suficiente pra desligar o sistema nervoso temporariamente.
O segundo guarda caiu sem fazer som.
As cópias de Marcus se dissiparam. Trabalho concluído.
Marcus cambaleou levemente. Duas cópias não era muito, mas já sentia o começo da exaustão.
— Tô bem — ele disse antes que alguém perguntasse.
Paulo, remotamente, desbloqueou a porta.
— Entrem. Loop de câmera ativo por… noventa segundos.
Entraram.
A porta se fechou atrás deles com som pneumático suave.
E estavam dentro.
Bloco H, Subsolo 1 — 22h56
Diferente da última vez.
Luzes mais fortes. Patrulhas mais frequentes. Câmeras em cada esquina.
GENOS tinha aprendido.
Mas também tinham Paulo. E Paulo tinha aprendido também.
— Duas patrulhas aproximando. Trinta segundos — ele alertou pelo comunicador.
— Onde? — Andrew sussurrou.
— Corredor à frente. Vindo do subsolo 2.
Não tinha tempo pra desviar. Nem lugar pra se esconder.
Marcelo se adiantou.
— Eu vou.
Desapareceu antes que alguém pudesse discutir.
Cinco segundos depois, som de impactos rápidos. Bum. Bum. Bum-bum.
Depois, silêncio.
Marcelo reapareceu, arrastando dois corpos inconscientes.
— Nocauteados. Vão acordar com dor de cabeça mas vivos.
Samuel o ajudou a esconder os corpos numa sala lateral.
— Bom trabalho.
Marcelo não respondeu. Mas algo na postura dele mudou. Pequeno. Quase imperceptível. Mas estava começando a confiar no grupo.
Avançaram em direção ao subsolo 3.
Subsolo 3 — 23h02
O corredor era longo. Estreito. Claustrofóbico.
Portas numeradas de ambos os lados. 01. 02. 03. Continuando.
— Cela 07 — Isadora disse pelo comunicador. — Kira.
— Cela 08 — Samuel completou, voz tensa. — Léo.
Andrew usou visão de raio-X. Escaneou através das portas.
Cela 07: uma figura. Feminina. Sentada. Imóvel.
Cela 08: uma figura. Masculina. Em pé. Tenso.
— Estão lá — ele confirmou.
Paulo hackeou as travas remotamente. As portas fizeram clique simultâneo.
Andrew abriu a primeira porta. Cela 07.
Kira estava sentada na cama de metal. Cabelo cacheado desgrenhado. Roupa institucional cinza. Olhos vazios olhando pra parede.
— Kira — Andrew chamou suavemente.
Ela não respondeu. Não virou. Não reagiu.
Ele se aproximou devagar. Mãos visíveis. Não ameaçadoras.
— Kira, sou eu. Andrew. A gente veio te tirar daqui.
Movimento lento. Ela virou a cabeça.
Os olhos focaram nele. Reconhecimento parcial. Confusão.
— Andrew? — A voz saiu rouca. Sem uso. — Você… você é real?
— Sou. E a gente vai embora agora.
— Não posso. A Voz… ela diz pra ficar. Diz pra obedecer.
— A Voz tá errada. — Andrew estendeu a mão. — Confia em mim.
Kira olhou pra mão estendida. Depois pro rosto dele. Processo mental acontecendo devagar, através da névoa do controle mental.
Finalmente, ela pegou a mão dele.
— Ok.
Samuel abriu a cela 08.
Léo estava em posição defensiva. Costas contra a parede. Olhos atentos. Músculos tensos.
Quando viu Samuel, atacou.
Soco vindo rápido. Treinado. Letal.
Samuel bloqueou no último segundo. O impacto o fez recuar dois passos.
— Léo! Sou eu! Samuel! A gente se conheceu antes!
Léo não parou. Atacou de novo. Chute lateral. Cotovelada. Sequência fluida de combate militar.
Samuel defendeu. Não revidou. Não queria machucá-lo.
— Léo, para! Sua irmã tá aqui! A Kira tá aqui!
Isso o fez hesitar. Só meio segundo. Mas foi suficiente.
Andrew apareceu na porta. Segurando Kira pela mão.
Léo viu. Processou. Os olhos dele mudaram. A programação guerreando contra memória.
— Mana? — A voz saiu quebrada. Incerta.
Kira deu passo à frente. Lágrimas começando a descer.
— Mano. Sou eu. A gente tá saindo daqui.
Léo caiu de joelhos. Mãos na cabeça. Gritando. Não alto — som abafado, contido, mas cheio de agonia.
A programação tentando reassumir controle. As memórias lutando pra emergir.
Joseph entrou. Dispositivo na mão.
— Posso ajudar. Interferência neural. Vai enfraquecer o controle temporariamente.
— Faz — Samuel disse. — Rápido.
Joseph ativou. Frequência direcionada. Invisível mas sentida.
Léo gritou mais alto. Corpo se debatendo. Mas depois de dez segundos, parou.
Respiração pesada. Suor escorrendo. Mas os olhos… os olhos eram dele de novo.
— Kira — ele sussurrou, olhando pra irmã.
— Sim. Sou eu. A gente tá junto de novo.
Ele levantou cambaleante. Samuel o apoiou.
— Consegue andar?
— Consigo tentar.
— É o suficiente.
Retirada — 23h08
Saíram pelas rotas que Marcelo tinha mapeado.
Kira apoiada em Andrew. Léo apoiado em Samuel. Marcus criando cópias pra confundir patrulhas. Marcelo indo e voltando, garantindo que o caminho estava limpo.
Não foi cinematográfico. Não foi heroico. Foi funcional.
Chegaram na saída lateral. A mesma por onde tinham entrado.
Patrulha externa passando. Seis guardas. Armados.
Não tinha como esperar. Não tinha como desviar.
Teriam que lutar.
Andrew colocou Kira atrás de si. Preparou-se.
Mas então algo aconteceu.
As luzes se apagaram. Todas. Todo o perímetro externo ficou escuro.
— Paulo? — Andrew sussurrou no comunicador.
— Não fui eu — Paulo respondeu, confuso. — Alguém desligou a energia principal. Manualmente.
— Quem?
Não teve resposta.
Mas tiveram oportunidade. Os guardas estavam confusos, procurando lanternas, tentando entender o que tinha acontecido.
— Agora — Andrew disse.
Correram.
Atravessaram o perímetro. Ninguém os viu. Ninguém reagiu.
Chegaram na van. Isadora acelerou antes mesmo deles fecharem a porta.
Dentro, silêncio absoluto. Apenas respiração pesada. Alívio. Tensão liberada.
Kira e Léo sentados no banco de trás. Segurando as mãos um do outro. Chorando silenciosamente.
Tinham conseguido.
Local Seguro — armazém abandonado, Zona Leste — 23h42
Não era QG. Era ponto de encontro temporário. Galpão vazio que Paulo tinha preparado como backup.
Ana Clara e Camila estavam esperando. Mochila médica. Equipamento básico. Expressão profissional.
Kira e Léo foram colocados em colchões improvisados.
Ana se aproximou devagar. Não ameaçadora.
— Meu nome é Ana Clara. Sou biocinética. Posso ajudar vocês. Curar. Remover os os implantes e efeitos do controle mental. — Pausa deliberada. — Mas só se vocês quiserem. Só se deixarem.
Kira olhou pra ela. Depois pro irmão. Depois de volta pra Ana.
— Você… você pode tirar a Voz?
— Posso. Completamente.
— Então tira. Por favor. Tira logo.
Ana olhou pra Léo.
— E você?
Léo hesitou mais. O controle nele tinha sido mais profundo. Mais tempo. Mais reforçado.
Mas finalmente assentiu.
— Faz o que precisar fazer.
Ana começou.
Colocou as mãos na base do crânio de Kira. Fechou os olhos. Concentrou.
A biocinese não era visível. Não brilhava. Não fazia som. Mas era sentida. Como calor interno. Como algo sendo gentilmente reorganizado.
Levou cinco minutos.
Quando Ana afastou as mãos, Kira respirou fundo. Diferente. Livre.
— A Voz… sumiu. — Ela tocou a própria cabeça. — Não consigo ouvir mais.
— Ela não vai voltar — Ana garantiu. — Removi os implantes e os danos neurológicos que permitiam o controle externo. Você está livre.
Lágrimas desceram. Não de dor. De alívio absoluto.
Ana foi pra Léo. Processo similar. Mas mais longo. Dez minutos. Quinze.
Mais complexo. Mais danificado. Mais resistente.
Mas Ana era boa. Muito boa.
Quando terminou, Léo abriu os olhos. Pela primeira vez em meses, eram completamente seus.
— Acabou? — ele perguntou, voz pequena.
— Acabou — Ana confirmou.
Ele desabou. Não fisicamente. Emocionalmente. Segurou a cabeça e chorou. Soluços profundos, anos de tortura saindo de uma vez.
Kira o abraçou. Os dois juntos. Livres pela primeira vez desde que foram capturados.
O grupo observou em silêncio respeitoso.
Isso era o porquê. Isso era pelo que lutavam.
Galpão — 0h20
Ana Clara estava sentada sozinha num canto, organizando equipamento.
Marcus se aproximou. Hesitante.
— Ei.
Ela olhou pra cima.
— Oi.
Silêncio desconfortável.
— Você curou eles completamente — Marcus disse. — Em minutos.
— Sim.
— E Kira disse… disse que a Voz sumiu. Que não vai voltar.
— Não vai.
Outro silêncio. Depois:
— Você poderia fazer isso em mim?
Ana estudou o rosto dele. Viu a esperança. O medo. A vulnerabilidade.
— Poderia — ela respondeu honestamente.
— Mas?
— Mas eu não faço sem você pedir explicitamente. — Ela se levantou, olhando diretamente nos olhos dele. — E não é pedido pra fazer agora, de impulso. É decisão consciente. Pensada. Porque cura de trauma não é só física. É escolha de como você quer seguir.
Marcus processou. Assentiu devagar.
— Entendi.
Samuel também tinha se aproximado. Ouvido a conversa.
— Os implantes — ele disse. — Você poderia remover cicatrizes? Efeitos residuais?
— Posso. Em todos vocês. — Ana olhou pro grupo. — Andrew. Samuel. Marcus. Vocês todos carregam marcas do que GENOS fez.
Ela respirou fundo. Firmou a voz.
— Mas eu tenho regra absoluta. — Olhou pra cada um. — Nunca curo sem pedido explícito. Nunca decido pelo outro. E nunca, nunca transformo corpos sem consentimento.
Pausa pesada.
— A GENOS não merece marcar ninguém como gado.
As palavras caíram como peso.
Andrew, que estava ouvindo de longe, sentiu algo apertar no peito.
Marcas. Cicatrizes. Danos permanentes.
Todos eles carregavam.
E agora tinham escolha. Opção. Alternativa.
Mas não era decisão pra fazer agora. Não no calor do momento. Não por impulso.
— Quando vocês estiverem prontos — Ana disse — eu vou estar aqui. Mas tem que ser escolha de vocês. Livre. Consciente.
Todos assentiram em silêncio.
QG em Perdizes — 8h30 da manhã seguinte
O grupo estava reunido.
Kira e Léo dormindo em quartos separados. Exaustos. Livres. Começando processo longo de recuperação.
O resto estava acordado. Café frio. Olheiras profundas. Mas acordado.
Luíza e Isadora estavam na mesa. Mapas já reabertos. Dados espalhados.
— Spectro vai reagir — Luíza disse sem rodeios. — E rápido. Cada hora que damos a ele é hora pra reorganizar defesas, reforçar segurança, mover prisioneiros.
— Então não damos essa hora — Isadora respondeu, determinação absoluta. — A gente continua pressionando.
— Próximo alvo? — Andrew perguntou.
Isadora apontou pro mapa.
— Thiago, Bruno e Carla. Ainda em processo de ativação. Subsolo 2 do Bloco H.
— E achar Micheli, e liberta-la do controle
— Eles vão estar esperando — Samuel alertou. — Depois de hoje, vão reforçar tudo.
— Eu sei. — Isadora olhou pra cada um. — Por isso a gente não espera. A gente vai amanhã.
Silêncio chocado.
— Amanhã? — Marcus repetiu. — A gente acabou de voltar de lá!
— Exatamente. — Luíza se inclinou pra frente. — Eles não esperam ação tão rápida. Vão estar reorganizando, analisando o que deu errado, ajustando protocolos. Não estarão prontos pra ataque imediato.
— É loucura — Marcelo disse. Não foi crítica. Foi observação.
— É estratégia — Isadora corrigiu. — Guerra não se vence dando tempo pro inimigo respirar. Se vence pressionando. Constante. Implacável.
Andrew olhou pros amigos. Via exaustão. Via medo. Via dúvida.
Mas também via determinação.
— Amanhã — ele concordou. — A gente vai de novo.
Ninguém protestou. Todos entendiam a necessidade.
GENOS ainda estava tentando entender o que tinha perdido.
O grupo já estava decidindo o que tomaria em seguida.
FIM DO CAPÍTULO 17
PRÓXIMO CAPÍTULO: RESGATE TRIPLO