Ecos que se Aproximam
T2/E16
T2/E16
Faculdade de Direito da USP — 9h15 da manhã
A aula de Processo Civil estava lotada.
Cento e vinte alunos espremidos no anfiteatro. Professor Augusto Martins falando sobre petições iniciais, prazos processuais, contestações. Matéria densa. Importante. O tipo de coisa que cairia na prova e definiria quem passava e quem ficava pra trás.
Andrew estava sentado na quinta fileira, caderno aberto, caneta na mão. Anotava. Prestava atenção. Parecia totalmente presente.
Mas metade da mente dele estava em outro lugar.
Estava pensando em Kira. Presa no Bloco H há trinta e dois dias agora. Será que ainda conseguia resistir ao controle mental? Será que ainda lembrava quem era?
Estava pensando em Léo. Spectro tinha reforçado a programação depois da fuga frustrada. O que isso significava? Quanto dano permanente já tinha sido feito?
Estava pensando em Micheli. Samuel não falava muito sobre ela, mas Andrew via nos olhos dele. A cada dia que passava, um pedaço dele morria por dentro sabendo que ela continuava sofrendo.
O celular vibrou no bolso. Discreto. Ele olhou rapidamente.
Mensagem de Isadora: "Marcus chega hoje. 17h. QG."
Andrew digitou resposta rápida: "Ok"
Guardou o celular. Voltou a prestar atenção na aula. Anotou algo sobre prazo de quinze dias pra contestação. Importante. Precisava saber disso.
Porque a vida continuava. Provas continuavam sendo marcadas. Se ele reprovasse, perderia a bolsa. Se perdesse a bolsa, teria que voltar pra Cosmópolis. E se voltasse pra Cosmópolis, não poderia ajudar ninguém.
Então ele estudava. Ia às aulas. Entregava trabalhos. Fingia normalidade.
A normalidade tinha virado arma de sobrevivência.
Intervalo — 10h30
Isadora o encontrou na cantina.
Ela estava com dois cafés na mão — um pra ela, um pra ele. Conhecia os hábitos dele melhor que ele mesmo às vezes.
— Obrigado — ele disse, pegando o copo.
Sentaram numa mesa no canto. Longe de gente. Conversa privada mesmo em público.
— Você dormiu? — ela perguntou, estudando o rosto dele.
— Algumas horas.
— Quantas?
— Três. Talvez quatro.
Isadora suspirou. Não era surpresa. Era confirmação.
— Andrew, você não pode continuar assim. O corpo aguenta, mas a mente...
— Eu sei. — Ele tomou um gole do café. Quente demais, queimou a língua, não ligou. — Mas toda vez que fecho os olhos, vejo eles. Kira. Léo. Todos os prisioneiros. E não consigo parar de pensar que cada dia que passa...
— Eu sei — ela interrompeu gentilmente. — Eu também penso nisso. Todos nós pensamos.
Pausa. Ela pegou a mão dele sobre a mesa.
— Mas se você se quebrar tentando salvar todo mundo, não vai poder salvar ninguém.
Andrew sabia que ela tinha razão. Logicamente, racionalmente, sabia. Mas saber não tornava mais fácil.
— Marcus chega hoje — Isadora mudou de assunto. — Vai ficar no QG. Paulo já preparou tudo.
— Ele sabe no que tá se metendo?
— Acho que sim. Samuel foi bem claro com ele.
— E os outros? Marcelo? Ana Clara?
— Ana Clara confirmou ontem à noite. Chega amanhã. — Isadora checou as anotações no caderno. — Marcelo ainda não deu resposta definitiva. Mas mandou mensagem perguntando detalhes. É bom sinal.
Andrew assentiu. Três aliados potenciais. Não era exército. Mas era começo.
— Quando a gente vai? — ele perguntou. Não precisou especificar. Ela sabia.
— Próxima semana. Talvez dez dias. — Isadora olhou pra ele com aquela seriedade que ela usava quando precisava que ele realmente escutasse. — Precisamos de tempo pra coordenar. Pra treinar juntos. Pra saber em quem podemos confiar completamente.
— Dez dias é muito tempo pra quem tá sendo torturado.
— Eu sei. — A voz dela saiu firme mas gentil. — Mas dez dias de preparação é o que separa resgate bem-sucedido de massacre.
Ela tinha razão. De novo. Sempre tinha.
O sinal tocou. Fim do intervalo.
Voltaram pras aulas. Fingindo normalidade. Porque precisavam.
Curitiba, Corpo de Bombeiros — 3h42 da madrugada
Marcus Vinícius Mouro estava exausto.
Mais um turno. Mais uma noite de chamados intermináveis. Incêndio em depósito. Acidente de trânsito com vítimas presas nas ferragens. Resgate de criança que tinha se perdido no mato.
Ele tinha usado os poderes. Como sempre usava. Discretamente. Criando uma cópia aqui, outra ali. Nunca as duas ao mesmo tempo — muito arriscado, muito visível.
Mas cada uso cobrava preço. Dor de cabeça latejante. Náusea. Sensação de estar sendo esticado fino demais.
Estava no vestiário trocando uniforme quando o capitão entrou.
— Mouro.
Marcus virou. Se endireitou instintivamente. Postura militar.
— Senhor.
O capitão — homem de cinquenta anos, cabelo grisalho, três décadas de serviço — o estudou por um momento.
— Você tá bem? Parece cansado.
— Tô bem, senhor. Só foi noite longa.
— Foi sim. — O capitão cruzou os braços. — E você se destacou. De novo. Como sempre.
Marcus não sabia se era elogio ou preocupação.
— Obrigado, senhor.
— Você salvou sete pessoas hoje. Sete. Sozinho. — Pausa deliberada. — Como você faz isso, Mouro?
O coração de Marcus acelerou. Mas manteve rosto neutro. Anos de prática.
— Treinamento, senhor. E sorte.
— Hm. — O capitão não parecia convencido. Mas também não pressionou. — Enfim. Bom trabalho. Descansa um pouco antes do próximo turno.
— Sim, senhor.
O capitão saiu. Marcus soltou o ar que estava segurando.
Perto demais. Muito perto.
Ele terminou de trocar, pegou a mochila, saiu pelo estacionamento. Três da manhã. Cidade quieta. Fria. Céu limpo cheio de estrelas que ele raramente parava pra ver.
Chegou no apartamento pequeno que alugava. Um quarto. Cozinha minúscula. Banheiro. O essencial. Sem decoração. Sem fotos. Sem nada que indicasse que alguém realmente vivia ali.
Porque Marcus não vivia. Apenas existia.
Tomou banho. Comeu algo rápido. Sentou na cama.
Olhou pras próprias mãos.
Concentrou. Tentou.
A cópia começou a se formar. Imagem dele mesmo materializando ao lado. Mas estava tremula. Instável. Durou cinco segundos antes de desaparecer.
Marcus cerrou os punhos. Frustração queimando no peito.
Os implantes ainda estavam lá. Parcialmente ativos. Bloqueando parte dos poderes. Tornando tudo mais difícil, mais doloroso, mais arriscado.
Ele podia ser mais. Muito mais.
Mas enquanto aquelas coisas estivessem em sua cabeça, nunca seria.
O celular vibrou na mesa de cabeceira.
Mensagem de Samuel: "Endereço confirmado. Perdizes, São Paulo. Amanhã, 17h. Vem quando puder. Sem pressão."
Marcus olhou a mensagem por um longo tempo.
Depois começou a arrumar a mochila.
Não foi impulso. Foi decisão.
Estava cansado de ser menos do que podia ser.
Estava cansado de estar sozinho.
QG em Perdizes — 14h30 da tarde
O apartamento estava mais cheio do que costumava.
Luíza tinha chegado dois dias atrás. Ainda estava processando tudo — Joseph vivo, Andrew liderando um grupo, a guerra secreta contra organização paramilitar. Mas ela era cientista. Processava informação rápido. E se adaptava mais rápido ainda.
Ela estava na cozinha quando Andrew entrou.
O apartamento estava mais silencioso do que o normal.
Não um silêncio vazio — um silêncio atento.
Luíza estava sentada à mesa da cozinha, mãos em volta de uma caneca que já tinha esfriado. Andrew parou na porta por um instante antes de entrar. Não porque não soubesse o que dizer. Mas porque, com ela, sempre soube que não precisava dizer muito.
— Você tá comendo pouco — ela disse, sem olhar pra ele.
Andrew puxou a cadeira e sentou à frente dela.
— Tô comendo mais do que antes.
— Não o suficiente pra alguém que tá regenerando desse jeito.
Ele sorriu de leve. Não tentou negar.
— Camila falou isso também.
Luíza finalmente levantou os olhos. O olhar era firme, familiar. O mesmo de quando ele era criança e tentava esconder que tinha quebrado algo... ou que tinha usado os poderes além do combinado.
— Você forçou o corpo — ela afirmou. Não perguntou.
— Era necessário.
Ela assentiu devagar. Não aprovando. Entendendo.
Ficaram alguns segundos em silêncio.
Andrew respirou fundo.
— Mãe... eu devia ter te contado sobre o pai antes.
Luíza levantou a mão, interrompendo antes que ele continuasse.
— Não devia.
Ele piscou, surpreso.
— Eu sabia que você ia dizer isso, mas...
— Andrew. — A voz dela era calma, firme. — Você fez exatamente o que eu teria feito no seu lugar.
Ele engoliu em seco.
— Eu quis te poupar.
— E conseguiu — ela disse, sem dureza. — Pelo tempo que foi possível.
Ela se inclinou um pouco pra frente, segurando as mãos dele.
— Eu sempre soube que o mundo ia tentar tirar coisas de você. Pessoas. Verdades. Escolhas. — Um leve aperto nos dedos. — O que você fez foi proteger. Não mentir.
Andrew sentiu o peso que carregava desde o Bloco H diminuir, só um pouco. O suficiente pra respirar melhor.
— Eu achei que você não ia perdoar — ele disse, mais baixo. — Quando soube que você tinha visto o pai... eu...
— Eu sei — Luíza respondeu imediatamente. — Eu vi seu rosto quando entrei. Você não esconde nada de mim desde que nasceu.
Ele riu fraco.
— Nunca consegui.
— Nunca precisou.
Ela se levantou, contornou a mesa e puxou Andrew para um abraço firme. Não protetor. Presente.
Andrew encostou o rosto no ombro dela, como fazia quando criança, quando o mundo parecia grande demais.
— Você não tá sozinho — ela disse, perto do ouvido dele. — Nunca esteve.
Ele assentiu, olhos fechados.
— Eu sei.
E pela primeira vez desde que tudo começou, ele acreditou nisso de verdade.
Cozinha — Minutos depois
O abraço terminou devagar.
Luíza manteve as mãos nos ombros de Andrew por um segundo a mais do que o necessário, como se estivesse conferindo se ele ainda estava ali. Inteiro. Vivo.
— Vai pra sala — ela disse. — Eu já vou.
Andrew assentiu. Levantou. Antes de sair, inclinou-se e beijou a testa dela, gesto automático, antigo.
— Eu te amo.
— Eu sei — Luíza respondeu, sem sorrir. — Sempre soube.
Ele saiu.
A cozinha voltou ao silêncio.
Luíza respirou fundo, apoiou as mãos na mesa por um instante. O coração ainda batia rápido demais, mas agora não era pânico. Era ajuste. Como sempre tinha sido quando o impossível se tornava real demais.
Ela ouviu passos hesitantes no corredor.
Não virou de imediato.
Joseph parou à porta. Não entrou. Como se aquele espaço ainda não fosse dele outra vez.
— Ele tá bem? — perguntou, a voz baixa demais para quem sempre foi confiante.
Luíza virou devagar.
Olhou para ele de verdade agora, sem o choque inicial, sem o colapso. Viu o que o tempo e o cativeiro tinham feito. A magreza excessiva. A rigidez no corpo. A tremedeira que ele tentava controlar sem sucesso.
Mas também viu o que não tinha mudado.
— Tá — ela respondeu. — Do jeito dele.
Joseph assentiu. Engoliu em seco.
— Ele cresceu — disse. — Muito.
— Cresceu porque precisou — Luíza respondeu. — Não porque quis.
Joseph deu um passo para dentro da cozinha. Depois outro. Cada movimento parecia exigir esforço consciente.
— Eu devia ter estado lá.
Ela não respondeu de imediato.
Pegou a caneca fria da mesa. Levou até a pia. Encheu de água. Colocou de volta à frente dele.
— Devia — ela disse, sem acusação. — Mas não esteve. E não foi escolha sua.
Joseph fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, estavam úmidos.
— Eu pensei nele todos os dias.
— Eu sei.
— Pensei em você também.
— Eu sei.
Silêncio.
A tremedeira na mão dele ficou mais evidente quando tentou pegar a caneca. Luíza percebeu antes mesmo que ele percebesse.
Sem dizer nada, colocou a própria mão sobre a dele, firme. Estável.
A tremedeira não parou completamente. Mas diminuiu.
Joseph respirou fundo, como se o corpo lembrasse algo esquecido.
— Eu não sou mais o mesmo — ele disse, quase como pedido de desculpa.
Luíza o encarou com atenção científica e afeto antigo misturados — o olhar de quem sempre soube separar essência de circunstância.
— Nem eu — respondeu. — E ainda assim... estamos aqui.
Ele assentiu, incapaz de falar por alguns segundos.
— Andrew me perdoou — Joseph disse. — Mas eu não sei se eu...
— Ele não precisa te perdoar — Luíza interrompeu, firme. — Porque você não abandonou ele. Você foi arrancado.
Joseph abaixou a cabeça.
— Eu devia proteger vocês.
Luíza se aproximou mais um passo. Ainda mantendo a mão sobre a dele.
— Você protegeu — disse. — Do jeito que pôde. Antes. E agora de novo, sobrevivendo.
Ele a olhou, confuso.
— Sobreviver também é proteção — ela completou.
Os dois ficaram ali, mãos unidas sobre a mesa da cozinha que tinha visto tantas manhãs felizes antes de tudo ruir.
Do outro cômodo, ouviram a risada baixa de Andrew com alguém — provavelmente Paulo.
Vida acontecendo. De novo. Estranhamente.
Luíza apertou levemente a mão de Joseph.
— A gente vai precisar reaprender — ela disse. — Nada disso vai ser simples.
Joseph assentiu.
— Mas não estamos mais separados.
Ela sustentou o olhar dele.
— Não — confirmou. — Não estamos.
E pela primeira vez em dezoito anos, isso não parecia uma esperança frágil.
Parecia um fato.
QG — 17h15
Marcus chegou quinze minutos atrasado.
Não porque se perdeu. Porque ficou do lado de fora do prédio por dez minutos, decidindo se realmente ia entrar.
Finalmente subiu. Terceiro andar. Apartamento 32.
Bateu na porta.
Samuel abriu. Sorriu — expressão genuína que Marcus não esperava.
— Você veio.
— Vim.
— Entra.
Marcus entrou devagar, olhando ao redor. Apartamento grande. Bem conservado. Várias pessoas na sala. Todos olharam quando ele entrou.
Samuel fez apresentações.
— Galera, esse é Marcus. Sujeito 03. Auto-multiplicação. — Virou pra Marcus. — Marcus, esse é o pessoal.
Andrew se levantou primeiro. Estendeu a mão.
— Andrew Menning. Sujeito Zero.
Marcus apertou a mão. Firme. Avaliando.
— Eu sei quem você é. Samuel me contou.
Isadora se apresentou. Depois Paulo. Depois Camila. Depois Luíza e Joseph.
Marcus absorveu tudo. Processando. Analisando.
— Então — ele disse finalmente. — Vocês são o grupo que vai derrubar GENOS.
Não foi sarcasmo. Foi constatação.
— Vamos tentar — Andrew respondeu honestamente.
Marcus olhou ao redor de novo. Contou mentalmente. Sete pessoas. Sendo que só três tinham poderes.
— Vocês sabem que não é suficiente, né?
— Sabemos — Isadora disse, assumindo posição de estrategista natural. — Por isso precisamos de você. E de outros dois que estão chegando. Marcelo amanhã. Ana Clara depois de amanhã.
— E mesmo assim — Marcus continuou, voz realista — a gente vai estar em desvantagem massiva. GENOS tem exército. Guardas potencializados. Meta-humanos controlados. Recursos ilimitados.
— Tem — Andrew concordou. — Mas a gente tem algo que eles não têm.
— O quê?
— Escolha. — Andrew olhou pra cada pessoa na sala. — Todo mundo aqui escolheu estar aqui. Ninguém foi forçado. Ninguém foi manipulado. A gente luta porque quer. Porque se importa. E isso vale mais que qualquer vantagem numérica.
Marcus ficou em silêncio por um longo momento.
Depois assentiu devagar.
— Ok. Eu tô dentro. De verdade agora.
Relaxamento coletivo na sala. Primeiro aliado confirmado. Oficialmente parte do grupo.
QG — Dia seguinte, 15h20
Marcelo chegou sem avisar.
Simplesmente apareceu. Um segundo não estava ali, no próximo estava parado na varanda.
Super velocidade. Útil pra entradas dramáticas.
Andrew estava na sala quando viu movimento pela janela. Virou. Viu o cara parado lá fora. Cabelo ruivo mais avermelhado sob o sol. Olhos castanhos atentos. Corpo definido de quem corria muito — e rápido.
Abriu a porta.
— Marcelo?
— Andrew.
Eles se encararam por um momento. Reconhecimento mútuo. Ambos Sujeitos. Ambos transformados pelo mesmo DNA.
— Entra.
Marcelo entrou. Movimento fluido, controlado. Nunca completamente parado — sempre ligeiro movimento, como se o corpo não soubesse ficar imóvel.
O grupo se reuniu rapidamente. Apresentações. Explicações.
Marcelo ouviu tudo. Não interrompeu. Não fez perguntas. Apenas absorveu informação.
Quando terminaram, ele falou:
— Vocês querem que eu ajude a invadir Bloco H. Resgatar prisioneiros. Lutar contra organização militar.
— Basicamente — Andrew confirmou.
— E acham que eu posso fazer diferença com velocidade.
— Pode. Recon. Infiltração. Resgate rápido. Você seria essencial.
Marcelo andou até a janela. Olhou pra cidade lá embaixo. Processando.
— Eu passei três anos fugindo — ele disse, ainda olhando pra fora. — Nunca ficando no mesmo lugar. Nunca confiando em ninguém. Porque toda vez que confiei, GENOS apareceu.
Virou pra encarar o grupo.
— Como eu sei que vocês são diferentes?
Samuel respondeu:
— Você não sabe. Não pode saber. Confiança não vem com garantias.
— Então por que eu deveria arriscar?
— Porque você tá cansado de fugir — Andrew disse. — Tá cansado de estar sozinho. E porque parte de você sabe que se não fizer nada, mais gente vai sofrer o que você sofreu.
Acertou em cheio. Marcelo não negou.
— Eu preciso ver algo antes de decidir.
— Ver o quê?
— Vocês lutando. De verdade. Preciso saber se são bons o suficiente pra não morrerem.
Fazia sentido. Andrew olhou pros outros. Todos concordaram silenciosamente.
— Depois que Ana chegar — Andrew disse. — Te mostramos.
QG — Dia Seguinte, 10h30
Ana Clara chegou de manhã.
Diferente dos outros. Sem drama. Sem teste. Apenas apareceu no horário combinado, com mochila pequena e expressão calma.
Camila a recebeu na porta.
Reconhecimento instantâneo entre duas mulheres que entendiam cura.
— Ana.
— Camila.
Abraço breve mas genuíno.
Ana entrou. Olhou ao redor. Viu o grupo reunido. Sentiu algo imediatamente.
Sua biocinese não era só cura física. Era percepção. Ela sentia corpos. Sistemas. Saúde. Dor.
E sentiu tudo ali.
Andrew — regeneração ativa mas instável, metabolismo acelerado, fadiga acumulada.
Samuel — totalmente curado fisicamente, mas marcas neurológicas profundas do controle mental.
Marcus — implantes ainda ativos, causando micro-inflamações constantes.
Joseph — dano neurológico extenso, tremores permanentes, corpo envelhecido prematuramente.
Ela processou tudo em segundos.
— Vocês estão machucados — foi a primeira coisa que disse.
— Estamos — Camila respondeu honestamente. — Por isso precisamos de você.
Ana olhou especificamente pra Andrew.
— Você tá se consumindo. Regeneração descontrolada. Se não parar, vai entrar em colapso metabólico em menos de um ano.
Silêncio pesado.
— Eu sei — Andrew disse simplesmente.
— E mesmo assim vai continuar.
— Tenho que continuar. Pessoas dependem disso.
Ana estudou ele por mais um momento. Depois assentiu devagar.
— Então eu vou fazer o que posso pra prolongar esse prazo. — Virou pra Camila. — Vocês têm equipamento médico?
— Temos.
— Então a gente trabalha juntas. Você com medicina tradicional. Eu com biocinese. Mantemos todo mundo vivo o máximo possível.
Não foi pergunta. Foi declaração.
— Bem-vinda ao grupo — Isadora disse, sorrindo pela primeira vez em dias.
QG — Noite
Todos reunidos.
Primeira vez com o grupo completo.
Andrew olhou ao redor. Contou mentalmente.
Dez pessoas. Três com poderes ofensivos — ele, Samuel, Marcus. Uma com cura — Ana Clara. Uma com velocidade — Marcelo. Um estrategista — Isadora. Um hacker — Paulo. Uma médica — Camila. Dois cientistas — Joseph e Luíza.
Não era exército. Mas era time.
Isadora estava na frente, mapa do Bloco H espalhado na mesa.
— Semana que vem — ela disse sem preâmbulo. — A gente vai.
Ninguém protestou. Todos sabiam que era hora.
— Não é ataque total — ela continuou. — É resgate direcionado. Kira. Léo. Micheli. Thiago, Bruno e Carla se ainda estiverem lá. Entramos, pegamos quem pudermos, saímos.
— E Spectro? — Marcus perguntou a pergunta óbvia.
— Evitamos se possível. Se não for possível... lidamos. — Isadora olhou diretamente pra ele. — Mas prioridade é resgate. Não confronto.
Ela passou para as táticas específicas. Divisão de equipes. Rotas. Contingências. Planos B, C e D.
Falou por vinte minutos sem parar. Todos absorvendo. Todos fazendo perguntas. Todos contribuindo.
Era primeira vez que funcionavam como time de verdade.
E Andrew percebeu algo.
Antes, eles eram sobreviventes. Indivíduos lutando sozinhos contra ameaça impossível.
Agora eram aliados. Grupo unido com propósito comum.
E isso mudava tudo.
Porque um sobrevivente sozinho podia ser derrubado. Mas um grupo determinado, preparado, confiando uns nos outros?
Tinha chance real.
Não grande chance. Mas real.
E às vezes, contra inimigos impossíveis, chance real era tudo que precisavam.
QG — 23h50
Todo mundo tinha ido embora ou dormido.
Só Andrew ainda estava acordado. Na varanda. Olhando a cidade.
São Paulo à noite. Milhões de luzes. Milhões de pessoas vivendo vidas normais.
E num subsolo embaixo da USP, pessoas sofriam. Sendo torturadas. Transformadas. Quebradas.
Ele ouviu passos atrás de si. Leves. Conhecidos.
Isadora veio ficar ao lado dele. Não disse nada no começo. Só ficou ali.
Depois de um tempo:
— Você tá pronto?
Andrew pensou honestamente antes de responder.
— Não. Mas vou mesmo assim.
— Bom. — Ela pegou a mão dele. — Porque se você dissesse que tava pronto, eu ia saber que você tava mentindo.
Ele riu baixo.
— Ninguém nunca tá pronto pra guerra.
— Não. Mas a gente vai. E volta. Porque não temos escolha.
— Sempre tem escolha.
— Ok. — Ela corrigiu. — Porque não aceitamos a alternativa de não fazer nada.
Silêncio confortável.
Andrew apertou a mão dela.
— Obrigado. Por tudo. Por planejar. Por organizar. Por manter a gente funcionando.
— Alguém precisa. — Pausa. — E você precisa focar em não morrer. Deixa o resto comigo.
— Fechado.
Ficaram mais alguns minutos. Depois voltaram pra dentro.
Amanhã começavam treinamento conjunto.
E em uma semana...
Em uma semana, invadiam o Bloco H de novo.
Dessa vez com time completo.
Dessa vez pra valer.
FIM DO CAPÍTULO 16
PRÓXIMO CAPÍTULO: DUPLO RESGATE