Apartamento em Copacabana — 9h15
A água oxigenada chiou ao tocar o corte acima da sobrancelha de Wagner. Ele apertou os dentes, os dedos cravando na madeira da cadeira da cozinha. Vivian molhou o algodão de novo, a mão firme mas o rosto preocupado.
— Para de se mexer.
— Tá ardendo pra caralho.
— Bom. Pelo menos você ainda sente alguma coisa. — Ela pressionou o curativo com mais força do que o necessário. Wagner bufou. — Depois de fazer uma burrice daquelas, achei que seu cérebro tivesse parado de funcionar junto com o bom senso.
O apartamento cheirava a café velho e desinfetante. A luz da manhã entrava pelas janelas sujas, iluminando a bagunça permanente que era o espaço deles: pilhas de jornal, copos esquecidos, o quadro branco rabiscado de nomes e conexões que pareciam mais conspiração de maluco do que investigação jornalística séria.
Wagner olhou para o próprio reflexo na tela escura da TV. O olho direito ainda estava inchado, uma mancha roxa se espalhando pela maçã do rosto. O lábio partido tinha parado de sangrar, mas doía cada vez que ele tentava falar. As costelas... bem, essas iam demorar.
— Pronto. — Vivian jogou o algodão sujo no lixo e cruzou os braços. — Agora me explica que merda foi aquela.
Wagner pegou a garrafa de água na mesa e bebeu devagar. Cada gole era uma pequena vitória contra a dor.
— Recebi uma mensagem. Sobre minha mãe.
— E você foi. Sozinho. No meio da noite. Sem avisar ninguém. — Vivian puxou uma cadeira e sentou na frente dele, os joelhos quase tocando os dele. — Wagner, você não é burro. Você é inteligente pra caralho. Então por que fez uma coisa tão idiota?
Ele olhou para ela. Os olhos castanhos de Vivian brilhavam com aquela mistura de raiva e preocupação que só alguém que se importa de verdade consegue ter. Ela estava de pijama ainda, o cabelo bagunçado, sem maquiagem. Bonita daquele jeito cansado de quem passou a noite em claro.
— Porque eu precisava saber. — Sua voz saiu rouca. — Se era sobre a Alice, eu precisava ir.
— Mesmo sabendo que podia ser armadilha?
— Mesmo sabendo.
Vivian suspirou e recostou na cadeira, passando as mãos pelo rosto.
— Você é impossível.
— Eu sei.
O silêncio se instalou entre eles. Lá fora, o barulho do trânsito da Avenida Atlântica começava a esquentar. Buzinas, motores, o grito ocasional de um vendedor ambulante. O Rio acordando para mais um dia de caos organizado.
— O que seu pai disse no hospital? — Vivian perguntou, a voz mais suave.
Wagner mexeu no curativo da testa, sentindo a textura áspera do esparadrapo.
— Que ele sabe quem mandou me bater. Que ele já "resolveu". E que eu sou um idiota que vai morrer se continuar cavando.
— Ele tá errado?
— Sobre qual parte?
— A parte de você morrer.
Wagner sorriu, mesmo doendo.
— Provavelmente não.
Vivian balançou a cabeça, mas ele viu o canto da boca dela tremendo. Quase um sorriso. Quase.
— Você percebe o que isso significa, né? — Ela se inclinou pra frente. — Eles te deram uma surra pra te assustar. E funcionou. Não em você, óbvio, porque você tem a autopreservação de um kamikaze. Mas em mim funcionou. Eu tô com medo, Wagner.
Ele estendeu a mão e segurou a dela. Os dedos de Vivian estavam gelados.
— Eu também.
— Mentira.
— Tá, eu tô apavorado. — Ele apertou a mão dela. — Mas sabe o que me assusta mais? Parar. Aceitar que esse país é assim e pronto. Que a gente olha pra milícia matando gente, pra político roubando, pra tudo se repetindo, e a gente só... desiste.
— Ninguém tá falando em desistir.
— Seu tom de voz tá.
Vivian puxou a mão de volta, mas não com raiva. Com cansaço.
— Meu tom de voz tá falando que eu não quero te achar morto numa vala, Wagner. Tem diferença.
— Eu sei. — Ele respirou fundo, sentindo as costelas protestarem. — Mas eles cometeram um erro.
— Que erro? Te bater até você ficar roxo como uma berinjela ambulante?
— Eles provaram que a gente tá no caminho certo. — Wagner apontou para o quadro branco. — A CGR não manda bater em jornalista à toa. Eles só fazem isso quando tem algo grande a esconder. A matéria de Madureira? Ela é a ponta do iceberg.
Vivian olhou para o quadro. Os nomes. As setas. As conexões que ainda não faziam sentido completo, mas que estavam começando a se desenhar como uma teia venenosa.
SENADOR ANÍBAL — CGR — COMERCIANTES MORTOS — TERRENOS — CIETEC — ???
— E como você quer continuar? — Ela perguntou. — Porque se aparecer na rua de novo, eles vão te matar. E dessa vez não vai ser aviso.
Wagner se levantou devagar, cada movimento uma negociação com a dor.
— A gente usa o que tem. A estrutura da Rede Global. As câmeras, os equipamentos, a credibilidade da empresa. A gente blinda a matéria com tanto dado, tanta prova, que ninguém vai poder barrar.
— Seu pai vai deixar?
— Meu pai não tem escolha. — Wagner caminhou até a janela, olhando a praia lá embaixo. — Porque se ele me tirar da jogada, eu vou pra outro veículo. Pro Manchete, pro STV, pra quem topar. E aí ele perde o controle completamente.
Vivian ficou em silêncio por um momento. Depois se levantou e ficou ao lado dele.
— Você tem certeza disso?
— Não. — Ele sorriu de lado. — Mas é a única carta que eu tenho.
Ela encostou a cabeça no ombro dele. Wagner sentiu o peso, o calor. E por um segundo, deixou a dor de lado.
— A gente é muito louco.
— É. — Ele beijou o topo da cabeça dela. — Mas pelo menos a gente é louco junto.
Loft da Lena, Botafogo — 14h30
O lugar parecia o set de um filme cyberpunk de orçamento baixo. Três monitores em cima de uma mesa improvisada com cavaletes e uma porta velha, cabos serpenteando pelo chão como vinhas eletrônicas, post-its coloridos grudados nas paredes com códigos e senhas rabiscados. Uma estante entulhada de equipamentos — roteadores, placas de circuito, HDs externos empilhados de forma precária. No canto, uma rede pendurada com um cobertor amassado. Lena dormia ali? Provavelmente.
A própria Lena estava sentada numa cadeira gamer surrada, os pés descalços no assento, um macarrão instantâneo pela metade esquecido ao lado do teclado mecânico que fazia um barulho infernal a cada tecla pressionada.
— Caraca. — Vivian olhou ao redor, impressionada. — Você mora aqui ou tá escondendo um fugitivo?
— As duas coisas. — Lena não tirou os olhos da tela. — Senta aí. Se achar espaço.
Wagner e Vivian se espremeram num sofá velho coberto de revistas tech e embalagens vazias de salgadinho. Wagner notou um poster do Mr. Robot na parede e outro de Ghost in the Shell. No chão, uma placa-mãe desmontada e ferramentas espalhadas.
— Você falou que tinha algo. — Wagner se inclinou pra frente, ignorando a pontada nas costelas.
— Tenho. — Lena digitou algo rápido, e a tela central mudou. — E você não vai gostar.
Uma planilha apareceu. Linhas e linhas de números, datas, CNPJs. À primeira vista, parecia só burocracia financeira. Mas Lena começou a filtrar os dados, destacando padrões.
— Consegui entrar nos servidores da prefeitura. — Ela falou sem emoção, como quem comenta o tempo. — E da CIETEC também, já que você pediu.
— Você invadiu a empresa do meu pai?
— Tecnicamente, invadi a empresa do pai do seu namorado. — Lena olhou pra Vivian. — Ele é seu namorado, né? Vocês dormem juntos, dividem conta, ele te olha com aquela cara de cachorro abandonado...
— Lena. — Vivian cortou. — Foca.
— Certo. — Lena voltou pra tela. — Então, olha isso aqui. Transferências bancárias. Todas saindo de empresas de fachada. Nomes genéricos: "Construtora Alvorada Ltda", "Transportes Maré Azul", "Comercial Bom Jesus". Nenhuma delas tem sede real, empregados ou projeto concreto. São fantasmas.
— E pra onde vai o dinheiro? — Wagner perguntou.
Lena clicou em outra aba. Um mapa do Rio surgiu, com pontos vermelhos espalhados.
— Aqui. — Ela apontou. — Madureira, Pavuna, Costa Barros, Bangu. Todas áreas de atuação da CGR. O dinheiro alimenta a logística da milícia. Armamento, pagamento de soldados, compra de território.
Vivian se levantou, os olhos fixos no mapa.
— Então a CGR não é só uma milícia local. Ela tem financiamento estruturado.
— Exato. — Lena aumentou o zoom. — E olha que interessante. — Ela sobrepôs outra camada de dados. — Esses terrenos aqui, marcados em azul? São áreas que o Senador Aníbal tá tentando desapropriar nos últimos três anos. Oficialmente, pra "projetos de revitalização urbana".
Wagner sentiu o estômago apertar.
— Ele limpa a área com a milícia...
— E depois compra tudo por preço de banana. — Lena terminou. — Gentrificação armada. Expulsa os pobres, constrói condomínio de luxo, lucra milhões.
O silêncio na sala era denso. Wagner olhou pra Vivian. Ela tinha o rosto pálido, os braços cruzados.
— Isso é... — Ela procurou as palavras. — Isso é grande demais.
— É. — Lena girou na cadeira, finalmente encarando os dois. — Grande o suficiente pra te darem uma surra. E se vocês publicarem isso, grande o suficiente pra te matarem.
Wagner tocou o curativo na testa. A pele ainda pulsava.
— Você tem provas concretas? Documentos?
— Tenho tudo. — Lena pegou um pen drive vermelho de uma gaveta. — Planilhas, e-mails, registros de transferência. Tá tudo aqui. Blindado, criptografado. Se vocês conseguirem emplacar essa matéria com esses dados, o Senador cai. A CGR perde o financiamento. E muita gente poderosa vai pra cadeia.
Ela jogou o pen drive pra Wagner. Ele pegou no ar.
— Mas tem um porém. — Lena cruzou os braços. — Esses dados vieram de invasão ilegal. Um bom advogado derruba tudo por vício de origem. Então vocês vão precisar achar uma fonte legal que confirme pelo menos parte disso. Senão é só teoria da conspiração com molho hacker.
— Merda. — Vivian sentou de novo, a cabeça nas mãos.
Wagner girou o pen drive entre os dedos. Aquilo ali era ouro. E veneno. As duas coisas ao mesmo tempo.
— E a CIETEC? — Ele perguntou. — Achou algo sobre minha mãe?
Lena hesitou. Pela primeira vez, ela pareceu desconfortável.
— Achei menções. Nada concreto. Mas tem uma pasta arquivada de 2015 com o nome "Projeto Carcará". Alice Cavalieri é citada três vezes.
O coração de Wagner acelerou.
— O que diz?
— Tá tudo codificado. Vou precisar de tempo pra quebrar. — Lena virou pra tela de novo. — Mas tem outra coisa. A CIETEC recebeu uma injeção de capital enorme em 2015. Origem: offshore nas Ilhas Cayman. E adivinha quem tá ligado a essas mesmas offshores?
Wagner já sabia a resposta antes dela falar.
— Senador Aníbal.
— Bingo. — Lena deu um sorriso torto. — Seja lá o que sua mãe estava investigando, ela tava mexendo com os mesmos caras que querem te matar agora.
Wagner se levantou, a cabeça girando com informações demais.
— Você consegue me arranjar comunicação segura? Algo que eles não consigam rastrear?
Lena revirou os olhos.
— Você levou uma surra de amador e agora quer brincar de espião? — Mas ela já estava mexendo numa gaveta. — Toma. — Ela jogou dois celulares simples. — Burners. Chip criptografado, comunicação peer-to-peer. Não passa por operadora. Use esses pra qualquer coisa sensível. E troca a cada duas semanas.
Wagner pegou os aparelhos. Eram feios, básicos, mas o peso deles na mão era reconfortante.
— Obrigado.
— Não me agradeça ainda. — Lena voltou a digitar. — Se essa matéria sair, vocês vão virar alvo nacional. E eu junto. Então pelo menos vocês morrem sabendo que eu hackeio como uma deusa.
Vivian jogou uma embalagem vazia de salgadinho nela. Lena riu.
Redação da Rede Global, Centro — 16h45
O chão da redação era um organismo vivo. Repórteres gritando ao telefone, editores correndo entre as ilhas de computadores, a televisão na parede mostrando o jornal da concorrência, estagiários carregando pilhas de papel e cafés. O ar cheirava a tinta de impressora e estresse.
Wagner e Vivian entraram juntos, os pen drives queimando nos bolsos. Eles trocaram um olhar. Era agora.
Marcelo Romero, o editor-chefe, era um homem de cinquenta anos com barriga de cerveja e olheiras permanentes. Ele reinava sobre a redação de uma sala de vidro no fundo, de onde podia ver tudo e todos. Quando Wagner bateu na porta, Marcelo estava mastigando um sanduíche enquanto revia um texto na tela.
— Cavalieri. — Ele não tirou os olhos do monitor. — E a Vivian. Que honra. Ouvi dizer que você se meteu numa briga feia.
— Não foi briga. — Wagner entrou, Vivian logo atrás. — Foi aviso.
— Aviso pra quê?
— Pra parar de investigar a CGR.
Marcelo finalmente olhou pra ele. Os olhos percorreram os curativos, o olho roxo, o lábio inchado.
— Funcionou?
— Não.
O editor deu um sorriso cansado e recostou na cadeira, que rangeu sob o peso.
— Claro que não. Você é filho do Leon Cavalieri. Teimosia corre no sangue. — Ele apontou pras cadeiras. — Senta. E me conta por que eu deveria deixar dois repórteres novatos tocarem numa matéria que obviamente vai dar merda.
Wagner e Vivian sentaram. Ela abriu o laptop e conectou o pen drive.
— Porque não é mais só sobre Madureira. — Vivian girou a tela pra Marcelo. — É sobre lavagem de dinheiro, desapropriação ilegal e genocídio urbano patrocinado pelo Senador Aníbal.
Os olhos de Marcelo se arregalaram conforme ele lia. Wagner observou cada micro expressão. O franzir de testa. O estalar da língua. O suspiro pesado.
— De onde vocês tiraram isso?
— Fonte confiável.
— Fonte que invade sistemas ilegalmente? — Marcelo cruzou os braços. — Porque eu não nasci ontem. Esses dados têm cheiro de backdoor.
— Os dados são reais. — Wagner se inclinou. — E a gente pode confirmar com fontes legais. Já temos depoimentos de comerciantes, familiares de vítimas. Só precisamos de tempo e estrutura pra fechar a matéria do jeito certo.
Marcelo olhou pra ele por longos segundos. Depois pra Vivian. Depois de novo pra tela.
— Não.
Wagner sentiu o chão sumir.
— O quê?
— Não. — Marcelo fechou o laptop. — Matéria barrada. Falta robustez, falta checagem, falta tempo. E falta maturidade de vocês pra lidar com algo desse tamanho.
— Você tá de sacanagem. — Vivian se levantou. — A gente tem provas! Tem vítimas! Tem o mapa inteiro da operação!
— E vocês têm também um alvo nas costas. — Marcelo também se levantou, o rosto endurecendo. — Wagner levou uma surra três dias atrás. Vocês acham que eu vou botar isso no ar e esperar que a CGR mande flores de agradecimento?
— Então é isso? — Wagner sentiu a raiva subindo. — A gente desiste porque tem risco?
— Não. Vocês recuam porque eu tô te dando uma ordem. — Marcelo abriu a porta da sala. — Agora saiam. E achem uma pauta que não envolva vocês virarem estatística.
Wagner ficou parado. Vivian puxou o pen drive e saiu primeiro. Ele a seguiu, mas parou no batente.
— Foi meu pai, né? — Ele olhou pra Marcelo. — Ele mandou você barrar.
O editor não respondeu. Mas o silêncio já era resposta suficiente.
Madureira, Zona Norte — 18h20
A casa era pequena, espremida entre outras casas pequenas numa rua que o Google Maps mal reconhecia. O reboco descascado, a cerca de arame, o portão rangendo nas dobradiças. Wagner bateu três vezes antes de alguém responder.
A mulher que abriu tinha uns quarenta anos, mas parecia carregar sessenta. Cabelos grisalhos presos num rabo de cavalo, olhos fundos, mãos calejadas. Ela olhou pra Wagner, depois pra Vivian, depois pros lados da rua.
— Dona Célia? — Vivian deu um passo à frente. — A gente ligou mais cedo. Sobre o seu marido.
A mulher hesitou. Depois acenou pra dentro.
— Entra. Rápido.
A sala era limpa mas desgastada. Sofá velho, televisão de tubo, foto de casamento na parede. A mesma foto, mas feliz. O homem sorrindo, a mulher radiante. Antes da CGR.
Dona Célia serviu café em xícaras desemparelhadas. Suas mãos tremiam.
— Desculpa a bagunça. Eu não... eu não recebo muita visita.
— A gente entende. — Wagner aceitou o café, mesmo sem querer. — E agradecemos por nos receber.
Ela sentou numa cadeira de plástico, as mãos no colo.
— Vocês disseram que são jornalistas.
— Somos. — Vivian pegou o gravador. — Se a senhora permitir, gostaríamos de gravar. Mas só usamos se a senhora autorizar.
Dona Célia olhou pro aparelho como se fosse uma arma. Depois acenou.
— Grava. Eu quero que as pessoas saibam. Quero que saibam o que eles fizeram com o meu Jair.
E então ela contou.
Contou sobre a padaria que o marido tinha há vinte anos. Sobre como a CGR apareceu cobrando "taxa de segurança". Sobre como ele tentou denunciar, mas a polícia não fez nada. Sobre como os valores aumentaram até ele não conseguir mais pagar.
— Eles vieram de madrugada. — A voz dela quebrou. — Quebraram a porta. Arrastaram ele pra rua. Eu vi tudo da janela. Eu vi eles batendo, batendo, batendo... e eu não pude fazer nada.
Vivian segurou a mão dela. Wagner sentiu a garganta apertar.
— Dona Célia, a senhora se lembra de alguma coisa específica que eles disseram? Algum nome, alguma ordem?
Ela enxugou os olhos com a manga.
— Eles falaram... — Ela fungou. — Falaram que ele tinha que pagar porque o terreno era importante. Que tinha algo... algo que "caiu do céu" e eles precisavam controlar a região.
Wagner e Vivian se entreolharam.
— "Caiu do céu"? — Ele repetiu. — A senhora lembra de mais alguma coisa sobre isso?
— Não. Só... Jair tinha me contado uns dias antes. Ele disse que um dos milicianos tava bêbado e falou demais. Que eles tavam procurando alguma coisa desde 2015. Algum carregamento que sumiu.
O ano que Alice desapareceu.
Wagner sentiu o sangue gelar. Ele olhou pra Vivian. Ela tinha os olhos arregalados.
— A senhora acha que isso tem a ver com a morte dele?
— Eu sei que tem. — Dona Célia apertou o lenço. — Porque no dia seguinte que ele me contou isso, eles mataram ele.
Trânsito, Linha Amarela — 20h40
O Uber cortava a Linha Amarela de volta pra Zona Sul. Vivian estava no banco de trás, o gravador no colo, o olhar perdido na janela. Wagner no banco do passageiro, o celular na mão, relendo as anotações.
"Caiu do céu" — 2015 — Carregamento
Ele digitou uma mensagem pra Lena:
"Busca qualquer coisa sobre 2015. Acidente, queda, transporte clandestino. Qualquer merda que tenha 'caído' naquele ano."
A resposta veio rápida:
"Você é específico igual receita de bolo da vó. Mas ok. Vou procurar."
Wagner olhou pro retrovisor. O trânsito era o usual caos carioca. Carros colados, motos ziguezagueando, ônibus derrapando nas faixas.
Mas havia um carro que não mudava de pista.
Um Corolla prata. Três carros atrás. Sempre na mesma posição.
— Vivi. — Ele chamou baixo. — Não vira a cabeça. Mas acho que a gente tá sendo seguido.
Ela congelou.
— Tem certeza?
— Não. Mas tem um carro que tá grudado na gente faz uns quinze minutos.
O motorista do Uber, um senhor de uns sessenta anos, olhou pelo retrovisor.
— Querem que eu faça algo?
Wagner pensou rápido. As lições do segurança do pai, aquelas horas chatas de "protocolo de segurança" que Leon insistia em fazer.
— Muda de pista. Agora. Sem seta.
O motorista obedeceu. O carro cortou pra direita. O Corolla fez o mesmo.
— Acelera um pouco. E volta pra esquerda.
Mais uma mudança brusca. O Corolla acompanhou.
— Caralho. — Vivian sussurrou.
Wagner sentiu o coração disparar.
— Sai na próxima. Não importa pra onde. Só sai.
O Uber saiu na rampa de Bonsucesso. Desceu pras ruas do bairro, entrando num labirinto de ruelas e vielas mal iluminadas. O Corolla continuou grudado.
— Eles não tão nem disfarçando mais. — O motorista disse, a voz tensa. — Vocês fizeram o quê?
— Nada. — Wagner mentiu. — Para ali. Naquele posto.
O Uber freou no posto de gasolina. Luzes fluorescentes. Frentista olhando pro celular. Wagner jogou cinquenta reais pro motorista.
— Obrigado. A gente desce aqui.
Eles saíram. O Corolla passou devagar, os vidros escuros, mas diminuindo a velocidade. E então continuou.
Vivian estava tremendo. Wagner segurou ela pelo ombro.
— Calma. Respira.
— Eles sabem onde a gente mora, Wagner. Eles sabem tudo.
— Eu sei. — Ele puxou o celular. — A gente não volta pra casa hoje.
Ele ligou pra Lena. Ela atendeu no segundo toque.
— Deixa eu adivinhar. Merda aconteceu.
— Fomos seguidos.
— Claro que foram. Parabéns por ser previsível.
— Lena...
— Vem pro meu loft. Vocês dormem aqui hoje. — Ela desligou.
Wagner pediu outro Uber. Enquanto esperavam, Vivian se encostou nele.
— A gente devia parar.
— Eu sei.
— Mas não vai, né?
— Não.
Ela riu. Um riso sem humor.
— A gente é muito idiota.
O Uber chegou. Eles entraram. Dessa vez, Wagner não tirou os olhos do retrovisor a viagem inteira.
Apartamento em Copacabana — 22h10
A porta estava encostada.
Wagner empurrou devagar, o coração na garganta. Vivian atrás dele, o celular na mão, pronta pra ligar pra polícia.
O apartamento estava intacto. Nada quebrado. Nada revirado. Mas alguém tinha estado ali.
Porque em cima da mesa da sala, no meio exato do quadro branco rabiscado, havia um envelope branco.
Wagner pegou com mãos trêmulas. Abriu.
Dentro, uma foto.
A foto da formatura. Ele e Vivian no bar na Lapa, sorrindo, bêbados, felizes.
Alguém tinha desenhado um círculo vermelho em volta de Vivian.
Nada mais. Só o círculo.
A mensagem era clara.
Wagner sentiu a bile subir na garganta. Ele olhou pra Vivian. Ela estava branca, a mão tapando a boca.
— Eles não vão mais atrás de mim. — Ele disse, a voz sumida. — Eles vão atrás de você.
As lágrimas escorreram no rosto dela. Mas ela não fez som.
Wagner pegou o celular. Os dedos tremiam tanto que ele errou o número duas vezes. Na terceira, conseguiu.
Lena atendeu.
— Mudou de ideia? Vão vir ou...
— Eu preciso de tudo. — Wagner cortou. — Tudo o que você tem sobre o Senador Aníbal. Contas, propriedades, amantes, esquemas, dívidas. Tudo. Eu não me importo se é legal, ilegal, ético ou não. Eu quero a vida inteira dele numa bandeja.
— Wagner...
— Agora é guerra, Lena. — Ele olhou pro círculo vermelho. — E eu vou acabar com esses filhos da puta.
Ele desligou.
Vivian o abraçou. E dessa vez, ele deixou o medo aparecer.
Porque não era mais só sobre jornalismo.
Era sobrevivência.
FIM DO CAPÍTULO 2