Hall Principal da Fazenda Cavalieri — 23h04
Alice disparou primeiro.
Três tiros rápidos, agrupados — técnica perfeita da GENOS, cada bala visando centro de massa. A distância era de oito metros.
Krauss já estava se movendo.
Rolou para a direita, corpo baixo, as balas perfurando a parede de madeira onde ele estava um segundo antes. Puxou as FN Five-seveN — uma em cada mão — e disparou enquanto rolava.
Alice se jogou atrás da coluna de sustentação. Balas de 5.7mm estilhaçaram a madeira, lascas voando.
Silêncio por dois segundos.
Depois, movimento simultâneo.
Alice saiu da cobertura pela esquerda, disparando. Krauss saiu da direita, disparando.
Quatro tiros cruzaram o hall. Todos erraram por centímetros — cada um antecipando o movimento do outro com precisão nascida de décadas de experiência.
Alice correu pela lateral do hall, usando os móveis como cobertura — sofá, mesa, aparador. Krauss a seguiu, disparando metodicamente, cada tiro forçando ela a se mover, a reagir, a gastar munição.
Ela virou atrás do aparador, ejetou o carregador vazio, inseriu um novo em movimento fluido. Meio segundo. Krauss usou esse meio segundo.
Saltou sobre a mesa de centro, cruzou cinco metros no ar, e aterrissou a três metros dela.
Alice reagiu instintivamente. Abandonou a recarga, puxou a faca de combate do coldre da coxa, e cortou horizontal.
Krauss bloqueou com o cano de uma das pistolas. Metal contra metal. A lâmina rangeu, procurando abertura.
Ele contra-atacou com a outra pistola — não disparando, usando como cassetete, visando a têmpora de Alice.
Ela abaixou. A pistola passou onde sua cabeça estava, bateu no aparador atrás dela, deixou marca profunda na madeira.
Alice girou baixo, varreu a perna. Krauss saltou, evitou, chutou em direção ao rosto dela no ar.
Alice rolou para trás. O chute acertou o chão de madeira — rachadura em forma de pegada.
Ambos se levantaram simultaneamente, a três metros de distância.
Alice com a faca na mão direita, Glock recarregada na esquerda.
Krauss com as duas FN em punho, sorriso fino no rosto.
— Vinte anos — disse ele, respiração controlada. — E ainda moves-te como fantasma.
— E tu ainda falas demais — respondeu Alice.
Ela atirou. Não uma vez. Sequência — BANG BANG BANG BANG — quatro tiros em dois segundos, cada um visando ponto diferente: perna, torso, ombro, cabeça.
Krauss dançou entre as balas. Literalmente. Corpo se contorcendo, girando, deslocando-se em padrões que desafiavam anatomia normal.
Ele contra-atacou. Seis tiros — alternando pistolas, ritmo sincopado.
Alice se jogou, rolou, veio para cima já correndo. Uma bala cortou o ar tão perto da orelha dela que sentiu o calor.
Ela alcançou Krauss antes que ele pudesse ajustar mira.
Combate corpo-a-corpo.
Alice cortou — lateral do pescoço. Krauss desviou, contra-atacou com cotovelo. Alice bloqueou com o antebraço, sentiu o impacto até os ossos, girou o corpo e chutou as costelas dele.
Krauss absorveu o golpe, recuou meio passo, e atirou à queima-roupa.
Alice torceu o corpo. A bala passou raspando as costelas, queimando a pele, mas não penetrando.
Ela enfiou a faca em direção ao plexo solar dele.
Krauss soltou uma pistola, segurou o pulso dela com a mão livre, e torceu. Ossos do punho de Alice estalaram. Ela soltou a faca.
Mas usou o impulso. Joelhada no estômago dele. Krauss ofegou, curvou-se levemente.
Alice quebrou o agarre, pegou a faca no ar com a mão esquerda — transição perfeita — e cortou a lateral da coxa dele.
Sangue jorrou. Vermelho normal. Humano.
Krauss rugiu de dor e raiva, jogou o corpo contra ela. Ambos caíram, rolando pelo chão de madeira, batendo em móveis, cada um tentando ganhar posição superior.
Alice por cima. Faca descendo.
Krauss segurou o pulso dela com as duas mãos, músculos tremendo com esforço, a ponta da lâmina a cinco centímetros da garganta dele.
Ela pressionou. Quatro centímetros. Três.
Krauss girou o corpo violentamente, jogou Alice para o lado, rolou para cima dela, inverteu posição.
Socou. Alice desviou a cabeça. O punho dele rachou a madeira do chão. Socou de novo. Alice bloqueou com o antebraço, sentiu o osso ranger sob o impacto.
Ela enfiou o joelho no estômago dele, jogou ele para frente, e se libertou.
Ambos se levantaram ao mesmo tempo, recuando, ofegantes.
Alice sangrava do corte superficial nas costelas. Pulso direito inchado. Múltiplos hematomas formando.
Krauss sangrava da coxa. Mancava levemente. Lábio partido. Óculos perdidos em algum lugar durante a luta.
— Boa — disse ele, cuspindo sangue. — Muito boa.
— Não acabou — respondeu Alice, pegando a Glock que tinha caído no chão.
— Não. — Krauss sorriu — aquele sorriso predatório, vazio. — Mas agora acaba a brincadeira.
Ele levantou a mão direita. Dedos estendidos. Palma para cima.
Alice disparou. Três tiros. Centro de massa.
As balas desapareceram.
Não ricochetearam. Não atravessaram.
Simplesmente foram engolidas por distorções negras que se materializaram no ar à frente de Krauss — como buracos rasgados na realidade, bordas tremulando, sugando a luz ao redor.
Alice congelou. Olhos arregalados.
— O quê...
— Evolução, querida. — Krauss fechou a mão. As distorções se condensaram, se solidificaram, se transformaram em algo impossível.
Sombras. Mas não vazio. Sólidas. Densas. Com massa.
Alice atirou novamente. Esvaziou o carregador — doze balas em quatro segundos.
Todas engolidas pela escuridão.
Krauss gesticulou. Sombras explodiram do chão ao redor de Alice — tentáculos negros que se enrolaram nas pernas dela, nos braços, no torso.
Alice cortou com a faca. A lâmina atravessou uma sombra — que se refez instantaneamente, como água voltando ao formato.
— Impossível — sussurrou ela, lutando contra os tentáculos que a erguiam do chão.
Os tentáculos a ergueram. Três metros. Quatro.
Alice lutou, torcendo o corpo, mas as sombras eram fortes demais, densas demais, reais demais.
Krauss fechou a mão em punho.
As sombras arremessaram Alice violentamente contra a pilastra de concreto no canto do hall.
CRACK.
O som de ossos quebrando. Concreto rachando. Corpo batendo com força que mataria um humano normal.
Alice caiu no chão como boneca descartada, corpo dobrado em ângulo errado, braço esquerdo claramente fraturado, sangue escorrendo da testa, olhos semicerrados.
Respirava. Ainda viva. Mas incapacitada.
Krauss caminhou até ela, limpando as mãos no terno como se tivesse tocado algo sujo.
— Vinte anos atrás, foste a melhor. — Ele agachou ao lado dela, tocou o rosto dela com dedos frios. — Mas nunca evoluíste, Alice. Ficaste presa na técnica. Na humanidade. — Ele se levantou. — Eu ultrapassei isso.
Do comunicador no colete tático de Alice, a voz desesperada de Wagner:
— MÃE! MÃE, RESPONDE!
Krauss pisou no comunicador, esmagando-o sob o salto.
— Ela não pode atender agora, rapaz.
Perímetro do Hall — 23h05
As janelas explodiram simultaneamente.
Não vidro quebrando naturalmente. Explosivos de entrada tática — pequenos, precisos, sincronizados.
Doze homens entraram pelo hall — três por cada janela — rolando para dentro, levantando-se em formação, armas em punho.
O Esquadrão Leviatã.
Não eram como os operativos Kraken que Wagner tinha enfrentado lá fora. Estes eram diferentes. Controlados. Precisos. Militares.
Usavam armaduras táticas pesadas — placas de cerâmica reforçada cobrindo peito, ombros, coxas. Capacetes com viseiras escuras. Rifles de assalto HK417 com miras holográficas.
Mas nas laterais dos pescoços, visíveis mesmo sob os capacetes, veias brilhavam fracamente verde. KRAKEN-S. Mas não dose total. Dose controlada. O suficiente para força sobre-humana sem perder coordenação.
Eles se espalharam pelo hall em formação tática perfeita, cobrindo ângulos, isolando saídas.
Um deles — o líder, marcas de tenente no ombro — falou no rádio:
— Área segura. Alvos confirmados. Aguardando ordens.
Krauss respondeu, voz calma:
— Tragam os outros.
Bunker Subterrâneo — 23h06
A porta reforçada do bunker explodiu para dentro.
Não com C-4. Com sombras — tentáculos negros que rasgaram o aço reforçado como papel, arrancando a porta das dobradiças.
Leon levantou-se da cadeira, puxando uma pistola do coldre escondido.
— RECUEM! — gritou ele para Lena e Paulo.
Mas já era tarde.
Os operativos Leviatã desceram pelas escadas em formação fluida. O primeiro desarmou Leon com movimento tão rápido que parecia borrão — chute na mão, pistola voando, Leon sendo jogado contra a parede.
Outro agarrou Lena, que tentou socar, chutar, gritar. Mas o homem era forte demais — músculos reforçados pelo KRAKEN-S. Ele a segurou sem esforço.
Paulo tentou correr para a saída de emergência. Dois operativos o interceptaram, derrubaram, imobilizaram.
Em vinte segundos, estava acabado.
Leon, Lena e Paulo foram arrastados para cima, para o hall principal, algemados com cabos de contenção magnética — finos mas inquebráveis, apertados nos pulsos e tornozelos.
Hall Principal — 23h08
Wagner chegou correndo pelo corredor lateral, Magister Severus e três Sicarius atrás dele.
Parou na entrada do hall.
E viu.
Alice caída no canto, imóvel, ensanguentada.
Leon, Lena e Paulo ajoelhados no centro do hall, algemados, guardados por seis operativos Leviatã armados.
Krauss parado no meio de tudo, sorrindo, mãos nos bolsos do terno.
E sombras. Sombras por toda parte — flutuando, se retorcendo, vivas.
— Wagner! — gritou Lena, olhos arregalados. — Não entra! É uma armadilha!
Krauss gesticulou preguiçosamente com a mão direita.
Sombras explodiram do chão sob os pés de Wagner e dos Sicarius. Tentáculos negros os agarraram — pernas, braços, pescoços.
Magister Severus cortou com a lâmina. A sombra se refez. Ele cortou de novo. Mesma coisa.
— Non est naturalis! — gritou Severus. Não é natural!
Os tentáculos os arrastaram para trás, jogando-os contra a parede do corredor. Mais sombras se materializaram, formando barreira sólida, selando a entrada.
Wagner estava preso.
Sozinho.
Krauss caminhou até ele, passos ecoando no hall silencioso.
— Finalmente. — Ele gesticulou. — Sozinho. Como deveria ser.
Mais sombras explodiram, enrolando-se em Wagner. Braços. Pernas. Torso. Apertando.
O traje do Carcará rangeu sob a pressão. Placas de cerâmica estalaram. Servomotores gemeram.
Wagner lutou, tentando se libertar, mas as sombras eram fortes demais, muitas demais.
Elas o forçaram ao chão. De joelhos. Mãos presas atrás das costas.
A luz âmbar da viseira piscou. Depois morreu. Sistemas falhando sob a pressão.
Wagner olhou através do vidro estilhaçado da viseira.
Viu Krauss se aproximar.
Viu o sorriso.
— Bem-vindo de volta, rapaz.
O Monólogo do Carrasco — 23h09
Krauss se agachou na frente de Wagner, reproduzindo exatamente a posição que tinha usado no Morro do Falcão três anos atrás.
Mesma distância. Mesmo ângulo. Mesma inclinação de cabeça.
— Lembras-te do cheiro, Wagner? — A voz era suave, sotaque português carregado de crueldade. — A borracha dos pneus... o combustível barato a escorrer pela madeira velha...
Wagner sentiu algo gelado descer pela espinha.
— Eu ainda oiço aquele grito. — Krauss inclinou a cabeça. — Tu estavas ali, preso, de frente para ela. Viste a carne a ceder ao fogo. Viste a pele a estalar. Viste os olhos dela — ainda consciente, ainda te vendo — enquanto as chamas subiam.
— Cala a boca — rosnou Wagner, tentando se mover, mas as sombras apertaram mais.
— Ela implorava com o olhar. Não com palavras, porque a fumaça já tinha queimado a garganta dela. Mas com os olhos. — Krauss se aproximou mais. — E tu? Tu não fizeste nada. Ficaste apenas ali, amarrado, assistindo. A tua impotência foi o que a matou de verdade.
Wagner sentiu lágrimas queimando nos olhos.
— EU VOU TE MATAR!
— Vais? — Krauss riu. — Como? Estás preso. De novo. Exatamente como antes. — Ele se levantou, caminhou até Lena.
Lena tentou recuar, mas os operativos a seguraram firme.
Krauss levantou a mão direita. Sombras se condensaram, formando lâmina longa e afiada. Ele pressionou a ponta na garganta de Lena.
— Vais ver a história repetir-se, rapaz. — Krauss olhou para Wagner. — Queres ver como o sangue dela brilha no escuro?
Lena estava tremendo, olhos arregalados, respiração rápida.
— Wagner... — sussurrou ela.
Wagner lutou. Forçou os músculos contra as sombras. Sentiu o metagene pulsando, tentando reagir, mas não era suficiente.
Não era suficiente.
Krauss pressionou a lâmina mais fundo. Uma gota de sangue escorreu pelo pescoço de Lena.
E algo dentro de Wagner quebrou.
A Singularidade — 23h10
O zumbido começou.
O mesmo zumbido que Wagner tinha sentido quando morreu no Morro do Falcão. O mesmo que sentiu quando ressuscitou. O mesmo que estava sempre lá, baixo, constante, no fundo do crânio.
Mas agora, não era zumbido.
Era rugido.
O mundo desacelerou. Não metaforicamente. Literalmente. Wagner viu Krauss movendo a lâmina em câmera lenta. Viu Lena piscando, lágrima descendo pela bochecha frame por frame.
A precognição explodiu.
Não era mais apenas sentir movimentos antes de acontecerem. Era ver o futuro imediato desdobrando-se em múltiplas possibilidades simultâneas.
Krauss ia cortar. Lena ia morrer. Leon ia gritar. Paulo ia tentar se libertar.
Todas as possibilidades brilharam na mente de Wagner como constelação de escolhas.
E em todas elas, Lena morria.
A menos que ele mudasse.
O metagene respondeu.
Dor. Queimação absoluta em cada célula. Como se o corpo dele estivesse sendo reescrito em tempo real.
As veias de Wagner acenderam — não verde fraco como antes, mas verde elétrico, brilhante, néon pulsando sob a pele como raios em tempestade.
Calor. Intenso. Radiando dele em ondas que fizeram o ar distorcer.
As sombras de Krauss que prendiam Wagner começaram a fumegar. Literalmente. Vapor negro subindo onde tocavam a pele dele.
Krauss sentiu. Virou a cabeça, olhos arregalando.
— O que...
As sombras perderam consistência. Ficaram fracas. Translúcidas.
Wagner sentiu os músculos expandindo. Não grotescamente como os operativos Kraken. Mas densamente. Fibras se multiplicando, se reforçando, se tornando aço biológico.
Ouviu o som. Visceral. Tecidos se fechando. Microfraturas nos ossos se soldando. Cicatrizes antigas desaparecendo.
Levantou a cabeça.
Os olhos dele brilhavam verde luminoso — faróis na escuridão, intensos o suficiente para projetar luz no chão à sua frente.
Krauss recuou um passo, lâmina de sombra tremendo na mão.
— Não... não é possível... evoluiu... o metagene evoluiu...
Wagner inspirou. O ar entrou com som de fornalha sugando oxigênio.
Depois, explodiu.
A Libertação — 23h11
Wagner moveu os braços.
As sombras que o prendiam se despedaçaram como vidro, fragmentos negros evaporando no ar.
Ele se levantou. Lento. Deliberado. Cada movimento calculado.
Os operativos Leviatã apontaram as armas.
— FOGO! — gritou o líder.
Doze rifles dispararam simultaneamente.
Wagner se moveu.
Não correu. Deslocou-se. Borrão cortando o espaço, precognição mostrando cada trajetória de bala antes de sair do cano.
Desviou. Abaixou. Girou.
Vinte e quatro balas erraram por centímetros.
Wagner alcançou o primeiro operativo antes que ele pudesse recarregar.
Socou o peito do homem.
A armadura tática de cerâmica reforçada — projetada para parar balas de calibre .308 — implodiu. Estilhaços voaram. O operativo foi arremessado para trás cinco metros, bateu na parede, caiu inconsciente.
Wagner girou. Chute lateral no segundo operativo. Quebrou três costelas através da armadura. O homem colapsou ofegando.
Terceiro operativo tentou atirar à queima-roupa. Wagner segurou o cano do rifle com a mão, amassou o metal como lata de refrigerante, e quebrou o pescoço do homem com golpe rápido na base do crânio.
Quarto. Quinto. Sexto.
Não era luta. Era execução técnica.
Wagner se movia como a ORDEM SANCTAE VINDICTAE tinha ensinado — geometria da morte, cada movimento com propósito — mas amplificado pelo metagene evoluído.
Velocidade sobre-humana. Força impossível. Precognição vendo três segundos no futuro.
Em quarenta segundos, os doze operativos do Esquadrão Leviatã estavam no chão. Mortos ou inconscientes.
Wagner virou para Krauss.
Os olhos verdes brilhando.
Krauss recuou, sorriso desaparecendo, substituído por algo que ele raramente sentia: medo.
— Wagner... rapaz... podemos negociar...
Wagner deu um passo à frente.
Krauss gesticulou desesperadamente. Sombras explodiram do chão — dezenas delas, todas atacando Wagner simultaneamente.
Wagner as despedaçou. Uma por uma. Com as mãos. Com força bruta. O calor radiando dele fazia as sombras evaporarem ao toque.
Krauss tentou correr.
Wagner cruzou dez metros em dois segundos, agarrou Krauss pela garganta, e o ergueu do chão.
— Não — disse Wagner, voz distorcida, ecoando. — Você não foge.
Krauss bateu nos braços de Wagner, tentando se soltar, mas era como bater em aço.
— Espera... espera... eu tenho informações... sobre a TENTÁCULOS...
Wagner apertou. Levemente. Krauss ofegou.
— Você matou Vivian.
— Foi... foi ordem... eu apenas...
— VOCÊ QUEIMOU ELA VIVA.
Wagner o arremessou contra a parede. Krauss bateu com força, caiu, cuspiu sangue.
Tentou se levantar, cambaleando. Puxou algo do bolso interno do paletó — um autoinjetor. Três ampolas de KRAKEN-S carregadas.
— Se... se é assim que quer... — Krauss pressionou o autoinjetor no próprio pescoço.
PSSSHH. PSSSHH. PSSSHH.
Dose tripla.
Os olhos dele se arregalaram. Veias explodiram em verde brilhante. Músculos incharam grotescamente, rasgando o terno. A pele ficou amarelada, suando líquido espesso.
Ele rugiu — som animal, gutural.
E avançou.
A Morte do Corvo — 23h14
Krauss atacou com força sobre-humana amplificada — soco que racharia concreto.
Wagner bloqueou. Com a palma da mão. Sem recuar um centímetro.
Krauss atacou de novo. Chute. Cotovelada. Sequência frenética.
Wagner desviou de todos. Precognição mostrando cada movimento antes de acontecer.
Depois, contra-atacou.
Golpe da ORDEM SANCTAE VINDICTAE. Variante Ômega. A técnica letal final que Magister Severus tinha ensinado.
Palma da mão aberta. Acertando a base do pescoço de Krauss. Força calculada para esmagar traqueia e vértebras cervicais simultaneamente.
CRACK.
O som ecoou pelo hall silencioso.
Krauss congelou. Olhos arregalados. Boca aberta tentando respirar mas nenhum ar passando.
Caiu de joelhos.
Wagner se agachou na frente dele, reproduzindo a posição que Krauss tinha usado no Morro do Falcão.
— Lembra do cheiro? — disse Wagner, voz baixa, verde brilhando nos olhos. — Borracha queimando. Carne queimando. Vivian gritando.
Krauss tentou falar. Apenas sangue saiu.
— Você criou isso. — Wagner apontou para si mesmo. — Criou o predador. E agora, vai morrer vendo o que construiu.
Krauss caiu de lado, corpo convulsionando. A dose tripla de KRAKEN-S estava matando ele por dentro — colapso muscular, hemorragia cerebral, falência de órgãos.
Mas os olhos ainda estavam abertos. Ainda conscientes.
Vendo Wagner.
Vendo o Carcará.
Vendo a vingança que ele mesmo tinha forjado.
Por trinta segundos, Krauss agonizou.
Depois, ficou imóvel.
Morto.
Consequências — 23h16
Wagner se levantou lentamente. O brilho verde nos olhos diminuiu mas não desapareceu completamente. As veias ainda pulsavam fracamente sob a pele.
Ele caminhou até Lena, quebrou as algemas magnéticas com as mãos, e a ajudou a se levantar.
— Você tá bem? — perguntou ele, voz ainda levemente distorcida.
Lena olhou para ele — para os olhos brilhando verde, para as veias luminosas — e assentiu, tremendo.
— Tô... tô viva.
Wagner libertou Leon e Paulo também.
Depois correu até Alice.
Ela estava consciente, mas mal conseguia se mover. Braço quebrado. Costelas provavelmente fraturadas.
— Mãe — disse Wagner, ajoelhando ao lado dela.
Alice olhou para ele. Viu os olhos. Viu o brilho.
— Evoluíste — sussurrou ela. — O metagene evoluiu.
— Como está?
— Braço quebrado, acho que algumas costelas também. Mas... Wagner... — Ela tocou o rosto dele com a mão boa. — O brilho em si. Mudaste. Não há volta.
Wagner olhou para as próprias mãos. Veias brilhando verde. Força pulsando em cada músculo.
— Eu sei.
A barreira de sombras que bloqueava a entrada desmoronou com a morte de Krauss. Magister Severus e os Sicarius entraram correndo.
Severus olhou ao redor — os corpos dos operativos Leviatã, Krauss morto no chão, Wagner de pé com olhos brilhando.
— Deus nos proteja — murmurou Severus. — Poliborus evoluiu.
Wagner se levantou, ajudando Alice gentilmente.
— A batalha acabou?
— Por agora — disse Severus. — Mas a guerra apenas começou.
Wagner olhou para o corpo de Krauss. Para o homem que tinha atormentado seus pesadelos por três anos. Para o assassino de Vivian.
Finalmente morto.
Mas a vingança não trouxe paz. Apenas vazio.
E o brilho verde persistindo, sinalizando que Wagner Cavalieri — o jornalista, o humano — tinha morrido de vez.
O que restava era o Carcará.
Predador.
E a humanidade dele tinha sido alterada para sempre.
FIM DO CAPÍTULO 18