PROJETO ALPHA
T1/E1
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O alarme começou como um zumbido distante, quase imperceptível entre o ronco constante dos sistemas de refrigeração. Depois veio o segundo sinal — uma luz amarela piscando no painel de controle. Então a terceira, e a quarta, e de repente o corredor inteiro da Base de Pesquisa Nuclear Tietê estava banhado em vermelho pulsante.
Dra. Luíza Maria Menning nem precisou olhar para os monitores. Ela sentiu a mudança no ar. Depois de três anos trabalhando naquela instalação enterrada a sessenta metros sob a floresta de eucaliptos no interior de São Paulo, seu corpo havia aprendido a ler os sinais sutis do reator. A temperatura subindo meio grau. A vibração diferente no chão de concreto. O cheiro — sempre aquele cheiro de ozônio quando algo dava errado.
Mas dessa vez era diferente.
Dessa vez, o cheiro estava mais forte. Metálico. Elétrico. Como se o ar estivesse sendo rasgado.
— Luíza. — A voz do Dr. Joseph Menning veio pelo comunicador, tensa mas controlada. Sempre controlada. Era uma das coisas que ela amava nele — a capacidade de manter a calma quando o mundo estava desmoronando. — Preciso de você na sala de contenção. Agora.
Ela já estava correndo.
O corredor se estendia por cinquenta metros, as paredes de concreto armado pintadas de branco industrial, marcadas por faixas amarelas e pretas indicando zonas de perigo. Seus passos ecoavam no metal das grades suspensas sobre os dutos de ventilação. A sirene continuava uivando, implacável, perfurando seus tímpanos.
Três meses, ela pensou, a mão instintivamente tocando a barriga ainda discreta sob o jaleco. Três meses e meio.
Joseph não sabia. Ninguém sabia. Ela tinha planejado contar naquela noite, depois do turno, com uma garrafa de vinho sem álcool e aquele sorriso nervoso que sempre fazia quando tinha notícias importantes.
Mas o Projeto Alpha decidiu ter outros planos.
A porta da sala de contenção estava entreaberta — um detalhe que fez seu coração gelar. Aquela porta nunca, nunca deveria estar aberta durante uma emergência. Ela tinha doze centímetros de espessura, forrada com chumbo e aço de carbono, projetada para conter radiação suficiente para esterilizar uma cidade inteira.
Luíza empurrou a porta com o ombro. O peso era absurdo, mas a adrenalina deu força aos seus braços. O metal rangeu, cedeu.
E então ela viu.
O reator estava sangrando.
Não havia outra palavra para descrever. Do núcleo central — uma esfera de metal polido do tamanho de uma bola de basquete, suspensa no centro da câmara por campos magnéticos — vazava uma luz verde fantasmagórica. Não era o verde suave das folhas ou da grama. Era um verde errado, vibrante demais, intenso demais, como se alguém tivesse arrancado a cor do próprio conceito de veneno e a condensado em luz pura.
A luz vazava por uma fissura na superfície do núcleo. Minúscula — não mais que dois milímetros — mas crescendo. Luíza podia ver o metal ao redor da rachadura começando a derreter, gotas luminescentes escorrendo como cera radioativa.
E no meio daquele inferno verde, vestido com um traje de contenção que já parecia inadequado, estava seu marido.
— Joseph!
Ele nem virou a cabeça. Seus dedos trabalhavam nos controles de emergência, digitando sequências que Luíza conhecia de cor. Desligamento forçado. Resfriamento de emergência. Liberação de boro líquido. Mas nada estava funcionando.
— O sistema de contenção magnética falhou — ele disse, a voz abafada pelo capacete. — A fissura está se expandindo. Em dez minutos, o núcleo atinge massa crítica.
Luíza não precisou perguntar o que aconteceria depois. Ela tinha escrito metade dos protocolos de segurança daquela base. Conhecia os números de cabeça. Raio de destruição: oito quilômetros. Raio de contaminação letal: trinta quilômetros. A cidade mais próxima, Rio Claro, tinha duzentos mil habitantes.
— Onde está a equipe? — ela perguntou, já sabendo a resposta.
— Evacuei todo mundo. Cinco minutos atrás.
— Menos você.
— Menos eu.
Ela caminhou até a bancada de equipamentos e pegou o segundo traje de contenção. O tecido era pesado, revestido com camadas de chumbo flexível e polímeros anti-radiação. Começou a vesti-lo sobre o jaleco.
— Luíza, não. — Agora ele virou, os olhos arregalados por trás do visor. — Você não pode ficar aqui.
— Também não posso deixar você sozinho.
— Isso é suicídio!
— Isso — ela apontou para o reator — é um projeto de dois bilhões de reais que vai explodir e matar trezentas mil pessoas se a gente não fizer nada. — Ela terminou de fechar o traje, checando os selos nas articulações. — Você precisa de alguém monitorando os níveis de radiação enquanto trabalha. Sozinho, você não tem como saber quando está na zona vermelha.
Joseph abriu a boca para protestar, mas ela cortou:
— Além disso, você é péssimo com soldagem de emergência. Suas mãos tremem.
Ele fechou a boca. Porque era verdade. Nos três anos trabalhando juntos, Luíza sempre fora melhor nas operações que exigiam mão firme. Cirurgias microscópicas em componentes radioativos. Ajustes em válvulas sob pressão. Joseph era o gênio teórico, o cara dos cálculos impossíveis. Ela era a engenheira, a que transformava teoria em realidade.
Eles eram uma equipe perfeita.
Sempre foram.
— Tá bom — ele suspirou, derrotado. — Mas se eu mandar você sair, você sai. Sem discussão.
— Combinado.
Mentira. Ambos sabiam que era mentira.
Luíza pegou o tablet de monitoramento e caminhou até a câmara de acesso. O calor bateu nela como uma parede sólida. Mesmo através do traje, ela sentia como se tivesse aberto a porta de um forno industrial. O ar distorcia, ondulando. O contador Geiger no pulso dela começou a clicar — rápido, muito rápido.
— Dois mil rems — ela anunciou, lendo o display. — Subindo.
— Quanto tempo temos?
Ela fez o cálculo de cabeça. Dose letal para um humano: quatrocentos a quinhentos rems. Com o traje, eles tinham alguma proteção, mas não muito.
— Quinze minutos. Depois disso, mesmo que a gente saia, a radiação já vai ter causado dano celular irreversível.
— Então temos quinze minutos para salvar o mundo.
— Mais ou menos isso.
Joseph puxou uma ferramenta de solda a plasma da bancada. O plano era simples na teoria: selar a fissura manualmente, estabilizar o campo magnético, inundar a câmara com líquido refrigerante. Simples. Suicida, mas simples.
Eles se aproximaram do núcleo.
A luz verde os envolveu como névoa tóxica. Luíza sentiu um formigamento estranho na pele — ou talvez fosse paranoia, porque radiação não tinha sensação física. Ela só matava. Silenciosamente. Eficientemente.
Joseph ajoelhou ao lado da fissura. Tão perto. Perto demais. Luíza viu gotas de metal derretido pingar no chão de contenção, chiando ao tocar as placas de aço.
— Três mil rems — ela avisou, checando o contador.
Ele acendeu a tocha de plasma. A chama branco-azulada parecia pálida comparada ao verde radioativo. Começou a trabalhar, movendo a ferramenta em traços curtos e precisos, selando micrograma por micrograma.
Luíza respirou fundo, reunindo coragem. Não havia momento certo para aquilo, mas precisava dizer.
— Joseph... tem uma coisa que eu preciso te contar.
— Pode falar — ele respondeu, sem tirar os olhos da solda. — Estou ouvindo.
— Eu estou grávida.
As mãos dele pararam.
Completamente.
Por três segundos que pareceram eternos, nenhum dos dois se moveu.
— O... o quê? — A voz dele saiu abafada, incrédula.
— Três meses e meio. — Ela engoliu em seco. — Eu ia te contar hoje à noite. Tinha tudo planejado. Vinho sem álcool, aquela lasanha que você adora...
Joseph se virou lentamente para ela, os olhos arregalados por trás do visor.
— Luíza... você está grávida? Agora? Aqui?
— Eu sei que não é o melhor momento, mas...
— O melhor momento?! — Ele largou a tocha e ficou de pé num pulo. — Você está exposta a três mil rems de radiação e me vem com isso?!
— Eu precisava que você soubesse! Antes de...
— Antes de nada! — Ele apontou para a porta da câmara. — Você sai daqui. Agora.
— Joseph, nós precisamos terminar...
— EU preciso terminar. Você vai pra sala de observação.
— Não! Eu posso ajudar!
— LUÍZA! — O grito dele ecoou dentro do capacete. Ele nunca gritava. Nunca. — Você está carregando nosso filho. Não vou deixar você aqui nem mais um segundo.
As lágrimas começaram a descer pelo rosto dela.
— Mas você não pode fazer isso sozinho...
— Posso sim. — Ele segurou os ombros dela, o toque firme mesmo através das luvas grossas do traje. — Você vai pra sala de observação. Tem vidro blindado, camada extra de chumbo. Você monitora os níveis de radiação de lá e me passa as informações pelo comunicador. Assim você me ajuda e fica segura.
— Joseph...
— Por favor. — A voz dele quebrou. — Por favor, amor. Se não por você... pelo nosso bebê.
Ela viu nos olhos dele. Não havia negociação possível. E, no fundo, ela sabia que ele estava certo. A vida dentro dela era mais importante que seu orgulho.
— Tá bom — ela sussurrou. — Mas se os níveis subirem demais, você para imediatamente. Promete?
— Prometo.
Ele não ia prometer. Ambos sabiam disso. Mas às vezes, o amor exige pequenas mentiras para que possamos suportar o impossível.
Luíza caminhou até a porta lateral da câmara, que dava acesso à sala de observação. Era um cubículo pequeno, de três metros por três, com uma parede inteira de vidro blindado de quinze centímetros de espessura. Usado normalmente para observar experimentos de alto risco à distância.
Hoje, seria sua jaula.
Ela entrou, fechou a porta pesada atrás de si. Do outro lado do vidro, via Joseph voltando à posição ao lado do núcleo, pegando a tocha de plasma.
— Consegue me ouvir? — a voz dele veio pelo comunicador.
— Alto e claro.
— Ótimo. Me dá os níveis atuais.
Luíza olhou para o tablet na bancada da sala de observação. Tinha conexão direta com todos os sensores da câmara.
— Três mil e duzentos rems. Subindo devagar.
— Temperatura do núcleo?
— Dois mil e oitocentos graus. Também subindo.
— Tempo estimado até reação em cascata?
Ela fez os cálculos mentalmente. Os números não eram bons.
— Doze minutos. Talvez quinze se a gente tiver sorte.
— Então vamos torcer pra sorte estar do nosso lado hoje.
Joseph voltou ao trabalho. Seus movimentos eram precisos, metódicos, quase meditativos. Mesmo sob pressão extrema, ele mantinha aquela calma irritante que sempre a fascinara.
— Quatro mil rems — ela anunciou.
— Entendido.
— Joseph... suas mãos estão tremendo.
— Estou ciente.
— Você quer que eu...
— Não. Você fica aí. Continua me dando os números.
Ela cerrou os punhos, forçando-se a obedecer. Era tortura. Ver ele ali, sozinho, enquanto ela estava protegida atrás de vidro blindado. Tudo nela gritava para voltar, para ajudar.
Mas ela não podia. Não com o bebê.
— Cinco mil rems.
— Temperatura?
— Três mil graus. Joseph, o núcleo está acelerando.
— Eu sei. Estou vendo.
E ela também via. O brilho verde estava pulsando agora. Não era constante mais. Era como uma respiração. Como um coração batendo cada vez mais rápido.
— Quanto falta? — ela perguntou, a voz trêmula.
— Metade. Talvez um pouco mais.
— Você não vai conseguir a tempo.
— Vou sim.
— Joseph, os números...
— Eu disse que vou conseguir! — Ele parou por um segundo, respirou fundo. — Desculpa. Eu só... precisa dar certo, Luíza. Precisa.
— Eu sei.
Silêncio. Só o chiado da tocha de plasma, o zumbido dos sistemas de contenção, o bip constante do contador Geiger.
— Seis mil rems.
— Entendido.
— Sete minutos até reação crítica.
— Entendido.
— Joseph, por favor, acelera.
— Estou indo o mais rápido que consigo.
Mas ela podia ver que não seria suficiente. A fissura estava selada em três quartos agora, mas o último quarto estava se expandindo mais rápido que ele conseguia soldar. Era uma corrida contra o tempo que ele estava perdendo.
— Sete mil rems. Joseph, esse nível é...
— Letal. Eu sei.
— Você precisa sair!
— Só mais um minuto...
— Você não tem um minuto!
— LUÍZA, ME DEIXA TRABALHAR!
Ela mordeu o lábio, as lágrimas voltando. Assistir impotente enquanto o homem que amava se matava lentamente era pior que qualquer tortura física.
— Cinco minutos — ela sussurrou.
Ele não respondeu. Só continuou soldando.
— Quatro minutos.
Nada.
— Três...
— Pronto! — Ele se afastou da fissura, avaliando o trabalho. A rachadura estava completamente selada. Metal brilhante cobrindo onde antes havia luz verde vazando. — Consegui! Luíza, eu consegui!
Ela queria comemorar. Queria gritar de alívio.
Mas então viu os números no tablet.
E seu sangue gelou.
— Joseph... o núcleo...
Ele olhou para a esfera metálica.
O brilho verde estava intensificando. Rápido. Rápido demais.
— Não — ele sussurrou. — Não, não, não...
— A reação já começou! — Luíza gritou. — Mesmo com o selo, a pressão interna está alta demais! Vai...
O núcleo pulsou.
Uma vez.
Duas vezes.
E na terceira...
Explodiu.
Não foi uma explosão de fogo e fragmentos. Foi pior. Foi como se a realidade tivesse decidido rasgar naquele ponto específico do universo. A luz verde expandiu em uma onda cegante, preenchendo toda a câmara em um milésimo de segundo.
— JOSEPH! — Luíza gritou, as mãos contra o vidro.
Ela viu tudo.
Viu o corpo dele sendo envolvido pela luz verde.
Viu o traje de contenção se desintegrando como papel queimado.
Viu a pele dele começando a brilhar, as veias se iluminando por baixo da carne como fios de luz radioativa.
Viu ele tentar levantar a mão — para ela, sempre para ela — antes de...
Desintegrar.
Não havia outra palavra. Seu corpo simplesmente... se desfez. Partículas luminescentes que se espalharam no ar e desapareceram, absorvidas pela onda de radiação verde.
Em três segundos, Joseph Menning deixou de existir.
Luíza não conseguiu gritar. Não conseguiu se mover. Ficou ali, congelada, as mãos ainda contra o vidro, os olhos arregalados em horror absoluto.
Ele se foi. Ele se foi. Ele se foi.
A onda de energia bateu no vidro blindado. O impacto fez toda a estrutura tremer. Rachaduras se espalharam pela superfície, mas o vidro aguentou. Quinze centímetros de material anti-radiação fizeram seu trabalho.
Mas a luz verde vazou pelas bordas. Pelos sistemas de ventilação. Pelas minúsculas imperfeições no selo da porta.
Luíza sentiu o calor. Sentiu a radiação penetrando até mesmo ali, no lugar "seguro".
Oito mil rems. Nove mil. Dez mil.
Doses que deveriam matá-la instantaneamente.
Ela caiu de joelhos, esperando a dor, a queimadura, a morte.
Mas então...
Uma pulsação.
Vinda da barriga.
Ela colocou as mãos sobre o ventre e sentiu de novo. Mais forte agora. Como se algo dentro dela estivesse reagindo à radiação.
Não morrendo.
Absorvendo.
A luz verde ao redor dela começou a se mover. Não aleatoriamente, mas com propósito. Fluindo em direção ao seu corpo. Sendo sugada pela vida crescendo em seu útero.
O bebê, ela pensou, atordoada. O bebê está...
E então, finalmente, a escuridão veio.
Mas não antes dela sussurrar:
— Joseph... eu sinto muito... sinto tanto...
Seu corpo desabou no chão frio da sala de observação.
Lá fora, na câmara, não havia mais nada. Nenhum corpo. Nenhum vestígio do homem que tinha dado a vida para selar aquele reator.
Apenas o silêncio.
E uma luz verde se apagando lentamente.
O branco era a primeira coisa. Branco absoluto, penetrante, doloroso nos olhos.
Depois vieram os sons. Bip. Bip. Bip. Monótono. Constante. Sonoro.
Então, finalmente, a consciência.
Luíza abriu os olhos e imediatamente desejou não ter feito isso. A claridade das lâmpadas fluorescentes perfurou seu crânio como agulhas. Ela gemeu, tentou erguer a mão para proteger o rosto, mas os braços estavam pesados. Tão pesados.
— Doutora Menning. — Uma voz masculina, profissional, distante. — Pode me ouvir?
Ela tentou falar. A garganta estava seca, a língua grudada no céu da boca. Conseguiu fazer um som que poderia, generosamente, ser interpretado como "sim".
— Excelente. Vou chamar o médico responsável.
Passos se afastando. Uma porta abrindo e fechando.
Luíza forçou os olhos a focarem. Estava em um quarto de hospital. Não um hospital comum — ela reconhecia os sinais. Paredes de concreto grosso. Ausência de janelas. Porta de aço reforçado. Um hospital militar. O tipo de lugar onde levavam pessoas com segredos que o governo não queria que vazassem.
Memórias voltaram em flashes fragmentados.
O reator. A luz verde. Joseph saindo. A explosão.
— Joseph — ela tentou dizer, mas saiu apenas como um sussurro rouco.
A porta se abriu novamente. Um homem de jaleco branco entrou — trinta e poucos anos, cabelo castanho, olheiras profundas. Mas havia algo familiar naquele rosto. Algo que a memória dela, ainda nebulosa, tentava alcançar.
— Luíza — ele disse, a voz suave, e foi aí que ela reconheceu.
— Ângelo? — A palavra saiu rouca, incrédula.
Dr. Ângelo Castro sorriu tristemente. Eles tinham estudado juntos na USP, há mais de quinze anos. Compartilhado laboratórios, provas impossíveis, noites em claro estudando. Ele tinha sido padrinho do casamento dela e Joseph.
— Sim, sou eu. — Ele puxou uma cadeira, sentou ao lado da cama. — Quando soube que você tinha sido trazida pra cá, eu pedi pra ser o médico responsável pelo seu caso.
A familiaridade daquele rosto trouxe um breve momento de conforto. Mas então a realidade voltou como um soco.
— Joseph — ela conseguiu articular. — Onde ele está?
O rosto de Ângelo se fechou. E naquele instante, antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa, Luíza soube.
— Luíza... eu sinto muito. — Ele segurou a mão dela. — Joseph não sobreviveu.
O mundo parou.
Não. Ela tinha visto. Tinha visto ele se desintegrar na sua frente, mas uma parte dela tinha se recusado a acreditar. Talvez fosse alucinação. Talvez ele tivesse escapado de alguma forma. Talvez...
— Eu vi — ela sussurrou, as lágrimas começando a cair. — Eu vi tudo, Ângelo. A explosão... ele estava tentando selar o reator e... e simplesmente... desapareceu.
Ângelo apertou a mão dela com mais força.
— Ele foi um herói, Luíza. O selo que ele fez funcionou. Conteve a maior parte da explosão. Se não fosse por ele, a reação teria se espalhado pelos outros núcleos da base. A explosão teria sido catastrófica. Rio Claro, Limeira, até Campinas... tudo teria sido atingido. Estamos falando de mais de um milhão de vidas.
— Mas ele morreu — ela soluçou. — Joseph morreu e eu... eu só assisti.
— Você estava na sala de observação. Não havia nada que pudesse fazer.
— Eu deveria ter ficado com ele! Eu deveria...
— Você estava grávida! — Ângelo interrompeu, firme. — Ele fez o que qualquer pai faria. Te protegeu. Protegeu seu filho.
Luíza fechou os olhos. Joseph estava morto. Seu marido, seu parceiro, o amor da sua vida. Morto porque quis protegê-la. Morto sendo herói.
Mas o bebê...
A mão foi instintivamente para a barriga. Ainda estava lá. Uma pequena curva, mais pronunciada agora.
— O bebê — ela sussurrou. — Está...?
— Vivo. — Ângelo pegou uma prancheta, mostrando gráficos e resultados. — E esse é o mistério que tenho estudado há quarenta e cinco dias.
Ele mostrou os dados para ela. Números que desafiavam tudo que ela sabia sobre biologia e física.
— Você foi exposta a mais de dez mil rems de radiação, Luíza. Ninguém sobrevive a isso. A dose letal é de quatrocentos a quinhentos. Você recebeu vinte vezes mais. — Ele apontou para um dos gráficos. — Quando a equipe de resgate te encontrou na sala de observação, estava tecnicamente morta. Sem pulso mensurável. Respiração quase inexistente. Mas ainda... ainda emanando radiação.
— Como eu estou viva?
— Essa é a pergunta que não consigo responder. Pelos meus cálculos, você deveria ter morrido em minutos. Mas algo... impediu. — Ele virou para outro gráfico, mostrando linhas que desciam exponencialmente. — Os níveis de radiação no seu corpo começaram a cair de forma impossível. Não pelo decaimento natural, mas como se algo estivesse consumindo ativamente a energia radioativa.
Luíza olhou para os números, sua mente científica processando o impossível.
— O feto — ela sussurrou.
— Exatamente. — Ângelo assentiu. — Sua criança não só sobreviveu à exposição, como parece ter... metabolizado a radiação. As células dele mostram uma resistência que nunca vi. É como se o corpo estivesse usando a energia radioativa para acelerar o próprio desenvolvimento.
Ele pegou outro conjunto de exames.
— Luíza, pelos padrões médicos normais, seu filho deveria estar morto ou com deformidades severas. Mas olha isso. — Mostrou ultrassons. — Desenvolvimento perfeito. Melhor que perfeito. É como se a radiação, em vez de destruir, tivesse... melhorado.
Ela colocou a mão sobre a barriga, sentindo a vida ali. A vida que tinha salvado a dela. A vida que tinha absorvido o veneno e transformado em algo novo.
— O governo sabe? — ela perguntou, já temendo a resposta.
O rosto de Ângelo endureceu.
— Sim. E há... interesses. Pessoas muito poderosas que gostariam de estudar essa criança. Entender como ela sobreviveu. Possivelmente replicar o que aconteceu.
— Eles querem meu filho. — Não era uma pergunta.
— Querem. Mas... — Ângelo se inclinou mais perto. — Eu escondi os resultados mais importantes. Os dados que mostram o verdadeiro potencial dessa criança. Nos relatórios oficiais, coloquei que o bebê sobreviveu por sorte, que você estava longe o suficiente na sala de observação. Nada sobre a absorção de radiação.
— Por que você faria isso?
— Porque vocês são meus amigos. — Ele segurou a mão dela. — Joseph era como um irmão pra mim. E eu não vou deixar que transformem o filho de vocês em um experimento de laboratório.
Luíza sentiu as lágrimas voltarem, mas dessa vez de gratidão.
— O que eu faço agora?
— Você desaparece. — Ele puxou alguns documentos de uma pasta. — Consegui negociar um acordo com o governo. Em troca do seu silêncio absoluto sobre o Projeto Alpha, eles vão te pagar cinco milhões de reais, mais uma pensão vitalícia. Nova identidade, se necessário. Aposentadoria com salário integral.
Luíza olhou para os papéis, incrédula.
— Cinco milhões?
— Eles realmente querem seu silêncio. O Projeto Alpha era não-autorizado. Se vazar que o governo estava desenvolvendo armas nucleares secretas... — Ele balançou a cabeça. — Seria um escândalo internacional. Então sim, cinco milhões. E você nunca mais terá que trabalhar.
— E em troca?
— Você nunca fala sobre o acidente. Nunca menciona o Projeto Alpha. E, mais importante... — Ele a encarou seriamente. — Mantém essa criança longe dos holofotes. Para sempre.
Luíza assentiu devagar, a mente já trabalhando nos próximos passos.
— Cosmópolis — ela disse. — Eu cresci lá. Interior de São Paulo. Pequena, discreta. Ninguém vai procurar lá.
— Perfeito. Vou providenciar tudo. Documentação, transferência do dinheiro, até uma casa se você precisar.
Ele se levantou para sair, mas parou na porta.
— Luíza... Joseph deu a vida dele para salvar mais de um milhão de pessoas. O mundo nunca vai saber o nome dele. Nunca vai ter uma placa, um monumento, nada. Mas eu quero que você saiba... — Sua voz falhou por um instante. — Ele foi o homem mais corajoso que conheci. E o filho de vocês vai carregar esse legado, mesmo sem saber.
Quando Ângelo saiu, Luíza finalmente se permitiu chorar de verdade.
Por Joseph. Pela injustiça de seu sacrifício nunca ser reconhecido. Pelo futuro que nunca teriam.
Mas também por algo mais.
Porque dentro dela, crescia algo extraordinário. Algo que a ciência não conseguia explicar. Algo que mudaria tudo.
Ela colocou ambas as mãos na barriga e sussurrou:
— Seu pai foi um herói, pequeno. E um dia, quando você for grande o suficiente pra entender... eu vou te contar toda a verdade. Prometo.
A chuva tamborilava no telhado da pequena casa quando as contrações começaram.
Luíza estava sozinha — tinha preferido assim. A parteira estava a caminho, mas o trânsito em noite de tempestade era imprevisível. E, francamente, ela não se importava. Tinha passado os últimos meses estudando cada detalhe sobre parto. Se necessário, ela mesma faria o trabalho.
A dor vinha em ondas. Não tão ruim quanto tinha imaginado, mas ainda assim intensa o suficiente para tirar o fôlego. Ela se apoiou na bancada da cozinha, respirando como os livros ensinavam. Dentro, fora. Dentro, fora.
Você consegue, ela pensou. Pelo Joseph. Pela criança.
A campainha tocou.
— Entra! — ela gritou. — Está aberto!
A parteira entrou numa rajada de vento e chuva, fechando rapidamente a porta.
— Doutora Menning? Desculpa a demora, a rua tá alagada e...
Ela parou ao ver Luíza apoiada na bancada, claramente em trabalho de parto.
— Certo. Tá na hora. Vamos te levar pro quarto.
As horas seguintes foram um borrão de dor, suor e determinação. Luíza se recusou a gritar — não sabia por quê, talvez orgulho, talvez medo de parecer fraca. Simplesmente cerrou os dentes e empurrou.
E empurrou.
E empurrou.
Até que finalmente, quando a tempestade lá fora atingiu seu auge, um choro agudo preencheu o quarto.
— É um menino! — a parteira anunciou, erguendo a pequena criança.
Luíza caiu de volta nos travesseiros, exausta mas sorrindo. Um menino. Seu filho. Deles.
A parteira limpou o bebê e o envolveu em uma manta antes de colocá-lo nos braços de Luíza.
Ela olhou para aquele rostinho vermelho, os olhos ainda fechados, os pequenos punhos cerrados. Ele era perfeito. Absolutamente perfeito.
E então ela notou.
Uma leve luminescência nos olhos dele. Muito tênue, quase imperceptível. Verde.
Apenas por um segundo.
Depois desapareceu.
A parteira não tinha notado. Estava ocupada arrumando as coisas, anotando a hora do nascimento, preparando os documentos.
Mas Luíza tinha visto.
Oh, meu Deus, ela pensou. É verdade. É tudo verdade.
— Como vai chamá-lo? — a parteira perguntou.
Luíza não hesitou.
— Andrew. Andrew Joseph Menning.
O nome do avô paterno. E Joseph, claro. Sempre Joseph.
Ela beijou a testa do bebê e sussurrou, tão baixo que ninguém mais poderia ouvir:
— Bem-vindo ao mundo, meu pequeno milagre. Você não sabe ainda, mas é especial. Muito especial. — Ela apertou ele contra o peito. — E eu vou passar o resto da minha vida te ensinando a controlar isso. A esconder, quando necessário. A usar, quando importante.
Lá fora, a tempestade começava a passar.
Uma nova vida tinha começado.
E o mundo nunca mais seria o mesmo.
FIM DO EPISÓDIO 1
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