VOZES NA ESCURIDÃO
T2/E7
T2/E7
Quarto de Contenção 07, Bloco H - 3h42 da madrugada
Ela ainda tinha um nome.
Kira. Kira Voss. Vinte anos. Engenharia Elétrica.
Mas essas informações pareciam distantes. Como se pertencessem a outra pessoa. Uma pessoa que existiu há muito tempo. Antes.
Agora ela era Sujeito 10.
A Voz comandava. Ela obedecia.
Simples. Limpo. Sem dúvidas. Sem hesitações. Sem emoções. Sem nada.
Exceto.
Exceto que algo tinha mudado. Ontem à noite. Durante a batalha.
O garoto. O Sujeito Zero. Andrew.
Quando ele olhou nos olhos dela, algo piscou. Não foi pensamento consciente — ainda não. Foi mais como eco. Memória de memória. Som distante atravessando névoa espessa.
Uma voz diferente surgiu por fração de segundo. Não a Voz que controlava. Outra voz. Feminina. Familiar.
"Kira, você prometeu que ia voltar."
E então sumiu. Devorada pela Voz de controle novamente.
Mas tinha estado ali.
E isso mudava tudo.
Kira estava deitada na cama de metal. Olhos abertos. Encarando o teto. Sem piscar. O Sujeito 10 não piscava a menos que fosse necessário.
A cama era fria. Sempre fria. Parafusada no chão. Não dava pra mover. Não que ela quisesse. O Sujeito 10 não queria nada.
Mas Kira...
Kira queria.
O quê? Ela não sabia ao certo. Mas a sensação estava lá. Pequena. Enterrada. Como brasa sob cinzas.
Querer era perigoso. Querer significava pensar por conta própria. E pensar por conta própria significava dor.
A Voz não gostava de pensamentos independentes.
Kira fechou os olhos. Tentou silenciar a mente. Voltar ao estado neutro. Seguro. Vazio.
Mas a outra voz sussurrou de novo.
"Kira."
Apenas isso. Seu nome. Mas soou como âncora.
Ela tinha nome. Ela era pessoa. Antes de ser Sujeito 10, ela era Kira Voss.
E tinha alguém esperando ela voltar.
Quem?
A resposta não veio. Só a sensação. Familiar. Quente. Importante.
Alguém.
Mas então a Voz voltou. Forte. Implacável.
OBEDEÇA
E Kira obedeceu. Porque não tinha escolha.
Ainda não.
Laboratório de Manutenção, Bloco H - 9h15 da manhã
Dois guardas a levaram pelos corredores. Ela não resistiu. O Sujeito 10 não resistia a nada.
O laboratório era branco. Paredes brancas. Luzes brancas. Mesa metálica branca. Cheiro de antisséptico misturado com ozônio. Produto químico. Artificial.
Eles a posicionaram na mesa. Cintas nos pulsos. Nos tornozelos. Na testa. Apertadas. Frias. Ela não reagiu. Rosto neutro. Respiração controlada.
Dr. Salles entrou. Jaleco impecável. Óculos refletindo as luzes fluorescentes. Prancheta na mão.
Ele se inclinou sobre ela. Estudando. Analisando.
— Sujeito 10. Status?
— Operacional — ela respondeu. Voz monótona. Mecânica.
— Frequência neural?
— 7.2 Hz. Estável.
— Eficiência de combate?
— Ótima. Pronta para missão.
Dr. Salles anotou na prancheta. Satisfeito.
Kira experimentava tudo de forma distante. Desconectada. Como se estivesse assistindo de longe. O corpo era dela mas também não era.
Dr. Salles conversou com um assistente ao lado. Kira ouviu sem processar completamente.
— ...ondas theta mantidas em 7.2 Hz...
— ...supressão completa do córtex pré-frontal...
— ...memórias fragmentadas, inacessíveis...
— ...protocolo Spectro garantindo obediência absoluta...
Ela literalmente não conseguia desobedecer. O cérebro dela tinha sido reconfigurado. Cada pensamento independente era imediatamente suprimido. Apagado. Como se nunca tivesse existido.
Mas então.
Dr. Salles colocou dispositivo no crânio dela. Calibração de rotina. Corrente elétrica passou pelos neurônios.
Dor.
A primeira coisa que ela sentia em meses.
Aguda. Penetrante. Real.
E com a dor veio algo mais.
Uma imagem.
Menino negro. Alto. Sorrindo. Olhos gentis. Rindo de alguma piada que ela tinha feito.
Voz masculina dizendo:
"Você é chata, mana. Mas eu te amo."
O nome explodiu na mente dela como bomba.
LEONARD.
Léo.
Seu irmão.
Seu irmão mais velho que sempre a protegia e ela protegia de volta.
As memórias inundaram. Rápidas. Intensas.
Jogos de videogame. Brigas bobas sobre quem escolhia o filme. Promessas sussurradas após a morte dos pais. "A gente vai ficar bem, mana. Eu prometo."
— Anomalia detectada — o assistente disse, olhando monitor. — Frequência neural subiu para 9.1 Hz.
Dr. Salles olhou a tela. Torceu a boca.
— Aumente a dosagem.
A corrente ficou mais forte. A dor também.
A imagem começou a desaparecer. O nome começou a sumir.
Não. NÃO.
Kira lutou. Pela primeira vez em tanto tempo, ela lutou.
Tentou segurar a memória. Agarrar o nome. LEONARD. LEO. IRMÃO.
Mas a Voz era mais forte.
ESQUEÇA
E ela esqueceu.
A frequência voltou pra 7.2 Hz. Estável.
Dr. Salles declarou o sistema normalizado. Ordenou que a levassem de volta.
Os guardas retiraram as cintas. Kira se levantou. Sem expressão. Sem emoção.
Mas lá no fundo. Tão fundo que a Voz não alcançava ainda.
Um nome permaneceu.
Leonard.
República Suprema, Corredor - 8h30 da manhã
Rafael saiu do quarto bocejando. Cabelo bagunçado. Olhos pequenos. Tinha jogado até quatro da manhã e agora pagava o preço.
Café. Precisava de café urgentemente.
No caminho pra cozinha, ele viu alguém saindo do banheiro compartilhado.
Um homem. Uns cinquenta anos. Magro demais. Curativo no braço. Cabelo loiro escuro — quase castanho claro — com fios grisalhos. Barba por fazer.
Rafael parou. O homem também.
Os dois se olharam.
O homem congelou. Tipo animal assustado. Como se tivesse sido pego fazendo algo errado.
— Oi? — Rafael disse, confuso.
Andrew apareceu rapidamente. Ainda de pijama mas já em modo de controle de danos.
— Rafael! Bom dia. Desculpa, eu ia te avisar mas você tava dormindo...
Isadora surgiu logo atrás. Já vestida. Já composta. Cabelo arrumado. Como se tivesse acordado há horas.
E tinha. Nenhum deles tinha dormido direito.
Isadora assumiu o controle da situação com naturalidade impressionante.
— Rafael, esse é Joseph. Primo da mãe do Andrew. Ele veio a São Paulo pra trabalho temporário.
— Ah — Rafael disse, ainda meio perdido. — Legal. Oi, Joseph.
Joseph tentou sorrir. Saiu torto.
— Oi.
Isadora continuou, voz calma e convincente.
— Ele sofreu acidente de moto ontem à noite. Na Marginal. Um carro fechou ele, ele caiu. A gente foi buscar no hospital mas tava lotado, liberaram ele cedo demais. Vai ficar alguns dias aqui se recuperando antes de voltar pra Curitiba.
A história era detalhada o suficiente pra parecer verdadeira. Vaga o suficiente pra não convidar investigação.
Rafael aceitou sem questionar. Por que desconfiaria?
— Caramba, que tenso. Você tá bem? — ele perguntou pra Joseph.
— Tô... tô melhorando — Joseph disse, voz rouca.
— Ele precisa de repouso — Isadora acrescentou casualmente. — Seria ótimo se você pudesse manter o volume um pouco mais baixo ao jogar. Som demais machuca a cabeça dele ainda.
— Claro, claro! — Rafael concordou imediatamente. — Sem problemas. Melhoras aí, Joseph.
Ele foi pra cozinha fazer o café.
Depois que ele saiu, houve momento de alívio tenso.
Andrew soltou ar que estava segurando.
— Funcionou.
— Por enquanto — Isadora corrigiu.
Joseph olhou pra ela. Impressionado.
— Você é boa.
Andrew sorriu. Orgulho óbvio na voz.
— Ela é a melhor.
Quarto de Andrew, República Suprema - 10h20 da manhã
Joseph estava sentado na cama do filho.
Não. Não era bem "a cama do filho". Era colchão de solteiro com lençóis azuis. Pôster de uma banda de rock na parede — algum banda nova que Joseph não reconhecia. Pilha de livros de Direito na escrivaninha. Caderno aberto com anotações. Canetas espalhadas.
Era a vida de um jovem de dezoito anos. Normal. Saudável.
Tão distante da cela fria onde Joseph tinha passado quase duas décadas.
Ele olhou para as próprias mãos. Tremiam. Sempre tremiam agora.
Efeito colateral do controle mental prolongado. "Dano neurológico permanente", Dr. Salles tinha dito uma vez. Como se fosse simples observação científica. Não resultado de tortura sistemática.
Dezoito anos.
Andrew tinha dezoito anos.
A última vez que Joseph viu o filho, era bebê minúsculo em incubadora. Coberto de tubos. Pele transparente. Tão frágil que parecia que ia quebrar.
E agora era homem. Adulto. Com namorada. Faculdade. Vida inteira.
Uma vida sem pai.
Porque Joseph tinha falho.
A memória veio sem aviso.
Angra dos Reis. Usina nuclear. Março de 2006.
Joseph percebendo tarde demais que era armadilha. Que a Tentáculos tinha planejado expor trabalhadores à radiação. Criar "espécimes".
Luíza estava grávida de três meses. Ela também era engenheira no Projeto Alpha.
Ele tentou protegê-la. Tirá-la dali.
A radiação já tinha atingido ambos.
O núcleo pequeno explodiu. Efeito da radiação o modificou. Ou talvez ele já fosse meta-humano adormecido. Ele se teleportou. Sumiu da sala. Apareceu em outra.
Viu Luíza caindo. Desacordada. Pensando que ele tinha sido desintegrado.
Soldados da Tentáculos chegaram.
Joseph lutou. Matou dois. Feriu cinco. Usou os poderes que nem sabia que tinha. Raios verdes pelos olhos. Destruição.
Mas não foi suficiente.
Luíza foi resgatada pelo exército. Levada pra hospital.
Joseph foi capturado.
Dezoito anos sendo forçado a criar monstros usando o DNA do próprio filho.
A porta se abriu. Andrew entrou trazendo prato de comida.
Arroz. Feijão. Frango. Simples. Reconfortante.
— Você precisa comer — Andrew disse, colocando o prato na mesa.
Joseph olhou pra comida. Tentou pegar o garfo.
As mãos tremeram demais. O garfo caiu.
Andrew percebeu. Sentou ao lado do pai. Pegou o garfo. Começou a dar comida na boca dele.
Como se Joseph fosse criança.
E de certa forma era. Criança aprendendo a viver de novo.
— Obrigado — Joseph sussurrou.
— Não precisa agradecer — Andrew respondeu.
Naquele momento, Joseph percebeu.
Ainda havia esperança.
Ele tinha perdido dezoito anos. Mas não tinha perdido tudo.
Seu filho estava vivo. Forte. Bom.
Havia tempo ainda. Tempo pra reconstruir.
— Como... como está sua mãe? — Joseph perguntou depois de engolir.
Andrew hesitou.
— Ela tá bem. Em Cosmópolis. Ela está aposentada, aposentadoria forçada. Ela... ela ainda não sabe que você tá vivo.
— Você vai contar pra ela?
— Vou. Mas... não sei como explicar ainda.
Joseph segurou a mão do filho. As mãos tremendo, efeito de anos de controle mental, agora quebrado.
— Deixa eu me recuperar primeiro. Quero estar inteiro quando ver ela de novo.
Andrew assentiu.
— Ok. A gente espera você estar pronto.
— Obrigado, filho.
— Sempre, pai.
Quarto de Contenção 07, Bloco H - 21h30 da noite
Kira estava deitada. Olhos abertos. Encarando o teto.
Não havia janelas. Não havia espelhos. Nada que pudesse refletir seu rosto de volta pra ela.
O quarto era pequeno. Três metros por três. Cama de metal parafusada no chão. Banheiro no canto. Câmera no teto. Sempre observando.
A Voz estava quieta agora. Descansando. Ou apenas esperando.
E no silêncio.
A outra voz voltou.
Não a Voz de controle. A voz dela mesma. Sua própria consciência tentando emergir.
"Kira. Kira, você está me ouvindo?"
O Sujeito 10 não tinha voz própria. Não tinha nome. Só obedecia.
Mas ela não era Sujeito 10.
Ela era Kira Voss.
Ela tinha irmão.
Leonard.
Léo.
O nome trouxe mais memórias. Mais claras dessa vez.
Infância. Casa pequena. Cheiro de café pela manhã.
Mãe fazendo pão. Pai lendo jornal. Rindo de alguma piada.
Léo gritando com a TV enquanto jogava videogame. Ela estudando na mesa. Ele zoando: "Nerd."
O pai. Alemão de Potsdam. Pele clara. Cabelo e olhos castanhos.
A mãe. Brasileira de São Caetano do Sul. Negra. Cabelos crespos.
E o acidente de carro.
Chuva. Estrada escorregadia. Caminhão descontrolado.
Os pais morreram. Só os dois sobraram. Kira com dezessete. Léo com dezenove.
Sozinhos no mundo.
"A gente vai ficar bem, mana. Eu prometo. A gente tem um ao outro."
E então a memória traumática.
Homens de preto arrombando a porta. Três da manhã.
Léo lutando. Sendo dominado.
Ela gritando. Correndo. Injeção no pescoço. Mundo ficando turvo.
Acordando em cela. Léo na cela ao lado gritando:
"KIRA! KIRA, ONDE VOCÊ TÁ?!"
Cirurgia. Implantes. Dor insuportável.
E silêncio.
Quando acordou, não era mais ela. Era Sujeito 10.
E Léo era Sujeito 11.
Kira se levantou cambaleando. Encostou a testa na parede fria.
Do outro lado. Talvez a poucos metros. Estava Léo.
Preso. Controlado. Sofrendo como ela.
E aquele garoto. Andrew. Sujeito Zero.
Ele tinha tentado salvá-los. Não atacá-los.
Ela viu compaixão nos olhos dele. Não ódio.
Ele tinha poderes como ela. Mas era livre.
E ela queria isso.
Mais que tudo.
Liberdade.
A Voz tentou voltar. Tentou suprimir os pensamentos rebeldes.
OBEDEÇA
Mas Kira lutou.
Pela primeira vez em meses. Talvez anos. Ela resistiu ativamente.
Sussurrou pro quarto vazio. Tão baixo que a câmera mal devia captar:
— Meu nome é Kira. Kira Voss. Eu tenho vinte anos. Eu tenho um irmão chamado Leonard. E eu vou sair daqui.
Alarme silencioso disparou em algum lugar. Detectaram a resistência.
Passos no corredor. Guardas vindo verificar.
Kira rapidamente se deitou de volta. Fechou os olhos. Forçou o rosto de volta à expressão neutra.
Fingiu estar em transe.
Os guardas entraram. Olharam. Verificaram monitores. Saíram satisfeitos.
Mas por dentro.
Por dentro Kira estava totalmente viva pela primeira vez em muito tempo.
Quarto de Paulo, República Suprema - 22h15 da noite
Porta trancada. Música tocando baixo como cobertura sonora.
Mapas espalhados pela mesa. Laptop aberto. Documentos impressos por todo lado.
Todos estavam ali. Andrew. Paulo. Isadora. Camila. E Joseph.
Paulo tinha hackeado mais arquivos do sistema GENOS. Novos dados.
Joseph estudava os documentos. Mãos tremendo ligeiramente. Mas cérebro funcionando perfeitamente.
— Quinze Sujeitos ao todo — ele confirmou. — Cinco mortos durante experimentos. Três em processo de ativação — Thiago, Bruno, Carla. Sete ativos espalhados.
— Kira e Léo não são os mais recentes — Paulo acrescentou. — Samuel e Micheli vieram antes. Mas Kira e Léo são os mais poderosos depois de Andrew.
Andrew estava encostado na parede. Braços cruzados.
— A gente precisa salvar eles.
Paulo olhou pra ele.
— Como? Eles quase te mataram ontem.
— Porque estão sendo controlados. — Andrew se afastou da parede. — Por um segundo eu vi. Nos olhos da Kira. Ela estava lutando internamente. Tentando resistir.
Joseph assentiu.
— O controle mental não é perfeito. Tem rachaduras. Especialmente quando o hospedeiro tem vontade forte.
— Kira e Leonard eram muito unidos antes da captura — Camila disse, olhando os arquivos. — Irmãos. Pais mortos. Só tinham um ao outro.
— Esse vínculo pode ser a chave — Joseph disse. — Pode ser o que quebra o controle.
Isadora tinha ficado quieta até agora. Apenas anotando tudo no caderno.
Finalmente falou.
— Se querem libertar Kira e Léo, precisam de três coisas.
Todos olharam pra ela.
— Primeiro — ela levantou um dedo — entender como o controle funciona tecnicamente. Segundo — outro dedo — encontrar frequência que interfere nos implantes. Terceiro — último dedo — criar situação onde eles sejam expostos a essa frequência sem que Dr. Salles ou Spectro intervenha.
Paulo assoviou baixo.
— Específico demais. Mas... faz sentido.
Isadora fechou o caderno.
— Por isso vai funcionar.
Joseph olhou pra ela. Respeito crescente nos olhos.
— Você é inteligente.
Isadora corrigiu.
— Eu sou necessária. Diferença importante.
Joseph deu meio sorriso. Primeira vez em dezoito anos.
Ele respirou fundo.
— Eu projetei parte dos implantes. Sob coação. Mas conheço a frequência neural exata. 7.2 Hz. Ondas theta. Se conseguirmos transmitir interferência em frequência oposta, podemos interromper temporariamente o controle.
Paulo já estava digitando furiosamente.
— Tipo PEM neural. Pulso eletromagnético direcionado. Dá pra fazer. Preciso de peças mas dá pra fazer.
Camila perguntou:
— Como a gente chega perto deles pra usar o dispositivo?
Silêncio tenso.
Andrew respondeu.
— Eles vão vir atrás de mim e do meu pai. A gente pode usar isso. Criar armadilha. Atraí-los. E quando chegarem, Paulo ativa o dispositivo.
Isadora perguntou:
— E se não funcionar?
Andrew olhou pra ela. Determinação absoluta.
— Eu luto. E não paro até libertá-los ou morrer tentando.
Isadora ia discutir. Mas sabia que não adiantava.
Em vez disso, declarou:
— Então a gente faz funcionar.
Decidiram o plano.
Joseph construiria o dispositivo. Três a quatro dias.
Paulo ajudaria com peças. Encontraria o que precisasse.
Isadora montaria o plano da armadilha. Cada detalhe.
Camila pesquisaria locações seguras. Longe de civis.
Andrew treinaria. Precisava ser capaz de segurar Kira e Léo tempo suficiente pro dispositivo funcionar.
O grupo se separou. Cada um pra sua tarefa.
Andrew ficou sozinho com Joseph por um momento.
— Obrigado — Joseph disse. — Por não ter desistido de mim.
— Eu nunca faria isso — Andrew respondeu. — Você é meu pai.
— Eu não estive aqui por dezoito anos...
— Mas está agora. — Andrew segurou o ombro dele. — E é o que importa.
Joseph puxou o filho pra abraço. Tremendo. Chorando silenciosamente.
— Eu te amo, filho.
— Eu também te amo, pai.
Quarto de Contenção 07, Bloco H - 2h17 da madrugada
Kira estava deitada. Fingindo dormir.
Mas sussurrava. Tão baixo que a câmera não devia captar.
— Léo. Onde você está?
Três paredes de distância.
Quarto de Contenção 08
Léo estava sentado. Cabeça entre as mãos.
E também sussurrava.
— Kira. Eu lembro. Eu lembro de você.
De volta ao Quarto 07
Kira jurava que ouviu. Não nos ouvidos. Mas na mente.
"Mana."
Ela respondeu apenas pensando:
"Mano."
Lá nas sombras. Nos lugares onde a Voz não alcançava mais.
Dois irmãos se reconectavam.
Sala de Controle, Bloco H
Nos monitores, Dr. Salles viu tudo.
E sorriu.
— Deixa eles lembrarem. Deixa eles esperarem. Quando vier a hora de quebrá-los de novo será muito mais satisfatório.
Spectro emergiu das sombras. Parcialmente. Silhueta escura.
— E Andrew?
— O garoto já está apaixonado pela ideia de salvá-los. Vai se entregar quando oferecermos troca. Ele por eles.
Spectro observou com desprezo.
— Heróis. Tão previsíveis.
FIM DO CAPÍTULO 7
PRÓXIMO CAPÍTULO: O DESPERTAR DE KIRA