PRIMEIRA COLISÃO
T2/E6
T2/E6
República Suprema, Quarto de Paulo - 14h30 da tarde
Paulo estava cercado de papéis. Mapas do Bloco H espalhados na cama, na mesa, no chão. O laptop aberto mostrava plantas baixas que ele tinha conseguido hackear do sistema da universidade. Três xícaras de café vazias. Uma caixa de pizza pela metade.
Andrew andava de um lado pro outro do quarto. Dez passos. Vira. Dez passos. Vira. Não conseguia ficar parado.
Camila estava sentada na cama, tornozelo ainda enfaixado, apoiado num travesseiro. Ela estudava os mapas com atenção, marcando com caneta vermelha os pontos que lembrava da invasão dela.
E Isadora. Isadora estava em silêncio há vinte minutos. Sentada na cadeira do escritório, caderno aberto no colo, caneta na mão, olhos fixos nos mapas. Não tinha escrito nada ainda. Só observava. Pensava.
Andrew parou de andar.
— A gente já sabe onde ele está. Bloco H, nível subterrâneo 3, cela 47. Por que não vamos agora?
Paulo olhou pra ele por cima do laptop.
— Porque "ir agora" é tipo pular de olhos fechados e torcer pra não ter espinhos embaixo.
Camila concordou.
— Desde que eu invadi, a segurança triplicou. Tem mais guardas, mais câmeras, e provavelmente armadilhas que eu nem vi.
— Mas cada dia que passa meu pai fica lá preso! — Andrew começou a andar de novo. — Sendo torturado. Sendo forçado a trabalhar pra eles. E a gente aqui planejando...
— Andrew.
A voz de Isadora cortou o ar. Calma. Firme.
Ele parou. Olhou pra ela.
Isadora levantou a cabeça pela primeira vez em vinte minutos.
— Não é só sobre entrar. É sobre sair vivo. Com seu pai. E sem que ninguém seja capturado.
Ela se levantou, foi até a mesa. Pegou os mapas que Paulo tinha impresso, organizou eles de uma forma específica. Lado a lado. Em sequência.
— Venham aqui.
Os três se aproximaram.
Isadora começou a falar. E quando falava assim — concentrada, metódica — todos prestavam atenção.
— Olhem. Três entradas possíveis. — Apontou com a caneta. — Porta principal. Óbvio demais. Doze guardas, quatro câmeras, sensor de metal.
— Entrada lateral de serviço. Onde a Camila entrou. — Marcou com X vermelho. — Agora tem seis guardas. Antes tinha um. Eles reforçaram depois da invasão.
— E a terceira. — Ela apontou pro topo do prédio. — Claraboia norte. Terceiro andar. Meio quebrada, nunca foi consertada.
Paulo se inclinou pra ver melhor.
— Como você sabe que está quebrada?
— Zoom no Google Maps. Foto de satélite recente. — Isadora mostrou no celular dela. — Vidro rachado. Provavelmente ninguém liga porque é alto demais pra alguém normal subir.
— Mas eu não sou normal — Andrew disse.
— Exatamente.
Isadora voltou pros mapas. Pegou caneta azul, começou a traçar linhas.
— Você entra pela claraboia norte às 23h14. Não antes. Não depois.
— Por que esse horário específico?
— Porque eu estudei o padrão das patrulhas. — Ela mostrou anotações no caderno. — A Camila me passou o cronograma que ela observou. Eu completei com os dados que Paulo hackeou do sistema de segurança. As patrulhas passam a cada sete minutos. Mas tem uma janela. Entre a patrulha do terceiro andar e a do segundo. Quatro minutos e trinta segundos onde aquele corredor específico fica vazio.
Andrew olhou pra ela, impressionado. Ela tinha pensado em tudo.
— Certo. Entro às 23h14. E depois?
— Paulo desativa as câmeras do setor C por exatos noventa segundos. — Ela olhou pra Paulo. — Você consegue?
— Consigo — ele disse. — Mas só noventa segundos antes do sistema perceber a invasão e reiniciar.
— É o suficiente. — Isadora voltou pro mapa. — Você voa direto pro nível subterrâneo 3. Três lances de escada. Vira à esquerda. Corredor B. Última porta. Cela 47.
Ela traçou a rota toda com a caneta.
— Pega seu pai. Sai pela rampa de carga no subsolo 1. Aqui. — Marcou um X verde. — Eu vou estar esperando com o carro a exatos duzentos metros. Motor ligado. Porta aberta.
Andrew ficou quieto. Processando tudo.
— E se der errado?
Isadora abriu o caderno. Quatro páginas de anotações densas.
— Por isso tem plano B, C e D.
Ela virou o caderno pra eles verem. Cada página era um cenário diferente. "Se for detectado antes de entrar." "Se alarme disparar dentro." "Se saída principal estiver bloqueada." "Se perseguição aérea."
Pra cada cenário, uma solução detalhada.
Paulo soltou um assobio baixo.
— Você pensou em tudo...
— Alguém precisa — Isadora disse, fechando o caderno. — Já que vocês são todos muito impulsivos.
Camila riu. Mas era verdade.
Isadora olhou pra Andrew. Seus olhos castanhos sérios. Preocupados.
— Andrew... se você for preso, eles não vão te processar normalmente. Terrorista. Invasor. Meta-humano não registrado. Você some. Sem júri. Sem advogado. Sem nada.
Ela segurou a mão dele.
— Então você precisa seguir o plano. Exatamente como eu falei. Promete?
Andrew olhou nos olhos dela. Viu o medo ali. O medo de perder ele.
— Eu prometo.
Silêncio tenso caiu no quarto.
Foi Camila quem quebrou.
— E se tiver meta-humanos lá? Os Sujeitos que a gente viu nos arquivos? Kira, Léo, Micheli?
Paulo olhou pra Andrew.
— Se tiver... você corre. Não luta. Só corre.
Andrew não respondeu. E todos sabiam por quê.
Se o pai dele estivesse em perigo, Andrew não ia correr. Nunca.
Decidiram ir à noite. 23h. Isadora revisou o plano mais três vezes. Sozinha. Verificando cada detalhe. Procurando falhas.
Não podia ter falhas.
República Suprema, Telhado - 22h45 da noite
Andrew estava no teto, olhando a cidade.
São Paulo à noite era diferente. Milhões de luzes. Barulho constante. Vida pulsando em cada esquina. Mas também violência. Perigo. Escuridão entre as luzes.
Ele ouviu passos atrás de si. Conhecia aquele som. Isadora.
Ela subiu pela escada de incêndio, veio ficar ao lado dele. Não disse nada no começo. Só ficou ali. Dedos entrelaçados com os dele.
— Você está com medo? — ela perguntou depois de um tempo.
— Sim.
— Eu também.
Andrew olhou pra ela.
— Do que você tem medo?
— De perder você. — Ela apertou a mão dele. — De você entrar lá e não voltar. De eu ter planejado errado e ser culpa minha.
— Não vai ser culpa sua. Nunca seria.
— Mas eu ia sentir como se fosse.
Silêncio de novo. Confortável. Necessário.
— Se eu não voltar... — Andrew começou.
— Não. — Isadora o interrompeu. — Não fala isso. Você vai voltar. Porque eu planejei tudo direitinho. E porque você é teimoso demais pra morrer.
Ele riu. Ela também.
Ficaram assim mais dez minutos. Só os dois. O mundo lá embaixo. E aquele momento frágil entre eles.
Então Andrew se soltou. Deu um passo pra trás.
— Hora de ir.
— Hora de ir.
Eles se beijaram. Rápido. Intenso.
E então Andrew saltou do telhado. Voou na noite. Desapareceu.
Isadora ficou parada, olhando o céu vazio onde ele tinha estado.
— Volta pra mim — ela sussurrou.
Perímetro do Bloco H - 23h10 da noite
Andrew pousou no telhado de um prédio a quatrocentos metros do Bloco H. Agachado. Escondido nas sombras.
Ele colocou o fone de comunicação no ouvido. Aquele minúsculo, quase invisível, que Paulo tinha "conseguido" de uma loja de equipamento de espionagem.
A voz de Isadora veio clara.
— Três minutos e quarenta segundos. Patrulha acabou de passar.
Andrew ativou sua visão telescópica. O mundo embaçou, depois focou. Zoom aumentando. Ele podia ver o Bloco H como se estivesse a metros de distância.
Contou seis guardas no perímetro. Câmeras em cada canto. Luzes de segurança. E lá em cima, no terceiro andar, a claraboia norte. Meio aberta. Vidro rachado.
— Vejo a entrada — ele disse baixo.
A voz de Paulo entrou no fone.
— Tudo certo, cara. Tô dentro do sistema. Caralho, a segurança é pesada. Firewall militar.
— Você consegue? — Isadora perguntou.
— Consigo. Mas como eu disse, só noventa segundos.
— Noventa segundos é o suficiente — Andrew disse.
Ele esperou. Contando. Sessenta segundos. Quarenta. Vinte.
— Agora — Isadora disse.
Andrew decolou.
Voo silencioso. Baixo. Ele tinha praticado isso. Planar sem fazer barulho. Como coruja.
Passou sobre os guardas. Nenhum olhou pra cima. Nunca olhavam.
Pousou na borda da claraboia. Leve. Quase sem som.
— Câmeras desativadas... agora! — Paulo disse no fone.
Andrew forçou a claraboia. Metal rangeu. Alto demais. Ele congelou.
Nada. Ninguém veio.
Desceu rápido. Planando. Aterrissou num corredor vazio. Iluminado por luzes fluorescentes brancas e frias.
O cheiro atingiu ele imediatamente. Produtos químicos. Metal. Algo mais. Algo errado.
— Você tem dois minutos e dez segundos — Isadora disse. — Desce três lances de escada. Vira à esquerda. Corredor B. Última porta.
Andrew começou a se mover.
Correu pelos corredores. Velocidade sobre-humana mas controlada. Silencioso.
Chegou nas escadas. Desceu três lances de uma vez. Saltando. Pousando sem som.
Nível subterrâneo 1. Vazio.
Nível subterrâneo 2. Ouviu vozes. Parou. Dois guardas conversando um andar abaixo.
— ...reforço duplo depois daquela invasão...
— ...Dr. Salles tá paranóico...
Andrew esperou. Coração acelerado. Contando os segundos na cabeça.
Os guardas se afastaram.
Ele desceu pro nível 3.
Placa na parede de metal: "NÍVEL SUBTERRÂNEO 3 - ACESSO RESTRITO - APENAS PESSOAL AUTORIZADO".
Corredor longo. Portas numeradas. 39. 41. 43. 45.
— Cheguei — ele sussurrou no fone. — Porta 47.
— Fechadura eletrônica — Paulo disse. — Hackeando... pronto!
Click.
A porta se abriu sozinha.
Andrew empurrou. Entrou.
E o que viu fez seu sangue gelar.
Cela 47 - 23h16
A cela era pequena. Três metros por três. Paredes de metal frio. Sem janelas. Uma cama — se dava pra chamar aquilo de cama. Colchão fino jogado no chão. Uma mesa dobrável com papéis cheios de cálculos. Banheiro químico num canto.
E sentado na cama, de costas, cabeça baixa, um homem.
Andrew parou na porta. Não conseguiu se mexer. Não conseguiu respirar.
O homem levantou a cabeça devagar. Virou.
Olhos verdes. Iguais aos dele.
Cabelos loiros escuros com fios grisalhos. Barba por fazer. Magro demais. Olheiras fundas. Roupas surradas.
Mas era ele.
Sem dúvida nenhuma.
Era ele.
— Andrew? — A voz saiu rouca. Incrédula.
— Pai...
Joseph se levantou. Trôpego. Fraco. Como se não tivesse usado as pernas direito em muito tempo.
Andrew atravessou a cela em dois passos.
Abraço desesperado.
Joseph chorou. Silenciosamente. Corpo tremendo.
Andrew também chorou.
Dezoito anos. Dezoito anos achando que ele tinha morrido.
E ele estava aqui. Vivo. Preso. Sofrendo.
Joseph se afastou. Segurou o rosto de Andrew com as duas mãos. Olhou pra ele como se não acreditasse.
— Você... você cresceu. Você está tão grande...
— Eu achei que você tivesse morrido. A mãe disse...
— Eu quase morri. — A voz dele quebrou. — Mas eles me pegaram. Me mantiveram vivo porque eu sei demais. Porque eu era útil.
— Eu vim te tirar daqui. Agora.
Joseph balançou a cabeça.
— Não é tão simples...
Ele pegou o braço de Andrew com urgência. Mostrou o próprio pescoço. Marcas. Cicatrizes recentes. Como se algo tivesse sido arrancado da pele.
— O que é isso?
— Implantes. — Joseph respirou fundo. — Spectro me controlava mentalmente. Me forçava a trabalhar. A criar coisas horríveis. Eu não tinha escolha. Meu cérebro não era meu.
— Mas você removeu?
— Consegui semana passada. Aproveitei um momento de manutenção. Mas ainda estou fraco. E mais importante...
Ele olhou direto nos olhos de Andrew.
— Eles sabem que você está aqui.
— O quê?
— Eu não sou isca, Andrew. Eu sou a armadilha. Deixaram eu me libertar do controle de propósito. Sabiam que você viria me salvar.
— Então a gente precisa sair. Agora.
— Tem dois meta-humanos guardando o Bloco. — Joseph segurou os ombros dele. — Kira e Leonard. Irmãos. Sujeito 10 e 11. Eles são... Andrew, eles são tão fortes quanto você. Talvez mais.
Sirene.
Aguda. Estridente.
Luzes vermelhas começaram a piscar no teto.
Uma voz eletrônica ecoou pelos corredores:
— ALERTA NÍVEL 3. INTRUSO DETECTADO. PROTOCOLO KRAKEN ATIVADO.
A voz de Isadora no fone, desesperada:
— ANDREW! As câmeras voltaram! Eles sabem que você está lá!
Paulo:
— Cara, SAI AGORA!
Andrew olhou pro pai.
— Você consegue correr?
— Consigo tentar.
Eles saíram da cela.
Corredor agora com alarmes ecoando. Luzes vermelhas piscando. Portas se fechando automaticamente uma por uma. Clank. Clank. Clank.
E então, no fim do corredor, duas figuras apareceram.
Confronto - 23h19
Ela era linda.
Foi o primeiro pensamento idiota que passou pela cabeça de Andrew.
Mulher negra. Uns vinte anos. Cabelo cacheado, preso. Roupa tática preta justa que parecia mais armadura que tecido. Mas o que mais chamava atenção eram os olhos.
Brilho artificial. Leve. Constante. Como LED.
Ela flutuava. Trinta centímetros acima do chão. Sem esforço. Como se a gravidade não se aplicasse a ela.
E as mãos. As mãos brilhavam. Energia roxa pulsante envolvendo os dedos.
Ao lado dela, um homem.
Negro também. Mais velho. Uns vinte e dois. Alto. Um metro e noventa. Musculoso. Roupa tática idêntica.
Mesmos olhos com brilho artificial.
E asas.
Asas saindo das costas dele. Orgânicas. Acinzentadas. Como de um pássaro Gigante, ou um ANJO. Dois metros e meio de envergadura.
Os dois tinham expressão vazia. Neutra. Como robôs.
A mulher falou. Voz monótona. Sem emoção.
— Sujeito Zero identificado. Ordem: contenção.
O homem:
— Sujeito auxiliar identificado: Dr. Joseph Menning. Ordem: retenção.
Joseph sussurrou ao lado de Andrew:
— Eles não estão no controle. É o Spectro. Ele fala através deles.
Andrew deu um passo à frente. Colocou o pai atrás de si.
— Eu não quero machucar vocês.
A mulher — Kira — levantou as mãos. Energia roxa se intensificou.
— Resistência é inútil.
As construções energéticas se formaram. Lanças. Cinco delas. Flutuando ao redor dela. Roxas. Brilhantes. Mortais.
Ela as lançou.
Velocidade supersônica. Assobiando no ar.
Andrew empurrou Joseph pro lado. Usou sua própria velocidade pra desviar.
Mal conseguiu.
Uma lança passou raspando. Rasgou sua jaqueta. Atingiu o ombro.
Não perfurou — invulnerabilidade funcionou. Mas o impacto. O impacto doeu pra caralho.
— Que porra...!
O homem — Léo — não esperou.
Voou em direção a Andrew. Velocidade comparável à dele. Talvez mais rápida.
Soco.
Andrew bloqueou. O impacto criou onda de choque. A parede ao lado rachou. Pedaços de concreto caíram.
Os dois foram jogados pra trás.
Andrew deslizou pelo chão. Léo bateu asas, se estabilizou no ar.
Andrew se levantou. Olhou pro próprio punho. Doendo.
— Ele é forte. Tão forte quanto eu...
Léo veio de novo.
Combate corpo a corpo. No corredor estreito.
Soco. Bloqueio. Soco. Desvio. Chute. Contra-chute.
Cada golpe soava como explosão. Cada impacto rachava o chão. As paredes.
Joseph tentava se proteger. Agachado num canto.
Andrew e Léo eram rápidos. Brutais. Empatados.
Mas então Kira entrou.
Telecinese.
Ela levantou destroços do chão. Pedaços de concreto. Canos de metal. Tudo que tinha sido destruído na luta.
Arremessou em Andrew enquanto ele lutava com Léo.
Andrew desviou de um pedaço. Foi acertado por outro. Caiu de joelhos.
Léo aproveitou. Chute no peito.
Andrew foi jogado dez metros pra trás. Bateu na parede. Afundou o concreto. Caiu.
Levantou tonto. Sangue na boca.
Joseph gritou:
— ANDREW! Você não pode vencê-los sozinho!
Andrew cuspiu sangue. Olhos começaram a brilhar verde.
Raios concussivos.
Mirou em Kira. Disparou.
Ela criou campo de força. Roxo. Translúcido. Em formato de domo ao redor dela.
Os raios bateram no campo. Foram absorvidos. Desviados.
Contra-ataque.
Explosão de energia roxa. Direto em Andrew.
Ele foi acertado em cheio. Jogado contra o teto. Bateu. Caiu pesadamente. Sangue escorrendo da testa.
Um dos poucos ferimentos que conseguiam causar nele.
Léo voou em direção a Joseph.
Andrew viu em câmera lenta. Visão aguçada pegando cada detalhe.
O pai dele. Indefeso. Fraco.
Léo com o punho erguido. Pronto pra acertar.
— NÃO!
Andrew usou velocidade máxima. Colidiu com Léo no ar. Os dois atravessaram a parede. Caíram na sala ao lado.
Laboratório.
Equipamentos científicos caros. Tubos de ensaio. Microscópios. Tudo virando destroço quando eles bateram.
Os dois se levantaram ao mesmo tempo.
Luta corpo a corpo de novo.
Soco. Bloqueio. Soco. Desvio.
Andrew usava técnica. Coisas que tinha aprendido sozinho assistindo vídeos. Treinando no galpão.
Léo usava força bruta. Instinto. Mas era eficiente.
Estavam empatados.
Kira entrou na sala. Flutuando. Energia envolvendo todo o corpo dela agora. Roxa. Intensa.
Ela ia soltar explosão massiva. Andrew sabia. Sentia.
Se ela soltasse isso... o andar inteiro ia pro ar.
E o pai dele estava do outro lado daquela parede.
— Se ela soltar isso aqui... meu pai morre.
Ele parou de lutar. Levantou as mãos.
— Ok! Ok! Eu me rendo!
Kira parou. A energia diminuiu.
— Sujeito Zero em contenção. Aguardando instruções.
Mas então.
Joseph apareceu na porta. Ferido. Sangue no braço. Segurando a parede pra se apoiar.
E seus olhos.
Seus olhos brilharam verde.
Andrew arregalou os olhos.
O pai dele tinha poderes. Ainda tinha poderes.
Joseph olhou e mirou. Disparou raios verdes. Mais fracos que os de Andrew. Muito mais fracos. Mas funcionaram.
Acertaram Léo de surpresa. Ele foi jogado contra a parede. Afundou o concreto.
— Filho... corre. Agora.
— EU NÃO VOU TE DEIXAR!
— VOCÊ PRECISA! — Joseph gritou. — Se eles te pegarem, acabou! Para todo mundo! VAI!
Kira se recuperou do choque. Preparou outro ataque. Dessa vez mirando Joseph.
Andrew fez a escolha.
Voou em direção ao pai. Pegou ele no colo. Ignorou o grito de dor.
Voou em direção ao teto. Usou força. Arrancou um buraco no concreto. Pedaços caíram.
Léo tentou interceptar. Voou atrás. Quase pegou o pé de Andrew.
Andrew acelerou.
Kira disparou explosão de energia. Acertou de raspão. Andrew gritou de dor. Mas não parou.
Subiu pelos andares. Quebrando tetos. Atravessando lajes.
Kira e Léo voando atrás.
Perseguição vertical através do prédio.
Andrew usava visão de raio-X pra ver a estrutura. Sabia onde bater. Onde não bater.
Quebrava o teto atrás de si. Dificultando a perseguição.
Finalmente.
Último andar. Telhado.
Ele quebrou o teto. Saiu voando. Noite de São Paulo. Céu nublado.
Sirenes ecoando.
Escape - 23h24
Léo e Kira saíram logo atrás.
Perseguição aérea sobre a cidade.
Andrew voou baixo. Entre prédios. Tentava usar a cidade pra confundir eles.
Joseph no colo. Fraco. Segurando o braço ferido.
— Eles não vão parar... nunca param...
— Eu não vou deixar eles te pegarem de novo.
Kira usou telecinese. Arrancou pedaço de outdoor. Arremessou.
Andrew desviou. Mas perdeu velocidade.
Léo alcançou. Voou por cima. Desceu em mergulho. Chute no ar.
Acertou Andrew. Os três caíram.
Queda livre. Três andares. Bateram em cima de van estacionada. Amassaram completamente.
Andrew levantou primeiro. Tonto. Colocou Joseph no chão com cuidado.
Quatro guardas apareceram. Cercando eles.
— Sujeito Zero. Você está cercado.
Andrew olhou em volta. Kira e Léo pousando. Guardas bloqueando saídas.
— Deixa a gente ir.
O guarda líder sorriu.
— Não é uma opção.
Os guardas puxaram algo dos cintos. Cilindros negros. Com símbolo da Tentáculos gravado.
Autoinjetores.
Pressionaram contra o próprio pescoço. Psshhhh. Som de injeção.
Trinta segundos de silêncio.
Então começou.
Os músculos deles inflaram. Tipo balão. Veias saltaram. Pulsando. Olhos ficaram injetados de sangue. Respiração ficou pesada. Animalesca.
Um deles gritou. Dor. Êxtase. Sei lá.
O líder falou de novo. Mas a voz estava diferente. Distorcida. Agressiva.
— Agora... você morre.
Os quatro atacaram ao mesmo tempo.
Velocidade sobre-humana. Força aumentada.
Andrew lutou.
Bloqueou soco. Impacto forte. Ele ficou impressionado.
Contra-atacou. Acertou um no peito. O cara voou cinco metros. Bateu num muro. E levantou imediatamente.
— Que porra é essa?!
Joseph, no chão, gritou:
— Kraken-S! Soro de potencialização! Andrew, cuidado!
Dois guardas pegaram Andrew pelos braços. Força combinada segurava ele. Temporariamente.
O terceiro preparou golpe. Ia acertar Joseph.
Andrew usou força máxima. Quebrou o agarre. Raios concussivos verdes nos três.
Eles caíram. Mas já estavam levantando de novo.
O quarto guarda pegou uma arma. Pistola pesada. Calibre alto.
Atirou em Joseph.
Andrew interceptou. Bala ricocheteou nele. Mas o impacto empurrou ele pra trás.
Kira e Léo pousaram. No teto de prédio próximo. Preparando ataques combinados.
Andrew olhou em volta. Cercado. Ferido. Pai ferido. Quatro guardas potencializados. Dois meta-humanos poderosos.
Não dava.
Não dava pra vencer.
A voz de Isadora no fone. Desesperada.
— Andrew! O carro está a cinquenta metros ao sul! Corre!
Ele tomou a decisão.
Pegou Joseph. Decolou em velocidade máxima. Voo rasante pela rua.
Kira e Léo voaram atrás. Guardas correndo no chão. Velocidade potencializada.
Andrew viu o carro. Isadora no volante. Motor ligado. Porta traseira aberta.
Pousou forte. Quase quebrou o asfalto. Jogou Joseph dentro. Com cuidado mas rápido.
Entrou atrás.
— SEGURA!
Isadora pisou fundo. Pneus cantaram. Carro disparou.
Kira disparou última explosão de energia. Acertou a traseira. Vidro quebrou. Mas não parou o carro.
Léo começou a voar atrás. Mas parou no meio do caminho. Como se tivesse recebido ordem.
"Retornar à base."
Kira e Léo voltaram. Os guardas caíram de joelhos. Efeito do Kraken passando. Exaustão extrema.
O carro sumiu na noite de São Paulo.
No Carro - 23h35
Silêncio.
Só som do motor. Do vento pela janela quebrada. Da respiração pesada de Andrew e Joseph.
Andrew segurava o pai. No banco de trás. Sangue no braço de Joseph. No rosto de Andrew. Roupas rasgadas. Feridos mas vivos.
Isadora dirigia rápido. Mas controlado. Não chamando atenção.
Joseph olhou pro filho. Voz fraca.
— Você... você cresceu tanto...
— Eu passei dezoito anos achando que você tinha morrido.
— Eu queria ter morrido. Teria sido mais fácil que o que eles fizeram comigo.
Isadora olhou pelo retrovisor.
— Dr. Menning, o senhor precisa de hospital?
Joseph percebeu ela pela primeira vez.
— Quem é você?
— Ela é Isadora. Minha... minha namorada.
Joseph deu um sorriso pequeno. Apesar da dor.
— Namorada. Meu filho tem namorada...
— Prazer, Dr. Menning. Desculpa as circunstâncias.
— Me chama de Joseph. E obrigado por tirar a gente de lá.
Andrew olhou pro pai.
— Aqueles dois. Kira e Léo. O que eles são?
Joseph ficou sério.
— Vítimas. Como você. Expostos ao soro derivado do seu DNA. Transformados em armas. Controlados mentalmente pelo Spectro.
— Dá pra libertá-los?
— Talvez. Mas vai ser difícil. O controle mental é avançado. Eu levei meses pra quebrar o meu. E eu sou cientista. Eu sabia o que procurar.
Isadora perguntou:
— Pra onde eu vou?
— República. A gente precisa dele seguro.
Joseph segurou o braço de Andrew.
— Eles vão caçar vocês agora. Todos vocês. Eu fui a isca e você mordeu. Agora eles sabem onde você mora. Quem são seus amigos.
Andrew percebeu a verdade nas palavras.
— Eles nunca tiveram intenção de me deixar em paz.
— Nunca tiveram.
Silêncio.
Andrew olhou pela janela. Cidade passando. Luzes borradas.
— Então a gente não foge mais. A gente luta.
O carro sumiu na noite.
Bloco H, Sala de Controle - 23h50
Dr. Salles assistia aos monitores. Replay da batalha. Andrew lutando. Escapando.
Sorrindo.
— Perfeito. Exatamente como planejado.
Uma voz nas sombras.
— O garoto é mais forte do que os dados indicavam.
Spectro.
Dr. Salles nem se virou.
— Mas não invencível. Kira e Leonard quase o capturaram.
— Quase não serve. Eu quero o Sujeito Zero. E agora que tem o pai, ele vai voltar. Vai tentar salvar os outros.
— Então deixamos ele tentar?
— Deixamos. Mas na próxima vez... ele não escapa.
A câmera mostrou Spectro saindo das sombras. Parcialmente. Silhueta escura. Impossível ver detalhes. Apenas olhos brilhando. Artificial. Inumano.
Spectro olhou pra Kira e Léo. Em pé. Imóveis. Esperando ordens.
— Vocês falharam.
— Desculpe, Senhor — eles disseram em uníssono. Sem emoção.
— Mas terão outra chance. E quando tiverem... não falhem de novo.
— Sim, Senhor.
Dr. Salles perguntou:
— E Joseph Menning? Ele ainda é útil?
— Mais do que nunca. O filho vai fazer qualquer coisa pra protegê-lo. Inclusive se entregar.
Spectro desapareceu nas sombras.
Dr. Salles voltou aos monitores. Foto de Andrew estava congelada na tela.
FIM DO CAPÍTULO 6
PRÓXIMO CAPÍTULO: VOZES DA ESCURIDÃO