Despertar
T1/E2
T1/E2
O quintal da casa na Rua das Acácias tinha tudo que um menino de cinco anos poderia querer: espaço para correr, um balanço de pneu pendurado no galho mais resistente, e uma jabuticabeira antiga com galhos que pareciam feitos sob medida para escaladas.
Andrew adorava aquela árvore.
Luíza observava da janela da cozinha enquanto secava a louça do almoço. O filho estava lá fora novamente, tentando alcançar o galho mais alto — aquele que ela sempre dizia para não subir, porque era fino demais, perigoso demais.
Ele nunca ouvia.
— Andrew! — ela chamou, abrindo a janela. — Não sobe muito alto!
— Tá bom, mãe! — A voz dele veio lá de cima, animada.
Mas ela sabia que "tá bom" significava "vou subir do mesmo jeito quando você não estiver olhando".
E foi exatamente o que ele fez.
Cinco minutos depois, quando Luíza olhou de novo, Andrew estava sentado no galho mais alto da jabuticabeira, a uns seis metros do chão, balançando as perninhas e sorrindo como se estivesse no parquinho.
O coração dela pulou.
— ANDREW JOSEPH MENNING! — Ela usou o nome completo, aquele tom que não aceitava negociação. — Desce daí agora!
Ele suspirou dramaticamente — aquele suspiro de criança que acha que a mãe está exagerando — mas começou a descer. Com uma facilidade que não deveria ser possível para alguém tão pequeno. Os braços encontravam apoio onde não parecia haver nenhum. Os pés se moviam com coordenação perfeita.
E então ele simplesmente pulou dos últimos dois metros.
Aterrissou de pé. Como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Luíza largou o pano de prato e saiu pela porta dos fundos, o coração ainda acelerado.
— Andrew, você podia ter se machucado!
Ele olhou para ela, confuso.
— Mas eu não me machuquei, mãe. Olha! — Ele mostrou as mãos, limpas, sem um arranhão. — Tô inteirinho.
Ela ajoelhou na frente dele, segurando seus ombros pequenos. Olhou nos olhos dele — aqueles olhos verdes que às vezes, sob a luz certa do sol, pareciam ter um brilho esverdeado escondido nas profundezas.
— Filho... — Ela escolheu as palavras com cuidado. — Você lembra o que eu sempre te digo sobre ser cuidadoso?
O sorriso dele desapareceu.
— Que eu não posso chamar atenção.
— E por quê?
Andrew chutou uma pedrinha no chão, os ombros caindo.
— Porque eu sou diferente das outras crianças.
— Não é só diferente, meu amor. — Ela acariciou o rosto dele. — Você é especial. E pessoas especiais precisam ser cuidadosas. Entende por quê?
Ele balançou a cabeça.
— Não muito.
Luíza suspirou. Como explicar para uma criança de cinco anos que ele não podia ser... ele mesmo? Que precisava esconder quem era, fingir ser mais fraco, mais lento, mais normal?
— Um dia eu vou te explicar tudo direitinho — ela disse, beijando a testa dele. — Mas por enquanto, você precisa confiar em mim. Não sobe tão alto, não pula de lugares altos, e se machucar... mesmo que não doa... você finge que dói. Tá bem?
— Mas por quê, mãe?
— Porque... — Ela hesitou. — Porque tem gente no mundo que não entende pessoas especiais. E se descobrirem sobre você, podem querer te estudar. Te levar embora de mim.
Os olhos de Andrew se arregalaram.
— Levar embora?
— Não vou deixar isso acontecer. — Ela o puxou para um abraço apertado. — Nunca. Mas você precisa me ajudar a te proteger, tá bom?
Ele assentiu contra o ombro dela, os bracinhos apertando forte.
— Tá bom, mãe. Eu prometo.
Luíza fechou os olhos, segurando o filho. Por favor, ela pensou, por favor, deixa ele ter uma infância normal. Só um pouco.
Aquela noite, depois de colocar Andrew na cama, Luíza desceu para o porão.
Não era um porão comum. Ela tinha transformado o espaço em um pequeno laboratório — nada comparado ao que tinha na base nuclear, mas o suficiente para continuar seus estudos. Estudos sobre radiação. Sobre mutação celular.
Sobre o filho.
Ela ligou o computador e abriu os arquivos que vinha compilando desde o nascimento de Andrew. Gráficos de crescimento que desafiavam os padrões médicos. Resultados de exames caseiros que mostravam densidade óssea três vezes maior que a normal. Medições de força que eram... impossíveis.
Aos cinco anos, Andrew já podia levantar pesos que um adulto lutaria para mover.
Aos cinco anos, ele corria mais rápido que adolescentes.
Aos cinco anos, ele já estava lendo livros de física básica e fazendo perguntas que ela mal conseguia responder.
O que eu fiz? Ela pensou, não pela primeira vez. Que tipo de vida eu dei pra ele?
Mas no fundo, ela sabia a resposta.
Uma vida extraordinária.
Assustadora. Solitária, talvez. Mas extraordinária.
Ela apenas esperava que, quando Andrew crescesse o suficiente para entender, ele não a odiasse por isso.
Andrew tinha quinze anos quando tudo começou a mudar.
A tarde de sexta-feira estava morna, o tipo de clima que fazia todo mundo ficar preguiçoso e contar os minutos para o fim das aulas. O Colégio Estadual de Cosmópolis era um prédio antigo, pintado de amarelo desbotado, com grades nas janelas e um pátio de concreto rachado onde os alunos jogavam futebol nos intervalos.
Andrew estava encostado na jabuticabeira do pátio — ele tinha uma quedinha por jabuticabeiras — lendo um livro de física quântica que tinha pego emprestado da biblioteca municipal. A maioria dos colegas já olhava torto para ele por causa disso. Nerd, eles murmuravam. Esquisito.
Ele preferia assim. Quanto menos atenção, melhor.
O sinal tocou marcando o fim das aulas. O pátio explodiu em movimento — alunos correndo para o portão, professores gritando para não correrem, pais buzinando lá fora. O caos organizado do fim do dia escolar.
Andrew fechou o livro e esperou. Sempre esperava o movimento diminuir antes de sair. Menos gente significava menos interação. Menos chances de alguém perceber algo errado.
Foi quando ouviu o motor.
Não era um som normal. Era acelerado demais, descontrolado. Andrew ergueu os olhos do livro e viu o carro — um sedã preto, velho, com o para-choque traseiro preso com arame — entrando na rua em velocidade alta. Muito alta.
A rua em frente à escola era estreita, com lombadas. Tinha placa de "zona escolar — velocidade máxima 30 km/h". Aquele carro devia estar a pelo menos oitenta.
Andrew franziu a testa. Que idiota.
Mas então viu o motorista perder o controle.
O volante girou bruscamente. O carro subiu no meio-fio com um impacto violento que arrancou faíscas do para-choque. E estava vindo direto para o portão.
Onde um grupo de crianças pequenas — primeira ou segunda série — esperava os pais.
O tempo desacelerou.
Andrew viu tudo em câmera lenta. Viu o primeiro garoto perceber o carro e congelar. Viu uma professora virar a cabeça, os olhos se arregalando. Viu os pais na calçada oposta começando a gritar.
Viu que ninguém chegaria a tempo.
Ninguém normal.
Ele se moveu.
Não pensou. Não planejou. Apenas agiu.
Seus pés mal tocaram o chão enquanto atravessava os trinta metros que o separavam do portão. O livro caiu de sua mão, as páginas se espalhando. O mundo ao redor se transformou em um borrão de cores e sons distorcidos.
Para qualquer um olhando, Andrew simplesmente desapareceu de onde estava e apareceu na frente das crianças.
O carro estava a cinco metros.
Quatro.
Três.
Andrew estendeu as mãos.
E segurou.
O impacto foi como ser atingido por um trem.
A lataria do sedã se amassou contra suas palmas como papel. O capô se dobrou para dentro, o para-choque se soltou, os faróis explodiram em estilhaços de vidro. Os pneus cantaram no asfalto, fumegando, tentando empurrar, mas encontrando resistência absoluta.
Uma tonelada e meia de metal em movimento foi interrompida.
Por um garoto de quinze anos.
Que nem se moveu um centímetro.
Dentro do carro, o motorista foi arremessado contra o volante. O airbag explodiu com um estampido surdo. O motor tossiu, chiou, e morreu.
Silêncio.
Por três segundos que pareceram eternos, ninguém se moveu. Ninguém respirou. Ninguém acreditou.
Andrew sentiu o coração martelando contra as costelas. Seus braços tremiam — não de esforço, mas de adrenalina pura. Ele olhou para as mãos ainda pressionadas contra o capô destruído, depois para as crianças atrás dele.
Seis rostos pequenos. Olhos arregalados. Bocas abertas em choque silencioso.
— Vocês... vocês estão bem? — Sua voz saiu rouca, trêmula.
Nenhuma resposta.
E então o caos explodiu.
— MEU DEUS DO CÉU!
— O QUE FOI ISSO?!
— ELE PAROU O CARRO!
— COMO?!
— ALGUÉM FILMOU?!
— EU VI! EU VI TUDO!
Andrew sentiu o pânico subir pela garganta como bile. Adultos corriam em sua direção. Professores. Pais. Pessoas com celulares erguidos, gravando, fotografando.
Não. Não, não, não.
— Andrew? — A voz de Sofia veio de algum lugar à esquerda. Ela era da turma dele, sempre sentava duas carteiras atrás. — Andrew, como você... o que você...?
Ele recuou, as mãos ainda tremendo.
— Eu só... o carro ia bater e eu...
— Você voou! — Um garoto gritou. — Eu vi! Ele tava lá na árvore e num segundo tava aqui!
— Não, ele não voou, ele correu — outro corrigiu. — Mas rápido demais, tipo super rápido!
— E segurou o carro com as mãos! Com as mãos!
O motorista saiu cambaleando do veículo, sangrando do nariz, a camisa rasgada. Ele olhou para Andrew como se estivesse vendo um fantasma.
— Você... você não é... — Ele engoliu sangue. — Você não é humano...
A frase atingiu Andrew como um soco.
Corre.
A voz na cabeça dele era clara, instintiva, primitiva.
Corre agora ou eles vão te pegar.
Ele girou nos calcanhares e disparou.
Não como uma pessoa normal correria. Mas como algo além. Seus pés batiam no asfalto tão rápido que mal tocavam o chão. O vento cortava seu rosto. Os prédios se transformaram em manchas borradas de cor.
Ele nem sabia para onde estava indo. Só sabia que precisava sair dali. Longe das câmeras. Longe dos olhares. Longe da verdade.
Três quilômetros. Ele correu três quilômetros até sua casa em menos de três minutos.
Quando chegou, estava ofegante — não de cansaço físico, mas de terror puro e cru. Escancarou a porta da frente com tanta força que a dobradiça gemeu. Tropeçou no tapete da sala e caiu de joelhos, as mãos agarrando o tecido como se fosse a única coisa sólida em um mundo que estava desmoronando.
— ANDREW?!
A voz de Luíza veio da cozinha, seguida pelo som de algo caindo — provavelmente a tigela que ela estava segurando. Ela apareceu na porta em dois segundos, os olhos arregalados.
— Filho! O que aconteceu?! — Ela se ajoelhou ao lado dele, as mãos já checando por ferimentos. — Você tá machucado? Tem sangue? Me fala!
Andrew balançou a cabeça, incapaz de formar palavras. Seu peito subia e descia em respirações irregulares. Os olhos estavam úmidos, perdidos, aterrorizados.
— Me olha. — Luíza segurou o rosto dele entre as mãos, forçando-o a encará-la. — Andrew, me olha. Respira. Respira comigo.
Ele tentou. Inspirar. Expirar. Inspirar.
Mas a única coisa que conseguia pensar era naqueles rostos. Naqueles olhares. Naquelas câmeras.
— Mãe... — A voz saiu quebrada, rasgada. — Eles viram.
O mundo de Luíza parou.
Por um segundo, ela não se moveu. Não respirou. Apenas olhou para o filho, processando aquelas duas palavras.
Eles viram.
— O quê? — A palavra saiu num sussurro rouco. — O que você disse?
— Eles viram. — Andrew repetiu, mais alto agora, as palavras saindo num jorro desesperado. — Tinha um carro, ia atropelar umas crianças, e eu não pensei, eu só corri e segurei e... e agora todo mundo viu, mãe. Todo mundo.
O sangue de Luíza gelou nas veias.
Dez anos. Dez anos escondendo. Dez anos ensinando ele a ser cuidadoso, discreto, normal. Dez anos construindo uma vida segura, protegida.
E em um segundo, tudo tinha desmoronado.
— Quantas pessoas? — Ela perguntou, a voz saindo fina, controlada. — Quantas pessoas viram?
— Muitas. — Ele passou as mãos pelo cabelo, puxando. — Professores. Alunos. Pais. E tinha gente filmando, mãe. Com celular. Vai estar na internet. Vai estar em todo lugar.
Luíza fechou os olhos. Sentiu a sala girar ao redor dela.
O acordo com o governo. A identidade. O dinheiro. O silêncio.
Tudo ameaçado.
Se o vídeo viralizasse... se alguém investigasse... se descobrissem sobre o acidente, sobre o Projeto Ômega, sobre o que Andrew realmente era...
— Mãe, eu ferrei tudo. — A voz de Andrew estava quebrando agora. — Eu estraguei tudo que você construiu. Tudo que você fez pra me proteger. Eu...
— Não. — Ela abriu os olhos e segurou os ombros dele com firmeza. — Você não estragou nada. Você ouviu? Nada.
— Mas...
— Você salvou vidas, Andrew. Crianças. Você fez o que qualquer pessoa decente faria. Você fez o que era certo.
— Mas agora eles vão descobrir! — Lágrimas desciam pelo rosto dele. — Vão querer saber quem eu sou, de onde vim, por que eu sou assim...
Luíza respirou fundo. Tomou uma decisão que vinha adiando há quinze anos.
— Então tá na hora de você saber a verdade.
Andrew piscou, as lágrimas parando no meio do caminho.
— O quê?
Ela segurou o rosto dele entre as mãos, olhando fundo nos olhos dele. Aqueles olhos verdes com brilho escondido.
— Eu sempre soube, Andrew. Desde que você nasceu, eu sabia que você era diferente. E eu passei todos esses anos te protegendo... mas também te estudando. Tentando entender.
— Entender o quê?
— Quem você é. — Ela engoliu em seco. — De onde vieram seus poderes. Por que você é... extraordinário.
O coração de Andrew acelerou.
— Você sabe? Esse tempo todo, você sabia?
— Eu sempre soube. — As lágrimas desciam pelo rosto dela agora também. — E chegou a hora de você saber também.
Ela se levantou, estendendo a mão para ele.
— Vem comigo. Tem algo que preciso te mostrar.
Andrew pegou a mão dela com dedos trêmulos e se levantou. As pernas estavam bambas, mas ele seguiu a mãe pelo corredor.
Até a porta que sempre esteve trancada.
A porta que ele nunca teve permissão para abrir.
A porta do porão.
Luíza tirou uma chave do bolso — ele nem sabia que ela carregava aquilo — e a girou na fechadura com um clique suave.
— Filho... — Ela hesitou, a mão na maçaneta. — Está na hora de você saber tudo sobre o que aconteceu com seu pai... e o que isso significa para você.
E então ela abriu a porta.
FIM DO EPISÓDIO 2
PRÓXIMO EPISÓDIO: REVELAÇÃO