A Formatura
T1/E5
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Andrew estava tentando fazer o nó da gravata pela quinta vez quando desistiu e jogou a coisa no chão.
— Eu odeio gravatas.
Luíza apareceu na porta do quarto dele, já arrumada em um vestido azul-marinho elegante, o cabelo preso num coque impecável. Ela pegou a gravata do chão e balançou a cabeça, sorrindo.
— Vem aqui. Deixa eu fazer.
Andrew se aproximou, meio emburrado. Ela começou a fazer o nó com aquela facilidade de quem tinha feito isso mil vezes — provavelmente para Joseph, quando ele precisava ir às conferências científicas.
— Você tá nervoso? — ela perguntou, ajeitando o colarinho da camisa branca dele.
— Não.
— Mentiroso.
Andrew sorriu de si mesmo.
— Tá, talvez um pouco.
— É normal. Formatura é um momento importante. — Ela terminou o nó e o ajeitou perfeitamente. — Pronto. Olha no espelho.
Ele se virou para o espelho de corpo inteiro. O terno preto ficava bem nele — Luíza tinha insistido em comprar um de qualidade, não alugado. A camisa branca contrastava com o cabelo loiro, e a gravata azul-escuro combinava com os olhos verdes.
Ele parecia... adulto.
— Seu pai ficaria tão orgulhoso de você — Luíza disse, a voz suave. Ela estava parada atrás dele, as mãos nos ombros dele. — Tão orgulhoso.
Andrew olhou para o reflexo dos dois. Mãe e filho. Tudo que tinham era um ao outro. E tinha sido suficiente. Mais que suficiente.
— Obrigado, mãe. Por tudo.
Ela beijou o topo da cabeça dele.
— Vai lá e aproveita sua noite. Você merece.
O celular dele vibrou. Mensagem de Paulo:
"Cara tô pronto. Bora buscar as meninas, ou vai dar uma de cagão?"
Andrew riu.
— Tenho que ir.
— Vai. E Andrew? — Ela o segurou pelo braço quando ele passou pela porta. — Se você quiser beijar a Isadora hoje... beija. Você não precisa de super poderes pra isso. Só precisa de coragem.
Ele sentiu o rosto esquentar.
— MÃE!
— O quê? Eu sou mãe, não sou cega. — Ela sorriu. — Vai.
Paulo estava se olhando no espelho pela décima vez, ajeitando o undercut perfeitamente cortado. O terno cinza-chumbo ficava impecável nele — ele tinha passado semanas escolhendo, experimentando, até encontrar o corte perfeito.
— Filho, você vai gastar o espelho de tanto se olhar — Marta disse da porta, mas havia orgulho na voz.
— Mãe, eu preciso estar perfeito. É a formatura.
— Você tá lindo. — Roberto apareceu atrás da esposa, ainda de uniforme da polícia. — Mas se você não parar de mexer no cabelo, vai chegar atrasado.
Paulo virou e abriu os braços.
— E aí? Tá bom?
— Tá perfeito — seu pai disse, e havia algo no olhar dele. Orgulho. Emoção. — Meu filho tá se formando. Vai pra USP. Vai ser delegado.
— Ainda tenho que passar no concurso, pai.
— Vai passar. — Roberto colocou a mão no ombro dele. — Você é esperto, determinado. Igual seu velho aqui.
Marta limpou uma lágrima.
— Parem vocês dois, senão eu vou borrar a maquiagem.
A campainha tocou. Andrew.
Paulo desceu correndo, pegou o paletó do sofá.
— Vou indo! Não esperem acordados!
— Paulo Farias, você vai chegar em casa antes da meia-noite ou eu... — Marta começou.
— Ou você o quê? — Paulo já estava na porta, sorrindo. — Eu te amo, mãe!
E saiu antes que ela pudesse terminar a ameaça.
Paulo chegou com seu carro novo, um gol preto 2010 que tinha ganhado de aniversário de seus pais começo de novembro. Andrew entrou, ajeitando o terno.
— Cara, você tá parecendo garçom de festa chique — Paulo disse, avaliando Andrew.
— Você parece vendedor de seguro.
— Vendedor de seguro estiloso.
Eles riram.
— Então... — Andrew se ajeitou no banco de passageiro. — Você vai falar com a Camila hoje?
O sorriso de Paulo vacilou por um segundo.
— Eu... tô pensando.
— Pensando? Cara, você fica babando nela há meses.
— Eu não fico babando.
— Fica sim. Toda vez que ela passa no corredor, você vira a cabeça tipo um girassol seguindo o sol.
Paulo bufou, mas não negou.
— E você? Vai finalmente ter coragem com a Isa?
Agora foi a vez de Andrew ficar vermelho.
— Talvez.
— Talvez? — Paulo virou para ele, incrédulo. — Cara, ela tá praticamente com um letreiro na testa escrito 'me beija, por favor'. E você ainda tá no talvez?
— Eu não sei se ela gosta de mim desse jeito.
— Andrew, todo mundo sabe que ela gosta de você. Todo mundo menos você.
— E se eu estragar tudo?
— E se você não estragar? — Paulo cruzou os braços. — Vocês vão pra mesma faculdade. Direito na USP. É o momento perfeito.
Andrew dirigiu em silêncio por alguns segundos.
— Você tem razão.
— Eu sempre tenho razão.
— Não exagera.
— Tá, 90% das vezes.
Isadora estava na frente do espelho, ajustando o vestido azul-petróleo que tinha escolhido depois de experimentar quinze opções diferentes. O tecido era leve, fluído, caindo perfeitamente até os joelhos. O cabelo loiro estava solto em ondas suaves, e ela tinha colocado apenas uma maquiagem leve — blush, gloss nos lábios, rímel nos cílios.
Simples. Mas se sentia bonita.
— Você tá linda — Camila disse da cama, onde estava sentada esperando. Ela usava um vestido vermelho mais curto, ousado, que combinava perfeitamente com a personalidade dela. Os cabelos castanhos escuros estavam presos num rabo de cavalo alto, e a maquiagem era mais marcada — olhos com delineado, batom vermelho.
— Você que tá deslumbrante — Isadora respondeu. — O Paulo vai ter um treco quando te ver.
Camila sorriu, mas havia nervosismo ali.
— Você acha que ele... sei lá... sente algo?
— Camila, ele praticamente baba quando você passa. Claro que ele sente algo.
— Mas e se for só atração física? E se ele não quiser nada sério?
Isadora sentou ao lado da amiga.
— Paulo é muitas coisas — ela disse. — Brincalhão, engraçado, às vezes irritante. Mas ele não é superficial. Se ele gosta de você, é de verdade.
Camila suspirou.
— E você? Vai falar com o Andrew hoje?
Agora foi Isadora que ficou nervosa.
— Eu não sei. E se ele não sentir o mesmo?
— Isa, pelo amor de Deus. — Camila revirou os olhos. — Vocês dois são tão óbvios que é até doloroso de ver. Ele gosta de você. Você gosta dele. Beijem logo e acabem com essa tensão toda.
— Não é tão simples assim...
— É exatamente assim tão simples. — Camila se levantou, pegando a bolsinha. — Hoje é formatura. Se não rolar hoje, quando vai rolar?
A campainha tocou.
As duas se entreolharam, os olhos arregalados.
— São eles — Isadora sussurrou.
— Respira — Camila mandou. — Vamos lá arrasar.
Andrew quase engoliu a língua quando Isadora desceu as escadas da casa dela.
Ele sempre tinha achado ela bonita — óbvio, não era cego. Mas aquela noite... ela estava radiante. O vestido azul, o cabelo solto, o sorriso tímido quando viu ele esperando na porta.
— Oi — ela disse, e a voz saiu meio rouca.
— Oi. — Ele tentou não parecer um idiota. — Você tá... linda.
— Obrigada. — Ela corou. — Você também tá... muito bem.
Atrás dela, Camila desceu com aquela confiança natural dela, e Paulo literalmente congelou.
— Uau — ele disse, sem filtro nenhum. — Você tá... caramba.
Camila sorriu, claramente satisfeita.
— Obrigada, Paulo. Você tá estiloso também.
— Estiloso? Eu tô é sensacional.
Ela riu, e Andrew viu algo passar entre os dois. Uma faísca. Pequena, mas definitivamente ali.
— Bom, vamos? — Andrew sugeriu. — Antes que a gente perca a entrada.
Os quatro entraram no carro. Andrew dirigindo, Isadora no banco do passageiro. Paulo e Camila atrás, já trocando provocações que faziam os dois rirem.
Era estranho. Uma coisa boa. Como se os quatro formassem algo... completo. Um grupo. Uma unidade.
Amigos, Andrew pensou. Amigos de verdade.
O ginásio que eles tinham pintado semanas atrás estava irreconhecível.
Luzes coloridas pendiam do teto, projetando padrões no chão. Havia mesas decoradas com toalhas brancas e centros de flores. Um DJ tocava música numa plataforma elevada. Um fotógrafo circulava tirando fotos dos formandos.
Era mágico.
— Caramba — Paulo disse, olhando ao redor. — A gente pintou isso?
— A gente fez a base — Camila corrigiu. — Os pais contrataram decoradores profissionais.
— Mesmo assim. Ficou incrível.
Eles entraram, receberam aplausos dos outros formandos. A cerimônia oficial tinha sido mais cedo — diplomas, discursos, fotos com os professores. Agora era a festa. A parte divertida.
A música estava alta. Algumas pessoas já dançavam. Outras estavam nas mesas, conversando, rindo, comemorando.
— Vamos tirar foto? — Isadora sugeriu, apontando para o fotógrafo.
— Vamos — Andrew concordou.
Os quatro posaram juntos. Braços ao redor uns dos outros, sorrisos genuínos. O flash disparou, capturando aquele momento para sempre.
Depois foram para uma das mesas. Pediram refrigerantes — a escola tinha sido clara: nada de álcool. Conversaram sobre faculdade, sobre o futuro, sobre como tudo ia ser diferente dali pra frente.
— Vocês acreditam que acabou? — Camila disse, pensativa. — O ensino médio. Três anos de inferno e glória.
— Mais inferno que glória — Paulo brincou.
— Fala por você. Eu adorei.
— Você adorou porque sempre tirou notas altas sem esforço.
— Não foi sem esforço. Eu estudava.
— Estudava? Você lia o livro uma vez e memorizava tudo. Isso não é estudar, isso é ter superpoderes.
Andrew quase cuspiu o refrigerante. Isadora olhou para ele, preocupada.
— Tá bem?
— Tô, tô. — Ele limpou a boca. — Engasguei.
A música mudou. Uma balada lenta começou a tocar. Casais começaram a ir para a pista.
Paulo olhou para Camila. Camila olhou para Paulo.
— Quer... dançar? — ele perguntou, e pela primeira vez naquela noite, parecia genuinamente nervoso.
Camila sorriu.
— Eu adoraria.
Eles se levantaram e foram para a pista, deixando Andrew e Isadora sozinhos na mesa.
O silêncio ficou meio desconfortável.
— Então... — Isadora começou.
— Então... — Andrew repetiu.
Eles riram, nervosos.
— Quer dançar também? — Andrew ofereceu, antes que perdesse a coragem.
Os olhos dela brilharam.
— Quero.
A pista estava lotada, mas Andrew mal notava as outras pessoas. Só via Isadora. Ela colocou as mãos nos ombros dele. Ele colocou as dele na cintura dela, cuidadoso, respeitoso.
E começaram a dançar.
Não era nada elaborado. Apenas balançando de um lado pro outro, acompanhando a música. Mas era perfeito.
— Eu sempre quis fazer isso — Isadora confessou, baixo. — Dançar com você.
— Sério?
— Sério. — Ela olhou para cima, encontrando os olhos verdes dele. — Você nunca percebeu?
— Percebeu o quê?
— Que eu gosto de você. — As palavras saíram num sussurro. — Há muito tempo.
O coração de Andrew disparou. Ele sentiu como se o mundo tivesse parado de girar.
— Eu... — Ele engoliu em seco. — Eu também gosto de você. Sempre gostei.
Ela sorriu, e era o sorriso mais bonito que ele já tinha visto.
— Então por que a gente nunca falou sobre isso antes?
— Porque... — Ele procurou as palavras. — Porque eu tinha medo. De estragar nossa amizade. De não ser suficiente.
— Andrew, você é mais que suficiente. — Ela se aproximou mais. — Você é gentil, inteligente, engraçado. Você é... especial.
Se você soubesse o quão especial, ele pensou. Mas não disse.
— Você também é especial, Isa.
A música continuava tocando. Eles dançavam mais devagar agora, mais próximos. Andrew podia sentir o perfume dela — algo floral, suave.
— Posso... — Ele hesitou. — Posso te beijar?
Ela não respondeu com palavras.
Apenas se inclinou para cima e pressionou os lábios nos dele.
O primeiro beijo foi suave. Hesitante. Como se os dois estivessem testando, descobrindo. Mas então Isadora aprofundou, e Andrew a puxou mais perto, e de repente não havia hesitação nenhuma.
Havia apenas eles dois. O resto do mundo desapareceu.
Quando se separaram, ambos estavam ofegantes, sorrindo como idiotas.
— Isso foi... — Andrew começou.
— Perfeito — Isadora completou.
— Exatamente.
Eles continuaram dançando, agora mais próximos, as testas encostadas. E Andrew sentiu algo quente no peito. Algo que não tinha nada a ver com radiação ou mutação ou poderes.
Era só... felicidade.
Pura e simples.
Do outro lado da pista, Paulo tentava não pisar nos pés de Camila.
— Desculpa — ele disse pela terceira vez. — Eu não sou muito bom nisso.
— Tá indo bem. — Ela sorriu. — Relaxa.
— Como eu relaxo? Você tá usando um vestido vermelho que deveria ser ilegal.
Ela riu, um som genuíno e leve.
— Você fala cada coisa...
— Eu falo a verdade. — Ele ficou sério por um momento. — Camila, eu... eu queria te dizer uma coisa há um tempo.
— Fala.
— Eu gosto de você. Tipo... muito. E não é só porque você é bonita, que você é, mas também porque você é esperta e engraçada e não aceita desaforo de ninguém. E eu sei que a gente vai pra faculdades diferentes, você medicina e eu direito, mas eu queria... sei lá... tentar algo? Com você?
Camila parou de dançar. Olhou pra ele, séria.
— Paulo...
Merda, ele pensou. Eu estraguei tudo.
Mas então ela sorriu.
— Eu também gosto de você. Há tempos.
— Sério?
— Sério. — Ela se aproximou. — E sobre as faculdades? A gente dá um jeito. Medicina e Direito não são tão longe assim na USP.
— Mas eu... eu não sou tão inteligente quanto você...
— Paulo. — Ela segurou o rosto dele. — Você é uma das pessoas mais espertas que eu conheço. Só porque eu sei decorar livros não quer dizer que eu seja melhor que você. Você pensa rápido. Você resolve problemas. Você é... incrível.
Ele sentiu o peito apertado de emoção.
— Posso te beijar?
— É melhor você beijar antes que eu mude de ideia.
Paulo não precisou ouvir duas vezes.
Se inclinou e a beijou. E foi diferente de tudo que tinha imaginado. Melhor. Muito melhor.
Quando se separaram, Camila estava sorrindo.
— Então... namorados?
— Namorados. — Paulo concordou, feliz demais para tentar ser cool sobre isso.
A festa continuou por horas. Mais danças, mais risadas, mais fotos. O quarteto se reencontrou perto da meia-noite, todos com aquele brilho nos olhos de quem tinha acabado de começar algo especial.
— Então... — Andrew olhou para Paulo. — Você e a Camila?
— Eu e a Camila. — Paulo sorriu. — E você e a Isa?
— Eu e a Isa.
As meninas riram.
— Vocês dois são patéticos — Camila disse, mas havia carinho na voz.
— Pateticamente fofos — Isadora completou, segurando a mão de Andrew.
Eles saíram juntos quando a festa terminou. O ginásio estava vazio agora, apenas os funcionários limpando. Lá fora, o céu estava limpo, cheio de estrelas.
— Próxima parada: USP — Paulo disse, olhando para o céu.
— USP — Andrew repetiu.
— Vocês vão arrasar — Camila garantiu. — Todos nós vamos.
— Juntos — Isadora adicionou.
Andrew olhou para aquelas três pessoas. Seu melhor amigo. Sua namorada. A namorada do melhor amigo que já era praticamente parte do grupo.
Minha família, ele pensou. Minha família escolhida.
E pela primeira vez em muito tempo, Andrew não se sentiu sozinho com seu segredo.
Não completamente.
Tinha pessoas que se importavam. Que estariam ao lado dele.
Não importava o que viesse.
FIM DO EPISÓDIO 5
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