O Sequestro
T1/E6
T1/E6
A noite da formatura tinha sido perfeita.
Andrew tinha dançado com Isadora sob as luzes coloridas do ginásio, tinha rido até a barriga doer com as piadas de Paulo, tinha abraçado sua mãe quando ela chorou de orgulho ao vê-lo receber o diploma. Era o tipo de noite que você guarda na memória como um tesouro — intocável, brilhante, perfeita.
Mas nem todas as noites terminam bem.
E para Paulo Farias, aquela noite perfeita estava prestes a se transformar em algo muito, muito pior.
O golzinho preto de Paulo deslizava suavemente pelas ruas vazias. O rádio tocava baixinho — alguma música pop que ele normalmente detestava, mas hoje parecia certa. Ele ainda sentia o calor do corpo de Camila contra o seu, o gosto do batom dela nos lábios.
Camila.
A garota que tinha conquistado seu coração ao longo do ensino médio. Esperta, desafiadora, com aquele jeito de olhar para ele como se conseguisse ler cada pensamento idiota que passava pela cabeça dele. E hoje, naquela festa, ela tinha dito que gostava dele. Que queria estar com ele.
Paulo sorriu sozinho no carro, tamborilando os dedos no volante no ritmo da música.
A casa dela ficava a dez minutos da escola — um sobrado simples, bem cuidado, com um jardim pequeno na frente e a luz da varanda sempre acesa quando ela saía.
Ele estacionou em frente ao portão, desligou o motor.
— Chegamos — disse, virando-se para ela.
Camila não fez menção de sair do carro. Ficou ali, olhando para ele com aquele sorriso pequeno que fazia o estômago dele dar voltas.
— Foi uma noite incrível — ela disse, a voz suave.
— Foi. — Paulo passou a mão pelo cabelo, ajeitando o undercut que já estava começando a bagunçar. — Mas confesso que vou sentir falta disso tudo. Do ensino médio. Dos amigos. De... tudo isso.
— Eu também. — Ela inclinou a cabeça. — Mas a gente vai se ver na faculdade. USP. Direito e Medicina ficam no mesmo campus.
— Verdade. — Ele sorriu. — E a gente pode... almoçar juntos? Entre as aulas?
Camila riu — aquele riso leve que fazia ele se sentir o cara mais engraçado do mundo.
— Paulo, a gente namora agora. Claro que vamos almoçar juntos.
O rosto dele esquentou. Mesmo depois de horas sendo oficialmente namorados, ainda parecia surreal.
— É. Verdade. — Ele riu, sem graça. — Ainda tô me acostumando com a ideia.
Ela se aproximou, os olhos castanhos brilhando sob a luz amarelada do poste.
— Então se acostuma logo.
E o puxou para um beijo.
Foi mais longo que o primeiro da festa. Mais profundo. Tinha certeza naquele beijo — a certeza de que aquilo era só o começo de algo importante.
Quando se separaram, Camila estava sorrindo daquele jeito que fazia o coração dele acelerar.
— Boa noite, Paulo.
— Boa noite, Camila.
Ela desceu do carro, caminhou até a porta, virou uma última vez para acenar antes de entrar.
Paulo ficou ali parado, só existindo naquele momento. Feliz. Estúpido de feliz.
Então ligou o motor, checou o retrovisor, e começou a sair.
Foi quando percebeu.
A van preta.
Estava parada três casas atrás, do outro lado da rua. Vidros escuros. Motor ligado — ele podia ver a fumaça leve saindo do escapamento mesmo na noite quente.
Paulo franziu a testa. Estranho. Não tinha van nenhuma quando chegaram.
Ele acelerou suavemente, virando na esquina. Olhou pelo retrovisor.
A van o seguiu.
O estômago dele apertou.
Calma. Pode ser coincidência. A pessoa mora nessa direção.
Virou em outra rua — uma paralela, sem saída para o bairro principal. Um caminho que ninguém pegaria a menos que morasse ali.
A van virou também.
— Que merda... — Paulo murmurou, o coração começando a acelerar.
Ele acelerou mais. A rua estava vazia — Cosmópolis dormia cedo, especialmente naquelas áreas residenciais mais afastadas. Não havia ninguém nas calçadas. Nenhum carro passando.
Só ele.
E a van.
Paulo pensou em ligar para o pai. Roberto Carlos era investigador, sabia lidar com esse tipo de situação. Mas antes que pudesse pegar o celular, viu algo que fez seu sangue gelar.
Um segundo carro — um sedã preto, grande — surgindo no cruzamento à frente.
Bloqueando o caminho.
— Não, não, não... — Paulo pisou no freio.
Os pneus cantaram no asfalto. O carro derrapou, parando a poucos metros do sedã.
Ele olhou pelo retrovisor. A van tinha parado atrás dele, bem próxima.
Encurralado.
O pânico explodiu dentro dele como fogo.
Ele jogou o carro em ré, mas a van estava perto demais. Jogou em primeira, tentou passar pelo acostamento, mas o meio-fio era alto demais.
Preso. Eu tô preso.
As portas da van se abriram.
Três homens saíram. Todos vestindo preto. Balaclavas cobrindo os rostos. Movendo-se rápido, sincronizados, profissionais.
Paulo tentou trancar as portas, mas suas mãos tremiam tanto que o botão escapou dos dedos.
O primeiro homem chegou à janela do motorista. Não bateu. Não pediu. Simplesmente enfiou algo entre a janela e a borracha — uma ferramenta de metal — e arrancou a trava.
A porta foi puxada com força, arrancada das dobradiças com um rangido horrível de metal sendo torcido.
— SAI! — o homem rugiu, a voz abafada pela balaclava.
— EU NÃO FIZ NADA! — Paulo gritou, tentando se encolher no banco, as mãos levantadas. — EU NÃO FIZ NADA, EU JURO!
Mãos fortes o agarraram pelo braço, puxando. Paulo resistiu, socando cegamente. Seu punho acertou algo sólido — o peito de alguém — mas foi como socar uma parede.
— Sai do carro, moleque! — Outro homem apareceu do lado do passageiro.
Paulo chutou, acertando o painel, o volante, qualquer coisa. Tentou gritar por ajuda, mas uma mão cobriu sua boca com força, abafando o som.
— Para de lutar ou vai doer muito mais — a voz sibilou no ouvido dele.
Ele foi arrastado para fora. Seus pés bateram no asfalto, mas não conseguiu se firmar. Alguém chutou suas pernas por trás. Ele caiu de joelhos, a dor explodindo nas rótulas.
— Fica quieto.
— Por favor... — Paulo ofegou, a voz quebrando. — Por favor, eu tenho dinheiro, minha carteira tá no bolso, pode pegar, só não...
— A gente não quer seu dinheiro.
Algo úmido e fedorento foi pressionado contra seu rosto. Um pano. Cheirava a químico — doce e enjoativo, queimando as narinas.
Clorofórmio.
Paulo tentou segurar a respiração, virar a cabeça, mas mãos seguravam sua nuca com força de aço. Ele não conseguia se mover.
Seus pulmões queimavam. Ele precisava respirar.
Inalou.
O mundo começou a derreter nas bordas. As luzes dos postes se transformaram em rastros luminosos. Os sons ficaram abafados, distantes, como se estivesse debaixo d'água.
Ele sentiu seu corpo sendo levantado, carregado. Viu o interior da van — chão de metal frio, sem bancos, só paredes nuas.
Foi jogado lá dentro como um saco de batatas.
A porta bateu.
O motor rugiu.
E então só havia escuridão.
Dor.
Essa foi a primeira sensação quando Paulo começou a acordar.
Uma dor aguda, latejante, que começava na nuca e irradiava até os olhos. Como se alguém tivesse batido sua cabeça contra concreto repetidas vezes.
Ele gemeu, tentando levar a mão à testa.
Não conseguiu.
Seus braços não obedeceram.
O cérebro dele demorou alguns segundos — arrastando-se através da névoa química que ainda embaçava tudo — para processar.
Amarrado. Meus braços estão amarrados.
Ele forçou os olhos a abrirem. A visão estava turva, duplicada. Tudo girava suavemente, enjoativamente. Piscou várias vezes até conseguir focar.
Estava sentado. Uma cadeira. Metal frio, desconfortável. Os braços presos atrás das costas com algo que cortava a pele — corda, provavelmente, ou arame. As pernas amarradas às pernas da cadeira.
O gosto na boca era horrível. Metálico. Químico. Ele cuspiu, tentando se livrar, mas só ficou pior.
O ambiente ao redor era escuro. Não escuro completo — havia uma luz. Uma única lâmpada industrial pendurada no teto por um fio fino, balançando levemente. Iluminava um círculo no chão ao redor dele.
Além desse círculo, só escuridão.
Mas ele podia sentir o espaço. Grande. Vazio. Ecos de água pingando em algum lugar distante. O ar estava úmido, frio, carregado de cheiro de mofo e ferrugem.
Um galpão, ele pensou. Ou depósito. Algum lugar abandonado.
Seu coração disparou. Batia tão forte que doía no peito.
— Tem alguém aí? — Sua voz saiu rouca, fraca. — Alguém?
Silêncio.
Ele puxou os braços, tentando soltar. As cordas não cederam nem um milímetro. Só cortaram mais fundo na pele. Ele sentiu algo quente escorrer pelos pulsos.
Sangue.
— ALGUÉM! — Ele gritou mais alto agora. — TEM ALGUÉM AÍ?!
— Tem.
A voz veio da escuridão. Grave. Calma. Fria.
Paulo virou a cabeça bruscamente, procurando. Seus olhos ainda não tinham se ajustado completamente, mas viu movimento. Uma silhueta se destacando das sombras, caminhando devagar para dentro do círculo de luz.
Um homem.
Alto — devia ter quase um e noventa. Ombros largos. Corpo atlético, definido mesmo através das roupas escuras — calça cargo, coturno militar, jaqueta tática preta. E sobre o rosto, uma balaclava do mesmo tom, cobrindo tudo menos os olhos.
Olhos escuros. Duros. Sem emoção nenhuma.
Paulo sentiu o estômago revirar.
— Quem... — Ele engoliu em seco, a garganta seca como lixa. — Quem é você?
O homem parou a dois metros de distância. Não respondeu imediatamente. Apenas ficou ali, estudando Paulo como se fosse uma peça de quebra-cabeça que precisava ser resolvida.
— Meu nome não importa — ele disse finalmente. A voz era estranhamente calma, quase educada. — Mas você pode me chamar de Xavante.
— Xavante? — Paulo franziu a testa. — Que tipo de nome é esse?
— O tipo que você vai lembrar.
Paulo puxou as cordas de novo, instintivamente. Sentiu a dor nos pulsos, mas não parou.
— O que você quer de mim? Por que me trouxe aqui?
Xavante cruzou os braços, a postura relaxada. Como se estivesse conversando sobre o tempo.
— Depende. Você vai cooperar ou vai me fazer perder tempo?
— Cooperar com o quê?! Eu não sei o que você quer!
— Informação.
A palavra caiu entre eles como pedra.
Paulo sentiu o coração afundar.
Informação.
Será que descobriram sobre Andrew? — O pensamento atravessou sua mente como relâmpago. Sobre os poderes? Sobre o segredo?
Ele forçou o rosto a ficar neutro, mesmo com o pânico crescendo dentro dele.
— Informação sobre o quê? Eu sou só um estudante. Acabei de me formar no ensino médio. Não sei de nada importante.
Xavante inclinou a cabeça, como se achasse aquilo engraçado.
— Só um estudante. Interessante. — Ele deu um passo à frente. — Me diga então, estudante, o que você sabe sobre Roberto Carlos Farias?
Paulo piscou.
Meu pai?
A confusão deve ter aparecido no rosto dele, porque Xavante continuou:
— Investigador da Polícia Civil. Quinze anos de serviço. Especializado em crimes financeiros. Seu pai.
O alívio que Paulo sentiu foi tão forte que quase o fez rir. Não é sobre Andrew. Eles não sabem. Não tem nada a ver com ele.
Mas então a realidade bateu.
Meu pai.
Eles estavam atrás do pai dele.
— O que vocês querem com meu pai? — Paulo perguntou, a voz endurecendo.
— Não é o que queremos com ele. — Xavante corrigiu. — É o que queremos que ele pare de fazer.
— Ele é policial! Ele investiga crimes! É o trabalho dele!
— Nem todo crime precisa ser investigado. — Xavante começou a circular a cadeira, devagar. Paulo não conseguia vê-lo mais, mas sentia os passos pesados, medidos, ao redor. — Seu pai está fazendo perguntas inconvenientes. Acessando arquivos que não deveria acessar. Seguindo pistas que são... delicadas.
— Delicadas pra quem?
— Para pessoas muito mais poderosas que você imagina.
Os passos pararam atrás dele. Paulo sentiu a presença ali, bem perto, mas não podia ver.
— Seu pai está investigando uma organização — Xavante continuou, a voz vindo de trás agora. — Uma organização que prefere permanecer nas sombras. Invisível. E quando alguém brilha luz demais nessas sombras... — Pausa. — Coisas ruins acontecem.
— Você tá ameaçando meu pai?
— Estou avisando. — Os passos recomeçaram, circulando de novo. — Há forças em jogo aqui que vocês não entendem. E se seu pai continuar cavando, ele vai encontrar algo que não deveria. E então... bem, acidentes acontecem com investigadores curiosos demais.
Paulo puxou as cordas com raiva.
— Meu pai não vai parar! Ele não tem medo de gente como você!
Xavante apareceu na frente dele novamente, agachando para ficar na altura dos olhos de Paulo.
— Talvez ele devesse ter.
Eles ficaram ali, encarando um ao outro. Paulo se forçou a não desviar o olhar. Não ia dar a esse desgraçado a satisfação de ver medo.
Então Xavante se levantou, tirando um celular do bolso. Mexeu nele por alguns segundos, depois virou a tela para Paulo.
Era um log de acesso. Linhas e linhas de código, datas, horários, endereços IP.
E no topo, destacado em vermelho: IP: 192.168.1.105 - Residência Farias
— Reconhece isso? — Xavante perguntou.
Paulo sentiu o sangue gelar.
Merda.
— Três semanas atrás — Xavante continuou, guardando o celular — você acessou servidores protegidos. Servidores que contêm informações extremamente sensíveis sobre operações financeiras internacionais. Transferências. Empresas de fachada. Dados que custaram muito dinheiro para manter escondidos.
Paulo lembrou.
Tinha sido num domingo à noite. Estava entediado, testando umas ferramentas de hacking que tinha baixado de um fórum. Conseguiu entrar num servidor por acaso — tinha achado que era só um servidor corporativo qualquer, nada demais.
Mas os arquivos que viu... os números absurdos... os nomes de empresas que reconheceu dos noticiários...
Tinha ficado assustado. Fechou tudo. Deletou os logs. Nunca mais voltou.
Pensou que tinha sido cuidadoso.
Aparentemente, não foi cuidadoso o suficiente.
— Eu não sabia — Paulo disse, a voz saindo fraca. — Eu não sabia o que era. Eu só tava... mexendo. Curiosidade. Eu não fiz nada com as informações.
— Curiosidade. — Xavante repetiu a palavra como se fosse veneno. — Você invadiu um servidor da Tentáculos e tá dizendo que foi curiosidade?
— Tentáculos? — Paulo franziu a testa. — Que porra é essa?
— Algo que você e seu pai deveriam ter deixado em paz.
Xavante se virou, caminhando de volta para as sombras.
— Aqui está o que vai acontecer — ele disse, a voz ecoando no galpão vazio. — Seu pai vai receber uma ligação amanhã de manhã. Cinco horas da manhã, para ser exato. Ele vai receber instruções muito específicas sobre como encerrar a investigação dele. Quais arquivos deletar. Quais relatórios arquivar. Quais pistas abandonar.
— Ele nunca vai aceitar isso.
— Então você morre.
As palavras caíram como sentença de morte.
Xavante parou na borda do círculo de luz, metade do corpo ainda visível.
— Seu pai tem 48 horas. Se ele seguir as instruções, você volta pra casa saudável. Se não... — Ele olhou para Paulo por cima do ombro. — Bem, eu imagino que você não quer saber os detalhes.
— Espera! — Paulo gritou, a voz quebrando. — Espera, por favor! Eu posso... eu posso fazer meu pai parar! Eu posso ajudar! Só não...
— Você não vai fazer nada. — A voz de Xavante era final. — Seu trabalho agora é ficar quieto e vivo. E rezar para que seu pai seja esperto.
Ele desapareceu na escuridão. Paulo ouviu passos se afastando, depois o rangido de uma porta de metal sendo aberta.
— NÃO! — Paulo berrou. — NÃO ME DEIXA AQUI! POR FAVOR!
A porta bateu.
Fechadura girando.
Silêncio.
Paulo ficou ali, sozinho no meio daquele galpão frio e escuro, amarrado a uma cadeira de metal, com a única luz balançando levemente sobre sua cabeça.
O pânico veio em ondas. Primeiro a negação — isso não tá acontecendo, não pode estar acontecendo. Depois a raiva — vou matar esse filho da puta quando sair daqui. Depois o medo — e se eu não sair daqui?
E então, finalmente, a culpa.
Meu pai. Por minha causa.
Se ele não tivesse sido idiota. Se não tivesse fuçado onde não devia. Se tivesse sido mais cuidadoso...
Lágrimas queimaram seus olhos. Ele as segurou. Não ia chorar. Não ia dar a eles essa satisfação, mesmo que ninguém estivesse vendo.
Mas no fundo, bem no fundo, uma voz sussurrava:
Você vai morrer aqui.
E pela primeira vez na vida, Paulo acreditou que poderia ser verdade.
Andrew estava deitado na cama, ainda meio vestido, olhando para o teto do quarto.
Não conseguia dormir. Não porque estava preocupado ou ansioso. Só porque o cérebro ainda estava processando tudo. A formatura. Isadora. O beijo. O futuro.
Tudo parecia encaixado. Perfeito.
Ele pegou o celular, pensando em mandar mensagem pro Paulo. Provavelmente o amigo também estava acordado, revivendo a noite.
Mas então decidiu deixar para amanhã. Paulo merecia descansar.
Andrew largou o celular na mesa de cabeceira, fechou os olhos, e deixou o sono vir.
Sem fazer ideia de que, naquele exato momento, seu melhor amigo estava amarrado em um galpão abandonado do outro lado da cidade.
Sozinho.
Aterrorizado.
Esperando por um resgate que ainda não sabia que viria.
FIM DO EPISÓDIO 6
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