O CAÇADOR
T2/E11
T2/E11
Bloco H, Sala de Controle — 6h00 da manhã
Dr. Henrique Salles entrou na sala segurando uma prancheta. Cabelos castanhos impecavelmente penteados mesmo àquela hora. Terno azul marinho sem um único vinco. Óculos sem aro refletindo as luzes dos monitores.
Quarenta e dois anos. Gênio. Psicopata.
Spectro estava nas sombras. Como sempre. Silhueta impossível de definir completamente. Como se a escuridão grudasse nele, se recusasse a soltá-lo mesmo com as luzes acesas.
Dr. Salles começou o relatório. Voz profissional. Clínica.
— Sujeito 10 está com Menning. Confirmado. Sujeito 06 se juntou ao grupo ontem à noite. — Ele folheou papéis. — E conseguiram mapas completos da instalação. Meus mapas. Os que Samuel memorizou.
Spectro não pareceu preocupado. A voz distorcida saiu calma. Quase divertida.
— Perfeito.
Dr. Salles piscou.
— Perfeito? Senhor, eles têm vantagem tática agora. Conhecem nosso layout. Horários de patrulha. Pontos fracos.
— Eles têm ilusão de vantagem. — Spectro se moveu ligeiramente. As sombras foram junto. — Diferença importante.
Ele caminhou até o monitor que mostrava a cela de Léo. O garoto estava sentado na cama de metal. Imóvel. Olhos fixos no nada. Esperando ordens.
— Libere o Sujeito 11.
Dr. Salles hesitou. Só meio segundo. Mas hesitou.
— Senhor?
— Você ouviu.
— Mas... a programação dele ainda não está completa. O vínculo emocional com a irmã causa instabilidade. Vimos ontem. Ele quase despertou quando ela falou com ele.
— Exatamente. — Spectro virou. Impossível ver o rosto. Mas dava pra sentir o sorriso. — Por isso funciona.
Dr. Salles processou. Entendeu.
— O senhor quer usá-lo como isca.
— Dê a ele ordem: encontrar e trazer o Sujeito 10. Viva, preferencialmente. — Pausa deliberada. — Mas se necessário... pode usar força letal.
— Isso vai expor a operação. Uma batalha em área urbana chama atenção. Mídia. Polícia. Testemunhas.
Spectro deu de ombros. Gesto casual como se discutissem o clima.
— A polícia é controlada. A mídia também. O spin já está preparado. — Ele começou a enumerar nos dedos invisíveis. — Gangue armada. Tecnologia militar roubada. Teste de armas experimentais ilegais. Terrorismo doméstico. A população vai acreditar no que dissermos que acreditem.
Dr. Salles tinha que admitir. Era brilhante.
— E Andrew Menning?
— Vai se revelar tentando salvar o irmão da aliada. — Spectro voltou pras sombras. — Vínculo emocional. É a fraqueza dele. Sempre foi.
— Aliada?
— Kira e o irmão. Léo e a irmã. Andrew não resiste a vínculo familiar ameaçado. — A voz ficou mais baixa. Mais sinistra. — Porque ele finalmente tem o próprio pai de volta. Sabe o que é ter família. Então vai lutar até a morte pra proteger a família dos outros.
Dr. Salles assentiu. Compreensão total.
— Vou preparar o Sujeito 11.
— Faça isso. E Dr. Salles?
— Sim, senhor?
— Certifique-se de que ele entende: sem limites. Força máxima autorizada.
Dr. Salles saiu da sala. As portas se fecharam com hiss pneumático.
Spectro ficou sozinho. Olhando os monitores. Seis telas mostrando seis celas. Seis prisioneiros.
— Em breve, todos estarão de volta — ele sussurrou pro vazio. — E desta vez, não escapam.
Cela 08, Subsolo 3 — 6h15 da manhã
Léo estava sentado na cama de metal. Não tinha dormido. Sujeitos não precisavam de muito sono. Os implantes regulavam. Mantinham corpo funcionando com mínimo de descanso.
Ele só esperava. Ordens. Sempre esperando ordens.
A porta se abriu. Dr. Salles entrou. Dois guardas armados atrás dele.
— Sujeito 11. Ative.
Os olhos de Léo brilharam mais forte. Artificial. Azul neon. Implantes na base do crânio pulsaram. Potência máxima.
Ele se levantou. Rígido. Militar.
— Aguardando instruções.
Dr. Salles consultou o tablet.
— Missão: localizar e capturar o Sujeito 10. Kira Voss. — Pausa. Proposital. — Sua irmã.
Micro-hesitação.
Nanossegundos. Imperceptível pra olho humano. Mas os sensores captaram. Pico neural. A palavra "irmã" causou reação.
Mas a Voz suprimiu imediatamente.
OBEDEÇA.
— Entendido. Localizar. Capturar.
— Ela está com o Sujeito Zero. Andrew Menning. — Dr. Salles digitou algo no tablet. — Se ele interferir, elimine. Autorização concedida.
— Entendido.
— Você tem permissão para uso de força máxima. Não há limites. Não há restrições. Traga o Sujeito 10 de volta. A qualquer custo.
Léo processou. Confirmou.
— Entendido. Missão aceita.
Ele se levantou. Músculos tensionaram. As asas começaram a materializar.
Orgânicas. Brotando das costas como se sempre tivessem estado lá, apenas dobradas em outra dimensão. Cinzentas. Membranosas mas também emplumadas. Dois metros e meio de envergadura. Lindas e terríveis.
Dr. Salles o levou pelo corredor. Elevador de carga. Subindo. Passando pelos andares. Subsolo 3, 2, 1. Térreo. Primeiro andar. Segundo.
Telhado.
A porta do elevador se abriu.
Luz do sol. Céu aberto. Manhã fria de agosto em São Paulo. Ar cortante.
Dr. Salles apontou pro horizonte.
— Vá. Caçe.
Léo não disse nada. Só abriu as asas completamente. Bateu uma vez. Duas. Decolou.
Subiu rápido. Cem metros. Duzentos. Até virar ponto pequeno no céu.
E desapareceu.
Dr. Salles pegou o comunicador.
— Caçador liberado. Rastreamento ativo. Todas as unidades em standby.
A voz de Spectro respondeu:
— Excelente. Agora esperamos.
QG, Perdizes — 7h30 da manhã
Paulo estava no laptop. Café frio ao lado. Olhos vermelhos de cansaço. Tinha passado a noite monitorando os sistemas da GENOS usando os métodos que Samuel tinha ensinado.
O alarme disparou.
Alto. Estridente. Vermelho piscando na tela.
— Merda. MERDA!
Ele gritou tão alto que acordou todo mundo.
Andrew apareceu correndo da sala, ainda de pijama. Cabelo bagunçado. Olhos inchados.
— O que foi?
Isadora logo atrás. Joseph do quarto. Samuel levantando do sofá.
Paulo apontou pra tela.
— Léo. Saiu do Bloco H. Há três minutos. — Ele digitou rápido. — Rastreamento ativo mostra movimento rápido. Velocidade... sessenta quilômetros por hora. Vindo pra... — Ele parou. Olhou pros outros. — Vindo pra cá. Pra Perdizes.
Kira apareceu na porta. Tinha ouvido. O rosto dela ficou branco.
— Ele sabe onde eu estou?
Samuel já estava no laptop ao lado de Paulo. Checando dados.
— Implantes dele têm rastreador reverso. — Ele apontou pra tela. — Se você usou poderes nos últimos dias, ele captou a assinatura energética. É como deixar pegadas digitais no ar.
Kira fechou os olhos.
— Eu usei. Ontem. Treinando no quintal...
— Então ele sabe exatamente onde você está.
Andrew já estava se vestindo. Jogou o pijama no chão. Pegou calça jeans, camiseta, jaqueta.
— Quanto tempo temos?
Paulo calculou mentalmente. Olhou o mapa. Traçou a rota.
— Velocidade dele... distância... — Pausa. — Cinco minutos. Talvez menos.
Isadora já estava em modo estratégico. Cérebro processando. Analisando variáveis.
— Não podemos lutar aqui. Prédio residencial. Seis andares. Famílias. Crianças. Velhos. — Ela olhou pra Andrew. — Precisamos atraí-lo pra outro lugar.
Andrew terminou de se vestir.
— Eu vou. Atraio ele pra longe.
Kira se aproximou. Determinada.
— Não sozinho. Eu vou também.
— Kira...
— É meu irmão. Minha responsabilidade. — Ela olhou nos olhos dele. Verde encontrando castanho. — Eu não deixo você enfrentar ele sozinho.
Samuel pegou a jaqueta de couro do sofá.
— Eu vou de backup. Posso desativar comunicações dele se necessário. E meu PEM pode fritar os rastreadores.
Decidiram rápido. Não tinha tempo pra debate.
Andrew e Kira atraem Léo. Levam ele pra longe. Zona industrial — menos gente, mais espaço. Samuel segue escondido, pronto pra intervir.
Joseph, Paulo, Isadora e Camila ficam no QG. Coordenação remota. Suporte técnico.
Andrew pegou o fone de comunicação. Minúsculo. Quase invisível. Colocou no ouvido.
— Teste.
A voz de Paulo veio clara:
— Te ouvindo.
Kira pegou outro fone. Samuel também.
Os três subiram pro telhado pela escada de incêndio. Rápido. Silencioso.
Esperaram.
São Paulo acordando. Barulho de trânsito lá embaixo. Pessoas indo pro trabalho. Vida normal acontecendo sem ideia do que estava vindo.
Kira olhou pra baixo. Viu gente com celular na mão. Câmeras em todos os lugares. Testemunhas em potencial.
— A gente vai precisar de trajes — ela disse. — Se formos filmados e nossos rostos caírem na mídia, estamos acabados. Todos vão saber exatamente quem somos. Onde moramos. Quem são nossas famílias.
Andrew olhou pra própria roupa. Calça jeans. Camiseta. Jaqueta comum. Zero proteção. Zero anonimato.
— Não temos tempo pra conseguir trajes agora. Vamos ter que ir assim mesmo.
Kira deu meio sorriso. Confiante.
— Quem disse que não temos?
Ela tocou o ombro de Andrew. A mão brilhou levemente — energia roxa pulsando entre os dedos.
E então aconteceu.
A roupa dele começou a mudar. Matéria se recombinando. Tecido virando algo mais. Fibras se reorganizando em nível molecular.
Calça jeans virou tecido tático azul e verde. Reforçado. Resistente a impacto. Detalhes dourados percorrendo as laterais — não por estética, mas como condutores energéticos integrados. Um traje de combate High-tech.
E o rosto. Máscara high-tech em verde, azul e detalhes dourado, cobrindo da testa até queixo. Olhos protegidos por lentes escuras mas translúcidas por dentro.
Dez segundos. A transformação levou dez segundos.
Andrew olhou pras próprias mãos. Pro corpo. Tocou a máscara.
— Que porra... — Ele olhou pra Kira, boquiaberto. — Como você fez isso?
Ela já estava fazendo o mesmo em si mesma. Roupa casual virando traje tático. Proteções metálicas se formando. Máscara cobrindo o rosto. High-tech. Elegante. Similar ao que a GENOS tinha feito ela usar.
— Manipulação de matéria em nível subatômico — ela explicou casualmente, admirando o próprio trabalho. — Posso reorganizar estruturas moleculares. Transformar uma coisa em outra. Desde que entenda a composição.
— Você podia fazer isso o tempo todo?!
— Tecnicamente? Sim. Mas nunca tinha usado pra isso. — Ela deu de ombros. — Sempre usei só pra criar armas temporárias. Lanças de energia. Campos de força. Coisas destrutivas. Nunca pensei em... moda tática.
Andrew riu. Ainda processando.
— Isso é incrível. Tipo, absurdamente incrível.
— Pelo menos eles tinham bom gosto nos trajes! — Kira brincou, ajeitando a própria máscara. — Copiei o design da GENOS. Funcional e intimidador.
Samuel apareceu do outro lado do telhado. Viu os dois com trajes novos. Levantou a mão antes que Kira falasse algo.
— Também quero um!
— Kira se aproximou e tocou em Samuel, e a roupa dele se tornou um traje de combate azul e branco, reforçado com placas metálicas finas sob tecido flexível e máscara cobrindo o rosto, deixando seu cabelo branco a mostra.
— Pra combinar com o brilho dos teus olhos!
Samuel ficou perplexo — Caralho, que incrível!
Kira riu, mas logo ficaram sérios de novo.
Andrew ativou visão telescópica. Escaneou o céu.
E viu.
Ponto preto. Pequeno. Crescendo. Vindo rápido.
Muito rápido.
— Ele está vindo — Andrew disse no comunicador.
Telhado do Prédio — 7h34 da manhã
Léo apareceu.
Voo reto. Direto. Sem desvios. Como míssil teleguiado.
Parou no ar a vinte metros de distância. Pairando. Asas batendo devagar. Só o suficiente pra manter posição.
Os olhos brilhavam. Azul artificial. Frio. Sem vida.
Ele olhou direto pra Kira.
— Sujeito 10. Retorne à contenção.
A voz dele saiu monótona. Vazia. Mecânica. Tipo sintetizador de voz mal calibrado.
Não era a voz do Léo. Não era a voz do irmão dela.
Kira sentiu o coração partir. De novo. Como se alguém enfiasse faca e torcesse.
— Léo, sou eu. Kira. Sua irmã. — Ela deu passo à frente. Mãos estendidas. Desarmadas. — Você lembra? Você tem que lembrar.
Nenhuma reação.
Ele começou a avançar. Voo lento. Deliberado.
Andrew se moveu. Rápido. Voou entre os dois. Barreira humana.
— Você não encosta nela.
Léo parou. Analisou Andrew. Scanneou. Os olhos brilharam mais forte.
— Sujeito Zero. Ordem: eliminar se necessário.
E atacou.
Velocidade brutal.
Zero a sessenta em meio segundo. Soco voando direto pro rosto de Andrew.
Andrew bloqueou. Antebraços cruzados. O impacto criou onda de choque. Janelas do prédio embaixo tremeram. Vidros racharam.
Os dois caíram. Rolaram pelo telhado. Levantaram ao mesmo tempo.
Kira gritou:
— NÃO LUTEM NO PRÉDIO! TEM GENTE AQUI!
Andrew entendeu imediatamente. Olhou pra baixo. Viu pessoas nas janelas. Assustadas. Filmando com celular.
Merda.
Ele decolou. Voo máximo. Saiu do telhado em velocidade supersônica.
Léo perseguiu. Instinto. Ordem era eliminar ameaças. Andrew era ameaça. Logo, perseguir.
Kira voou atrás dos dois. Desesperada.
Samuel, escondido atrás da caixa d'água, falou no comunicador:
— Levem ele pra Barra Funda. Tem área industrial desativada lá. Vinte quarteirões ao norte. Vou passar coordenadas.
Perseguição pelos Céus — 7h38 da manhã
Três figuras voando sobre São Paulo.
Uma fugindo. Uma perseguindo. Uma tentando alcançar.
Era oito da manhã. Horário de pico. Cidade acordada. Trânsito congestionado. Pessoas nas ruas. Nos ônibus. Nos carros.
Todos olhando pro céu.
Vendo o impossível.
— Que porra é aquela?
— Cara, tem gente voando!
— É filme? Tão filmando alguma coisa?
Celulares saíram. Centenas deles. Filmando. Fotografando. Postando em tempo real.
Andrew voava em zigzag. Entre prédios. Tentando usar a cidade como obstáculo. Dificultar a perseguição.
Não funcionou.
Léo não desviava. Atravessava. Janelas. Paredes. Nada o parava. Força bruta ignorando física.
Um prédio de escritórios. Léo atravessou pelo décimo andar. Entrou por uma janela. Saiu pela janela oposta. Vidro explodindo. Pessoas gritando. Alguém desmaiou.
Kira tentava falar enquanto voava:
— LÉO! PARA! SOU EU! KIRA! SUA IRMÃ!
Ele não respondia. Só perseguia. Implacável.
Chegaram em Barra Funda.
Zona industrial. Galpões antigos. Fábricas desativadas. Ainda tinha gente — caminhoneiros, trabalhadores de armazém — mas menos que áreas residenciais.
Andrew viu galpão grande. Telhado de metal enferrujado. Pousou forte. Concreto rachando sob os pés.
Léo pousou também. Vinte metros de distância. Asas fechando. Postura de luta.
Kira pousou entre os dois. Braços abertos. Barreira.
— Parem! Os dois! Não façam isso!
Mas ninguém parou.
Barra Funda, Galpão Industrial — 7h42 da manhã
A batalha começou.
Andrew avançou primeiro. Precisava manter Léo focado nele. Longe de Kira.
Soco. Léo bloqueou. Contra-soco. Andrew desviou. Chute. Bloqueio.
Cada golpe soava como explosão. Cada impacto criava cratera no chão. Cada movimento deixava destruição.
O telhado do galpão começou a desmoronar. Vigas de metal cedendo. Telhas caindo.
Kira viu trabalhadores embaixo. Três homens. Paralisados. Olhando pra cima.
Ela reagiu. Telecinese. Mãos estendidas. Energia roxa brilhando.
Segurou a estrutura. Impediu colapso total. Mas era pesado. Muito pesado. Braços tremendo. Suor descendo.
Léo percebeu. Análise tática instantânea.
Kira distraída = alvo vulnerável.
Ele deixou Andrew. Virou. Voou direto pra ela.
Kira viu. Mas não podia soltar a estrutura. Se soltasse, os trabalhadores morriam.
— ANDREW!
Andrew interceptou. Colidiu com Léo no ar. Os dois caíram. Bateram numa pilha de caixas de madeira. Destroços explodindo.
Levantaram ao mesmo tempo. Cobertos de pó. Arranhados. Mas não machucados. Não seriamente.
Léo usou as asas como armas. Chicoteou. Ponta da asa acertou Andrew no peito. Impacto o arremessou quinze metros pra trás. Ele atravessou parede de tijolos. Caiu do outro lado.
Kira conseguiu descer a estrutura devagar. Seguro. Os trabalhadores correram. Ela soltou.
Virou pra Léo.
— Chega. Para com isso. Por favor.
Ele avançou. Implacável.
Ela criou campo de força. Escudo roxo translúcido. Em formato de domo ao redor dela.
Léo golpeou. Uma vez. Duas. Três.
O campo rachou. Começou a desmoronar.
Não ia segurar muito.
Andrew voltou. Sentiu o sangue na boca por baixo da máscara. Primeiro ferimento real. Léo era forte. Muito forte. Tão forte quanto ele. Talvez mais.
A luta continuou. Mais intensa. Mais destrutiva.
Galpões sendo destruídos. Paredes caindo. Estruturas colapsando.
Pessoas fugindo. Gritando. Filmes. Sirenes ao longe.
Paulo no comunicador. Voz tensa:
— Polícia a caminho! Quatro minutos!
Isadora:
— Terminem rápido ou recuem!
Mas como recuar? Léo não parava. Não cansava. Não hesitava.
Era máquina de guerra. Programada pra caçar. Programada pra capturar.
E estava vencendo.
Momento de Decisão — 7h48 da manhã
Kira tomou decisão.
Chega de fugir. Chega de lutar. Chega de tratar o irmão como inimigo.
Ela pousou. No meio do caos. No meio da destruição.
E parou.
Abaixou a guarda. Braços ao lado do corpo. Desprotegida.
— KIRA, O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO?! — Andrew gritou.
Ela não respondeu. Só ficou ali. Olhando pro irmão.
Léo viu. Analisou. Alvo desprotegido. Oportunidade perfeita.
Voou em direção a ela. Velocidade máxima. Punho erguido. Preparado pra nocautear. Capturar. Cumprir missão.
Kira não se moveu.
— LÉO, PARA!
Ele não parou.
— É A KIRA! SUA IRMÃ! EU SEI QUE VOCÊ TÁ AÍ! EU SEI QUE VOCÊ LEMBRA!
Continuou vindo.
Ela fechou os olhos. Aceitou. Se ele ia matá-la, que matasse. Mas ela não lutava mais. Não contra o irmão.
O punho de Léo parou.
Centímetros do rosto dela.
Tremendo.
Kira abriu os olhos. Devagar. Lágrimas descendo.
Viu conflito interno no rosto dele. Implantes brilhando intensamente. Veias pulsando. Fumaça saindo das cicatrizes na nuca. Mas corpo paralisado. Preso entre ordens e memórias.
E então ele falou.
Voz diferente. Confusa. Humana.
— Ki...ra?
O coração dela explodiu.
— Sim! Sou eu! Kira! Sua irmã! — Ela deu passo à frente. Lento. Cuidadoso. — Você lembra? Lembra de mim?
Léo segurou a cabeça com as duas mãos. Grito de dor. Agonia. Dois sistemas lutando pelo controle do mesmo cérebro.
Os implantes tentando suprimir. As memórias tentando emergir.
— Kira... eu... eu não quero machucá-la...
— Eu sei. Eu sei que você não quer. — Ela tocou o braço dele. Suave. Como fazia quando eram crianças e ele tinha pesadelos. — Então não machuca. Volta pra mim. Por favor. Volta.
Andrew pousou ao lado. Silencioso. Sabia que não podia interferir. Era momento deles.
Léo caiu de joelhos. Mãos ainda na cabeça. Os implantes sobrecarregando. Faísca. Fumaça. Sistema entrando em colapso.
— Eu... eu lembro. — Voz saindo entre soluços. — Mãe. Pai. O acidente. Você chorando no hospital. Eu prometi cuidar de você. Prometi que a gente ficaria bem.
— Sim! Você prometeu! — Kira se ajoelhou na frente dele. Segurou o rosto dele com as duas mãos. — E você cuidou! Sempre cuidou! Você é o melhor irmão do mundo!
Léo olhou nos olhos dela. Realmente olhou. Viu. Reconheceu.
— Mana...
Kira chorou. Aliviada. Feliz. Ele tinha voltado. Finalmente tinha voltado.
Ela o puxou pra abraço. Apertado. Léo correspondeu. Tremendo. Chorando também.
— Eu sinto muito — ele sussurrou. — Sinto muito por tudo. Por te machucar. Por perseguir você. Eu não conseguia parar...
— Não foi sua culpa. Nunca foi.
Eles ficaram assim. Irmãos reunidos. Vínculo mais forte que tecnologia. Mais forte que controle mental.
Andrew sorriu. Primeira vez em horas.
Tinha funcionado. Contra todas as probabilidades. Tinha funcionado.
Mas então.
Som.
Helicóptero.
Alto. Próximo. Vindo rápido.
Andrew olhou pro céu. Viu. Preto. Logo da GENOS nas laterais.
— Merda.
Recaptura — 7h52 da manhã
O helicóptero desceu. Quarenta metros. Trinta. Vinte.
Alto-falante ligado. Voz de Dr. Salles. Amplificada. Fria.
— Sujeito 11. Reative protocolos. Ignore sentimentos. OBEDEÇA.
Léo gritou. De novo. Dor multiplicada por mil.
Os implantes receberam reforço remoto. Sinal mais forte. Transmissão direta do helicóptero.
A Voz voltou. Mais potente que nunca.
OBEDEÇA. OBEDEÇA. OBEDEÇA.
— NÃO! — Kira segurou ele mais forte. — NÃO DEIXA ELES TE LEVAREM! LUTA!
Ele lutou. Tentou. Mas era muito. A dor. O sinal. A programação.
Os olhos voltaram a brilhar. Azul artificial. Frio.
Expressão ficou neutra. Vazia.
Ele se levantou. Mecânico. Empurrou Kira gentilmente mas firmemente.
Olhou pra ela sem reconhecimento.
— Sujeito 10. Retorne à contenção.
— Não... — Kira recuou. Chorando. — Não, Léo, não...
Ele a pegou. Braço ao redor da cintura. Forte. Ela não lutou. Não conseguia. Não contra ele.
Andrew tentou intervir. Voou pra cima dos dois.
Mas guardas desceram do helicóptero. Seis. Uniformes táticos pretos. Autoinjetores vazios nos cintos.
Kraken-S já ativo.
Músculos inchados. Veias saltando. Olhos injetados. Velocidade e força multiplicadas.
Bloquearam Andrew. Cercaram.
Ele lutou. Soco derrubou um. Chute acertou outro. Mas eram muitos. Muito fortes. Se recuperavam rápido.
Samuel apareceu. Finalmente. Olhos brilhando azul. Veias acesas.
Disparou raio. Acertou um guarda. Ele caiu. Convulsionando.
Mas o helicóptero já estava subindo. Léo dentro. Kira também.
— KIRA! — Andrew gritou. Desesperado.
Ela olhou pra baixo. Da porta aberta do helicóptero. Lágrimas. Rosto quebrado.
Mas não gritou de volta. Não implorou. Sabia que isso só pioraria.
Só olhou. Memorizou o rosto de Andrew. De Samuel. Deste momento.
O helicóptero subiu. Cem metros. Duzentos. Virou. Voou em direção ao Bloco H.
Desapareceu.
Andrew caiu de joelhos. Punhos batendo no chão. Concreto rachando.
— NÃO! NÃO, PORRA!
Samuel ao lado. Ferido. Sangue no braço. Mas vivo.
— A gente vai buscá-la.
Andrew olhou pra ele. Olhos verdes brilhando de raiva. De dor.
— Como? Eles levaram ela de volta! A gente falhou!
— Então invadimos. — Samuel se levantou. Cambaleante mas determinado. — Agora. Hoje. Não espero mais.
— Não estamos prontos...
— Não importa. — Samuel estendeu a mão. — Ela precisa da gente. Agora. Não amanhã. Não na semana que vem. Agora.
Andrew olhou pra mão. Pra Samuel. Pro céu vazio onde Kira tinha estado.
Pegou a mão. Levantou.
Sirenes ficando mais altas. Polícia chegando.
— A gente precisa sair — Andrew disse.
Eles voaram. De volta ao QG. Deixando destruição pra trás.
QG, Perdizes — 8h20 da manhã
Quando chegaram, o grupo estava em choque.
Isadora andando de um lado pro outro. Culpando-se. Devia ter planejado melhor. Devia ter previsto helicóptero. Devia ter preparado contramedidas.
Joseph sentado. Cabeça entre as mãos. Dizendo que o dispositivo não estava pronto. Que precisava de mais tempo. Mais peças. Mais calibração.
Paulo furioso. Socando a parede. Deixando marcas. Gritando que era culpa dele. Que devia ter hackeado melhor. Rastreado melhor.
Camila chorando. Silenciosamente. Sentada no canto. Abraçando os joelhos.
Andrew entrou. Todos olharam.
Viram a expressão dele. Derrotada. Quebrada.
Ninguém precisou perguntar. Já sabiam.
Samuel falou. Voz firme. Sem espaço pra debate.
— Amanhã invadimos. Com ou sem preparo. Com ou sem dispositivo pronto. Não deixo Kira lá nem mais um dia.
Silêncio.
Então Paulo assentiu.
— Concordo.
Camila também.
— Eu vou junto.
Isadora parou de andar.
— Eu também. E vou fazer o melhor plano que conseguir nas próximas vinte e quatro horas.
Joseph levantou.
— Vou terminar o dispositivo. Mesmo que tenha que trabalhar a noite toda. Vai funcionar. Eu prometo.
Todos olharam pra Andrew. Esperando decisão final.
Ele olhou pra cada um. Seus amigos. Sua família.
E assentiu.
— Amanhã. Invadimos o Bloco H. Resgatamos todo mundo. E acabamos com isso de uma vez por todas.
Não havia escolha. Não mais.
Kira precisava deles. Léo precisava deles. Thiago, Bruno, Carla, Micheli — todos precisavam.
E eles não iam falhar de novo.
Bloco H, Cela 07 — 9h00 da manhã
Kira foi jogada de volta na cela.
Literalmente. Jogada. Ela caiu no chão de metal. Bateu o joelho. Dor subiu pela perna.
Os guardas saíram. Porta se fechou. Trancada. Selada.
Ela se levantou. Devagar. Tocou a parede. Fria. Sempre fria.
Estava de volta.
Mas dessa vez era diferente.
Sentia. Implantes mais fortes. Mais pesados. Como se tivessem instalado algo extra enquanto ela estava inconsciente no helicóptero.
A Voz veio. Mais alta que antes.
OBEDEÇA. ESQUEÇA. OBEDEÇA. ESQUEÇA.
Mas ela lutou. Repetiu nomes pra si mesma. Ancoragem.
— Kira Voss. Leonard Voss. Andrew Menning. Samuel da Luz. Não esqueço. Nunca esqueço.
A Voz tentou suprimir. Ela resistiu.
Porque tinha algo novo agora. Algo que não tinha antes.
Esperança.
Léo tinha hesitado. Por alguns segundos, ele tinha voltado. Tinha reconhecido. Tinha lembrado.
O vínculo era mais forte que a programação.
Ainda havia esperança.
E Andrew ia voltar. Ela sabia. Sentia.
Ele ia voltar pra buscá-la.
Só precisava aguentar até lá.
Sala de Controle — 9h15 da manhã
Dr. Salles assistia o monitor mostrando Kira na cela.
— Ela ainda resiste.
Spectro estava ao lado. Nas sombras. Sempre nas sombras.
— Deixe resistir. Torna mais satisfatório quando quebramos de vez.
— E Sujeito 11?
— Reforçar programação. Dobrar sessões de condicionamento. — Spectro caminhou em direção às sombras mais densas. — Na próxima vez que ele ver a irmã, não vai hesitar. Vai obedecer perfeitamente.
— E Andrew Menning?
— Virá. Amanhã. Talvez depois. Mas virá. — A voz ficou mais baixa. Predatória. — E quando vier, todos cairão. De uma vez. A armadilha está pronta. Só esperamos eles entrarem.
Dr. Salles sorriu.
— Mal posso esperar.
Spectro desapareceu completamente.
Dr. Salles voltou aos monitores. Seis celas. Seis prisioneiros. Logo seriam onze.
Ele já podia imaginar.
FIM DO CAPÍTULO 11
PRÓXIMO CAPÍTULO: MEMÓRIAS ENTERRADAS