os SUJEITOs
T2/E5
T2/E5
República Suprema, Cozinha - 6h30 da manhã
Andrew não tinha dormido.
Ele tinha passado a noite inteira sentado na janela do quarto, vendo São Paulo acordar devagar. As luzes da cidade se apagando uma por uma. O céu mudando de preto pra roxo, pra laranja, pra azul pálido. Pessoas saindo pra trabalhar. Carros enchendo as ruas. A vida seguindo.
Mas a vida dele tinha parado ontem à noite.
Meu pai está vivo.
Essas quatro palavras giravam na cabeça dele sem parar. Como disco arranhado. Meu pai está vivo. Meu pai está vivo. Meu pai está vivo.
— Andrew?
Ele piscou. Paulo estava na porta do quarto, cabelo bagunçado, olhos inchados de sono.
— Você não dormiu, né?
Andrew balançou a cabeça.
— Nem tentei.
Paulo entrou, sentou na cama.
— Eu também dormi mal pra caralho. Fiquei pensando em tudo que descobrimos. — Ele esfregou o rosto. — Sua cabeça deve estar um caos.
— Nem imagina.
Ficaram em silêncio por um minuto. Só os dois. Amigos desde criança. Irmãos de alma.
— Quer descer? — Paulo perguntou. — Fazer café. Conversar. Sei lá.
— Vamos.
Cozinha - 6h45 da manhã
Camila e Isadora já estavam lá. As duas sentadas à mesa, cada uma com uma xícara de café fumegante. Silenciosas. Olheiras fundas.
— Bom dia — Camila disse, mas a voz saiu cansada.
— Bom dia — Andrew respondeu no automático.
Isadora não falou nada. Só olhou pra ele. Aquele olhar dela que via tudo. Que entendia sem precisar perguntar.
Andrew foi até a cafeteira. Pegou uma xícara. Encheu. Tomou um gole. Estava quente demais, queimou a língua, mas ele nem sentiu.
Seus movimentos eram mecânicos. Robóticos. Como se estivesse no piloto automático.
Isadora notou. Ela sempre notava.
Ele estava em shutdown emocional. Defesa natural contra sobrecarga. Ela tinha estudado isso na aula de Psicologia Jurídica — o cérebro humano se desligava quando havia informação demais pra processar de uma vez.
Ela não disse nada ainda. Só observou. Anotou mentalmente. Esperou.
Paulo se serviu de café também e sentou. O silêncio voltou. Pesado. Desconfortável.
Foi Paulo quem quebrou.
— Eu... — Ele hesitou. — Eu encontrei mais coisas ontem à noite. Depois que todo mundo foi dormir.
Todos olharam pra ele.
— Que tipo de coisas? — Camila perguntou.
Paulo se levantou, foi buscar o laptop no quarto. Voltou dois minutos depois, abriu na mesa.
— Isso aqui. — Ele clicou em uma pasta. — Projeto Despertar. Catálogo completo de sujeitos.
Andrew se aproximou. Isadora e Camila também.
Na tela, uma planilha. Organizada. Detalhada. Nomes. Datas. Status. Poderes.
Paulo começou a ler em voz alta.
Lista de Sujeitos
A voz dele saiu meio trêmula.
— Sujeitos inativos. Ou seja... mortos. Ou descartados.
Ele rolou a tela.
Sujeito 01: Falecido durante ativação - 2018
Sujeito 02: Reação adversa fatal - 2019
Sujeito 08: Descartado - instabilidade mental - 2023
Sujeito 09: Falecido em contenção - 2023
Sujeito 12: Descartado - rejeição genética - 2024
— Cinco pessoas — Camila sussurrou, cobrindo a boca. — Meu Deus.
— E esses aqui — Paulo continuou, rolando mais. — Estão em ativação. Agora. Tipo... sendo transformados nesse exato momento.
Sujeito 13: Bruno Alcântara - Em ativação
Sujeito 14: Thiago Mendes - Em ativação
Sujeito 15: Carla Sousa - Em ativação
Camila fechou os olhos. Thiago. Bruno. Carla. Ela conhecia eles. Tinha conversado com eles. E agora...
Paulo rolou mais.
— Sujeitos ativos. Esses já foram transformados. Já têm poderes. Já foram... sei lá, ativados.
Sujeito 03: Ana Clara Santos - Fortaleza - Biocinese
Sujeito 04: Marcus Vinícius Moro - Curitiba - Auto-multiplicação
Sujeito 05: Marcelo Rodrigo Flecha - Foz do Iguaçu - Super velocidade
Sujeito 06: Samuel Henrique da Luz - São Paulo - Regeneração/Força/PEM/Eletrocinese
Sujeito 07: Micheli Cristina Barbosa - São Paulo - Manipulação mental
Sujeito 10: Kira Luma Voss - São Paulo - Manipulação energética
Sujeito 11: Leonard Engel Voss - São Paulo - Super força/Voo
E no topo da lista. Em destaque.
SUJEITO ZERO: Andrew Joseph Menning - TEMPLATE GENÉTICO ORIGINAL
Andrew ficou parado. Lendo aquilo. Relendo.
Sujeito Zero.
Template genético original.
As palavras não faziam sentido. Faziam sentido demais.
— Quinze pessoas — Camila disse, a voz saindo rouca. — Quinze. E cinco morreram.
Isadora não falou nada. Mas seus olhos estavam escaneando a tela. Lendo cada nome. Cada data. Cada cidade. Seu cérebro já estava processando. Procurando padrões. Conexões.
Paulo clicou em outro arquivo.
— Tem mais. Prontuário médico completo de Andrew. Desde que nasceu.
A tela encheu de documentos. Consultas. Exames. Vacinas. Raios-X. Tudo. Cada detalhe da vida dele. Documentado. Vigiado.
E no final do arquivo, uma nota.
"Sujeito Zero demonstra estabilidade genética excepcional. DNA mutado permanece estável por 18 anos sem degradação. É o único espécime viável para replicação em massa. Todas as tentativas de criação de meta-humanos sem base genética dele resultaram em falha catastrófica ou morte. Conclusão: Sujeito Zero é insubstituível. Captura deve ser prioridade máxima."
Paulo olhou pra Andrew.
— Eles precisam de você, cara. Sem seu DNA, não conseguem criar outros. Você é literalmente a chave pra tudo isso.
Crise
Andrew leu a frase de novo. E de novo. E de novo.
Então levantou. Devagar.
— Cada pessoa naquela lista — ele disse, voz baixa e rouca — cada um que sofreu. Que morreu. Foi por minha causa.
— Andrew, não — Isadora começou.
— Foi sim! — Ele se virou pra ela, e pela primeira vez tinha emoção na voz. Raiva. Culpa. Dor. — Bruno, Thiago, Carla, Kira, Leonard, Samuel... enfim... estas quinze pessoas sofreram ou estão sofrendo porque meu DNA existe. Cinco pessoas morreram porque a Tentáculos quer mais de mim!
Seus olhos começaram a brilhar. Verde pulsando.
Objetos na cozinha tremeram. A geladeira vibrou. Xícaras tilintaram. Uma cadeira raspou no chão sozinha.
— Andrew, você precisa se acalmar — Camila disse, se levantando devagar.
— COMO?! — Ele gritou, virando pra ela. Os olhos brilhando mais forte agora. — Como eu me acalmo sabendo que sou responsável por tudo isso?!
Uma xícara explodiu. Cacos voaram.
Paulo se levantou também, voz firme.
— Você não é responsável. A Tentáculos é. GENOS é. Spectro é. Eles tomaram decisões. Eles fizeram escolhas. Você foi vítima, Andrew. Não perpetrador.
— Mas se eu não existisse...
— Se você não existisse — Isadora cortou, voz calma mas autoritária — sua mãe teria morrido naquele acidente. Seu pai teria sido assassinado depois de tentar expor a Tentáculos. E eles teriam encontrado outra forma de criar meta-humanos. Outra vítima. Outro bebê inocente pra experimentar.
Ela se levantou, caminhou até ele.
— Pessoas más fazem coisas más, Andrew. Com ou sem você. A diferença é que você pode fazer algo agora. Pode salvar quem ainda está vivo. Pode oferecer refúgio pra quem escapar. — Ela segurou o rosto dele com as duas mãos. — Você não pediu pra nascer assim. Não pediu pra ser template. Mas agora que é... use isso. Use pra ajudar.
Andrew olhou nos olhos dela. Verdes nos castanhos.
A energia diminuiu. Os objetos pararam de tremer.
— Eu só... não sei como lidar com isso — ele sussurrou.
— Você não precisa lidar sozinho — Isadora disse, puxando ele pra um abraço. — Nunca precisou.
Paulo e Camila se juntaram. Abraço coletivo. Silencioso. Forte.
Ficaram assim por um minuto inteiro.
Quando se separaram, Andrew limpou os olhos com as costas da mão.
— Desculpa. Eu... desculpa.
— Não precisa — Camila disse.
— A gente entende — Paulo completou.
Análise
Voltaram pra mesa. Café já frio, mas ninguém ligou.
Isadora pegou o caderno dela — físico, não digital como Paulo — e começou a fazer anotações. Enquanto os outros conversavam sobre o que fazer, ela ficou em silêncio. Estudando a lista na tela.
Anotava. Cidades. Datas. Nomes.
Paulo notou.
— Isa, você está bem? Está muito quieta.
Ela levantou o dedo. Gesto de "espera, estou pensando". Continuou anotando.
Cinco minutos de silêncio concentrado.
Então ela falou.
— Tem um padrão aqui. E não é coincidência.
Todos olharam pra ela.
Isadora virou o caderno, mostrando as anotações organizadas.
— Olhem as cidades onde os Sujeitos desapareceram ou foram capturados.
Ela tinha feito uma lista limpa:
Ana Clara - Fortaleza, CE (2020)
Marcus Vinícius - Curitiba, PR (2021)
Marcelo Rodrigo - Foz do Iguaçu, PR (2021)
Samuel Henrique - São Paulo, SP (2022)
Micheli Cristina - São Paulo, SP (2022)
Kira Luma - São Paulo, SP (2023)
Leonard Engel - São Paulo, SP (2023)
Thiago, Carla, Bruno - São Paulo, SP (2024)
— E daí? — Paulo perguntou. — São só cidades diferentes.
— Não — Isadora disse. — Eu pesquisei cada uma dessas cidades enquanto vocês conversavam.
Ela abriu o laptop dela, que estava ao lado. Mostrou várias abas abertas. Notícias. Reportagens. Processos judiciais.
— Cada cidade tem algo em comum. Escândalos de corrupção envolvendo polícia, juízes ou promotores nos anos anteriores aos desaparecimentos.
Silêncio.
— O quê? — Camila perguntou.
Isadora começou a detalhar.
— Fortaleza, 2020. Ana Clara desaparece em março. Seis meses antes, em setembro de 2019, teve uma CPI que investigou corrupção na Polícia Civil. Doze delegados foram afastados. Três presos.
Ela mudou de aba.
— Curitiba, 2021. Marcus some em maio. Um ano antes, em 2020, Operação da Polícia Federal descobriu esquema de compra de sentenças. Juízes recebendo propina pra arquivar processos. Oito magistrados afastados.
Outra aba.
— Foz do Iguaçu, 2021. Marcelo desaparece em agosto. Três meses antes, em maio, juiz federal foi preso por ligações com crime organizado na tríplice fronteira.
E mais uma.
— São Paulo. Dezenas de casos de corrupção em diferentes distritos. Delegacias compradas. Varas controladas. Promotorias infiltradas. É contínuo. Sistemático.
Paulo estava de boca aberta.
— Você está dizendo que eles têm gente infiltrada na polícia? Nos tribunais?
— Não apenas infiltrada — Isadora corrigiu. — Eles controlam partes inteiras do sistema. Delegacias específicas. Varas específicas. Promotorias específicas.
Ela voltou pro caderno.
— Olhem. Quando Ana Clara desapareceu, a família dela registrou boletim de ocorrência. Foi na 5ª Delegacia de Fortaleza. Investigação foi arquivada em 48 horas. Sem explicação. Sem justificativa.
— Quando Marcus sumiu, ele estava de plantão como bombeiro. Investigação interna da PM concluiu "abandono voluntário de posto". Em 72 horas. Caso fechado.
— Marcelo? Família pobre. Sem recursos. Boletim foi registrado mas nunca investigado de verdade. Ficou parado por seis meses até ser arquivado por "falta de provas".
Camila estava horrorizada.
— Quantas pessoas estão envolvidas nisso?
— Dezenas — Isadora disse. — Talvez centenas. E não só operacionais. Tem advogados. Juízes. Delegados. Promotores. Uma rede inteira de corrupção protegendo o GENOS.
Andrew olhou pra ela, impressionado.
— Como você descobriu tudo isso tão rápido?
Isadora deu de ombros, quase tímida.
— Pesquisa básica de casos jurídicos. É só saber onde procurar. A informação está disponível publicamente. Só ninguém tinha conectado os pontos antes.
Ela fechou o caderno.
— Isso muda tudo. Significa que não podemos confiar na polícia. Não podemos denunciar formalmente. Qualquer tentativa de usar vias legais será bloqueada imediatamente.
Ela olhou pra cada um deles.
— Estamos sozinhos nisso. Completamente sozinhos.
Decisão
O silêncio que seguiu foi pesado.
Paulo foi o primeiro a falar.
— Então... a gente realmente não tem pra quem recorrer. Nenhuma autoridade. Nada.
— Só nós quatro contra uma organização que controla polícia, juízes e sei lá mais o quê — Camila completou.
Andrew se levantou. Caminhou até a janela. Olhou lá pra fora.
— Então fazemos do nosso jeito.
Virou pra eles.
— Primeiro, salvamos meu pai. Segundo, salvamos Thiago, Bruno e Carla. Terceiro... encontramos os outros Sujeitos. E oferecemos ajuda.
— Tipo recrutar? — Camila perguntou.
— Tipo oferecer escolha — Andrew corrigiu. — Ninguém é obrigado. Mas se quiserem ajuda, a gente oferece refúgio.
Isadora torceu a boca, pensando.
— Isso é... é montar um exército, Andrew.
Ela falou com cuidado, mas firme.
— Você percebe o que está propondo? Reunir meta-humanos. Criar uma força paramilitar. Isso é complicado. Legalmente. Eticamente.
— Não é exército — Andrew disse. — É defesa.
— A Tentáculos tem Spectro, Dr. Salles, soldados, tecnologia — Paulo argumentou. — A gente tem o quê? Quatro universitários, um com superpoderes. Não basta, Isa. A gente morre.
Isadora ficou em silêncio. Processando.
Então assentiu devagar.
— Ok. Entendo a lógica. Mas precisamos ser estratégicos sobre isso.
Ela abriu o caderno de novo. Começou a escrever.
— Se vamos fazer isso — e parece que vamos — precisamos de protocolo.
Anotou enquanto falava:
Localizar cada Sujeito ativo
Avaliar situação individual - presos? Livres? Ameaçados?
Abordagem cuidadosa - não assustá-los
Oferecer refúgio, não recrutamento forçado
Se aceitarem, trazer pra local seguro
Só depois disso, planejar resgate dos prisioneiros
— Isso faz muito sentido — Camila disse, lendo por cima do ombro dela.
— Você pensou nisso tudo agora? — Paulo perguntou, impressionado.
— É só organizar logicamente — Isadora disse, meio sem graça. — Ordem de prioridades.
Andrew sorriu. Primeira vez em horas.
— Você é incrível.
Dividiram tarefas rapidamente.
Paulo localizaria os Sujeitos. Endereços. Rotinas. Situações.
Camila montaria perfis psicológicos — como abordar cada um sem assustá-los.
Isadora criaria protocolos de segurança. Rotas de fuga. Planos B, C, D.
Andrew ficaria pronto pra buscá-los quando fosse seguro.
— Então é oficial? — Paulo perguntou.
— É oficial — Andrew confirmou.
Isadora acrescentou, prática:
— Mas primeiro precisamos de lugar seguro pra trazê-los. Esta república não serve. É pequena demais. Exposta demais.
Todos concordaram. Mais um problema pra resolver.
Rastreamento
Andrew tinha ido pro galpão à tarde.
Precisava desabafar fisicamente. Treinar. Bater em algo que não se machucasse.
Passou horas praticando. Levitação de objetos grandes. Raios concussivos de precisão. Voo em velocidade alta.
Estava tão concentrado que quase não percebeu.
Mas então sentiu.
Alguém observando.
Parou no ar. Virou a cabeça devagar. Usou visão telescópica pra varrer os arredores.
Nada visível.
Mas a sensação não passava.
Ativou visão de raio-X. Olhou através das paredes. Do teto.
E viu.
No teto. Camuflado na ferrugem. Um dispositivo minúsculo. LED vermelho piscando.
Andrew voou até lá. Arrancou com força.
Era sensor de alta tecnologia. Ainda ativo. Transmitindo.
— Merda — ele sussurrou.
Esmagou o sensor na mão. Cacos eletrônicos caíram no chão.
Coração acelerado. Eles sabiam. Sabiam sobre o galpão. Sabiam onde ele treinava.
Voou de volta pra República em velocidade máxima. Entrou pela janela do quarto dele, gritando:
— PAULO!
Análise Técnica
Paulo analisou os fragmentos do sensor na mesa da cozinha.
— Isso é militar — ele disse, virando os pedaços com uma pinça. — Rastreamento de radiação de baixo nível.
— O quê? — Andrew perguntou.
— Eles não te seguem visualmente. Seguem tua assinatura energética. — Paulo pegou um pedaço maior. — Você emite radiação constantemente. Baixa. Inofensiva. Mas detectável com equipamento certo.
— Tipo deixar rastro invisível por onde eu passo?
— Exatamente.
Andrew sentou, cabeça nas mãos.
— Então sempre sabem onde eu estou.
— Provavelmente — Paulo admitiu. — Mas tem lado bom.
— Qual?
— Se te rastreiam passivamente, significa que não acham que você é ameaça imediata. Só observam. Esperando você fazer alguma coisa.
— Tipo invadir Bloco H pra salvar meu pai?
— Exatamente. É armadilha.
Andrew olhou pra ele.
— Eu sei. Mas vou mesmo assim.
Reunião Final
Noite. Todos na sala.
Paulo tinha passado o dia localizando os Sujeitos ativos.
— Ana Clara em Fortaleza. Marcus em Curitiba. Marcelo em Foz — Sujeito 15. Todos expostos ao soro derivado do DNA de Andrew há dois a quatro anos. Todos sobreviveram. Todos desenvolveram habilidades.
— E os de São Paulo? — Camila perguntou.
— Samuel da Luz, Kira, Léo, Micheli. Todos concentrados aqui. Não é coincidência.
Camila tinha encontrado algo também.
— Artigos científicos antigos de Joseph Menning. Antes do acidente, ele escreveu sobre "ativação meta-genética segura". Tentou criar protocolos éticos. — Ela mostrou no tablet. — A Tentáculos ignorou tudo.
Isadora tinha ficado quieta de novo. Anotando no caderno.
Finalmente falou.
— Tenho três observações importantes.
Observação 1 - Padrão Temporal
— Olhem as datas de captura. Elas aceleram.
Mostrou a timeline no caderno:
2020: 1 captura (Ana Clara)
2021: 2 capturas (Marcus, Marcelo)
2022: 2 capturas (Samuel, Micheli)
2023: capturas (Kira, Léo)
2024: 3 capturas em 2 semanas (Thiago, Bruno, Carla)
— Eles estão acelerando operações. Algo mudou. Algo os deixou urgentes.
— A chegada de Andrew em São Paulo — Paulo disse. — Sujeito Zero no território deles.
Observação 2 - Vulnerabilidade Legal
— Todos os Sujeitos ativos têm algo em comum além da genética.
Mostrou outra lista:
Ana Clara: órfã, sem família próxima
Marcus: família distante, pouco contato
Marcelo (Sujeito 15): família pobre, sem recursos
Samuel da Luz: sem registros familiares
Kira e Léo: família morreu em acidente 6 meses antes da captura
Micheli: sem família conhecida
Thiago: órfão criado pela avó (já falecida)
Bruno: morava sozinho, família em outro estado
Carla: família sem recursos, dependente de empréstimos
— Eles escolhem pessoas que ninguém vai procurar. Ou que, se procurarem, não têm recursos pra investigar direito. É sistemático. Predatório.
Observação 3 - Janela de Oportunidade
— Baseado no padrão de aceleração e no número de Sujeitos ainda em processo, estimo que temos no máximo duas a três semanas antes que comecem novas capturas.
— Se quisermos salvar os que estão presos e recrutar os que estão livres, precisamos agir rápido. Mas não precipitado. Rápido e inteligente são coisas diferentes.
Andrew estava impressionado.
— Como você viu tudo isso?
— É só olhar os dados direito. Conectar informações. Não é genialidade. É método.
— É genialidade sim — Camila disse. — Ninguém mais viu.
Paulo concordou.
— Você tem razão sobre os prazos. Precisamos começar logo.
Isadora propôs cronograma:
Semana 1: Localização precisa + preparação de refúgio seguro
Semana 2: Primeiro contato com Sujeitos livres (começar com Samuel, que está em SP)
Semana 3: Invasão ao Bloco H (se tivermos reforços)
— Não é ideal invadir sem ajuda. Mas se não conseguirmos recrutar ninguém, invadimos mesmo assim. Porque a cada dia que passa, Thiago, Bruno e Carla sofrem mais.
— Você pensou em tudo, né? — Andrew perguntou.
— Tentei. Mas imprevistos vão acontecer. Sempre acontecem. Por isso precisamos de planos B, C e D pra cada etapa.
Paulo riu.
— Você é assustadoramente organizada.
Isadora sorriu.
— Alguém precisa ser, já que vocês são todos impulsivos.
Encerramento
Andrew respirou fundo.
— Eu passei o dia achando que era culpa minha. Que cada morte, cada tortura, era porque eu existo.
— E é verdade, num certo sentido. Sem mim, GENOS não existiria.
— Mas Paulo tem razão. Eu não escolhi isso. Nasci assim porque meu pai foi herói. A Tentáculos torceu isso em algo sujo. Então não. Não é minha culpa.
Ele olhou pra cada um deles.
— Mas é minha responsabilidade. Não culpa. Responsabilidade.
— Essas pessoas - Kira, Léo, Thiago, todos - existem por causa do meu DNA. Então tenho responsabilidade de ajudá-los. Salvá-los se conseguir. Oferecer refúgio se precisarem.
— Isso é muito pra carregar sozinho — Camila disse.
— Boa coisa que não estou sozinho.
Paulo sorriu.
— Então é oficial? Montamos uma... equipe?
Isadora, meio brincando:
— Uma liga?
Andrew riu.
— Talvez.
Ficou sério de novo.
— Mas quando formos ao Bloco H, vai ser perigoso. Muito. Spectro estará esperando. Se alguém quiser ficar de fora, eu entendo. Não julgo.
Silêncio.
— Nem ferrando — Paulo disse.
— Já decidimos ontem — Camila completou.
Isadora olhou pra Andrew.
— Você está preso comigo, amor. Acostuma.
Ele sorriu. Puxou ela pra um beijo.
— Ok. Amanhã começamos a planejar de verdade.
— Eu continuo procurando os outros — Paulo disse.
— Eu monto perfis psicológicos — Camila ofereceu.
— E eu crio os protocolos táticos — Isadora finalizou. — Cada fase. Cada contingência. Vamos fazer isso direito.
Bloco H - Sala de Controle - 23h30
Dr. Salles assistia aos monitores.
Andrew na janela da República. Se preparando pra dormir.
— Ele aceitou — Dr. Salles murmurou pra si mesmo. — Aceitou a responsabilidade. Exatamente como previsto.
Uma voz atrás dele. Distorcida. Fria.
— A fase dois pode começar?
Dr. Salles nem se virou. Já estava acostumado com as entradas dramáticas de Spectro.
— Sim. Ele virá. E trará companhia. Os amigos. Humanos comuns. Fraquezas perfeitas.
Spectro se aproximou dos monitores.
— E Joseph?
— Joseph está preparando armadilha sem saber. Acredita que sabota sistemas, mas cada ação nos aproxima do objetivo.
Spectro olhou pro monitor mostrando a cela de Joseph. O cientista dormia encostado na parede fria.
— Pai e filho. Reunidos. Capturados. Estudados. Replicados. O ciclo se completa.
— Quanto tempo até ele vir? — Dr. Salles perguntou.
— Não muito. A impaciência da juventude.
— E se trouxer outros Sujeitos ativos?
Spectro riu. Som distorcido. Mecânico. Assustador.
— Melhor ainda. Reuniremos todos de uma vez. Sujeito Zero e suas cópias imperfeitas. Será... poético.
Dr. Salles desligou os monitores. Todos menos o de Joseph.
— Ele parece em paz quando dorme.
— Aproveite enquanto pode — Spectro disse. — Logo estará acordado. E gritando. Como todos gritam no final.
Spectro desapareceu nas sombras.
Dr. Salles ficou sozinho.
No monitor, Joseph se mexeu. Murmurou algo baixinho. Quase inaudível.
— Andrew... cuidado... é armadilha...
Mas ninguém estava ouvindo.
FIM DO CAPÍTULO 5
PRÓXIMO CAPÍTULO: PRIMEIRA COLISÃO