Sertão do Ceará, Estrada de Terra — Ano 2, Mês 1
O sol batia na terra rachada com uma violência que parecia pessoal. O ar tremia no horizonte, transformando a linha entre céu e terra numa miragem líquida. Wagner tinha parado de contar os dias fazia tempo. Talvez duas semanas. Talvez um mês. O tempo tinha perdido significado quando cada passo se tornava uma negociação com o próprio corpo para não desabar.
Suas roupas eram trapos. A barba cobria metade do rosto, emaranhada e suja de poeira vermelha. A mochila nas costas pesava menos agora — ele tinha comido a última lata de sardinha três dias atrás. A água tinha acabado ontem. Seus lábios estavam rachados, sangrando nas bordas. Cada respiração ardia na garganta seca.
Mas ele continuava andando.
Um passo. Depois outro. Depois outro.
Porque parar significava morrer. E ele não podia morrer ainda.
Ainda tinha nomes na lista.
O calor do meio-dia era insuportável. Wagner tropeçou numa pedra e caiu de joelhos. A terra vermelha grudou em suas mãos, nas roupas. Ele tentou se levantar, mas as pernas não obedeceram.
— Levanta. — Ele sussurrou pra si mesmo, a voz rouca. — Levanta, caralho.
Nada.
Ele tentou de novo. Os músculos tremeram, falharam. Ele desabou de bruços no chão quente, a respiração saindo em soluços secos.
E foi quando viu.
No horizonte, onde a miragem de calor distorcia tudo, algo sólido começou a se formar. Não era ilusão. Era pedra.
Wagner piscou, tentando focar a visão embaçada.
Uma construção. Grande. Imponente. Torres baixas de pedra clara refletindo o sol. Muros altos cercando o perímetro. E ao redor... verde.
Impossível.
No meio da caatinga seca, queimada pelo sol, havia um oásis verde. Campos cultivados. Árvores. O brilho de água correndo em canais de irrigação.
Wagner forçou o corpo a se mexer. Rastejou. Centímetro por centímetro. Cada movimento era uma agonia, mas ele não parou. Não podia parar.
Quanto mais se aproximava, mais o lugar se revelava. Não era um miragem. Era real. Um mosteiro. Construção antiga, estilo português, com pátios internos visíveis através de janelas arqueadas. Pessoas trabalhavam nos campos — silhuetas distantes se movendo com a calma de quem conhece cada centímetro da terra.
O som chegou aos poucos. Mugidos de gado. O barulho de água sendo despejada nos tanques de peixe. Vozes baixas, disciplinadas, dando ordens.
Wagner arrastou-se até o portão. Pesado. Madeira escura reforçada com ferro batido. Ele bateu. Uma vez. O som ecoou, mas ninguém respondeu.
Ele bateu de novo. Mais fraco dessa vez.
E então suas forças acabaram.
Wagner desabou no chão de terra batida, a visão escurecendo nas bordas. A última coisa que ele viu antes de perder a consciência foi o portão se abrindo. Dois homens descendo. Mãos fortes o levantando como se ele fosse um animal ferido encontrado no deserto.
E então... escuridão.
Mosteiro Divina Providência, Cela de Recuperação — Três Dias Depois
Wagner acordou deitado num colchão fino sobre um estrado de madeira. O teto era baixo, de pedra. Uma única janela estreita deixava entrar um fio de luz. A cela cheirava a cal e ervas secas.
Ele tentou se sentar e cada músculo do corpo protestou. As mãos estavam enfaixadas. Os pés também. Alguém tinha cuidado dos ferimentos.
A porta se abriu. Um homem entrou. Alto, magro, pele queimada de sol, cabelo cortado rente. Ele usava roupas simples: calça de brim, camisa de algodão cru, botas gastas. Na cintura, um terço de contas escuras.
— Você tá acordado. — O homem disse, a voz grave mas não hostil. — Bom sinal.
Wagner tentou falar, mas a garganta estava seca demais. O homem pegou uma caneca de barro de uma mesinha e ofereceu. Água. Fria. Wagner bebeu tudo de uma vez, sentindo a vida voltar.
— Obrigado. — Ele conseguiu dizer.
— Não me agradeça ainda. — O homem pegou a caneca de volta. — Você tá vivo porque a Ordem decidiu que vale a pena te manter vivo. Se provar o contrário, você volta pro deserto.
— Ordem?
— A Ordo Sanctae Vindictae. Ordem da Sagrada Vingança — O homem cruzou os braços. — Esse mosteiro, é conhecido pelos populares e pessoas comuns, como Mosteiro Divina Providência, mas seu nome verdadeiro é Monasterium Divinae Vindictae, Mosteiro da Divina Vingança, e existe há trezentos anos. Nós somos agricultores, criadores, pescadores. E também somos outras coisas. Coisas que o mundo lá fora paga caro pra não saber.
Wagner processou as palavras devagar.
— Assassinos.
— Entre outras coisas. — O homem assentiu. — Eu sou o Magister Severus. Sou o responsável pelos Novicius. E você, rapaz, vai começar como Novicius se quiser ficar aqui.
— Novicius?
— É o candidato da Ordem, que coopera com a terra antes de cooperar com a lâmina. — Severus caminhou até a porta. — Descanse hoje. Amanhã, você trabalha.
E saiu, fechando a porta atrás de si.
Wagner ficou deitado, olhando pro teto de pedra. Ele tinha andado por meses procurando... algo. Qualquer coisa que pudesse transformá-lo no que precisava ser.
E tinha encontrado.
Campos de Cultivo do Mosteiro — Semana 2
Wagner enfiou a enxada na terra dura, o suor escorrendo pelo rosto. O sol estava alto, queimando sem piedade. Suas mãos, mesmo enfaixadas, sangravam onde bolhas tinham estourado e virado calos. Ele trabalhava há seis horas sem parar.
Ao redor, outros novicius faziam o mesmo. Homens e mulheres de várias idades, todos vestindo roupas simples, todos trabalhando em silêncio. O único som era o de enxadas cortando terra, água sendo despejada nos canais, e ocasionalmente, uma ordem curta de Severus supervisionando.
Wagner odiava aquilo.
Ele não queria ser fazendeiro. Queria aprender a matar. Se transformar numa arma. Pra voltar ao Rio e fazer todos que mataram Vivian pagarem.
Mas aqui estava ele. Cavando. Plantando. Carregando sacos de cinquenta quilos de um lado pro outro.
— Você tá com raiva. — Severus apareceu do lado dele, observando. — Tá na cara.
Wagner não respondeu. Apenas continuou cavando.
— Acha que esse trabalho é inútil. — Severus continuou. — Acha que tá perdendo tempo enquanto seus inimigos respiram.
— Estou.
— Não tá. — Severus pegou uma enxada e começou a cavar ao lado de Wagner. — Cada vez que você enterra essa lâmina na terra, você fortalece os tendões. Cada saco que carrega aumenta sua resistência. Cada hora sob o sol te ensina a ignorar desconforto. — Ele parou e olhou pra Wagner. — A terra não mente. Ela não negocia. Você planta, você colhe. Você falha, você passa fome. É honesta. E honestidade é o que você precisa agora.
Wagner cravou a enxada com mais força do que necessário.
— Eu preciso de vingança.
— Não. Você quer vingança. — Severus voltou a cavar. — Mas o que você precisa é disciplina. Porque vingança sem disciplina é só raiva desperdiçada. E raiva desperdiçada te mata antes de matar seus inimigos.
Ele se afastou, deixando Wagner sozinho com a enxada e a terra dura.
Wagner continuou trabalhando. E odiando cada segundo.
Mas seus braços ficavam mais fortes.
Currais de Gado do Mosteiro — Mês 3
O cheiro era insuportável. Esterco, urina, o calor dos animais apertados no curral. Wagner segurava um balde cheio de ração, despejando nos cochos enquanto o gado se acotovelava, mugindo alto.
Depois dos currais, ele foi pros chiqueiros. Porcos enlameados grunhindo enquanto ele limpava o chão fedorento com uma pá e um rodo. O líquido escorria pelos canais de drenagem, levando a sujeira pra fora.
À tarde, ele aprendeu a ordenhar cabras. As mãos tinham que ser firmes mas gentis. Muita força e o animal chutava. Pouca força e o leite não saía. Era um equilíbrio. Como tudo ali.
E então veio a parte que Wagner não esperava.
O abate.
Severus o levou até um galpão nos fundos. Dentro, três porcos grandes já estavam separados. Um dos irmãos mais velhos — um homem de uns sessenta anos chamado Frater Lanista — afiava uma faca longa.
— Você come carne aqui? — Magister Severus perguntou.
— Como.
— Então precisa entender de onde ela vem. — Severus apontou. — Frater Lanista vai te ensinar.
Frater Lanista chamou Wagner com um gesto. O porco foi imobilizado. A faca entrou rápida, certeira, na jugular. O sangue jorrou quente, recolhido num balde. O animal lutou por segundos, depois ficou imóvel.
Wagner sentiu o estômago revirar. Mas não desviou os olhos.
— Você sente pena? — Lanista perguntou, limpando a faca.
— Sinto.
— Bom. — o frater assentiu. — Significa que você ainda é humano. Mas presta atenção: esse animal viveu bem aqui. Comeu bem. Foi tratado com respeito. E quando chegou a hora, a morte foi rápida. Sem medo prolongado. Sem sofrimento desnecessário. — Ele olhou pra Wagner. — É assim que a Ordem ensina a matar. Com respeito. Com precisão. E apenas quando necessário.
Lanista lhe deu a faca. — Agora você. — O frater ensinou o movimento, a força e a pressão que tinha que exercer para um corte limpo e preciso, sem causar sofrimento.
Wagner pegou a faca, hesitou por um segundo e fez o movimento na jugular do porco, o sangue jorrando no balde, o animal lutando por segundos, depois ficando imóvel.
Wagner olhou pro corpo do porco. Depois pras próprias mãos, manchadas de sangue.
E algo dentro dele mudou.
Morte não era abstrata. Não era uma bala no escuro ou uma explosão distante. Era isso. Era sangue quente. Era o peso de uma vida se apagando. Era responsabilidade.
E se ele ia matar os responsáveis por Vivian... precisava entender esse peso.
Precisava carregar ele com honra.
Pátio Central do Mosteiro — Mês 5, Noite
Wagner terminara o dia nos campos. Estava sujo de terra, os músculos doendo, mas de um jeito bom. Um cansaço honesto. Ele voltava pra cela quando ouviu.
Som de metal batendo. Rápido. Preciso.
Ele seguiu o som até o pátio central. Tochas acesas nas paredes de pedra iluminavam a área. E ali, dez guerreiros treinavam.
Eles usavam roupas escuras. Túnicas leves que não impediam movimento. Facas, espadas curtas, bastões. Eles se moviam como dançarinos, mas cada movimento era letal. Golpes que terminavam a centímetros da garganta do parceiro. Esquivas que pareciam impossíveis. Saltos que os levavam de um nível a outro da arquitetura de pedra.
Wagner ficou na sombra, observando.
Um dos guerreiros — uma mulher de uns trinta anos, cabelo preso num coque apertado — correu em direção à parede. Três passos na vertical. Um giro. Aterrissou atrás do oponente. A faca tocou as costas dele antes que ele pudesse reagir.
— Visto. — Ela disse.
O oponente assentiu, reconhecendo a derrota.
Wagner sentiu algo apertar no peito. Inveja. Desejo. Ele queria ser assim. Queria essa graça, essa letalidade, essa confiança absoluta no próprio corpo.
— Admirando o espetáculo?
Wagner virou. Severus estava ao lado dele, os braços cruzados.
— Quanto tempo até eu treinar com eles?
— Quando você estiver pronto.
— E quando é isso?
— Quando eu decidir. — Severus olhou pra ele. — Você ainda acha que força bruta é suficiente. Que raiva vai te levar até seus inimigos. Mas olha pra eles. — Ele apontou pros guerreiros. — Não vê raiva. Vê controle. Vê calma. Vê precisão. Essa é a diferença entre um assassino e um cadáver.
Wagner cerrou os punhos.
— Eu aprendo rápido.
— Vamos ver.
Pátio Central do Mosteiro — Mês 6, Manhã
Magister Severus chamou Wagner pro pátio logo após o amanhecer. Ele estava lá, sozinho, segurando um bastão de madeira.
— Você quer treinar? — Severus girou o bastão. — Então me desafie. Me acerte uma vez e você entra no treinamento avançado.
Wagner pegou outro bastão que estava apoiado na parede. Ele tinha trabalhado duro. Seus músculos estavam definidos. Suas mãos eram puro calo. Ele estava mais forte do que nunca.
Ele investiu.
Severus o derrubou em dois segundos.
Wagner nem viu o movimento. Apenas sentiu suas pernas sendo varridas e seu corpo batendo no chão de pedra. A dor explodiu nas costas.
— Levanta. — o Magister disse, calmo.
Wagner se levantou, a raiva fervendo. Ele atacou de novo. Mais rápido. Mais agressivo.
Severus desviou, girou, e o bastão bateu na lateral do joelho de Wagner. Ele caiu de novo.
— Levanta.
Wagner tentou cinco vezes. Foi derrubado cinco vezes.
Na sexta, ele ficou no chão, a respiração saindo aos soluços, o corpo todo gritando.
Severus se abaixou ao lado dele.
— Sabe qual foi seu erro?
— Fui lento.
— Não. Você foi emocional. — O magister tocou o peito de Wagner. — Você ataca com raiva. Mas raiva te deixa previsível. Eu li cada movimento antes de você fazer porque você telegrafou com os olhos, com os ombros, com a respiração. — Ele se levantou. — A terra te ensinou paciência. Agora você precisa aprender silêncio. Silêncio da mente. Porque um guerreiro silencioso é invisível até o momento do golpe.
Wagner ficou deitado ali por longos minutos. Olhando pro céu azul perfeitamente limpo.
E finalmente, ele entendeu.
Ele não estava pronto.
Mas ia estar.
Biblioteca do Mosteiro — Mês 8
A biblioteca era surpreendente. Dois andares de estantes de madeira escura carregadas de livros e pergaminhos amarelados, mapas de Portugal e do Brasil colonial. Textos sobre estratégia militar, filosofia, história, medicina, venenos, etiqueta social, idiomas. Tudo.
Wagner foi retirado dos campos e colocado ali. Soror Rhetorica — uma mulher de sessenta anos com olhos afiados — era a responsável.
— Você vai aprender a se mover em sociedade. — Ela disse, colocando um livro na frente dele. — Um assassino precisa entrar em palácios tanto quanto em becos. E você não entra num palácio vestindo trapos e cheirando a esterco.
Ela lhe deu roupas novas. Linho branco. Calça bem cortada. Camisa leve. Ele passou de lavrador a... outra coisa.
As aulas começaram.
Como sentar à mesa. Como segurar talheres. Como conversar sem revelar informação. Como ler micro expressões. Como mentir sem piscar.
— A etiqueta não é sobre respeito. — Soror Rhetorica disse. — É sobre camuflagem. Você se comporta como eles, fala como eles, veste como eles. E quando estão confortáveis, quando confiam em você... — Ela fez um gesto de cortar a garganta. — Aí você ataca.
Wagner absorveu tudo como esponja. Ele aprendeu seis idiomas básicos. Aprendeu a servir um jantar de dez pratos sem cometer um erro. Aprendeu a dançar. A fazer reverências. A cumprimentar dignitários.
E à tarde, ele voltava pros campos. Cobria as mãos com terra. Abatia animais. Limpava chiqueiros.
A dualidade era proposital.
Um assassino perfeito precisa transitar entre dois mundos sem pertencer a nenhum.
Tanques de Peixe do Mosteiro — Mês 11, Noite
Magister Severus acordou Wagner no meio da noite.
— Levanta. É hora do teste.
Wagner se vestiu rápido. Seguiu Severus até os tanques de peixe nos fundos do mosteiro. Grandes, retangulares, cheios de tilápias criadas pra alimentação. A água estava escura sob a lua minguante.
Três homens estavam parados na margem. Silenciosos. Observando.
Severus amarrou os pulsos de Wagner com corda. Depois os tornozelos.
— Você tem dez minutos pra se soltar, emergir sem ser detectado, e neutralizar os três guardas. — Severus apertou o nó. — Se falhar, você volta pros campos e esquece de algum dia ser guerreiro.
— E se eu conseguir?
— Aí você se torna Sicarius. E pode começar a caçada que te trouxe até aqui.
Severus o empurrou.
Wagner caiu na água. Fria. O choque roubou o ar dos pulmões. Ele afundou, a corda apertando os pulsos, os tornozelos. A escuridão era total.
Pânico tentou subir, mas ele forçou pra baixo.
Calma. Silêncio. Precisão.
Ele contorceu o corpo. Tentou alcançar o nó nos tornozelos com as mãos amarradas. Não conseguiu. Tentou de novo. Os pulmões começaram a queimar.
E então sentiu.
O pulso no peito. A luz verde. Fraca, mas presente.
O metagene.
Oxigênio começou a fluir de forma impossível. Não pelos pulmões. Pela própria pele. Pelas veias. Como se o corpo tivesse reescrito as regras da biologia.
Wagner continuou trabalhando no nó. Dessa vez, com calma. Com tempo.
Os dedos encontraram o laço certo. Puxou. O nó cedeu. Tornozelos livres. Depois os pulsos.
Ele olhou pra cima. As silhuetas dos três guardas contra a lua. Imóveis. Esperando.
Wagner nadou devagar. Silencioso. Sem quebrar a superfície. Chegou na beirada do tanque oposta aos guardas. Emergiu devagar. Apenas os olhos e o nariz fora da água.
Nenhum dos guardas percebeu.
Ele saiu da água como uma sombra. Pegou uma pedra no chão. Atirou longe. A pedra bateu num balde de metal.
Os três guardas viraram pra o som.
Wagner se moveu.
Primeiro guarda: golpe na nuca com a lateral da mão. Desmaiou antes de cair.
Segundo guarda: braço ao redor do pescoço, pressão na carótida. Desmaiou em cinco segundos.
Terceiro guarda virou, viu Wagner. Tentou gritar. Wagner tampou a boca dele, varreu as pernas, controlou a queda. Pressão no pescoço. Desmaiou.
Silêncio.
Severus apareceu das sombras, aplaudindo devagar.
— Sete minutos. — Ele sorriu. — Bem-vindo à Ordem, Sicarius.
Wagner ficou ali, pingando água, o peito subindo e descendo. A luz verde sob a pele já tinha apagado.
Ele tinha passado.
Agora... agora ele podia começar a verdadeira caçada.
Pátio Central do Mosteiro — Mês 12, Amanhecer
Wagner estava ajoelhado no centro do pátio. A Ordem inteira ao redor — Novicius, Fratres e Sorores, Magistri. Magister Severus à frente, segurando uma túnica escura dobrada.
— Você veio até nós quebrado. — Severus disse, a voz ecoando no pátio. — Veio com raiva, com dor, com sede de vingança. E nós não tiramos isso de você. Apenas moldamos. Como a agua molda a terra. Como o fogo molda o ferro.
Ele desdobrou a túnica e colocou nos ombros de Wagner.
— Você agora é um Sicarius. Carrega a lâmina com respeito. Mata apenas quando necessário. E lembra sempre: você serve à Ordem primeiro. Sua vingança vem depois.
— Wagner ficou na poeira da estrada. — Magister Severus continuou —Wagner morreu de sede na estrada. O que restou foi o barro que nós moldamos. De hoje em diante, no registro da Ordem Sanctae Vindictae, seu nome é Polyborus. O olhar que tudo vê, a garra que nunca solta."
Wagner se levantou. A túnica pesava nos ombros. Não pelo tecido. Pelo que representava.
Ele não era mais Wagner Cavalieri.
Ele era outra coisa agora.
Uma sombra com propósito.
E quando saísse dali...
O Rio ia conhecer sua vingança.
Portão do Mosteiro — Três Semanas Depois
Um caminhão preto e reluzente parou em frente ao portão. Vidros escuros. Motor silencioso. Caro.
Dois homens desceram. Ternos impecáveis. Maletas de metal.
Magister Severus os recebeu. Conversaram baixo. Dinheiro trocou de mãos. As maletas foram abertas. Dentro: munição, equipamentos de comunicação, passaportes falsos.
Wagner observava de longe.
O mundo lá fora pagava pela Ordem. E a Ordem entregava.
Morte. Silêncio. Resultados.
E agora...
Wagner fazia parte disso.
FIM DO CAPÍTULO 8