Ecos no Campus
T2/E2
T2/E2
Faculdade de Medicina da USP - 6h30 da manhã, quinta-feira
O despertador de Camila tocou com aquele som irritante que ela ainda não tinha descoberto como mudar. Seis da manhã. Ela rolou na cama, pegou o celular e desligou o alarme com um toque cansado. Lá fora, São Paulo ainda estava meio escuro, o sol começando a pintar o céu de laranja.
Primeira aula às sete e meia. Anatomia. De novo.
Ela arrastou o corpo para fora da cama, sentindo o frio do piso nos pés descalços. A República estava silenciosa - todo mundo ainda dormindo. Camila invejou por um segundo os amigos que tinham aula só às nove, mas logo afastou o pensamento. Ela tinha escolhido Medicina. Sabia no que estava se metendo.
No banheiro compartilhado, escovou os dentes olhando seu reflexo no espelho embaçado. Olheiras. Precisava dormir melhor. Mas como, com aquela sensação estranha que não saía da cabeça? Aquela área restrita. Os seguranças. O cheiro químico que não era normal.
Paranoia, ela se disse pela décima vez. Você está paranóica.
Mas não acreditava nisso.
Laboratório de Anatomia - 7h35 da manhã
O laboratório era exatamente como Camila imaginava que o inferno deveria ser se fosse asséptico e bem iluminado. Paredes brancas, chão de cerâmica que refletia as luzes fluorescentes, e aquele cheiro. Formol. Não importava quantas vezes ela entrasse ali, o cheiro sempre batia como um soco no estômago.
As bancadas de aço inoxidável estavam dispostas em três fileiras, cada uma com um cadáver coberto por um lençol branco. Dezesseis alunos divididos em grupos de quatro. Camila estava no grupo três, junto com Marina, Lucas e... deveria ser o Thiago.
Mas a bancada tinha só três pessoas.
— Bom dia — Marina cumprimentou, já de jaleco e luvas. Ela era aquele tipo de pessoa que acordava animada, o que Camila achava quase ofensivo às sete da manhã.
— Bom dia — Camila respondeu, colocando sua mochila no chão e pegando o jaleco do cabide. — Cadê o Thiago?
Lucas, que estava conferindo o manual na bancada, deu de ombros sem olhar para cima.
— Não sei. Não veio semana passada também.
— Você sabe o que aconteceu com ele?
— Não. — Lucas finalmente olhou para ela. — Por que o interesse?
— Só curiosidade. A gente conversava às vezes.
— Deve ter trancado. — Marina disse, ajeitando os óculos de proteção. — Acontece todo semestre. Galera percebe que Medicina não é o que esperava e sai fora.
Mas Thiago não parecia o tipo. Camila lembrava dele animado na primeira semana, falando sobre o sonho de ser cirurgião, sobre como tinha estudado a vida inteira para passar na USP. Gente assim não tranca matrícula de repente.
A aula começou. Professor Augusto Moraes entrou com seu jaleco impecável e aquela postura de quem tinha visto milhares de corpos e não se abalava mais com nada.
— Bom dia, futuros médicos. Hoje vamos estudar o sistema muscular do tronco. Abram os manuais na página sessenta e dois e preparem os instrumentos.
Camila tentou se concentrar, mas seus olhos continuavam vagando pela sala. Grupo um - quatro alunos. Grupo dois - quatro alunos. Grupo três - três alunos, faltando Thiago. Grupo quatro - dois alunos. Faltavam duas pessoas ali. Carla e Bruno.
Três ausências em uma sala de dezesseis alunos. Quase vinte por cento.
Ela levantou a mão.
— Professor?
Moraes olhou para ela com aquela expressão de "isso é importante ou você está me fazendo perder tempo?".
— Sim?
— Onde estão o Thiago, a Carla e o Bruno? Eles trancaram matrícula?
O silêncio que se seguiu foi estranho. Não foi um silêncio normal de "deixa eu pensar". Foi um silêncio pesado, carregado. O professor trocou um olhar rápido com o assistente dele, um cara jovem de óculos que Camila nunca tinha prestado muita atenção.
— Sim — Moraes finalmente respondeu. — Problemas pessoais. Acontece.
— Os três? Na mesma semana?
— Srta. Ferreira — o tom dele mudou, ficou mais frio. — Isso não é da sua conta. Se os colegas decidiram trancar, é decisão deles. Agora, por favor, foque na aula.
Camila sentiu as bochechas esquentarem. Toda a sala estava olhando para ela. Marina cutucou seu braço, sussurrando "deixa pra lá", mas Camila não conseguia. Tinha algo muito errado ali.
O resto da aula passou em câmera lenta. Camila fez as anotações mecanicamente, dissecou o que tinha que dissecar, respondeu quando perguntaram. Mas sua cabeça estava longe, processando.
Três alunos. Desaparecidos. Na mesma semana.
E ninguém parecia se importar.
Intervalo - 10h15 da manhã
Camila se trancou em uma cabine do banheiro feminino e puxou o celular. Abriu o WhatsApp e procurou o grupo da turma de Medicina - "Med USP 2024 - A Melhor Turma".
Rolou as mensagens dos últimos dias. Nada de Thiago. Nada de Carla. Nada de Bruno.
Ela abriu o Instagram. Perfil de Thiago Mendes. Última postagem: oito dias atrás. Uma foto dele no laboratório, sorrindo, com a legenda "Realizando sonhos aqui na USP! 💉🩺". Os comentários eram de amigos e família, todos orgulhosos. Mas nos últimos cinco dias, tinha várias mensagens novas: "Cara, cadê você?", "Thiago, tá tudo bem?", "Me responde, mano".
Perfil de Carla Sousa. Última postagem: nove dias atrás. Foto com a família, marcada em Belo Horizonte. "Último fim de semana em casa antes de mergulhar nos estudos! Saudade já ❤️". Comentários recentes também perguntando onde ela estava.
Perfil de Bruno Alcântara. Última postagem: oito dias atrás. Selfie no bandejão. "Comida de RU mas tá valendo! #USP #VidaDeUniversitário". Mesma coisa nos comentários - gente procurando por ele.
Camila fechou o aplicativo e encostou a cabeça na parede fria da cabine. Seu coração estava acelerado. Isso não era normal. Três pessoas saudáveis, ativas, felizes não simplesmente somem sem deixar rastro.
Ela precisava contar para os outros. Para Andrew. Para Paulo. Para Isadora.
Mas primeiro, precisava de mais informações.
Corredor Principal da Faculdade de Medicina - 14h30 da tarde
Camila tinha acabado de sair da aula de Histologia quando o viu.
Dr. Henrique Salles.
Ela sabia quem ele era porque todo mundo sabia. Professor titular de Genética Molecular, um dos mais jovens da história da USP a conseguir esse cargo. Aparentava uns quarenta anos, mas tinha uma daquelas presenças que ocupavam espaço - alto, ombros largos, cabelo preto penteado para trás com gel, óculos de grau sem aro que de alguma forma o faziam parecer mais inteligente. Usava um terno cinza perfeitamente cortado, sapatos que brilhavam mesmo sob as luzes fluorescentes fracas do corredor.
Ele não estava sozinho.
Dois homens o acompanhavam, e Camila soube imediatamente que não eram da universidade. Os seguranças da USP usavam uniformes azul-marinho com o brasão da universidade. Esses caras estavam de preto. Preto total. Calça preta, camisa preta, colete tático preto. Sem identificação visível. Um deles era careca e imenso, parecia que poderia arrancar uma porta da dobradiça. O outro era mais magro, mas tinha aqueles olhos que não paravam quietos, sempre escaneando o ambiente.
Instinto fez Camila recuar. Ela se escondeu atrás de uma coluna de concreto perto da entrada do corredor B, prendendo a respiração. Puxou o celular do bolso com mãos trêmulas e abriu a câmera, colocando no modo vídeo.
Dr. Salles estava falando, sua voz baixa mas clara. Camila ativou o zoom.
— ...os novos candidatos estão na lista — ele dizia, gesticulando com as mãos de um jeito que parecia meio teatral. — Precisamos de pelo menos cinco este mês. O cronograma já está apertado o suficiente.
O segurança careca respondeu algo que Camila não conseguiu ouvir. Dr. Salles balançou a cabeça.
— Não. Não temos tempo para ser seletivos. Se eles atendem os critérios básicos - idade, saúde, condição física - são aprovados. Simples assim.
— E se recusarem? — A voz do segurança magro chegou até Camila dessa vez, grave e áspera.
Dr. Salles sorriu. Não foi um sorriso gentil. Foi o tipo de sorriso que você vê em filme de vilão, aquele que não chega nos olhos.
— Eles não vão recusar. Universitários são fáceis de convencer. Todo mundo tem dívidas. Todo mundo precisa de dinheiro. A gente oferece uma bolsa de pesquisa generosa, oportunidade de trabalhar em um projeto de ponta, algo que vai brilhar no currículo... — Ele fez uma pausa. — E se ainda assim recusarem, bem... existem outros métodos de persuasão.
O estômago de Camila revirou. Ela apertou mais o botão de gravar, certificando-se de que estava capturando tudo.
Dr. Salles enfiou a mão no bolso interno do paletó e tirou um pen drive pequeno, prateado. Ele estendeu para o segurança careca.
— Aqui estão as fichas completas. Histórico acadêmico, situação financeira, perfil psicológico básico. Façam as abordagens usuais. Sutis. Não queremos chamar atenção.
O segurança pegou o pen drive e o guardou.
— E o Bloco H? — ele perguntou.
— Tudo pronto. As novas câmaras estão instaladas. Equipamento chegou ontem à noite. Podemos começar os testes na sexta-feira.
— O chefe vai querer relatórios.
— Ele terá. — Dr. Salles ajeitou os óculos. — Diga ao Senhor Spectro que estamos no cronograma. O Projeto GENOS está funcionando perfeitamente.
Camila quase deixou o celular cair. Projeto GENOS. Ela não sabia o que era, mas o nome sozinho soava sinistro.
Os três homens começaram a andar na direção dela. Merda. Ela não podia ser vista. Não agora.
Camila desligou a gravação e saiu correndo na direção oposta, os tênis fazendo um barulho surdo no piso de cerâmica. Ela virou à esquerda, depois à direita, desceu um lance de escadas e só parou quando chegou ao saguão principal, ofegante, coração batendo tão forte que ela podia ouvi-lo nos ouvidos.
Ela olhou em volta. Ninguém a tinha seguido.
Camila escorregou para o chão, sentando encostada na parede, e abriu o vídeo que tinha gravado. A qualidade não era ótima - tremida, com zoom demais - mas dava para ouvir. Dava para entender.
Projeto GENOS. Candidatos. Bloco H. Senhor Spectro.
Ela precisava mostrar isso para Andrew. Agora.
Faculdade de Direito da USP - 15h10 da tarde
Andrew estava na aula de Filosofia do Direito, mas poderia estar em Marte que seria a mesma coisa. O professor - um senhor de cabelos completamente brancos e voz monótona - falava sobre Kant, sobre imperativo categórico, sobre agir de forma que sua ação pudesse se tornar uma lei universal.
Mas tudo que Andrew conseguia pensar era: alguém está me observando.
Não era paranoia. Ele já tinha aprendido a diferença. Paranoia era aquele medo vago, sem forma. Isso era concreto. Era um formigamento na nuca. Era a sensação de olhos invisíveis grudados nele. Era o jeito que seu corpo ficava tenso sem motivo aparente, músculos se preparando para lutar ou fugir.
Ele olhou discretamente ao redor. O anfiteatro estava cheio - uns oitenta alunos espalhados pelas arquibancadas. Metade dormindo ou no celular. Paulo estava três fileiras abaixo, rabiscando algo no caderno que definitivamente não eram anotações da aula. Isadora estava logo ali ao lado, totalmente focada, caneta voando pelo papel.
Nada de anormal.
Mas a sensação não passava.
Quando o intervalo chegou, Andrew se levantou tão rápido que Isadora olhou para ele com aquela expressão de "você está bem?".
— Só preciso de ar — ele disse, saindo antes que ela pudesse perguntar mais.
Do lado de fora, o campus estava cheio. Estudantes em grupos, rindo, conversando, reclamando de provas. Andrew se afastou da multidão, indo para uma área mais vazia perto do estacionamento dos professores. Ele encostou em uma árvore, fingindo mexer no celular, mas seus olhos estavam fazendo outra coisa.
Discretamente, ele ativou sua visão telescópica.
O mundo ao redor embaçou enquanto sua visão se estendia, zoom aumentando gradualmente. Ele varreu o campus meticulosamente - prédios, janelas, telhados. Procurando por qualquer coisa fora do lugar.
E então viu.
Um drone.
Pequeno, preto, silencioso. Estava pairando sobre o prédio de Medicina, a cerca de quatrocentos metros de distância. Completamente imóvel, como se estivesse travado no ar. Mas Andrew sabia que não era um drone comercial comum. Era muito estável. Muito preciso.
Ele focou mais, aumentando o zoom ao máximo que conseguia controlar sem forçar demais. O drone tinha uma câmera direcional na parte frontal e algo mais embaixo - sensores. Térmicos, provavelmente. Estava filmando. Mapeando calor corporal.
Procurando por alguém.
Andrew sentiu um calafrio. E então, como se o drone tivesse percebido que estava sendo observado, ele se moveu. Rápido. Desceu em diagonal e desapareceu atrás dos prédios em menos de três segundos.
— Merda — Andrew sussurrou.
— Andrew?
Ele quase pulou de susto. Era Paulo, que tinha saído atrás dele.
— Cara, você parece que viu um fantasma. O que foi?
Andrew olhou em volta antes de responder, certificando-se de que ninguém estava por perto.
— Tem alguém nos vigiando. Eu vi um drone. Sobre o prédio de Medicina. Com sensores térmicos.
Paulo arregalou os olhos.
— Você tem certeza?
— Absoluta. E quando eu olhei para ele, fugiu. Como se soubesse que eu estava vendo.
— Isso não faz sentido. Drones não têm como saber se estão sendo observados...
— Esse tinha. — Andrew passou a mão pelo cabelo, frustrado. — Ou tinha alguém controlando que percebeu. Seja como for, não é bom. Não é coincidência.
Paulo respirou fundo.
— A gente precisa conversar com a Camila e a Isadora. Hoje à noite.
— Já estava pensando nisso.
República Suprema - 21h45 da noite
O quarto de Andrew era o único com tranca reforçada. Ninguém na República sabia, mas ele tinha usado sua força para torcer discretamente a estrutura metálica da fechadura, tornando-a quase impossível de arrombar sem fazer barulho. Era um segredo que ele guardava. Um pedaço de segurança no meio de tanta incerteza.
Os quatro estavam lá dentro. Andrew sentado na cama. Camila na cadeira do escritório. Paulo no chão com o laptop no colo, cercado por cabos e um caderno cheio de anotações. Isadora encostada na parede, braços cruzados.
Camila mostrou o vídeo primeiro.
Eles assistiram em silêncio. Quando terminou, o clima no quarto estava pesado.
— Projeto GENOS — Isadora repetiu. — Alguém aqui já ouviu falar nisso?
Andrew e Paulo trocaram um olhar.
— Eu ouvi — Paulo disse. — Lembra dos arquivos que eu peguei da base da Tentáculos em Cosmópolis? Tinha menções a uma subsidiária chamada GENOS. Algo sobre pesquisa genética. Mas eram só fragmentos. Não tinha detalhes.
— Agora tem — Camila disse, a voz tensa. — Eles estão aqui. Na USP. Fazendo... o que quer que seja que estejam fazendo.
Andrew se levantou, andando até a janela. Ele podia ver as luzes da cidade se estendendo até o horizonte, milhões de pessoas vivendo suas vidas normais, sem ideia do que estava acontecendo a poucos quarteirões de distância.
— Eles estão procurando candidatos — ele disse, mais para si mesmo do que para os outros. — Cinco por mês. Para quê?
— Experimentos — Camila respondeu. — Tem que ser. O Dr. Salles falou em câmaras, equipamento, testes. E os três alunos que desapareceram... Thiago, Carla, Bruno. Aposto que eles foram os primeiros.
Paulo estava digitando furiosamente no laptop, dedos voando sobre o teclado. Ele tinha passado a última semana estudando tutoriais de hacking mais avançados, e estava ansioso para testar.
— Okay, vou tentar entrar no sistema da universidade — ele disse, mordendo o lábio inferior em concentração. — Se eu conseguir acessar as requisições de compra, a gente pode ver exatamente o que estão trazendo para o Bloco H.
— Você consegue fazer isso? — Isadora perguntou, impressionada.
— Posso tentar. Aprendi umas técnicas novas. Vamos ver se funcionam.
Ele trabalhou por quase uma hora. No começo, estava hesitante, consultando anotações, testando comandos diferentes. Mas conforme avançava, ganhava confiança. Andrew observava fascinado - Paulo sempre tinha sido inteligente, mas ultimamente parecia absorver conhecimento em velocidade surpreendente.
— Consegui! — Paulo finalmente gritou baixo, quase pulando do chão. — Caralho, eu entrei!
Camila se levantou da cadeira e beijou sua bochecha.
— Sabia que você conseguiria.
Paulo sorriu, orgulhoso, mas rapidamente voltou a focar na tela.
— Okay, deixa eu ver... requisições de compra para o Bloco H nos últimos três meses. — Ele começou a ler em voz alta. — Scanner de ressonância magnética experimental, modelo X-790... isso custa uns dois milhões. Câmaras de isolamento térmico, dez unidades... centrífugas de alta velocidade... equipamento de monitoramento cardíaco avançado...
— Isso tudo para uma "reforma"? — Isadora perguntou, sarcástica.
— Tem mais — Paulo continuou. — Drogas. Um monte de drogas que eu nunca ouvi falar. Nootropil-X, Serum-Neuro-Beta, Compound-Delta-9, Stimulant-Rho... — Ele parou de ler e olhou para cima. — Eu pesquisei esses nomes em todos os bancos de dados médicos que consegui acessar. Nenhum resultado. Esses compostos não existem oficialmente. São experimentais. Ou ilegais.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Isadora tinha começado sua própria pesquisa em paralelo, usando o celular para vasculhar redes sociais. Ela tinha criado uma planilha básica no Google Docs e estava preenchendo enquanto falava.
— Thiago Mendes, dezenove anos. Órfão desde os quinze, criado pela avó. Bolsa integral na USP. Notas excelentes, media acima de nove em tudo. Última postagem no Instagram foi há oito dias. — Ela pausou. — Família pobre. Dependente de bolsa. Fácil de convencer com dinheiro.
— Carla Sousa — Isadora continuou. — Vinte e um anos. Família em Belo Horizonte. Pai desempregado, mãe diarista. Carla estava pagando a faculdade com empréstimo estudantil. Última postagem, nove dias atrás. Mesma situação - vulnerável financeiramente.
— Bruno Alcântara. Vinte anos. Morava sozinho em uma quitinete no Butantã. Trabalhava meio período como entregador para pagar as contas. Última postagem, oito dias atrás. — Isadora olhou para cima. — Todos eles tinham uma coisa em comum: precisavam de dinheiro. Desesperadamente.
— Presa fácil — Andrew murmurou, sentindo a raiva crescer no peito.
Paulo ainda estava no laptop, agora em um arquivo diferente.
— Espera, tem mais uma coisa. — Ele virou a tela para mostrar. — Todas essas requisições foram faturadas para uma empresa chamada GENOS Research Foundation. Eu procurei o registro dela. Foi fundada há seis meses. Endereço registrado em um apartamento alugado no Centro. Sem funcionários listados publicamente. Sem publicações científicas. Sem histórico.
— Empresa fantasma — Camila concluiu.
— Exatamente. E olhem quem assinou como responsável legal.
Na tela, em letras pretas sobre fundo branco: Dr. Henrique Salles - Diretor de Pesquisa e Desenvolvimento.
Andrew sentiu algo estalar dentro dele. Não foi raiva. Foi reconhecimento. Foi a sensação de ver um fantasma do passado se materializando de novo.
— GENOS — ele disse, a voz saindo baixa e controlada. — É a Tentáculos. Eles estão aqui.
Isadora levantou a testa.
— Como você sabe?
— Porque GENOS foi mencionada várias vezes nos arquivos que Paulo hackeou em Cosmópolis. Era uma subsidiária da Tentáculos. Focada em pesquisa genética. Em criar... — Ele parou, engolindo seco. — Em criar meta-humanos artificiais.
O silêncio voltou, mas dessa vez era diferente. Era o silêncio de quem acabou de entender a gravidade da situação.
Paulo foi o primeiro a falar, e sua voz saiu trêmula.
— Se é verdade, então eles não estão apenas desaparecendo com estudantes. Estão experimentando. Tentando transformar eles em...
Ele não precisou terminar.
— Em pessoas como você, Andrew — Camila completou, olhando para ele com uma mistura de medo e preocupação.
Andrew caminhou até a janela, afastando-se do grupo. Seus olhos começaram a brilhar levemente em verde - sinal de emoção intensa que ele ainda não conseguia controlar completamente.
— Por que não posso ter paz? — Ele disse, mais para si mesmo. — Por que, onde quer que eu vá, isso me persegue?
Isadora se aproximou, colocando a mão em seu ombro.
— Porque você é especial, Andrew. E gente má sempre vai querer usar o que é especial. Transformar em arma. Controlar. — Ela apertou de leve. — Mas não vão conseguir. A gente não vai deixar.
Andrew se virou para encará-la. Mesmo no meio de todo o medo e frustração, ele sentiu aquele calor no peito. Gratidão. Amor. Por ter pessoas que se importavam com ele o suficiente para enfrentar o perigo junto.
— O que a gente faz? — Ele perguntou. Não era retórico. Ele realmente não sabia.
Paulo fechou o laptop com um clique definitivo.
— Amanhã eu começo uma investigação mais profunda. Vou atrás de tudo relacionado ao GENOS - financiamento, liderança, projetos anteriores. Quem mais está envolvido além do Dr. Salles. Onde estão levando os estudantes. Tudo.
Camila assentiu.
— E eu vou ficar de olho no Dr. Salles. Ver onde ele vai, com quem fala, tentar descobrir mais sobre esse Senhor Spectro que ele mencionou.
— Não sozinha — Andrew disse imediatamente, sua voz saindo mais firme do que pretendia. — Nunca sozinha. Não depois do que aconteceu com o Paulo em Cosmópolis. A gente se move junto ou não se move.
Todos concordaram, mas Andrew podia ver o medo nos olhos deles. Medo porque sabiam - a Tentáculos era implacável. Incansável. E se eles tinham descoberto onde Andrew estava, então ninguém ali estava seguro.
— A gente precisa ser esperto — Isadora disse. — Investigar, mas sem chamar atenção. Nada de heroísmo. Nada de confronto direto. Não ainda.
— Concordo — Paulo disse. — Primeiro a gente coleta informação. Entende o que estão fazendo, quantas pessoas estão envolvidas, onde estão operando. Depois a gente decide como agir.
Andrew queria discordar. Queria dizer que deveriam invadir o Bloco H agora, libertar quem estivesse lá dentro, acabar com isso antes que ficasse pior. Mas ele sabia que seria suicídio. Eles tinham derrotado Xavante em Cosmópolis, mas quase tinham morrido no processo. E agora, se GENOS realmente estava criando meta-humanos artificiais...
Eles poderiam estar enfrentando um exército.
— Okay — Andrew finalmente concordou. — A gente faz isso do jeito certo. Com cuidado. Mas se qualquer um de vocês se sentir em perigo, qualquer coisa, vocês saem. Entendido?
— Entendido — eles responderam em uníssono.
Camila olhou o relógio.
— Já passa da meia-noite. A gente devia dormir. Amanhã vai ser um dia longo.
Um por um, eles saíram do quarto. Paulo foi o último, parando na porta.
— A gente vai ficar bem — ele disse. — A gente sempre fica.
Andrew queria acreditar. Mas quando a porta se fechou e ele ficou sozinho, olhando pela janela para a cidade iluminada, tudo que conseguia pensar era: eles estão aqui. A Tentáculos está aqui. E dessa vez, vão estar preparados para mim.
Edifício Comercial Abandonado - 2,5 km da República Suprema - 23h55 da noite
No décimo andar de um prédio vazio que deveria ter sido demolido anos atrás, uma figura estava parada na janela quebrada, observando através de binóculos de visão noturna.
A República Suprema estava claramente visível dali - uma casa amarela de três andares, cercada por outras repúblicas estudantis e pequenos prédios residenciais. No segundo andar, uma janela estava iluminada. Mesmo de longe, era possível ver silhuetas se movendo lá dentro.
A figura ajustou o foco dos binóculos, aproximando mais. Quatro pessoas. Conversando. Gesticulando. Preocupadas.
Um sorriso se formou no rosto oculto pela escuridão.
A figura abaixou os binóculos e pegou um celular. Discou um número. Dois toques e alguém atendeu do outro lado.
— Alvo confirmado — a voz disse, baixa e rouca. — República Suprema, Rua Sapetuba, número 237. Quatro indivíduos. Um deles é o primário.
Uma pausa enquanto escutava a resposta.
— Entendido. Iniciando monitoramento fase dois. Vamos esperar instruções do Senhor Spectro antes de agir.
Outra pausa.
— Sim, senhor. Eles não sabem que estamos aqui. E quando souberem... — a figura olhou de volta para a janela iluminada, — será tarde demais.
O telefone foi desligado. A figura guardou os binóculos em uma mochila tática e saiu do prédio abandonado em silêncio, desaparecendo nas sombras de São Paulo como se nunca tivesse estado lá.
Na república, Andrew finalmente apagou a luz do quarto e deitou na cama. Não conseguiria dormir - sabia disso. Mas pelo menos podia fechar os olhos e tentar.
Ele não sabia que, naquele exato momento, alguém estava registrando cada movimento seu.
Ele não sabia que a caçada já tinha começado.
E ele, mais uma vez, era a presa.
FIM DO CAPÍTULO 2
PRÓXIMO CAPÍTULO: LABORATÓRIO SOMBRIO