Peças no Tabuleiro
T1/E9
T1/E9
Andrew acordou com a sensação de que tinha sido atropelado por um caminhão.
Cada músculo do corpo doía — não pelo esforço físico, seus músculos nunca cansavam realmente — mas pela tensão. Horas correndo com Paulo nos braços, desviando de balas, pulando de prédios, nadando contra a correnteza. Seu corpo tinha aguentado tudo sem problemas.
Mas sua mente estava exausta.
Ele rolou na cama, pegou o celular. Nove e quatorze da manhã. Tinha dormido apenas cinco horas.
Havia mensagens. Muitas.
Isadora (06h43): "Bom dia amor ❤️ Sonhei com você"
Isadora (07h21): "Você tá bem? Não respondeu..."
Isadora (08h55): "Andrew?? Tá dormindo ainda? Ligarei mais tarde"
Ele sorriu apesar do cansaço. Digitou rápido:
"Desculpa, dormi que nem pedra. Noite difícil. Te ligo daqui a pouco ❤️"
Havia mais mensagens. Do Paulo.
Paulo (07h02): "Cara, não consigo dormir"
Paulo (07h34): "Preciso descobrir quem são esses caras"
Paulo (08h51): "Tô indo aí. Tenho umas coisas pra te mostrar"
Andrew franziu a testa. Indo aí? Paulo devia estar em casa, descansando, se recuperando...
A campainha tocou.
Ele suspirou, jogando as pernas para fora da cama. Vestiu uma calça de moletom e uma camiseta velha, desceu as escadas descalço.
Quando abriu a porta, encontrou Paulo — laptop debaixo do braço, mochila nas costas, um curativo pequeno na sobrancelha esquerda, olheiras profundas.
Mas os olhos brilhavam com determinação.
— Beleza — Paulo disse, entrando sem esperar convite. — Precisamos descobrir quem eram aqueles caras.
Andrew fechou a porta, ainda processando.
— Bom dia pra você também.
Paulo já estava na sala, colocando o laptop na mesa de centro, ligando.
— Desculpa. Bom dia. Mas sério, cara, a gente precisa agir rápido.
Andrew se sentou no sofá ao lado dele, esfregando os olhos.
— Paulo... você quase morreu ontem. E agora quer continuar com isso?
— Exatamente por isso. — Paulo virou para ele, o rosto sério. — Andrew, eles me pegaram. Me amarraram. Ameaçaram meu pai. E se você não tivesse aparecido, eu taria morto agora. Ou pior.
— Justamente. Por isso você devia ficar longe disso.
— Eu não posso ficar longe. — Paulo abriu o laptop, os dedos já voando pelo teclado. — Eles sabem quem eu sou. Sabem onde moro. Sabem do meu pai. Se eu não descobrir quem eles são, como se proteger... — Ele parou, olhando para Andrew. — A gente fica vulnerável. Para sempre.
Andrew queria discutir. Queria mandar Paulo pra casa, pro seguro, pro longe de tudo aquilo.
Mas ele entendia.
Entender quem era o inimigo era a primeira regra de sobrevivência.
— Tá bom. — Ele se inclinou para ver a tela. — O que você tem?
Paulo sorriu — aquele sorriso torto de quem sabia que tinha ganhado a discussão.
— Muito mais do que eu imaginava.
Ele abriu uma pasta cheia de arquivos. PDFs, imagens, planilhas, documentos escaneados.
— Ontem à noite, depois que você me deixou em casa, eu não consegui dormir. Fiquei pensando. Aqueles caras não eram assaltantes comuns. Eram profissionais. Organizados. E o Xavante... — Paulo estremeceu ao lembrar. — Ele falava como alguém que segue ordens.
— Ordens de quem?
— Disso eu não tinha certeza. Mas eu sabia onde começar. — Ele abriu um dos arquivos. — Lembra que eu te contei que tinha fuçado em uns servidores protegidos há umas semanas?
— Lembro. Foi por isso que te pegaram.
— Exatamente. Mas eu não te contei o que eu vi nesses servidores. — Paulo clicou, trazendo à tela uma série de planilhas financeiras. Números. Muitos números. — Transferências bancárias. Milhões de reais indo pra contas offshore. Empresas de fachada recebendo pagamentos absurdos por serviços que nunca foram prestados.
Andrew olhou mais de perto. Os valores eram estratosféricos. Vinte milhões aqui. Cinquenta milhões ali. Centenas de milhões circulando.
— Lavagem de dinheiro.
— Exato. — Paulo abriu outro arquivo. — E olha os nomes das empresas receptoras. Construtora Horizonte Ltda. Consultoria Sigma. Transportes Vanguarda. Todas registradas em paraísos fiscais. Todas com os mesmos diretores fantasmas.
Ele abriu uma foto. Um documento corporativo. E no topo, um nome.
Álvaro Diniz — Diretor Executivo
Andrew sentiu o estômago apertar.
— Quem é esse cara?
Paulo trocou para outra aba. Uma foto de perfil. Um homem de uns cinquenta anos, cabelo grisalho impecavelmente penteado, terno de grife, sorriso confiante. Estava em algum evento beneficente, segurando uma taça de champanhe, cercado de políticos e empresários.
— Álvaro Diniz. Empresário. Dono de várias companhias legítimas — construção civil, tecnologia, investimentos. Ele é respeitado. Faz doações pra caridade. Aparece em revistas de negócios. — Paulo clicou em outra imagem. — Mas por baixo...
A próxima foto era de um relatório policial. Investigação arquivada. Suspeita de envolvimento com tráfico de influência, corrupção, lavagem de dinheiro.
Mas nenhuma acusação formal. Nenhuma prisão. Nada.
— Ele é intocável — Andrew murmurou.
— Por enquanto. — Paulo abriu mais arquivos. — Mas eu cavei fundo. E achei isso.
Era uma foto granulada, tirada de longe. Álvaro Diniz saindo de um prédio comercial. E ao lado dele, segurando a porta...
Andrew reconheceu instantaneamente.
Xavante.
Sem a balaclava. O rosto descoberto, a cicatriz visível mesmo na foto de baixa qualidade.
— É ele — Andrew disse, o coração acelerando. — O cara de ontem.
— Exatamente. E olha a data da foto. Três semanas atrás. — Paulo ampliou. — Esse prédio? É a sede de uma das empresas de fachada do Diniz. O que significa que Xavante trabalha pra ele.
Andrew se recostou no sofá, processando.
Álvaro Diniz. Empresário respeitado de dia. Chefe de uma organização criminosa à noite.
— Mas aquele cara ontem... — Andrew lembrou da ligação que tinha ouvido. — Xavante recebeu uma ordem de outra pessoa. Alguém acima dele. Alguém que mandou abortar a missão.
Paulo assentiu devagar.
— É. Eu também pensei nisso. O que significa que o Diniz não tá sozinho. Ele faz parte de algo maior.
— A Tentáculos.
— Sim. — Paulo abriu outro arquivo. Esse era um mapa. Um organograma complexo, feito à mão, conectando empresas, pessoas, localizações. — A Tentáculos é uma organização internacional. Lavagem de dinheiro, tráfico, corrupção em alto escalão. Meu pai tava investigando eles há meses. E o Diniz... — Ele apontou para o nome no centro do organograma. — Ele é uma peça importante. Mas não é o chefão.
— Então quem é?
— Ainda não sei. — Paulo fechou o laptop, frustrado. — É isso que me deixa maluco. Tem alguém acima dele. Alguém poderoso o suficiente pra dar ordem e todo mundo obedecer.
Eles ficaram em silêncio por um momento.
Então Andrew ouviu passos na escada.
Luíza Menning apareceu na porta da sala, ainda de roupão, o cabelo preso num coque desmanchado. Ela tinha olheiras — claramente não tinha dormido direito também.
Quando viu Paulo ali, o rosto dela se iluminou brevemente.
— Paulo! Graças a Deus você tá bem. — Ela atravessou a sala e o puxou para um abraço rápido. — Seu pai me ligou de madrugada. Contou o que aconteceu. Eu fiquei apavorada.
— Tô bem, tia Luíza. — Paulo retribuiu o abraço. — Graças ao Andrew.
Luíza soltou ele e olhou para o filho. Havia orgulho ali. Mas também medo.
— Você foi muito imprudente — ela disse, a voz firme. — Ir atrás de sequestradores sozinho, Andrew? Você podia ter se machucado. Ou pior.
— Mãe, eu não podia esperar a polícia. Paulo não tinha tempo.
— Eu sei. — Ela suspirou. — E eu sei que você fez o certo. Mas isso não significa que eu não vou me preocupar.
Ela notou o laptop na mesa, os arquivos abertos.
— O que vocês estão fazendo?
Os dois se entreolharam.
— A gente tá... investigando — Paulo disse, hesitante. — Tentando descobrir quem eram aqueles caras.
— Investigando. — Luíza repetiu, o tom neutro. — Vocês dois, adolescentes de dezoito anos, investigando uma organização criminosa que sequestra pessoas e ameaça famílias.
— Mãe...
— Sem me interromper. — Ela se aproximou da mesa, olhando para a tela do laptop. Seus olhos varreram os arquivos, as fotos, os documentos. Depois olhou para os dois. — Se vocês vão fazer isso, vão fazer direito.
Andrew piscou.
— O quê?
— Vocês ouviram. — Ela se sentou na poltrona em frente a eles. — Eu não gosto disso. Não queria que vocês estivessem envolvidos com gente perigosa. Mas vocês já estão. E fingir que está tudo bem não vai fazer as coisas desaparecerem.
Paulo olhou para Andrew, confuso. Andrew apenas deu de ombros, igualmente perdido.
Luíza continuou:
— Eu passei quinze anos protegendo você, Andrew. Escondendo. Mantendo tudo em segredo. Mas ontem à noite... — Sua voz falhou por um segundo. — Ontem à noite você usou seus poderes pra salvar uma vida. E não me arrependo disso. Mas significa que as coisas mudaram.
Ela se inclinou para frente.
— Então se vocês vão investigar, precisam ser inteligentes. Cuidadosos. E eu vou ajudar.
— Sério? — Paulo parecia não acreditar.
— Sério. — Ela apontou para o laptop. — Mostra o que você tem.
Por uma hora, os três mergulharam nos dados.
Luíza tinha uma mente científica — treinada para analisar padrões, conectar pontos, encontrar lógica no caos. E era exatamente o que ela fez.
— Olha aqui. — Ela apontou para uma das planilhas. — Essas transferências. Elas seguem um padrão. Todo dia quinze do mês, valores são movidos de uma conta pra outra. Sempre os mesmos montantes. Vinte e cinco milhões.
— Pagamentos mensais? — Andrew sugeriu.
— Provavelmente. Mas pra quem? E por quê? — Luíza abriu outra aba. — E olha isso. Todas as empresas de fachada têm CEPs registrados. Deixa eu checar...
Ela pegou o celular, digitando os endereços no Google Maps.
Um por um, os resultados apareceram.
Lotes vagos. Prédios abandonados. Endereços inexistentes.
— Empresas fantasmas — Paulo disse. — Existem só no papel.
— Exatamente. O que significa que o dinheiro não tá indo pra elas. Tá indo pra alguém. — Luíza voltou para a foto de Álvaro Diniz. — Esse homem. Ele controla tudo isso?
— Parece que sim — Andrew respondeu. — Mas tem alguém acima dele.
— Então ele é um intermediário. — Luíza pensou em voz alta. — Alguém que faz o trabalho sujo mas não é o chefe final. O que faz sentido. Organizações desse tipo sempre têm camadas. Proteção. Se um cai, os outros continuam.
Paulo abriu um novo arquivo.
— Tem mais. Olha isso.
Era uma notícia de jornal. Três anos atrás.
"Investigador da Polícia Civil sofre atentado"
O artigo falava sobre um policial — nome não divulgado — que tinha sobrevivido a uma tentativa de assassinato. Dois tiros. Um no ombro, outro de raspão na cabeça. O caso nunca foi resolvido.
— Meu pai mencionou isso uma vez — Paulo disse, a voz baixa. — Ele disse que conhecia o cara. Que era um bom investigador. Que tava investigando corrupção e quase morreu por isso.
— E depois? — Luíza perguntou.
— Depois, ele arquivou tudo. Parou de investigar. Meu pai disse que o cara ficou com medo. Que escolheu a família em vez da justiça.
Silêncio pesado.
Andrew sentiu um frio na espinha.
— E se isso acontecer com seu pai? E se eles tentarem de novo?
Paulo não respondeu. Mas o medo estava estampado no rosto dele.
Luíza colocou a mão no ombro do garoto.
— Então a gente não deixa acontecer. A gente reúne provas. Provas sólidas. E quando tivermos o suficiente, entregamos pra alguém que possa agir. Polícia Federal. Ministério Público. Alguém que os Tentáculos não controlem.
— E se eles controlarem todo mundo? — Paulo perguntou, a voz quebrando.
— Então a gente acha quem eles não controlam. — Ela apertou o ombro dele. — Mas primeiro, a gente precisa de mais informações. Sobre o Diniz. Sobre a organização. Sobre quem tá no topo.
Andrew se levantou, caminhando até a janela. Olhou para a rua tranquila de Cosmópolis. Crianças brincando. Carros passando. Vida normal.
Mas embaixo de tudo aquilo, nas sombras, algo podre crescia.
— Tem uma coisa que eu não entendo — ele disse, ainda olhando pela janela. — Por que eles desistiram? Ontem à noite, tinham a gente encurralados. Podiam ter continuado. Mas alguém mandou parar.
Luíza e Paulo trocaram olhares.
— Talvez... — Luíza começou, hesitante. — Talvez eles tenham percebido que chamar mais atenção seria pior. Um sequestro já é ruim. Mas uma perseguição, tiros, mortes? Isso traria a polícia. Investigações. Coisas que eles não querem.
— Ou... — Paulo adicionou. — Eles já conseguiram o que queriam.
— Que era?
— Assustar. — A palavra saiu amarga. — Mostrar que podem chegar até a gente quando quiserem. Que somos vulneráveis.
Andrew cerrou os punhos. Odiava essa sensação. De estar sendo observado. De ser uma peça em um jogo que não entendia completamente.
— Então a gente vira o jogo — ele disse, virando para os dois. — A gente descobre quem eles são. Onde atuam. Como funcionam. E a gente acaba com eles.
Luíza o encarou.
— Andrew, você não é um vigilante.
— Eu sei. Mas também não posso ficar parado enquanto eles ameaçam as pessoas que eu amo.
Mãe e filho se olharam por um longo momento. Então Luíza suspirou.
— Tudo bem. Mas com regras. Primeiro: nada de ação precipitada. A gente investiga, reúne provas, e só age quando tivermos certeza. Segundo: ninguém se arrisca sozinho. Vocês são uma equipe agora. Terceiro... — Ela olhou especificamente para Andrew. — Você não mata ninguém. Não importa o que aconteça. Você não é como eles.
Andrew assentiu.
— Eu prometo.
Eles passaram mais uma hora analisando dados, fazendo anotações, criando conexões.
Paulo hackeava servidores (com Luíza monitorando para garantir que ele não deixasse rastros). Andrew usava sua memória fotográfica para memorizar rostos, nomes, localizações.
E lentamente, um quadro começou a se formar.
A Tentáculos era maior do que imaginavam. Tinha células em várias cidades. São Paulo. Rio de Janeiro. Brasília. E provavelmente fora do país também.
Álvaro Diniz era uma peça importante na região. Controlava as operações financeiras. Lavagem de dinheiro. Propina. Mas não era o único.
Havia outros. Nomes que ainda não conheciam. Rostos que ainda não tinham visto.
E no topo de tudo, escondido nas sombras...
Alguém.
O verdadeiro líder.
A campainha tocou, interrompendo os pensamentos de Andrew.
Luíza se levantou.
— Deve ser o entregador. Pedi almoço.
Ela saiu da sala. Andrew e Paulo ficaram ali, olhando para a tela do laptop.
— A gente vai conseguir? — Paulo perguntou, baixo. — Derrubar esses caras?
— A gente vai tentar — Andrew respondeu. — E se não conseguirmos sozinhos, a gente encontra quem possa.
Paulo sorriu levemente.
— Você ficou muito sério de uma hora pra outra.
— Quase perdi meu melhor amigo ontem. Meio que muda a perspectiva.
— Touché.
Luíza voltou com sacolas de comida. Eles almoçaram ali mesmo na sala, comendo e discutindo, planejando os próximos passos.
Paulo estava guardando o laptop na mochila quando o celular dele tocou.
Era Camila.
Ele atendeu, colocando no viva-voz.
— Oi, amor.
— OI?! — A voz dela explodiu pelo alto-falante. — SÓ "OI"?! PAULO FARIAS, EU PASSEI A NOITE INTEIRA ACORDADA PREOCUPADA! O ANDREW ME DISSE QUE TE ACHOU MAS NÃO ME DEU DETALHES! O QUE ACONTECEU?!
Paulo fez uma careta para Andrew, que segurou o riso.
— Calma, Camila. Eu tô bem. Tava na casa do Andrew conversando.
— Conversando sobre O QUÊ? Me conta!
— Depois eu te conto. Prometo. Mas olha, eu tava pensando... — Ele olhou para Andrew, que acenou positivamente. — Que tal a gente sair amanhã? Os quatro? Ir no shopping, assistir um filme, sei lá. Coisa normal.
Houve uma pausa do outro lado.
— Coisa... normal? — Ela repetiu, desconfiada. — Paulo, você foi sequestrado ontem e quer ir no shopping fazer "coisa normal"?
— Exatamente por isso. — A voz dele ficou mais suave. — A gente precisa de um pouco de normalidade, sabe? Esquecer tudo isso por algumas horas.
Outra pausa. Então Camila suspirou.
— Tá bom. Mas você me conta tudo amanhã. Combinado?
— Combinado.
— Te amo.
— Também te amo.
Ele desligou e olhou para Andrew.
— Vou avisar a Isa também — Andrew disse, já pegando o celular.
A mensagem foi mais simples:
"Quer ir no shopping amanhã? Eu, você, Paulo e Camila. Precisamos relaxar um pouco ❤️"
A resposta veio quase instantânea:
"QUERO! Que horas? 😍"
Andrew sorriu.
"Te busco às 14h?"
"Perfeito! Mal posso esperar ❤️❤️"
Ele guardou o celular e se virou para Paulo.
— Marcado. Amanhã, duas da tarde.
— Ótimo. — Paulo jogou a mochila nas costas. — Porque depois de tudo isso, a gente merece um dia tranquilo.
Luíza os observava da cozinha, uma expressão preocupada no rosto.
Um dia tranquilo, ela pensou. Tomara que seja verdade.
Naquela noite, Andrew jantou com a mãe. Conversaram sobre coisas mundanas — faculdade, matrícula na USP, documentos que precisavam separar.
Mas a tensão estava ali. Não dita, mas presente.
Depois do jantar, Andrew subiu para o quarto. Deitou na cama, olhando para o teto.
Pensou em Paulo. Em como tinha estado perto de perdê-lo.
Pensou em Isadora. Em como seria horrível se algo acontecesse com ela.
Pensou em sua mãe. Em tudo que ela tinha sacrificado para mantê-lo seguro.
E pensou em Xavante. Em Álvaro Diniz. Na Tentáculos.
Eles estavam lá fora. Nas sombras. Esperando.
Mas Andrew não ia esperar sentado.
Se eles representavam uma ameaça, ele ia encontrar um jeito de neutralizá-los.
Não por vingança.
Mas por proteção.
Para que as pessoas que amava pudessem dormir em paz.
Ele pegou o celular, checando as mensagens uma última vez antes de dormir.
E foi então que viu.
Uma notificação de um número desconhecido.
Apenas uma mensagem. Sem texto. Só uma foto.
Andrew abriu.
Era ele.
Tirada de longe, mas claramente ele. Saindo de casa naquela manhã. A data e hora no canto: Hoje, 08h34.
Nenhuma palavra. Nenhuma ameaça.
Só aquela foto.
Estamos observando.
Andrew sentiu o sangue gelar.
Eles sabiam onde ele morava.
Eles estavam vigiando.
E queriam que ele soubesse.
Ele deletou a mensagem, bloqueou o número.
Mas o recado tinha sido dado.
O jogo tinha começado.
E não havia mais como voltar atrás.
FIM DO EPISÓDIO 9
PRÓXIMO EPISÓDIO: UM DIA PERFEITO (OU QUASE)