TRIPLO RESGATE
T2/E18
T2/E18
QG em Perdizes — 4h27 da madrugada
Ninguém tinha dormido.
A sala estava em silêncio pesado — não vazio, mas cheio de pensamentos não ditos, corpos exaustos que se recusavam a descansar, café requentado pela terceira vez esfriando em xícaras esquecidas.
Andrew estava parado na janela, olhando São Paulo ainda escura. Céu começando a clarear no horizonte, aquele roxo profundo virando azul pálido aos poucos. A cidade acordava sem saber da guerra acontecendo em suas entranhas.
Kira e Léo dormiam em quartos separados. Mas não era sono tranquilo — Camila tinha ouvido Kira gritando há uma hora, pesadelo violento, ecos do controle mental que não sumiam só porque os implantes tinham sido removidos. Léo tinha acordado suando, reflexo involuntário de tentar obedecer uma ordem que não existia mais.
Liberdade não era instantânea. Era processo. Longo. Doloroso.
Isadora estava na mesa, mapas espalhados na frente dela. Caneta na mão, mas não escrevia. Apenas olhava, processando, calculando probabilidades que não queria admitir em voz alta.
Luíza entrou da cozinha trazendo mais café. Serviu uma xícara pra Isadora. Outra pra si mesma. Sentou sem falar nada por um momento, apenas compartilhando o peso do silêncio.
— Você precisa dormir — Luíza disse finalmente, voz baixa.
— Depois.
— Isadora...
— Depois, Luíza. — Não foi rude. Foi realista. — Não tem tempo.
Luíza não discutiu. Sabia quando insistir era desperdício de energia.
— GENOS vai reagir — ela disse em vez disso, dedos tamborilando na xícara. — Spectro não é burro. Perdeu Kira e Léo. Vai reforçar tudo. Mover os outros. Talvez evacuar completamente.
— Eu sei.
— Então vocês sabem que não podem esperar.
— Também sei disso.
Silêncio de novo. Pesado. Inevitável.
Samuel estava sentado no sofá, cabeça entre as mãos. Não dormindo. Apenas existindo no limite entre consciência e exaustão. Tentando não pensar em Micheli ainda presa. Tentando não imaginar o que estavam fazendo com ela naquele exato momento.
Marcus estava na cozinha forçando comida pra dentro. Não tinha fome — não tinha tido fome de verdade desde que escapou da GENOS. Mas sabia que precisava. Criar seis cópias tinha quase o derrubado. Hoje precisaria fazer melhor. Ou morrer tentando.
Paulo apareceu do quarto, laptop debaixo do braço, olheiras fundas. Cabelo todo desgrenhado. Mas olhos alertas, mente trabalhando.
— Consegui — ele disse sem preâmbulo, abrindo o laptop na mesa com gesto brusco. — Thiago, Bruno e Carla. Subsolo 2. Não foram movidos.
Todos olharam.
— Tem certeza? — Isadora perguntou, se inclinando pra frente.
— Registros médicos atualizados há... — ele checou — ...duas horas e quarenta minutos. Status: ativação intermediária. Ainda em processo.
Luíza pegou o laptop, olhos escaneando dados com velocidade impressionante.
— Isso significa que o processo está no meio — ela disse, voz técnica mas tensa. — Corpos se adaptando. Poderes começando a manifestar. Mas cérebros ainda não foram completamente condicionados.
— Quanto tempo temos? — Andrew perguntou, se afastando da janela.
— Quarenta e oito horas no máximo. — Joseph apareceu na porta, voz rouca, não usava por muito tempo. — Depois disso, o condicionamento mental começa. E aí...
Ele não terminou. Não precisava.
— Então vamos hoje — Andrew disse. Simples. Direto. Final.
Ninguém protestou. Todos sabiam que era a única opção.
Isadora checou o relógio na parede.
— Meio-dia. A gente ataca ao meio-dia.
— Por que não à noite? — Marcus perguntou da cozinha. — Mais cobertura. Menos gente.
— Porque à noite eles vão estar prontos — Luíza respondeu. — GENOS sabe que atacamos. Sabe que vamos voltar. Se esperarmos, vamos encontrar fortaleza. Se atacarmos quando eles ainda estão se reorganizando...
— Pegamos eles no contrapé — Paulo completou.
— Exatamente.
Silêncio. Depois, aceitação coletiva.
— Meio-dia — Andrew confirmou. — Todos descansam até às oito. Depois preparamos.
— E quem não consegue dormir? — Samuel perguntou, voz vazia.
Isadora olhou pra ele com algo parecido com compreensão.
— Tenta mesmo assim.
QG — 9h15 da manhã
Ninguém tinha conseguido dormir de verdade.
O grupo estava reunido. Rostos marcados por noites sem descanso adequado. Olheiras fundas. Movimentos um pouco mais lentos que o normal. Mas presentes. Funcionais.
Kira e Léo tinham acordado há uma hora. Ainda fracos. Ainda processando liberdade. Mas insistindo em ajudar.
— Conhecemos o layout — Kira disse, voz firme apesar da exaustão visível. — Padrões de patrulha. Rotas que não estão nos mapas oficiais. Podemos dar inteligência.
Isadora aceitou. Informação era sempre valiosa, e vinha de fonte que tinha estado lá por dentro recentemente.
Joseph estava na mesa com o dispositivo de supressão mental desmontado à frente. Peças espalhadas. Ferramentas. Concentração absoluta.
— Recalibrei — ele explicou enquanto remontava. — Desta vez não é passivo. É arma ativa. Posso desligar controle mental em área específica por até cinco minutos.
— E depois? — Samuel perguntou.
— Vinte minutos pra recarregar. — Ele olhou pro grupo com expressão séria. — Então escolham bem quando usar.
Paulo estava criando loops falsos e alertas fantasmas nos sistemas da GENOS.
— Vou fazer parecer que há intrusos em quatro lugares diferentes — ele explicou, dedos voando sobre o teclado. — Dispersar forças. Ganhar tempo.
Camila e Ana Clara revisavam equipamento médico com precisão cirúrgica.
— Não vou poder curar tudo em campo — Ana Clara disse, deixando limites claros desde o começo. — Biocinese consome energia. Se eu usar demais, desmaio. E aí ninguém mais cura ninguém.
— Então você faz o essencial — Camila concordou. — Eu cubro o resto com o que tenho.
Marcus estava testando o corpo. Alongamentos. Flexões. Verificando se as pernas aguentariam criar múltiplas cópias de novo.
Seis cópias ontem. Quase tinha desmaiado. Hoje precisaria de pelo menos quatro. Talvez cinco.
O corpo protestava só de pensar.
Marcelo estava... parado. Primeira vez que alguém via ele completamente imóvel. Olhos fechados. Respiração controlada. Preparando a mente pra velocidade extrema.
Andrew observava todos. Seu time. Seu grupo. Pessoas que confiavam nele pra liderá-los em algo que podia matá-los.
Peso nos ombros. Mas também... algo mais. Orgulho, talvez. Ou esperança.
Isadora bateu palma uma vez, chamando atenção.
— Posições finais — ela disse, apontando pro mapa atualizado. — Andrew e Samuel, linha de frente. Sempre. Marcelo, reconhecimento e evacuação rápida. Marcus, no máximo quatro cópias desta vez. Joseph vai com vocês, dispositivo ativo. Ana Clara e Camila ficam na van com Paulo e eu. Luíza coordena do QG, análise em tempo real.
— E nós? — Kira perguntou, segurando a mão de Léo.
— Vocês ficam. Informação já foi passada. Agora precisam recuperar de verdade.
Kira ia protestar. Léo apertou a mão dela. Balançou a cabeça.
— Eles têm razão — ele disse baixo. — A gente ajudou. Agora é com eles.
Ela não gostou. Mas aceitou.
Isadora checou o relógio.
— Onze e quarenta. Saímos em vinte minutos.
Bloco H, Perímetro Externo — 12h19
Meio-dia em São Paulo.
Sol forte. Calor seco de setembro. Campus cheio de estudantes indo e vindo entre aulas. Vida normal. Rotina acadêmica. Ninguém suspeitando do que acontecia embaixo da terra.
Marcelo fez reconhecimento em velocidade. Três voltas completas. Voltou em noventa segundos.
— Segurança dobrou — ele relatou, voz controlada mas tensa. — Guardas em cada entrada. Câmeras novas. Sensores que não estavam lá ontem.
— GENOS reagiu — Luíza confirmou pelo comunicador. — Mas não completamente reorganizou. Se tivessem esperado até a noite...
— Seria pior — Andrew completou. — Rotas viáveis?
— Uma. Manutenção sul. Três guardas. Difícil mas possível.
— Fazemos funcionar.
Avançaram. Movimento coordenado. Melhor que ontem — não muito, mas perceptível. Estavam aprendendo.
Marcus criou duas cópias. Apenas duas. Conservando energia pra quando precisasse de verdade.
As cópias distraíram os guardas. Andrew e Samuel os nocautearam em silêncio. Rápido. Profissional.
Paulo desbloqueou a porta remotamente.
Entraram.
Subsolo 2, Bloco H — 12h33
Desceram em silêncio tenso.
O Subsolo 2 era diferente do resto. Não tinha celas. Era laboratório ativo. Equipamento científico em operação. Monitores piscando. Tubos com líquidos esverdeados. O cheiro de químicos tão forte que queimava.
— Tem algo errado aqui — Marcelo disse baixo, parando de repente.
— O quê? — Andrew perguntou.
— Não sei. Mas sinto. Tem... pressão. No ar. Como se algo estivesse pressionando minha cabeça de dentro pra fora.
Samuel sentiu também. Não físico. Mental.
— Controle mental ativo — Joseph identificou, checando o dispositivo. — Muito mais forte que deveria. Tem alguém amplificando.
— Micheli — Samuel disse, voz saindo rouca.
— Ainda não confirmado — Luíza alertou pelo comunicador. — Foquem na missão.
Avançaram mais fundo.
Corredor estreito à frente. Três guardas potencializados bloqueando o caminho. Olhos vidrados. Kraken-S ativo.
— Marcus — Isadora ordenou, voz curta.
Marcus respirou fundo. Sentiu a energia familiar se acumular. Doía. Sempre doía.
Criou seis cópias. Seu limite absoluto.
Elas se materializaram ao mesmo tempo. Coordenadas. Cada uma assumindo posição estratégica. Três avançaram pelos corredores laterais. Duas ficaram pra trás. Uma com o grupo principal.
Os guardas ficaram confusos. Dividiram atenção. Erro tático fatal.
Andrew aproveitou. Velocidade sobre-humana. Três golpes precisos. Três corpos caindo.
Mas Marcus sentiu o preço.
Dor explodiu na cabeça como bomba. Visão embaçou completamente. Pernas cederam.
Andrew o pegou antes de bater no chão.
— Fica comigo — ele disse firme, segurando Marcus pelos ombros.
— Tô... bem...
— Não, não tá. Mas aguenta. Quase lá.
Duas cópias foram destruídas por outros guardas que surgiram. Marcus gritou — dor fantasma cortando como faca. Mas não desmaiou. Não ainda.
Continuaram.
Área de Manutenção — 12h41
Marcelo estava na frente, abrindo caminho.
Virou esquina e parou abruptamente.
Guarda potencializado. Mas algo tinha dado errado. Olhos selvagens. Movimentos erráticos. Kraken-S tinha falhado — overdose, provavelmente. Agora era animal, não soldado.
E um técnico de manutenção estava encurralado no canto. Jovem. Talvez vinte e cinco anos. Jaleco branco da GENOS. Desarmado. Aterrorizado.
O guarda ia matá-lo.
Marcelo hesitou. Apenas milissegundo. Mas hesitou.
Esse cara trabalhava pra GENOS. Era inimigo. Merecia o que viesse.
Mas também era humano. Com medo. Prestes a morte horrível.
— Marcelo, ignora — Isadora disse pelo comunicador. — Continua.
Ele não ignorou.
Velocidade máxima. Pegou o técnico. Cinco metros em fração de segundo. Depositou longe da zona de perigo.
Voltou pro guarda. Soco cirúrgico nas costelas. Quebraram com estalo alto. O homem caiu, consciente mas incapacitado.
Vivo. Machucado mas vivo.
Marcelo voltou pro grupo.
— Você quase nos expôs — Isadora disse, voz tensa.
— Ele não merecia morrer.
Silêncio no comunicador.
Depois, voz de Andrew:
— Continua, Marcelo. Bom trabalho.
Não foi aprovação total. Foi reconhecimento. Porque salvar vida ainda importava. Mesmo de inimigo.
Sala de Contenção — 12h47
Encontraram.
No centro, três cápsulas cilíndricas de vidro.
Cada uma contendo uma pessoa.
Thiago. Bruno. Carla.
Inconscientes. Flutuando em líquido esverdeado. Conectados a dúzias de tubos e sensores.
Andrew sentiu náusea subir.
— Que porra é essa? — Marcus sussurrou, horrorizado.
— Câmaras de transformação — Joseph respondeu, voz tensa. — Aceleram o processo de ativação. Eu… eu ajudei a projetar isso.
— Sob coação — Samuel lembrou firmemente. — Não foi escolha sua.
Joseph não respondeu. Culpa não desaparecia com lógica.
Paulo hackeou os sistemas das cápsulas. Levou três minutos preciosos.
— Consegui. Iniciando drenagem e despertar controlado.
O líquido começou a esvaziar. Devagar. Muito devagar.
— Mais rápido — Andrew disse.
— Não posso. Se drenar rápido demais, eles podem entrar em choque.
Então esperaram. Cada segundo parecendo hora.
As cápsulas esvaziaram completamente. As portas abriram com hiss pneumático.
Thiago, Bruno e Carla caíram pra frente. Tossindo. Cuspindo líquido. Desorientados.
Mas vivos.
Andrew se aproximou de Thiago. O reconheceu das fotos que Camila tinha mostrado.
— Thiago. Me ouve? A gente veio te tirar daqui.
Thiago olhou pra cima. Olhos confusos. Tentando focar.
— Quem… quem é você?
— Amigo da Camila. A gente tá aqui pra resgatar vocês.
Os olhos de Thiago se arregalaram ao ouvir o nome dela.
— Camila? Ela… ela tá bem?
— Tá. E vai ficar melhor quando te ver.
Mas então Thiago gritou. Não de medo. De dor.
Segurou a cabeça com as duas mãos. Corpo se debatendo.
Bruno e Carla também. Ao mesmo tempo. Como se algo tivesse sido ativado neles simultaneamente.
— Que tá acontecendo?! — Andrew olhou pra Joseph.
— Controle mental remoto! Spectro ativou de longe!
— Pai, o dispositivo! Agora!
Joseph já estava ativando. Frequência máxima. Direcionado.
O pulso saiu invisível mas sentido. Como pressão no ar. Como zumbido inaudível mas presente.
Thiago, Bruno e Carla gritaram mais alto. Processo brutal. Duas forças lutando pelo controle do mesmo cérebro.
Depois de quinze segundos eternos, pararam. Desabaram. Respiração pesada. Suor. Confusão.
Mas os olhos… os olhos estavam lúcidos de novo.
— O que… o que aconteceu? — Bruno perguntou, voz tremula.
— Vocês foram libertados — Samuel disse. — Mas precisamos sair. Agora. Conseguem andar?
Thiago testou as pernas. Tremiam. Mas aguentavam.
— Acho que sim.
Bruno estava catatônico. Consciente mas não processando. Carla aterrorizada, olhos arregalados demais.
Samuel ajudou Bruno a levantar. Marcelo pegou Carla.
— Vamos sair — Andrew disse. — Mas precisamos ir rápido.
Começaram a se mover.
Marcelo fez varredura rápida do Subsolo 2. Procurando.
— Nenhuma outra cela — ele relatou. — Ninguém mais preso aqui.
— E Micheli? — Samuel perguntou, voz desesperada.
— Não tá aqui. Não tem registro dela em lugar nenhum.
Paulo confirmou remotamente:
— Cruzei todos os bancos de dados. Nada. É como se ela não existisse.
Luíza no comunicador, voz pesada:
— Ela não tá em ala comum. Isso já sabíamos. A questão é onde ela realmente está.
Joseph sentiu algo. Padrão nas leituras do dispositivo.
— Tem controle mental centralizado vindo de... baixo. Subsolo 4. Muito mais profundo.
— Subsolo 4? — Andrew repetiu. — Não tem nos mapas.
— Porque é área ultra-restrita. Eu sabia que existia mas nunca tive acesso.
Samuel sentiu dor explodir na cabeça. Não dor física. Mental. Como se algo estivesse tentando entrar à força.
E então ouviu.
Não com ouvidos. Com mente.
Samuel.
Voz fraca. Distante. Mas inconfundível.
Micheli.
Visão Telepática — 12h53
Samuel caiu de joelhos. Corpo presente mas mente longe.
Todos ao redor dele. Andrew segurando. Mas Samuel não via.
Via outro lugar.
Sala escura. Fria. Cheiro de metal e químicos. Subsolo 4.
No centro, estrutura complexa. Cápsula cilíndrica. Maior que as outras. Tubos. Fios. Monitores mostrando atividade cerebral impossível.
E dentro...
Micheli.
Flutuando. Inconsciente mas ativa. Olhos fechados mas mente trabalhando. Controlando dezenas — talvez centenas — de pessoas ao mesmo tempo. Forçada. Sempre forçada.
Ela era núcleo. Centro. Razão pela qual GENOS conseguia controlar tantos Sujeitos simultaneamente.
E ela falou. Não com voz. Com pensamento direto.
Samuel. Amor. Me tira daqui. Por favor. Me tira.
A visão mostrou mais. Localização. Subsolo 4. Acessos. Guardas. Sistemas.
Tudo.
Dor explodiu. Mental. Como se cérebro estivesse sendo rasgado.
Samuel voltou gritando.
Corredor, Subsolo 2 — 12h54
— SAMUEL! — Andrew segurava ele. — Você tá aqui! Fica comigo!
Samuel ofegava. Suor. Tremores. Mas consciente.
— Vi ela — ele disse, voz quebrada. — Micheli. Ela me mostrou. Subsolo 4. Ela tá... eles a conectaram. Ela é parte do sistema. O coração de tudo.
Kira reconheceu a descrição pelo comunicador:
— Eu vi aquele lugar, quando me levaram pra procedimento. Fica no subsolo 4. Ultra restrito, blindado.
Joseph confirmou, horrorizado:
— Se ela tá integrada assim... não é prisioneira comum. É componente. Ferramenta.
Silêncio absoluto.
Depois, alarmes.
Alto. Estridente. Vermelho piscando.
— Saiam! — Isadora ordenou. — Agora!
Retirada — 12h56
Correram.
Guardas convergindo. Portas de contenção fechando. GENOS reagindo com força total.
— Paulo! — Andrew gritou.
— Trabalhando! — Os dedos de Paulo voavam sobre o teclado. — Hackeando protocolo de emergência… pronto! Portas travadas em posição aberta!
Marcelo abriu caminho. Velocidade cortando através de obstáculos.
Marcus criou mais uma cópia — única que conseguia fazer sem desmaiar. Ela durou dez segundos antes de ser destruída. Mas dez segundos foram suficientes pra confundir patrulha.
Samuel segurava retaguarda com descargas elétricas controladas, contendo mas não matando.
Andrew absorvia impactos, o corpo servindo de escudo. Dor registrada mas ignorada.
Joseph os guiava pela rota que Kira tinha descrito.
Passaram, por segundos. Literalmente segundos antes das travas serem reativadas manualmente e os reforços bloquearem todas as saídas.
Chegaram no perímetro externo. Marcelo pegou Thiago e desapareceu. Voltou três segundos depois, pegou Bruno, desapareceu de novo. Terceira viagem pra Carla.
Correram, e entraram na van. Isadora acelerou antes da porta fechar completamente.
Silêncio absoluto enquanto se afastavam. Apenas respiração pesada. Alívio. Exaustão.
Tinham conseguido. De novo.
Mas sentiram. Desta vez foi mais difícil. GENOS estava aprendendo.
E eles também.
Galpão Secundário, Zona Norte — 13h41
Ana Clara e Camila trabalharam imediatamente.
Thiago, Bruno e Carla precisavam de estabilização urgente. Corpos em choque pós-transformação. Mentes fragmentadas por supressão abrupta de controle.
Não era cura. Era manutenção de emergência.
Camila aplicou sedativos leves. Monitores cardíacos. Fluidos intravenosos.
Ana Clara usou biocinese minimamente — apenas pra parar sangramentos internos, estabilizar pressão, garantir que órgãos não entrassem em falha.
— Não posso fazer mais — ela disse quando terminou, pálida de exaustão. — Não aqui. Não agora.
Os três estavam estáveis. Vivos. Conscientes mas confusos.
Thiago olhou pras próprias mãos. Sentiu algo. Energia. Poder. Estranho. Assustador.
— O que... o que eles fizeram comigo?
Camila se ajoelhou ao lado dele, voz gentil:
— Te transformaram. Mas você tá livre agora. Pode escolher o que fazer com isso.
— Escolher? — Carla perguntou, voz trêmula. — Como a gente escolhe algo que não pedimos?
Ana Clara se aproximou. Séria. Direta.
— Eu posso ajudar — ela disse. — Posso curar. Posso até remover os poderes, se vocês quiserem. Mas só faço se vocês pedirem. Explicitamente. Conscientemente.
Silêncio pesado.
— Remover? — Bruno repetiu, primeira coisa que ele dizia desde que acordou. — Tipo... voltar a ser normal?
— Sim. Mas tem riscos, é um procedimento perigoso, mas possível. Mas é escolha de vocês. Não minha. Não de ninguém.
Os três processaram. Olharam uns pros outros. Depois de volta pra Ana Clara.
— Preciso... preciso pensar — Thiago disse.
— Todos vocês precisam — Camila concordou. — Não decidam agora. Descansem. Recuperem. Depois decidem.
Eles concordaram. Exaustos demais pra processar mais.
Ana Clara se afastou. Samuel a observava. Marcus também.
Todos carregavam marcas. Todos podiam pedir cura.
Mas era escolha deles.
Não hoje. Mas em breve.
Galpão Secundário, Zona Norte — 21h30
O grupo estava reunido.
Exaustos. Machucados. Mas vivos.
Thiago, Bruno e Carla dormindo em quartos separados. Sedados. Monitorados.
O resto acordado porque não conseguia dormir.
Paulo tentou aliviar a tensão:
— Então... alguém pensou em nome pro grupo?
Silêncio. Depois, risada nervosa de Camila.
— Nome? A gente mal consegue não morrer e você quer nome?
— Sei lá. Todo grupo de heróis dos quadrinhos tem nome. A gente podia ser... — ele pensou — ...sei lá. Os Super Sujeitos?
— Horrível — Marcelo disse sem hesitação.
— Liga dos Amigos com Superpoderes?
— Pior ainda.
— Liga Suprema?
Pausa. Todos consideraram.
— Não é péssimo — Marcus admitiu.
— É meio cafona — Isadora disse. — Mas não é o pior nome que eu já ouvi.
Andrew lembrou algo:
— República Suprema. O lugar onde a gente mora. Liga Suprema. Faz sentido, talvez.
— Então a gente é a Liga Suprema agora? — Kira perguntou, sorrindo pela primeira vez em dias.
— Não oficialmente — Isadora respondeu rápido. — Só... sei lá. Piada interna.
Mas o nome ficou no ar. Plantado. Crescendo.
Momento humano terminou rápido.
Isadora voltou aos mapas.
— GENOS vai responder com força total — ela disse. — Depois de hoje, eles sabem que somos ameaça real.
— E Micheli não pode esperar — Samuel acrescentou, voz tensa.
Ana Clara cruzou os braços:
— Liberar ela não vai ser simples. Se ela tá integrada ao sistema, desconectar pode... matá-la.
— Ou libertar ela completamente — Joseph rebateu. — Mas o risco é extremo.
Luíza concordou:
— Para chegar ao Subsolo 4, vocês vão ter que atravessar tudo que GENOS tem. E não vai ser possível voltar atrás.
Silêncio pesado.
— Então a gente se prepara direito — Andrew disse. — E vai.
Ninguém discordou.
Galpão Secundário, Zona Norte — 23h47
Todos tinham ido tentar dormir.
Exceto Samuel.
Ele estava sentado sozinho na sala. Luzes apagadas. Apenas claridade da cidade entrando pela janela.
E então sentiu de novo.
Dor de cabeça. Leve. Mas presente.
Voz na mente. Fraca. Distante. Mas inconfundível.
Samuel.
Eu ainda estou aqui.
Mas não por muito tempo.
Por favor.
Vem me buscar.
Samuel segurou a cabeça com as duas mãos. Lágrimas descendo.
— Eu vou — ele sussurrou pro vazio. — Eu prometo. A gente vai te tirar de lá.
A voz sumiu. Mas a promessa ficou.
No dia seguinte, eles começariam a planejar.
Não resgate simples.
Guerra.
Porque liberar Micheli significava desmantelar o coração da GENOS.
E alguém ia pagar preço alto por isso.
Mas não importava.
Porque antes de tudo, antes da guerra, antes do sacrifício...
Eles eram time.
Não perfeito. Não invencível.
Mas unidos.
E isso já era mais do que GENOS esperava.
FIM DO CAPÍTULO 18
PRÓXIMO CAPÍTULO: A ESCOLHA