Sede da CIETEC, Barra da Tijuca — 10h20
O prédio da CIETEC era uma fortaleza de vidro e concreto espelhado que refletia o céu azul da Barra como se quisesse desaparecer nele. Doze andares de tecnologia de ponta, segurança militar e segredos corporativos enterrados em servidores refrigerados no subsolo. Wagner passou pela catraca eletrônica mostrando a carteirinha de imprensa da Rede Global. A recepcionista — uma mulher jovem com sorriso treinado e unhas perfeitamente esmaltadas — checou o sistema.
— Senhor Cavalieri, o doutor Paulo Roberto está esperando no décimo andar. — Ela entregou um crachá de visitante. — O elevador à direita.
Wagner prendeu o crachá no bolso da camisa social. Ele tinha escolhido roupa mais formal hoje: calça de sarja azul-marinho, camisa branca, sapato social. Nada de jeans e tênis de repórter de rua. Precisava parecer profissional, institucional, inofensivo.
O elevador tinha aquele cheiro de novo, de plástico e metal polido. Música ambiente tocava baixinho — algo instrumental e genérico que parecia projetado para não criar nenhuma emoção. Wagner checou o celular. Lena tinha mandado mensagem às seis da manhã:
"Dispositivo tá no bolso interno da sua mochila. Parece pen drive comum. Enfia em qualquer USB que tiver sozinho. Demora 30 segundos pra instalar o backdoor. Não caga no pau."
Ele tocou a mochila no ombro. O peso do pen drive parecia maior do que os cinco gramas que realmente tinha.
As portas se abriram no décimo andar. Corredor largo, piso de mármore claro, quadros abstratos nas paredes. Tudo limpo demais, silencioso demais. Uma secretária o guiou até a sala de Paulo Roberto.
O CEO da CIETEC estava atrás de uma mesa de madeira escura, óculos de leitura na ponta do nariz, digitando algo no computador. Quando Wagner entrou, ele tirou os óculos e abriu aquele sorriso largo que não chegava aos olhos.
— Wagner! Rapaz, que surpresa boa. — Ele se levantou, estendendo a mão. O aperto era firme, calejado. — Quando disseram que você queria fazer uma matéria institucional sobre a CIETEC, eu pensei: "finalmente o menino vai conhecer o império que o pai dele ajudou a construir".
Wagner apertou a mão de volta, forçando um sorriso.
— Pois é. Achei que era hora de trazer uma perspectiva jornalística pra empresa. Mostrar o lado humano da tecnologia, sabe como é.
— Ótima ideia. — Paulo Roberto apontou para as cadeiras de couro em frente à mesa. — Senta, senta. Quer um café? Água?
— Café, por favor.
Paulo Roberto apertou um botão no interfone. A secretária apareceu segundos depois com uma bandeja: café expresso em xícaras de porcelana, açúcar mascavo, biscoitos amanteigados. Tudo muito civilizado. Muito corporativo.
Wagner pegou a xícara, sentindo o calor através da porcelana fina. Paulo Roberto se recostou na cadeira, os dedos entrelaçados sobre a barriga.
— Então, o que você quer saber? Fundação da empresa? Projetos atuais? Inovação tecnológica?
— Na verdade... — Wagner bebeu um gole. O café era excelente. Amargo na medida. — Eu queria entender melhor a história da CIETEC. Como vocês cresceram nos últimos vinte anos. Os desafios, as conquistas.
— Ah, uma retrospectiva. — Paulo Roberto assentiu. — Gosto disso. História é importante. A gente esquece de onde veio, perde o rumo.
Wagner colocou o gravador na mesa.
— Posso?
— Claro, claro.
Ele apertou o botão vermelho. O gravador zumbiu baixinho.
— A CIETEC foi fundada em 1998, certo?
— Exato. Seu pai e eu, mais três sócios. Éramos jovens, cheios de energia, querendo mudar o Brasil com tecnologia. — Paulo Roberto riu. — Parece ingênuo agora, mas era verdade.
— E nos primeiros anos, qual era o foco principal?
— Software de gestão pra empresas. Nada glamoroso. Mas pagava as contas. — Ele pegou um biscoito. — Depois expandimos pra consultoria, infraestrutura de TI, segurança cibernética. Hoje a gente faz de tudo um pouco.
Wagner fez algumas perguntas genéricas. Deixou Paulo Roberto falar sobre os sucessos, os contratos com governos estaduais, as parcerias internacionais. Depois, devagar, ele começou a pescar.
— E 2015? Como foi esse ano pra CIETEC?
Paulo Roberto pausou. Só um segundo. Mas pausou.
— 2015 foi... complicado. A economia tava em crise. Impeachment, instabilidade política. A gente teve que apertar os cintos.
— Mas vocês receberam uma injeção de capital grande naquele ano, não foi?
Os olhos de Paulo Roberto se estreitaram levemente.
— Como você...? — Ele se controlou. — Bem, sim. Tivemos investidores interessados. Capital estrangeiro. Normal no mercado.
— E tinha algum projeto específico que justificava esse investimento?
— Vários. Expansão, pesquisa, desenvolvimento.
Wagner se inclinou pra frente.
— Minha mãe trabalhava aqui nessa época, né?
O silêncio ficou denso. Paulo Roberto colocou o biscoito de volta no prato, limpou as mãos num guardanapo.
— Alice era uma consultora brilhante. — Sua voz saiu mais baixa. — Uma das melhores que eu conheci.
— No que exatamente ela trabalhava?
— Auditoria interna. Compliance. Essas coisas.
— E ela sumiu em 2015.
Não era uma pergunta. Paulo Roberto engoliu seco.
— Wagner, eu... eu não sei o que você tá procurando, mas...
— Estou procurando a verdade. — Wagner desligou o gravador. — O senhor disse na minha formatura que minha mãe era brilhante. Que era uma pena "o que aconteceu". O que aconteceu, Paulo Roberto?
O CEO se levantou, caminhou até a janela. Lá embaixo, a Barra se estendia: condomínios de luxo, shoppings gigantes, o mar ao fundo. Ele ficou ali, as mãos nos bolsos, o ombro tenso.
— Seu pai não te contou?
— Meu pai não conta nada.
— Talvez por um bom motivo.
— Ou talvez porque tem algo a esconder.
Paulo Roberto se virou. O rosto dele tinha envelhecido dez anos em dez segundos.
— Alice descobriu coisas. Coisas que não deveria ter descoberto. — Ele respirou fundo. — Eu não posso te dar detalhes, Wagner. Não porque não quero, mas porque não sei de tudo. Seu pai blindou as informações. Disse que era pra proteger você.
— Proteger de quê?
— De gente que não brinca em serviço. — Paulo Roberto voltou pra mesa, apoiando as mãos na madeira. — Olha, você é um bom garoto. Inteligente. Corajoso. Mas tem batalhas que você não pode vencer. E essa é uma delas.
— O senhor tá com medo.
— Claro que eu tô com medo. — Ele deu uma risada sem humor. — Você acha que sobrevivi vinte anos nesse mercado sendo valente? Eu sobrevivi sendo esperto. Sabendo quando calar a boca.
Wagner se levantou.
— Obrigado pelo tempo, Paulo Roberto.
— Wagner. — O CEO segurou o braço dele. — Tenha cuidado com o que você deseja encontrar. Porque quando você encontrar, não vai poder desfazer o conhecimento. E nem todo mundo consegue viver com certas verdades.
Wagner puxou o braço de volta.
— Eu vou descobrir o que aconteceu com minha mãe. Com ou sem ajuda.
Ele saiu da sala. O coração batendo rápido. No corredor, viu uma salinha de impressoras e copiadoras. Vazia. Ele olhou pros lados. Ninguém. Entrou rápido, fechou a porta.
Havia um computador ligado, provavelmente usado para gerenciar as impressões. Wagner tirou o pen drive do bolso da mochila. As mãos tremiam. Ele enfiou no USB.
A tela piscou. Uma barra de progresso apareceu: Instalando... 12%... 35%... 68%...
Wagner ouviu passos no corredor. Merda. Ele olhou pra porta. A maçaneta começou a girar.
89%... 94%...
A porta se abriu. Uma funcionária entrou com uma pilha de papéis. Ela olhou pra ele, surpresa.
— Oi?
100%. Instalação completa.
Wagner arrancou o pen drive, enfiou no bolso.
— Desculpa, eu tava procurando o banheiro.
— É na outra ponta do corredor. — Ela apontou, desconfiada.
— Valeu. — Ele passou por ela, saindo rápido demais pra parecer natural.
No elevador, ele finalmente respirou. Mandou mensagem pra Lena:
"Feito. Tá dentro."
A resposta veio antes das portas se fecharem:
"Que delícia. Agora o parquinho é meu."
Apartamento em Copacabana — 16h50
Vivian estava em pé na frente do quadro branco, uma caneta vermelha na mão, circulando nomes e traçando setas que conectavam pessoas, empresas e crimes como uma teia de aranha feita de sangue e dinheiro. Ela tinha prendido o cabelo num coque bagunçado, usava uma camiseta velha da PUC e shorts de moletom. Os olhos vermelhos de quem tinha dormido mal — ou não tinha dormido nada.
Wagner entrou no apartamento e trancou a porta. Três trancas agora. Duas novas instaladas ontem. A corrente no batente. A sensação de viver numa fortaleza improvisada.
— Conseguiu? — Vivian perguntou sem tirar os olhos do quadro.
— Consegui. Lena já tá dentro do sistema.
— Ótimo. — Ela circulou outro nome: Construtora Alvorada Ltda. — Porque eu passei a tarde inteira ligando os pontos e a coisa é pior do que a gente pensava.
Wagner jogou a mochila no sofá e se aproximou. O quadro estava ainda mais caótico. Fotos impressas de milicianos conhecidos, recortes de jornal sobre assassinatos, prints de transferências bancárias.
— Pior como?
— A CGR não é só milícia de bairro. Ela é uma empresa. — Vivian apontou para o organograma que tinha desenhado. — Tem estrutura hierárquica, departamento financeiro, logística, RH. Eles pagam salários, oferecem "benefícios", têm contadores. É uma corporação, só que armada e ilegal.
Wagner passou a mão pelo cabelo.
— E o Senador Aníbal é o CEO.
— Exatamente. — Ela riscou o nome dele no topo da pirâmide. — E embaixo dele, tem uns dez tenentes controlando regiões diferentes. Cada um com autonomia operacional, mas respondendo pra ele. É como uma franquia de terror.
Wagner pegou uma cerveja na geladeira. Abriu com o dente. Bebeu metade de um gole.
— Se a gente publicar isso, ele cai. O império inteiro desmorona.
— Se a gente publicar isso... — Vivian se virou pra ele. — A gente morre, Wagner. Não é figura de linguagem. A gente literalmente morre.
Ele olhou pra ela. Os olhos castanhos cheios de medo, mas também de determinação. Vivian tinha uma contradição que o fascinava: ela era a pessoa mais racional e corajosa que ele conhecia ao mesmo tempo.
— Então você quer parar?
— Não. — Ela riu, um som sem humor. — Eu quero que você me mande pra longe daqui.
Wagner franziu a testa.
— O quê?
— Você ouviu. — Vivian cruzou os braços. — Me manda passar uns dias com minha família em Petrópolis. Ou no interior. Longe do Rio. Longe da CGR.
— Você tá falando sério?
— Não, eu tô testando você. — Ela deu um passo à frente. — Claro que eu tô falando sério. Você viu a foto, Wagner. O círculo vermelho em volta de mim. Eles não vão mais atrás de você. Eles vão me usar pra te quebrar.
Wagner colocou a cerveja na mesa, devagar.
— E você acha que eu vou concordar com isso? Que eu vou te mandar embora e continuar sozinho?
— Sim.
— Então você me conhece muito mal.
— Wagner...
— Não. — Ele segurou os ombros dela. — Você é jornalista tanto quanto eu. Seu nome tá na matéria tanto quanto o meu. Se eu fico, você fica. Se você vai, eu vou. Não tem meio termo.
Vivian piscou rápido. As lágrimas vieram antes que ela conseguisse segurar.
— Eu tô com medo.
— Eu também.
— Não, você não entendeu. — Ela limpou o rosto com a manga. — Eu tô com medo de verdade, Wagner. Eu acordo de madrugada achando que tem alguém no apartamento. Eu olho pro retrovisor a cada cinco segundos. Eu não consigo comer direito porque meu estômago tá embrulhado o tempo todo. Eu tô... eu tô desmoronando.
Wagner a puxou num abraço. Ela afundou o rosto no peito dele, os ombros tremendo. Ele sentiu as lágrimas molhando sua camisa.
— A gente vai sair dessa. — Ele sussurrou. — Eu prometo.
— Você não pode prometer isso.
— Eu sei. Mas eu vou fazer acontecer mesmo assim.
Eles ficaram assim por longos minutos. O barulho da cidade entrando pelas janelas abertas: buzinas, conversas distantes, o eterno burburinho do Rio.
Quando Vivian finalmente se afastou, ela tinha o rosto vermelho mas os olhos secos.
— Se eu ficar, a gente faz isso do jeito certo. Nada de heroísmo, nada de se jogar sozinho em armadilhas. A gente é um time.
— A gente sempre foi.
Ela sorriu. Um sorriso pequeno, mas real.
— Então me beija antes que eu mude de ideia.
Ele beijou.
E por um momento, o medo ficou em segundo plano.
Videochamada Criptografada — 21h35
A tela do laptop mostrava o rosto de Lena iluminado pela luz azulada dos monitores. Ela estava mastigando alguma coisa — provavelmente miojo ou salgadinho — e tinha olheiras que chegavam no queixo.
— Vocês dois parecem um casal de refugiados de guerra. — Ela disse, sem filtro. — Dormiram?
— Pouco. — Wagner admitiu. Ele e Vivian estavam espremidos no sofá, o laptop equilibrado numa pilha de livros na mesinha de centro. — Conseguiu algo?
— Consegui e não consegui. — Lena engoliu. — O backdoor funcionou perfeitamente. Eu tô dentro dos servidores da CIETEC. Mas o sistema de segurança deles é de outro nível. Tem camadas sobre camadas de criptografia. Firewall duplo. Autenticação multifatorial. Alguém lá leva privacidade muito a sério.
— Mas você é melhor, né? — Vivian perguntou.
— Claro que eu sou melhor. — Lena revirou os olhos. — Mas até eu preciso de tempo. E tem algo esquisito rolando.
Wagner se inclinou pra frente.
— Esquisito como?
Lena digitou algo fora da tela. Uma janela apareceu na chamada de vídeo: uma pasta de arquivos com nomes codificados.
— Encontrei isso. Projeto Carcará. Arquivos de 2005 até 2015. Tudo criptografado com algoritmo militar. Nem parece arquivo corporativo. Parece coisa de governo.
Wagner sentiu um calafrio.
— Carcará. Como o apelido da minha mãe.
— Exatamente. — Lena abriu outro arquivo. — E olha isso. Registros de gastos. Milhões de reais. Transferências pra contas offshore, compra de equipamentos... vou ler aqui: "contenção de carga perigosa", "transporte sigiloso", "protocolo de emergência ativado".
Vivian apertou a mão de Wagner.
— Contenção de quê?
— Não sei. Os arquivos técnicos tão todos encriptados. Mas tem um memorando interno de 2015 que eu consegui descriptografar. — Lena leu da tela. — "Falha de contenção confirmada. Protocolo Carcará ativado. Consultora Alice Cavalieri designada para auditoria emergencial. Risco máximo de exposição pública."
O silêncio na sala era absoluto. Wagner sentia o coração martelando no peito.
— Minha mãe descobriu algo. Algo que eles não podiam deixar vazar.
— E ela pagou por isso. — Vivian completou.
Lena estava prestes a dizer algo quando a tela tremeu. Um alerta vermelho apareceu no canto da janela.
— Merda.
— O que foi? — Wagner perguntou.
— Contra-ataque. — Lena começou a digitar freneticamente. — Alguém detectou minha presença no sistema e tá tentando rastrear a origem da invasão.
— Você consegue bloquear?
— Eu tô tentando, caralho! — Ela digitava tão rápido que as mãos viravam um borrão. — Mas quem quer que seja isso, é bom. Muito bom. Nível NSA.
A tela começou a travar. Códigos se sobrepondo. Janelas abrindo e fechando sozinhas.
— Lena! — Vivian gritou.
— Eu vou ter que derrubar tudo. Se ele chegar até mim, chega até vocês. — Lena olhou pra câmera, os olhos arregalados. — Foda-se, desconectando!
A tela ficou preta.
Wagner e Vivian ficaram olhando pro laptop, imóveis.
Segundos depois, uma mensagem de texto chegou no celular de Wagner:
"Tô viva. Mas agora eles sabem que alguém tá investigando. Vão ficar em alerta máximo. Vamos precisar ser mais cuidadosos."
Wagner digitou de volta:
"Você tá segura?"
"Por enquanto. Mas apaguei meus rastros. Eles não conseguiram me localizar. Acho."
"Acha ou tem certeza?"
"No meu trabalho, certeza não existe. Só probabilidades."
Wagner desligou o celular e olhou pra Vivian.
— A gente tá mexendo com coisa grande. Maior do que a gente imaginava.
— Governo?
— Talvez. Ou empresa com conexões governamentais. — Ele se levantou, caminhou até a janela. A noite cobria Copacabana com seu manto de luzes e sombras. — Seja lá o que minha mãe descobriu, era importante o suficiente pra ativar protocolos de segurança nacional.
— E pra fazer ela sumir.
Wagner encostou a testa no vidro frio.
— Eu vou descobrir, Vivi. Nem que seja a última coisa que eu faça.
— É disso que eu tenho medo. — Ela sussurrou.
Restaurante Olympe, Jardim Botânico — 20h15
O restaurante era o tipo de lugar onde os garçons usavam luvas brancas e cada prato custava o salário mensal de um professor. Iluminação suave, música clássica no volume perfeito, mesas espaçadas para garantir privacidade. Wagner odiava lugares assim. Odiava a pretensão, o elitismo silencioso, a sensação de que o mundo lá fora não existia.
Mas Leon tinha insistido. "Jantar em família", tinha dito. Como se eles fossem uma família normal.
Wagner chegou usando a mesma roupa do almoço na CIETEC. Não tinha paciência pra trocar. Leon já estava sentado, terno cinza carvão, sem gravata, um copo de vinho tinto na frente dele. E ao lado...
Senador Aníbal Costa.
Wagner parou no meio do salão. O sangue gelou nas veias.
Leon fez um gesto sutil com a mão. "Vem."
Wagner caminhou devagar, cada passo custando um esforço consciente. Quando chegou na mesa, Leon se levantou, colocou a mão no ombro dele.
— Wagner, você conhece o Senador Aníbal.
Aníbal também se levantou. Ele tinha uns sessenta e poucos anos, cabelo branco impecavelmente penteado, óculos de armação dourada, sorriso de político. Esticou a mão.
— Wagner Cavalieri. Prazer imenso. Ouvi falar muito de você.
Wagner olhou pra mão estendida. Aquela mão tinha sangue. Tinha ordenado surras, assassinatos, extorsões. Aquela mão comandava a CGR.
Ele apertou. Firme. Olhando direto nos olhos.
— Senador.
— Senta, senta. — Aníbal voltou à cadeira, pegando o cardápio. — Leon me convidou pra conversar sobre uns projetos em comum. Quando soube que você viria, fiquei animado. Sempre quis conhecer o jovem jornalista que tá fazendo barulho na Rede Global.
Wagner sentou, as costas rígidas. Leon serviu vinho na taça dele.
— O Senador é um grande apoiador da imprensa livre. — Leon disse, a voz neutra. — Sempre defendeu a liberdade de expressão no Congresso.
— É verdade. — Aníbal assentiu. — Jornalismo é o pilar da democracia. Sem vocês, a gente vira ditadura.
A hipocrisia era tão densa que Wagner quase engasgou.
— Interessante ouvir isso. — Ele bebeu o vinho. Era excelente, obviamente. — Principalmente de alguém que... bem, que tem uma relação tão próxima com a segurança pública no Rio.
Aníbal sorriu. Não era um sorriso genuíno. Era uma advertência disfarçada de cordialidade.
— A segurança pública é complicada, Wagner. Tem nuances. O que parece violência às vezes é proteção. O que parece abuso às vezes é ordem. Você é jovem ainda. Vai entender com o tempo.
— Eu entendo agora. — Wagner não desviou o olhar. — Entendo perfeitamente.
O silêncio se instalou. Leon limpou a garganta.
— Vamos pedir? Eu recomendo o medalhão ao molho de ervas.
O jantar foi uma tortura civilizada. Aníbal falando sobre projetos de lei, desenvolvimento urbano, parcerias público-privadas. Leon contribuindo com comentários diplomáticos, mantendo a conversa superficial e segura. Wagner comendo sem sentir o gosto, cada garfada uma obrigação social.
Até que Aníbal se virou pra ele.
— Ouvi dizer que você tá investigando Madureira. A situação dos comerciantes.
Wagner parou com o garfo no ar.
— Sou jornalista. Investigo o que for relevante.
— Claro, claro. — Aníbal limpou a boca com o guardanapo. — Mas você precisa ter cuidado, rapaz. A Zona Norte é... volátil. Tem muita gente perigosa. Milícia, tráfico, polícia corrupta. Um jovem jornalista pode se meter em encrenca sem querer.
— Eu sei me cuidar.
— Tenho certeza que sim. — Aníbal se recostou na cadeira. — Mas às vezes, coragem é confundida com imprudência. E imprudência... bem, pode custar caro. Não só pra você, mas pra quem você ama.
A ameaça era clara como água. Wagner sentiu a raiva subindo, quente e perigosa.
— É uma ameaça, Senador?
— Wagner. — Leon interveio, a voz cortante. — Não seja dramático.
— Não, não. — Aníbal levantou as mãos. — Deixa o menino falar. Ele tá certo de questionar. É o trabalho dele. — Ele olhou direto pra Wagner. — Não é ameaça, rapaz. É conselho. De um homem mais velho que já viu muita gente boa se perder por perseguir fantasmas.
— Fantasmas? — Wagner inclinou pra frente. — Comerciantes mortos são fantasmas? Famílias destruídas são fantasmas?
— São tragédias. — Aníbal suspirou. — Mas que você precisa entender dentro do contexto. Madureira é uma zona de guerra. Sempre foi. E em guerra, baixas acontecem.
— Que conveniente. Reduzir assassinatos a "baixas".
Leon bateu a mão na mesa. Não forte, mas o suficiente pra fazer as taças tremeram.
— Chega. Os dois. — Ele olhou pra Wagner. — Você vai me desculpar, Senador. Meu filho tem o sangue quente da juventude.
— Sem problema. — Aníbal pegou a taça de vinho. — Eu admiro a paixão. Só espero que ela não o cegue.
O resto do jantar foi silêncioso. Quando terminaram, Aníbal se despediu com um sorriso e um aperto de mão. Leon pediu a conta. Wagner esperou até ficarem sozinhos.
— O que foi isso?
— Diplomacia. — Leon assinou o recibo. — Algo que você claramente não aprendeu.
— Diplomacia? — Wagner deu uma risada amarga. — Você me colocou na mesma mesa que o chefe da milícia que me mandou bater!
— Exatamente. — Leon guardou a caneta. — Pra ele ver que você tem proteção. Pra ele saber que mexer com você tem consequências.
— Ou pra mostrar que você tá do lado dele.
Leon olhou pro filho. A expressão era de pedra.
— Eu não tenho lado, Wagner. Eu tenho sobrevivência. E você também deveria. — Ele se levantou. — Boa noite.
E saiu, deixando Wagner sozinho na mesa, rodeado de pratos vazios e respostas que não vieram.
Rua próxima ao Jornal Global, Centro — 22h40
Wagner estava voltando a pé da redação quando viu a fumaça. Preta, densa, subindo em espiral contra o céu noturno. O cheiro de borracha queimada invadindo o ar. Ele acelerou o passo, o coração disparando.
A multidão já tinha se formado. Curiosos, funcionários da emissora, seguranças tentando controlar o perímetro. No meio da rua, um carro em chamas. Um sedan branco com o logo da Rede Global nas portas.
— Meu Deus. — Uma mulher ao lado dele sussurrou. — Foi proposital?
Wagner se aproximou. Bombeiros já estavam no local, esguichos de água combatendo o fogo. Mas o carro era perda total. Vidros estilhaçados, lataria derretida, pneus transformados em poças de borracha líquida.
Um segurança o reconheceu.
— Senhor Cavalieri, o senhor não deveria estar aqui.
— O que aconteceu?
— Duas motos. Três caras. Jogaram coquetel molotov e saíram em disparada. Ninguém se feriu, graças a Deus. Mas destruíram o carro.
Wagner olhou ao redor. A redação estava em alerta. Seguranças armados nas portas. Câmeras de vigilância ativas. Leon já tinha mobilizado a estrutura de proteção.
Mas havia algo no chão. Perto da sarjeta. Um papel queimado, metade consumido pelas chamas. Wagner se abaixou, pegou com cuidado.
Parte do texto ainda era legível:
"...Alice Cavalieri... Rua das Margaridas... 142... Nova Iguaçu..."
E abaixo, escrito à mão:
"Se quer respostas, vem buscar."
Wagner dobrou o papel e enfiou no bolso. O coração batendo tão forte que ele podia ouvir o próprio pulso nos ouvidos.
Ele olhou pro prédio da Rede Global. As luzes acesas em todos os andares. Seguranças fazendo ronda. Leon provavelmente lá dentro, coordenando protocolos de segurança, transformando a redação numa fortaleza.
E Wagner percebeu: ele estava ficando sem aliados em quem confiar.
Leon queria protegê-lo trancando-o numa gaiola dourada.
Vivian estava com medo demais pra pensar com clareza.
Lena tinha um hacker do nível governamental no seu encalço.
E agora, alguém estava acenando com informações sobre Alice. Informações que podiam ser verdadeiras. Ou uma armadilha mortal.
Ele tirou o celular do bolso. Abriu o mapa. Digitou o endereço:
Rua das Margaridas, 142 — Nova Iguaçu
A localização apareceu. Baixada Fluminense. Território da CGR. Um dos bairros mais violentos do estado.
Wagner sabia que era armadilha. Sabia que estavam o levando exatamente pra onde queriam. Sabia que se fosse sozinho, poderia não voltar.
Mas era sobre Alice.
E isso apagava qualquer lógica.
Ele olhou de novo pro prédio da Rede Global. As luzes. A segurança. A proteção que Leon tinha construído.
E então virou as costas.
Porque às vezes, a única saída é entrar ainda mais fundo no labirinto.
Mesmo sabendo que o Minotauro está esperando.
FIM DO CAPÍTULO 3