Sertão do Ceará, Mosteiro Divinae Vindictae — Ano 2, Mês 18
Pátio dos Veteranos — Madrugada
O sol ainda não tinha nascido quando Polyborus entrou no pátio. Era diferente do pátio central onde os Novicius treinavam. Aqui, o chão de pedra tinha manchas escuras — sangue absorvido ao longo de décadas. As paredes eram marcadas por impactos. E no centro, dez homens e mulheres esperavam.
Veteranos. Sicarius com anos de campo. Cicatrizes visíveis. Olhares vazios.
Magister Severus estava ao lado de Frater Lanista — o mesmo que tinha ensinado Polyborus a abater porcos. Mas aqui, ele segurava um bastão de carvalho.
— A partir de hoje, — Severus disse, a voz ecoando no silêncio antes do amanhecer, — você não aprende mais a trabalhar. Você aprende a matar.
Polyborus assentiu.
— O corpo humano tem duzentos e seis ossos. — Lanista deu um passo à frente. — Centenas de articulações. Pontos de pressão nas artérias, nervos expostos em trinta e sete locais críticos. — Ele girou o bastão. — Você vai aprender cada um. Praticando em nós. E nós praticando em você.
Um dos veteranos — uma mulher de uns quarenta anos, cabelo grisalho preso num rabo de cavalo — se aproximou. Ela não disse nada. Apenas atacou.
Polyborus bloqueou por instinto. Mas o segundo golpe veio de outro ângulo. Acertou suas costelas. A dor explodiu. Ele caiu de joelhos.
— Levanta. — Severus ordenou.
Polyborus se levantou. Outro veterano atacou. Polyborus tentou esquivar, mas o chão sob seus pés era irregular de propósito. Ele tropeçou. Um bastão bateu na parte de trás do joelho. Ele caiu de novo.
— Levanta.
Isso durou doze horas.
Quando o sol se pôs, Polyborus estava no chão, cuspindo sangue, o corpo todo uma massa de hematomas. Mas ele tinha aprendido algo: não estar onde o golpe cai é mais importante que bloquear.
E no dia seguinte, ele voltou.
Os meses se tornaram estações. O sertão queimava sob o sol do verão. As chuvas raras de inverno enchiam os tanques. E Polyborus treinava.
Sua pele, antes apenas bronzeada, agora era couro. Calos sobre calos nas mãos. Cicatrizes finas cruzando os antebraços onde facas de treino tinham cortado. O corpo ficou mais denso. Não maior — mais compacto. Músculos que não inchavam, mas endureciam como aço trançado.
Ele aprendeu a quebrar ossos com precisão cirúrgica. Clavícula: pressão descendente no ombro enquanto puxa o braço pra cima. Cotovelo: hiperextensão lateral com o peso do corpo. Joelho: chute no lado interno enquanto a perna está estendida.
Não eram golpes espalhafatosos. Eram eficientes. Econômicos. Letais.
E quando não estava quebrando ossos, estava aprendendo a não ser quebrado.
A mulher veterana — ele descobriu que se chamava Magister Umbra — o ensinou a cair. Não apenas cair, mas transformar queda em movimento. Ele era jogado de uma torre de seis metros. No início, o impacto o deixava sem ar, ossos vibrando. Mas depois de meses, ele aprendeu a girar no ar, distribuir o impacto, rolar e sair correndo.
Acrobacias não eram performance. Eram sobrevivência.
Ele aprendeu a escalar pedras lisas usando apenas as pontas dos dedos e o atrito dos pés descalços. Aprendeu a saltar entre muros com três metros de distância. Aprendeu a se pendurar de cabeça pra baixo numa viga por quinze minutos sem perder a consciência.
E enquanto seu corpo se transformava, sua mente também.
Wagner Cavalieri — o jornalista idealista que achava que palavras mudavam o mundo — estava sendo guardado numa caixa fria no fundo da consciência de Polyborus. No lugar dele, crescia algo diferente.
Polyborus pensava em termos de geometria. Vetores de entrada. Ângulos de visão de câmeras. Rotas de fuga. Pontos cegos em sistemas de segurança.
Quando olhava pra uma pessoa, não via um rosto. Via vulnerabilidades. Artéria carótida exposta no pescoço. Plexo solar desprotegido. Tendão de Aquiles tenso demais.
Sua humanidade estava sendo arquivada. Não destruída. Apenas... guardada.
Até que fosse necessária.
Torres do Mosteiro — Ano 3, Mês 3, Lua Cheia
A lua cheia iluminava o mosteiro com uma luz prateada e fria. Polyborus estava no topo da torre norte, olhando pra cidade de Canindé no horizonte distante. As luzes piscavam. Vida acontecendo. Gente dormindo. Sonhando. Vivendo.
Ele não sentia inveja. Não sentia saudade. Apenas... observava.
— Noctis filius. — A voz de Severus veio de trás.
Filho da noite.
Polyborus se virou. Severus estava parado na escada, os braços cruzados.
— Você subiu aqui sem fazer barulho. Bom. — Ele se aproximou. — Mas ainda não é suficiente.
— O que falta?
Severus apontou pra baixo. No pátio, uma estrutura tinha sido montada. Um corredor longo, coberto por uma lona preta. De dentro, vinha o som ocasional de um sino.
— A Prova do Sino. — Severus disse. — Todo Sicarius precisa passar por ela antes da primeira missão externa letal.
— O que é?
— Um corredor de trinta metros. Totalmente escuro. Cheio de fios invisíveis conectados a sinos. — Severus olhou pra ele. — Você precisa atravessar sem fazer um único sino tocar. Tocar significa falhar. Falhar significa mais seis meses de treinamento.
Polyborus olhou pra estrutura lá embaixo.
— E se eu conseguir?
— Aí você está pronto pra matar de verdade.
Corredor do Sino — Primeira Tentativa
Polyborus entrou no corredor. A lona bloqueava toda luz. Escuridão absoluta. Ele estendeu a mão e não viu os próprios dedos.
Respirou fundo. Depois deu o primeiro passo.
Tilim.
Um sino tocou. Suave, mas inconfundível.
— Volta. — A voz de Lanista veio de fora. — Começa de novo.
Polyborus voltou ao início. Tentou de novo. Mais devagar dessa vez.
Tilim. Tilim.
Dois sinos.
— Volta.
Ele tentou cinquenta vezes naquela noite. Em nenhuma passou de dez metros sem tocar um sino.
Os meses passaram. Verão virou inverno. Inverno virou verão de novo.
Polyborus treinava o corredor todas as noites. Ele aprendeu que não era sobre ver. Era sobre sentir. O ar se movia diferente quando havia um fio na frente. A respiração precisava ser controlada — muito ar entrando e saindo criava correntes que faziam os fios balançarem.
Ele aprendeu a distribuir o peso. Não pisar com o calcanhar. Rolar o pé do lado externo pro interno, minimizando o impacto.
Ele aprendeu a ouvir. Os sinos tinham tons diferentes. Alguns agudos, outros graves. Eles criavam um mapa sonoro do corredor.
No décimo mês de tentativas, ele atravessou quinze metros sem tocar nada.
No décimo segundo mês, vinte metros.
E numa noite de lua nova, dois anos após entrar no corredor pela primeira vez, ele atravessou os trinta metros completos.
Em silêncio absoluto.
Quando saiu do outro lado, Severus estava esperando. Ele não sorriu. Não aplaudiu. Apenas assentiu.
— Bene factum.
Bem feito.
E Polyborus soube que tinha cruzado outro limite.
Biblioteca do Mosteiro — Ano 3, Mês 8
Soror Rhetorica colocou uma foto na mesa na frente de Polyborus. Era um homem de uns cinquenta anos. Terno caro. Relógio no pulso esquerdo. Aliança de casamento. Sorriso político.
— Me diga o que você vê.
Polyborus estudou a foto por trinta segundos. Depois falou:
— Relógio Rolex. Modelo Datejust. Cinquenta mil reais. Mas o terno é de alfaiataria local, não italiana. Ele quer parecer rico, mas não é tão rico quanto finge. — Polyborus apontou. — Aliança no anelar esquerdo, mas sem marca de bronzeado. Ele tira ela quando vai pra praia ou piscina. Infiel.
Rhetorica arqueou uma sobrancelha.
— Continue.
— Vinco no bolso direito do paletó. Ele carrega algo pesado ali regularmente. Provavelmente celular. E a postura... ombro direito mais baixo que o esquerdo. Ele passa horas ao telefone ou digitando. — Polyborus olhou pro rosto do homem. — Micro expressão de falsa confiança. Sorri com a boca, mas não com os olhos. Ele tem medo de algo.
Rhetorica pegou a foto de volta.
— Perfeito. — Ela colocou outra. — Agora essa.
Eles passaram horas assim. Polyborus aprendendo a ler pessoas como se fossem livros abertos. Linguagem corporal. Detalhes de roupas. Sinais de estresse.
E à tarde, ele descia pro subsolo.
Subsolo do Mosteiro — Câmara de Tiro
O subsolo era frio, úmido, e cheirava a pólvora. Polyborus estava numa linha de tiro, usando proteção auditiva, segurando um fuzil de precisão.
Magister Armorum — o mestre armeiro, um homem de sessenta anos com dedos finos e precisos — observava.
— Mira. Respira. Prende. Aperta.
Polyborus seguiu a sequência. O tiro ecoou. O alvo a cem metros tremeu. Acerto no centro.
— De novo. Mas dessa vez, vendado.
Polyborus franziu a testa. Armis amarrou um pano preto nos olhos dele.
— Você já memorizou a distância. O peso da arma. O recuo. Agora confia na memória muscular.
Polyborus respirou. Apontou onde achava que era o alvo. Disparou.
Armorum foi checar. Voltou sorrindo.
— Cinco centímetros do centro. Aceitável.
Eles treinaram com fuzis, pistolas, revólveres. Polyborus aprendeu a desmontar e montar qualquer arma vendado, em menos de um minuto. Aprendeu a atirar em movimento, de cabeça pra baixo, com a mão não dominante.
Mas era com a faca que ele se sentia completo.
Armis lhe deu uma lâmina de aço escuro. Vinte centímetros. Ponta dupla. Cabo envolto em couro.
— Faca não trava. Não acaba munição. Não faz som. — Armorum disse. — É a arma mais honesta que existe. Ou você acerta, ou você morre.
Polyborus praticou em bonecos. Depois em alvos móveis. Depois em alvos que revidavam — veteranos com facas de treino de borracha que deixavam marcas vermelhas quando acertavam.
Ele aprendeu a matar com uma faca em três segundos. Entrada pela base do crânio, subindo pro cérebro. Ou na lateral do pescoço, cortando a carótida. Ou no plexo solar, perfurando o diafragma.
Rápido. Silencioso. Definitivo.
Fortaleza, Ceará — Ano 3, Mês 10
A cidade era barulhenta. Carros, pessoas, música. Polyborus tinha passado quase três anos em silêncio. O caos urbano era quase físico. Mas ele não demonstrou desconforto.
Ele estava num hotel simples. Quarto pequeno. Cama dura. Janela com vista pra rua. Na mesa, um dossiê.
Alvo: Juiz Hélio Damasceno Crime: Proteção de rede de exploração infantil em troca de propina Localização: Cobertura do Edifício Mirante, Meireles Método: Silencioso. Sem evidência de homicídio.
Polyborus leu três vezes. Memorizou. Depois queimou o dossiê no banheiro e jogou as cinzas no vaso sanitário.
Passou dois dias observando. O juiz tinha uma rotina. Saía de casa às 7h. Voltava às 19h. Jantava sozinho na varanda da cobertura. Dormia às 22h.
Segurança: dois guardas no térreo. Câmeras no elevador e no hall. Mas a cobertura tinha acesso pela escada de incêndio externa.
No terceiro dia, Polyborus agiu.
Edifício Mirante, Cobertura — 23h30
Polyborus subiu pela lateral do prédio. Dezessete andares. Ele escalou sem equipamento. Apenas dedos, dedos dos pés e força de vontade. O metagene pulsava fraco — dando resistência extra, aderência impossível.
Chegou na cobertura. A varanda estava vazia. Portas de vidro trancadas.
Ele tirou uma gazua. Quinze segundos. A fechadura cedeu sem barulho.
Entrou.
A sala estava escura. Ele se moveu como fumaça. Passou pela sala de estar. Cozinha. Corredor.
O quarto estava no fundo. Porta entreaberta.
O juiz dormia. Roncando baixo.
Polyborus se aproximou. Sem som. Sem sombra.
Ele não usou a faca. Não deixaria marca.
Colocou os dedos na base do crânio do juiz. Encontrou o ponto exato que Magister Severus tinha ensinado. Pressionou. Firme. Preciso.
O juiz parou de roncar. O corpo tremeu uma vez. Depois ficou imóvel.
Parada cardíaca. Induzida por pressão no nervo vago.
Polyborus checou o pulso. Nada.
Saiu do quarto. Atravessou a cobertura. Fechou a porta de vidro atrás de si.
Desceu pela fachada. Dezessete andares.
E desapareceu na noite de Fortaleza.
Mosteiro Divinae Vindictae, Escritório de Severus — Uma Semana Depois
Polyborus colocou um envelope na mesa de Severus. Dentro, um recorte de jornal:
"JUIZ MORRE DE ATAQUE CARDÍACO EM CASA. POLÍCIA NÃO SUSPEITA DE CRIME."
Severus leu. Depois olhou pra Polyborus.
— Optime.
Excelente.
Ele guardou o recorte numa pasta. Depois pegou outro envelope. Grosso. Lacrado com cera vermelha.
— Sua técnica está pronta. — Severus disse. — Agora testaremos sua lealdade.
Ele quebrou o lacre e tirou fotos. Jogou na mesa.
Polyborus olhou.
Era uma mulher. Quarenta e poucos anos. Cabelo escuro com fios grisalhos. Rosto magro, marcado. Olhos que já tinham visto coisas demais.
As fotos mostravam ela em Lisboa. Depois em Sintra. Entrando e saindo de cafés. Caminhando sozinha.
— Quem é? — Polyborus perguntou.
— Uma traidora. — Severus disse. — Ela era de outra ordem. Matou inocentes. Crianças. E agora vive escondida em Portugal, pensando que está segura.
Polyborus pegou uma das fotos. Estudou o rosto.
Algo dentro dele — muito fundo, muito longe — sussurrou. Uma memória antiga. Uma voz. Um cheiro de perfume.
Mas ele empurrou pra baixo.
— Quando eu parto?
— Amanhã. — Severus entregou um passaporte. — Nome falso. Identidade limpa. Você tem duas semanas pra localizar e eliminar. Sine misericordia.
Sem misericórdia.
Polyborus pegou o passaporte. Olhou de novo pra foto da mulher, e saiu.
Aeroporto de Fortaleza — Dia Seguinte
Polyborus embarcou no voo pra Lisboa. Ele usava roupas simples. Calça jeans. Camisa de botão. Mochila pequena. Parecia um turista comum.
Na mochila, escondida num fundo falso: a faca de aço escuro.
Ele sentou na janela. Olhou pra cidade lá embaixo enquanto o avião decolava.
Três anos atrás, Wagner Cavalieri tinha fugido do Rio de Janeiro destruído, quebrado, sedento de vingança.
Agora, Polyborus — Sicarius da Ordem Sanctae Vindictae — cruzava o Atlântico para matar uma mulher que ele não conhecia.
E quando o avião entrou nas nuvens e a cidade desapareceu...
Ele não sentiu nada.
Porque Wagner Cavalieri estava trancado numa caixa fria.
E Polyborus não sentia nada além do peso da lâmina.
FIM DO CAPÍTULO 10