Aeroporto da Portela, Lisboa — Manhã
O ar era diferente. Polyborus percebeu assim que saiu do terminal. Úmido. Pesado. Frio de um jeito que o sertão nunca era — não o frio seco da madrugada na caatinga, mas uma umidade que grudava na pele, que entrava pelos poros.
Ele inspirou fundo. O Tejo estava perto, podia sentir. Água salgada misturada com algo antigo, pedra velha e história acumulada. Seu corpo — acostumado aos três anos de secura, sol escaldante e ar rarefeito — reagiu. A pele formigou. Os poros se contraíram. O metagene pulsou uma vez, fraco, ajustando a temperatura interna.
Ele vestia calça jeans escura, camisa de botão cinza, jaqueta de couro marrom. Barba aparada. Cabelo curto mas não militar. Óculos de armação simples. Na mão, uma mala pequena de rodas. No bolso, um passaporte brasileiro.
Nome: Lucas Mendes Silva Profissão: Consultor de Agronegócios Motivo da viagem: Negócios relacionados a importação de vinhos
Tudo falso. Tudo perfeito.
Ele passou pela alfândega sem problemas. O agente olhou o passaporte, carimbou, devolveu. Nem sequer fez perguntas. Polyborus tinha o rosto de alguém entediado com viagens de negócios. Confiável. Esquecível.
Do lado de fora, ele pegou um táxi.
— Alfama. — Ele disse ao motorista, o sotaque brasileiro cuidadosamente mantido.
O motorista assentiu e ligou o taxímetro.
Lisboa se desenrolou pela janela. Prédios de pedra clara. Ruas estreitas serpenteando colinas. Bondes elétricos amarelos subindo e descendo ladeiras impossíveis. Tudo antigo. Tudo pesado de história.
Polyborus observou. Não como turista. Como predador.
Densidade populacional alta. Ruas estreitas — boas para desaparecer, ruins para perseguições de carro. Muitas câmeras de segurança nas avenidas principais, mas os becos... os becos eram cegos.
Trinta minutos depois, o táxi parou numa rua estreita em Alfama. Casas coladas umas nas outras. Azulejos descascados nas paredes. Cheiro de bacalhau frito no ar. Roupas penduradas em varais entre janelas. O bairro era um labirinto vertical — escadas subindo e descendo, becos que terminavam em muros, passagens tão estreitas que duas pessoas precisavam se espremer pra passar.
Perfeito para desaparecer. Terrível para ser encurralado.
Polyborus memorizou três rotas de fuga antes mesmo de sair do táxi. Uma descendo pela Rua de São Miguel. Outra subindo pelas escadas até o Castelo. A terceira cortando pelo Beco das Cruzes até o Tejo.
Ele pagou em dinheiro. Não deixou gorjeta grande o suficiente pra ser lembrado. Pegou a mala e entrou no prédio número 47.
O corredor cheirava a mofo e comida requentada. Paredes com tinta descascada. Luz fraca de uma lâmpada que piscava. Ele subiu as escadas — madeira velha que rangia a cada passo. Polyborus pisava nas bordas, perto da parede, onde a madeira era mais firme e o som menor.
Terceiro andar. Porta à esquerda. A chave tinha sido deixada sob o capacho — protocolo da Ordem. Ele pegou, destravou a fechadura, entrou e trancou imediatamente por dentro.
O apartamento era pequeno. Sala com sofá velho de tecido puído, manchas de umidade no encosto. Mesa de madeira riscada com duas cadeiras desemparelhadas. Cozinha minúscula com fogão de duas bocas e pia manchada. Um quarto com cama de solteiro, colchão fino, lençóis brancos mas gastos. Banheiro com box rachado e azulejos soltos. Janela com vista pra um beco onde gatos revirar lixo.
Não era confortável.
Mas era funcional. Discreto. Anônimo.
Perfeito.
Polyborus trancou a porta com ambas as trancas. Depois foi até as janelas. Testou. Uma abria com dificuldade — dobradiças enferrujadas. A outra abria suave demais — alguém tinha lubrificado recentemente. Rota de fuga usada antes dele.
Ele verificou o piso. Madeira velha rangia em dois pontos: perto da porta do quarto e no centro da sala. Anotou mentalmente. Se alguém invadisse, ele ouviria.
Depois abriu a mala.
Dentro, cuidadosamente arrumado sob as roupas de "consultor": o dossiê em envelope pardo impermeável. A faca de aço escuro envolta em tecido oleado, presa com fita adesiva no fundo falso da mala. Um kit de ferramentas de arrombamento disfarçado como kit de viagem. Um celular criptografado com chip português pré-pago. E um envelope com cinco mil euros em notas de cinquenta — gastas, usadas, impossíveis de rastrear.
Ele pegou o dossiê e espalhou as fotos na mesa.
Estava na hora de conhecer o alvo.
Apartamento em Alfama — Tarde
Polyborus tinha passado cinco horas estudando cada foto, cada anotação, cada detalhe. Ele tinha espalhado tudo na mesa de forma organizada: fotos no centro, anotações ao redor, mapa de Lisboa e Sintra à esquerda, cronograma de movimentos à direita.
Metodologia. Organização. Frieza.
Alvo: Codinome "A Traidora" Idade estimada: 45-50 anos Última localização confirmada: Sintra e arredores Nível de perigo: EXTREMO
As fotos eram de vigilância distante. Granuladas. Tiradas com teleobjetivas de longo alcance. A mulher sempre de perfil ou de costas. Óculos escuros mesmo em dias nublados. Lenço ou chapéu cobrindo parte do cabelo. Roupas em tons de cinza, bege, marrom — nada que chamasse atenção. Ela se vestia para desaparecer.
Profissional. Sem dúvida.
Mas Polyborus conseguia ler além das roupas. Ele tinha sido treinado pra isso.
Postura: ereta mas não rígida. Ombros relaxados mas prontos. Alguém que tinha treinamento militar mas não queria parecer. Passos medidos, nunca apressados, nunca lentos demais. Comprimento da passada constante — sinal de disciplina interna.
Mãos: sempre visíveis. Nunca nos bolsos. Nunca cruzadas. Sempre prontas. E sempre checando — tocando a bolsa, ajustando o lenço, movimentos que eram na verdade varreduras táticas disfarçadas.
Cabeça: ela virava constantemente. Não de forma óbvia, mas integrada ao movimento natural. Olhava vitrines — mas o reflexo permitia ver quem estava atrás. Parava pra amarrar o sapato — mas usava o momento pra checar todos os ângulos. Sentava em cafés sempre de costas pra parede, sempre com vista pra porta.
Contra-vigilância de alto nível.
Polyborus passou pra próxima seção do dossiê. Os crimes alegados.
"TRAIÇÃO - Ano 2018"
"Acusação: Ex-agente de organização rival (identidade da organização: CLASSIFICADO). Venda de segredos operacionais (métodos de infiltração, rotas de exfiltração, identidades de operacionais ativos) a múltiplas entidades. Representa ameaça à segurança operacional de várias ordens e agências."
"HOMICÍDIO - Frater Marcus (Roma, 2018)"
"Método: Lâmina. Perfuração cardíaca. Executado quando Frater Marcus foi contratado por cliente externo para neutralizá-la. Encontrado morto em apartamento, sem sinais de luta prolongada. Morte rápida, técnica perfeita. Treinamento de nível equivalente ao nosso."
"HOMICÍDIO - Frater Tomas (Lisboa, 2019)"
"Método: Queda de altura. Oficialmente catalogada como 'acidente' pelas autoridades portuguesas. Frater Tomas estava em missão paralela (cliente privado) e cruzou caminho com o alvo. Caiu de janela do quarto andar. Nenhuma testemunha. Investigação da Ordem concluiu: assassinato."
"AVALIAÇÃO FINAL: Alvo extremamente perigoso. Treinamento de origem desconhecida mas equivalente a nível Magister. Matou dois dos nossos quando estavam em missões NÃO relacionadas a ela - casualidades operacionais que ela eliminou por auto-preservação. Cliente atual pagou valor excepcional para eliminá-la. Não subestimar. Não confrontar diretamente sem vantagem tática."
Polyborus leu tudo duas vezes. Depois uma terceira.
Ela não era da Ordem. Era de outra organização — agência de inteligência, ordem rival, algo classificado que nem o dossiê revelava. Mas tinha matado dois Fratres. Não em missões direcionadas contra ela — foram encontros casuais, operações paralelas que cruzaram caminho. E ela os tinha eliminado por auto-preservação.
Isso a tornava perigosa.
Mas também mostrava algo: ela estava fugindo. Escondida. Vulnerável.
E vulnerabilidade podia ser explorada.
Polyborus conhecia os instintos de operacionais treinados. Porque eram os dele também. Padrões. Protocolos. Reações automáticas.
Ela seria cuidadosa. Extremamente cuidadosa. Mas cuidado tinha padrões. E padrões podiam ser explorados.
Ele pegou o mapa. Três locais marcados com círculos vermelhos:
1. Café Belém — Rua de Belém, 142 Frequência: Semanal, geralmente terças e quintas, entre 15h e 16h. Comportamento: Senta sempre na mesma mesa (fundos, vista pra porta), pede café e folheia jornal por 30-40 minutos. Paga em dinheiro. Nunca interage com funcionários além do necessário.
2. Livraria Bertrand — Sintra, Rua Visconde de Monserrate Frequência: Mensal, sempre na primeira semana. Comportamento: Compra livros de poesia. Às vezes fica lendo por horas. Parece relaxada aqui — único local onde baixa a guarda parcialmente.
3. Capela de São Sebastião — Colinas de Sintra, acesso por Estrada da Pena Frequência: Irregular, mas pelo menos duas vezes por mês. Comportamento: Caminha até a capela isolada. Fica sozinha por 1-2 horas. Propósito desconhecido. Não é religiosa (confirmado por vigilância prévia). Possível local de reflexão ou protocolo de segurança (checagem de cauda).
Polyborus estudou cada local. Café Belém: muito exposto. Muitas testemunhas. Câmeras de segurança na rua. Descartado para ação letal. Livraria: melhor, mas ainda com risco de civis. Capela: isolada. Sem câmeras. Sem testemunhas. Acesso único por estrada de terra.
Capela era o ponto ideal.
Mas primeiro ele precisava confirmar os padrões. Observação direta. Timing. E só então: execução.
Ele pegou uma caneta e começou a desenhar no mapa. Vetores de aproximação pela colina. Posições de observação. Rotas de fuga caso algo desse errado.
Três horas depois, o planejamento estava completo.
Amanhã ele começaria a vigilância ativa.
Cascais, Clube Náutico — Dois Dias Depois, Tarde
Polyborus vestia terno azul-marinho de corte italiano. Camisa branca sem gravata — o visual "executivo relaxado". Sapatos de couro polidos mas não brilhantes demais. Cabelo penteado pra trás com gel discreto. Relógio suíço no pulso — falso, mas convincente. Ele parecia exatamente o que o passaporte dizia: um consultor de agronegócios bem-sucedido.
O Clube Náutico de Cascais era onde a elite lisboeta se encontrava. Iates brancos e reluzentes ancorados no porto privado. Deck de madeira envernizada. Restaurante com mesas de toalha branca e vista pro Atlântico. Garçons de luvas brancas servindo champanhe francês em taças de cristal.
Polyborus estava no bar de mogno escuro, bebendo um copo de vinho branco português — Alvarinho, da região do Minho. Ele não bebia por prazer. Bebia porque era parte da caracterização. Um consultor de vinhos que não bebe vinho levanta suspeitas.
Ele tinha chegado há uma hora. Tempo suficiente pra ser notado mas não memorizado. Conversou brevemente com outros clientes — comentários superficiais sobre negócios, clima, política portuguesa. Nada profundo. Nada memorável.
Depois se aproximou do bar e começou a conversar com o barman.
O homem tinha uns cinquenta anos. Bigode grisalho bem cuidado. Colete preto impecável. Mãos de quem trabalhava com vidro e líquidos há décadas — precisas, confiantes.
— Excelente Alvarinho. — Polyborus disse, erguendo a taça. — Tem notas cítricas interessantes.
O barman sorriu. Pride profissional.
— Do vinhedo Soalheiro. Uma das melhores garrafas que temos.
— Vejo que entende do assunto. — Polyborus se inclinou levemente. — Estou no ramo, na verdade. Consultoria para exportação de vinhos brasileiros pra Europa. Vim estudar o mercado português.
— Brasil tem vinhos excelentes. Região Sul, não?
— Exatamente. Serra Gaúcha principalmente. — Polyborus bebeu mais um gole. — Aliás, estou procurando contatos locais. Um colega mencionou uma mulher que seria conhecedora excepcional. Morena, quarenta e poucos anos, gosto refinado, frequenta lugares discretos em Sintra e arredores.
Ele disse isso de forma casual. Como quem está apenas fazendo networking. Sem urgência. Sem suspeita.
O barman pensou por um momento, limpando uma taça com um pano branco.
— Há uma senhora que vem aqui ocasionalmente. Não fala muito. Educada, mas distante. — Ele apontou pra uma cadeira específica no canto do bar. — Sempre se senta ali. Sozinha. Nunca aceita companhia.
— Soa como alguém com conhecimento a proteger. — Polyborus sorriu. — Típico de especialistas.
— Ela sempre pede vinho muito específico. — O barman pegou uma garrafa da prateleira de trás. — Este aqui. Ramisco de Colares. Difícil de encontrar.
Polyborus estudou o rótulo. Vinho tinto. Região de Colares. Pequena produção. Caríssimo.
— Bom gosto. — Ele memorizou o nome. — Ela ainda frequenta o clube?
— Não a vejo há uns dois, três meses. Mas ouvi comentários de outros membros que ela tem uma pequena propriedade perto de Sintra. Ou aluga algo por lá. Gosta da serra, dizem.
Polyborus terminou o vinho, deixou uma gorjeta de vinte euros — generosa mas não exagerada — e se despediu cordialmente.
Mais uma peça do quebra-cabeça encaixada.
Colares. Sintra. Vinho específico. Isolamento. Padrões se formando.
Ele voltou pro apartamento e adicionou as informações ao dossiê.
Sintra, Colinas — Dia Seguinte, Entardecer
Polyborus estava deitado numa encosta coberta de vegetação rasteira e pedras soltas, a oitocentos metros da capela isolada que o dossiê mencionava. Ele vestia roupas escuras — calça cargo verde-musgo, jaqueta de tecido técnico cinza-carvão, botas de caminhada gastas. Rosto coberto com tinta de camuflagem verde-oliva e marrom que tinha comprado numa loja de camping. Mochila pequena ao lado com água, binóculos de alta precisão, caderno impermeável e caneta.
Ele parecia apenas mais uma rocha na paisagem.
A capela era antiga — provavelmente século XVI ou XVII. Pedra clara manchada por séculos de chuva e vento. Cobertura de musgo verde-escuro nas paredes do lado norte onde o sol não batia. Telhado parcialmente desabado do lado esquerdo, vigas de madeira podre expostas. Cercada por ciprestes altos e retorcidos que balançavam no vento frio que subia do vale.
Não havia estrada pavimentada. Apenas um caminho de terra batida e pedregulhos que serpenteava colina acima por quase um quilômetro desde a estrada principal. Nenhum carro podia subir — apenas a pé ou motocicleta pequena.
Isolamento perfeito.
Polyborus tinha chegado ali quatro horas antes do pôr do sol. Subiu pela face oposta da colina, deixando o carro alugado estacionado três quilômetros ao sul em outra estrada. Escalou, encontrou a posição ideal — visão clara da capela, vento favorável (não levaria seu cheiro), ângulo que o colocava contra a vegetação escura mesmo com o sol baixo.
E esperou.
Paciência era parte essencial do treinamento. Magister Severus tinha passado dias inteiros ensinando: "O caçador apressa-se não. A presa sempre volta ao território conhecido. Tu apenas deves estar no lugar certo, na hora certa, e então... strike."
Polyborus respirava devagar. Controlado. Seu coração batia em 52 BPM — mais baixo que o normal graças ao treinamento meditativo. Seus músculos estavam relaxados mas prontos — como mola comprimida.
Às 17h40, ele ouviu o motor.
Um carro velho — som de motor diesel fraco — subindo a estrada principal. Ele pegou os binóculos.
Um Peugeot 206 cinza. Amassado na lateral direita. Para-choque traseiro rachado. Pelo menos quinze anos de uso. O tipo de carro que não levanta suspeitas. Não é rico demais, não é pobre demais. Invisível.
O carro parou no início do caminho de terra. Motor desligou. A porta do motorista se abriu.
Ela desceu.
Polyborus ajustou o foco dos binóculos.
Ela usava calça jeans escura. Botas de caminhada pretas de cano médio — práticas, gastas. Casaco de lã cinza-escuro que ia até a coxa. Lenço bege cobrindo parcialmente o cabelo, amarrado atrás da cabeça. Óculos escuros mesmo com o sol já baixo.
Sem bolsa. Sem mochila. Mãos nos bolsos do casaco inicialmente, depois saindo — sempre visíveis, sempre prontas.
Ela trancou o carro com um controle remoto velho — precisou apertar três vezes até funcionar. Depois começou a subir o caminho a pé.
Polyborus observou cada movimento.
A forma como ela distribuía o peso do corpo. Ligeiramente inclinada pra frente, centro de gravidade baixo — clássico de treinamento militar. Não caminhava como civil que vai fazer trilha no fim de semana. Caminhava como operacional em reconhecimento.
A cadência era constante. Não apressada. Não lenta demais. Média de 4 quilômetros por hora — ritmo de marcha tática.
A postura de cabeça. Ela não olhava pro chão pra ver onde pisava. Olhava pro horizonte, pro caminho à frente, pros lados. Visão periférica ativa. Varredura constante. E a cada cinquenta metros, parava. Virava completamente. Checava a retaguarda.
Contra-vigilância clássica.
Polyborus não se mexeu. Não piscou. Respiração lenta. Ele era parte da paisagem.
Ela subiu devagar. Mas não parecia cansada. Condicionamento físico excelente pra idade estimada. Movimentos eficientes. Sem desperdício de energia.
E então aconteceu.
Ela estava a meio caminho da capela. Parou. No meio do caminho. Corpo completamente imóvel.
E virou o rosto.
Exatamente na direção de Polyborus.
Ele congelou completamente. Cada músculo travado. Respiração suspensa. Oitocentos metros. Camuflado. Contra o fundo escuro da vegetação. Sem movimento por duas horas. Vento a favor. Impossível de detectar.
Mas ela estava olhando.
Não diretamente pra ele — não tinha linha de visão perfeita. Mas pra direção geral da encosta onde ele estava.
Cinco segundos. Dez. Quinze.
Ela tirou os óculos escuros. Polyborus viu os olhos dela pela primeira vez através das lentes dos binóculos. Mesmo a essa distância, mesmo com a magnificação, conseguiu ver.
Olhos escuros. Focados. Intensos.
Olhos de alguém que sabe que está sendo observado mas não consegue identificar de onde.
E então Polyborus sentiu.
Uma vibração. Fraca. No centro do peito. Onde o metagene pulsava.
Não era dor. Não era desconforto. Era... reconhecimento.
Como duas ondas de rádio na mesma frequência. Como dois ímãs se aproximando. Como se algo nele estivesse respondendo a algo nela.
E pela primeira vez em três anos — desde o Morro do Falcão, desde a morte, desde o despertar na mata — Polyborus sentiu algo além de vazio operacional.
Sentiu... conexão.
A mulher ficou parada por mais dez segundos. Depois colocou os óculos escuros de volta. Balançou a cabeça como quem descarta uma suspeita infundada. E continuou subindo.
Polyborus esperou ela entrar na capela. Só então respirou de novo.
Seu coração tinha acelerado. 78 BPM. Anormal. Ele forçou de volta pra baixo. Respiração controlada. Inspire, segure, expire. Quatro tempos cada.
Foco. Ela é o alvo. Nada mais.
Mas a vibração no peito levou mais tempo pra desaparecer.
Ele observou ela ficar na capela por quarenta e cinco minutos. Quando saiu, já estava escurecendo. Ela desceu o caminho. Entrou no carro. Partiu.
Polyborus recuou da posição devagar. Centímetro por centímetro. Sem fazer barulho. Sem quebrar galhos. Sem deixar rastro.
Só quando estava a cem metros de distância, descendo pela face oposta da colina, é que ele se levantou e caminhou normalmente.
De volta ao apartamento em Alfama, três horas depois, ele colocou as observações no caderno com caligrafia pequena e precisa:
"Alvo possui treinamento de contra-vigilância avançado. Padrão de movimento indica histórico militar ou paramilitar. Sensibilidade aumentada — detectou presença a 800m sem contato visual direto. Causa desconhecida."
"Recomendação: Reavaliar estratégia de aproximação direta. Alvo pode detectar presença mesmo em camuflagem perfeita."
"Alternativa: Infiltração noturna em local fechado onde sensibilidade seja neutralizada por ambiente controlado."
Mas não escreveu sobre a vibração no peito.
Porque isso não era tático. Não era operacional. Não era relevante.
Era apenas... inexplicável.
Sintra, Pensão Estrela da Manhã — Noite, 22h15
Polyborus observou a pensão por duas horas e vinte minutos antes de se mover. Era um prédio estreito de três andares. Fachada de azulejos azuis e brancos descascados pela chuva e tempo. Porta de madeira pintada de verde-musgo, tinta rachada. Janelas pequenas com grades de ferro decorativas — mais pra mostrar do que pra proteger. Sem câmeras de segurança visíveis. Sem alarmes aparentes. Construção do início do século XX, provavelmente. Anterior à modernização tecnológica.
Perfeito pra infiltração.
A mulher tinha saído às 20h05. Polyborus tinha seguido de longe — cem metros de distância, sempre com alguém entre eles, sempre do lado oposto da rua. Viu ela entrar no Restaurante Luar do Sertão no centro histórico de Sintra. Um lugar pequeno, tradicional, poucos clientes. Ela pediu mesa sozinha. Sentou de costas pra parede, vista pra porta. Padrão nunca quebrado.
Ele calculou: jantar sozinho, sem pressa — mínimo uma hora. Máximo hora e meia. Mais quinze minutos de caminhada de volta.
Janela de uma hora e quarenta e cinco minutos. Suficiente.
Ele cruzou a rua vazia. Sintra dormia cedo — cidade turística, habitantes locais idosos, ruas desertas às 22h exceto nos fins de semana. Perfeito.
Checou a fechadura da porta principal da pensão. Simples. Velha. Yale modelo 1960. Ele tirou duas gazuas do bolso interno da jaqueta. Tensionador e rake. Dez segundos. Click. A porta abriu sem barulho — dobradiças antigas mas bem lubrificadas. Alguém cuidava da manutenção básica.
Entrou. Fechou a porta atrás de si sem trancar — rota de fuga sempre desobstruída.
O corredor cheirava a cera de móveis e lavanda. Piso de tábuas de madeira encerada. Escada à direita. Quadros nas paredes — paisagens de Sintra, fotografias antigas em preto-e-branco. Luz fraca de uma lâmpada amarela no teto.
Silêncio absoluto. Nenhum som de televisão. Nenhuma voz. Ou a dona da pensão dormia cedo ou não estava.
Polyborus subiu as escadas. Pisando nas bordas, perto da parede, onde a madeira não rangia. Primeiro andar — três portas, todas fechadas. Segundo andar — quatro portas. Terceiro andar — quatro portas.
Ele tinha visto ela entrar e sair em uma das visitas anteriores. Terceiro andar. Porta do fundo à esquerda.
Chegou na porta. Luz fraca vazava por baixo. Ela tinha deixado uma luz acesa — protocolo de segurança pra parecer que alguém estava. Ou simplesmente hábito.
Ele experimentou a maçaneta. Trancada. Fechadura mais moderna que a da entrada principal. Yale série 2000. Mais difícil mas não impossível.
Trinta segundos de trabalho com as gazuas. Suor frio escorrendo na nuca — não de nervosismo, mas de concentração absoluta. Click final. Destravou.
Ele girou a maçaneta devagar. Abriu a porta cinco centímetros. Esperou. Ouviu. Nenhum som. Nenhum movimento.
Abriu mais. Entrou. Fechou a porta atrás de si sem trancar — sempre a rota de fuga.
O quarto era pequeno mas organizado. Cama de solteiro arrumada com lençóis brancos impecáveis, cobertor dobrado no pé da cama. Mesa de madeira escura com cadeira de encosto reto. Estante baixa com livros organizados por tamanho. Armário de duas portas. Janela com cortina bege fechada. Tapete persa desgastado no chão. Luminária de mesa acesa, luz amarela suave.
E o cheiro.
Jasmim. Sândalo. Algo floral mas discreto. Incenso? Perfume? Sabonete? Polyborus não sabia identificar, mas era... familiar. De algum lugar muito distante na memória.
Ele começou a varredura. Metódico. Sistemático. Silencioso.
Armário primeiro: roupas penduradas. Calças jeans, três pares. Camisas de algodão em tons neutros. Dois casacos. Um vestido simples preto — nunca usado, a julgar pela ausência de vincos. Sapatos no chão — tênis de caminhada, botas, um par de sapatilhas pretas. Nenhuma arma escondida entre as roupas. Nenhum compartimento falso visível.
Gavetas da mesa: canetas comuns. Cadernos com páginas em branco — virgens, não usados. Um mapa topográfico de Portugal com algumas marcações leves a lápis — lugares que ela tinha visitado? Rotas planejadas? Ele fotografou mentalmente. Nenhum documento de identidade. Nenhuma arma. Nenhum equipamento tático.
Debaixo da cama: vazio. Apenas poeira acumulada nas bordas — o centro estava limpo, indicando que ela checava regularmente. Protocolo anti-emboscada.
Banheiro pequeno conectado ao quarto: escova de dentes, pasta, sabonete de jasmim (fonte do cheiro), shampoo, toalhas dobradas. Remédios? Ele abriu o armário espelhado. Paracetamol. Ibuprofeno. Vitaminas. Nada de controlado. Nada de suspeito.
Estante de livros.
Polyborus se aproximou. Os livros eram velhos. Bem cuidados mas usados. Poesias principalmente. Fernando Pessoa — vários volumes. Sophia de Mello Breyner. Camões. Florbela Espanca. Cecília Meireles. Alguns em inglês — Emily Dickinson, Sylvia Plath. Um livro mais grosso, encadernação de couro marrom escuro desgastado nas bordas.
Ele pegou o livro de couro. Abriu com cuidado. As páginas estavam amareladas, frágeis nas bordas. Poesias antigas em português arcaico. Século XVII ou XVIII. Letras góticas impressas.
E então viu.
Página 47. Na margem direita, uma anotação à mão. Tinta azul esferográfica. Caligrafia feminina. Pequena, inclinada, mas firme. Letras conectadas fluindo como água.
"O tempo não apaga o que o sangue escreveu."
Polyborus leu.
Releu.
Leu pela terceira vez.
E sentiu.
Uma pontada. Aguda. Súbita. Na base do crânio. Como se alguém tivesse cravado uma agulha gelada diretamente no tronco cerebral.
Dor. Não física. Neurológica.
E com a dor... imagem.
Flash. Menos de um segundo.
Uma mulher. Mais jovem. Cabelo escuro e longo. Sorrindo. Olhos gentis. Segurando... uma criança? Um menino pequeno. Cabelo escuro bagunçado. Olhos curiosos.
Ela dizia algo. A boca se movia. Mas sem som. Sem palavras que ele conseguisse ouvir.
A imagem sumiu tão rápido quanto tinha aparecido.
A dor pulsou de novo. Mais forte. Polyborus fechou os olhos com força, apertou a ponta do nariz com os dedos. Respirou. Forçou a dor pra baixo com técnicas de meditação que tinha aprendido no Mosteiro.
Não. Foco. Isso não é real. É stress. Cansaço. Fuso horário. Missão prolongada.
Ele abriu os olhos. A dor tinha diminuído. Mas não tinha sumido completamente. Uma pulsação fraca continuava. Como um aviso. Como algo tentando forçar passagem através de uma porta trancada.
Polyborus olhou de novo pra anotação no livro.
"O tempo não apaga o que o sangue escreveu."
Sangue. A palavra ecoava. Sangue. Família. Conexão. Algo que não podia ser apagado.
Ele balançou a cabeça. Fechou o livro bruscamente. Colocou de volta na estante. Exatamente na mesma posição — terceira prateleira, quarto livro da esquerda.
Varreu o quarto uma última vez. Tudo no lugar. Nenhum sinal de entrada forçada. Nenhum objeto deslocado.
Verificou o relógio: 23h05. Cinquenta minutos desde que ela tinha saído. Tempo de ir.
Saiu do quarto. Trancou a porta com as gazuas — operação reversa, mais difícil, mas possível. Um minuto e meio. Feito.
Desceu as escadas. Mesmo padrão. Silêncio total. Saiu da pensão. Trancou a porta principal por fora. Caminhou pela rua vazia como se fosse morador local voltando pra casa após jantar.
Três quarteirões depois, viu ela. Voltando. Caminhando pela Rua Visconde de Monserrate. Cem metros à frente dele.
Ele virou numa esquina. Desapareceu numa viela. Esperou ela passar. Depois seguiu outra rota de volta pro carro.
De volta ao apartamento em Alfama, 1h30 da madrugada, Polyborus sentou na mesa. Olhou pras fotos. Olhou pro dossiê.
Pegou a faca de aço escuro. Passou o dedo na lâmina. Sentiu o fio. Perfeito. Afiado o suficiente pra cortar carne e osso sem resistência.
Amanhã.
Amanhã ele seguiria a mulher até um lugar isolado. Esperaria o momento certo. Faria o trabalho. Rápido. Preciso. Como tinha feito com o juiz em Fortaleza.
Sem hesitação.
Sem dúvida.
Sem perguntas.
Porque era isso que Sicarius fazia.
Mas enquanto segurava a faca, a anotação do livro ecoava na cabeça dele como um mantra que ele não conseguia desligar:
"O tempo não apaga o que o sangue escreveu."
E a dor de cabeça voltou. Fraca. Persistente. Pulsando no mesmo ritmo do metagene no peito.
Como um aviso.
Ou como uma memória enterrada tentando desenterrar a si mesma.
Polyborus colocou a faca na mesa. Deitou na cama sem tirar as roupas. Olhou pro teto rachado do apartamento velho.
E pela primeira vez desde que tinha deixado o Mosteiro Divinae Vindictae...
Pela primeira vez em três anos...
Ele não tinha certeza absoluta sobre a missão.
Apartamento em Alfama — Madrugada
Polyborus não conseguiu dormir. Ficou sentado na cadeira, olhando pra janela. Lisboa dormia lá fora. Silenciosa. Fria. Antiga.
Ele pegou a faca de aço escuro. Passou o dedo na lâmina. Afiada. Perfeita.
Amanhã.
Amanhã ele seguiria a mulher até um lugar isolado. Faria o trabalho. Rápido. Limpo. Como tinha feito com o juiz em Fortaleza.
Sem hesitação.
Sem dúvida.
Porque era isso que Sicarius fazia.
Mas enquanto segurava a faca, a anotação do livro ecoava na cabeça:
"O tempo não apaga o que o sangue escreveu."
E a dor de cabeça voltou. Fraca. Mas presente.
Como um aviso.
Ou uma memória que se recusava a ficar enterrada.
Sintra, Colinas — Dia Seguinte, Amanhecer
Polyborus estava de volta à encosta. Posição diferente dessa vez. Mais perto. Trezentos metros. Ele podia ver a entrada da capela claramente.
O Peugeot cinza apareceu no horário esperado. 6h30 da manhã. A mulher desceu. Começou a subir o caminho.
Polyborus ajustou os binóculos. Dessa vez, ele viu o rosto dela sem óculos escuros.
E algo dentro dele — algo que tinha sido trancado numa caixa fria há três anos — começou a gritar.
Mas ele não ouviu.
Porque Polyborus era surdo pra gritos de Wagner Cavalieri.
Ele guardou os binóculos. Pegou a faca.
E começou a descer a colina.
Silencioso.
Invisível.
Letal.
O acerto de contas tinha começado.
FIM DO CAPÍTULO 11