O Resgate
T1/E7
T1/E7
Andrew dormia profundamente quando o celular vibrou na mesa de cabeceira.
Não era uma vibração educada. Era insistente, irritante, arrancando-o das profundezas de um sonho que já estava esquecendo. Ele resmungou, tateando no escuro até encontrar o aparelho.
A tela brilhava intensamente na escuridão do quarto: Camila - Chamada de Voz
Ele franziu a testa. Camila nunca ligava pra ele. Eles mal trocavam mensagens fora do grupo com Paulo e Isadora.
Atendeu, a voz saindo rouca de sono:
— Alô?
— ANDREW! — O grito do outro lado fez ele sentar na cama num pulo. — Algo aconteceu com o Paulo!
O sono evaporou instantaneamente.
— O quê? Camila, calma, respira. O que aconteceu?
Ela estava chorando. Ele podia ouvir os soluços entre as palavras.
— Ele me deixou em casa faz uns quarenta minutos... Disse que ia mandar mensagem quando chegasse... Pra eu ficar tranquila... — A voz dela quebrou. — Mas ele não mandou! E o telefone só chama e ninguém atende!
Andrew já estava de pé, procurando uma calça, uma camisa, qualquer coisa.
— Pode ser que ele esqueceu, Camila. Ou a bateria acabou...
— EU SEI QUE NÃO! — Ela gritou, desesperada. — Eu conheço ele, Andrew! Ele não esqueceria de mandar a mensagem! Nunca! E eu... eu saí pra procurar ele e... — Ela soluçou. — O carro tá aqui. Abandonado. A porta aberta. Tem marcas no chão, parece que arrastaram alguém e...
O sangue de Andrew gelou.
— Onde você tá?
— Rua Marechal Candido Rondon. Duas quadras da minha casa.
— Fica aí. Não sai do lugar. Eu já vou.
Ele desligou antes que ela pudesse responder. Jogou uma camiseta preta por cima, calçou o tênis sem amarrar os cadarços, e saiu do quarto como bala.
Luíza apareceu no corredor, sonolenta, de roupão.
— Andrew? O que...
— É o Paulo, mãe. Ele sumiu. — Ele não parou. Já estava descendo as escadas. — Eu vou atrás dele.
— Espera! Você não pode...
Mas ele já tinha saído pela porta.
Andrew correu pelas ruas de Cosmópolis mais rápido do que qualquer pessoa normal conseguiria. Não velocidade máxima — não queria chamar atenção caso alguém olhasse pela janela — mas rápido o suficiente para cobrir os dois quilômetros até a casa de Camila em menos de três minutos.
Quando virou a esquina e viu o Gol preto parado no meio da rua, sentiu o estômago afundar.
A porta do motorista estava escancarada. As luzes internas ainda acesas, o que significava que não fazia muito tempo. O cinto de segurança pendurado para fora, arrastando no asfalto.
E Camila.
Ela estava parada ao lado do carro, abraçando a si mesma, tremendo. Quando viu Andrew, correu até ele.
— Ele tava feliz quando saiu daqui! — Ela agarrou a camisa dele, os olhos vermelhos de chorar. — A gente tinha acabado de se beijar, ele tava sorrindo, ele não ia sumir assim, Andrew, ele não ia!
— Eu sei. — Andrew segurou os ombros dela, firme. — Eu sei, Camila. A gente vai encontrar ele.
— E se... e se alguém fez alguma coisa com ele? E se...
— Não. — Ele olhou fundo nos olhos dela. — Não pensa nisso. A gente vai achar ele. Eu prometo.
Ela assentiu, limpando as lágrimas com as costas da mão.
Andrew se afastou e caminhou até o carro. Agachou ao lado da porta aberta, os olhos vasculhando cada detalhe.
Não havia sangue. Isso era bom. Mas havia sinais claros de luta. O retrovisor interno estava torto. O volante tinha arranhões. E no asfalto...
Andrew tocou o chão. Sentiu a textura sob os dedos.
Marcas de arrasto. Não muito longas — talvez dois, três metros. Como se alguém tivesse sido puxado do carro e arrastado para outro veículo.
Ele se levantou, fechando os olhos, respirando fundo.
Foca. Você consegue fazer isso.
Abriu os olhos de novo, mas dessa vez ativou algo que tinha descoberto há alguns anos e ainda não dominava completamente.
Visão telescópica.
O mundo ao redor ficou mais nítido. Cada detalhe se ampliou. Ele podia ver as rachaduras microscópicas no asfalto. Os fragmentos de vidro — de um farol, talvez — espalhados perto do meio-fio. E algo mais.
Partículas metálicas. Minúsculas. Brilhando sob a luz do poste.
Ele pegou uma com a ponta do dedo. Analisou. Não era do carro de Paulo. A tinta era diferente. Mais escura. E a textura...
Van. Ou caminhão. Algo grande.
Ele se levantou e seguiu as marcas no chão. Não marcas visíveis — marcas que apenas ele conseguia ver com aquela visão ampliada. Pequenas impressões de pneus. Óleo vazado. Uma trilha quase invisível.
Seguiu por dez metros. Vinte. Trinta.
Até a esquina, onde a trilha virava à esquerda.
Eles o levaram pra zona industrial.
— Andrew? — A voz de Camila veio atrás dele. — Você achou alguma coisa?
Ele se virou. Ela estava ali, vulnerável, assustada, esperando que ele tivesse respostas.
E ele tinha. Mas não podia contar como.
— Eles levaram ele — Andrew disse, mantendo o tom firme. — Mas ele tá vivo. Tenho certeza.
— Como você sabe?
— Eu só... — Ele procurou as palavras. — Eu sinto. Paulo é meu melhor amigo. Se algo tivesse acontecido com ele, eu saberia.
Não fazia sentido. Mas ela não questionou. Apenas assentiu, desesperada por acreditar em qualquer coisa.
— O que a gente faz?
— Você vai pra casa — Andrew disse. — Tranca todas as portas. Não atende pra ninguém que não conhece. E espera eu ligar.
— E você?
— Eu vou atrás dele.
— Andrew, a gente tem que chamar a polícia! O pai do Paulo é investigador, ele...
— Não dá tempo. — Andrew cortou, mais duro do que pretendia. — Se a gente envolver a polícia agora, vai demorar horas pra organizarem alguma coisa. Preencher relatórios, conseguir mandados... Paulo não tem horas, Camila.
Ela o encarou por um longo momento. Então assentiu, devagar.
— Por favor... traga ele de volta.
— Eu vou. — Ele tocou o ombro dela. — Eu prometo.
Esperou até ela entrar em casa, viu as luzes se acenderem, a porta se trancar.
Então virou e correu.
Mas dessa vez, não se segurou.
Andrew estava no topo de um prédio abandonado — uma antiga fábrica de tecidos que tinha fechado há anos. Seis andares de concreto rachado e janelas quebradas.
Perfeito para o que precisava fazer.
Ele ficou na beirada, o vento noturno batendo no rosto, e fechou os olhos.
Respirou fundo.
E ativou a visão de raio-X.
Sempre doía um pouco no começo. Como se o cérebro estivesse sendo forçado a processar informações demais de uma vez. Mas ele tinha praticado. Sabia como controlar.
Abriu os olhos.
O mundo mudou.
As paredes dos prédios ao redor ficaram translúcidas. Ele conseguia ver através delas. Ver as estruturas internas. Os canos. A fiação. E, em alguns casos, pessoas.
Combinou a visão telescópica e a visão de raio-x e começou a varrer a área. Galpão por galpão. Armazém por armazém.
A maioria estava vazia. Alguns tinham moradores de rua dormindo em cantos escuros. Um tinha um casal fazendo algo que Andrew rapidamente desviou o olhar.
E então viu.
Um galpão no final da rua. Maior que os outros. Completamente fechado. Sem janelas visíveis.
Mas lá dentro...
Andrew contou.
Seis figuras. Homens, pelo tamanho. Armados — ele podia ver as silhuetas das armas presas aos cintos ou seguradas nas mãos.
E no centro do espaço, amarrado a uma cadeira.
Uma sétima figura. Menor. Mais magro.
Paulo.
O coração de Andrew acelerou.
Encontrou.
Ele memorizou a localização, desativou a visão — sentindo aquela tontura leve que sempre vinha depois — e desceu do prédio.
Não pelos elevadores quebrados ou escadas.
Pulou.
Seis andares. Vinte metros de queda livre.
Aterrissou no chão de concreto com um impacto surdo que rachinou o solo sob seus pés.
Não doeu. Nunca doía.
E então correu.
Andrew parou a cinquenta metros do galpão, escondido atrás de uma pilha de containers enferrujados.
O prédio era exatamente como tinha visto pela visão de raio-X. Grande. Retangular. Paredes de metal corrugado. Uma única porta visível na frente. Nenhuma janela.
Dois homens do lado de fora fazendo guarda. Fumando. Entediados.
Andrew analisou a situação.
Seis dentro. Dois fora. Oito no total.
Ele não queria machucar ninguém permanentemente. Não era assim que tinha sido criado. Luíza sempre reforçou: seus poderes eram para proteger, não para destruir.
Mas se precisasse... se não tivesse escolha...
Ele afastou o pensamento.
Foco. Entra. Salva o Paulo. Sai.
Simples.
Ele esperou até os dois guardas virarem de costas, distraídos pela conversa. Então se moveu.
Não correu. Deslizou pelas sombras, silencioso como fantasma. Cobriu os cinquenta metros em segundos, pressionando-se contra a parede de metal ao lado da porta.
Os guardas nem perceberam.
Andrew espiou pela fresta entre a porta e a parede. Conseguia ver um pedaço do interior. A luz fraca de uma lâmpada industrial. Caixas empilhadas. E, mais ao fundo, Paulo.
Ainda amarrado. Cabeça baixa. Mas vivo.
Graças a Deus.
Agora precisava entrar sem ser visto.
Ele olhou para cima. O teto do galpão ficava a uns oito metros de altura. Havia uma claraboia — suja, rachada, mas aberta.
Perfeito.
Andrew se afastou da porta, ganhou impulso, e pulou.
Oito metros verticais. Seus dedos agarraram a borda da claraboia, puxando o corpo para cima com facilidade. Ele subiu para o teto de metal, silencioso.
Olhou pela claraboia.
Conseguia ver tudo agora. O layout completo. Paulo no centro, amarrado. Três homens próximos a ele, conversando. Outros três espalhados pelo galpão, verificando caixas ou simplesmente matando tempo.
E perto da parede do fundo, um homem diferente.
Mais alto. Mais musculoso. Vestindo balaclava preta.
Xavante.
Mesmo sem nunca ter visto o rosto, Andrew soube. Havia algo na postura dele. Confiança. Autoridade.
Esse era o líder.
Andrew respirou fundo, ajeitou-se, e desceu pela claraboia.
Ele aterrissou em cima de uma pilha de caixas de madeira, agachado, silencioso. Os homens não notaram. Estavam ocupados demais com suas conversas, seus cigarros, seu tédio.
Andrew se moveu pelas sombras. Cada passo calculado. Cada movimento preciso.
O primeiro guarda estava sozinho, verificando algo num laptop velho. Costas viradas.
Andrew se aproximou por trás, cobriu a boca do homem com uma mão e aplicou pressão nos pontos certos do pescoço com a outra.
O guarda se debateu por dois segundos. Depois desabou, inconsciente.
Andrew o deitou no chão, suavemente. Vivo. Só dormindo.
Um.
O segundo estava mais complicado. Perto de outros dois, conversando sobre futebol.
Andrew pegou um pedaço de metal do chão — uma barra fina, leve. Mirou. E arremessou.
A barra voou pelo ar e bateu numa pilha de latas no canto oposto do galpão.
O barulho ecoou alto.
Os três homens viraram na mesma hora, armas em punho.
— O que foi isso?
— Vai ver, idiota.
Dois foram investigar. O terceiro ficou, mas distraído, olhando na direção dos outros.
Andrew se moveu.
Cobriu a distância de dez metros em menos de um segundo. Agarrou o terceiro homem pela nuca e o jogou contra a parede. Não com força total — só o suficiente para nocauteá-lo.
O corpo desabou com um baque surdo.
Dois.
Os outros dois que tinham ido investigar o barulho viraram ao ouvir.
— EI!
Um deles levantou a arma.
Andrew não deu chance. Saltou — um salto impossível, cinco metros de distância — e aterrissou entre os dois.
Girou, chutando a arma da mão do primeiro. Depois socou o estômago do segundo, tirando o ar dos pulmões dele.
Os dois caíram, gemendo.
Três. Quatro.
Mas o barulho tinha chamado atenção.
— INTRUSO! — Alguém gritou.
Os dois últimos guardas e Xavante viraram ao mesmo tempo.
E viram Andrew.
Parado ali. No meio do galpão. Respiração calma. Olhos fixos neles.
Xavante inclinou a cabeça, curioso.
— Quem é você?
Andrew não respondeu.
Os dois guardas levantaram as armas.
— NÃO SE MEXA!
Andrew olhou para Paulo. O amigo tinha erguido a cabeça, os olhos arregalados, incrédulos.
"Andrew?" — ele murmurou.
— Tudo bem — Andrew disse, mantendo a voz calma. — Eu vim te buscar.
— FALEI PRA NÃO SE MEXER! — Um dos guardas gritou.
Andrew deu um passo à frente.
Eles atiraram.
Duas balas cortando o ar, direto para o peito dele.
Paulo gritou.
Mas Andrew já tinha se movido.
Tão rápido que as balas pareceram estar em câmera lenta. Ele desviou da primeira, inclinando o corpo. Desviou da segunda, girando.
E então avançou.
Cobriu os dez metros até o primeiro guarda antes que ele pudesse apertar o gatilho de novo. Arrancou a arma da mão dele, amassou o metal como se fosse papel alumínio, e jogou longe.
Depois acertou um soco no queixo do guarda. Limpo. Preciso.
O homem apagou antes de bater no chão.
Cinco.
O sexto guarda recuou, aterrorizando, tentando recarregar.
Andrew não deu tempo. Chutou a arma para longe e empurrou o homem contra a parede. Segurou ele pelos ombros, olhos nos olhos.
— Dorme.
Socou uma vez. O guarda desabou.
Seis.
Silêncio.
Andrew se virou.
Xavante estava parado exatamente onde estava antes. Não tinha se movido. Não tinha tentado fugir ou atacar.
Apenas observado.
— Impressionante — ele disse, a voz calma. — Você é o que eu achei que fosse.
Andrew caminhou na direção dele, devagar.
— Solta ele.
— E se eu não soltar?
— Eu solto de qualquer jeito. Mas aí você vai estar no chão junto com os seus amigos.
Xavante riu. Um som baixo, quase divertido.
— Você tem coragem. Vou dar isso. Mas coragem sem inteligência é só burrice.
Ele puxou algo da cintura. Não uma arma. Uma faca. Longa. Serrilhada.
— Vamos ver se você é tão rápido quanto parece.
E atacou.
A lâmina cortou o ar, mirando o pescoço de Andrew.
Ele desviou. Apenas. Sentiu o vento da lâmina passando a milímetros da pele.
Xavante girou, atacando de novo. Dessa vez visando o estômago.
Andrew recuou, bloqueou com o antebraço. A lâmina raspou contra a pele dele e...
Não cortou.
Xavante arregalou os olhos por trás da balaclava.
— Que diabos...
Andrew avançou. Socou o pulso de Xavante, fazendo ele soltar a faca. Depois agarrou o homem pela jaqueta e o jogou contra uma pilha de caixas.
O impacto foi brutal. As caixas explodiram em fragmentos de madeira.
Xavante gemeu, tentando se levantar.
Andrew caminhou até ele, pegou ele pelo colarinho, puxou para cima com uma mão só.
— Você vai deixar meu amigo em paz. Você vai deixar a família dele em paz. E você nunca mais vai voltar aqui. Entendeu?
Xavante cuspiu sangue. Mas sorriu.
— Você não sabe no que tá se metendo, garoto.
— Não me importo.
Ele jogou Xavante de lado. O homem rolou pelo chão, gemendo.
Andrew não esperou para ver se ele ia se levantar. Correu até Paulo.
A corda que prendia os pulsos do amigo era grossa, industrial. Teria levado minutos para desatar.
Andrew simplesmente puxou.
A corda se partiu como barbante.
Paulo caiu para frente. Andrew o segurou antes que batesse no chão.
— Eu... — Paulo ofegou, os olhos ainda arregalados. — Como você...
— Depois. — Andrew o puxou para cima. — A gente precisa sair. Agora.
Ele ouviu sirenes ao longe. Alguém tinha chamado a polícia.
— Segura em mim — Andrew ordenou.
— O quê?
— SEGURA!
Paulo agarrou os ombros dele, ainda confuso.
E Andrew correu.
Não velocidade máxima. Mas rápido o suficiente.
Atravessou o galpão em dois segundos. Chutou a porta, arrancando ela das dobradiças. Saiu para a noite.
Os dois guardas do lado de fora viraram, chocados.
Andrew não parou. Passou por eles como um borrão, correndo pela rua, deixando o galpão para trás.
Paulo gritou, segurando mais forte, sentindo o vento batendo no rosto.
Três quadras. Cinco. Dez.
Andrew parou atrás de um prédio abandonado, longe o suficiente para estar seguro.
Soltou Paulo, que desabou no chão, tremendo.
— Que... que diabos... — Ele olhou para Andrew, para as próprias mãos, para o mundo. — O que você é?
Andrew se ajoelhou ao lado dele.
— Eu sou seu amigo. — Ele colocou a mão no ombro de Paulo. — E eu sempre vou te proteger. Não importa o que aconteça.
Paulo apenas olhou para ele. Processando. Tentando entender todos esses poderes que tinha visto.
Mas ele já sabia.
Andrew não era normal.
Nunca foi.
E Paulo tinha visto mais uma vez com os próprios olhos.
O impossível.
Tornado real.
FIM DO EPISÓDIO 7
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