LINHA TÊNUE
T2/E14
T2/E14
Subsolo 2, Bloco H — 4h42 da manhã
Os vinte guardas avançaram em formação perfeita.
Não havia hesitação. Não havia medo. Apenas obediência absoluta ao comando de Spectro, que observava de algum lugar nas sombras, aqueles olhos vermelhos impossíveis brilhando com satisfação.
Andrew deu um passo à frente, colocando-se entre Samuel e os soldados que se aproximavam. Músculos tensos. Respiração controlada. Olhos verdes começando a brilhar levemente.
— Fica atrás de mim — ele disse, voz baixa mas firme.
Samuel limpou sangue do canto da boca — resultado da batalha com Cerberus — e respondeu sem tirar os olhos dos inimigos:
— Não hoje.
O primeiro soldado atacou.
Velocidade sobre-humana. Soco vindo em trajetória perfeita, calculada para incapacitar.
Andrew se moveu antes mesmo do impacto. Puro instinto treinado em meses de combates. Bloqueou com o antebraço — o choque enviou ondas de dor pelo braço inteiro — e contra-atacou imediatamente.
Soco direto no centro do peito. Força total. Sem contenção.
O homem literalmente voou. Atravessou três metros no ar e se chocou contra a parede de aço com som seco e horrível de ossos quebrando. Desabou no chão e não se levantou.
Mas outro já vinha pela lateral.
Andrew girou, leu o movimento meio segundo antes de acontecer, agarrou o braço que tentava acertá-lo e torceu com força brutal. Estalo alto de articulação se partindo. O soldado gritou — primeiro som humano que qualquer um deles emitia — e Andrew arremessou o corpo contra os demais que avançavam.
Três caíram. Levantaram imediatamente como se não tivessem sentido nada. Kraken-S suprimindo dor. Suprimindo razão. Transformando homens em máquinas de guerra descartáveis.
Samuel fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, não eram mais completamente humanos. Brilhavam em azul intenso e puro. As veias do pescoço e dos braços acenderam como circuitos elétricos orgânicos, pulsando com energia viva.
Ele estendeu as mãos.
A descarga explodiu.
Não foi elegante. Não foi controlada. Foi eletricidade pura e brutal, saindo dele como tempestade contida finalmente liberada. Raios azuis atravessaram o ar, conectando-se aos guardas mais próximos como dedos luminosos de um deus furioso.
Os soldados ao redor foram eletrocutados simultaneamente. Corpos ficaram rígidos, músculos contraindo de forma violenta e descontrolada. Convulsões. Cheiro forte de ozônio misturado com algo pior — carne queimada. Dois caíram inconscientes imediatamente. Um terceiro bateu a cabeça no chão de concreto com força e não se levantou mais.
Mas então Samuel gritou.
Não de raiva. Não de esforço. De dor pura.
A energia saiu errada. Forte demais. Descontrolada. Como se algo dentro dele tivesse se rompido e agora não conseguisse mais conter o fluxo.
Ele caiu de joelhos, mãos apertando a cabeça. Sangue começou a escorrer do nariz. Dos ouvidos. As veias que brilhavam azul agora pulsavam irregularmente, como luzes piscando antes de queimar.
Andrew sentiu o impacto interno — uma conexão que não entendia completamente mas que estava lá, vínculo entre meta-humanos que compartilhavam origem similar.
— Samuel!
Mais soldados avançaram, ignorando os camaradas caídos. Kraken-S os tornava incapazes de processar medo ou autopreservação. Apenas missão. Apenas objetivo. Capturar ou eliminar.
QG em Perdizes — 4h12 da manhã
Camila não estava olhando mapas.
Não estava ouvindo Isadora falar sobre rotas de fuga, pontos de bloqueio ou alternativas táticas.
Ela estava olhando números.
Tela do tablet mostrando dados biométricos transmitidos pelos comunicadores — frequência cardíaca, temperatura corporal, padrões respiratórios. Informações que continuavam chegando mesmo com a comunicação de voz falhando.
Samuel: frequência cardíaca 187 bpm. Muito acima do limite seguro mesmo considerando combate.
Micro-arritmias. Pequenas falhas no ritmo que não deveriam estar lá.
Descargas elétricas irregulares sendo detectadas pelos sensores. Picos de energia que não faziam sentido biológico.
Ela cruzou dados rapidamente com o que tinha estudado nos arquivos hackeados do GENOS. Os implantes ainda estavam parcialmente ativos na base do crânio de Samuel. Havia sobrecarga contínua do sistema nervoso dele. O histórico documentado mostrava falha catastrófica em Sujeitos com poderes elétricos — taxa de mortalidade de 89% quando forçavam o limite máximo.
A conclusão veio fria, clínica, inevitável como diagnóstico terminal:
Se ele usar o poder no limite absoluto... o coração para. Ou o cérebro queima. Ou ambos ao mesmo tempo.
A comunicação começou a falhar mais seriamente.
Chiado forte. Interferência pesada. Depois silêncio quase total — apenas dados biométricos ainda transmitindo fracamente.
Camila fechou o tablet com decisão súbita e definitiva.
Pegou a mochila médica — a grande, preparada para emergências de campo. Dez quilos de equipamento que ela tinha montado obsessivamente nas últimas semanas.
Isadora percebeu o movimento e olhou imediatamente.
— Camila... o que você tá fazendo?
Camila ajeitou as alças da mochila nos ombros e respondeu sem drama, voz totalmente controlada:
— Indo onde eu preciso estar.
— Você não pode! O plano era ficar aqui! Coordenação remota! Você não tem como...
— Samuel vai morrer se alguém não fizer alguma coisa. — Camila olhou diretamente nos olhos de Isadora. — E eu sou a única aqui que sabe o que fazer quando isso acontecer.
— Camila...
— Cuida das comunicações. Monitora o que conseguir. — Ela já estava na porta. — Se eu não voltar, você sabe o que fazer.
Saiu antes que Isadora pudesse impedir fisicamente. Antes que ela mesma pudesse mudar de ideia.
Campus da USP — 4h32 da manhã
Camila não tentou entrar pelo Bloco H diretamente.
Usou acessos laterais que tinha mapeado durante semanas de observação. Corredores de serviço que funcionários de manutenção usavam. Passagens entre prédios que estudantes raramente notavam.
O caos interno ajudava muito. Alarmes disparados criavam confusão por todo lado. Protocolos de segurança tinham sido quebrados pela invasão. A maior parte das forças estava concentrada nos subsolos, lidando com Andrew e Samuel.
Ela moveu-se rápido mas não correu — movimento brusco chamava atenção. Manteve postura de alguém que tinha permissão para estar ali. Jaleco branco que tinha "emprestado" do laboratório meses atrás ajudava a vender a mentira.
Chegou a uma entrada lateral do Bloco H. Porta de serviço. Duas câmeras — ambas viradas na direção oposta naquele momento específico. Tinha memorizados os padrões de rotação.
Cinco segundos de janela.
Entrou.
Corredor de serviço. Iluminação fraca. Canos expostos no teto. Cheiro de produto de limpeza industrial.
Não viu Andrew. Não viu Samuel. Mas cada nervo do corpo dela gritava que tinha chegado a tempo. Ainda havia tempo.
Subsolo 1 — 4h42 da manhã
Camila encontrou Paulo e Joseph presos atrás de portas de contenção de segurança máxima.
Paulo estava visivelmente em pânico controlado. Andando de um lado pro outro da cela como animal enjaulado, olhos arregalados demais, respiração rápida e irregular.
Joseph estava em silêncio absoluto, sentado no chão com a cabeça entre as mãos. Derrotado. Como se dezoito anos de prisão tivessem voltado todos de uma vez.
Camila analisou o painel da porta.
Não tentou hackear — programação não era a área dela. Deixaria isso pro Paulo quando ele saísse.
Mas ela observou a porta em si. A estrutura física. O sistema hidráulico de trava que mantinha tudo no lugar.
Localizou o ponto de liberação manual de emergência. Escondido, mas estava lá — requisito de segurança contra incêndio, impossível de remover completamente sem violar códigos de construção.
— Afasta — ela disse, voz firme.
Paulo e Joseph recuaram para o canto oposto da cela.
Camila forçou a alavanca de emergência com todo o peso do corpo. Aço resistente. Não cedeu fácil. Ela usou a mochila como alavanca extra, empurrando com as pernas, usando física básica a seu favor.
A porta rangeu. Protestou. Depois cedeu com clique alto e satisfatório.
Joseph olhou pra ela como se estivesse vendo um milagre materializado.
— Você não devia estar aqui.
— Eu sei. — Camila abriu a segunda porta — a de Paulo — usando o mesmo método. — Mas Samuel vai entrar em parada cardíaca se alguém não remover os implantes. E Andrew tá machucado mais do que pensa. Então aqui é exatamente onde eu preciso estar.
Ela não explicou mais. Não havia tempo.
Paulo saiu da cela ainda tremendo.
— Camila, que que... como você...
— Depois. — Ela já estava se movendo. — Onde estão Andrew e Samuel?
— Subsolo 2. Mas tá bloqueado. Spectro os encurralou lá.
Joseph se levantou com dificuldade. As mãos tremendo mais que o normal.
— Podemos usar o fechamento de emergência. É manual. Não depende de sistema eletrônico.
Camila já estava correndo na direção indicada.
Subsolo 2 — 4h45 da manhã
Andrew e Samuel recuavam sob pressão extrema e constante.
Guardas Kraken-S convergiam de todas as direções. Spectro coordenava à distância, voz ecoando pelas paredes:
— Não há saída. Parem de lutar. Isso só prolonga o inevitável.
Não era fuga limpa. Não era vitória tática. Era sobrevivência pura — cada segundo ganho custando sangue e dor.
Andrew lutava no limite absoluto. Costelas doíam cada vez que respirava — algo tinha rachado, talvez quebrado completamente. Pulmão queimava como se estivesse em chamas. Algo dentro dele tinha rasgado — não sangrava por fora, mas estava lá, hemorragia interna lenta mas constante.
Ele era invulnerável. Mas isso tinha limites. E estava descobrindo esses limites da pior forma possível.
Cada golpe doía mais que o anterior. Cada movimento exigia mais esforço. Fadiga acumulando. Corpo finalmente cobrando o preço de meses de combate sem descanso adequado.
Samuel estava pior. Muito pior.
Caído de joelhos. Tentando levantar e falhando. As descargas elétricas saindo descontroladas agora — faíscas aleatórias acertando paredes, chão, teto. Ele não conseguia mais direcionar. Apenas liberar energia de forma caótica e perigosa.
Andrew ficou na frente dele. Postura defensiva. Última linha.
— Não encosta nele — ele rosnou pros guardas.
Mas então o plano mudou.
A voz de Joseph veio pelo comunicador — sinal fraco mas audível:
— Andrew! Grande porta de contenção! Corredor lateral! Fechamento manual!
Andrew olhou em volta freneticamente. Viu. Porta massiva de aço reforçado usada para isolamento total em caso de contaminação química ou biológica.
Paulo e Joseph já estavam lá, do outro lado, junto com Camila. Ativando o sistema manual — rodas metálicas gigantes que precisavam ser giradas, alavancas pesadas que exigiam força absurda.
A porta começou a descer. Lenta. Muito lenta.
Andrew pegou Samuel — estava inconsciente agora, corpo completamente inerte — e correu. Músculos gritando. Pulmões ardendo. Cada passo uma agonia.
Deslizou sob a porta no último segundo. Metal raspando nas costas, arrancando pele mesmo através da roupa.
Spectro percebeu tarde demais o que estava acontecendo.
— NÃO!
Mas Andrew já estava do outro lado. Segurou a barra de travamento. Usou o que restava das forças já falhando dele.
Virou-se por último momento e olhou diretamente para Spectro, olhos brilhando verde intenso apesar da exaustão.
Disparou rajada concentrada de energia direto nos componentes eletrônicos da porta. Precisão cirúrgica apesar do cansaço. Circuitos explodiram. Faíscas. Fumaça. Metal derretendo. Travas se fundindo em posição fechada.
A porta terminou de descer com estrondo final.
Do outro lado ficaram Spectro, as tropas, todo o caos e frustração de um plano que tinha falhado. Do lado de cá, só havia silêncio súbito e segundos preciosos de vantagem. Chance real de fuga pela primeira vez desde que entraram naquele inferno.
Samuel então fez algo que nunca tinha feito antes, nem quando escapou originalmente do GENOS.
Inconsciente, o corpo reagindo puramente por instinto de sobrevivência, ele liberou o PEM no máximo absoluto.
Não direcionado. Não controlado. Não elegante.
Bruto e devastador.
O pulso eletromagnético explodiu dele como bomba invisível. Ondas de energia pura se expandindo em todas as direções simultaneamente.
Câmeras explodiram. Lentes rachando, circuitos fritando.
Drones de vigilância caíram do ar como pássaros mortos.
Sensores morreram instantaneamente. Telas ficaram pretas.
Num raio de quinhentos metros, o Bloco H ficou completamente cego. Todo o sistema de monitoramento destruído em segundos.
Spectro gritou do outro lado da porta — não de dor física, mas de raiva pura e incontrolável.
Isso não estava no plano dele. Nada disso estava.
Colapso Total — 4h51 da manhã
Samuel entrou em convulsões violentas.
Corpo inteiro se debatendo. Espuma saindo da boca misturada com sangue. Olhos revirados mostrando só o branco. As veias que antes brilhavam azul agora estavam negras, como se tivessem queimado por dentro.
Andrew mal conseguia ficar consciente. Visão embaçada. Mundo girando. Gosto de sangue na boca. Tentou dar um passo e as pernas simplesmente falharam. Caiu de joelhos.
Camila já estava correndo até eles antes de qualquer um pedir.
Largou a mochila. Ajoelhou ao lado de Samuel. Mãos se movendo rápido — checando pulso no pescoço, na virilha, procurando qualquer sinal de circulação funcional.
— Pulso fraco. Muito fraco. — Ela virou a cabeça dele pro lado quando ele vomitou sangue. — Implantes entrando em falha catastrófica. O corpo tá sendo fritado por dentro.
Ela olhou pra Andrew, avaliando clinicamente mesmo na urgência.
— E você não tá tão invulnerável quanto pensa. Hemorragia interna. Possivelmente baço rompido ou fígado lacerado. Talvez ambos. Você precisa de hospital. Agora.
Joseph se aproximou, voz tensa:
— Não podemos ir pra hospital normal. Vão fazer perguntas. Polícia. Autoridades. Metade delas trabalha pro GENOS.
Camila já sabia. Tinha pensado nisso no caminho.
— Bloco de Medicina da USP. Desativado parcialmente pra reforma. Tem equipamento cirúrgico. Não é hospital completo mas é o suficiente.
Ela olhou pros três homens — Joseph, Paulo, Andrew.
— Precisamos sair. Agora. Antes que Spectro encontre outra forma de nos alcançar.
Do outro lado da porta de contenção, algo se moveu. Não com pressa, mas com raiva fria e calculada.
Spectro não tinha desistido. Apenas estava reorganizando.
Retirada — 4h52 da manhã
Saíram pelos túneis de serviço.
Andrew carregando Samuel — inconsciente, sangrando pelos ouvidos. Joseph e Paulo abrindo caminho, checando cada esquina antes de avançar.
Camila na retaguarda com a mochila médica, monitorando sinais vitais de ambos enquanto andavam.
O campus estava começando a acordar. Primeiros raios de sol no horizonte. Funcionários de manutenção chegando para turno matinal.
Eles se misturaram. Pareciam grupo de estudantes de Medicina voltando de madrugada de estudos. Cansados, sim. Machucados, sim. Mas nada que chamasse atenção demais num campus universitário enorme.
Chegaram ao Bloco de Medicina — ala em reforma no terceiro andar. Isolada. Vazia.
Joseph e Paulo conseguiram acesso usando técnicas que Samuel tinha ensinado antes da invasão. Fechaduras mecânicas eram mais fáceis que eletrônicas às vezes.
Dentro: equipamento cirúrgico coberto por lonas plásticas. Instrumentos ainda esterilizados em embalagens lacradas. Anestésicos em armário trancado — Paulo abriu em trinta segundos.
Não era sala de emergência completa. Mas tinha o essencial.
Camila olhou ao redor, mente já trabalhando. Tinha mesa cirúrgica funcional. Iluminação adequada. Instrumentos básicos disponíveis. Sutura, anestésicos, antissépticos.
Dava pra trabalhar.
A Cirurgia — 5h10 da manhã
Samuel entrou em parada cardíaca parcial enquanto Camila preparava.
Monitor improvisado mostrou ritmo irregular, depois ausente, depois voltando fraco.
— Merda! — Ela se moveu rápido. Adrenalina direto no coração. Massagem cardíaca. — Vamos, vamos, volta!
O coração respondeu. Batida fraca mas presente.
Camila tremia. Respirou fundo três vezes. Forçou controle.
Lembrou tudo. As aulas de anatomia onde decorou cada nervo, cada vaso. As provas que passou noites estudando. As simulações em cadáveres. Tudo que tinha aprendido quando ninguém acreditava que ela conseguiria.
Não era teoria mais. Era vida real. Era Samuel morrendo na frente dela se errasse.
Ela pegou o bisturi.
Joseph ajudava como podia — passando instrumentos, mantendo campo limpo, monitorando sinais vitais básicos.
Paulo não conseguia olhar. Ficou virado pra parede, tentando não vomitar.
Camila abriu a base do crânio de Samuel. Corte preciso. Mãos firmes apesar do medo.
Os implantes estavam lá. Metal integrado com tecido nervoso. Brilhando levemente mesmo desligados — energia residual ainda presente.
Ela começou a remover.
Não foi rápido. Não foi fácil. Cada movimento milimétrico. Cada corte calculado pra não danificar nervos essenciais.
Suor escorrendo pela testa. Joseph limpava quando atrapalhava a visão dela.
Primeiro implante saiu. Metal saindo de carne com resistência. Sangue. Camila controlou hemorragia antes de continuar.
Segundo implante. Mais profundo. Mais perigoso. Conectado diretamente ao tronco cerebral.
— Respira devagar — ela sussurrou pra si mesma. — Você sabe fazer isso. Você treinou pra isso.
Removeu.
Camila fechou as incisões. Pontos precisos. Sutura que aprendeu praticando mil vezes em pele de porco no laboratório.
O corpo de Samuel reagiu imediatamente.
Regeneração disparou de verdade pela primeira vez em anos. Sem implantes bloqueando. Sem controle externo suprimindo.
Feridas começaram a fechar sozinhas. Não rápido como em filme, mas perceptível. Tecido se reconstruindo. Queimaduras sumindo. Músculos se reparando.
Até as cicatrizes antigas — as que ele tinha feito quando arrancou os implantes sozinho com faca de cozinha — começaram a desaparecer como se nunca tivessem existido.
Paulo finalmente olhou. Arregalou os olhos.
— Que porra...
— Regeneração verdadeira — Joseph explicou, igualmente impressionado. — Os implantes estavam suprimindo parcialmente. Agora o corpo dele tá funcionando como deveria desde o início.
Samuel respirou fundo — primeiro respiração normal em minutos.
Ela quase desabou de alívio. Mas não podia ainda.
Andrew estava na outra mesa. Consciente mas pálido. Muito pálido.
Camila foi até ele. Examinou.
— Costela quebrada. Perfuração pulmonar. Hemorragia interna moderada. — Ela olhou nos olhos dele. — Você também regenera. Percebi isso. Mais devagar que o Samuel, mas regenera.
Andrew piscou surpreso.
— Eu... regenero?
— Não é rápida. É teimosa. — Camila começou a trabalhar. — Como se o corpo se recusasse a desistir. Ganhei tempo. Estabilizei. Mas você precisa de duas semanas de repouso real. Zero combate. Zero esforço. Ou você morre de hemorragia interna atrasada.
Ela trabalhou por mais vinte minutos. Estabilizando. Drenando fluidos. Controlando sangramentos internos que não podiam esperar a regeneração lenta resolver.
Finalmente terminou.
Camila sentou no chão do centro cirúrgico improvisado. Literalmente desabou. Costas contra a parede. Mãos tremendo agora que a adrenalina estava passando.
Paulo se sentou ao lado dela. Segurou a mão tremula.
— Você salvou os dois. Sozinha.
Camila olhou para as suas mãos cobertas de sangue seco.
— Nem sei como.
— Eu sei como. — Joseph se aproximou. Olhou pra ela com respeito profundo. — Você estudou. Treinou. Preparou. E quando o momento veio, não hesitou. Isso é o que diferencia médicos bons de médicos excepcionais.
Ela não respondeu. Apenas encostou a cabeça no ombro de Paulo e fechou os olhos.
Sem ela, Samuel teria morrido. Andrew também, eventualmente.
E todos no grupo sabiam disso agora.
Bloco de Medicina — Ala em reforma — 7h30 da manhã
Amanheceu completamente.
Sol entrando pelas janelas do centro cirúrgico improvisado. Luz dourada iluminando o caos. Instrumentos cirúrgicos usados espalhados pelas bancadas. Gazes ensanguentadas em pilhas. O cheiro de antisséptico misturado com suor e medo ainda impregnado no ar.
Eles tinham escapado.
Não por sorte. Não porque Spectro deixou. Por mérito próprio.
Lutaram melhor. Pensaram melhor. Confiaram uns nos outros quando importava.
Spectro tinha perdido controle da situação. Não por escolha dele. Por falha real.
A armadilha tinha funcionado. Mas a presa tinha escapado mesmo assim.
Camila finalmente permitiu-se relaxar de verdade. Fechou os olhos. Respirou fundo pela primeira vez em horas sem sentir pânico puro no peito.
Paulo não largava a mão dela. Como se soltasse, ela fosse desaparecer.
Na mesa, Samuel dormia — primeiro sono real em meses. Sem implantes. Sem controle. Sem dor. Apenas descanso e cura.
Andrew também dormia, respiração regulada por analgésicos que Camila tinha administrado. Corpo já começando o processo lento de regeneração.
Joseph estava sentado perto da janela, olhando o campus acordar lá embaixo. Vida normal retomando sem ideia do que tinha acontecido durante a noite.
Ele pensou em Luíza. Em Cosmópolis. Em como explicaria tudo isso quando finalmente pudesse voltar pra ela.
Mas por agora, ele estava vivo. Livre. Com o filho salvo.
Era suficiente.
Isadora chegou meia hora depois, tendo corrido do QG assim que comunicações voltaram parcialmente.
Entrou no centro cirúrgico e parou.
Viu sangue. Instrumentos usados. Camila coberta de sangue seco. Samuel e Andrew nas mesas, respirando mas claramente machucados.
— Vocês conseguiram — ela disse, voz saindo em sussurro descrente. — Vocês realmente conseguiram.
Andrew abriu os olhos com dificuldade.
— Não trouxemos ninguém. Kira ainda tá lá. Micheli. Os outros.
Isadora sentou na beira da mesa dele. Pegou a mão.
— Mas vocês sobreviveram. Contra Spectro. Contra exército. Vocês escaparam com vida.
Ela olhou pra Camila especificamente.
— E você salvou os dois. — Não foi pergunta. Foi reconhecimento. — Sem você, a gente teria perdido eles.
Camila não conseguiu responder. Apenas assentiu.
Paulo a puxou pra um abraço. Ela encostou o rosto no peito dele e finalmente deixou as lágrimas virem. Tensão de horas liberada de uma vez.
Eles tinham vencido uma batalha.
Não a guerra. Ainda havia prisioneiros no Bloco H. Ainda havia Spectro solto. Ainda havia GENOS operando.
Mas tinham vencido hoje.
E às vezes, contra inimigos impossíveis, uma vitória pequena era tudo que precisavam pra continuar.
Pra acreditar que podiam vencer de verdade no final.
Isadora já estava pensando em como reorganizar tudo aquilo. A improvisação tinha acabado.
Lá fora, São Paulo acordava completamente. Carros enchendo as ruas. Pessoas indo trabalhar. Estudantes chegando pro campus.
Ninguém sabia. Ninguém nunca saberia realmente.
Mas seis pessoas num centro cirúrgico improvisado sabiam a verdade:
Eles tinham lutado. Tinham sangrado. Tinham quase morrido.
E tinham resistido.
Juntos.
Como sempre.
FIM DO CAPÍTULO 14
PRÓXIMO CAPÍTULO: ALIADOS IMPROVÁVEIS